segunda-feira, abril 15, 2013

Não existe relação sexual



Já está nas livrarias Elogio ao Amor, Alain Badiou e Nicolas Truong, na tradução de Dorothée de Bruchard, (editora Martins Fontes). É um desses livros que você começa a ler e não consegue parar. Mesmo sabendo que uma releitura, mais demorada e com lápis e papel para anotações, se fará necessária.

A seguir, um pequeno fragmento do livro. Nele Badiou faz uma analise da teoria do amor de Jacques Lacan:

 - Também dialogando com Platão, o psicanalista Jacques Lacan, que é, segundo o senhor, um dos maiores teóricos do amor, sustentou que “não existe relação sexual”. O que ele queria dizer com isso?

- Essa é uma tese interessantíssima, que deriva da concepção cética e moralista, mas que leva ao resultado oposto. Jacques Lacan nos lembra que na sexualidade cada um está, na verdade, preocupado com sua própria história, digamos assim. Há, é claro, a mediação do corpo do outro, mas, no fim das contas, o gozo será sempre o nosso próprio gozo. O sexual não une, separa. Uma pessoa estar nua, colada a outra, é uma imagem, uma representação imaginária. A realidade é que o gozo nos conduz para longe, para muito longe do outro. A realidade é narcisista, o vínculo é imaginário. Não há, portanto, relação sexual, conclui Lacan – expressão que causou escândalo, porque na época todo mundo falava justamente em “relações sexuais”. Se não existe relação sexual na sexualidade, é o amor que vem suprir a falta de relação sexual. Lacan não diz, de maneira nenhuma, que o amor é um disfarce da relação sexual. O que diz é que não existe relação sexual e que o amor é aquilo que surge no lugar dessa não relação. O que é muito mais interessante. Essa ideia o leva a dizer que, no amor, o sujeito procura abordar o “ser do outro”. No amor é que o sujeito vai além dele mesmo, além do narcisismo. No sexo, ele está, no fim das contas, em relação consigo mesmo, com a mediação do outro. O outro serve para que ele descubra a realidade do gozo. No amor, em contrapartida, a mediação do outro tem valor em si. O encontro amoroso é isso: você sai em busca do outro para fazê-lo existir com você, tal como ele é. Essa é uma concepção muito mais profunda do que aquela, absolutamente banal, segundo a qual o amor não passaria de uma pintura imaginária sobre a realidade do sexo. ......

Uma ótima leitura, e uma leitura fundamenta para aqueles que vivenciam a escuta diária da clínica.