sábado, julho 28, 2012

Da responsabilidade na psicanálise



A situação em que me encontro aqui é curiosa: no que diz respeito à psicanálise, sou leigo - e no entanto é justamente o fato de eu ter um discurso diferente do de vocês que levou Jorge Forbes a me convidar, acreditando que algo do que tenha a lhes dizer, sobre a responsabilidade, possa servir à cura psicanalítica.

Começaria dizendo que fomos educados numa ideia de responsabilidade que é moderna: uma pessoa responde pelo que escolheu. Aprendemos que liberdade implica responsabilidade. Uma longa negociação atravessa a adolescência mediante a qual procuram, os jovens, ter o máximo de liberdade e o mínimo de responsabilidade. É um engano; evidentemente, só haverá liberdade quando se estiver disposto a arcar com suas consequências.

Eis o que podemos chamar de responsabilidade jurídica: uma pessoa só responde pelo que escolheu livremente. Nossa responsabilidade, em princípio, é total, pelos atos em que somos ou fomos livres. Por isso, condenamos quem se furta a responder pelas suas escolhas - o que, aliás, as crianças fazem sistematicamente ("caiu!", dizem dos objetos que derrubaram), e por isso mesmo são legalmente tidas por irresponsáveis, inimputáveis etc.

Contudo, essa articulação liberdade/responsabilidade é, dizia eu, moderna - ou seja, burguesa, datada de três ou quatro séculos. Retomo aqui, para esclarecê-la por um contraponto seu (uma outra ideia de responsabilidade, a aristocrática), o primeiro artigo de meu livro A última razão dos reis, em que trato esse tema utilizando-me da história de Os três mosqueteiros, de Alexandre Dumas.

D’Artagnan, um moço que vem do fim do mundo, da Gasconha, no sudoeste da França, vai a Paris querendo ser mosqueteiro. Porém, roubam-lhe a carta de apresentação que lhe permitiria ingressar nesse mundo prestigioso. Ao ver quem a roubou, e sair correndo para persegui-lo, D’Artagnan esbarra num mosqueteiro, Athos. Como Athos está doente, sofre com esse esbarrão e desafia d’Artagnan para um duelo. D’Artagnan, triste, pensa que será morto no mesmo dia.

Adiante, continuando em sua perseguição, nosso herói choca-se com outro mosqueteiro, Porthos, virando pelo avesso o casaco deste e mostrando, assim, que seus elegantes bordados de ouro só existiam do lado à mostra. Tal incidente gera um segundo desafio a duelo. E o terceiro desafio vem do fato de d’Artagnan, ao ver cair um lenço das mãos de mais um mosqueteiro, Aramis, apressar-se em entregá-lo ao dono. Com isso, sem o querer, D’Artagnan expõe a honra da dama dona do lenço.

Com três desafios, d’Artagnan está certo de morrer em mãos de excelentes espadachins e, mais que isso, de membros da corporação a que idolatra. A história só não termina mal porque os quatro se unem contra a tropa do cardeal de Richelieu, que vem prender os duelistas.

Essa história hoje soa estranhíssima, pois não só D’Artagnan aceita bater-se correndo o risco de ser morto, como assume a responsabilidade por atos que não cometeu livremente. Tal critério de responsabilidade não é o nosso. A essa responsabilidade eu denominaria de aristocrática. Ela consiste em aceitar responder por tudo o que a nós sucede, mesmo quando não decorre de nosso projeto ou de nossa escolha. Aqui está uma diferença radical de nossa experiência - moderna, burguesa, individualista -, segundo a qual só arco com as consequências daquilo que de mim depende ou resulta.

Quero deixar claro que não defendo, aqui ou em lugar algum, um ethos aristocrático. Jamais poderia eu dizer que a responsabilidade desligada da liberdade seria melhor que aquela que deriva de nossa escolha. Mas, como escrevi um livro de título A etiqueta no Antigo Regime e, mais recentemente, para dar nome a A última razão dos reis utilizei um termo técnico que designava o nome dado aos canhões no antigo regime (ultima ratio regum era como se chamava a razão armada, quando cessasse todo outro arrazoado), alguns pensaram que eu teria simpatia pela realeza ou nobreza. Não é o caso. Mas há um interesse intelectual em estudar experiências outras, afastadas da nossa.

Isso ficará mais claro se lembrarmos que, em nossa própria sociedade, há uma distinção entre responsabilidade penal e civil. A penal está mais ligada à liberdade, a atos cometidos livremente. Não se pune quem comete um ato por não ter alternativa. A lei não condena quem furta alimentos por estar morrendo de fome.

Evidentemente, conforme as gradações da liberdade de escolha, há agravantes e atenuantes à responsabilidade. Pode-se responder penalmente por um crime mesmo que não se tenha premeditado matar, por exemplo, quando se matou por negligência. Trata-se do crime culposo, um crime sem intenção, sem premeditação. Mas algo, na intenção, na psique, está sendo punido: por exemplo, o descuido no manejo de uma arma, que atesta uma certa leviandade.

Contudo, ainda que a lei penal limite a responsabilidade aos casos em que escolhemos livremente, a responsabilidade civil é bem maior. O dono de uma casa é responsável se sua propriedade afeta outro imóvel. Isso independe de sua culpa ou dolo. Basta constatar-se o dano e, claro, sua causa.

É importante essa distinção, ainda que simplificada. A ideia moderna de responsabilidade dependente da liberdade é sobretudo penal. Aliás, não é fortuito que nos romances policiais isso se discuta tanto: a liberdade é hoje uma questão de filme e romance noir. Estes suscitam questões importantes: culpa, inocência, escolha do mal, irresponsabilidade. Não é à-toa que seja no espaço-limite das relações humanas, o território penal, que a questão da responsabilidade e liberdade se coloque com tal nitidez.

O eixo da responsabilidade jurídico-penal está na ligação liberdade/responsabilidade. O que se deduz daí transborda para a política. É interessante que vá do campo penal para o político, porque toda a questão da cidadania está naquele eixo: só o sujeito livre e responsável será cidadão. Quem é livre mas não responde por seus atos não é cidadão, mas déspota. Já quem responde por seus atos, mas não tem liberdade de escolha, é escravo ou súdito, não cidadão.

O par responsabilidade/liberdade é absolutamente necessário à política. Não que retrate melhor ou pior uma suposta natureza humana, em relação a cuja existência há sérias dúvidas. Apenas afirmo que os efeitos desse acoplamento são interessantes: ele permitiu construir uma sociedade, a moderna.

Já a responsabilidade que, com algum atrevimento, eu chamaria de psicanalítica lida com outra ideia de sujeito.

Num tribunal, quando o juiz, o promotor ou o advogado apura a responsabilidade de alguém, não se pergunta se esse alguém é um sujeito. Está pressuposto que o acusado seja um sujeito. O que se questiona é apenas se pode ou não ser-lhe atribuído, e de que modo, o ato de que ele é acusado. Pode-se questionar se o acusado é demente, caso em que terá cometido o ato, porém sem praticar um crime; mas geralmente o que se indaga é se tal pessoa perpetrou ou não o ato, em que circunstâncias, se há atenuantes que possam reduzir sua responsabilidade, ou agravantes que a aumentem. É o estatuto de atribuição que está em jogo, não o fato de se estar diante de um sujeito: o sujeito jurídico está pressuposto em todas as relações de que o Direito se ocupa.

Exemplo recente é o de Paula Thomas, condenada, por margem mínima de votos (quatro a três), a quase 20 anos de prisão. Bastaria um jurado votar de outra forma para ela estar livre. O juiz então redige a sentença e assim, com essa votação e esse texto, ela deixa de ser suspeita ou ré e se torna criminosa. A sentença afirma que o condenado cometeu determinado ato, mais que isso, descreve sua personalidade, decreta quem ele é etc.

Toda uma positividade assim se constitui: o sistema judiciário estabelece um vínculo (entre sujeito e ações) dotado de permanência e estabilidade, mesmo quando foi produzido por margem exígua de voto, mesmo (não sei se é o caso de meu exemplo) que a condenação seja injusta. A positividade está em que se opera, por princípio e pressuposição, com atos cuja realidade mal se discute, e com sujeitos cujo estatuto ontológico ou modo de ser também se toma por dado. Isso somente muda quando uma crítica pós-moderna do sujeito mostra que os operadores do direito, longe de apenas verificarem o modo de atribuição a um sujeito de determinados atos, irão constituir aquele envelope corpóreo como sujeito. Não se trata, vejam bem, da bem intencionada crítica segundo a qual o criminoso foi vítima indefesa das circunstâncias - mas de indicar que foi constituído como sujeito, no caso, criminoso, por uma série de condicionantes, uns discursos, outros práticas. Mas essa leitura é minoritária no aparelho judiciário. A leitura dominante é a que supõe um sujeito já dado.

Na psicanálise, a questão é diferente. O sujeito está mais num ponto de chegada que de partida. Aqui não cabe falar em uma natureza do sujeito, o qual seria descoberto ou revelado. Outras terapias talvez deem mais importância a essa ideia de epifania, de revelação do potencial do sujeito, de descoberta de suas capacidades reprimidas. Talvez o façam as terapias com projeto político e social mais democrático que a psicanálise. Acredito, gostemos ou não disso, que não seja característico da psicanálise um projeto revolucionário, democrático ou de liberdade coletiva; este, aliás, é um problema sério, mas que não pretendo discutir aqui e agora. Apenas observarei que há terapias que concebem, de maneira otimista, rousseauista e democrática, uma revelação do sujeito, uma manifestação de suas potencialidades. Elas positivam, portanto, o sujeito. É na linha delas que se desenvolveu uma série de "orgulhos", que aparecem na ideia, tão norte-americana, do "dia do orgulho gay", ou "chicano", ou o que seja: em todos esses casos se supõe que um sujeito, ou um ser, está pronto e que até agora foi desvalorizado só porque era mal entendido. Não é preciso modificá-lo, menos ainda constituí-lo: o que está em questão é passar a ter orgulho dele.

Nada em comum com a psicanálise: o que ela procura é chegar a um sujeito. Não parte da ideia de que exista um sujeito dotado de inúmeras capacidades que foram reprimidas, de quem é necessário arrancar a tampa da repressão, assim fazendo-o desenvolver uma potencialidade recalcada. Por aí se distingue ela de outras terapias. Apesar da simpatia que sinto pelo aspecto democrático destas últimas, penso que na posição delas está um problema teórico, o de supor um sujeito pré-constituído, já senhor de toda essa riqueza antes de se trabalhar o sujeito.

Para psicanálise, o sujeito está no termo e não no começo. Um processo de responsabilização o fará responder por atos que talvez não tenha cometido com tanta liberdade. Um exemplo nos ajudará: imaginemos uma pessoa que, sem querer, atropela alguém, que se lançou à sua frente. Do ponto de vista legal, o motorista é inocente. Não podia agir de outra forma. Porém, do ponto de vista psicológico, ele terá que lidar com tal acidente. Pode até se convencer, e com razão, de que não deliberou matar. Foi uma desgraça que afetou tanto a ele como à vítima. Mas esse drama se incorpora à sua biografia, à sua psique: faz parte dele. Se com muita rapidez se isentar da culpa, se afirmar o que a lei diz, o que a razão entende, ou seja, que o que ocorreu não foi sua intenção, nem sua negligência ou imperícia, mas um acaso desgraçado, estará deixando de explicitar uma vivência fundamental - e pagará por ela. Penso que é este um dos sentidos do Édipo. Na segunda peça de Sófocles que o tem por protagonista, Édipo em Colona, que pouquíssimos leem, o personagem-título profere um discurso muito moderno. Afinal, diz ele, matei um velho a quem não conhecia, de quem não podia saber que era meu pai e que, além do mais, duas vezes, na infância e de novo na idade adulta, tentou me matar. O que sofri por isso já foi demais! E é claro que ele tem razão, mas psicologicamente só a tem após o luto, após sofrer tudo o que precisou padecer - o que, aliás, é o caso. É como se esse discurso só pudesse ser pronunciado ao termo de suas dores e andanças, mas fique claro que tudo o que ele sofreu não foi por culpa: foi por assim ser a psique. Édipo Rei, em contraste mas não em contradição, marca a dor por uma culpa que não é de nossa autoria, mas que sobre nós desaba. É claro que Freud revisita Sófocles, modifica-o, mas a ideia que é comum aos dois talvez seja esta: a de uma enorme responsabilidade que se sente, e que no entanto não decorre de nossa ação. (Isso, por sinal, recorda a expulsão judaico-cristã do Paraíso e a culpa dela resultante para todos os descendentes de Adão e Eva, que conhecemos por pecado original). Se formos um pouco além da ideia, essa estritamente freudiana, de desejar a mãe e querer matar o pai, teremos aqui uma matriz interessante para a psicanálise: somente assumindo a responsabilidade por aquilo que me precede é que poderei chorar tudo o de que necessito e, com isso, assumir a minha vida psíquica. Por aí, e só por aí, deixa o Édipo de ser conservador, para se tornar - não a assunção do culpável como culpável - mas a assunção de uma identidade marcada pela dor. Eis por que uma responsabilização deve ocorrer, uma curiosa responsabilização sem culpa. Com isso nos aproximamos da inquietante ideia de uma responsabilidade que não é o reverso, a consequência da liberdade.

Há uma velha discussão filosófica sobre o grau de liberdade que se tem para se escolher entre duas opções. Provavelmente sou mais livre (porque menos determinado) para escolher entre termos que me sejam indiferentes, isto é, que se revestem de pouca importância para mim. Mas, se escolho entre termos indiferentes, que significa essa liberdade? Já, quando escolho algo relevante para mim, sou tão carregado por meus afetos e paixões que minha liberdade se mostra menor. Isso indica um interessante paradoxo: sou tanto mais livre para escolher quanto menos a escolha me afetar. Sou menos livre quando as coisas são relevantes, quando para mim têm peso. Ora, esse paradoxo permite notar como é inadequado pensar a liberdade jurídica (porque é dela que aqui se trata: da liberdade penal, política, burguesa, moderna, em que liberdade e responsabilidade se determinam reciprocamente, e que talvez tenha como seu ideal, ou pelo menos como seu extremo, a plena liberdade entre termos a mim indiferentes) como chave para o funcionamento da vida psíquica.

Nos casos que relatei, dos três mosqueteiros, ou que imaginei, do motorista que atropela sem culpa, o agente deve ser capaz de responder até pelo que não escolheu cometer. Deve responsabilizar-se até pelo que não decidiu livremente. Isso inverte a relação usual entre nossos dois termos-chave, liberdade e responsabilidade.

Aliás, o episódio que imaginei aparece, de certa forma, no romance de Mario Vargas Llosa, Tia Júlia e o escrevinhador. Um motorista peruano atropela uma criança involuntariamente e depois, por desespero, não consegue mais guiar. Ele é caixeiro-viajante e em função disso sua vida se torna um desastre, até que encontra uma psicóloga. O eixo do tratamento - tão heterodoxo e engraçado que remeto vocês ao livro, o qual deveria constar do currículo de todo curso de Psicologia - consiste em responsabilizá-lo pelo atropelamento e negar em absoluto que este tivesse sido casual. Dessa maneira, ela consegue curá-lo.

Talvez convenha então recusar a ordem em que se articulam liberdade e responsabilidade: geralmente, pensamo-las segundo um determinismo mecanicista, que se pode simbolizar assim:
liberdade à responsabilidade
, ou seja, em que a liberdade é causa da responsabilidade. Não há a segunda sem a primeira. Talvez, a hipótese mais de trabalho que teórica da psicanálise se ilustre se retornarmos à ideia de responsabilidade aristocrática, em que uma pessoa se responsabiliza pelo que lhe acontece, mesmo sem o ter escolhido. A nobreza considera que a vida é jogo, que não há a responsabilidade (ou a liberdade) que a moderna exaltação do indivíduo impõe - mas a mesma nobreza aceita uma responsabilidade pelo aleatório, como vimos nos Três mosqueteiros.

É claro que não cogito propor, para o sujeito psicanalítico, uma responsabilidade de corte aristocrático, ou uma responsabilidade pelo aleatório. Tratar-se-á, antes, de pensar a responsabilidade como uma forma de se tornar livre. Aliás, quando chegamos à chamada idade da razão, o que fazemos senão começar a enfeixar os fios soltos das escolhas que nos precederam, das eleições alheias e dos acasos que nos antecederam, e que agora assumimos como nossos para nos tornarmos, justamente, nós? Não elegemos nosso sexo, a família em que nascemos. Tudo isto independe de nós; contudo, só conseguiremos fazer algo se assumirmos esse conjunto de elementos díspares como nossa identidade. Assumir uma identidade significa assim assumir uma identidade inicialmente constituída para nós, e arcar com a responsabilidade por essa identidade forjada pelo outro, e que em certa medida até o fim da vida continuará sendo engendrada pelo que nos rodeia. Mas só a partir daí poderemos negociar a liberdade, entendendo que se trata de uma liberdade constituída, e não de uma liberdade dada ou ofertada: esta pode muito nos atrair, mas não existe.

Se tentarmos desenvolver essa contraposição, podemos criticar a visão jurídica e penal da responsabilidade por ela pressupor que o sujeito seja um dado, pronto, completo - que aos 18 anos assuma tudo na vida e possa responder por seus atos. O mundo judiciário e mesmo legal funciona basicamente pela atribuição de vínculos entre sujeitos mais ou menos estanques, como entidades que não se contestam, que não se põem em dúvida. Entre eles se podem firmar contratos, que não chegam a ser relações, porque se esgotam no laço jurídico.

Ora, é próprio da ciência humana, não apenas da psicologia ou sequer da psicanálise, não aceitar essa postura estanque. Para nós é relevante ver como se dá a produção do sujeito, negando que seja uma entidade, uma substância. Parece-me que uma chave dessa produção estará justamente naquilo que do ponto de vista jurídico é o final, a questão da responsabilidade. Penso que a chave está justamente na possibilidade de colocar a responsabilidade no começo. Ela não decorrerá mais, como efeito, de uma liberdade concebida como causa. Ela será a forma pela qual assumimos o que foi hetero-escolhido antes de nossa idade adulta, e que, gostemos ou não, é uma história inegavelmente nossa, a qual podemos mudar, mas não arbitrariamente, e sim a partir do modo por que fomos constituídos - e a qual não podemos denegar.

By Renato Janine Ribeiro
São Paulo, 1998.
Fonte: Site do autor









quarta-feira, julho 25, 2012

O Chato e o Poeta


Freud sempre se preocupou com coisas simples, característica dos gênios: achar o novo no que todo mundo vê, mas que não enxerga. Entre suas simplicidades, ele escreveu dois artigos em 1908 que sempre me chamaram a atenção pelo tema que abordam e que assim eu resumiria: por que tem tanta gente chata no mundo, aquela que começa a contar um caso e já vai dando sono, e tem gente interessante, que contando a mesma história nos desperta e interessa?

Os dois textos são complementares, chamam-se: A Novela Familiar do Neurótico (Romances Familiares) e O Poeta e o Fantasiar (Escritores Criativos). Bastam os títulos para termos uma ideia da anteposição entre o neurótico e o poeta, para o vienense. Freud se pergunta o que diferenciaria o poeta – no sentido geral daquele que cria e não só o que compõe versos – do homem comum, genericamente, o neurótico. Seriam os temas que escolheriam para tratar que marcariam a diferença entre atrativos e desinteressantes? Um só falaria de coisas importantes e universais e o outro de sua vidinha? A resposta é não, mesmo porque estamos sempre contando a mesma história, ou melhor, tentando completar uma história esburacada, a nossa. O que os diferencia é o tratamento dado ao texto. Um, o neurótico, é invejoso de sua história, ela é só sua: o interlocutor tem que entendê-la tal qual, nos mínimos detalhes, arriscando inclusive ter que responder a uma sabatina para provar a boa atenção. O que ele teme é que vejamos suas fantasias pessoais naquilo que nos diz.   “Sentiríamos repulsa, ou permaneceríamos indiferentes ao tomar conhecimento de tais fantasias”, escreve o psicanalista. O escritor criativo, por sua vez, “quando nos apresenta suas peças, ou nos relata o que julgamos ser seus próprios devaneios, sentimos um grande prazer, provavelmente originário da confluência de muitas fontes.” Freud conclui da seguinte maneira sua reflexão sobre o efeito que  um texto interessante nos causa: “A satisfação ... talvez seja devida à possibilidade que o escritor nos oferece de, dali em diante, nos deleitarmos com nossos próprios devaneios, sem auto-acusações ou vergonha.”

Sabido o que diferencia um relato do outro, fica a pergunta de como consegui-lo. Partindo da questão da auto-acusação, analisemos. A primeira idéia, a mais banal – e equivocada – seria dizer que o poeta, sempre no amplo sentido, é um desaforado, um sem-vergonha. Nada disso. Melhor será notar que o poeta está mais livre do peso da expectativa do outro sobre ele, que um homem comum. Ele não fica tentando controlar como o outro vai entender o que ele diz; seria até engraçado imaginar a cena de um escritor que tentasse ao mesmo tempo escrever e impor como deveria ser interpretado. O poeta não teme o mal-entendido porque aprendeu que ele não é um erro, é estrutural da espécie humana, como demonstrou Lacan. E se a segurança não vem do “o que o outro vai pensar de mim”, de onde ela vem? Exatamente da certeza constitutiva do mal-entendido que o faz trocar o julgamento do outro, frente ao qual somos invariavelmente culpados, por uma responsabilidade singular, que o leva a criar histórias que recobrem frouxamente o espaço do sem palavra. ´Poeta´ vem do termo ´poiesis´, justamente: criar, inventar, fazer.  Por uma história de um neurótico, ninguém passa, só assiste; por uma história de poeta, muitas outras histórias passam. Com sua posição de responsabilidade ética, e por sua estética aberta, generosa, o poeta faz com que nós também nos livremos das auto-acusações acachapantes e nos arrisquemos a inventar soluções mais singulares a nossos desejos.

Deixo para comentar futuramente um terceiro tipo de texto, o psicótico. Seria, falando brevemente, aquele escrito sem pé nem cabeça, do qual só se depreende ruído de palavras e nenhum efeito de sentido. Adianto que não se deve confundir texto psicótico, com o quadro psicopatológico. Escrito psicótico não é aquele escrito por um psicótico.

E, para finalizar, uma lembrança. Com facilidade podemos extrapolar o que comentamos sobre os textos, para os relatos das pessoas em geral. Quem diria que, além de nos explicar, Freud deu dicas para um mundo menos chato?!

JORGE FORBES

(Artigo publicado em “Psique – Ciência e Vida”, n° 58, Outubro de 2010).
FONTE: site do autor.



terça-feira, julho 24, 2012

Psicose e sofrimento



O livro trata de duas distintas clínicas gestálticas: a clínica das psicoses e a clínica do sofrimento ético, político e antropológico. Com base em casos clínicos e na interlocução com a psiquiatria fenomenológica, com a psicanálise lacaniana e com a filosofia política contemporânea, os autores delimitam o estilo gestáltico de compreensão e intervenção nos contextos em que se produzem reações psicóticas e aflitivas.

Distinguir as psicoses das diferentes modalidades do sofrimento ético-político e antropológico – dentre elas o surto. Este é o objetivo dos psicólogos Marcos José Müller-Granzotto e Rosane Lorena Müller-Granzotto. No livro Psicose e sofrimento (456 p., R$ 81,90), lançamento da Summus Editorial, eles abordam duas distintas clínicas gestálticas: a das psicoses e a do sofrimento, de forma que as diferentes leituras teóricas sobre a psicose dialoguem entre si, refletindo melhor sobre os casos clínicos concretos, a partir da realidade dos profissionais de saúde e assistência social que atuam na rede pública e privada. “O livro propõe uma discussão sobre o sentido ético, politico e antropológico de nossas intervenções e o papel da família e das instituições de saúde no acolhimento aos sujeitos das formações psicóticas”, mas também aos sujeitos em sofrimento, afirmam os autores. Para eles, as formações psicóticas (como as alucinações, os delírios e as identificações maníaco-depressivas) não são patologias, mas criações a partir de um contexto de vulnerabilidade ética. As manifestações de sofrimento também são criações, dessa vez, a partir da vulnerabilidade antropológica a que somos remetidos quando nossas identidades (inclusive a psicótica) estão ameaçadas pelo outro social.

Com base nos casos clínicos e na interlocução com a psiquiatria fenomenológica, com a psicanálise lacaniana e com a filosofia política contemporânea de Merleau-Ponty, Michel Foucault e Giorgio Agamben, os autores delimitam o estilo gestáltico de compreensão e intervenção nos contextos em que se produzem reações psicóticas e aflitivas. Dessa forma, ampliam as hipóteses de Perls, Hefferline e Goodman a respeito da psicose e do sofrimento como ajustamentos criadores, refletindo sobre a relação entre as demandas da sociedade de consumo e as reações estranhas e desesperadas produzidas pelos sujeitos excluídos das relações de poder.

Dividida em duas partes, a obra aborda questões relacionadas à saúde mental e à clinica das psicoses, bem como ao sofrimento ético-político e antropológico e à clínica da inclusão. A partir de uma discussão com diferentes tradições de intervenção no campo da psicose e do sofrimento, os autores ampliam as formulações de PHG, visando ensaiar uma compreensão gestáltica sobre a gênese, os diferentes modos de ajustamento e as diversas formas de intervenção nesses campos. “O objetivo é apresentar nossa compreensão sobre os dois empreendimentos clínicos que constituem a faceta mais psicossocial das clinicas gestálticas”, complementam os autores.

A obra está intimamente ligada ao histórico de participação em políticas públicas de inclusão social dos autores. “Mas, em contrapartida, está também ligada à nossa desconfiança com relação à militância, porquanto esta é sempre tributária das promessas ideológicas do estado de direito, as quais são responsáveis pela grande parte das práticas de exclusão social”, revelam os psicólogos. Dessa forma, ela nasceu de uma prática
 – exercida em consultórios particulares, na Atenção Básica e nos Caps – de escuta e acolhimento às psicoses e às diferentes modalidades de sofrimento, mas se articula com base em uma pesquisa acadêmica rigorosa estabelecida dentro de uma universidade e de uma escola de especialização em Psicologia Clinica, a partir da interlocução constante com seus pares, alunos e usuários.

Link para ler introdução ao livro:
http://www.gruposummus.com.br/detalhes_livro.php?produto_id=1310






segunda-feira, julho 16, 2012

Enfim, a emancipação masculina.



Lembro de um evento psicanalítico ocorrido em Porto Alegre, anos atrás, sobre “Masculinidade”. De repente, apareceu um engenheiro por lá, adentrando o mundo dos psis. Ele queria entender, como homem, a sua falta de lugar no mundo. Não sei se conseguiu, mas sua presença foi um belo movimento para fora do território conhecido, onde as contas já não fechavam, rumo ao insondável. Ainda tateando sobre esse tema tão fascinante, penso que a melhor notícia para todos nós é a confusão sobre o lugar do homem. Sobre isso, Laerte Coutinho, entrevistado no Roda Viva(TV Cultura) de 20/2, fez uma grande observação: os homens nunca fizeram a revolução masculina.

Para começar, quem é Laerte? Se você não ouviu falar dele, está perdendo uma revolução encarnada numa pessoa. Antes, porém, é importante sublinhar que ele talvez seja o maior cartunista brasileiro. Para mim, é um gênio. E não é uma opinião solitária. Não aquele gênio banalizado dos manuais 171 vendidos nas livrarias, mas gênio mesmo, daqueles que nasce um a cada muitos e muitos e muitos anos. Só para recordar, são dele histórias em quadrinhos como “Piratas do Tietê” e personagens como Overman, Deus e Fagundes, o Puxa-Saco. A minha vida, pelo menos, seria mais pobre se eu não pudesse ler todo dia as tirinhas do Laerte publicadas na Folha de S. Paulo.

Em 2010, Laerte passou a se vestir de mulher – publicamente. Tipo ir à padaria de saia e meia-calça. Laerte se tornou ora ele, ora ela, ele/ela no mesmo corpo e na mesma cabeça. E, desde então, não para de dar entrevistas nas quais parte dos entrevistadores tenta, com certo grau de ansiedade, encaixá-lo/a em alguma definição. A novidade, no sentido libertador do novo, mesmo, é que Laerte se coloca para além das definições. Nem acho que cross-dresser (homem que gosta de se vestir de mulher – ou vice-versa – sem necessariamente ser gay) serve para enquadrá-lo/a. Acho que todos nós ganharíamos – “héteros, gays, bissexuais, transgêneros, travestis, transexuais, assexuais etc etc” – se abolíssemos a necessidade de caber em algum verbete. Seres humanos não são como aqueles jogos de montar para crianças pequenas, em que é preciso encaixar o retângulo no retângulo, o triângulo no triângulo e assim por diante. A única definição que vale a pena é justamente a indefinição. Sou aquele/a que é sem se dizer. Ou sou aquele/a que é sem precisar dizer o que é.

E essa é a novidade de Laerte, que é homem, é mulher, é masculino, é feminino e é também alguma coisa além ou aquém disso. Que se veste de mulher, mas fala e caminha como um homem. Que na infância gostava de costura e de futebol. Que vai jantar de saia e unhas vermelhas com uma namorada, mas pode também ter um namorado. Que enfia um pretinho básico sem se tornar efeminado. Que começa a entrevista de pernas cruzadas e, lá pelas tantas, se empolga e abre as pernas sem se importar que no meio delas more um pinto. Laerte é novo/a porque nos escapa. É um homem novo, mas também pode ser uma mulher nova.

Em janeiro, Laerte foi protagonista de uma polêmica ao ser repelido/a no banheiro feminino de uma pizzaria paulistana por uma cliente que se sentiu incomodada com sua ambígua figura. Surgiram então ideias esdrúxulas, como a de fazer um terceiro banheiro para os que não se enquadrariam nas definições tradicionais. Se o terceiro banheiro vingar, vou começar a frequentar os três, porque começo a achar uma afronta a exigência de que eu tenha de me definir para fazer xixi. Por agora, acho tão ultrapassado haver banheiros separados por qualquer coisa, que nem pretendo me estender nesse assunto. Era apenas para contar um pouco quem é Laerte para aqueles que ainda o/a estão perdendo. E desembarcar no tema que me interessa mais.

A certa altura da entrevista, ele/ela fez a seguinte observação: “Existiu a tal da revolução feminina, que é um dos marcos da humanidade. O que não aconteceu é a revolução masculina”. Laerte referia-se ao fato de que as mulheres já fizeram mil e uma rebeliões e continuam se batendo por aí. Marlene Dietrich, por exemplo, causou comoção por usar calças, mas isso em 1920! Quase um século depois, Laerte nos empapa de assombro por ir ao supermercado de saia. Isso diz alguma coisa, não?

Eu acho que não é nada fácil ser homem hoje em dia porque não se sabe o que seja isso. Mas, se essa dificuldade fez o engenheiro do primeiro parágrafo ousar se sentar na plateia de um seminário de psicanalistas para se entender, esta é também a melhor notícia possível para um homem. A princípio, os homens nunca precisaram fazer nenhuma revolução para conquistar direitos porque supostamente tinham todos eles garantidos desde sempre. Uma posição cômoda, mas apenas na aparência. Podiam fazer o que bem entendiam. Desde que fossem “homens”. E aí é que morava – e ainda mora, em muitos casos – a prisão. Podiam tudo, desde que fossem uma coisa só.

Ser forte e competitivo; sustentar a casa e a família; ter todas as respostas, muitas certezas e nenhuma dúvida; gostar de futebol e de vale-tudo; dar tapas nas costas do colega; falar bastante de mulher, mas jamais de intimidade; nunca demonstrar sensibilidades; dar mesada para a esposa; fazer o imposto de renda; resolver o problema do encanamento... Que peso incomensurável. Era isso ser homem por muitos séculos, sem falar nas guerras. E era preciso estar satisfeito com isso porque, afinal, você estava no topo da cadeia alimentar da espécie, ia reclamar do quê?

Acontece que, hoje, nenhuma das características citadas define o que é ser um homem. Assim como nenhuma característica – tradicional ou não – define o que é ser uma mulher. Do mesmo modo que a anatomia também não é mais capaz de definir o que é ser um homem e o que é ser uma mulher. E nem a escolha da carreira ou a posição na sociedade. Se há algo que define o que é ser um homem e o que é ser uma mulher, este algo está fora das palavras. E isso é o que torna Laerte fascinante: ele se apropriou da confusão e tornou-se a indefinição.

Graças às mulheres, e também aos homens que ousaram sair do armário (e aqui não me refiro somente à orientação sexual), os homens começam a autorizar-se a vagar sem rumo por aí, cada um do seu modo. Até porque não há caminhos já trilhados para seguir, já que não é mais possível apenas refazer os passos do pai ou do avô – nem é suficiente se contrapor totalmente a eles e segui-los pelo avesso. O que há são vidas a serem inventadas.

É claro que muitos homens se arrastam pelas ruas lamentando a perda de lugar. Sem saber o que fazer da existência nem de si, alguns arrotam alto ou espancam gays na tentativa pífia de mostrar que ainda sabem o que são. Perder o lugar e confundir-se não é fácil, não é mesmo. Mas é um espaço inédito de liberdade. É possível arrancar o terno de chumbo e descobrir que pele existe embaixo dele. E faz parte estar ainda em carne viva.

Acho que os homens alcançaram, finalmente, um começo de emancipação. E espero que as mulheres tenham a grandeza de estar à altura desses novos homens que começam a surgir. E enfiem a saudade do macho provedor na lata de material reciclável. Porque há muitas mulheres que ainda suspiram de nostalgia do macho provedor, mesmo se achando modernas e liberadas. Pode até ser que esse seja um bom arranjo para alguém, mas já não há garantias. Faz parte da jornada amorosa acolher a confusão dos homens que amamos porque tudo deve ser mesmo muito novo e muito assustador para eles.

Uma amiga contava, dias atrás, que seu marido passou uns tempos arrebatado pela agente do FBI da série americana “Fringe” (ótima, aliás!). Ocorre que Olivia Dunham, a dita agente, é uma loira linda, inteligente e destemida. E ocorre que o marido da minha amiga não estava encantado no sentido erótico convencional: ele não queria transar com Olivia Dunham, mas “ser” a agente do FBI.

Os leitores com menos imaginação e ainda presos ao velho mundo pensaram nesse instante: o cara é gay. Não, ele não é. Ele pode preferir transar com mulheres – e, no caso, faz minha amiga muito feliz – e se identificar com a agente Olivia Dunham como outros se identificam com os personagens sempre “muito machos” de Sylvester Stallone ou até com o Neymar. Há espaço para tudo. E para todos. Se podemos ter fantasias infinitas, para que se limitar, seja nós o que formos? Minha amiga, que é sábia, achou muito divertido. E, assim, teve a experiência de namorar Olívia Dunham algumas vezes. Ainda não é para qualquer um/a, mas que pena que não é.

Lembram da frase mítica? “Uma terra onde os homens são homens, e as mulheres são mulheres”. Ufa, o faroeste se foi e ninguém sabe bem o que é ser homem nem o que é ser mulher nos dias de hoje. E não, os homens também não são de Vênus, nem as mulheres de Marte. Ou será que era o contrário?

Se estivermos à altura do nosso tempo, descobriremos que há infinitas possibilidades – e não uma só – de sermos seja lá o que for. Como alguém disse no twitter: “Na vida, não limite-se. Laerte-se!”.

Eliane Brum

FONTE: Revista Época

sábado, julho 07, 2012

Oswaldo Goeldi, Chuva



Ronaldo Brito

O homem do guarda-chuva vermelho é o exemplar típico do sujeito anônimo universal. Todos nós, cada um de nós, resumido à sua condição básica – o homem sozinho dentro do mundo, diante da vida, a enfrentar como pode os elementos. À sua maneira concisa, nada grandiloquente, a pequena gravura nos reensina a ver o mundo, a senti-lo como uma cena móvel e traiçoeira, cercada de intenções e presságios inquietantes. O homem do guarda-chuva vermelho experimenta, nesse instante, a crise de consciência sobre essa verdade inelutável. Daí talvez sua imobilidade perplexa, um tanto indecisa, a posição de través face ao real – se alguma coisa, ele fita o muro à direita, e não o horizonte à frente. Horizonte que se contrai, prestes a se transformar num impasse. O plano de projeção é amplo (Goeldi interrompe o muro, nesse intuito, antes que alcance a borda da gravura), mas converge de modo drástico: ali, onde deveríamos encontrar o ponto de fuga, a abertura ao infinito, deparamos com uma passagem estreita e indefinida. Uma nesga de céu, massa recortada de nuvens cinza-esverdeadas, desce até a rua e tranca a figura dentro da cena. Essa mancha de cor meio inverossímil prossegue ao longo do muro e junta o plano vertical ao plano horizontal. Provoca ainda o contraste com a enorme mancha vermelha desse guarda-chuva que, muito mais que protegê-lo, encerra o homem em seu dilema existencial. O que dizer dessa extraordinária nota de cor? Sem dúvida, ela ilumina, dramatiza, acrescenta certa conotação simbólica à obra. Só não sabemos bem qual. De todo jeito, concentra o núcleo plástico da gravura: observamos o conjunto a partir de seu brilho. Também sua forma circular contraria o sentido linear da cena e seus elementos marcadamente horizontais e verticais. Sábia manobra arbitrária, certeira, que intriga nosso olho e o leva a buscar harmonizá-la com o entorno. Em vão, é claro, passaremos a vida a tentá-lo. O guarda-chuva é uma cúpula solta no espaço. Instintivamente, ansiamos por conhecer o rosto coberto do homem, examinar sua fisionomia. Tal qual um balão, o guarda-chuva flutua e atrai o olhar para o alto, e ao mesmo tempo radica ainda mais o homem na terra. De costume, esses objetos emblemáticos da poética de Goeldi oscilam, balançam junto a seus desgarrados usuários fustigados pela onipresente tempestade tropical. Aqui, não. Extático, soberano, ele prevalece sobre o resto e afirma sua individualidade enigmática.

A essa altura – a obra-prima é de 1957 – o expressionismo congênito de Oswaldo Goeldi (1895-1961) dominava à perfeição a economia estética do suspense. Por mais agitados que fossem seus desenhos e gravuras, apinhados de diletos escombros e detritos, passavam sobretudo a sensação de vazio. Vazio opressivo, porém, outra forma de claustro, a céu aberto. Reina aí, absoluta, a solidão incomunicável. Eis exatamente o que se comunica com fervor, o que se transmite com pungente intensidade. Presa de demorada urgência, a narrativa para no momento propício e deixa em suspenso o desfecho. Olhamos, persistimos a olhar para todo o sempre o homem do guarda-chuva vermelho, despojada gravura que ganhou o lacônico título Chuva, na expectativa de que algo afinal aconteça, quando sabemos muito bem que tal expectativa é o seu perpétuo acontecimento. A ela irresistivelmente voltamos graças à sua infalível inteligência expressiva. Em princípio, a estratégia é simples e manifesta: inverter, torcer, problematizar ao máximo, com recursos mínimos, nossos arraigados hábitos perceptivos. A começar pelo vermelho luminoso desse instrumento, à época, preto por decreto – o proverbialmente antipático guarda-chuva, ao qual Goeldi dedica ao longo de sua extensa obra um amor incondicional. No caso, é óbvio, ele não representa o frívolo acessório do gentleman: é o fardo indispensável ao homem comum em sua faina cotidiana. E reitera a vocação do artista inadaptado, na contracorrente do mundo burguês. Ele e só ele conseguiria discernir o lugar onde menos se espera, e portanto se destaca, um decidido vermelho de cádmio. Goeldi o aplica a contrapelo – de fora para dentro, quase chapado, seguindo o caminho inverso ao dos sulcos tumultuados produzidos por sua goiva, a extrair efeitos expressivos das potencialidades intrínsecas à madeira eleita. Teríamos aqui o segundo e, a meu ver, de longe o melhor partido da cor na obra de Goeldi. Em vez de mimetizar os lances sinuosos da trama em preto e branco, procurando seu equivalente cromático em tons discordantes, ele a estampa como sinal de impacto imediato, como faziam os cartazes expressionistas.

Notem a extrema sobriedade com que Goeldi controla a dinâmica conturbada da cena. Enquanto, à esquerda, o casarão de ares assombrados parece afastar-se, o muro à direita avança em nossa direção: o homem do guarda-chuva vermelho se descobre assim entre forças antagônicas. Quem sabe, por essa razão, hesite, cativo desse limiar: seguirá ou não os eventuais trilhos do bonde e a fileira incerta de árvores à frente, isto é, o curso temerário de seu destino? Sairá alguém, furtivo, de trás do muro? A julgar pelo clima grave, o homem do guarda-chuva vermelho vive a chamada hora da verdade; há que tomar enfim uma decisão. Uma série de indícios particulares atestaria, por outro lado, o caráter pedestre da situação, aludiria às incontáveis miúdas indecisões que infernizam o dia a dia do ser humano. A escolha entre as alternativas é que é falsa, ilusória – segundo essa ética exigente, mas infinitamente solidária ao sofrimento do próximo, toda hora é a hora da verdade.

Fonte: Blog do IMS
Ronaldo Brito (1949) é crítico de arte e poeta.


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