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segunda-feira, junho 25, 2012

O Brasil debate mal

O Brasil é ruim de debate. Vemos isso na Política, na Filosofia e na universidade em geral. Por muito tempo, vi um hábito nada elogiável - falar bem pela frente, mal pelas costas. Isso está diminuindo. Mas não porque tenhamos aprendido a discutir, frente a frente, ideias. Continuamos com sérias dificuldades nesse tocante. Basta ver que, de vez em quando, alguém lamenta a falta que fariam célebres polemistas. Não faz muito tempo, o educadíssimo Fernando Henrique Cardoso lastimou a falta de Carlos Lacerda. Mas, se foi o tribuno da antiga UDN um dos maiores defensores do fim do regime democrático, da sua substituição por um regime militar? Lacerda passou 15 anos clamando pelo golpe de Estado e apenas se voltou contra a ditadura quando esta, em vez de levá-lo à presidência, reservou-a aos próprios generais. Outra falta que ora e vez vejo lamentarem é a do polemista Paulo Francis. Mas, um como político e outro como jornalista, ambos se especializaram em ofender seus adversários, em convertê-los em inimigos. Esse procedimento consistia na pura negação da democracia, no caso de Lacerda, e do intelecto, no caso de Francis. Eu e meus amigos, jovens, líamos Francis, no Pasquim. Mas nos incomodava sua ligeireza, sua superficialidade no trato intelectual. Os dois compensaram, na agressividade, o que lhes faltou em equilíbrio. É pena, porque poderiam, homens inteligentes, ter cumprido um papel melhor em nossa cultura. Há passagens, no Afeto que se encerra, de Francis, belíssimas.

Por que temos tão pouco empenho na discussão respeitosa? Talvez porque nos falte a convicção - insisto, democrática - de que não somos donos da verdade. Isso vem junto com algo que surge no fim da Idade Média, a cortesia. Ela nada tem a ver com a cordialidade, que Sérgio Buarque de Holanda reivindicou para nossa cultura. Cordial é quem age segundo o cor, isto é, o coração. Cortês é quem segue a corte, lá onde vive o rei. As boas maneiras surgem em torno dos poderosos, para mostrar- lhes respeito. Porém, surgem maneiras urbanas (de urbs, cidade), que expressam respeito, mas sem a hierarquia que subordina todos ao rei. Na cidade, somos todos cidadãos. Ora, haverá forma mais digna, mais bela, para manifestar isso, do que dizer que todos nós somos falíveis? Que todos falhamos, erramos? Minha especialidade mais antiga é a Política. Conheço gente que brigou por Política - tanto ela instiga as pessoas a viverem no mundo da paixão, não no da razão. Mas pode alguém dizer que sempre acertou? E quantos não brigaram, até com amigos, por algo que é do mundo da fantasia?
Proponho assim dois princípios éticos. Primeiro: somos iguais, por isso devemos nos tratar educadamente. Um debate não deve ofender. Deve se inspirar na preocupação de acertar - e essa preocupação deve ser coletiva, não individual. Se eu acertar, será junto com quem discordou de mim. Segundo: a melhor base para dizer que somos iguais não são as declarações da ONU, mas o fato simples de que erramos. Erramos muito, até. Mas isso não deve nos impedir de continuar na grande, magnífica, humana experiência que é pensar. É pelo ensaio e erro, pela tentativa de encontrar um caminho - mas moderada pela modéstia que nos faz reconhecer quanta bobagem já foi dita, quanta dizemos e quanta ainda diremos - que é possível avançar. Talvez a maior conquista da democracia tenha sido o direito ao erro. Nas autocracias, supõe-se que quem manda sempre acerta. Sabemos que não é nada disso... Numa democracia, podemos errar. O importante é que não tenhamos poder para impor nossos erros aos outros; e que tenhamos uma diversidade de opiniões tão ampla que seja viável, sempre, nos corrigirmos. É por isso que o melhor debate é o mais educado.

Renato Jenani Ribeiro
Fonte: Portal Ciência & Vida


sexta-feira, julho 10, 2009

Inconsciente



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Algumas associações sobre o inconsciente, a partir das questões levantadas por Nasio.

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  • “o sonho é a epifania do outro”. Maria [23/06/09]

  • O sonho é a epifania do outro... 09 de julho e já não me lembro mais em que contexto foi me dado a frase. Leio-a aqui, como coisa do dia, e flutuam os vocábulos, cada um grávido de si, o sonho, a epifania, o outro.

  • O inconsciente, pois, redunda operativo, no tropeço, no impossível do inconsciente do outro. O que existe então é um inconsciente posto às claras no encontro. Onde a conversa, não é propriamente conversa, é uma fala que se dá às avessas.



  • Há tempos de uma captura colossal. Segundos, às vezes, e basta um segundo.
    Neste tempo não há cronologia, o deus se isenta, extinto da lógica, do logos numérico, retórico, discursivo.

  • Um entre-reinos, interregno, uma fenda, um furo, uma passagem, entre caos e cosmos.
    Caosmose, fala Guattari. Numa língua dura e deslizante.

  • O insconsciente feito usina, máquina desejante. O eu e outro no acaso do encontro. Posso acreditar que estamos todos, quem saberá?, falando do mesmo caos dos acontecimentos humanos? Pondo fim às histórias, posto que se ousa, enfim, contar a fundo ficções.

Clarissa

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Li, gostei e achei muito instigante a pergunta final do texto Inconsciente. Ele não existe fora da Psicanálise, por Lacan. Ele está falando da sessão no divã, exatamente? Porque em tantos momentos a Psicanálise, ou inúmeros, se aproxima se imbrica com o quadro, o poema. Faz lembrar que no Seminário XI, no capítulo o que é um quadro, Lacan parece deixar mais claro o que é o objeto a, a esquize do olhar. Não seria uma maneira de construção do Inconsciente esse olhar, do outro lado do divã? Fique mesmo pensando sobre isso, partilho com você para esclarecer minha dúvida lacaniana..

Marcia

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  • Inconscientes:
Clarissa:
Um entre-reinos, interregno, uma fenda, um furo, uma passagem,
entre caos e cosmos.
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Marcia:
Esse olhar do outro lado do divã.
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Maria:
Um gaio saber alicerçado no des-ser (o chiste, o esquecimento, o tropeço, o sonho, o ato falho).
Quando a normatividade do fantasma e a ditadura dos ideais param de sustentar a ilusão de consistência do ser, o gaio saber advém como virtude.
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segunda-feira, julho 21, 2008

Conversas do Grupo

Marcia Bianchi - que escreve sua tese de doutorado na Literatura - participou e apresentou trabalho no último Congresso da Abralic. De volta a Florianópolis, me mandou um e-mail contando as suas impressões do Congresso. Transcrevo, a seguir, o e-mail da Márcia porque acredito que ele faz parte da narrativa que estamos construindo no grupo. Aproveito, ainda, para convidá-la a publicar o trabalho neste espaço.

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Maria,

Participar da Abralic foi uma experiência ótima, penso que eu mereci mesmo estar lá. Fazer novos amigos e ouvir tantos discursos filosóficos, passear pela história do sujeito pelo viés das muitas falas. Filósofos e Literatos buscando uma forma amorosa de falar de arte e poesia. Fenomenologia sartreana predominou nas muitas conferências, imbricada no discurso psicanalítico de Lacan. Gostei muito do Congresso, e, São Paulo faz bem aos sentidos.

Marcia.




sábado, maio 20, 2006

e-mail do Rogerio

O Rogério continuou pensando o discurso da última aula e elaborou uma questão muito interessante. Voltaremos a ela na próxima aula.


“Ao ser indagado sobre a inclusão da Imagem Acústica de Saussure no Campo das Pulsões Parciais, afirmei que sim. Não obstante, devia estar errado, pois se a Imagem Acústica é uma das faces (inseparáveis) do signo saussuriano, juntamente com o conceito (Significante/Significado) ela só pode pertencer ao Campo do Outro, Campo A.
Se entendi direito, o campo do Outro é o do Significante, da Linguagem (do assujeitamento), conceito que Lacan deriva do signo linguístico de Saussure, substituindo a noção de dualidade (faces inseparáveis) saussuriana pela noção de duplicidade, ou seja, liberdade, e prioridade, do significante com relação ao significado.
É isso, Professora?”

OS NÃO-TOLOS ERRAM / OS NOMES DO PAI

Nesta sexta-feira, Gustavo Capobianco Volaco abre espaço para uma conversa sobre o seu processo de tradução do Seminário de Jacques Lac...