quinta-feira, dezembro 19, 2013

A instância da letra da letra ...: Ressonâncias

Escrita e Invenção


Doris Rinaldi

O poeta Manoel de Barros, em seu livro de memórias sobre a infância, intitulado Memórias Inventadas, abre o trabalho com a seguinte afirmação:“Tudo o que não invento é falso”.[1] Outro poeta, Ferreira Gullar, em recente entrevista, diz: “Um poema é uma invenção. Ele não existe antes de ser feito. Pode até sair outro... Poesia é uma aventura para captar coisas que não existem. Não está formulada. Ela não é nada. Ela é uma vontade, uma possibilidade. Só quando começa a escrever é que ganha forma”.[2]
Iniciar um trabalho sobre o tema da escrita convocando os poetas, quando a perspectiva adotada é a psicanalítica, vem reafirmar a posição sustentada tanto por Freud quanto por Lacan de que, diante da arte, estamos na condição de aprendizes, ou seja, o artista sempre precede o psicanalista e lhe abre os caminhos. Frente ao enigma da feminilidade, Freud sugeriu que consultássemos os poetas....[3].
Ainda que a psicanálise funde sua práxis na suposição de que o inconsciente é um saber falado, o interesse pela escrita está presente desde cedo na obra freudiana, quando aconselha que o sonho seja lido como uma “escritura sagrada” ou como um rébus a ser decifrado, devendo ser tomado ao pé da letra, o que pressupõe que o inconsciente deve ser pensado como um sistema de inscrições.
Lacan, por sua vez, desde o Seminário sobre A “Carta Roubada” [4], em que analisa o conto de Edgar Allan Poe, assim como do escrito “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud” [5], ambos da década de 50 do século passado, destaca o valor da escrita, em particular da letra, ao caracterizar o inconsciente a partir de sua estrutura de linguagem. Nesses textos privilegia a função do significante, concebendo a letra como seu suporte material ou como significante puro. Vinte anos depois irá aproximá-la cada vez mais do registro do Real, como o faz na lição de 13/01/76 do Seminário sobre Joyce, ao dizer que a escrita o interessa porque, “historicamente, foi por pequenos pedaços de escrita que se penetrou no real, a saber, que se cessou de imaginar. A escrita de letrinhas, letrinhas matemáticas, é isso que sustenta o real”. [6]
O ponto de partida da psicanálise é que a linguagem é habitada por aquele que fala, onde os significantes, que se modulam na voz, articulam-se uns aos outros, nos ditos e nos dizeres. Ao convidar o ser falante a dizer o que lhe vier à cabeça, a prática analítica abre espaço para emergência do sujeito, como efeito do discurso, através de um dizer verdadeiro que é sempre parcial e contingente. O dizer baseia-se na palavra e esta comporta uma dimensão imaginária, pois a fala tem função de significação; o escrito, ao contrário, dispensa esta dimensão, não exigindo necessariamente compreensão, como evidencia a escrita poética.
Como nos lembra Manoel de Barros, no poema “O apanhador de desperdícios”.[7]

“Uso as palavras para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
Fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.....”

A experiência analítica desenvolve-se através da palavra falada: se as palavras não são ditas, não basta escrevê-las; a dimensão da escrita, entretanto, já está aí colocada, pois é na medida em que o dizer se escreve que podemos supor a dimensão do saber inconsciente.
Lacan aborda a função da escrita no inconsciente e na constituição do sujeito a partir do traço unário, neologismo que constrói com base na noção de traço único (einziger Zug) formulada por Freud na teoria da identificação.[8] Ele retoma essa noção, dando-lhe um caráter estrutural, como marca primeira que inaugura o sujeito.  Essa marca inscreve uma diferença a partir da qual o sujeito insere-se em uma série simbólica. Como letra, ao mesmo tempo em que representa o sujeito no seu nascedouro, possibilitando uma identificação simbólica, traz a memória de um gozo perdido, que inaugura o processo de repetição característico do movimento inconsciente. Há, portanto, algo da ordem de uma escrita primordial que marca o sujeito na sua singularidade, onde se articulam letra e gozo. O significante é uma invenção a partir de alguma coisa que já está lá para ser lida. Não se trata, portanto, na experiência analítica, apenas de escuta, mas do que se lê no que se escuta. Poderíamos dizer que se trata de uma releitura, já que a própria fala do sujeito, seus sonhos, sintomas e fantasias são da ordem de uma primeira leitura das marcas primordiais que recebeu do Outro, ao fazê-las suas.
Alguns elementos da história do advento da escrita ajudam a pensar a função do traço unário como escrita primordial que funda o sujeito. É o que Lacan nos traz no Seminário IX, A identificação[9], quando chama a atenção para o fato de que, mesmo admitindo-se que o homem, desde que é homem, tem uma missão vocal como falante, há uma série de traços e traçados encontrados em material pré-histórico que são marcas significantes que poderíamos chamar de letras. Os ideogramas apresentam algo muito próximo de uma imagem, mas que se torna ideograma na medida em que se apaga cada vez mais o caráter de imagem. A escrita cuneiforme nasce assim. São traços que saem de algo figurativo, mas um figurativo apagado, recalcado ou mesmo rejeitado. O que fica é da ordem do traço unário, que funciona como distintivo, como marca.
Alguns estudos indicam que os significantes da escrita foram primeiramente produzidos como marcas distintivas, bem antes do nascimento dos caracteres hieróglifos. Na cerâmica da indústria pré-dinástica encontram-se quase todas as formas que foram utilizadas em seguida na evolução histórica, nos alfabetos grego, latino, fenício. A escrita como conjunto de marcas, como indica Lacan, “esperava para ser fonetizada, e é na medida em que ela é vocalizada, fonetizada como outros objetos, que a escrita aprende, se posso dizer assim, a funcionar como escrita”.[10]
Há, portanto, um tempo demarcado historicamente em que há algo para ser lido com a linguagem quando ainda não há escrita. É pela inversão dessa relação de leitura do signo que pode nascer, em seguida, a escrita, uma vez que ela serve para conotar a fonematização.
O que é importante assinalar nesse processo é que essas marcas são sempre marcas apagadas, rasuradas, que se transformam em escrita na medida em que são apropriadas pela linguagem, evidenciando algo de radical no enlaçamento da linguagem com o real. O que representa o advento da escrita é que alguma coisa que já é escrita, como traço, ao ser nomeada pela fala, pode servir de suporte à própria escrita. O sujeito, a propósito de algo que é marca, já lê antes de se tratar dos sinais da escrita e associa essas marcas a pedaços recortados de sua fala. São eles que, numa inversão, servirão em seguida como suporte fonético.
Na constituição do sujeito, o traço unário tem essa função de bastão, como traço distintivo, tanto mais distintivo quanto mais está apagado, pois é na medida em que se reduz ao traço sem qualidades, isto é, quanto mais ele é semelhante, puro bastão, mais ele funciona como suporte da diferença. É isso que introduz no real do ser falante a diferença como tal, já que no real não há nada. Se o traço apaga a Coisa (das Ding), dela restando apenas rastros de gozo, a passagem ao significante se dá a partir dos diversos apagamentos que farão surgir o sujeito em seus diferentes modos de manifestação. O traço unário é significante, portanto, não de uma presença, mas de uma ausência apagada que, a cada volta, a cada repetição, presentifica-se como ausência. É aí que se localiza o ponto radical, arcaico, suposto na origem do inconsciente. Ao supormos que o inconsciente é o lugar do sujeito onde isso fala, nos aproximamos desse ponto onde alguma coisa, à revelia do sujeito, é remanejada pelos efeitos de retroação significante, implicados na fala.
O significante é uma invenção a partir dessa marca apagada, assim como o saber, na medida em que inventamos sempre alguma coisa para contornar o nada do real. O mundo é uma hipótese, onde o sujeito reinventa-se continuamente, e ninguém melhor do que os escritores – especialmente os poetas - para trazerem isso à tona, a partir de seu savoir-faire com a língua. Eles evidenciam essa função da letra como aquilo que desenha a borda do furo do saber, como um litoral entre simbólico e real.

Lembrando Ferreira Gullar, citado na introdução desse trabalho,
"Um poema é uma invenção. Ele não existe antes de ser feito. Pode até sair outro...
ou  Manoel de Barros, quando diz:  "Uso as palavras para compor meus silêncios".

A escrita, portanto, não é impressão, decalque do significante. O que ela decalca são, como diz Lacan em “Lituraterra”, "os efeitos de língua, o que [do significante] se forja por quem a fala".[11] A letra, nesse sentido, ainda que sirva de apoio ao significante, não deve ser pensada como primária em relação a ele, mas antes como conseqüência do fato da linguagem ser habitada por quem fala. No campo do significante estamos, contudo, na dimensão do semblante, isto é, do "parecer", da ficção, em cujo ponto de ruptura, ou de transbordamento, emerge o real. Nesse lugar a psicanálise evoca o gozo.
Entre o saber e o gozo, a letra faz litoral que, como ponto de virada sempre buscado no movimento de repetição que constitui o inconsciente, transforma-se em literal. O traço unário, herança do Outro, situa-se exatamente aí, como um sulco que a linguagem faz no real do ser falante e é, ao mesmo tempo, de seu apagamento e de sua repetição que nasce o sujeito como uma invenção a ser sustentada permanentemente. É nesse movimento que constituirá sua verdade, sempre fictícia, sempre marcada pela parcialidade, mas que determinará a sua diferença. Como nos diz o poeta Manoel de Barros: "Tudo o que não invento é falso".
A escrita cava sulcos no real, ao apropriar-se dos efeitos do significante recortando pedaços de real, através da letra. Por isso Freud afirma que o sonho, como via régia de acesso ao inconsciente, deve ser tomado como uma escritura sagrada, pois é em sua letra que se pode apreender a dimensão real, enigmática do inconsciente, o umbigo de onde nasce o desejo, e, ao mesmo tempo, as vias significantes por onde ele caminha.
É o que também nos leva a sustentar que a literatura, como “acomodação de restos”[12], ensina à psicanálise, pois ao recortar esses restos e transmiti-los pela escrita, ela revela algo dessa dimensão fundadora do inconsciente humano. Como nos ensina mais uma vez Manoel de Barros, quando diz:

“Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
Como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática: eu sou da invencionática.
Só uso palavra para compor meus silêncios”.[13]

Foi o que fascinou Lacan na escrita de Joyce, levando-o a dedicar um seminário inteiro ao escritor irlandês. Em conferência proferida na Universidade de Yale (24/11/75), afirmou que se interessava mais pela letra do que pela literatura e que Joyce o fascinou justamente porque tentou ir além da literatura, quebrando palavras e segmentando frases, numa tentativa de dissolver a própria linguagem.

Na experiência analítica estamos necessariamente no campo da linguagem e da palavra falada. Se esta dá notícias de inscrições apagadas, retomadas a cada volta no processo de invenção do sujeito que o percurso de uma análise reinventa, é nesse movimento mesmo de falar que algo se escreve, fazendo surgir a letra como litoral de gozo, na composição de uma escrita em que nada mais há a fazer para decifrá-la.

Referências Bibliográficas:
BARROS, M. Memórias Inventadas - A Infância, São Paulo, Planeta, 2003.
FREUD, S. “Psicologia de grupo e análise do eu” (1921) in Obras Psicológicas Completas, Edição Standard Brasileira, Rio de Janeiro, Imago Editora,1980
_______ Conferência XXXIII “Feminilidade”(1933) Novas Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise in Obras Psicológicas Completas, Edição Standard Brasileira: Rio de Janeiro, Imago Editora, 1980.
GULLAR, F.  Entrevista in Jornal O Globo de 12/08/2006.
LACAN, J. “O seminário sobre “A carta roubada”” (1955) in Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.1998.
__________. “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud” (1957) in Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.1998.
LACAN, J. A identificação: Seminário 1961-1962, Recife Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2003. (publicação para circulação interna).
_______   Le séminaire, Livre 23, Le  Sinthome, Paris, Editions du Seuil, 2005.
___________ “Lituraterra”(1971), in Outros Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2003.




[1] Barros, M. Memórias Inventadas - A Infância, São Paulo, Planeta, 2003.
[2] Gullar, F.  in Jornal O Globo, 12/08/2006.
[3] Ver Freud, S. Conferência XXXIII “Feminilidade”(1933) Novas Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise in Obras Psicológicas Completas, Edição Standard Brasileira: Rio de Janeiro, Imago Editora, 1980. p.165.
[4] Lacan, J. “O seminário sobre “A carta roubada”” (1955) in Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.1998.
[5] Lacan, J. “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud” (1957) in Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.1998.

[6] Lacan, J. Le séminaire, Livre 23, Le  Sinthome, Paris, Editions du Seuil, 2005.
[7] Barros, M. “O apanhador de desperdícios” in op.cit.
[8] Freud, S. “Psicologia de grupo e análise do eu” (1921) in Op. Cit.
[9] Lacan, J. A identificação: Seminário 1961-1962, Recife Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2003. (publicação para circulação interna).
[10] Ibidem, p.93.
[11] Lacan, J. “Lituraterra”(1971), in Outros Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2003.
[12] Ibidem, p.16.
[13] Ibidem.

quinta-feira, dezembro 12, 2013

"O Desejo e sua Interpretação"


Entrevista feita pelo jornal francês Le Point ao psicanalista Jacques-Alain Miller por ocasião do lançamento da versão estabelecida por ele de O Seminário, livro 6: o desejo e sua interpretação de Jacques Lacan. Questões sobre a distância entre o desejo e a biologia, a ordem e a normalização social são discutidas. O desejo, do qual Lacan foi um professor, não se limita ao Édipo. Disso decorre, aponta Miller, o elogio da perversão que, no sentido de Lacan, traduz uma rebelião contra a identificação conformista que assegura a manutenção da rotina social. Além da entrevista, o texto apresenta com exclusividade trechos de um Seminário inédito sobre o assunto.

Lacan, professor de desejo
Jacques-Alain Miller



Um duende travesso que nos prega peças: este é o desejo, segundo Jacques Lacan. Le Point apresenta com exclusividade trechos de um Seminário inédito sobre o assunto. Estabelecido por seu redator, o psicanalista Jacques-Alain Miller. Entrevista realizada por Christophe Labbe e Olivia Recasens.

Le Point: Lacan nos disse que o desejo não é uma função biológica. O que devemos deduzir disso?

Jacques-Alain Miller: Que você não encontra o desejo já pré-formado no organismo. Ele não é um instinto, se com isso entendemos um saber infalível inscrito no real do corpo e que o conduziria direto ao objetivo: seu bem-estar, sua vida, a sobrevivência da espécie. Muito pelo contrário, o desejo se extravia. Este é um traço que constantemente reconhecemos nele. Desde sempre se deplorou e se censurou suas aberrações, suas extravagâncias, suas errâncias. Tentou-se de tudo para educá-lo, regulá-lo, dominá-lo, mas em vão: ele só faz o que lhe dá na cabeça. Disso resulta a ideia de que o desejo não decorre da natureza: ele se deve à linguagem. É um fato de cultura, ou, mais exatamente, um efeito do simbólico. Lacan fala da “ordem simbólica”.  

Como falar de ordem quando o desejo faz, de preferência, desordem?
De fato. E vimos, muito recentemente, a noção de ordem simbólica angariar adeptos entre os opositores ao casamento gay. Todavia, a distribuição de cartas está errada. A ordem simbólica designa um conjunto de leis – leis linguísticas, dialéticas, matemáticas, sociológicas -, mas o complexo de Édipo não faz parte dele. Lacan sempre qualificou o Édipo de mito. E, em suma, isso foi bastante generoso, pois as versões triviais dadas dele estão mais próximas do espetáculo de variedades do que da tragédia grega, do tipo: é preciso que papai imponha a lei à mamãe para que a filha e o filho sejam o que devem ser. Lacan previa que esse programa não ficaria muito mais tempo em cartaz e é bem a isso que assistimos.

No entanto, Lacan fala de “estrutura edipiana”…
Sim, isso não é um mito nem o casting de um espetáculo de marionetes. É uma combinatória distribuindo termos nos lugares aos quais se ligam funções. Mas não é de modo algum necessariamente o Nome-do-Pai que ocupa a posição mestra, aquela que sustenta o mundo, a pedra angular. Isso pode muito bem ser um sintoma! E, quando este é o caso, mesmo que o sujeito queira dele se desembaraçar porque isso o incomoda, o terapeuta deve se preservar de tocá-lo, senão tudo desmoronaria. O desejo é em primeiro lugar o efeito da estrutura da linguagem. O desejo só é concebível entre os seres falantes. Podemos explicá-lo assim: na espécie humana, o filhote não pode satisfazer sozinho suas necessidades mais elementares, ele deve passar por um Outro, com letra maiúscula, capaz de satisfazê-las e, para tanto, deve falar sua linguagem, endereçar-lhe uma demanda. Tudo decorre disso. Esse apelo faz do Outro um objeto de amor. Simultaneamente, a transposição da necessidade em demanda produz uma decalagem: é aqui que se aloja o desejo. Ele corre sob tudo o que você diz, inclusive nos seus sonhos, sem poder ser dito às claras. Por essa razão, ele dá matéria à interpretação.

O objeto do desejo é, então, forçosamente inapreensível?
O desejo não está coordenado a um objeto natural ou social. Seu objeto não se encontra na realidade comum, mas na fantasia individual. Como tal, não é um objeto do qual se precisa e não se pode obtê-lo pela demanda. É, antes, um objeto que, se assim posso dizer, o deixa de boca aberta. Num tratamento analítico, constatamos que a confissão da fantasia é com frequência o mais difícil. A relação do sujeito do conhecimento com o objeto do conhecimento é tradicionalmente descrita como harmoniosa e complementar. No registro do desejo, a relação do sujeito com o objeto é completamente diferente. Lacan mostra que o aparecimento do objeto do desejo se marca, do lado do sujeito, por um fading: o sujeito não consegue se manter, ele evapora, desaparece. É nisso que ele passa ao inconsciente.

Como as sociedades podem se manter de pé se cada um for obcecado por sua fantasia particular ?
Precisamente por ser labiríntico e divagar, o desejo suscita, em contrapartida, a invenção de diversos artifícios desempenhando o papel de bússola. Considerem uma espécie animal: ela tem uma bússola natural, que é única. Na espécie humana, as bússolas são múltiplas, concorrentes, evolutivas. Elas não são instituídas pela natureza, são artifícios, montagens significantes, o que Lacan chama de discursos. Esses discursos dizem o que é preciso fazer: como pensar, como gozar, como se reproduzir. Entre esses discursos, há alguns de grande amplidão e de muito longa duração: as civilizações, as religiões. Eles organizam a cidade, suas produções, as crenças. Numa outra escala, cada família tem seu discurso: um sistema de valores, uma visão do mundo, um estilo de conflitos, etc. Todavia, a fantasia de cada um permanece irredutível aos ideais veiculados pelos discursos.

Qual norte indicam essas bússolas?
Até recentemente, todas indicavam o mesmo norte: o Pai. As civilizações, as religiões, as sociedades eram patriarcais. O patriarcado, como forma de organização social, parecia ser uma invariante antropológica. O declínio do discurso patriarcal acelerou-se com a igualdade de condições, a ascensão do poder do capitalismo, a revolução industrial. Balzac o assinala em meados do século XIX, Hannah Arendt na metade do século XX: a autoridade declina, a autoridade não é mais uma via que satisfaz a humanidade. O próprio de Gaulle, figura autoritária, caso houvesse uma, queria inaugurar a era da “participação”.

Isso significa dizer que saímos da idade do Pai?
Um outro discurso está em via de suplantar o discurso único de outrora. A inovação no lugar da tradição. A atração do futuro, ali onde o peso do passado acorrentava. Mais do que a hierarquia (vertical), a rede (horizontal), o feminino passando à frente do viril. Não se conserva mais uma ordem em seus limites imutáveis; as pessoas se inscrevem em fluxos transformacionais repelindo incessantemente seus limites.

E o Édipo freudiano em tudo isso?
Freud é, sem dúvida alguma, da idade do Pai. Ele muito fez para salvar o Pai. A Igreja, por fim, acabou se dando conta disso e deixa seus teólogos mais avançados celebrá-lo. Lacan seguiu a via aberta por Freud, mas ela o conduziu a outro lugar. A experiência analítica mostra que o próprio Pai é um sintoma. O desejo do Pai, o desejo pelo Pai se deixa interpretar. Neste livro, Lacan o mostra, valendo-se do exemplo de Hamlet, de Shakespeare. O príncipe Hamlet é encostado à parede pelo fantasma do Pai. A fala do Pai o torna literalmente doente, o enlouquece, ela é seu sintoma. O desejo de Hamlet, cativo do Pai, acaba por se emancipar dele, mas ao preço da morte. Este Seminário é a um só tempo um grande livro de teoria e um grande livro clínico. Lacan dá também uma clínica inédita do exibicionismo e do voyeurismo. Compreende-se em quê todo desejo tem um núcleo perverso.

O Seminário termina, inclusive, com um enaltecimento da perversão!
O que comumente se reteve de Lacan foi sua ênfase no Édipo, o destaque dado à função do “Nome-do-Pai”, e a colocação em fórmulas da montagem freudiana. Esse foi o ponto de partida de Lacan. Mas, desde seu Seminário VI, o conceito de desejo desloca as coisas. O Édipo não é a solução única do desejo, é apenas e também sua forma “normal”, normalizada, sua prisão. O Édipo também é patógeno. O destino do desejo não limita o Édipo. Disso decorre o elogio da perversão que termina o volume. A perversão, no sentido de Lacan, traduz uma rebelião contra a identificação conformista que assegura a manutenção da rotina social. Uma vez que, segundo Freud, a pulsão pode perfeitamente se satisfazer na sublimação, ou seja, nas atividades ditas culturais, ela não se confunde com a “substância da relação sexual”. Esvaziada do gozo sexual, a pulsão subsiste como forma cultural, na qual flui o gozo da letra propiciado pela arte e pela literatura.

Lacan anunciava “o remanejamento dos conformismos anteriormente instaurados e até mesmo sua explosão”. Chegamos aí?
Este Seminário fala de 2013. Os partidários do Pai desfilam nas ruas em nome da tradição, ao passo que os do “Vovozão” (Pépère)  pretendem criar normas que substituam essa tradição. O psicanalista não tem vocação de se fazer o guardião da ordem antiga, o cavaleiro de uma causa perdida. Ele também não pode crer nos amanhãs que cantam: a via do desejo não é uma partida de prazer. Portanto, ele interpreta. Se ele deve escolher, a escolha é forçada. Pois todo voltar para trás é impossível.
Trechos de O Seminário, livro 6: o desejo e sua Interpretação  

“O desejo contra a normalização social”
“O que eu designo com a palavra cultura – palavra de que gosto muito pouco, e mesmo de modo algum -, é uma determinada história do sujeito em sua relação com o logos. Indubitavelmente, na época em que vivemos, é difícil não ver a que distância de uma certa inércia social a relação com o logos se situa. É por essa razão que o freudismo existe em nossa época. O que passa da cultura para a sociedade inclui sempre alguma função de desagregação. O que se apresenta na sociedade como a cultura – e que entrou, portanto, em certo número de condições estáveis, elas também latentes, que determinam os circuitos das trocas no interior do rebanho – instaura nela um movimento que deixa aberta ali a mesma hiância em cujo interior situamos a função do desejo. Nesse sentido, aquilo que se produz como perversão reflete, no nível do sujeito lógico, o protesto contra o que o sujeito sofre no nível da identificação, uma vez que esta é a relação que instaura e ordena as normas da estabilização social das diferentes funções. Alguma coisa se instaura como um circuito girando entre, de um lado, o conformismo, ou as formas socialmente conformes da atividade dita cultural [...] e, do outro, toda estrutura semelhante àquela da perversão, visto que ela representa no nível do sujeito lógico, e por uma série de degradês o protesto que, aos olhos da conformização, se eleva na dimensão do desejo, uma vez que o desejo é relação do sujeito com seu ser.
Aqui se inscreve a sublimação, que é a forma mesma na qual flui o desejo. O que Freud nos indica, é que essa forma pode se esvaziar da pulsão sexual – ou, mais exatamente, que a própria pulsão, longe de se confundir com a substância da relação sexual, é esta forma mesma. Em outras palavras, fundamentalmente, a pulsão pode se reduzir ao puro jogo do significante. É assim que podemos também definir a sublimação.
A sublimação é aquilo pelo qual podem se equivaler o desejo e a letra. Aqui – em um ponto tão paradoxal como o é a perversão, entendida sob sua forma mais geral como aquilo que, no ser humano, resiste à toda normalização -, podemos ver se produzir essa aparente elaboração no vazio que chamamos de sublimação e que, em sua natureza tanto quanto em seus produtos, é distinta da valorização social que se lhe dará ulteriormente.
A sublimação como tal se situa no nível do sujeito lógico, ali onde se instaura e se desenvolve tudo o que é, para falar com propriedade, trabalho criador na ordem do logos. Daí, as atividades culturais vêm mais ou menos se inserir na sociedade, vêm mais ou menos encontrar seu lugar no nível social, com todas as incidências e todos os riscos que elas comportam, até e inclusive o remanejamento dos conformismos anteriormente instaurados, e mesmo sua implosão”. (Adaptado do capítulo XXVII).

“A histérica e o obsessivo”
“Qual função a histérica se dá a si mesma?” É ela que é o obstáculo, é ela que não quer. Seu gozo é impedir o desejo. Esta é uma das funções fundamentais do sujeito histérico nas situações tramadas por ela – impedir o desejo de vir a termo para permanecer ela própria o que nele está em jogo. O lugar tomado pela histérica nessas situações é aquele que poderíamos chamar, usando um termo inglês, a puppet, que é alguma coisa como um manequim, mas com o sentido mais ampliado de falso-semblante. A histérica introduz, com efeito, uma sombra que é seu duplo, sob a forma de uma outra mulher, por intermédio da qual seu desejo deve precisamente se inserir, mas de maneira oculta, uma vez que é preciso que ela não o veja [...].
Embora a histérica se apresente eventualmente como a mola da máquina à qual estão suspensos, um em relação ao outro, esses tipos de marionetes, ela, no entanto, está no jogo sob a forma daquela que é, no fim das contas, seu móbil.
O obsessivo, em contrapartida, tem uma posição diferente. Ele permanece fora do jogo. O obsessivo é alguém que nunca está verdadeiramente ali onde alguma coisa está em jogo e que poderia ser chamada de seu desejo. Ali onde ele aparentemente arrisca o lance, não é ali que ele está.
Do desaparecimento do sujeito ao ponto de aproximação do desejo ele faz, digamos, sua arma e seu esconderijo. Ele aprendeu a se servir disso para estar em outro lugar.
Ele só pode fazer isso desdobrando no tempo, temporalizando essa relação, remetendo sempre ao amanhã seu engajamento na verdadeira relação com o desejo. Enquanto a relação com o desejo tem, na histérica, uma estrutura instantânea, é sempre para o amanhã que o obsessivo reserva o engajamento de seu verdadeiro desejo. Isso não significa dizer que, enquanto espera esse termo ele não se engaje em nada, muito longe disso – ele prova seu mérito. Bem mais que isso, ele pode chegar até a considerar o que ele faz como um meio de adquirir méritos para si. Méritos em que?
Em reverenciar o Outro em lugar de seus desejos.
Uma vez em análise, ele poderá ter a mínima visão refletida sobre sua situação, ele ficará por fim completamente surpreendido ao perceber que o sujeito que se sustenta nessa situação está exposto a todos os tipos de atitudes contorcidas e paradoxais, que o designam para si mesmo como um neurótico atormentado pelos sintomas”.
(Adaptado do capítulo XXIV).

Tradução: Vera Avellar Ribeiro
FONTE: Site EBP 

  

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