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quinta-feira, julho 21, 2011

Dicas para apresentação de trabalhos

Caros alunos!

Enquanto vocês se preparam para o início do próximo semestre, aí vão algumas dicas, recolhidas no site da Universidade das Quebradas, que podem ser úteis para que ninguém tenha medo de botar para quebrar nas apresentações de trabalhos.

- É preciso que os apresentadores dominem o assunto que será abordado – quanto mais você souber e tiver pesquisado sobre o tema, mais segura e rica será sua fala! E não se esqueça: se o texto não tiver sido decorado, é claro que a apresentação ficará mais dinâmica e atraente para quem está assistindo.

- Produção de um esquema com informações sucintas, que servirão para nortear o trabalho do apresentador: para melhor entendimento da platéia é válido fazer uma introdução contextualizando o tema, mostrando sua importância e explicando seus objetivos ao escolhê-lo como tema de sua apresentação. Uma curiosidade interessante: as pessoas prestam mais atenção nos cinco minutos iniciais de uma fala, por isso passe seu recado mais importante nesse período e conquiste a platéia!

- Depois desse recado inicial vem o desenvolvimento dos tópicos – é nessa etapa que se deve explicá-los com lógica e coerência.

- Por fim, a conclusão: esse deve ser o momento de reflexão e síntese da sua apresentação, ressaltando os aspectos mais importantes do tema, levantando questionamentos e, – por que não? – discussões com o público. Lembre-se que muitos pontos de vista só enriquecem o debate, e a interação é importante no processo de aprendizagem.

- Elementos visuais ajudam muito para uma complementação e extensão daquilo que você está falando. Por isso, não se acanhe: apresente imagens, vídeos, slides, ou qualquer outra forma de expressão que complemente sua fala – afinal, a interação é sempre muito mais rica do que somente falar e ser ouvido!

- A preparação é a alma do negócio: ensaios prévios, no objetivo de evitar certas falhas que poderão comprometer a qualidade do trabalho apresentado, dão mais segurança ao apresentador e ajudam a aumentar o domínio do tema a ser apresentado. É importante lembrar que para o planejamento devem ser levadas em consideração as características do público para quem se está falando, como faixa etária, tipos de interesse, expectativas e conhecimentos prévios em relação ao tema em questão – é muito importante saber com quem se está falando para se poder pensar em como falar para essas pessoas!

- A postura do apresentador é fator ultra relevante! Por isso, fale com calma. E não se esqueça: você é o responsável por contagiar e envolver quem está assistindo à sua apresentação. A bola está em suas mãos, faça valer sua personalidade e dê o melhor de si!

Abraços!

quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Texto da Primeira Aula


Medicina – Psiquiatria – Psicologia

Este texto se propõe a demarcar, em rápidas pinceladas, as diferenças e aproximações entre os discursos da Medicina, Psiquiatria e Psicologia. Não nos propomos fazer um estudo aprofundado da história e desenvolvimento desses saberes, mas, apenas, mostrar através dos marcos iniciais as particularidades dos campos constituídos.

A Medicina


Presume-se que desde que o homem existe, existem técnicas de combate à doença. Nos grupos sociais mais primitivos, o adoecer era considerado uma manifestação de forças sobrenaturais, e a cura buscada em rituais religiosos. Contra as doenças, frutos das forças do mal, lutavam os curandeiros, conhecedores dos rituais e das ervas medicinais. Intermediários entre os homens e as entidades superiores, os curandeiros tentavam neutralizar as forças malignas por meio da magia e de sua capacidade de evocar poderes divinos.


Paralelamente e essa perspectiva, foram surgindo, em diferentes culturas, concepções e procedimentos que buscavam uma sistematização para os eventos que estariam implicados no adoecer. A mudança progressiva da consciência do lugar ocupado pelo Homem na Natureza, simultaneamente à complexificação das organizações sociais, propiciou o surgimento da medicina enquanto prática autônoma, mesmo que ainda fortemente marcada por superstições e traços religiosos.

Na Grécia Antiga, mais do que em qualquer outra cultura que a precedeu, o indivíduo passou a ser reconhecido e valorizado em sua especificidade. Desenvolveu-se a sistematização e a reprodução do saber em espaços específicos: escolas políticas, filosóficas, científicas e mesmo religiosas. Essas tendências prepararam o caminho para a desvinculação da doença do pensamento religioso.

Nesse contexto aparece à figura de Hipócrates, responsável pelas profundas transformações introduzidas na compreensão da doença e seu tratamento. Nascido na ilha de Cos, por volta de 460 a.C., Hipócrates fundou um verdadeiro corpo de conhecimentos, inaugurando uma medicina naturalista, baseada em uma doutrina, metodologia e deontologia específica. 


Com o declínio de Atenas, no século III a.C., observou-se, também, o eclipse da medicina hipocrática, que só foi resgatada cinco séculos mais tarde por Galeno (131 – 201 d.C.), que traduziu para o latim a obra de Hipócrates.

Galeno nasceu em Pérgamo (na atual Turquia), quando esta era colônia romana e aí estudou Medicina e Filosofia. Foi médico de gladiadores em Roma, por volta de 161, onde atingiu uma posição conceituada, vindo a ser nomeado médico do filho do imperador Marco Aurélio.

Escreveu bastante sobre farmácia e medicamentos, ampliou, a partir da experimentação, os conhecimentos em anatomia e fisiologia. Seus relatos de anatomia eram baseados em macacos, visto que a dissecação humana não era permitida pela igreja. Ao mesmo tempo desenvolveu, tendo como base a teoria dos humores de Hipócrates, uma tipologia psicológica, que estaria relacionada com diferentes manifestações patológicas. Foi na forma do galenismo que a Medicina greco-romana passou para o Ocidente cristão, dominando a Medicina e a Farmácia até ao Século XVII e mantendo ainda uma grande influência mesmo no século XVIII.




A aplicação dos medicamentos na terapêutica galénica dependia de vários fatores, como a personalidade do doente, a sua idade, a raça e o clima, que afetavam a própria natureza da mistura dos humores no corpo humano. O temperamento das crianças seria mais sanguíneo e o dos idosos mais fleumático, pelo que os primeiros necessitariam de um medicamento frio em maior grau que os últimos para o tratamento de uma febre. Esta preocupação tinha principalmente a ver com o tipo de medicamento ministrado, com as suas propriedades (qualidades) e respectiva intensidade, na medida em que a dose não seria tão importante, dado que a propriedade do medicamento era um atributo essencialmente qualitativo e não quantitativo.




Com a captura de Roma pelos Visigodos em 410, a história da medicina bifurca-se, seguindo os destinos da divisão do Império Romano. Em Bizâncio – Império Romano do Oriente - os conhecimentos clássicos, inclusive da medicina, foram muito bem preservados, o que, séculos mais tarde, propiciou seu desenvolvimento e sua difusão por meio dos mouros.


Já na parte Ocidental do antigo Império, o conhecimento sistematizado, iniciado pelos gregos, ficou sujeito ao enclausuramento da igreja católica romana, que marcou o sistema feudal, ficando sua transmissão restrita aos copistas nos Monastérios. Com a expansão do catolicismo, na Europa Ocidental, o pensamento religioso passou a dominar as cenas social, filosófica e científica. A crença na imortalidade da alma e o desprezo pelo corpo levaram ao desaparecimento do exame clínico e de praticamente todos os conhecimentos médicos da Antiguidade.


Os séculos XV e XVI foram marcados pela abertura de novas rotas de comércio e pela intensificação do tráfego de indivíduos entre diferentes regiões, dentro da Europa e fora dela. Como consequência, desenvolveu-se uma nova concepção de Homem e novos ideais que promoveram a liberdade de pensamento, o espírito de investigação e o direito à crítica dos clássicos. Surge uma nova visão das letras, artes e ciências, que marcou também os rumos da medicina.


Nesse período, Paracelso (1493-1541) foi um representante exemplar das novas ideias que implodiam antigos mitos. Nascido na Suíça, educado na cultura clássica da Universidade, aperfeiçoou seus estudos de medicina em inúmeras viagens. Embora não tenha realizado nenhuma grande descoberta, seus trabalhos demarcam um novo tempo para a medicina Ocidental. Seu grande mérito foi ter defendido a importância da crítica dos conhecimentos estabelecidos e da valorização da própria experiência para que novos caminhos se abrissem para o desenvolvimento da medicina.

A Ciência




O século XVII foi o celeiro de uma evolução profunda, abrangente e diversificada na ciência. Até então, era nos pensadores do passado que se procuravam as respostas para os enigmas do vivido. As forças que regiam a investigação consistiam no dogma (na doutrina imposta pela Igreja), e na autoridade dos pensamentos constituídos. Neste novo século, outras forças ganham importância. O conhecimento extraído do passado tornara-se suspeito, dando lugar as descobertas e percepções que refletiam a mudança na natureza da investigação científica.


Neste cenário, duas figuras ganham destaque no campo da filosofia do conhecimento: O matemático francês René Descartes (1596-1650), e o filósofo inglês John Locke (1632-1704). Mas, assim como na filosofia clássica Aristóteles diferia de Platão, na filosofia moderna, Locke vai diferir de Descartes.


Descartes, no mesmo viés do platonismo, afasta a experiência sensível ou o conhecimento sensível do conhecimento verdadeiro, que é puramente intelectual. Enquanto Locke, assim como Aristóteles, considera que o conhecimento se realiza por graus contínuos, partindo da sensação até chegar às ideias.


Essas diferentes perspectivas estabelecem as duas grandes orientações da teoria do conhecimento, segundo Marilena Chaui: o racionalismo e o empirismo.

Para o racionalismo, a fonte do conhecimento verdadeiro é a razão operando por si mesma, sem o auxílio da experiência sensível e controlando a própria experiência sensível. Para o empirismo, a fonte de todo e qualquer conhecimento é a experiência sensível, responsável pelas ideias da razão e controlando o trabalho da própria razão. (Chaui, 2002)


No âmbito da medicina, a visão racionalista que propunha o fundamento racional de toda ciência, fundou a lógica científica: que podemos resumir como a tendência a priorizar a clareza e a distinção do corpo e de suas funções, valorizando seu substrato material em detrimento da experiência subjetiva.

No campo da psicologia, uma das mais importantes contribuições de Descartes foi a resignificação da teoria dualista. Desde a Grécia Clássica, a Filosofia sustentou que a mente e o corpo eram de natureza distintas. No entanto, a influência de uma sobre a outra era unilateral. A mente podia exercer um enorme efeito sobre o corpo, mas esse tinha escasso efeito sobre a mente. Descartes aceitou a posição dualista: mente e corpo eram diferentes. Entretanto, argumentava ele, o corpo pode exercer uma influência muito maior sobre a mente do que se supunha até então.




Assim, Descartes foi o primeiro a oferecer uma abordagem do problema mente-corpo que focalizou a atenção num dualismo físico-psicológico. Ao fazê-lo, desviou a atenção dos estudos da alma, em seu sentido abstrato, para o estudo da mente e das operações mentais que ela executa. Por consequência, os métodos de investigação mudaram da análise e dedução metafísica subjetiva para a observação e a experimentação objetiva.


Para Descartes, mente e corpo são duas substâncias distintas. Não existe semelhança qualitativa entre o corpo e a mente. A matéria e o corpo são res extensas - substâncias extensas – que operam segundo princípios mecânicos e podem ser explicadas em função desses princípios. A alma ou a mente são res cogitans - substâncias pensantes. Somos, portanto uma substância pensante (res cogito) e também uma substância que possui corpo, matéria (res extensa). Mas a mente e o corpo, embora totalmente separados e distintos, são capazes de interação. A mente pode influenciar o corpo e o corpo pode influenciar a mente; é a chamada teoria de interacionismo mente-corpo.


A mente imaterial, segundo Descartes, possui as capacidades de pensamento e de consciência; portanto, fornece-nos o conhecimento do mundo externo. Mas não possui qualquer das propriedades da matéria. A característica mais importante da mente é a sua capacidade para pensar; isto a separa do mundo físico da matéria.


Uma vez que a mente percebe e quer, ela deve de algum modo influenciar e ser influenciada pelo corpo. Descartes reconheceu que, quando a mente “decide” um movimento de um ponto para outro, por exemplo, essa decisão é executada pelos nervos e músculos do corpo. Do mesmo modo, quando o   corpo é estimulado de alguma forma, como pela luz ou o calor, a mente reconhece e interpreta esses dados sensoriais e toma uma decisão quanto à resposta mais apropriada.




A independência entre alma e corpo conduzirá a uma nova separação: sujeito e objeto. Com essa linha de raciocínio, Descartes desenvolveu a sua “física da fisiologia”. E a partir desse pré-suposto teórico a fisiologia passa a ter um amplo espaço no desenvolvimento das teorias psicológicas.


Psiquiatria


A psiquiatria moderna tem início com a revolução francesa, no século XVIII. Até esse século, a loucura passou por diferentes interpretações. Em alguns momentos foi interpretada como uma benção dos deuses, os loucos eram respeitados como verdadeiros sábios. Em outros momentos, na idade média por exemplo, a loucura foi considerada um castigo divino ou uma possessão maligna. Os loucos eram excluídos do convívio social ou queimados nas fogueiras, pela santa Inquisição.




Nos séculos XVI e XVII, sobre a influência do movimento Humanista, o tema da loucura é captado pela literatura em obras como o Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam; Hamlet e Rei Lear, de William Shakespeare, e Don Quixote, de Cervantes.

Mas o primeiro grande passo para o progresso científico da psiquiatria ocorreu no final do século seguinte, com os estudos do médico francês Philippe Pinel, que instituiu reformas humanitárias para o cuidado com os doentes mentais.

 A revolução de Pinel consistiu em ver o louco não mais como um insensato, cuja linguagem seria desprovida de sentido, mas como um alienado, um estranho a si mesmo. Não um animal enjaulado e despojado de sua humanidade, porque estivesse privado de qualquer razão, mas um ser humano reconhecido como tal. Derivado do alienismo, o modelo nosográfico, estabelecido por Pinel, organiza o psiquismo humano a partir de grandes estruturas significativas (psicose, neuroses, perversões, fobia, histeria...) que definem o princípio de uma norma e de uma patologia e delimitam as fronteiras entre a razão e a desrazão.




As vésperas da Revolução Francesa, Pinel reformou a clínica, mostrando que sempre subsiste no alienado um resto de razão que permite a relação terapêutica. Separada das outras formas de desrazão (vadiagem, mendicância, desvio), a loucura tornou-se uma doença. A partir daí, o louco pôde ser tratado com a ajuda de uma nosografia adequada e um tratamento apropriado. Criou-se para esses doentes o Manicômio – mais tarde o Hospital Psiquiátrico – a fim de afastá-los do Hospital Geral.


A primeira psiquiatria dinâmica associava um modelo nosográfico (psiquiatria) a um modelo psicoterápico (sugestão), que separava a loucura asilar (doenças da alma, psicose) da loucura comum (doença dos nervos, nevroses). Alguns anos depois, Jean Martin Charcot anexou a neurose (essa semi-loucura) ao modelo nosográfico, fazendo dela uma doença funcional.


Na primeira metade do século XX, diante do impulso da psicofarmacologia, a psiquiatria abandonou o modelo nosográfico em prol de uma classificação dos comportamentos. Em conseqüência disso, reduziu a psicoterapia a uma técnica de supressão dos sintomas.

Psicologia




Não vamos nos estender pela história da psicologia, já que ela é tema de uma disciplina específica dentro do currículo do curso. Nosso objetivo é trilhar um caminho que nos leve a compreender os marcos teóricos da psicologia e da psicanálise.


Na segunda metade do século XIX, dois professores, em duas diferentes faculdades da Alemanha, marcaram com seus discursos e seus experimentos o início da Psicologia: Wilhelm Wundt (1832-1920) e Franz Brentano (1838-1917).

Em seu livro, História da Psicologia Moderna, Duane e Sydney Schultz, dão a Wundt o lugar de fundador da psicologia como disciplina acadêmica formal. Para esses estudiosos, Wundt ganha uma dimensão muito mais abrangente do que a de Brentano na história da psicologia moderna. Não discordamos totalmente da pressuposição desses autores, mas como temos a psicanálise como objetivo dessa disciplina, nosso interesse pelo trabalho de Brentano ganha uma dimensão maior do que a sugerida por esses autores.




Conforme Schultz, Wundt instalou em Leipzing, por volta de 1881, o primeiro laboratório de psicologia experimental, lançou a primeira revista especializada e deu início à psicologia experimental como ciência. Tendo como objetos de suas pesquisas temas como sensação, percepção, atenção, sentimento, reação e associação.

Acreditava que as funções mentais mais simples, como a sensação e a percepção, deviam ser estudados por meio de métodos de laboratório. Mas, os processos mentais superiores, como a aprendizagem e a memória, não podiam ser investigados pela experimentação científica por serem condicionados pela língua e por outros aspectos culturais.




Em seus trabalhos de pesquisa, utilizava os métodos experimentais das ciências naturais, principalmente as técnicas empregadas pelos fisiologistas. Adaptou esses métodos científicos de investigação para a psicologia e prosseguiu na sua pesquisa do mesmo modo como os cientistas físicos se dedicavam ao objeto de estudo de sua própria área.


O grande objeto de pesquisa de Wundt foi a consciência. Descrevia a sua psicologia como a ciência da experiência consciente. E seu sistema de pesquisa estava, basicamente, circunscrito as ideias do empirismo e do associacionismo.


Por isso mesmo, para Wundt, as experiências básicas humanas, como a percepção da cor vermelha ou a sensação de desconforto provocada pela dor, formam os estados da consciência (os elementos mentais) organizados de forma ativa pela mente. Sua proposta consistia em analisar a mente com base nos seus elementos, nas partes componentes, exatamente do mesmo modo que os cientistas naturalistas trabalhavam para dividir o seu objeto de estudo.


Wundt praticamente não aceitava o tipo de introspecção qualitativa, em que as pessoas simplesmente descreviam suas experiências íntimas. A descrição introspectiva, que buscava, estava relacionada principalmente aos julgamentos conscientes sobre o tamanho, a intensidade, a duração de vários estímulos físicos, ou seja, o tipo de análise quantitativa da pesquisa psicofísica. Poucos estudos de seus laboratórios usaram relatos de natureza subjetiva ou qualitativa, como a percepção de prazer provocada por um estímulo, a intensidade de uma imagem ou a qualidade de uma sensação. A maioria das pesquisas consistia em mediações objetivas proporcionadas por equipamentos sofisticados de laboratório, muitas delas referentes a tempos de reação registrados quantitativamente.


Mais ou menos no mesmo período, Franz Brentano era indicado para ser professor de filosofia da Universidade de Viena. Precursor intelectual das escolas da psicologia da Gestalt e da psicologia humanista, Brentano foi descrito por seus alunos como um professor muito carismático. Ao longo de sua vida, influenciou um grande número de estudantes, muitos dos quais se tornaram importantes filósofos e psicólogos, como Edmund Husserl e Sigmund Freud.


Apesar de suas abordagens profundamente diversas, Brentano compartilhava com Wundt da meta de fazer da Psicologia uma ciência. Contudo, ao passo que a psicologia de Wundt era francamente experimental, a de Brentano era empírica. O método da Psicologia de Brentano era a observação, não a experimentação, embora não rejeitasse a utilidade do método experimental. A chamada Psicologia do Ato, proposta por Brentano, contrariava o ponto de vista wundtiano de que os processos psíquicos são conteúdos.

Brentano põe sob suspeita a tese empirista por reconhecer na autonomia das faculdades pré-mentais ou inferiores (como a sensibilidade), uma espécie de inteligibilidade própria capaz de determinar o curso dos juízos de vontade. (Muller-Granzotto, 2007)




Para ele, tal faculdade, além de autônoma, seria capaz de determinar o curso de nossas faculdades mentais superiores, inclusive a vontade. Contrapondo-se a ideia de que uma vontade orientada por fenômenos pré-mentais não revelaria mais que uma configuração patológica do psiquismo: uma deficiência de julgar, uma falta de juízo ou, simplesmente, de uma loucura. Brentano vai na contramão dessa tradição ao afirmar que as representações objetivas, produzidas por nossos juízos, estariam antecipadas por representantes que se constituiriam em um domínio pré-mental, como aquele que caracteriza nossa sensibilidade e nossa motricidade. Brentano chama tais representantes de fenômenos psíquicos, entendendo por isso totalidades de sentido pré-mental investidas da capacidade de antever, de maneira indeterminada, o objeto a ser representado por nossos juízos (produzidos por nossos atos mentais). Para ilustrar essa concepção com um exemplo, podemos dizer que: somos capazes de pressentir um perigo que nos ronda, ao transitarmos por uma rua qualquer, muito antes de nos apercebermos conscientemente de que a rua é sinistra ou de que há alguém nos perseguindo. Tal pressentimento é um fenômeno psíquico. A origem dos fenômenos psíquicos tem relação com a maneira como nossas vivências no tempo retornam na atualidade como indícios de um futuro possível, sem que um ato intelectual as tenha de reunir. Brentano denominou de intencionalidade essa capacidade de antevisão: intencionalidade essa que não tem relação com o uso comum que fazemos da palavra intenção.


A noção cotidiana de intencionalidade sempre implica a visão de um objeto já determinado nos termos de um juízo (portanto, de um objeto de conhecimento), que nós queremos alcançar ou realizar. Ao passo que a noção brentaniana de intencionalidade não implica a prévia concepção de algum objeto, apenas a antevisão de um objeto possível (que no caso do exemplo acima, se manifestou como um pressentimento do perigo e antes que esse pressentimento tivesse sido identificado ou representado nos termos de um juízo sobre o sentimento de medo).


Especulando sobre a origem dessas intenções, nos diz que os fenômenos psíquicos têm relação com o retorno, na atualidade da consciência psíquica, de espectros das experiências passadas que operam como indícios (representantes) de possíveis novos objetos da experiência, sem que estes tenham de ser postulados por um juízo. Freud denominou de pulsão o retorno dos representantes de uma experiência passada; e o efeito de antecipação que tal retorno gera na atualidade das vivências psíquicas. De onde inferiu a tese de que todo o funcionamento psíquico está fundado numa pulsão ou, em um representante de um objeto primordial, ao qual o psiquismo irá substituir fazendo um sintoma, ou irá alucinar na forma de gozo. (Muller-Granzotto,2007)

Maria Holthausen




Referências Bibliográficas


CHAUI, Marilena, Convite a Filosofia, São Paulo: Editora Ática, 2002.


MÜLLER-GRANZOTTO, Marcos José e Rosane, Fenomelogia e Gestalt-Terapia, São Paulo: Summus Editora, 2007.


ROUDINESCO, Elisabeth, Por que a psicanálise?, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.


SCHULTZ, Duane P. e SHULTZ, Sydney Ellen, História da Psicologia Moderna, São Paulo: Cengage Learning, 2011.


VOLICH, Rubens Marcelo, Psicossomática – Clínica Psicanalítica, São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000.

quinta-feira, outubro 07, 2010

Complexo de Édipo

  • Sófocles – Édipo Rei
Freud transforma o drama edípico em um drama universal.
Todo ser humano se vê diante da tarefa de superar o complexo de Édipo”. (Freud)

  •  1897 – carta a Fliess – A primeira vez que Freud faz menção a tragédia e Sófocles.
  •   1910 – Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens. Neste texto, aparece pela primeira vez o termo complexo de Édipo.

  •  Na teoria freudiana, a noção de complexo de Édipo não fala da sexualidade infantil. Ela fala da entrada do sujeito nas leis da linguagem. A sexualidade só vai adquirir o seu estatuto teórico conceitual em os Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de 1905.

  •  Podemos pensar o complexo de Édipo sob duas variáveis:
 1. A construção antropológica do sujeito.
Conforme Claude Lévi-Strauss, a diferença entre natureza e cultura é determinada pelo interdito. Enquanto o natural é aquilo que é constante e universal para todos os indivíduos da espécie, o cultural é caracterizado pela regra, pela norma, e pertence ao domínio dos costumes e das instituições. A proibição do incesto é um interdito que possui a universalidade do que é natural mas que enquanto lei, é estritamente social. Assim, para Lévi Strauss, o interdito - a proibição do incesto - por seu caráter universal, é uma espécie de síntese da natureza e da cultura e um lugar privilegiado da passagem de uma para a outra.
Para a psicanálise, falar em complexo de Édipo não é a mesma coisa que falar na proibição do incesto. Não é só uma transposição da lei cultural. A proibição do incesto é uma regra referente às alianças e às trocas no interior do grupo social, enquanto o complexo de Édipo diz respeito ao desejo. Uma coisa é a mulher entendida como objeto de troca, outra é a mulher entendida como objeto de desejo. O que está em jogo no complexo de Édipo não é a troca, mais a mulher enquanto objeto de amor.


2. Um processo de produção do ser falante inserido num complexo campo de intersubjetividade. Isto é, a construção do sujeito na Cultura.
Sob esta perspectiva, o complexo de Édipo constitui-se no conjunto de relações que a criança estabelece com as figuras parentais e que compõem uma rede em grande parte inconsciente de representações e de afetos, fundamentais ao processo da construção da subjetividade.
Assim, o complexo de Édipo torna-se a estrutura que organiza o devir humano – o vir a ser - em torno da diferença dos sexos e da diferença das gerações.

  • O complexo de Édipo assume toda sua dimensão de conceito fundador quando Freud o articula com o “complexo de castração”. Este último, ao provocar a interiorização da interdição dos dois desejos edipianos (incesto materno e assassinato do pai), abre o acesso à cultura pela submissão e a identificação com o pai portador da lei que regula o jogo do desejo.


  • No primeiro momento, é em torno do modelo masculino que Freud elabora sua teoria do Édipo. A formulação do complexo de Édipo é então a seguinte: o desejo sexual pela figura parental do outro sexo e o desejo assassino pela figura do mesmo sexo (forma positiva). O desejo erótico pela figura parental do mesmo sexo e o ódio ciumento à do outro sexo (forma negativa).

  • A partir dos anos 20, a teoria da castração o leva a romper com toda simetria entre o Édipo do menino e o Édipo da menina. O conflito edipiano se constitui no momento do estádio fálico, quando um só órgão sexual é reconhecido pelas crianças dos dois sexos: o pênis, que classifica os seres humanos em fálicos e castrado(a)s. A partir de então, instaura-se uma dissimetria radical entre o desenvolvimento psicossexual do menino e o da menina. O menino sai do complexo de Édipo pela angústia da castração e nele o supereu (superego) é o herdeiro do complexo de Édipo (interiorização da interdição paterna). A menina ingressa no conflito edípico pela descoberta de sua castração e a inveja do pênis, o supereu se constitui com dificuldade nela, que tem de fazer do pai o objeto de seu desejo, e o tornar-se mulher é um percurso obscuro.
Texto de Freud:
Cartas a Wilhelm Fliess
A interpretação dos Sonhos
Totem e Tabu
Bate-se numa Criança
O eu e o isso
A dissolução do Complexo de Édipo
A Feminilidade

quinta-feira, agosto 19, 2010

FREUD - TEXTOS CLÍNICOS

Textos de Freud sobre a teoria psicanalítica


Volume – VII

O Método psicanalítico de Freud. 1904 [1903]

Sobre a psicoterapia. 1905 [1904]

Tratamento psíquico (ou mental). 1905


Volume XI

As perspectivas futuras da terapêutica psicanalítica. 1910

Psicanálise ‘silvestre’. 1910


Volume XII

Sobre o início do tratamento (Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise I). 1913

Sobre a psicanálise. 1913 (1911)


Volume XIII
O interesse científico da psicanálise. 1913
Observações e exemplos da prática psicanalítica. 1913
Algumas reflexões sobre a psicologia do escolar. 1914


Volume XIV

A história do movimento psicanalítico. 1914



Volume XV

Conferências Introdutórias sobre Psicanálise. 1916-1917

I. Parapraxias
II Sonhos


Volume XVI
Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (continuação)

Parte III - Teoria Geral das neuroses. 1917


Volume XVII

Uma dificuldade no caminho da psicanálise. 1917

Linhas de progresso na terapia psicanalítica. 1919 [1918]

Sobre o ensino da psicanálise nas universidades. 1919 [1918]


Volume XVIII

Uma nota sobre a pré-história da técnica de análise. 1920


Volume XIX

Uma breve descrição da psicanálise. 1924 [1923]

As resistências à psicanálise. 1925 [1924]


Volume XX

Um estudo autobiográfico. 1925 [1927]

Psicanálise. 1926 [1925]


Volume XXII

Novas conferências introdutórias sobre psicanálise. 1933 [1932]


Volume XXIII

Análise terminável e interminável. 1937

Esboço de psicanálise. 1940 [1938]

Algumas lições elementares de psicanálise. 1940 [1938]

Freud – casos clínicos

Volume II

Casos clínicos

1. Fraulein Anna O. (Breuer)

2. Frau Emmy Von N.

3. Miss Lucy R.

4. Katharina
5. Fraulein Elisabeth Von R.


Volume VII
Fragmento da análise de um caso de histeria 1905 (1901)
(O caso Dora)


Volume X

Análise de uma fobia em um menino de cinco anos. 1909

Notas sobre um caso de neurose obsessiva. 1909

(O Pequeno Hans e o Homem dos Ratos)


Volume XII
Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranóia. (Caso Schreber) 1911


Volume XVII

História de uma neurose infantil. 1918 [1914]
(O Homem dos Lobos)


quarta-feira, setembro 30, 2009

Sexta Aula


Na primeira fase de seu ensino, entre 1936 e 1949, Lacan publica vários textos cujo foco é redefinir o narcisismo freudiano a partir de sua formulação do estádio do espelho, e de apresentar uma noção de sujeito articulado com o sentido.


Em 1949, Lacan publica uma versão modificada de seu texto, O estádio do espelho como formador da função do eu, apresentado pela primeira em 1936, num Congresso de Psicanálise.

Em O estádio do espelho, a partir da observação de sua própria filha, ele descreve a experiência de uma criança, entre seis e dezoito meses de idade, frente ao espelho. Para Lacan, nesta fase, apresentada como fase do espelho, a criança – tal como no mito de Narciso – se fascina e se identifica com a sua imagem, enxergada como outra no espaço virtual que lhe apresenta o espelho.

Influenciado pela filosofia de Hegel, Lacan formaliza essa experiência empírica como paradigma da dialética do senhor e do escravo. Na fase do espelho, como em toda relação dialética, no sentido hegeliano, o que acontece no outro – o espelho – não está separado do que acontece na criança. Por isso, a imagem que o espelho devolve à criança se cristaliza como o seu eu, como a sua consciência de si, mas na posição de um mestre parasitário. Segundo Lacan, a imagem está na posição de um mestre parasitário porque, por um lado, cria a ficção de uma identidade, mas, por outro lado, esta ficção, que é o seu eu, não cumpre nenhuma função que permita a adaptação da criança ao seu meio.

Nesse período, diz Lacan, o essencial para psicanálise é a função das identificações, que constitui sua teoria antes de evidenciar a função do significante. O sujeito, durante toda a sua vida, é captado por imagens, às quais ele se identifica sucessivamente e, portanto, o seu ego é um bazar de miudezas de identificações, que podem ser contraditórias entre si.

Com a formulação do estádio do espelho, a partir da dialética do senhor e do escravo, Lacan redefine o narcisismo freudiano. De acordo com Freud - Introdução sobre o Narcisismo, 1914 - , o conceito de narcisismo designa o investimento libidinal do eu ao ser tomado como objeto pela pulsão. No início, diz Freud, o corpo da criança se encontra fragmentado em zonas de gozo, zonas essas que se satisfazem auto-eroticamente. Cada zona erótica apresenta-se uma economia isolada de satisfação e desvinculada das outras. A unidade só é conquistada numa nova ação psíquica que ”se agrega” ao auto-erotismo. Esta nova ação psíquica, que permite a passagem da fragmentação à unidade corporal, não é outra coisa senão a libidinização do eu na fase do narcisismo – narcisismo primário. Esta fase, em que o eu é tomado como objeto da pulsão sexual, dá lugar a um novo estágio, no qual a libido se desloca do eu para os objetos do mundo. Este deslocamento da libido do eu para os objetos, libido objetal, permite que o desejo seja cativado pelos objetos. Ou seja, que se estabeleça uma passagem do amor de si, narcísico, ao amor pelo outro. Mas como o que estabelece essa passagem é o deslocamento da libido do eu para o outro, o amor pelo outro ficará sempre preço as raízes do narcisismo. Amamos o nosso parceiro não por ser uma alteridade radical, mas porque equivale à nossa imagem. Amamos no outro a nossa própria imagem.

Em Lacan, o estádio do espelho é que introduz o que Freud chamou de narcisismo. Este novo ato psíquico, também em Lacan, se agrega ao auto-erotismo, de uma maneira súbita. Por isso, o estádio do espelho não responde a uma lógica evolutiva, a sua emergência implica um corte com o que antecede; e se caracteriza pelo fato da criança reconhecer a sua imagem no espelho.

Este reconhecimento é um efeito do dinamismo libidinal que a sua própria imagem produz. Mas, como adverte Lacan, devemos entender este processo, não como um mero reconhecimento, senão como uma identificação “no sentido pleno que a análise atribui a esse termo, ou seja, a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem”. (Lacan, 1998)

Por essa via, para Lacan, a identificação do sujeito com a sua imagem, na fase do espelho, não só constituirá o eu como uma projeção imaginária, como também o determinará com a função de desconhecimento. Isto se deve a que, pela imagem que o espelho lhe devolve, acredita ter uma unidade que não condiz com a prematuração de seu corpo anato-fisio-biológico, que se encontra na impotência motriz e na dependência da amamentação. Mas a característica de desconhecimento do eu não se deve simplesmente a que o eu se constitui por identificação com o outro, a que o eu é outro. A característica do eu é de desconhecimento porque, uma vez produzida à identificação com o outro, o eu desconhece a mediação do outro, ou seja, o eu acredita ser igual ao eu, e não igual ao outro que o constituiu como tal. Por isso mesmo, em seu escrito Formulações sobre a causalidade psíquica, Lacan define o desconhecimento como a loucura mais geral, por ser a loucura própria do eu.

Assim, para Lacan, o sujeito estabelece uma dialética identificatória com o seu entorno porque não sabe quem é, e por sofrer de um desraizamento instintual, não sabe o que quer. Nesta dialética, o sujeito conquista um duplo conhecimento. Por um lado, a identificação com o outro, o assumir como sua a imagem do outro, lhe permite “conhecer” quem é. E por outro lado, por se crer outro, assume como objeto de seu desejo aqueles que são objetos do desejo do outro, e isto lhe permite “conhecer” o que quer.

Por perder a matriz instintual, o ser humano não sabe o que quer, e não sabe qual é o objeto do seu desejo. Qualquer objeto pode cativar o seu desejo: a única condição para isto é que ele seja objeto do desejo do outro. Portanto, os objetos não são fixos, não são determinados instintivamente, como no animal. Isto indica que, no ser humano, o campo de força do desejo é mais autônomo que nos animais: os objetos possíveis são infinitos.

No entanto, no ser humano, a autonomia de seu desejo, em relação a seu objeto, tem um preço a ser pago. O preço que paga pela autonomia de seu desejo, Lacan o encontra na pouca realidade dos objetos. Diferentemente do instinto animal, que tem objetos fixos, insubstituíveis, com os quais o animal se satisfaz, o desejo humano só fica cativado pelos objetos que o outro deseja, mas se estes objetos deixam de ser desejados pelo outro perdem o brilho libidinal que os iluminava, apagam-se, ficando apenas o pouco de realidade constituinte.


terça-feira, setembro 22, 2009

Quarta e Quinta Aula

Conforme Elizabeth Rudinesco, foi no convívio com Alexandre Koyré, Henry Corbin, Alexandre Kojève e Georges Bataille; que Lacan inicia-se na modernidade filosófica passando pela leitura de Husserl, Nietzsche, Hegel e Heidegger.

Entre 1933 e 1939, Alexandre Kojève, jovem filósofo russo, ministra um curso sobre a Fenomenologia do Espírito, de Hegel. Influentes autores franceses de várias áreas disciplinares participam do Curso, entre eles: Raymond Quenau e André Breton – da literatura; Maurice Merleau-Ponty, Eric Weil, Raymond Aron e Pierre Klossowski – da filosofia; Roger Caillois – da antropologia; e Jacques Lacan.

A partir de então, a teoria e a clínica lacaniana serão fortemente influenciadas pela leitura do filósofo russo, e a teoria do filosofo alemão. Sendo que um dos conceitos que mais sofreram estas influências foi, por certo, o do desejo. Não há como falar na noção de desejo em Lacan sem passar pela parábola da “dialética do senhor e do escravo”.

Regina Neri – 2005 - resume com clareza e simplicidade a parábola kojeviana da “dialética do senhor e do escravo”, de Hegel. Diz Neri: Para Hegel, o homem toma consciência de si quando não está mais alienado na apreensão dos objetos naturais, mas dirigido para algo não-natural – um outro desejo. Ele se constitui como sujeito humano desejante ou como Autoconsciência de si, no encontro com um outro eu desejante. O desejo é desejo de reconhecimento pelo outro que estaria ilustrado na dialética hegeliana do senhor e do escravo. Nessa busca de auto-reconhecimento, cada autoconsciência ameaça a vida do outro e aceita colocar em risco a sua própria vida. Nesse confronto, torna-se senhor aquele que aceita correr o risco da morte e escravo aquele que por medo, se submete ao senhor, reconhecendo-o como seu mestre. Assim, o eu só pode se constituir como autoconsciência no encontro com o outro; o eu só pode aprender-se objetivamente mediado pelo outro.

Ou seja, para que o desejo supere sua forma natural (animal) e se constitua como desejo humano, são necessárias duas condições: 1. Que o desejo se volte para um objeto não natural; 2. A existência da linguagem.

Segundo Garcia-Roza, a razão da primeira é evidente. Se o desejo animal supera momentaneamente a natureza ao negá-la, ele permanece no entanto escravizado a ela pela necessidade de satisfação. Para que o desejo se constitua como desejo humano, é necessário que ele se dirija para um objeto não-natural. Mas o único objeto não-natural é o próprio desejo, já que é um vazio.

Assim, sendo o desejo um vazio, ausência de ser, ao se voltar para um outro vazio, e apenas desta forma supera sua realidade natural, dá lugar ao surgimento de algo não-natural: o desejo de desejo.

Mas se o desejo humano é sempre desejo de outro desejo, como justificar o fato de que, enquanto homens, desejamos objetos? Hegel responde que o desejo humano volta-se para objetos na medida em que estes se constituem como objetos do desejo de outros homens. Nesta medida, ao nos apossarmos desses objetos, estamos afirmando nosso domínio sobre o desejo do outro.

Esse reconhecimento só pode ser feito pela palavra. É esta a segunda condição do desejo humano. Sem a palavra ficamos irremediavelmente aprisionados na subjetividade. A linguagem é mediação, meio necessário para o reconhecimento. É a linguagem e somente ela que possibilita a intersubjetividade. Fora da linguagem não há eu humano.

Lacan

Influenciado pela leitura de Hegel, Lacan concebe a noção de desejo como falta. Não a falta de um objeto determinado da necessidade, mas pura negatividade desprovida de objeto natural. Daí a noção do sujeito de desejo como falta-a-ser, como perda irreparável.

Por essa via, podemos entender o desejo como a negatividade do mundo narcísico: como aquilo para o que não há objeto dado e conformado de satisfação plena, como fazem parecer as imagens ideais. O desejo é sempre de outra coisa. Ele não complementa a imagem e não satisfaz plenamente as pulsões. O desejo, segundo Lacan, é a necessária relação do ser com a falta.

Para Vlademir Safatle, ao falar de desejo como pura negatividade, Lacan supõe uma potência de indeterminação. É a presença, em todo o sujeito, daquilo que não se submete integralmente à determinação identitária da unidade sintética de um Eu, que não se submete à forma positiva de um objeto finito. Ou seja, a falta própria ao desejo é, na verdade, o modo de descrição de uma potência de indeterminação e de despersonalização que habita todo sujeito e que Lacan chamará em certos momentos de infinitude.


Assim, a clínica lacaniana pode ser enunciada como uma espécie de crítica da alienação do Eu, que visa abrir espaço para o reconhecimento do desejo. No entanto, pergunta Safatle, o que pode exatamente significar “abrir espaço para o reconhecimento”de um desejo que é pura negatividade? Significa descobrir que o desejo é indiferente aos objetos aos quais se fixa, que sua natureza consiste em mudar continuamente de objeto? Significa dizer que o desejo destrói todos seus objetos, como se sua verdade fosse ser puro desejo de destruição e morte? É nesse ponto que o recurso à noção de estrutura mostra sua importância.

Lacan insiste que a Lei social que estrutura o universo simbólico não é uma lei normativa no sentido forte do termo, ou seja, uma lei que enuncia claramente o que devo fazer e quais condições devo preencher para segui-la. Essa é uma questão central que costuma gerar confusões. A Lei simplesmente organiza distinções e oposições que, em si, não teriam sentido algum.


Por exemplo, a Lei da estrutura de parentesco pode determinar topicamente vários lugares, como “filho de ...”, “pai de...”, mas esses lugares não têm em si nenhuma significação normativa, nenhuma referência estável. Por isso, nunca sei claramente o que significa, por exemplo, ser “pai de...”, mesmo tendo consciência de que ocupo atualmente tal lugar. Só posso saber o que um pai é, o que devo fazer para assumir a autoridade e enunciar a norma à condição de acreditar em certa impostura. É essa ausência de conteúdo que Lacan tem em vista ao afirmar que a Lei sociossimbólica é composta por significantes puros, que ela é uma “cadeia de significantes”.

Para Lacan, o significante puro, desprovido de referência, é a formalização mais adequada para um desejo que, por sua vez, é negatividade desprovida de objeto. Pois só um significante puro pode dar forma a um desejo que é fundamentalmente inadequado a toda figuração. Ou seja, a crítica da alienação a que se propõe Lacan deve se realizar através do desvelamento de que a verdade do desejo do sujeito é ser desejo da Lei, isso nos dois sentidos do genitivo: desejo enunciado no lugar da Lei e desejo pelo significante puro da Lei.

terça-feira, setembro 08, 2009

Segunda e Terceira aula

O desejo no ensino de Freud

Para Freud o desejo é um movimento que, frente à repetição da necessidade, procura reinvestir (recatexizar) o traço mnêmico da experiência de satisfação. Dessa definição, é possível destacar alguns termos:

Movimento: O desejo é definido como uma moção, uma força que dirige o sujeito para um fim determinado.
Essas moções do desejo fluem em direção aos objetos da realidade investindo-os de libido, num processo chamado de libidinização do objeto. Para Freud o primeiro objeto libidinizado é o Eu, dando origem ao narcisismo.
As moções do desejo podem também mudar o seu curso – sublimação -, ou serem inibidas. Quando a realidade é muito hostil - lugar de privação e frustração permanente - apresenta-se o que se pode chamar de psicose da miséria: afrouxamento dos vínculos e dos investimentos da libido em relação à realidade.

Repetição: No campo do desejo, podemos compreender a repetição como a insistência do desejo não apenas em se realizar plenamente, mas em se expressar, em ser reconhecido pelo Eu. O que se realiza no sonho é a expressão disfarçada do desejo. Continuar desejando significa continuar vivendo enquanto sujeito, pois a manutenção do desejo é a manutenção de uma fala. “O recalcado não quer se esgotar. Quer se repetir, e se repete inclusive nos traços que persistem iguais entre as várias escolhas, aparentemente tão diversas, que fazemos pela vida.”(Khel, M. Rita)

Necessidade: Em Freud a necessidade dá origem à vida psíquica. O recém- nascido, impossibilitado por sua prematuração de satisfazer suas necessidades vitais, precisa da intervenção de um adulto, resultando daí a erogenização de seu corpo, suas alucinações e fantasias.
A partir da primeira experiência de satisfação surge o que Freud chamou de Princípio do Prazer: os processos primários inconscientes. No reino do Princípio do Prazer e dos processos primários, a psique vive uma espécie de atemporalidade, de simultaneidade entre as manifestações da necessidade e a alucinação do objeto de satisfação. A primeira experiência de satisfação estabelece uma ligação - facilitação, associação - entre a imagem do objeto que proporcionou a satisfação e a imagem do movimento que permitiu a descarga.
Ou seja, a repetição da necessidade desencadeia um impulso psíquico que procurará reinvestir a imagem mnêmica do objeto, com a finalidade de reproduzir a primeira satisfação.
Quando fracassa o Princípio do Prazer – recalque – é que a criança começa a desenvolver recursos para fazer a mediação necessária entre a pulsão e a satisfação parcial da pulsão: recurso chamado de Princípio da Realidade. “É com o fracasso do Princípio do Prazer que surge a possibilidade de este recém-chegado ao mundo se tornar sujeito de uma história, que será a história das tentativas que ele fará para encontrar satisfação substitutiva para a satisfação alucinatória: a história dos embates do indivíduo com a realidade e das múltiplas anunciações do desejo, que só são possíveis se referidas aos objetos do “mundo real”.” (Khel, M. Rita)
Com o surgimento do Princípio de Realidade a criança desenvolve consciência, atenção, memória, discernimento, pensamento e ação.
Procura: Trata-se sempre de uma tentativa. Algo que busca realizar-se, e nesse processo se depara com diversos tipos de obstáculos. Obstáculos produzidos pelos conflitos psíquicos: censura, inibição, repressão, ideais; que podemos chamar de atemporais. E os obstáculos produzidos pelos códigos da cultura que habitamos. Obstáculos históricos, temporais.

Reinvestir o traço mnêmico da experiência de satisfação. O desejo não se dirige a um objeto da realidade, mas procura reinvestir uma lembrança.

Assim sendo, podemos dizer que em Freud o desejo é teorizado como algo indestrutível, impossível de satisfazer e marcado pela alteridade.

Formação de Compromisso:

Na teoria freudiana, a noção de desejo é inseparável da noção de formação de compromisso: - Sonhos, atos falhos, chistes, sintomas e lembranças encobridoras. Como o desejo é essa tendência ao impossível, essa moção sem corpo, ele precisa estabelecer um pacto ou compromisso com outras instâncias para surgir. Além disso, a divisão do psiquismo faz com que o prazer para uma instância seja desprazer para outra, pois cada qual tem diferentes interesses. Assim, o sonho é uma formação de compromisso entre o desejo pré-consciente de dormir e o desejo inconsciente; este, após transferir sua força para um pensamento pré-consciente censurado, se alia àquele.

O sintoma é uma formação de compromisso entre o desejo e sua censura, chamado por Freud de supereu. As formações de compromisso teorizadas por Freud – sonhos, atos falhos, chistes, sintomas e lembranças encobridoras – serão denominadas por Lacan de formações do inconsciente.

As formações do inconsciente – ou as formações no inconsciente – podem ser entendidas não como uma produção de um homenzinho dentro do homem que seria o inconsciente, mas como uma produção discursiva em uma Outra cena.

Mas, é preciso compreender que a Outra cena, como a expressão diz, só tem sentido se articulada com a cena. Uma “outra cena” precisa da cena para existir e só existe nesta relação. É justamente isto que faz com que, nas formações do inconsciente, o desejo, amarrado a alguns significantes, possa mudar de circuito.
O próprio da formação do inconsciente reside em uma função da passagem de uma cena para outra. Esta Outra cena será então materializada. Ela poderá ser reconstruída no trabalho analítico, com efeitos sobre o real do sintoma, pois será apreendido a partir de uma nova formação significante.






quarta-feira, setembro 02, 2009

Referências Bibliográficas
- Curso de 2009 -
  • Castelo Branco, Guilherme, Olhar e o amor – A Ontologia de Lacan, Rio de Janeiro: Nau Ed., 1995.


Capítulo 3 – “A coisa e o desejo”

  • Derrida, Jacques, [2002] A Escritura e a Diferença, São Paulo: Ed. Perspectiva.

- “Freud e a cena da escritura”

  • Garcia-Roza, Luiz Alfredo. [1991] Introdução à Metapsicologia Freudiana 2, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

- Capítulo 3 – Impressão, Traço e Texto
- Capítulo 8 – O Desejo

  • Kaufmann, Pierre. [1996]. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

  • Lacan, Jacques. [2005]. O Seminário livro 10, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

- Capítulo 8 – A causa do desejo
  • Miller, Jacques-Alain. [1997] Lacan Elucidado: palestras no Brasil, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
- Capítulo I - O mal-entendido
  • Neri, Regina. [2005] A psicanálise e o feminino: um horizonte da modernidade, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
- Capítulo 1 - Da invenção da Razão à Crise da Razão.

Novaes, Adauto. [1990]. O Desejo, São Paulo: Companhia das Letras.

- “O Desejo da Realidade” – Maria Rita Kehl

  • Rudinesco, Elisabeth,[1994] Jacques Lacan – Esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento, São Paulo: Companhia das Letras.

- Capítulo 3: A Escola da Filosofia – Em torno de Alexandre Koyré
  • Safatle, Vladimir [2006] A paixão do Negativo - Lacan e a Dialética, São Paulo: Editora UNESP.
- Capítulo 2 - A transcendência negativa do sujeito
  • Safatle, Vladimir [2007] Lacan - São Paulo: Publifolha.

obs: No transcorrer do Curso iremos acrescentando novas referências.

quinta-feira, agosto 20, 2009



  • Primeira Aula
  • 18 de agosto de 2009


Neste semestre começamos o quarto curso vinculado ao Grupo de Estudo de Arte, Filosofia e Psicanálise. A proposta desse grupo, desde o início do projeto, é abrir um diálogo entre este saber – a filosofia –, e os dois processos de criação, ou melhor, de invenção (pois, inventar é dar uma nova forma a algo que já existe), que são o trabalho do artista e o trabalho do psicanalista.
Relaciono o trabalho do psicanalista ao trabalho do artista, por acreditar que o que está em jogo no divã, se aproxima muito mais do procedimento de invenção de um saber, do que de um procedimento epistemológico. Podemos dizer: Assim como Marcel Duchamp, inventou um vaso sanitário como objeto de arte; em uma análise, inventamos um nome para objeto a. Essa nomeação vai gerar uma série de efeitos sobre a forma do gozo e no modo de operar o desejo de um sujeito.


Sobre o curso desse semestre, eu gostaria de iniciar apontando três intenções: Em primeiro lugar, esse curso dá continuidade ao do ano passado - Sujeito, Desejo e Discurso. No curso de 2008, nos propomos a falar do sujeito, do desejo e do discurso a partir do texto de Lacan, Subversão do Sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano, de 1960. Quem fez o curso sabe que trabalhamos bastante a noção de sujeito, e passamos muito rápido pela noção do desejo e do discurso. Então, nesse semestre, resolvemos voltar ao tema do desejo, sob outra perspectiva.

Em segundo lugar, demos um nome para esse curso na forma de questão: "O que causa o teu desejo?". Já está posto nessa nomeação, um modo de apreender o desejo na psicanálise lacaniana. O desejo, diz Lacan, é sempre uma questão, uma incógnita. Uma primeira leitura, dessa proposição lacaniana sobre o desejo, pode ser compreendida de uma maneira bastante simples. Por exemplo, se vamos para um texto, para um curso, para um projeto de mestrado ou doutorado sem uma questão, não vamos muito longe. Lacan diz assim: Se vamos para um texto com amor, ficamos embevecidos, extasiados, arrebatados, colados a ele; não aprendemos nada. Se vamos com desejo, nós o interrogamos, o esburacamos, percebemos seus furos, as pontas que não se amaram, provocamos e somos provocados por ele. Aí sim, começamos a aprender algo.

Essa é uma direção para pensar a importância do desejo do analista. Se o analista vai escutar o texto, a narrativa do analisando com amor; ele corre o risco de ir pela via da compaixão, da ajuda, do terapêutico. O que, no mínimo, é um risco ético. Já, se a escuta é sustentada pelo desejo ela vai provocar trabalho.
E, finalmente, a terceira intenção é demonstrar, através do significante causa, o que caracteriza e diferencia de outros saberes, a noção de desejo em Lacan. Essa construção do objeto como causa de desejo Lacan desenvolve no capítulo VIII, intitulado “A causa do desejo”, do Seminário X – a angústia, de 1962-63. Antes desse Seminário, a leitura lacaniana do desejo seguiu a trilha do saber estabelecido. No primeiro momento do seu ensino, Lacan se apropria da noção de desejo de Freud. Num segundo momento, sofre a influência da teoria do desejo de Hegel, através da leitura de Alexandre Kojève. No terceiro momento, o Seminário da ética, foi buscar na teoria de Kant as ferramentas que permitiram a construção da ética do desejo. E finalmente, no Seminário X, quando se propôs a pensar a angustia, já tinha construído a noção de objeto a, que lhe permitiu dar uma reviravolta, um novo passo de sentido na relação entre desejo e objeto.

Conforme o programa, nesse curso nossa proposta é percorrer esses vários momentos da noção de desejo no ensino de Lacan. Só não iremos nos debruçar sobre o Seminário VII – a ética. Não situei esse Seminário em nosso programa, porque, neste Seminário, Lacan associa a noção de desejo com as questões da ética; e essa articulação merece muito mais tempo de estudo. Portanto, falaremos dele quem sabe, no próximo ano.

Podemos dizer que para a clínica psicanalítica o desejo é um conceito fundamental. A proposta de trabalhar o gráfico do desejo, no ano passado, foi mostrar que naquele gráfico Lacan apresenta o percurso de uma análise. Podemos dizer, que se a clínica freudiana teve como foco o complexo de Édipo, a clínica lacaniana articula-se aos circuitos do desejo.

Mas, tratando-se do desejo, os caminhos nunca são curtos nem fáceis. Como posição subjetiva, é muito mais fácil o caminho da queixa: a queixa é coletiva. Como diz Jorge Forbes, os sindicatos estão aí para provar como é fácil nos constituirmos em grupo pela queixa. Outro caminho, que parece bem mais fácil do que o do desejo, é o da demanda. Veremos, no transcorrer do curso, que o neurótico toma com muita facilidade o desejo por demanda. Nós nos estafamos para responder as demandas dos outros, e nos estafamos também em criar demandas para os outros. Nossa ilusão primeira é que ao responder as demandas, estamos respondendo ao desejo. Pobre ilusão.

Por que damos tantas voltas em torno do desejo? Porque assumir a posição de sujeito desejante é, em primeiro lugar, parar de se queixar e assumir a responsabilidade pelas nossas escolhas. A ética da psicanálise proposta por Lacan no Seminário VII é: aja em conformidade com o teu desejo. Mas não se enganem, essa posição ética não tem nada de egocentrismo, individualismo ou de hedonismo. Desejo, para psicanálise, tem pouco haver com prazer.

Se fosse provocá-los com uma metáfora, eu diria que o desejo tem a cara do diabo. É Menfistófoles para Fausto de Goethe: o diabo cínico, de acordo com Peter Sloterdijk. É o diabo do conto O diabo enamorado, de Cazotte, de quem Lacan destaca a questão colocada no ápice de seu gráfico: “Que queres?”. São as sereias para Ulisses. É preciso tapar os ouvidos e se amarrar no mastro, para não ser atraído por seu canto.

Essa é uma boa via para começar a compreender as dificuldades de agir em conformidade com o seu desejo. Homero nos presenteia com duas grandes figuras que não cedem de seu desejo: Ulisses e Aquiles.

Se olharmos para Ulisses como uma figura civilizatória, podemos inferir que o que causa o desejo de Ulisses é a civilidade. Para sorte de Penélope, que acaba sendo tomada como representação desse objeto causa. Então, podemos dizer que o objeto do desejo de Ulisses é Penélope, porque nela se inscreve a causa de seu desejo.

Sabemos que Penélope ocupa com maestria esse lugar. Ela é a esposa fiel que espera, pacientemente, por longos anos, o regresso de seu marido. Enquanto espera se ocupa com o bordado da mortalha do seu pai, para ludibriar as expectativas de seus pretendentes. Durante o dia borda, a noite desmancha o bordado, para no dia seguinte novamente iniciá-lo. Conforme alguns comentadores da Odisséia, durante esses longos anos seu pai permanece insepulto.

Ulisses é o herói da civilidade. Por isso mesmo, um grande orador. Conhece toda a sorte de ardis e planos astutos. Representa a centralização do poder – defensor ferrenho de Agamenom na Ilíada -, a disciplina, a ordem e a ação conjunta.

Durante todo o longo período da Odisséia foi tentado pelo amor de mulheres poderosas e belas. Verdadeiras deusas tentaram conquistá-lo. Circe e Calipso chegaram a levá-lo para a cama. Calipso lhe ofereceu a imortalidade, uma ilha paradisíaca e o seu amor eterno, dádiva irrecusável para qualquer ser humano. Mas nenhum desses dons foi capaz de tirar Ulisses de sua posição desejante. Os circuitos do seu desejo inscrevem uma outra cartografia: Voltar para casa, reassumir o trono de Ítaca e o lugar de esposo de Penélope, era, para nosso herói, não se deixar aprisionar por imagens narcísicas que quando absolutizadas elidem a posição desejante.

Por outro via, se constrói o desejo de Aquiles. O objeto causa de desejo de Aquiles é o heroísmo do guerreiro. Por essa via, podemos entender que quando teve que escolher entre uma vida longa e obscura e uma vida breve e heróica, não cedeu um milímetro sequer de agir conforme seu desejo.

Pobre Briseida. Aquiles a amou? Penso que sim. Sua ira, quando Agamenon roubou-lhe Briseida foi sincera. Sofreu, entrou num processo de luto, revoltou-se, desistiu de ir para o campo de batalha. Por certo tempo, chegamos acreditar que o amor tinha suplantando o desejo. Mas, a morte de Pátroclo reconfigura sua posição subjetiva. Tendo que escolher entre o amor de Briseida e a vingança pela morte do jovem amigo, Aquiles responde a partir de seu desejo: opta pela vingança. Volta para batalha, e morre como herói. Escreve-se na história – da Ilíada – como o guerreiro dos guerreiros.

Para concluir o texto e, no mesmo ato, dar início a esse Curso. Podemos supor, a partir da construção proposta por Lacan no Seminário X - que eleva o objeto a, enquanto causa de desejo, a categoria de fetiche -; que, para Ulisses, Penélope adquiriu o estatuto de objeto fetichista. Enquanto para Aquiles, o brilho fetichista vinha-lhe da espada.
Maria Holthausen

sexta-feira, agosto 07, 2009

CURSO PSICANÁLISE


O que causa o teu desejo?


O desejo na clínica lacaniana
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Sabemos que a natureza última do desejo é da categoria do impossível, mas, sabemos também, que a nossa experiência cotidiana como sujeitos desejantes não acontece nesse nível. O lugar dos objetos do desejo é o campo das representações da realidade e dos objetos ditos reais. Nesse campo, não falamos o desejo, mas do desejo. Na vida cotidiana caminhamos em direção a objetos secundários que aparecem para a consciência como objetos possíveis cujo alcance depende pelo menos em parte de nossa ação voluntária, consciente.

Em Freud, a realidade e seu Princípio só se introduzem no campo do desejo a partir do fracasso da satisfação alucinatória através da qual o psiquismo da criança tenta contentar as demandas imediatistas e onipresentes do Princípio do Prazer. O fracasso, parcial, do Princípio do Prazer inaugura a um só tempo três instâncias para a psique: o tempo, a realidade e o sujeito. O sujeito, visto aqui, como uma instância psíquica que se diferencia do todo ao qual se achava unido imaginariamente e portador de um desejo, já que no espaço do Princípio do Prazer não se pode falar exatamente em desejo por causa da vinculação imediata entre a necessidade e a satisfação alucinatória. No mínimo, não se pode falar de permanência do desejo antes do fracasso do Princípio do Prazer. É a partir desse fracasso que o psiquismo desenvolve recursos para fazer a mediação necessária entre a pulsão e a satisfação parcial da pulsão: o que Freud chamou de Princípio de Realidade.

É só a partir daí que podemos dizer que todo sujeito é sujeito de um desejo, ou que, todo sujeito é sujeito porque é desejante. Já que sujeito e desejo são paridos desde o mesmo evento; o fracasso do Princípio do Prazer. Primeira experiência de corte na unidade imaginária mãe-criança, ou mundo-criança, ou, ainda, na unidade imaginária entre a necessidade e sua imediata satisfação.

Uma conseqüência da interpretação lacaniana sobre o estatuto da linguagem e de sua forma de ser no inconsciente é a reformulação da questão da realidade. A articulação lacaniana das relações entre princípio do prazer, princípio de realidade e pulsão de morte, põe em jogo a noção de realidade freudiana. E, redimensiona as operações do desejo e o lugar do analista na clínica.

Esse curso tem por objetivo perseguir os caminhos teóricos e as conseqüências clínicas desses vários momentos da noção de desejo no ensino de Lacan.


Programa:



2. A leitura lacaniana do desejo hegeliano.

3. A lei institui o desejo.
(A influência de Santo Agostinho na leitura lacaniana do desejo)

4. O objeto a como causa de desejo.
(Seminário X – Cap. VIII)

5. Sinthoma: saber fazer com.
(As operações do desejo na segunda clínica lacaniana)


Cronograma:


Dia: Terça Feira
Horário: 16H30 as 18H00
Sala: 317 - CFH
Local: Faculdade de Filosofia – UFSC

Ministrante: Maria Leite

Data: 18 de agosto a 27 de Outubro de 2009.
Inscrições: Na primeira aula.
Gratuito - aberto a comunidade
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Coordenação: Marcos José Muller-Granzotto
1. A noção de desejo na teoria freudiana
(A interpretação dos Sonhos)

OS NÃO-TOLOS ERRAM / OS NOMES DO PAI

Nesta sexta-feira, Gustavo Capobianco Volaco abre espaço para uma conversa sobre o seu processo de tradução do Seminário de Jacques Lac...