domingo, julho 29, 2007

Convite


As Vozes da Poesia

Reunir poesia e música tem sido sempre um desafio para os compositores, seja no âmbito erudito ou no popular: encontrar melodias, ritmos e harmonias que sublinhem e acrescentem os vários e possíveis sentidos de um poema, pesquisar a sonoridade de cada palavra, de cada sílaba, a prosódia do texto, as quebras, as surpresas, as mudanças de cor e de textura, as diferentes cargas emocionais, a intensidade, o timbre, procurando sempre se esquivar ao óbvio e ao esperado. A própria poesia já é, em si mesma, música, destacando-se das outras formas e gêneros literários justamente por seu movimento musicalmente organizado (ou música poeticamente organizada).
Foi depois de musicar seis sonetos de Cruz e Sousa em 2004 (primeiramente para soprano e piano, depois para coro e piano) que surgiu a idéia de um trabalho mais amplo, que pudesse oferecer um pequeno panorama da poesia catarinense. Selecionei, portanto, vinte poemas, musicando-os todos para a formação de coro e piano. Dentre os autores escolhidos (quinze, ao todo), alguns nasceram em Santa Catarina, outros tornaram-se catarinenses; em comum, o fato de terem sido marcados e de deixarem sua marca neste estado admirável (aliás, Santa Catarina ocupa uma posição bastante especial na Literatura brasileira: congregando diversas etnias, mesclam-se nela as mais variadas influências culturais, o que resulta numa riqueza artística única).

Obviamente, a seleção de apenas vinte poemas tornou impossível fazer justiça à quantidade enorme de escritores e escritoras absolutamente admiráveis que aqui escrevem e escreveram. Tal seleção não pretende, portanto (nem poderia), considerar as poesias escolhidas como as “melhores” nem as “mais belas” ou mesmo as mais “representativas”. Se escolhi esses poemas, foi pelo simples fato de terem me despertado alguma associação musical específica, seja uma possibilidade acústica advinda da sonoridade intrínseca das palavras, seja sua plasticidade ou textura, ou mesmo seu universo imagístico. Não menos importante para as composições musicais foi também o contato pessoal com os poetas: apesar das obras criarem vida independentemente de seus autores, sua presença física e espiritual transparece e vem à tona. Para mim foi um grande aprendizado a convivência com esses grandes literatos; preciosos momentos que, de forma consciente ou inconsciente, certamente se refletiram em minhas composições.

Quanto à inclusão no CD dos poemas recitados, o objetivo não foi, como se poderia talvez supor, de tornar a compreensão dos textos mais “fácil” ou mais “clara”; trata-se, antes, de explorar o universo sonoro da palavra falada: a musicalidade do idioma, a particularidade dos diferentes sotaques e das diferentes dicções, a temporalidade própria de cada leitura. Importante observar que, mesmo nos casos em que a leitura foi feita pelo próprio poeta, esta não apontou para um sentido absoluto nem para uma verdade, mas retratou tão somente um momento.

Programa


MONJA | Cruz e Sousa
Recitado por Lauro Junkes
O ASSINALADO | Cruz e Sousa
Recitado por Carmen Fossari
ENCARNAÇÃO | Cruz e Sousa
Recitado por Carmen Fossari
SURDINAS | Cruz e Sousa
Recitado por Lauro Junkes
GRANDE AMOR | Cruz e Sousa
Recitado por Alberto A. Heller
ACROBATA DA DOR | Cruz e Sousa
Recitado por J. B. Costa
CINZA DE FÊNIX: O POEMA | Alcides Buss
Recitado pelo poeta
Solos: Daniel Cardoso Jr., Masami Ganev, Ronaldo Steiner, Alicia Cupani
SEPHIROT | Leonor Scliar-Cabral
Recitado pela poetisa
Poema VII | Osmar Pisani
Recitado por Lenia Pisani
O GATO | Artemio Zanon
Recitado pelo poeta
Solo: Thiago de Lemos

INTERVALO
DÚVIDA MÍSTICA | Carlos Damião
Recitado pelo poeta
DOS MEANDROS DO RIO PARAÍBA| Alckmar Luiz dos Santos
Recitado pelo poeta
O ESCORPIÃO SONOLENTO | Péricles Prade
Recitado pelo poeta
POEMA DO APOCALIPSE | Aníbal Nunes Pires
Recitado por Zeca Pires
OS ASSASSINOS DO REI | Rodrigo de Haro
Recitado pelo poeta
O LAVRADOR DE CONCHAS | Patrícia Hoffmann
Recitado pela poetisa
NINFOGRAFIA | Dennis Radünz
Recitado pelo poeta
SOLIDÃO | Júlio de Queiroz
Recitado pelo poeta
Solos: Alicia Cupani, Cláudia Ondrusek, Masami Ganev
DO SONHO I | Lindolf Bell
Recitado por Rafaela Hering Bell
VASSOURA BRUXÓLICA | Franklin Cascaes
Recitado por Geli José Coelho (Peninha)

Este é um pequeno recorte da bela entrevista do Alberto para a revista Mafuá. Quer ler toda a entrevista? Aí vai o endereço da revista:
www.mafua.ufsc.br

quinta-feira, julho 05, 2007

O sujeito na teoria lacaniana

O sujeito na teoria lacaniana

O conceito lacaniano do sujeito apresenta-se como uma questão complexa que pode ser abordada através de diferentes caminhos. Um destes, e talvez o mais conhecido, é o traçado por Lacan em um dos seus escritos intitulado “Subversão do Sujeito e Dialética do Desejo no Inconsciente Freudiano”. A questão apresentada neste texto é formulada por Lacan da seguinte maneira: qual é o sujeito que a psicanálise subverte, quando funda o inconsciente freudiano? O sujeito subvertido é o sujeito da concepção clássica, o sujeito do conhecimento.
O sujeito freudiano do inconsciente apresenta-se como uma hiância no sujeito do conhecimento, pensado até então como uno e senhor de si. O sujeito do inconsciente não possui substância, ele é o momento de eclipse que se manifesta num equívoco.
É esse mesmo conceito de sujeito que Lacan irá encontrar nas primeiras Meditações de Descartes. O sujeito enquanto esvaziado de todos os saberes, representações e imagens.
“Até o fim do século XVI, a semelhança desempenhou um papel construtor no saber da cultura ocidental. Foi ela que, em grande parte, conduziu a exegese e a interpretação dos textos: foi ela que organizou o jogo dos símbolos, permitiu o conhecimento das coisas visíveis e invisíveis, guiou a arte de representá-las. ”[1] A partir da metade do século XVII, Descartes (1596-1650) constitui uma filosofia na qual exclui a semelhança como forma primeira e experiência essencial do saber. A filosofia cartesiana é um momento de ruptura ao saber estabelecido, o que era aceito como certo se mostra falso: a semelhança não revela mais a verdade das coisas, mais se encontra do lado da imaginação.
Descartes, em seu trajeto ao longo das Meditações, trabalha procurando livrar-se das falsas opiniões do saber até então estabelecido. O instrumento que utiliza para encontrar um ponto de certeza é a dúvida metódica, que é o exercício da dúvida sistemática e generalizada. Tudo que seja enganoso será abandonado.
A dúvida cartesiana é metódica, pois se tem necessidade dela previamente. É também universal na medida em que é preciso duvidar de tudo o que possa ser posto em dúvida. Torna-se radical no momento em que propõe tomar como falso tudo o que for duvidoso. Assim, amplia a dúvida ao máximo, entregando-se a ela para daí tirar sua força. A dúvida é desta forma universalizada na primeira Meditação de Descartes.
Na segunda Meditação, pergunta-se pelo que existe e alcança a primeira certeza. Se há um Deus que o pode enganar o tempo todo, é somente porque ele existe. Alcança também a primeira proposição: Eu sou, eu existo. Ao continuar perguntando sobre a sua natureza, sobre o que é, atinge uma segunda certeza: sou uma coisa pensante. “Eu sou, eu existo: isto é certo; mas por quanto tempo? A saber, por todo tempo em que eu penso.”[1] Sua existência se autentifica no instante de pensar. O que o levará a formular: Penso, logo existo – Cogito ergo sum.
A leitura que é mais conhecida do cogito cartesiano identifica o sujeito ao eu, entendendo-o como substancial. No entanto, a leitura que Lacan faz das primeiras Meditações de Descartes implica um sujeito dessubstancializado pela operação de esvaziamento, que leva ao cogito. Esvaziamento da esfera psíquica, esvaziamento do universo das representações, esvaziamento de tudo o que é imaginário.[2] O que Lacan encontra aí é o sujeito freudiano, o sujeito do inconsciente, um sujeito dividido, que irá simbolizar por um S barrado ($).
“Desse modo, a identificação do sujeito cartesiano ao eu marca uma diferença radical relativamente à psicanálise. Se, em Descarte, o eu ganha o estatuto de substância, definindo o ser do sujeito, em psicanálise, este eu revela apenas as identificações imaginárias que não determinam, de modo algum, o ser do sujeito. O eu se constitui numa relação especular ao outro, como uma imagem a qual me identifico e na qual me reconheço, mas que nada revela sobre o que sou, há uma hiância fundamental que permite que eu possa ser, a todo instante, outro.”[1]
A constituição do eu na teoria Lacaniana é estabelecida a partir do “estádio do espelho”, que se dará entre os 6 meses e dois anos e meio.
O estádio do espelho, ou simplesmente, fase do espelho, organiza-se em torno de três tempos fundamentais, no qual a criança conquista progressivamente a imagem de seu corpo.
No primeiro tempo, a criança percebe a imagem de seu corpo como a de um ser real a quem ela procura se aproximar. Ou seja, “este primeiro tempo da experiência testemunha em favor de uma confusão primeira entre o si e o outro, confusão amplamente confirmada pela relação estereotipada que a criança tem com seus semelhantes, e que atesta, sem equívoco, que é sobretudo no outro que ela se vivencia e se orienta no início.”[1]
Esta primeira fase evidencia o assujeitamento da criança no registro do imaginário, enquanto que a segunda fase, que discutiremos a seguir, se constituirá numa etapa decisiva no processo identificatório.
Na segunda fase a criança descobre que o outro no espelho não é um outro real, mas uma imagem. Ela não mais procura apoderar-se da imagem, de agora em diante, distingue a imagem do outro da realidade do outro.
O terceiro momento, então, dialetiza as duas etapas anteriores. A criança pode perceber que o reflexo no espelho é uma imagem e que é a sua própria imagem. Ao reconhecer-se através desta imagem, a criança, nos diz Lacan, antecipa na cena mental a conquista da unidade funcional de seu próprio corpo, ainda inacabada nesse momento, no plano da motricidade voluntária. Existe aí uma primeira captação pela imagem onde se esboça o primeiro momento da dialética das identificações.[1]
Vemos que esta conquista de identidade é sustentada, em toda a sua extensão, pela dimensão imaginária, visto que ela se dará no próprio fato da criança identificar-se a partir de algo virtual (a imagem ótica), que não é ela enquanto tal, mas onde se re-conhece. “A própria dimensão deste re-conhecimento prefigura, para o sujeito que advém, na conquista de sua identidade, o caráter de sua alienação imaginária, de onde delineia-se o “desconhecimento crônico” que não cessará de alimentar em relação a si mesmo.” [2]
O estádio do espelho é a experiência primordial que revela a instalação do primeiro esboço do eu. É uma experiência ao nível do registro imaginário. Mas o imaginário se relaciona com o simbólico. A criança ainda não fala, mas já é falada, surgindo, assim, num lugar já marcado simbolicamente. Lacan irá dizer que é a relação simbólica que define a posição do sujeito como aquele que vê. É a palavra, a função simbólica, que define o maior ou menor grau de perfeição, de completude, de aproximação, do imaginário.[3]
A partir da relação da criança com o Outro[4] a experiência imaginária torne-se mais ou menos satisfatória. São, afinal, os significantes que iram definir o lugar do sujeito no mundo simbólico, seu nome, sua relação de parentesco, etc.
A criança, em seu júbilo frente ao espelho, procura a mãe para que ela autentifique sua descoberta. Para que se aproprie da imagem, precisa que o Outro - neste momento
encarnado pela mãe - a reconheça, dizendo de quem é esta imagem. É a partir desse reconhecimento, que vem do Outro, que se constitui o eu ideal.
O Outro, enquanto testemunha do estádio do espelho, regula a estruturação imaginária do eu, pois é através do Outro que acontece a entrada no registro simbólico. A mãe, ao dizer de quem é aquela imagem, dá significantes que marcam a criança, via linguagem. A partir destes significantes, que funcionam como traço unário, que se constitui o ideal do eu, via identificação, identificação do sujeito ao significante.
Ao sair da fase identificatória do estádio do espelho, a criança, em quem já se esboça um sujeito, nem por isso deixa de estar numa relação estreita e imediata com a mãe. Esta relação é proporcionada pela posição particular que a criança mantém junto à mãe, buscando identificar-se com o que supõe ser o objeto de seu desejo. Esta identificação, pela qual o desejo da criança se faz desejo do desejo da mãe, é amplamente facilitada pelo lugar que ocupa a mãe, de provedora dos cuidados e das necessidades da criança. Ou seja, a proximidade dessas trocas coloca a criança em situação de se fazer o objeto que supõe faltar à mãe. Este objeto suscetível de preencher a falta do Outro é, exatamente, o falo.
É necessário, aqui, fazer um recorte para que possamos compreender a noção de falta de objeto na teoria lacaniana. A falta de objeto pode manifestar-se de três maneiras: frustração, privação e castração, onde tanto a natureza da falta como o tipo de objetos relacionados são diferentes. Estas diferenças são efeitos das relações da criança com a mãe enquanto interpelada como Outro.
A frustração acontece como uma das primeiras experiências da criança, na sua relação com o objeto real, o seio. A mãe oferece à criança o objeto de necessidade, o seio, que pode acalmar suas necessidades físicas. Por outro lado, a mãe também pode dar o que Lacan chamou de seus dons, que são signos de amor, nos momentos em que não a alimenta. A mãe é por isso mesmo o objeto de apelo para a criança, encontrando-se ora ausente, ora presente.
O seio, enquanto objeto real de uma necessidade, quando não é dado à criança, gera uma frustração, aparecendo assim à falta imaginária de um objeto real. A partir de então, o objeto real, seio, passa a ter uma significação simbólica. O seio como objeto real, que pode satisfazer uma necessidade real, transforma-se em objeto simbólico. A frustração aparece em nível de reivindicação, não há possibilidade de satisfação, pois o objeto está perdido, a falta caracteriza-se como um dano imaginário enquanto o objeto é real.
Na privação, a falta é real, enquanto um buraco no real, mas o objeto é simbólico. O conceito de privação implica a simbolização do objeto no real, pois no real nada pode
faltar. Ao se falar da privação, é da privação enquanto simbolizada de que se fala, e ao supor que sua presença seja possível é que se pode dizer que algo falta.
Na castração, a falta é simbólica, embora o objeto faltante seja o objeto imaginário. O objeto imaginário é o falo imaginário.
A castração irá ocorrer na esfera do Outro, que a mãe faz carne, pois é a nível do Outro que se instaura a falta simbólica. O Outro é barrado[1], a criança percebe que algo falta à mãe, e faz-se necessário simbolizar esta falta. É em torno do falo que ocorre a castração. O complexo de castração tem como ponto decisivo a descoberta da mãe como castrada, desprovida de falo.
O falo é então um significante, o significante da falta. O falo, enquanto significante, vem marcar o falo imaginário no complexo de édipo. Falta imaginária que apontaria para a completude. O falo, enquanto uma imagem que falta, uma imagem negativizada, é o falo simbólico. Enquanto imagem negativa é que opera como elemento simbólico. O falo é o objeto que simboliza a falta, e o nome fundamental da falta é a castração.
Podemos ver agora como ocorre o complexo de castração através dos três tempos distintos do édipo, conforme a teoria lacaniana. Para Lacan estes não são tempos cronológicos, mas, antes, tempos lógicos.
No primeiro tempo do édipo, diz Lacan no “Seminário V” – as formações do inconsciente -, a relação da criança não é com a mãe, mas com o desejo da mãe. É um desejo de desejo. “O que cabe compreender é que esse desejo de desejo implica que estamos lidando com o objeto primordial que é a mãe, com efeito, e que a tenhamos constituído de tal maneira que seu desejo possa ser desejado por um outro desejo, o do filho, nomeadamente. Onde se situa a dialética dessa primeira etapa? A criança fica particularmente isolada nela, desprovida de qualquer outra coisa que não o desejo desse Outro que ela já constituiu como sendo o Outro que pode estar presente ou ausente.”[2]
O primeiro tempo refere-se ao registro imaginário, momento de perfeição e de completude narcísica. É o momento em que a criança acredita poder ser o objeto que falta à mãe. Identifica-se com o que supõe ser o objeto de desejo da mãe, colocando-se na posição de objeto passível de preencher a falta da mãe. Esta possibilidade só pode acontecer devido a natureza metonímica do objeto. Por outro lado criança cumpre para a mãe esta função obturadora da falta como elemento significante numa cadeia significante.
É no segundo tempo do Èdipo que o pai irá aparecer interferindo na relação mãe-criança. O pai surge como um outro nesta relação. Este outro toma o estatuto de objeto
fálico, com o qual a criança vai se rivalizar junto à mãe. Esta rivalidade imaginária possibilita à criança encontrar a lei do pai. O pai aparece então como privador, pois tanto priva a criança do objeto de seu desejo como priva a mãe do objeto fálico.
Para Lacan o segundo tempo tem como eixo o momento em que o pai se faz pressentir como proibidor. Ele aparece mediado no discurso da mãe. No primeiro tempo, o discurso da mãe era captado em estado bruto. Dizer agora que o discurso do pai é mediado não significa que façamos intervir novamente o que a mãe faz da palavra do pai, mas que a fala do pai intervém efetivamente no discurso da mãe. Portanto ele parece menos velado do que no primeiro tempo, mas não é completamente revelado. É a isso que corresponde o termo mediado, nessa ocasião.
Nessa etapa, o pai intervém a título de mensagem para a mãe. Essa mensagem não é simplesmente o “Não deitarás com tua mãe”, já nessa época dirigido à criança, mas um “Não reitegrarás teu produto”, que é endereçado à mãe.[1]
Essa segunda etapa, é um pouco menos feita de pontencialidade do que a primeira. Nem por isso é menos capital, pois é ela, afinal de contas, que constitui o âmago do que podemos chamar de momento privativo do complexo de Édipo. É na medida que a criança é desalojada, para seu grande benefício, da posição ideal com que ela e a mãe poderiam satisfazer-se e na qual ela exerce a função de ser o objeto metonímico da mãe, que pode estabelecer a terceira relação, a etapa seguinte, que é fecunda.[2]
A terceira etapa do Édipo é também a do seu desfecho. Põe fim a rivalidade fálica em torno da mãe. O pai entra em jogo como aquele que tem o falo e não como aquele que é. É neste momento nos diz Lacan, que pode se produzir algo que reinstaura a instância do falo como objeto desejado pela mãe, e não mais apenas como objeto do qual o pai pode privá-la.
Esta etapa é fundamentalmente marcada pela simbolização da lei, atesta que a criança recebeu sua plena significação. “O valor estruturante desta simbolização reside, para ela, na determinação do lugar exato do desejo da mãe. A função paterna só é representativa da lei sob esta condição.”[3] Modifica-se a relação fálica, a criança deixará a problemática do ser o falo para a de ter o falo. Esta mudança de posição só advirá na medida em que o pai não mais lhe aparecer como um falo rival junto à mãe. O falo aparece, neste momento, como uma perda simbólica de um objeto imaginário.
O pai não presentifica mais a lei, como na etapa anterior, onde o pai onipotente era o pai que se afirmava em uma presença privadora. O pai torna-se agora o representante
da lei. Ocorrendo a simbolização da lei, onde para a criança há a determinação do lugar do desejo da mãe. O pai passa a ocupar o lugar de objeto de identificação na formação do ideal do eu.
O falo, que antes era localizado como objeto imaginário em relação à mãe, agora revela-se como objeto simbólico. Tanto a mãe como a criança não têm o falo, mas desejam-no naquele que o detêm, o pai. É através da instauração do falo como simbólico que acontece a estruturação da criança enquanto sujeito. A criança ingressará a partir de então na dimensão simbólica, afastando-se do assujeitamento imaginário à mãe e constituindo-se enquanto sujeito.
“O advento desse sujeito atualiza-se numa operação inaugural de linguagem, na qual a criança se esforça por designar simbolicamente sua renúncia ao objeto perdido. Tal designação só é possível se estiver fundada no recalque do significante fálico, nomeado também significante do desejo da mãe. Coloquemos tal significante (S1) como aquele que irá governar a rede ulterior de toda a cadeia de significantes:[1]

 Inconsciente

 Cadeia falada

 S1 S2..... S3...... S4 .... S5....

 Recalque

O recalque originário, segundo Joel Dör, aparece como uma intervenção intrapsíquica que irá assegurar a passagem do real imediatamente vivido à sua simbolização na linguagem.
O recalque originário é então um processo fundamentalmente estruturante e se constitui numa metaforização. Metaforização que não é senão o ato da simbolização primordial da Lei, que se efetua na substituição do significante fálico pelo significante Nome-do-Pai.
Por meio do recalque originário e da metáfora paterna, impõem-se ao desejo a mediação da linguagem. O desejo de ser, recalcado em prol do desejo de ter, coloca o desejo no terreno dos objetos substitutivos do objeto perdido. O desejo torna-se palavra transformando-se em demanda. Desta forma, ao se fazer demanda, o desejo se perde na cadeia dos significantes do discurso.
“O desejo permanece, portanto, sempre insatisfeito, pela necessidade em que se encontrou de se fazer linguagem. Ele renasce continuamente, uma vez que está sempre, fundamentalmente, em outro lugar que não no objeto a que ele visa ou no significante suscetível de simbolizar este objeto. Em outras palavras, o desejo vê-se engajado na via da metonímia. A metáfora do Nome-do-Pai intima a criança a tomar a parte (objeto substitutivo) pelo todo (objeto perdido). Assim como “uma vela no horizonte” consiste em designar o todo (o navio) pela parte (vela), o desejo persiste em designar o desejo do todo (objeto perdido) pela expressão de desejo da parte (objetos substitutivos).”[2]
A metáfora do Nome-do-Pai é um processo da constituição psíquica que, além de permitir à criança advir como sujeito, acendendo ao simbólico, institui uma estrutura de divisão psíquica - Spaltung[3] - irreversível ao sujeito. O próprio princípio que a governa é sustentado pelo efeito de significante, ou mais especialmente, por uma substituição significante.
Para Lacan a Spaltung é o caráter inaugural que define a subjetividade, sendo que é através dela que o sujeito advém. Ela aparece como o que institui o aparelho psíquico num sistema plurissistêmico. É assim que ela pode ser colocada como divisão inaugural do sujeito, originária da submissão do sujeito a uma ordem terceira que é a ordem simbólica, ou seja, a ordem que irá mediatizar a relação do sujeito com o Real, enlaçando, para ele, o Imaginário e o Real. Operação que efetua-se na instauração do processo da metáfora paterna, ao fim da qual um símbolo de linguagem (o Nome-do-Pai, S2) vem designar metaforicamente o objeto primordial do desejo tornado inconsciente (significante do desejo da mãe, significante fálico S1).
“Se a criança continua assim a nomear, sem o saber, o objeto de seu desejo ao significar o Nome-do-Pai, uma única conclusão se impõe: a criança não sabe mais o que diz naquilo que anuncia. Outra maneira de evocar que a criança acede à linguagem não sabendo o que diz naquilo que fala. A linguagem aparece, pois, como esta atividade subjetiva pela qual se diz ‘algo totalmente diferente’ institui-se fundamentalmente como o inconsciente que escapa ao sujeito que fala, porquanto dele está constitutivamente separado.”[4]
Vemos assim que Lacan parte da estrutura da linguagem para pensar o inconsciente. Para ele a linguagem é a condição do inconsciente. Ou seja, precede o inconsciente e é sua causa. Posição que o levará a afirmar: O inconsciente é um conceito forjado sobre o rastro que opera para constituir o sujeito.
Apoiado na teoria do signo de Saussure, Lacan apresentará sua leitura do inconsciente, que será definido como uma cadeia significante sempre aberta a novas articulações, produzindo novos sentidos. Para Saussure o significante não é um elemento substancial, mas diferencial, portanto só pode ser definido por suas diferenças e não por propriedades ou atributos intrínsecos. Na medida em que se define por oposição, não se pode pensar em significante isolado, mas sempre num mínimo de dois.
Lacan mantém a estrutura binária do significante, cuja concepção já estava em Saussure e que foi desenvolvida por Jakobson, em particular na fonologia.
Assim, S1 – S2 é a escritura elementar da cadeia significante, o mínimo admissível. Mas estes dois significantes não são equivalentes, não são idênticos e nem podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo.
Vimos anteriormente que S1 é o primeiro significante, representativo da singularidade do sujeito, que funda a cadeia, mas que ao mesmo tempo está fora dela. Sabemos que S1 implica necessariamente S2, que S1 só pode ser cogitado a partir de S2, que a ele se articula e lhe confere sentido. Mas S1 e S2 são diferentes por excelência de modo que S2 não é capaz de representar S1 integralmente. Assim, se S1 representa o sujeito, não há outro significante que possa lhe conferir uma identidade. E mais, S1 apenas representa o sujeito, não se confunde com ele. O sujeito é diferente do significante que o representa.
Desta forma, mesmo representado por um significante, o sujeito não se confunde com ele: o sujeito não é o significante que o representa, pois este significante apenas reenvia a outros significantes. Ou seja, dizer que o sujeito é efeito do significante não implica que este significante revele algo sobre o que o sujeito é; ele apenas o representa na cadeia. Desse modo, o sujeito é dividido, pois onde é representado, ele não é, e onde é não é representado.
O sujeito aparece na cadeia significante quando nela se produzem dissimetrias, descontinuidades. O tropeço, a fenda, a descontinuidade. Foi com eles que Freud se deparou no discurso de seus pacientes, através dos sonhos, dos atos falhos, dos chistes e dos sintomas, os quais denominou as “formações do inconsciente”.
O conceito de sujeito que Lacan desenvolve ao longo de sua obra, podemos afirmar, não é estanque ou unívoco. Mas o sujeito do inconsciente que buscamos articular até aqui remete ao não sabido, impossível de tornar-se consciente, que se revela como efeito das formações do inconsciente, que são como dissemos acima: sonhos, atos falhos, chistes e sintomas. Um sujeito que se constitui na fala, não de forma definitiva, mas num paradoxal movimento que implica ausência e presença. No momento preciso em que a fala tropeça.
No seu Seminário “O Osso de uma Análise”, Miller nos diz que o sujeito não fala, mas, antes, ele é falado pelo ser falante. “E notem até que ponto o sujeito é falado, que se segue falando dele depois de sua morte física, depois da morte do organismo que deu lugar ao discurso sobre o sujeito que o habita.”[1]
A partir deste pressuposto, Miller vai afirmar neste mesmo Seminário, substanciado na análise do poema “No meio do caminho” de Carlos Drumomnd de Andrade, que “o ser falante é o poeta, que tem seu estatuto eminente, o sujeito é antes o poema que o poeta. É assim que Lacan o indica, o sujeito é antes o ser falado. A Psicanálise efetua, sobre o poema subjetivo, um tipo de análise textual que tem por efeito extrair daí o elemento poético, a fim de destacar o elemento lógico.”[1] Esta análise textual, no campo da teoria psicanalítica, Miller chamará de operação-redução.
Será que a partir desta afirmação de Miller não poderemos dizer, do mesmo modo, que o autor é o ser falante que, articulado às leis da linguagem, produz um texto literário que, assim como o texto produzido no divã marca o lugar onde o sujeito pode advir?
Um ser falante que, como nos diz Lacan, não sabe o que diz, mas sempre diz mais do que sabe. Um ser falante que desaparece, se desvanece pelo próprio efeito do texto, para que o sujeito possa ai se constituir.



[1] Miller, J.A, O osso de uma análise, Biblioteca – agente, Bahia, 1998, Pg. 45


[1] Miller, J. A, Los signos del gozo, Ed. Paidós, Buenos Aires, Argentina, 1998. Pg. 108



[1] Dor. J. op. Cit. PG. 91
[2] Dor. J. op. Cit. Pg. 94
[3] Termo originário do discurso da Psiquiatria e utilizado por Freud para designar a divisão psíquica.
[4] Dor, J. op.cit pg. 103



[1] Lacan, J. op. Cit. Pg. 209
[2] Lacan, J. op. Cit. Pg. 210.
[3] Dor, J. op. Cit. Pg. 88



[1] O termo barrado tem aqui o sentido de castrado, ou seja, não todo.
[2] Lacan, J. Seminário V – as formações do inconsciente, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1999. Pg. 205.


[1] Lacan, Jacques, Escritos 1, La agresividad en psicoanálisis, Siglo Veintiuno editores, Madri, Espanha, 17ª edición, Pg. 105.
[2] Dor, Jöel, op. Cit., pg. 80.
[3] Lcan, J. Sem. I - Os Escritos Técnicos de Freud, 3ª Edição, Rio de Janeiro, 1983. Pg. 165.
[4] O Outro com maiúsculo refere-se, neste contexto, ao Outro do registro simbólico, o grande Outro da linguagem, o que está sempre já aí. O lugar do código.


[1] Dor, Joël, Introdução à leitura de Lacan, Artes Médicas, Porto Alegre, RS, 1989. Pg. 79


[1] Winograd, M. Genealogia do Sujeito Freudiano, Artmed, Porto Alegre, RS. 1998. Pg. 37


[1] Descartes, R. Meditações. In: Os pensadores, São Paulo. Nova Cultura, 1991. Pg.85
[2] Miller, J. A ., Percurso de Lacan: uma introdução. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1994, Pg.50


[1] FOUCAULT. M. As Palavras e as Coisa. Cap. II A prosa do mundo. Ed. Martins Fontes, 6ª Edição, São Paulo, SP. 1992. Pg. 33

HILFLÖSIGKEIT - DESAMPARO

ENTRE ANGÚSTIA E DESAMPARO Jacques André* À guisa de introdu ç ão, eu desejaria evocar um artigo de Winnicott publicado em 197...