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quinta-feira, julho 25, 2013

O Corpo como ....



O Corpo como “Veículo de Ser"na Construção da Masculinidade 


Um ótimo texto de Aurivar Fernandes Filho



O presente artigo buscou compreender o corpo como um veículo no ser na construção da masculinidade; para tanto, utilizou-se de uma pesquisa bibliográfica, enfocando o método fenomenológico, trazendo autores que abordam a masculinidade, gênero, o estudo do corpo e, principalmente, por meio de uma visão merleaupontyana; apontando os mecanismos 
utilizados através dos tempos – de modo resumido – pelos quais a masculinidade construiu-se pelo corpo e continua sendo construída, como um texto a ser lido pelo outro. 

Continue lendo em:


http://www.revistas.univerciencia.org/index.php/anagrama/article/viewFile/8538/7869



terça-feira, maio 14, 2013

AMOR, SIGNIFICANTE E GOZO



O Amor e o Super-Eu na Contemporaneidade


O que é o amor para o super-eu na lógica da vida amorosa dos dias atuais?

Partamos da afirmação de J.-A. Miller no texto, Extimidade (1) – “...há uma solidariedade entre o amor e o gozo”.

Ao dizer que “...só o amor consente ao gozo condescender ao desejo”(2), Lacan nos permite deduzir que a relação entre amor e gozo não deve ser pensada exclusivamente como uma relação de oposição, mas que existem pontos de aproximação entre o amor e o gozo que devemos observar, uma vez que, na experiência analítica ambos se expressam como uma demanda e no nível da contingência.

Sabemos com Lacan que nenhum dizer escapa à parcialidade da pulsão sexual. A linguagem despedaça as pulsões tornando-as sempre parciais. O objeto da pulsão é assexuado, o que quer dizer que a sexualidade do falasser não está ligada à diferença anatômica dos sexos sobre a qual o inconsciente nada sabe, o inconsciente é mudo.

Enquanto as pulsões parciais ignoram a diferença dos sexos, no inconsciente, essa diferença é significantizada e reduzida à dialética do ser ou ter o falo. O Édipo freudiano põe uma questão: como pode um homem amar sexualmente uma mulher?

E do lado mulher? Freud responde com a famosa pergunta: “o que é uma mulher”? Porque sabe que o Édipo freudiano faz o homem, mas não faz a mulher, Lacan tentou responder a questão de Freud com a lógica do não-todo. Se o final de análise diz respeito à lógica do não-todo, como o modo de gozo do homem e da mulher se aproximam e como estão separados? São dessas questões que vamos tentar nos aproximar nesse trabalho.

Lacan constrói as fórmulas da sexuação no Seminário 20 (3) para circunscrever o modo de gozo próprio a cada sexo. Apresenta a sexuação do falasser submetida a duas lógicas diferentes: do lado masculino, a lógica organizada pelo signifi cante do gozo, cuja presença/ausência nos remete a castração. A lógica fálica é responsável pela organização de um modo de gozo fi nito e contável – o gozo fálico, que permite fazer conjunto sob a fórmula de que todo x é castrado. E, do lado mulher, a lógica do não--todo, a lógica do feminino, onde falta um significante que possa circunscrever o gozo e que resulta no gozo-excesso, no gozo que tende ao infinito – o gozo suplementar.

Desse modo, o estatuto da mulher, em oposição ao estatuto fálico, é o estatuto do não-toda, fora do universal que poderia escrever o conjunto das mulheres. Assim, A mulher não se escreve, formulado no axioma de Lacan – “A mulher não existe”, contudo, existe A/ mulher. Quer dizer, o feminino não forma um conjunto, pois não se tem o critério que estabelece que todo x é castrado. No feminino, temos o não-todo – nem todo x está submetido à castração – do lado da mulher e que pode ser alcançado pelo homem, no final de análise.

Com essas duas modalidades de gozo Lacan tenta dar conta, respectivamente, do amor fetichista do homem e do amor erotomaníaco da mulher. Essas formas de gozo indicam o que um sexo irá procurar no Outro – o modo de relação com o objeto.

No fantasma fetichista do homem – $ ◊ a – o gozo se objetifica, aparece sem relação ao Outro, na imagem de um objeto inerte e opaco, um objeto mudo que permite copular sem falar, enquanto que o objeto erotomaníaco do fantasma feminino, é um objeto que toma a forma do Outro que fala, porque para a mulher, é imprescindível falar para amar e amar para desejar – falar é dar o que não se tem, é dar amor.

A partir desse binarismo da sexuação, Miller vai dizer que “...a mulher é um sintoma para o homem e o homem é uma devastação para a mulher(4).

O sintoma é passível de ser identificado e decifrado, enquanto o sintoma da devastação como retorno da demanda de amor, como a outra face do amor, leva ao sem limite, ao infinito, porque está articulada à inconsistência do Outro – S(A/). A ausência do significante fálico, da qual padece o feminino, aparece e torna evidente a demanda por um significante do campo do Outro que possa nomear o seu ser de gozo. A armadilha do amor erotomaníaco se desvela, quando de arrebatada e deslumbrada com a condição de amada e única, a mulher passa a resto abandonado. Aí, é quando, ao retornar a posição de sujeito, o amor tornar-se o ódio.

 A clínica com o feminino demonstra que o movimento em direção ao infinito, próprio ao gozo suplementar, pode facilmente adquirir o estatuto de um imperativo super-egóico mortífero que arrebata o sujeito e do qual ele não mais detém o controle. E, quando o sujeito consente e se entrega a este impulso da pulsão de morte, pode arruinar a sua própria existência.

Assim sendo, podemos dizer que a devastação é o outro nome do que diz Lacan: “amo em ti algo mais do que tu – o objeto a minúsculo, Eu te mutilo(5).

A ESCRITA, O ESCRITO E O GOZO
J.- A. Miller no texto “Uma conversa sobre o amor(6), comenta que na vida amorosa há o vínculo do gozo com o Outro do significante, com o Outro do amor e o vínculo com o gozo como tal, com o gozo da Coisa.

Lacan ao falar do valor da “Carta de Almor(7), demonstra que na escrita, o amor está constituído no nível em que o gozo se articula com o Outro do significante. Lacan situa a carta de amor do lado feminino da sexuação, porque representa uma exigência de que o objeto seja um Outro que fale. A carta de amor é uma escrita a partir da ausência do objeto de desejo, movida pela nostalgia do objeto perdido, porém, não sem esperança de recuperá-lo.

A carta de amor é uma escrita onde, ao ler, vamos encontrar, no olhar, a demanda do sujeito pelo desejo do Outro e, na voz, a demanda do Outro pelo desejo do sujeito. Portanto, tanto o olhar quanto a voz como objetos do desejo, estão presentes na carta escrita do lado da demanda, já que o desejo comporta, desde sempre, a falta do objeto perdido, daí a impossibilidade de se alcançar a satisfação plena.

Isto é, a carta de amor alcança apenas o gozo pulsional. E, na medida em que a pulsão é sem objeto, o sujeito fica apenas com a carta escrita, extraindo satisfação da ausência do objeto amado.

Do lado feminino, na falta de um significante fálico que possa circunscrever e organizar o gozo, podemos supor que a escrita de uma carta de amor, pode servir ao sujeito para se defender do gozo desenfreado e excessivo do super-eu, mesmo que nela, o sentido sobre o seu ser esteja ausente.

A escrita permite distinguir o gozo da demanda infinita ao Outro, gozo do sentido, do gozo do escrito no significante, do gozo sem-sentido, do gozo da letra, do gozo do Um sozinho, sem o Outro – gozo de das Ding.

No escrito a letra é comutada a objeto de gozo, sem Outro. No escrito o gozo é silencioso, independe da demanda, não se espera mais que a demanda seja atendida. Trata-se de saber fazer com o gozo na ausência do amado.

 O sujeito suposto saber demonstra que ao falar em análise, a voz ilumina o escuro do que “já estava escrito”, no ato de ler e se fazer escutar, pacificando a relação do falasser com a voracidade do super-eu.

 Enfim, escrever é a via possível de apreender o que a palavra não alcança, apreender o escrito na palavra e poder ser artífice do seu próprio bem-estar.

NOTAS
1 Miller, J.-A - Conferência de 19 de fevereiro de 1986, em Paris. (Separata)
 2 Lacan, J. – “Kant com Sade”. In Escritos. Jorge Zahar Ed, p. 776
3 Idem – “Letra de uma Carta de Almor”. In O Seminário, livro 20: mais,ainda. Jorge Zahar Ed,  p. 105
4 Miller, J.-A – “O osso de uma análise”. Biblioteca – agente, p. 114. Salvador-Ba, 1998
5 Lacan, J. – O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Jorge Zahar Ed, p. 249
6 Miller, J.-A – “Uma conversa sobre o amor”. Opção lacaniana On line. Julho de 2010
7 Lacan, J. – “Letra de uma Carta de Almor”. In O Seminário, livro 20: mais,ainda. Jorge Zahar Ed, p. 105.

Texto de: Reinaldo Pamponet
FONTE: Gente – Revista de Psicanálise

terça-feira, outubro 23, 2012

Relações Líquidas


Um clique e anos de fotografias, marcas de uma história de amor, desaparecem sem deixar vestígios. Dois toques e todos os números dela são desintegrados para sempre do telefone celular. Três teclas pressionadas e o Facebook altera o estatuto de uma relação, adicionalmente evacuando todos os contatos, a partir de então, indesejáveis.  Quatro cliques e os e-mails dele vão para o cemitério infinito, sem lugar e sem rastro.  Aquele, cujo nome não deve mais ser pronunciado, foi devidamente excluído de sua vida.  Você está pronto para começar de novo. A verdadeira relação “líquida” deve corresponder ao que alguns analistas de consumo chamam de geração “teflon”, ou seja, “feita para que nada grude”.  Tida como inodora, insípida e translúcida, esta forma de vida inspira duas dificuldades às quais os psicanalistas têm dedicado vasto esforço interpretativo: a separação e o compromisso.

Boa parte da literatura sobre luto e perda trata também, indiretamente, do difícil trabalho de recomeçar. Certos clínicos argumentam que um grande amor só acaba quando conseguimos iniciar outro. De fato, mesmo sozinhos nós continuamos amando. Cedo ou tarde a série dos amantes começa a dar os braços uns aos outros, como em um anel de benzeno que se fecha sobre si mesmo. Reconstruímos histórias imediatas ou antigas, reforçamos os laços colaterais de amizade, reinvestimos ligações primárias, criamos amores possíveis como na literatura e no cinema. Reinventamos amores impossíveis com nossa memória e fantasia. Freud dizia que a neurose ataca nossa capacidade de amar, substituindo-a pela fuga da realidade, quando o objeto se esvai, ou pela fuga para a realidade, quando é  o “aparelho de amar” que se vê danificado. 

Na década de 90 cardiologistas japoneses descreveram a síndrome do coração partido (takotsubo), similar a um ataque cardíaco, com testagem positiva para enzimas e alteração do funcionamento do ventrículo esquerdo – mas sem obstrução coronariana. Contudo, o quadro é reversível e não deixa sequelas, afetando caracteristicamente mulheres em pré-menopausa, que passaram por grandes perdas ou desilusões amorosas. A síndrome está associada ao estilo de vida moderno, que vem transferindo para o universo das relações amorosas os princípios de desempenho, avaliação de resultados, análise de risco e segurança jurídica que presidem as relações de trabalho e produção. 

A descoberta faz lembrar um experimento clássico no qual dois ratos nadam em um tanque de água. O primeiro é deixado livremente até morrer exausto após duas ou três horas. O segundo é retirado da água um pouco antes do momento crítico e recolocado na mesma situação, após um descanso. O animal que passou pela experiência de ter sido salvo “no último instante” parece aprender algo muito poderoso, pois se torna capaz de nadar por um tempo dez vezes maior do que o outro. O exame do coração do primeiro rato mostra que ele parou em bradicardia (diminuição da frequência cardíaca), ou seja, lentamente ele foi desistindo de funcionar, deixando-se derrotar pela tarefa “sem sentido” de nadar sem saber aonde aquilo ia dar. Já o segundo rato lutou até explodir.

Também na clínica algumas separações que não terminam nunca, talvez não sejam casos de dificuldade em aceitar a perda, mas de recusa a começar de novo.  Aquilo que é sentido como insubstituível no amor que agora se foi, talvez seja o correlato de uma boa experiência anterior de “salvamento no último segundo”. A permanência irresistível e insidiosa em algo que nos possui, com toda a sua sujeira, turvação e amargura, talvez seja uma espécie de retorno do que a vida líquida recalca, uma vingança do desejo de permanecer para sempre, sem ter de começar de novo. A síndrome do coração partido ataca na primavera, a estação dos começos. Os ratos que começam de novo não conseguem mais reconhecer a hora de parar. Na vida em formato de videogame aprendemos muito sobre como deletar pessoas e apagar e-mails, mas pouco sobre a arte de desistir, de se despedir e guardar as fotos de recordação, com carinho e gratidão, depois de ter feito tudo o que é possível.

Christian Ingo Lenz Dunker - Psicanalista


quarta-feira, janeiro 04, 2012


DIGITE-ME QUE TU ANDAS E TE DIREI QUEM ÉS

OU

O ESTATUTO DE DEUS, DA CLÍNICA E DA HUMANIDADE EM NOSSA COMTEMPORANEIDADE

Gustavo Capobianco Volaco


No princípio era o verbo.
                               São João.
No princípio era o ato.
            Goethe.

Acredito que vocês conheçam o célebre aforismo de Nietzsche
“Deus está morto (...) e quem o matou fomos nós”
Pois bem, eis o que me parece uma inverdade, uma falácia, um, para ser cortês e mais preciso, um sofisma. Vocês sabem o que é um sofisma, não é mesmo? Um sofisma é uma argumentação lógica que visa, em sua base, levar-nos ao erro, conduzir-nos ao equívoco, bagunçar a ordem do coreto. O exemplo clássico, de um sofisma, digo, é este produzido por Zenão de Eléia:
“Se se derrama um saco de trigo no chão, ele faz barulho; mas se jogamos um só grão, não se percebe ruído algum. Se um grão não produz, dois também não, nem dez, nem mil. Conclui-se portanto que um saco de trigo não produz som algum”.
 E porque, digo, que o aforismo de Nietzsche “Deus está morto” é um sofisma? Isso não lhes chama a atenção? Não estaríamos a ver, por quase todos os cantos a inexistência de Deus e por isso assistiríamos a essa avalanche de novas seitas que visariam ressuscitá-lo, recriá-lo, reinscrevê-lo?
Pois não me parece que Deus, de fato, esteja morto. De jeito nenhum! Para dizer de alguma forma, para me aproximar disso que quero trabalhar com vocês, digo que ele apenas mudou de roupa, ou melhor, mudou, essencialmente, de estatuto. Vou tentar me explicar a esse respeito relembrando-os do oráculo de Delfos, o famoso oráculo de Delfos que se dá a ler, por exemplo, da tragédia Édipo Rei, que já foi nosso tema na semana acadêmica anterior. O que o caracterizava? Alguém o procurava com uma pergunta, alguém queria saber do futuro, por exemplo, e se dirigia até este local, passava pelo batente que dizia em letras garrafais “conhece-te a ti mesmo” e o questionava. E o que recebia como resposta? Não uma resposta linear e unívoca, jamais uma certeza bem amarrada ou costurada. Recebia, sim, e muito pelo contrário, um outro enigma que pedia deciframento, que requeria uma interpretação. Insisto, quem se dirigia a esse lugar não encontrava clareza. Não encontrava paz. Não encontrava a calma. Encontrava, sim, frente ao ?, não !, mas outro ?.
E o que vemos na teologia judaico-cristã, para deixar os gregos descansar um pouco? Em outras palavras: o que recebemos pelo abandono do politeísmo? Certezas inabaláveis ou novamente dúvidas, charadas, enigmas? Por exemplo: como situar, de uma vez por todas o que Deus queria de Abraão? Que matasse seu filho? Que não o fizesse? O que quer o Outro de mim?, podemos ler nessa indecisão demiúrgica e isso não se dá apenas no Genesis. Isso se dará também com a passagem dessa feroz ignorância de Yaveh para esse Deus trinitário muito mais afeito ao amor. Situem, de uma vez por todas, quais são os desígnios de Deus diante da crucificação de seu filho? Não precisa, também isso, de um deciframento? Não caiam, por favor, no dogma. O dogma é apenas expressão de uma paixão do ser cara aos seres humanos, ou seja, a ignorância, e ela não deve ter lugar aqui, dentro deste curso que vocês escolheram. E estão aí todos os teólogos, os hermeneutas, a debater seriamente aquilo que um Deus quereria de nós, fora do dogma. A fé, a crença, fica do outro lado. Longe daqui!
Como estou, de certa forma a profanar o sacro, cito aqui um filme bem conhecido de todos vocês, O Advogado do Diabo. O que diz, lá, o diabo a respeito de Deus (cito de memória): prove, mas não goste...goste, mas não se delicie... se delicie, mas não goze... goze, mas não produza soberba...
O que quer Deus de nós? Não sabemos de forma unívoca. Não temos como definir de uma vez por todas. Mas isso não impediu que desde a Grécia passando pelo novo ou velho testamento nos reportássemos a esse lugar terceiro, a esse que tudo saberia e nos poria no bom caminho, na boa via, na sina certa. E isso, reabro as questões, ainda se dá nos dias de hoje ou esse lugar terceiro está, como disse Nietsche, vazio, destituído, morto? Dito de uma outra forma, vocês, que estão aí sentados escutando este trabalho, se dirigem a alguém, a uma alteridade para que de lá lhes venha algum tipo de resposta? Vejam, se vocês acham que não há mais esse direcionamento, essa vetorização para essa alteridade, o trabalho que vocês irão fazer daqui a um tempo, esse de receber pacientes, de escutá-los, cai por terra, torna-se desnecessário, impraticável. E contudo, não se assustem por enquanto com isso, os consultórios continuam cheios, lhe afirmo. Sempre há quem se questione a respeito de si mesmo e procure, em nossos consultórios, algum tipo de resposta. O ponto, contudo que perturba todo esse jogo, mudou, basculou, e isso não porque Deus esteja morto mas sim porque Deus, como eu afirmei antes, mudou de estatuto. Ele, hoje,ao contrário desses exemplos que lhes trouxe aqui hoje, não vacila, não claudica, não titubeia. Ele, esse Deus contemporâneo, é hoje de fato, onisciente, onipotente, onipresente e não mais enquanto tese, não mais enquanto teorema. Se algo nos acossa, se algo nos perturba, se alguma coisa nos produz enigma, basta consultá-lo para obtermos a resposta. E nem precisamos sair de casa para consultá-lo. Não precisamos ir a Igreja, ao templo, ao terreiro. Abrimos, de nossas casas, de nosso lar, essa máquina fabulosa que se chama computador, acessamos a rede mundial, escrevemos dentro de um retângulo seis letras G O O G L E e voilá, podemos fazer qualquer pergunta, em qualquer língua, em qualquer ordem que queiramos que lá estará a resposta, com o tempo que demorou para conseguí-la e, mais importante, o número de achados que essa ferramenta encontrou para nós. Insisto: antes tínhamos de percorrer léguas para encontrar ciframentos, sacrificar animais para encontrar ciframentos, ajoelhar-mo-nos para encontrar... ciframentos. E hoje, o que encontramos nessa nova instituição de Deus? Deciframentos, respostas, mil, duas mil, quinhentas mil respostas para qualquer questão. Digitem lá, qualquer ajuntamento de letras, ao acaso mesmo, que, rapidamente vocês irão encontrar links que lhes dizem a que isso se refere: uma comunidade que se nomeia assim, um povo que escreve dessa forma, uma língua que pretende inovadora...
Vejamos: antes estávamos com a precariedade das respostas. Tínhamos enigmas, nos dirigíamos a esse Outro e, no máximo, recebíamos de lá uma nova charada, uma até resposta mas que era não-toda, não-plena, jamais completa. Hoje, frente ao onisciente, ao onipotente, ao onipresente Deus chamado Google, encontramos não o que poderia parecer, o infinito, mas a totalidade. Encontramos aí, no Deus Google a totalidade das respostas. E porque isso nos concerne? Porque é importante destacar essa mutação de Deus? Por que, é claro, isso tem conseqüências em nossa organização, em nossa vida, em nossos atos. Como? Aí volto ao consultório, ao meu, especificamente, e a essas pessoas que vem me procurar – porque, como eu lhes disse, ainda há um afluxo de gente que vem consultar um analista – e o que se nota aí, o que se faz claro nessas pessoas? Que elas, em sua grande maioria, vêm me consultar como se consulta o Google e cada vez suportam menos o silêncio, a não resposta ou mesmo a sua implicação naquilo que elas mesmas causam em suas vidas. “Eu quero respostas, doutor. Não me venha com esse seu blá, blá, blá” me dizia uma senhora. “Procurei na internet dados a seu respeito, Gustavo, e descobri que és um especialista no que se refere a casos amorosos. Diga-me, o que devo fazer?” dizia-me um jovem rapaz. E, para encerrar essa série, o que tenho escutado quase unissonamente: “Se é para eu vir aqui e o senhor não me dizer nada, não me responder nada, ficar aí calado ou questionando aquilo que eu falo... disso, eu não preciso” e lá se vão depois de uma curta – às vezes curtíssima – temporada. E não precisam mesmo permancecer! Por que deveriam se, no Deus Google eles encontram Aproximadamente 18.800.000 resultados em 0,07 segundos. E não é só aí que essas respostas, em abundância, totalizantes se proferem. A televisão irradia essa sabedoria, esse Saber e, pasmem, os psicólogos estão, freqüentemente, nessa nau, nesse mesmo barco arrotando saberes e mais saberes sem perceber que com isso não fazem senão insuflar esse, digo sem papas na língua, sintoma social. Foi como eu lhes disse, Deus nem aqui nem na China está morto. Ele está mais presente do que nunca, vivo, onisciente, onipotente e onipresente como nunca se viu. Se não acreditam em mim, vão até o Google para verificar.
É isso. Muito obrigado por sua atenção.
Gustavo Capobianco Volaco
Psicanalista, Coordenador do Curso de Psicologia da FACVEST

quinta-feira, dezembro 15, 2011

Dossiê - Perversão

Os perversos não são extra-humanos, mas demasiadamente humanos;
definir a perversão é um paradoxo ético.


Christian Ingo Lenz Dunker


A perversão é uma das três grandes estruturas da psicopatologia psicanalítica. Ao lado da psicose e da neurose, ela representa um tipo específico de subjetividade, desejo e fantasia. Comparativamente, seu diagnóstico é mais difícil e controverso: consideram-se a extensão e variedade de seus sintomas, bem como sua alta suscetibilidade à dimensão política. Nas perversões podemos incluir aproximativamente três subgrupos: as perversões sexuais, as personalidades antissociais e os tipos impulsivos. Essa subdivisão é problemática e apenas descritiva, pois cruza categorias originadas em diferentes tradições clínicas.

Devemos distinguir uma perversão ordinária de uma perversão extraordinária, representada pelos “tipos concentrados” com os quais a perversão foi historicamente associada, para, em seguida, ser excluída, silenciada e expulsa da condição humana. Aquela que seria a forma mais forte de perversão, como confronto e desafio à lei, é, na verdade, expressão de um tipo coletivo de exagero da lei, baseado na atração pela forma, desligada e deslocada de seu conteúdo.


“Perversão”, assim, seria o nome para o que nos desperta indignação. Mas, porque o estado social “normal” não representa necessariamente o bem ético, torna-se difícil pensar a perversão de modo simples. A anomalia que nega a norma pode ser um desvio progressivo, útil ou benéfico. Além disso, mesmo a dissociação entre a norma e seu oposto, entre real e ideal, entre o bem e o mal, é justamente uma das características da perversão.


Tipologia da perversão


Isso posto, há três famílias principais da perversão. A primeira refere-se ao exagero ou à diminuição de algo, que, sob justa medida, seria tolerável e até mesmo desejável. O perverso, assim, estereotipa um comportamento, fixa-se em um modo de estar com o outro e de orientar sua satisfação. Tome-se o exemplo de um sujeito que, para encontrar satisfação sexual, deve empregar adereços como calcinhas, vestir-se com roupas do sexo oposto, admirar partes específicas do corpo do parceiro ou manipulá-las de modo bizarro. Tudo isso, sem “exagero”, seria parte admissível de um encontro sexual, mas, quando sua presença torna-se coercitiva, necessária e condicional, percebemos que há uma espécie de excesso. A parte toma conta do todo.


A segunda família de perversões decorre da ideia de desvio. Trata-se aqui da metáfora da vida como um caminho, no qual o perverso “toma um atalho” ou elege para si “outra via”. Ele se desgarra dos outros, torna-se alguém fora da ordem, fora do lugar adequado. Curiosamente, essa negação da “norma” funciona como reafirmação de sua força. Se a primeira perversão é definida pelo traço de exagero, a ideia central do segundo tipo é a de deslocamento, inversão e dissociação.


A terceira classe de perversão é formada pelos que marcam seu compromisso com a transgressão, com a violação da lei, da moral ou dos costumes. Essa transgressão não é efeito secundário, mas decorre da identificação do sujeito com a lei. Alude-se aqui à lei materna (em oposição à lei paterna) para designar essa relação de passividade radical e de disposição soberana sobre o corpo do outro. Apesar da extrema variedade histórica e antropológica, há duas maneiras básicas de perversão da lei: afirmá-la por meio de uma negação ou negá-la por meio de uma afirmação.


A matriz das perversões


A psicanálise chama de supereu essa lei interna ou essa voz que interdita certos tipos de satisfação, obrigando a outros. O supereu é a matriz ordinária de nossas perversões particulares e, ao mesmo tempo, a língua na qual expressamos e somos expressos pela lei social. Segundo essa tese, nossa consciência crítica, tida por muitos como a maior realização da razão humana, é ao mesmo tempo um olhar no qual nos aprisionamos, a voz do exagero e engrandecimento (das exigências, dos ideais e das expectativas normativas) e o núcleo de nossa satisfação e de nossa culpa em transgredir.


Por exemplo, vibrar em êxtase vendo um formigueiro pegar fogo não é um ato ilegal, mas sugere um tipo de gozo associado com a perversão. Qualquer criança explora esse tipo de satisfação, até que seus pais a convidem à seguinte “inversão de perspectiva”: “Imagine se você fosse uma formiga? Iria gostar de ver a casa pegar fogo?”. Esse tipo de inversão faz com que abandonemos uma gramática da satisfação – nesse caso o sadomasoquismo – em prol de outra. Cada um de nós possui uma história composta de gramáticas como estas: exibicionismo e voyeurismo, heterossexualidade e homossexualidade, feminilidade e masculinidade. Há gramáticas pulsionais mais simples, tais como ingerir e expelir, dar e receber, bater e apanhar, e há gramáticas mais complexas e mais abrangentes tais como ser e ter ou aceitar ou recusar.


Contudo, a tese psicanalítica é a de que a sexualidade infantil possui a característica de ser perversa, por explorar, exagerar e transgredir os diferentes modos de satisfação, e de ser polimorfa, por admitir muitas formas, plásticas e mutáveis. A perversão no adulto diferencia-se disso por seu caráter de fixidez (uniforme) e pela função subjetiva de desautorização da lei. Assim, a perversão não é só uma questão de infração procedimental da lei, mas refere-se ao tipo de intenção (ou de desejo), ao modo como nos colocamos, e situamos o outro, diante do que fazemos.


É nesse ponto que a definição popular de perversão argumentará que ela ocorre justamente por falta de sentimentos morais como a culpa, a vergonha e o nojo. Daí a ausência de arrependimento, de reparação e de consideração pelo outro que historicamente fez dos perversos os ícones da maldade. Eles não apenas praticam o mal, mas, principalmente, gostam de fazer mal aos outros, especialmente quando se comprazem em causar angústia, terror e tortura. Ora, o que acontece aqui não é a ausência de supereu, que poderia ser curada com a administração massiva da lei, mas a construção de uma espécie de supereu ampliado, como se algumas de suas funções fossem experienciadas, de modo deslocado, fora do sujeito, ou seja, no seu infeliz e circunstancial parceiro.


Perversão e experiência comum


Os mais diferentes e insólitos tipos de satisfação estão presentes em todos nós, de forma atenuada, disfarçada ou restrita. Não é pela ausência ou presença dessas tendências que podemos definir a perversão. Os perversos não são extra-humanos, mas demasiadamente humanos. O problema para definir a perversão, nesse sentido, é que temos de resolver o chamado paradoxo ético do ato. Não basta saber se ele é conforme ou contrário à lei, mas saber qual tipo de experiência ele produz em quem o realiza e o tipo de posição que ele confere ao outro.


Há vários exemplos de como o gozo, ou seja, o tipo de satisfação ordenado pelo supereu constitui uma perversão particular e ao mesmo tempo um fator político incontornável. Há, por exemplo, um fascínio espontâneo por aquele que se coloca no lugar de supereu. A atração exercida por líderes e “celebridades”, assim como pelos sistemas totalitários, sejam eles nações, instituições, corporações ou mesmo empresas e grupos, baseia-se neste sentimento de que eles expressam em exterioridade nossa própria relação perversa com a lei. Diante disso, estaremos voluntariamente dispostos a servir como instrumento do gozo do outro, posto que ele é o meio pelo qual posso ter acesso deslocado à minha própria fantasia, exagerada pelo fato de ser vivida em massa. Isso tudo sem o ônus da culpa e do risco que estariam em jogo se eu me dispusesse a realizá-la por meios próprios.


A chave para entender esse tipo de perversão ordinária está na dissociação e na simplificação produzidas pela montagem da fantasia. Dissociação e simplificação encontradas na principal expressão sintomática da perversão, a saber, o fetiche, ou seja, esta propriedade ou esta função que permite transformar outro em objeto inanimado (meio de gozo para meus fins) e reversamente o objeto em outro animado (fim para o qual todos os meios se justificam). Em acordo com a regra perversa da inversão, o fetiche é a condição básica a que todo objeto deve atender para tonar-se viável no universo de consumo. Para funcionar como tal, ele deve conseguir dissociar seu potencial de ilusão, por um lado, de seu efeito de decepção, por outro. Não é um acaso que Karl Marx (1818-1883) tenha descrito a economia capitalista baseando-se no fetiche da mercadoria.


Outro exemplo de montagem perversa são os sistemas e dispositivos burocráticos responsáveis pela judicialização da vida cotidiana. A burocracia é uma forma regrada e metódica de produzir anonimato e álibi para nosso desejo e, portanto, para confirmar a máxima perversa de que “o outro deseja, mas segundo a lei que eu determino”. Nessa medida, há tanta perversão nos excessos alimentares – no bulímico e no anoréxico – quanto no discurso de vigilância sanitária sobre nossa alimentação, para não falar do exibicionismo de uma infância sexualizada pela moda, o voyeurismo de nossos reality shows, a estética pornográfica de nossas produções culturais, o sadismo de nossos programas de violência ao vivo, o masoquismo do trabalho e da “vida corporativa”, o descompromisso “líquido” de nossa vida amorosa, a cultura da drogadição (legal e ilegal), e tantos fenômenos que costumam ser reunidos sob a hipótese da perversão generalizada. Ao contrário da perversão clássica, a perversão ordinária de nossos tempos é uma perversão flexível, silenciosa e pragmática. Ela não se mostra como experiência “fora da lei”, que convidaria a ajustar as contas com os limites de nossa própria liberdade, mas, ao contrário, é mais perniciosa, pois reafirma nossa realidade assim como ela é.


As articulações que constituem a perversão, tais como a transgressão, a exageração e a dissociação, tornaram-se aspectos decisivos de nosso laço social ordinário. Bem-vindos à perversão nossa de cada dia.

IN: Revista CULT



quarta-feira, agosto 31, 2011

Artigo

DRÁCULA VIAJANTE: QUESTÕES DE GEOGRAFIA E FRONTEIRAS



Sérgio Luiz Prado Bellei



Resumo
A ênfase dominante da crítica psicanalítica no problema da sexualidade no Dracula, de Bram Stoker, tende a ocultar a relevância de outros aspectos do romance, como é o caso das questões relativas a viagens e fronteiras. Este ensaio tenta chamar a atenção para as referências constantes, no romance, aos problemas relativos ao cruzamento de fronteiras entre culturas civilizadas e primitivas. Dracula pode também ser entendido como um romance que trata dos sentimentos xenófobos motivados pela possibilidade de um encontro cultural no qual comunidades metropolitanas se sentem ameaçadas por forças alienígenas poderosas e se vêem forçadas a recorrer ao exercício violento do poder com o objetivo de manter o bárbaro do lado de fora dos muros.



Abstract

The overwhelming emphasis of psychoanalytic critics on the question of sexuality in Bram Stoker's Dracula tends to occlude the significance of other aspects of the novel, such as the question of travelling and frontiers. This essay is an attempt to call attention to the constant references made in the novel to the problems involved in crossing frontiers from a civilized to a primitive culture. Dracula can also be read as a novel dealing with xenophobic feelings motivated by the possibility of a cultural encounter in which metropolitan communities feel threatened by powerful alien forces and must therefore appeal to a violent exercise of power with the purpose of keeping the barbarian outside the gates.

I. DRÁCULA E A PSICANÁLISE



A marcante presença da temática da sexualidade monstruosa no Dracula, de Bram Stoker, relega normalmente a um segundo ou terceiro planos outros problemas propostos pelo romance que podem, particularmente em tempos xenófobos de diásporas e migrações, ser tão ou mais significativos do que a questão sexual. É este o caso do tratamento do tema das viagens em que tanto o conde quanto suas vítimas e seus algozes cruzam fronteiras entre uma Europa civilizada e uma outra, representada pela Transilvânia e percebida como primitiva, subdesenvolvida e ameaçadora. Talvez seja mesmo possível dizer que a sexualidade monstruosa do vampiro, apesar de sua excessiva visibilidade no romance, seja na realidade um tema secundário a ser compreendido precisamente no contexto mais amplo da questão das viagens e da geografia em que elas ocorrem. Vale dizer, a sexualidade monstruosa de Drácula só se torna um problema quando ousa instalar-se na metrópole londrina. Permanecesse ela na Transilvânia e, provavelmente, sequer seria notada a não ser como um excesso exótico e distante.

Drácula representa uma poderosa identidade monstruosa a ser negada a todo custo porque constitui uma ameaça ao mundo civilizado (representado pela metrópole londrina) onde o vampiro tenta se instalar. Seu objetivo é sugar o sangue de jovens mulheres inglesas, o que resulta na disseminação do terror em um mundo masculino aparentemente pouco seguro em seu relacionamento com o feminino. E representa ainda uma ameaça dirigida em grande parte contra os valores da domesticidade já que, a julgar pelo que acontece com Lucy, as mulheres atacadas pelo vampiro tem a sua sexualidade exarcebada e, esquecidas de sua função maternal de amamentar e proteger, começam a atacar e a sugar o sangue de crianças inocentes. Vale dizer, Drácula constitui uma ameaça à família em sua dimensão social e sexual... Qualquer mulher jovem pode tornar-se sua vítima. A totalidade da instituição doméstica na sociedade é assim colocada em questão pela ameaça da proliferação de uma sexualidade monstruosa que, curiosamente, apresenta-se como surgida em um contexto histórico aristocrático, ainda que se trate de uma aristocracia problemática porque fora de lugar: o vampiro é um nobre que pertence à família de um sanguinário tirano da Transilvânia no período de 1456 a 1462, Vlad Tepes, conhecido particularmente pelo seu método favorito de torturar inimigos transpassando-os ainda vivos com estacas que eram posteriormente fixadas ao solo (Kirtley 1988, 13-14). É esse o Drácula (que significa "demônio" em rumeno) que Bram Stoker reativa no final do século XIX para apresentá-lo como parte de uma história de barbárie a ser diligentemente excluída da história da civilização.

A questão da sexualidade no romance (o interesse do idoso Drácula em mulheres jovens que restauram seu vigor e juventude) tem seu contexto histórico imediato na Era Vitoriana inglesa mas continua a despertar interesse até nossos dias. Novas edições do clássico de Bram Stoker esgotam-se recentemente e versões fílmicas do romance continuam a aparecer. É justamente esse contexto histórico de fin-de-siécle vitoriano, bem como o interesse permanente despertado pelo tema, que se apresentam de imediato como fontes motivadoras de leituras psicanalíticas e históricas do romance. Leituras psicanalíticas afirmam, com unanimidade quase total, que o vampirismo constitui a expressão mais ou menos velada de uma vigorosa energia sexual e lembram freqüentemente a relevância, para a compreensão da figura paterna no conde Drácula, do tratamento do incesto como origem da civilização explorado por Freud em Totem e Taboo. Para Freud, a instituição do horror cultural ao incesto constitui o ato primordial motivador da civilização e de seus descontentes. O incesto aparece na horde primitiva, em que a atividade sexual era livre, inclusive entre pais e filhas, com a finalidade de estabelecer uma regra sobre quais homens tem direito a quais mulheres e quais mulheres são proibidas... Após o parricídio primordial, a instituição do incesto impediria que apenas o macho mais poderoso da tribo, provavelmente o patriarca e pai de varios filhos e filhas, reservasse para si todas as mulheres, tornando difícil ou impossível aos mais jovens copular. Torna-se assim necessário, em primeiro lugar, a destruição do patriarca e a sua subsequente devoração, o que permitiria aos mais jovens adquirir "uma parte de sua força" em um ato que se ritualizaria, com o passar do tempo e sem o sacrifício real do pai, no "banquete totêmico". Para Freud, o banquete é possivelmente a celebração primordial da humanidade, [constituindo] a repetição e a comemoração daquele feito criminal memorável que está na origem de tantas coisas - da organização social, das restrições morais, e da religião (Freud 1953, 141-142). Em segundo lugar, torna-se ainda imperativo, após o parricídio, tomar providências para que ninguém venha a assumir o lugar do pai possuidor de todas as mulheres, evitando-se assim a repetição da estrutura patriarcal de exclusão. Aparece então o contrato social e familiar que estabelece quais mulheres são proibidas e quais permitidas. Note-se que, como lembra James Twitchell,

Freud não acreditava, e nem precisava acreditar, que a cena da horde primordial realmente tivesse acontecido, já que o que importa realmente é que nós continuamos a agir como se a cena tivesse ocorrido.... Agimos na crença de que certas mulheres são realmente proibidas; como se fosse nosso ainda o destino de Édipo no caso do taboo ser desrespeitado (Twitchell 1985 101).

As semelhanças do Dracula de Bram Stoker com a história primordial de horror freudiana são evidentes: Dracula é o patriarca da horda primordial que quer todas as mulheres para si e tenta submeter à sua vontade os homens menos poderosos no grupo social. Vossas jovens mulheres, aquelas que amais, diz Dracula após ter atacado Lucy e Mina, já são minhas; e através delas também vós, e outros mais, serão também meus -- minhas criaturas, para obedecer meu comando e operar como meus lacaios quando eu tiver o desejo de me alimentar (Stoker 1975 271). E Quincey Morris, Dr. Seward, Jonathan Harker e Arthur Godalming são os filhos parricidas ajudados por um "bom" pai (ou seja, o que respeita a lei da proibição de relações incestuosas) que vem do continente precisamente para orientá-los na caça ao "mau" pai fora de controle.

Não é difícil perceber, em uma leitura histórica, a pertinência e a força que adquire a repetição de tal mito primordial de um patriarca sexualmente poderoso e ameaçador para homens emasculados no contexto sócio-cultural da Era Vitoriana. Um dos aspectos marcantes do período é a incerteza que resulta em grande parte do dilaceramento radical entre tendências opostas como religião e ciência, sexualidade e repressão, civilização e barbárie, mulher angelical assexuada e a "nova mulher liberada" ("the new woman"), e que afeta com particular intensidade a classe dominante masculina. Não é por acaso que um outro clássico de terror, Dr. Jeckyll e Mr. Hyde (O Médico e O Monstro), texto que trata precisamente do problema de um ser dividido entre sua condição social de respeitabilidade e forças instintivas fora de controle, torna-se logo após sua publicação um sucesso literário e popular. Ao dramatizar tal dilaceramento, como bem observou o romancista John Fowles, o livro de R. L. Stevenson pode bem ser visto como "o guia por excelência da Era Vitoriana":

O fato de o homem vitoriano ter a mente dividida... é algo que constitui parte essencial da bagagem de qualquer viajante que pretenda explorar o século XIX. Trata-se de uma esquizofrenia que pode ser percebida de forma mais clara e visível nos poetas... Tennyson, Clough, Arnold, Hardy; mas também na extraordinária flutuação política entre Direita e Esquerda presente em homems como o jovem Mill e Gladstone; nas mesmas e constantes neuroses e desordens psicosomáticas de intelectuais em outros aspectos tão diversos como Charles Kingsley and Darwin...; no interminável cabo-de-guerra entre liberdade e e repressão, excesso e moderação, costumes e convicções pessoais, entre os anseios que tinham os homens de princípio pela educação universal e o medo do voto democrático; visível ainda na tendência obsessiva para revisar e editar a ponto de tornar-se necessário, para o conhecimento do verdadeiro Mill ou do verdadeiro Hardy, procurar informações antes nas mudanças e exclusões textuais de suas autobiografias do que nas versões oficiais publicadas.... Nunca foram tão confusas as experiências relatadas, nunca a fachada pública apresentada como verdade com tanto sucesso para uma posteridade crédula. E é isto, creio eu, que torna Dr. Jeckyll and Mr. hyde o guia por excelência da época. Subjacente a este gótico tardio encontra-se uma profunda e reveladora verdade ( Fowles 1969, 169).

Um mundo masculino tornado inseguro por tal dilaceramento cultural não poderia deixar de ser perturbado e ameaçado pelo aparecimento da "nova mulher", em tudo oposta pelos seus excessos à tradicional e confortante moderação característica da mulher passiva, angelical e asexuada. Um jornal da época publica a seguinte descrição da "nova mulher", apresentando-a em uma perspectiva claramente pouco louvável:

Tarefas domésticas ela rejeita porque acredita serem humilhantes para uma mulher instruída, despreza o respeito próprio ao marido como um sinal de submissão a um inferior, não gosta de crianças porque atrapalham e incomodam, vê o amor como uma ilusão própria de lunáticos e idotas. O que ela quer é a liberdade de fazer o que bem entende.... Embora não faça nada que seja imoral, insiste em mostrar que faria se quisesse.... Cuida bem de nervos e músculos, joga cricket e golfe, pratica remo, ciclismo e caça.... Veria como ridícula a idéia de que apenas um homem, seu marido, poderia apreciar sua graça e beleza... Ainda solteira, já conhece em detalhes todos of horríveis vícios das grandes cidades... [e sabe mais] sobre outros lugares do que sobre o próprio lar e coisas domésticas, mais sobre qualquer outra virtude que sobre o respeito pela autoridade, e sobre aquela atenção ao dever, moderação nos costumes, e aquela doce, paciente e e tranqüila abnegação que costumava ser a marca característica do sexo. Seus dois únicos objetivos são ter tanta agitação quanto possível, quaisquer que sejam os meios, e assemelhar-se tanto quanto possível a um homem. (In Wolf 1975, 90-91).

É óbvio que uma tal mulher liberada, particularmente em sua sexualidade, hesitaria menos do que a mulher tradicional à potente sexualidade de Drácula, gerando assim maior insegurança no mundo masculino. Em Dracula, Lucy Westenra está mais próxima da "nova mulher" do que Mina, e representa portanto uma ameaça a ser contida. Mina Murray assemelha-se em parte à nova mulher mas não chega a apresentar uma ameaça ao mundo masculino porque, ao lado de uma inteligência prática que é capaz prestar valioso auxílio ao grupo dos caçadores do vampiro ao descobrir, por meio de um preciso raciocínio dedutivo, a rota de fuga de Drácula, preserva também valores de uma domesticidade idealizada e assexuada. Mina, na caracterização precisa de Van Helsing, tem o cérebro de um homem.... e o coração de uma mulher (Stoker 1975, 209). É a partir dessa situação basicamente doméstica e domesticada que Mina expressa claramente reservas a respeito de um excesso de liberdade no relacionamento entre os sexos. Retirando-se para o quarto para descansar após uma caminhada em companhia de Lucy, esta logo adormece e é observada por Mina. Seus comentários sobre o que é próprio ou impróprio no comportamento da mulher cortejada são reveladores. Admirando a graça de Lucy em seu sono, Mina imagina que, se Lucy tinha sido capaz de despertar a paixão de Holmwood quando este a viu no lugar apropriado, ou seja, no espaço público e bem comportado da sala de visitas, despertaria paixões ainda maiores se fosse vista no espaço proibido do quarto. E continua:

algum dia, as novas mulheres escritoras lançarão uma proposta para que seja permido a homens e mulheres verem-se uns aos outros no sono mesmo antes de se tornarem comprometidos por um pedido oficial e pela aceitação. Mas é bem possível que, no futuro, a nova mulher não se conforme em aceitar: ela mesmo se encarregará de fazer o pedido (Stoker 1975, 91; os grifos são meus).

É esse conservadorismo básico de valores em Mina que permite ao mundo masculino resgatá-la da influência perniciosa de Drácula e idealizá-la como mulher, mãe e esposa exemplares. Mina, como diz Van Helsing, é uma das excelentes mulheres que ainda restam e que conseguem tornar possível a felicidade na vida -- excelentes mulheres cujas vidas e cujos valores podem ainda servir de exemplo para as gerações do futuro. (Stoker 1975, 168). Lucy, por outro lado, uma vez contaminada por Drácula, adquire aquela sexualidade exarcebada que o imaginário vitoriano percebia como incompatível com a domesticidade feminina que ia, aos poucos, sendo colocado em questão pela "nova mulher".

Mina e Lucy podem bem representar, portanto, os dois tipos femininos com os quais homem da época vitoriana tinha que conviver. Vale dizer, representam modelos de mulher a serem aceitos ou rejeitados em termos da maior ou menor ameaça a uma sexualidade culturalmente percebida como prerrogativa do masculino. Como observa Carol Senf, é bem possível ... que Stoker esteja conscientemente colocando em contraste [no romance] a nova mulher liberada sexualmente [Lucy após ser atacada por Drácula] com a mulher mais claramente tradicional [Mina] (Senf: 1982, 46). Se este for o caso, a ameaça representada pela mulher liberada acaba por justificar uma violência destruidora superior àquela reservada ao próprio Drácula. Enquanto no caso do vampiro bastam dois golpes de faca para a destruição do monstro, a destruição de Lucy ocorre com surpreendente violência: seu corpo é penetrado por uma estaca de aproximadamente um metro e seu noivo, que realiza a operação, é comparado em sua força agressiva à figura de Thor... (Stoker 1975, 194).

2. SOBRE VIAGENS, GEOGRAFIA E BIBLIOTECAS

Apesar da inegável e indispensável pertinência das leituras históricas e psicanalíticas, são ambas frequentemente marcadas por uma certa ênfase na função do monstruoso enquanto discurso imaginário cujo objetivo é afirmar o normativo e o aceitável, e isso principalmente em termos sexuais, pela demarcação de seus limites. O que tende a ser reprimido em tais leituras é, em primeiro lutar, tudo aquilo que, no texto, não cabe na categoria da sexualidade e, em segundo lugar, a presença ambivalente do monstro enquanto criatura de fronteira que tanto afirma quanto questiona a norma. A ênfase no sexual reprime, por assim dizer, a questão da geografia e das viagens, representadas no romance tanto no enredo como nas detalhadas descrições da biblioteca do conde. Quando visita o castelo de Drácula, por exemplo, Jonathan Harker apresenta uma detalhada descrição geográfica e cultural da Transilvânia. Harker viaja não apenas como o representante legal de um estabelecimento londrino interessado em vender propriedades à Drácula, mas também como turista e professor de inglês encarregado de dar aulas particulares ao conde. Como turista curioso e viajante experiente que tenta preparar o terreno para o encontro comercial com Drácula, Jonathan informa-se sobre a terra a ser visitada antes mesmo de iniciar a viagem: visita o Museu Britânico e lá coleta livros e mapas... relativos à Transilvânia. Com a ajuda prévia de tais livros e mapas, familiariza-se aos poucos com uma nova geografia necessariamente constituída como primitiva, selvagem e exótica a partir da fronteira civilizada do império britânico

Descobri, diz Jonathan, que o distrito por ele [Drácula] nomeado encontra-se no extremo leste do país, nas fronteiras de três estados, a Transilvânia, a Moldavia, e a Bucovina, bem no meio das montanhas carpacianas; uma das mais primitivas e menos conhecidas partes da Europa. Trata-se de lugar habitado por descendentes de Saxões, Dácios e Magiares, estes últimos afirmando pertender à mesma raça de Átila, o bárbaro rei dos Hunos. (Stoker 1975, 3)

O mapa assim constituído em seus aspectos mais genéricos é enriquecido com detalhes observados durante a viagem até o castelo do vampiro: a comida típica da qual o visitante pretende obter a receita; as mulheres, atraentes quando vistas de longe mas não tão atraentes quando olhadas de perto; os estranhos e pitorescos eslovacos, mais primitivos do que todos os outros; os trens, tanto menos pontuais quanto mais se avança para o leste (Stoker 1975, 4-5) A experiência do viajante metropolitano, preparada de antemão e confirmada durante a viagem, configura-se assim em termos da aventura de ir além dos limites do civilizado para negociar com o que se poderia caracterizar como a elite dominante de um país subdesenvolvido, exótico e, pelo menos em princípio, comercialmente interessante.

A experiência de Jonathan como viajante metropolitano representa um curioso contraste com a experiência de Drácula em sua viagem, também previamente planejada, do mundo primitivo para o civilizado. Embora localizado nas margens da civilização, o castelo do vampiro possui uma biblioteca que, apesar de insignificante quando comparada ao Museu Britânico, possui significativa variedade de livros metropolitanos. O conde Drácula não deixa, nesse contexto, de revelar uma certa semelhança com o intelectual do Terceiro Mundo, sempre bem informado sobre a metrópole, apesar de nem sempre tão bem informado sobre os seu próprio contexto cultural.

Encontrei na biblioteca, diz Jonathan, um grande número de livros ingleses, estantes inteiras repletas deles, e volumes encadernados de revistas e periódicos. Em uma mesa no centro estavam espalhados revisas e periódicos ingleses, muito embora nenhum deles de data muito recente. Os livros eram de tipos variados -- história, geografia, política, economia política, botânica, geologia, direito -- todos referentes à Inglaterra e à vida, costumes e hábitos ingleses. Havia até mesmo livros de referência como o Diretório Londrino, o Livro Vermelho e o Livro Azul [volumes incluindo listas de servidores do estado e informações relativas ao parlamento, respectivamente], o Almanaque "Whitaker", a Listagem do Exército e da Marinha e -- o que me agradou sobremaneira -- a Listagem do Direito Civil (Stoker 1975, 23)

Embora nem sempre atualizada, a biblioteca do vampiro não deixa de surpreender. É que Drácula necessita alimentar-se também do sangue cultural inglês como preparação para a conquista do lugar metropolitano intensamente desejado.

"Lendo estes livros", diz o vampiro a Jonathan, aprendi sobre a vossa grande nação; e aprender sobre ela significa a ela apegar-se. O meu desejo é caminhar no meio da multidão das avenidas londrinas, estar no meio do tumulto e da correria dos homens, participar da sua vida, suas mudanças, sua morte, e de tudo o que a faz com que ela [a vida londrina] seja o que é (Stoker 1975, 23).

Drácula age aqui como o ser de fronteira, inseguro em sua identidade porque excluído da vida metropolitana e dela querendo fazer parte porque, como qualquer colonizado, percebe-a como superior e mais prestigiosa. Na verdade, provavelmente como resultado de sua origem nobre, Dracula quer mais do que simplesmente fazer parte da vida metropolitana. Porque pertence a uma elite, muito embora se trate de uma elite ligada a uma história de barbárie, o vampiro quer não apenas viver na metrópole, mas também nela ocupar o lugar de mando ao qual julga ter direito em sua condição de membro da classe nobre de seu país. Aqui [na Transilvânia], diz o conde, sou um nobre; um boyar ["membro da nobreza"]; as pessoas do povo me conhecem, e sou o senhor (Stoker 1975, 23) E é com o objetivo de obter um lugar dominante na metrópole que Drácula precisa submeter-se a rigoroso aprendizado de língua e cultura. Não basta, como explica o conde a Jonathan, aprender a linguagem apenas com a ajuda de livros porque com eles se conseguiria apenas a gramática e o vocabulário, desprovidos da pronúncia correta e natural. Vale dizer, o vampiro quer eliminar o sotaque que o tornaria vulnerável como estrangeiro e o marcaria como inferior.

Qualquer um, diz o conde, reconheceria em mim um estranho, o que não é de forma nenhuma satisfatório.... Não aceitarei nada memos do que ser como todos os outros, para que ninguém tenha sua atenção voltada para mim, e interrompa suas palavras ao me ouvir para dizer `Ah, um estrangeiro!


Jonathan deve, portanto, prestar seus serviços não apenas como corretor de imóveis, mas também como professor de inglês: ficarás aqui como meu hóspede por algum tempo e, em nossas conversas, espero aprender a falar sem sotaque; o que quero é que me informes cada vez que eu cometer um erro de pronúncia, por menor que seja. (Stoker 1975, 23-24)

Embora o texto nada explique sobre o resultado das aulas particulares, o mais provável é que elas tenham tido sucesso, já que, na metrópole londrina, o vampiro atrai atenção não pelo uso da linguagem, mas por outras peculiaridades alimentares e comportamentais, ou ainda pela aparência inusitada. Seja como for, a ênfase na questão de fronteiras internacionais e culturais no início do romance aponta para as limitações de uma leitura psicanalítica em que o vampiro é percebido como uma espécie de outro sexual apenas. As leituras (menos freqüentes) de cunho marxista, por outro lado, tendem a corrigir tais limitações mas acabam por incorrer no equívoco de perceber no texto mais ideologia marxista do que ele pode suportar. Burton Hatlen, por exemplo, reconhece que nenhum leitor moderno pode ignorar as implicações sexuais presentes em Dracula, mas acrescenta logo que o texto ultrapassa os limites da sexualidade. Para Hatlen, Dracula representa formas múltiplas de alteridade, entre elas a alteridade sexual enquanto aquele desejo inconsciente, perverso e inaceitável para qualquer estrutura social e, em particular, para a sociedade vitoriana inglesa. Mas Drácula é ainda um outro cultural, ou seja, um descendente de uma época histórica dominada pela superstição, quando se acreditava que a hóstia sagrada do catolicismo era realmente o corpo de Cristo. E é também e principalmente o outro social, ou seja, a representação de todas as forças sociais que pairavam ameaçadoras do outro lado das fronteiras da experiência vitoriana e burguesa. O vampiro é, portanto, simultaneamente o reprimido e o oprimido: o reprimido psíquico e o oprimido social (Hatlen 1980, 84, 82). O reconhecimento do vampiro enquanto o outro social oprimido, contudo, leva Hatlen à sugestão problemática e pouco convincente de que Drácula, claramente apresentado no texto como membro de uma certa aristocracia, pode ser visto como emblemático de uma força social proletária, ameaçadora, repugnante e devassa que agride a respeitabilidade da elite privilegiada vitoriana. (Hatlen 1980, 92).

Apesar das dificuldades que se apresentam na tentativa de especificar excessivamente o outro social no vampiro, a percepção marxista de uma alteridade mais genérica que a sexual em Drácula é inegavelmente certeira. O monstro, como se viu, representa também, apesar de seu poder econômico, um imigrante indesejável e perigoso vindo de uma nação selvagem e primitiva que tenta instruir-se na língua e cultura da nação civilizada para nela entrar como senhor e com direito de explorar os seus recursos disponíveis, particularmente os femininos. A aquisição dos códigos lingüísticos e culturais, contudo, não são suficientes para a entrada no mundo civilizado, e o vampiro deve aceitar a condição de um ser de fronteira (e de identidade problemática) condenado a duas situações pouco satisfatórias: relacionar-se com a metrópole vicariamente apenas, lendo os livros de sua biblioteca particular, ou então ser destruído. Em Dracula, a destruição é levada a cabo por cinco representantes do mundo civilizado que, auxiliados por Mina, constituem o que um crítico chamou de "O Grupo dos Iluminados" ("The Crew of Light") ( Craft 1984, 107-133). O grupo, que constitui uma verdadeira aliança internacional (três ingleses, um americano, e um alemão), compartilha certos ideais comuns apesar da diversidade de interesses e nacionalidades. Lord Arthur Godalming é um aristocrata inglês que não vê dificuldades em aliar-se a profissionais de uma outra classe, a da alta burguesia inglesa, representada pelo advogado, Jonathan Harker, e pelo médico especialista em doenças mentais, Dr. Seward. São membros representantes do que se poderia chamar a elite dirigente da Inglaterra vitoriana, dedicados à preservação tanto dos valores civilizados da ciência, da tecnologia e da cultura, como da mulher angelical representada por Mina Harker e pela Lucy Westenra anterior ao ataque do vampiro. Os outros membros do grupo, apesar das diferentes nacionalidades, partilham com os ingleses a mesma crença nos valores da civilização e da tecnologia, contribuindo para sua manutenção e expansão através de seus conhecimentos técnicos: Quincey Morris, americano do Texas, destaca-se no grupo pela apreciação de armas como a moderna "winchester", e o alemão Van Helsing, além de médico, é um profundo conhecedor de vampiros em sua história, hábitos e vulnerabilidade.

A caça ao vampiro pelo Grupo dos Iluminados apresenta-se assim como uma cruzada em defesa da civilização e do bem contra as forças da barbárie e do mal. É preciso, a todo custo, não deixar o migrante perverso cruzar a fronteira. O objetivo explícito da caça e destruição do vampiro é resgatar Mina Harker da influência de Drácula, já que tal influência poderia permanecer ativa mesmo à distância e condenaria Mina à mesma violência de que Lucy fora anteriormente vítima. Mas como Lucy Westenra ("a luz do oeste") e Mina Harker representam, em sua suavidade e luz (Hatlen 1980, 83), os valores ideais de uma sociedade civilizada, o que está implícito no romance é a necessidade da destruição do Vampiro porque este ousou cruzar a fronteira que separa a Transilvânia da metrópole londrina na tentativa de constituir, nesta última, uma nova identidade com direitos de senhor, particularmente sobre as jovens mulheres. A temática da geografia e da fronteira, como se sugeriu antes, sobrepõe-se à da sexualidade. Questionado por Mina sobre a necessidade de prosseguir na perseguição do Vampiro após sua fuga de Londres, Van Helsing lembra que o conde, apesar de seu dotado apenas com o cérebro infantil (child brain) de um criminoso, é poderoso e persistente e pode tentar novamente cruzar fronteiras. A persistência do conde, insiste didaticamente o médico vampirólogo, tinha já se tornado evidente no cuidadoso planejamento para a invasão de Londres.

Com o seu cérebro infantil, diz Van Helsing, ...acalentou desde longa data a idéia de estabelecer-se em uma grande cidade. O que faz? Encontra o lugar do mundo que lhe é mais promissor. Prepara-se então deliberadamente para sua tarefa.... Estuda novos idiomas. Aprende um novo comportamento social; ... o sistema político, legal, financeiro, científico, os costumes da nova terra e de seu povo.

E essa persistência e sistematicidade podem ameaçar novamente não apenas o império inglês, mas também outras partes civilizadas do mundo, razão por que torna-se necessário o esforço conjunto do Grupo dos Iluminados com o objetivo de assegurar a liberdade no mundo (Stoker 1975, 282). Entenda-se aqui por "mundo" o mundo civilizado, do qual não faz parte a Transilvânia.

3. A ARBITRARIEDADE DAS FRONTEIRAS E O FALSO DUALISMO DO DENTRO E DO FORA

O sucesso da caça ao conde Drácula acaba por despojar este último até mesmo da problemática identidade que possuía antes da decisão de cruzar a fronteira. Essa identidade problemática pode ser pensada em termos daquela vampiresca alteridade que jamais consegue perceber seu reflexo no espelho e que é devidamente registrada por Jonathan Harker em sua visita ao castelo de Drácula. Barbeando-se em frente a um espelho após a primeira noite no castelo, Jonathan surpreende-se ao sentir um toque no ombro, logo seguido pela saudação matinal do conde. O que é estranho para o jovem advogado é que, muito embora o espelho torne possível a visão refletida de todo o aposento, o reflexo do conde não aparece. Vale dizer, olhando para o espelho, Jonathan vê apenas o reflexo de si mesmo e do quarto, mas não o do monstro que também está presente. A impossibilidade de Drácula ter sua imagem refletida no espelho faz parte, evidentemente, do discurso folclórico que estabelece essa peculiaridade como característica do vampiro: sendo apenas um cadáver ambulante (freqüentemente designado no romance como un-dead, ou seja, o não-vivo), o vampiro não possui a força viva da alma que, na mitologia tradicional sobre o espelho, é justamente o que aparece como imagem refletida. Mas em um romance em que a figura do vampiro é constantemente marcada por uma situação de ser de fronteira e de identidade problemática, o episódio do espelho comporta pelo menos dois outros significados. Em primeiro lugar, ao negar-se a apresentar a imagem do que existe, o espelho revela em seu silêncio a identidade paradoxal de alguém que ao mesmo tempo é, porque age no mundo, e não é, porque jamais se percebe existente na imagem especular confirmadora da presença. Em segundo lugar, essa identidade do não-vivo e do não-ser não aparece no espelho porque sofre um curioso deslocamento em que a imagem daquele que olha e tem imagem (Jonathan) ocupa o lugar da imagem do outro ao mesmo tempo presente (fora do espelho) e ausente (no espelho). Ao olhar para onde o monstro deveria estar, Jonathan encontra-se a si mesmo, o que sugere que o humano e humanitário advogado londrino ocupa o lugar do monstruoso e, em certa medida, identifica-se com ele. O humano e o monstruoso tornam-se aqui inseparáveis e apontam para a ambivalência do projeto civilizatório do Grupo dos Iluminados. O que o projeto precisa assinalar com a destruição do monstro é a marcação de fronteiras capaz de assegurar a diferença absoluta entre o normal e o anormal, o selvagem e o civilizado, o humano e o monstruoso, o sexo aceitável e o inaceitável. No entanto, como a crítica do romance tem mostrado insistentemente, essa separação radical é ilusória. A monstruosidade do outro está sempre mais próxima do que se pensa porque nunca existe separadamente do humano. Ou, melhor dizendo, a caça ao monstro além das fronteiras da civilização é sempre, em certa medida, inútil, porque o monstruoso habita desde sempre o lado de cá da fronteira.

Jonathan Harker, por exemplo, no citadíssimo episódio do encontro com as mulheres-vampiro no castelo de Drácula, expressa simultaneamente desejo e rejeição quando em confronto com a sexualidade monstruosa que quase chega a experimentar. Diante da proximidade dessas mulheres de lábios cheios de volúpia, Jonathan sente ao mesmo tempo um desejo e um temor profundo... [e] uma vontade de ser beijado por aqueles lábios vermelhos. E para que não reste dúvida de que se trata de um desejo sexual proibido, o texto acrescenta logo a sugestão das complicações que ocorreriam se Mina, a futura esposa, viesse a saber do ocorrido: não é uma boa idéia tomar nota [no diário] do fato [o quase contato sexual com a mulher vampiro], já que o diário poderia algum dia ser lido por Mina; mas [a realidade do desejo] é a pura verdade (Stoker 1975, 39). E a peculiaridade que tem os vampiros de não entrar em lugares para os quais não são convidados sugere que as mulheres que dele se tornam vítimas não são apenas objetos passivos de um desejo monstruoso. São antes cúmplices que procuram, particularmente na era vitoriana, e ainda que inconscientemente, a satisfação da sexualidade reprimida e desejada. Como sugere George Stade, é bem possível que, para a mulher vitoriana, o beijo de Drácula seja um beliscão bem no lugar onde ela sente seus pruridos ( Stade 1981, vii). Mas é possivelmente no célebre episódio da transfusão de sangue para salvar Lucy que a inseparabilidade entre o monstruoso e o humano aparece de forma mais reveladora. Enfraquecida pela perda de sangue após os ataques de Drácula, Lucy recebe transfusões de sangue não apenas de seu noivo, Lord Godalming, mas também de Quincey Morris, Dr. Seward, e do próprio Van Helsing. Lucy transforma-se, em outras palavras, em um verdadeiro vaso condutor em que o sangue bombeado de um lado esvai-se de outro. O episódio é justamente celebrado pela crítica psicanalítica, já que o sangue pode bem ser uma metáfora para o sêmen. Mas trata-se também de um episódio em que o vampiro se mostra literalmente ligado por laços de sangue aos membros do Grupo dos Iluminados. Em todos os casos, as ações transgressoras do vampiro são justamente aquelas que o humano deseja praticar ou experimentar e que tenta, desesperadamente e sem sucesso, reprimir e destruir. O vampiro pratica aquelas ações (sociais, sexuais ou culturais) que o civilizado, homem e mulher, desejam praticar mas não podem. Dracula, como observa certeiramente Burton Hatlen, trata fundamentalmente do nosso desejo (`nosso' significando aqui pertencente à classe média branca) de sujeição (`sujeição' tendo aqui o sentido masoquista explícito característico da pornografia) ao... marginal `negro' e `mal-cheiroso'. (Hatlen 1980, 95). E é porque o vampiro pratica abertamente o desejado e o proibido e a transgressão de fronteiras, funcionando assim ao mesmo tempo como crítica e legitimação da norma e do limite entre o dentro e o fora, que seu destino é ser permanentemente condenado à problemática condição identitária daquele que, habitando sempre os limites do humano, ao mesmo tempo existe e não existe.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CRAFT, Christopher. "`Kiss me with Those Red Lips': Genre and Inversion in Bram Stoker's Dracula". Representations (Fall 1984).


FOWLES, John. The French Lieutenant's Woman... Boston: Little & Brown, 1975.


FREUD, Sigmund. Totem and Taboo. London: Hogart, 1953.


HATLEN, Burton. "The Return of the Repressed/Oppressed in Bram Stoker's Dracula." In. Dracula: The Vampire and the Critics. Ed. Margaret Carter. Ann Arbor and London: UMI Research Press, 1988.


KIRTLEY, Bacil F. "Dracula, the Monastic Chronicles and Slavic Folklore". In Dracula: The Vampire and the Critics, ed. Margaret L. Carter. London: UMI Research Press, 1988.


SENF, Carol A. "Dracula: Stoker's Response to the New Woman". Victorian Studies 26 (1982).


STADE, George. "Introduction". In STOKER, Bram. Dracula... New York: Bantam, 1981.


STOKER, Bram. Dracula. Ed. Leonard Wolf. New York: Clarkson N. Potter, Inc., 1975.


TWITCHEL, James B. Dreadful Pleasures: An Anatomy of Modern Horror. Oxford: Oxford University Press, 1985.


WOLF, Leonard, ed. The Annotated Dracula... New York: Clarkson N. Potter, Inc., 1975.




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