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quinta-feira, outubro 12, 2017









Jacques Lacan e a voz

 Jacques-Alain Miller


Jacques Lacan deu um lugar específico à voz na psicanálise. Voltarei, aqui, minha atenção para as vias pelas quais ele se viu levado, em seu ensino, a dar à voz um estatuto de objeto, dito objeto a, com minúscula, naquilo que chamou de sua álgebra.

A meu ver trata-se de uma inovação na psicanálise. Com efeito, a tradição psicanalítica, desde Freud, Abraham, Melanie Klein, havia, é verdade, destacado a função do objeto, mas para pôr toda a ênfase sobre dois objetos hoje bem conhecidos para além da prática analítica: o objeto oral e o objeto anal, dos quais se supunha serem sucessivamente prevalentes na cronologia do desenvolvimento – o desenvolvimento do indivíduo ou, de maneira mais precisa, o da libido tendo como fim sua convergência no objeto genital.

Em outras palavras, não se esperou Lacan para situar na psicanálise a função do objeto, mas esses dois objetos foram inscritos em estágios do desenvolvimento. É um fato histórico da psicanálise que enquanto o ponto de vista diacrônico, cronológico da relação de objeto comandou a perspectiva o objeto vocal ficou despercebido. O objeto vocal só apareceu na psicanálise quando a perspectiva foi ordenada com relação a um ponto de vista estrutural.

O que é o ponto de vista estrutural em psicanálise? É o ponto de vista que Lacan inaugurou – não foi o único que ele adotou –, fornecendo o estatuto ao inconsciente a partir da estrutura da linguagem, tal como foi apresentada por Saussure e desenvolvida por Jakobson. Ele consiste, de entrada, em anular as questões de gênese e operar uma separação na teoria do desenvolvimento da libido. De um lado ficará o que comporta o ponto de vista genético, ou seja, a teoria dos estágios, incessantemente utilizada; de outro lado aquilo para o qual os estágios serviam de roupagem, os dois objetos que ali se encontram, caídos dessa catástrofe.

Desde então, o ponto de vista estrutural nos obriga igualmente a remanejar a noção de indivíduo, suporte do desenvolvimento, para substituí-lo por um conceito diferente, o de sujeito – que não é o suporte do desenvolvimento, nem mesmo o suporte da estrutura. É exatamente o que supõe a estrutura. Nisso, o sujeito é o sujeito do significante; é a única coisa que dele sabemos; ele é suposto pela estrutura da linguagem. As teses de desenvolvimento genético dão lugar, então, à tese de causação estrutural do sujeito e o objeto se vê então, pela mesma via, arrancado do quadro diacrônico no qual primeiro se viu inscrito na psicanálise por ter que se encaixar nas operações de causação do sujeito. O problema deixa de ser um problema temporal. Ele não é mais formulado em termos de sucessão – de progressão ou de regressão –, mas em termos estruturais.

Então, como a função de objeto, tal como é trabalhada na psicanálise desde Freud, consegue se inserir nas relações de sujeito e da estrutura da linguagem? Essa questão é problemática em dois pontos.

Primeiro, como pode ser formulada a relação do objeto com a estrutura linguística? Como, visto que o objeto – inclusive o objeto oral e o objeto anal – não é um elemento da estrutura linguística, a partir do momento em que ele não é nem significante, nem significado? Se Lacan escreve o objeto com a letra a, é para distingui-lo de todas as notações do significante ou do significado, para as quais ele usa diferentes tipos de S – maiúsculo, minúsculo, itálico, etc. Lacan coloca o objeto à parte da estrutura linguística escrevendo-o com uma letra que ele não declinará.

Em seguida, como será que, apesar disto, existe uma relação entre esse objeto que não é significante e um sujeito, definido inversamente como suposto pela estrutura da linguagem, ou seja, um sujeito definido como sujeito do significante? É um problema completamente matricial no ensino de Lacan, sobre o qual ele trabalhou durante longos anos para fazer concordar essas duas exigências que podem parecer habitadas por uma antinomia.
Justamente no caminho da resolução desses problemas Lacan encontrou o que podemos chamar de dois novos objetos na psicanálise: o objeto vocal e o objeto escópico, a voz e o olhar, que generalizam o status do objeto na medida em que não são situáveis em nenhum estágio. Não existe nem estágio vocal, nem estágio escópico.

Para o objeto escópico, para o olhar como objeto a Lacan reservou um desenvolvimento hoje famoso em seu seminário Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise2, aproveitando a publicação do livro póstumo de M. Merleau-Ponty, O visível e o invisível. Existe, para isso, uma razão que não só a do acaso, embora o acaso tenha tomado parte nisto. Lacan, de fato, tratando do objeto olhar, aproveitou para corrigir o sentido daquilo que ele mesmo tinha introduzido, o também muito famoso estágio do espelho.

De fato, na mesma medida em que a relação especular do “eu me vejo me vendo”, suporta as identificações imaginárias – e, no fundo, o espelho está aí para materializar a imagem –, ela dissimula a distinção que deve ser feita entre visão e olhar; entre a visão como função do órgão da vista e o olhar, seu objeto imanente, onde se inscreve o desejo do sujeito (e que não é um órgão, nem função de biologia alguma).

Não temos no ensino de Lacan um desenvolvimento comparável sobre o objeto vocal. Esse desenvolvimento pode, no entanto, ser esboçado tendo como modelo a articulação entre o olho e o olhar, sem que seja necessário introduzir uma mediação como a do espelho. O espelho é necessário para produzir o “se ver a si mesmo”, enquanto que o “se ouvir a si mesmo” já está presente no mais íntimo da subjetividade – ou, para expressá-lo como Husserl, na “presença a si do presente vivo da subjetividade”.

Mas, seguindo o modelo da “esquize”, da oposição, da antinomia entre olho e olhar, por que não introduzir uma antinomia entre a orelha e a voz? Isso já basta para, de relance, deixar claro que a voz como objeto a não pertence de maneira alguma ao registro sonoro – da mesma maneira que o olhar como objeto a, no Seminário 3 pode se exemplificar bem pelo barulho que surpreende o voyeur na análise que Lacan toma emprestada de Sartre. Evoco os nomes de Merleau-Ponty e de Sartre, pois todas as construções de Lacan estão de fato em constante relação com as análises fenomenológicas. 

Apesar da voz como objeto a em nada pertencer ao registro sonoro, isso não impede que as considerações que podem ser feitas sobre a voz, por exemplo, a partir do som como distinto do sentido ou sobre todas as modalidades de entonação, só possam se inscrever na perspectiva de Lacan se forem ordenadas a partir da função da voz, se assim posso dizê-lo, como a-fônica. Isso é sem dúvida um paradoxo, mas que diz respeito ao fato dos objetos ditos a só poderem se afinar com o sujeito do significante se perderem toda substancialidade, se estiverem centrados por um vazio que é a castração.

Enquanto eles são oral, anal, escópico, vocal, os objetos situam-se em torno de um vazio e é nesta condição que diversamente o encarnam. Ou seja, cada um desses objetos é sem dúvida especificado por certa matéria, mas é especificado por essa matéria na medida em que a esvazia. E é por isso que o objeto a na verdade é, para Lacan, uma função lógica, uma consistência lógica que consegue se encarnar naquilo que cai do corpo sob a forma de diversos dejetos. Ou seja, é fundamental um critério para poder assinalar essa letra a a objetos; podemos enunciar esse critério nos termos do Homem dos lobos: que seja uma pequena coisa separável do corpo.

O que fez Lacan prolongar a lista freudiana de objetos com a voz e o olhar? A resposta é simples: a experiência clínica. Não é uma meditação na solidão do monólogo do sujeito consigo mesmo, no caso do objeto voz. É uma experiência clínica, na qual o olhar e a voz se manifestam sob formas separadas, com um evidente caráter de exterioridade em relação ao sujeito.

Ou seja, foi a experiência clínica da psicose que levou Lacan a estender a lista freudiana. Podemos dizer que, de algum modo, estes objetos eram conhecidos pelos psiquiatras e que a teoria da voz e do olhar como objetos a vem do cruzamento da experiência psiquiátrica de Lacan e da teoria dos estágios de Freud, influenciada pela estrutura da linguagem de Saussure. É do delírio de observação que Lacan extraiu o objeto escópico, pois esse delírio torna manifesta a presença separada e exterior de um olhar sob o qual cai sujeito. Da mesma forma, é dos fenômenos do automatismo mental – assim nomeado desde Clérambault, que Lacan reconhecia como seu único mestre em psiquiatria – que Lacan extraiu o objeto vocal. Ali, fala-se de vozes mesmo sendo elas todas imateriais e que nem por isso deixam de ser para o sujeito perfeitamente reais. Elas até chegam a ser aquilo do qual ele não pode duvidar, sem que ninguém consiga registrá-las. Não é a materialidade sonora delas que está no primeiro plano.

Há lógica, portanto, que seja em seu escrito sobre a psicose onde encontremos a mais desenvolvida articulação da relação do sujeito e da voz. Ela comporta, como, aliás, aquilo que desenvolveu em seu seminário sobre a articulação do sujeito e do olhar, uma confrontação com Maurice Merleau-Ponty – na escrita ela permanece implícita – e precisamente uma confrontação com a Fenomenologia da percepção, na qual encontramos uma teoria bastante desenvolvida da alucinação verbal motora.

Existe uma necessidade lógica – que mereceria o desenvolvimento da confrontação de Lacan e Merleau-Ponty sobre a questão da alucinação verbal motora – para o fato de Lacan ter encontrado a voz antes do olhar, dado que tomou a função da fala no campo da linguagem como ponto de partida para entender a experiência psicanalítica. Eu diria que a instância da voz merece inscrever-se como um terceiro entre a função da fala e o campo da linguagem.
Podemos começar pelo fato de que a função da fala é que confere um sentido às funções do indivíduo. Essa fala amarra um ao outro: o significado – ou melhor, o “a significar”, aquilo que se deve significar – e o significante. Esse enlaçamento comporta um terceiro termo, que é o da voz. Se estabelecermos que podemos falar sem voz, apenas por afirmar isso, podemos inscrever no registro da voz o que constitui resíduo, resto de subtração da significação ao significante. E, em uma primeira abordagem, podemos definir a voz como tudo que, do significante, não concorre para o efeito de significação. É o que comporta um esquema muito simples de Lacan.

 Esse esquema apresenta a operação da fala a partir do cruzamento de dois vetores: o da intenção de dizer, da intenção de significação, que só pode se realizar cruzando o vetor do significante. A voz é tudo aquilo que, do significante, não concorre para o efeito de significação. O que, então, comporta o ponto de vista estrutural é que a intenção de significação só se realiza se encontrar, no vetor do significante, o que constitui sua estrutura tanto como léxico quanto como sintaxe. Inscrever a voz aqui a instala, de saída, em uma posição de resto.

O segundo vetor que Lacan inscreve neste esquema encarna a dinâmica do vivo e, simetricamente, o que é o gozo do vivente, que, ao atravessar a estrutura, aparece sob os auspícios da castração. É pertinente, aqui, refletir sobre as posições simétricas da voz e da castração.

A voz lacaniana, a voz no sentido dado por Lacan, não somente não é a fala, como em nada é o falar. Temos visto se desenvolver uma linguística da entonação, que para muitos linguistas parece ser um exercício limítrofe. Ela busca definir o que seriam os significantes da entonação segundo os efeitos de sentido dos quais eles se encarregam. A esse respeito, a linguística da entonação nada tem a ver com a voz lacaniana que não é entonação, já que sua posição é essencialmente fora do sentido. Pode-se pensar que o que Lacan chama de voz seja aparentado com a entonação e suas modalidades. Não creio que seja este o objetivo dele na medida em que essa linguística da entonação só é possível se encontrarmos de maneira definitiva os efeitos de sentido aí produzidos.

Neste sentido, a voz, no uso muito especial que Lacan faz desse termo, é sem dúvida uma função do significante – ou melhor, da cadeia significante como tal. “Como tal” implica que não é somente a cadeia significante como falada ou entendida, também pode muito bem ser enquanto lida e escrita. O ponto crucial dessa voz é que a produção de uma cadeia significante – eu lhes digo nos termos mesmos de Lacan – não está ligada a este ou aquele órgão dos sentidos, a este ou aquele registro sensorial.

É bem verdade que encontramos em Lacan um esboço da fenomenologia da fala que tem como objetivo mostrar os paradoxos da percepção da palavra. Estes paradoxos consistem em que o sujeito se mostra ali essencialmente paciente, ou seja, suporta os efeitos dela. Sem desenvolve-lo, assinalo que essa fenomenologia, antes de mais nada, tem que dar lugar à análise da percepção que o sujeito tem da fala do outro, no sentido que toda fala do outro inclui uma sugestão fundamental. Isso é bem ilustrado pelo fato de todo mundo poder ficar quieto durante um dia inteiro ouvindo a fala de outro – ouvir ou dormir. Isso não quer obrigatoriamente dizer que a ela obedeçamos. Essa sugestão inclui eventualmente uma desconfiança com relação à fala do outro: “Ele está dizendo isso, mas o que realmente quer dizer? Ele diz isso, mas foi mesmo ele que chegou a essa conclusão?”. Essa desconfiança se inscreve na linha dessa sugestão, como um estado de alerta no qual o sujeito fundamentalmente se coloca com relação à sugestão que vem bem naturalmente da fala do outro.

Por outro lado, a percepção da própria fala pelo sujeito inclui também certo número de paradoxos. Um exemplo entre os paradoxos que Lacan assinala é que o sujeito não pode falar sem também se ouvir, ou seja, sua própria fala inclui uma reflexividade espontânea, digamos assim, uma auto-afetação que sempre encanta o analista acerca dos fenômenos da consciência. Mas esse ‘ouvir-se’ é diferente do ‘escutar-se’ – em que uma atenção aplicada corrige, vem retomar essa refletividade espontânea. Quanto a isso, podemos notar que o sujeito não pode se escutar sem se dividir. Numerosas experiências mostram como, por exemplo, se através de fones de ouvidos fizermos o sujeito ouvir sua própria fala com uma pequena defasagem de tempo, ele se enrola completamente no que diz.

No mesmo capítulo da percepção da própria fala pelo sujeito, temos que inscrever o que é devido à observação psiquiátrica, ou seja, que à alucinação corresponde no sujeito o esboço de movimentos fonatórios, o que, eventualmente, pode ser observado. Tratando do que nos ocupa, da alucinação verbal, isso nos leva a afirmar que ela repousa, por parte do sujeito, em um desconhecimento de sua própria atividade, ou seja, da imputação feita ao sujeito, de ser constituinte, de ser responsável pela alucinação.

A perspectiva estrutural, na qual está inscrito o conceito de voz em Lacan, é completamente diferente. É a perspectiva segundo a qual o sujeito do significado é constituído a partir da cadeia significante – ele não é constituinte, mas sim, constituído. É a cadeia significante e sua estrutura que aqui dominam. Neste ponto, podemos formular que a voz é uma dimensão de qualquer cadeia significante, na medida em que qualquer cadeia significante – sonora, escrita, visual, etc. – comporta uma atribuição subjetiva, ou seja, designa um lugar para o sujeito. E essa atribuição subjetiva, na regra, diz Lacan, é distributiva, ou seja, não é de maneira alguma unívoca.

Na regra, uma cadeia significante designa vários lugares subjetivos. Isto não escapou a uma linguística que considera que todo discurso comporta fundamentalmente menções, que todo discurso é, neste sentido, fundamentalmente um discurso indireto, que não existe discurso sem que, na própria enunciação, o sujeito não esteja recuado, e não se organize, não tome distância com relação àquilo que diz. Vocês sabem que chegamos a ponto de fazer da negação tal menção – é necessário que haja antes a posição do termo, e em seguida, a negação do termo pré- posto. É exatamente aí que Lacan usa inicialmente o termo voz: toda cadeia significante é “a várias vozes” – o que de fato faz equivaler voz e enunciação.

Esta análise precede, em seu escrito sobre a psicose, suas considerações sobre uma famosa alucinação trazida por uma paciente do hospital Sainte-Anne que ouviu do vizinho a injúria “porca”. Lacan destaca que ele conseguiu obter desta paciente o que precede a injúria: a frase, completa – “estou vindo do salsicheiro”.

Qual é o ponto crucial da análise de Lacan? É que ele considera o conjunto formado pelo insulto e por essa frase como uma cadeia significante que foi quebrada, ou seja, em que se produziu uma distribuição de designação subjetiva. O “estou vindo do salsicheiro” é atribuído ao sujeito, que pode então reconhecer que ele o pensou, enquanto que a palavra “porca” foi arrancada dessa cadeia significante para ser atribuída ao Outro. Podemos sem dúvida aqui reconhecer, na frase “Porca, eu venho do salsicheiro”, a fantasia de despedaçamento desta paciente que assim, na palavra “porca”, ouve ecoar a fala de seu ser.

É a carga afetiva ou, digamos, libidinal da palavra “porca” que opera uma ruptura na continuidade da cadeia significante e uma rejeição para o real. Quanto a isso, Lacan chama voz um efeito de foraclusão do significante, que de maneira alguma é redutível, como a vulgata desejaria, à famosa foraclusão do Nome-do-Pai. Na medida em que um pedaço de cadeia significante, quebrado por aquilo que por enquanto chamamos de carga libidinal, não pode ser assumido pelo sujeito, ele passa para o real e é atribuído ao Outro. A voz aparece em sua dimensão de objeto quando é a voz do Outro.
O que realmente deve ser levado em consideração aqui? Seria o tom de voz do insulto? Afinal de contas, se tivesse sido dito ao pé do ouvido e baixinho, isso não deixaria de ser para o sujeito um insulto. O que importa é que essa voz venha do Outro. Neste sentido, a voz é a parte da cadeia significante que não pode ser assumida pelo sujeito como “eu” (je), e que é subjetivamente atribuída ao Outro.

Mas, no fim das contas, “porca” é também uma palavra, um significante que produz um efeito de significado, que chamamos insulto. Estaríamos, então, ainda no registro propriamente do significante e do significado? Não devemos obliterar o que rapidamente chamamos de “carga libidinal” desse termo. Ela comporta, dizendo em outras palavras que só deslocam ligeiramente aquilo vocês aceitaram até agora, uma carga de gozo – faço aqui uma verdadeira equivalência entre gozo e libido – que não pode ser integrada à cadeia significante.

Quanto a isto, a voz entra no lugar daquilo que, do sujeito, é propriamente indizível e que Lacan chamou de seu “mais-de-gozar”. A castração, da qual falei rapidamente um pouco significa que não ouvimos voz alguma no real, que ali somos surdos. Onde então se encontra a instância da voz quando falo? Não é o tom no qual falo, mesmo se posso variá-lo segundo os efeitos de sentido que quero produzir. Não é simplesmente que minha voz gravada me parecerá como sendo de outro. A instância da voz está sempre presente a partir do momento em que tenho que achar minha posição com relação a uma cadeia significante, na medida em que esta cadeia se mantém sempre relacionada ao objeto indizível. Neste sentido, a voz é exatamente aquilo que não se pode dizer.

Foi percebido que existia algo na voz que escapava ao efeito instrumental. É claro, sirvo-me do significante para fazer o Outro responder – toda cadeia é uma invocação – mas, de maneira mais radical, espero a voz do Outro, aquela que me dirá o que me espera, o que será de mim e o que do meu ser, como indizível, já é. É justamente o que me prende ao Outro: o que me prende ao Outro é a voz no campo do Outro.

É por isso que podemos dizer do psicótico, este que está sujeito ao automatismo mental, que ele é um homem livre. Ele é o homem livre do Outro, porque a voz do Outro já se encontra com ele, porque o Outro já lhe respondeu.

Para os que nela se inscrevem, a castração quer dizer que serão para sempre pedintes. É por isso que são os objetos tomados na demanda – o objeto oral e o objeto anal – que na análise apareceram no primeiro plano, antes da voz, este objeto do desejo.

Há voz pelo fato do significante girar em torno do objeto indizível. E a voz, como tal, emerge toda vez que o significante se quebra, e vai se reunir a esse objeto no horror.

Se eu tivesse que formular a invocação de toda a cadeia significante, eu a diria assim: “Não me dê o que te peço, pois não é o que desejo”. Mas talvez possamos dizê-lo ainda mais brevemente, sob a forma de uma injunção dirigida ao Outro: “Cala-te!”.

Não nos servimos, portanto, da voz. Ela habita a linguagem, ela a assombra. Basta que se diga para que emerja, para que apareça a ameaça daquilo não se pode dizer. Se falamos tanto, se fazemos colóquios, se conversamos, se cantamos e ouvimos os cantores, se fazemos  e ouvimos música, a tese de Lacan comporta que é para calarmos aquilo que merece ser chamado de voz como objeto a.

       Tradução: Lourenço Astua de Moraes e Renata Ceccheti
                          Versão final: Marcus André Vieira

IN: Opção Lacaniana, n. 11





quinta-feira, janeiro 12, 2017

A LÓGICA DO TRATAMENTO





A LÓGICA DO TRATAMENTO DO PEQUENO HANS SEGUNDO LACAN
Jacques-Alain Miller

Dediquei-me, durante o mês passado, a terminar a redação em francês do Seminário IV de Lacan, a relação de objeto. E para concluir este trabalho, que acabei um pouco antes de vir a Buenos Aires, pretendo lhes oferecer hoje uma introdução à leitura e ao estudo desse Seminário. Deu tudo certo. Nenhum tema, ao que me parece, convém melhor como abertura às nossas jornadas sobre a Lógica do tratamento. Retornar ao Seminário ministrado por Lacan em 1956 e 1957 significa retornar ao momento do nascimento de uma noção de lógica do tratamento. De fato, a metade deste Seminário elabora o tratamento do pequeno Hans e essa elaboração se faz a partir de uma perspectiva lógica, a tal ponto que ele termina com os primeiros ensaios do que Lacan denomina como lógica de borracha; reencontramos esta expressão no Seminário e me pareceu que ela merecia ser o título de um dos últimos capítulos (Lacan, 1998, p. 524). Uma lógica elástica como a topologia, uma lógica que seria suficientemente flexível para acompanhar as produções fantasmáticas do sujeito, do pequeno Hans, e formalizar as diferentes etapas de sua investigação. Eu acredito que esta perspectiva elabora, efetivamente, uma lógica suficientemente flexível para acompanhar as produções fantasmáticas. Isto constitui a essência do problema que vamos abordar durante estas jornadas.

Vamos tentar falar precisamente. O que significa “lógica do tratamento”? Para elaborar um pouco mais este significante, é útil, como sempre, opô-lo. Proponho a seguinte oposição para situar o significante lógica do tratamento: lógica do tratamento diz uma coisa diferente de estrutura do discurso. Proponho que reflitamos sobre a oposição, sobre a articulação da lógica do tratamento e da estrutura do discurso. Este será o primeiro dos três temas que vou abordar.

A estrutura do discurso, para retomar o significante introduzido por Lacan em O avesso da psicanálise (1968-70), refere-se às coordenadas fundamentais que tornam possível o tratamento psicanalítico em si mesmo. A estrutura do discurso analítico que Lacan deu neste Seminário é, na realidade, muito conhecida. Em resumo, é uma fórmula que utilizamos em nosso trabalho, é uma forma de escrever a estrutura do discurso analítico.
A primeira forma proposta por Lacan da estrutura do discurso se encontra no esquema L, construído ao longo dos três primeiros anos de Seminário, e que ele relembra ao começar seu Seminário, Livro IV: A relação de objeto (1956-57). No esquema em forma de Z, vocês se lembrarão dos quatro termos que lá figuram. É uma outra forma que Lacan deu à estrutura do discurso, que figura sob uma forma mais completa em seu escrito “A carta roubada”, publicado durante o ano de seu Seminário IV; Lacan o comenta na ocasião. Estes dois esquemas são muito populares (muito conhecidos?), muito úteis (o constatamos com o passar do tempo), nos dão uma formalização sincrônica da situação analítica, uma formalização que poderíamos chamar de estática.

A tentativa de Lacan no Seminário IV é diferente. Notemos que é uma tentativa inacabada. É uma tentativa, um esboço eu diria, de formalização dinâmica, de formalização diacrônica, isto é, uma tentativa de não só escrever as coordenadas permanentes, fundamentais do tratamento, mas também de formalizar, o que é dito no tratamento, o transitório do que é dito, de formalizar o que se passa, de formalizar o que acontece, não só a estrutura. Formalizar de uma certa maneira os eventos do dito no tratamento, quer dizer que a noção central com a qual Lacan trabalha é a da estrutura com suas transformações, sim, da estrutura, mas com suas transformações.

Conhecemos essa noção sob a forma da estrutura permutável, por exemplo em O Seminário, O avesso da psicanálise. Nós sabemos que estes termos podem trocar de lugar, mas que essa troca não permite formalizar o final do tratamento analítico, dado que são – segundo o próprio Lacan – trocas que nos fazem sair do discurso analítico, que permitem situar os outros discursos. É uma estrutura com suas transformações e permutável, mas cujas permutações a retiram do domínio analítico. Ao contrário, encontramos no Seminário IV de Lacan – e, acredito que em mais nenhum lugar, sob essa forma – uma tentativa, eu diria, de dinamizar o esquema L, isto é, de utilizar o esquema L ao menos para formalizar a mudança de posição subjetiva de um ponto de vista clínico. 

Lacan o faz nesse Seminário, logo de início, a respeito da jovem homossexual de Freud, que ocupa três lições, e é um nó deste Seminário. Há diversas razões que justificam sua presença. Lacan formaliza a história clínica da paciente relatada por Freud, a partir de transformações permutáveis no esquema L, isto é, segundo o próprio Freud, podemos observar na história clínica anterior à análise, uma mudança de posição subjetiva, uma mudança de escolha de objeto, após o nascimento de um irmão. De tal forma que, segundo Freud, isso acentua um antes e um depois do caso. Anteriormente, seu objeto era um filho imaginário, recebido do pai, encarnado no filho da vizinha, isto é, no lugar do objeto, no ângulo superior do esquema Z, encontramos este filho, esta criança imaginária, e em seguida, o objeto muda e vemos aparecer diversas mulheres de tipo maternal, e finalmente, uma mulher, objeto de um amor sublimado, sacrificado. De tal maneira que, nesse mesmo lugar, podemos inscrever primeiramente uma criança imaginária e em seguida uma mulher real, como diz Lacan. É a utilização, a tentativa de formalizar não somente uma estrutura estática, mas também etapas, isto é, obter a formalização da história clinica de um caso a partir desse desenho formalizado. Não é a única ocasião em que se encontra isso neste Seminário IV, Lacan volta a fazê-lo mediante outro texto de Freud que também se presta a essa ideia de estrutura com suas transformações. Ele volta sua atenção para o texto de Freud “Bate-se numa criança” (1919), onde o próprio Freud apresenta este fantasma como resultado de suas transformações. “Meu pai bate numa criança que eu odeio”, “o pai me bate”, e na terceira forma, “bate-se numa criança”.

Aqui, podemos realmente escrever uma seta de transformação que permite passar de uma fórmula à outra, sem chegar, talvez a formalizar essas três etapas do esquema. Lacan não tenta, mas isso nos mostra uma segunda tentativa de seguir as transformações de uma formação do inconsciente. É necessário articular o fato de que alguma coisa permanece constante, e que ao mesmo tempo, alguma coisa muda. O que é que permanece constante? São os lugares, as relações, e as relações entre os lugares. O que muda são os termos que ocupam esses lugares. E, como eu já mencionei, essa inspiração, aventada em O Seminário, O avesso da psicanálise, já inspira o Seminário IV de Lacan. Toda a ideia de que houve uma revolução lógica em Lacan nos anos sessenta, nada mais é que uma má leitura de Lacan. Esta inspiração lógica e estruturalista com transformações já está toda presente aqui.

É o que nos permite dizer que justamente na estrutura, a transformação é uma permutação, que falar de permutação é a tentativa, a maneira de dinamizar a estrutura, e eu diria, uma certa solução estrutural da articulação do um e do múltiplo; os lugares são fixos, e, com a permutação dos termos, obtemos variáveis. Como isso termina, se há lugares e termos que se permutam nesses lugares? O problema, justamente, é que temos a impressão de que isso nunca termina. Se o vocabulário é limitado, se os termos são em quantidade limitada – nesse caso, são limitados a quatro termos – há uma circularidade: podemos continuar a revezar os termos nos locais, e a circularidade é infinita. Não há nenhum princípio de estancamento em uma estrutura com tão grande permutabilidade. Se o vocabulário é potencialmente ilimitado, se existe muito mais do que quatro termos e as letras do alfabeto, se o vocabulário se estende, por exemplo, como a cadeia dos números, então a permutação não para nunca. Temos um exemplo disso nas Mitológicas de Lévi-Strauss. Ele estuda a estrutura e suas transformações dos mitos americanos de uma pequena parte da América do norte e um pouco da América do sul e, para tanto precisa de quatro volumes para mil mitos, que são apenas uma pequena seleção no conjunto dos mitos e suas possíveis variantes.

Temos outro exemplo, quando Lacan, no seminário sobre “A carta roubada”, constrói uma estrutura com permutações de mais (+) e de menos (-): ele nos apresenta um funcionamento circular no qual não há nenhuma razão para parar e justamente, ele o apresenta para ilustrar o infinito da repetição e de uma repetição indestrutível. Isto constitui um problema inicial quando tentamos pensar a lógica do tratamento a partir de uma estrutura com transformações. Por quê? De onde virá o princípio de um termo e um final que não seja acidental ou ligado ao cansaço?

Para poder pensar uma lógica do tratamento nestes termos, é necessário primeiramente pensar que para um sujeito há um número limitado de significantes que se permutam, ou, ao menos um número limitado de significantes essenciais que se permutam. Em segundo lugar, é preciso pensar, nesta perspectiva, que quando todas as permutações forem realizadas, haverá uma mudança qualitativa. De forma que possamos dizer: “não há mais, e pronto”. É preciso supor um efeito da soma, e, ademais, um efeito da soma subjetivada. É neste sentido que se poderá legitimamente dizer: “conclusão”.

Referir a lógica da cura a uma estrutura com transformações, é muito diferente de referi-la a uma dedução linear, como uma linha desde as premissas até a conclusão, onde podemos chegar em um dado momento, como na conclusão de um argumento. Isto não é uma referência a um argumento, supõe um processo onde o quod erat demonstrandum não pode chegar, a não ser se for para fixar o absurdo. Isto quer dizer que se isso acontece em uma estrutura com transformações, é necessariamente uma demonstração pelo absurdo, isto é, por um “não há”, não se trata de uma demonstração positiva.

É exatamente o que diz o resumo da pesquisa sobre Hans que escreveu Lacan em seu texto “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud” (1957), no mesmo ano do Seminário do pequeno Hans. Há aí dois parágrafos importantes, que eu acho que todos devem conhecer aqui, pois é destes dois parágrafos que eu pincei a expressão “resolução curativa” (1998, p. 524) que foi utilizada como tema do condensado argentino para o Encontro Internacional sobre Conclusão do Tratamento. Lacan diz lá que “O Pequeno Hans [...] desenvolve, [...] sob uma forma mítica, todas as permutações possíveis de um número limitado de significantes” (1998, p. 519). O que se obtém é a solução do impossível, a saber, que a demonstração que traz o tratamento concebida a partir da lógica do tratamento releva da demonstração pelo absurdo: ela se conclui por um “não há”, por um “não é o caso colocado na hipótese”.

Esta tem sido a orientação fundamental de Lacan desde seu estudo do tratamento do pequeno Hans. A transformação da impotência em impossibilidade, como ele a formulará nos anos setenta (1969-70) já está presente nesse Seminário IV. Lá encontramos também inscrita a formulação do fim da análise como percepção, subjetivação do “não há relação sexual”. E também a travessia do fantasma, pois, no pequeno Hans, seguimos as permutações fantasmáticas mesmo que não possamos situar uma travessia do fantasma.

O problema nessa perspectiva do tratamento, que chamamos de lógica do tratamento, ainda é a repetição. Como cessa a repetição? Como se conclui o fato de que o inconsciente como tal, repete? Em que medida a repetição para, é a questão da conclusão do tratamento, se levarmos o termo conclusão a sério. A questão da conclusão do tratamento, no meu ponto de vista atual, deve estar ligada à repetição. Em que medida cessa a repetição, em que medida o tratamento permite eliminar a repetição? Em que medida a conclusão do tratamento tem uma incidência na repetição do significante como repetição de gozo? Há algo inacabado no Seminário IV. Há somente um esboço da lógica, de uma lógica do tratamento.

É uma questão para nós saber se é uma via a retomar ou se há obstáculos fundamentais que impedem que se vá à direção de uma lógica do tratamento distinta da estrutura do discurso. Lacan esboça uma lógica do tratamento e nós podemos dizer que é o único esboço de lógica do tratamento, propriamente dito, em Lacan. Houve dois rebentos no ano seguinte. Primeiramente, a metáfora paterna, a fórmula da metáfora paterna tal qual ela figura no famoso escrito “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”, que é a colocação por escrito dos resultados obtidos por Lacan a partir do tratamento do pequeno Hans que ele escreveu no ano seguinte, em dezembro de 1957 e janeiro de 1958. Evidentemente, este escrito trata do tema do Seminário III sobre a psicose. O caso do presidente Schreber retira toda sua formalização do caso do pequeno Hans. Lacan utiliza também o esquema L da estrutura do discurso para dar-lhe o estatuto de estrutura clínica, e quando ele transforma seu esquema L em esquema R, ele passa de um esquema de estrutura do discurso a um esquema de estrutura clínica. Além disso, ele formula a metáfora paterna propriamente dita, que escreve a relação do sujeito com a mãe, transformada pela inclusão do significante de pai.

Podemos dizer que no ano seguinte, no Seminário V, As formações do inconsciente, que ele já anunciara no ano do pequeno Hans, a construção de Lacan sobre o Witz surgiu dos Witz do pequeno Hans. No ano seguinte, ele elabora o grafo do desejo, que é também uma estrutura com transformações, e que dá alguma coisa – apesar de estar distante da experiência – de uma lógica do tratamento. Em todo caso, ele distingue um nível 1 do tratamento, de um nível 2, e nós podemos dizer que o nível 1 é concluído com o significante da identificação I(A), e que o nível 2 se conclui com o significante da inconsistência do Outro, S (A).

De certa maneira, esse grafo do desejo é uma transformação do esquema L de Lacan, isto é, ele articula a estrutura da intersubjetividade – intersubjetividade complexa, imaginária e simbólica, que existe nesse esquema – com a estrutura do significado e do significante, e ele combina, se é que podemos dizer isso, os dois. De tal forma que, se devêssemos resumir a lógica do tratamento apresentada por Lacan através do grafo do desejo, seria com esta fórmula: o tratamento é fundamentalmente a transformação de A em A ou também, a passagem do imaginário ao simbólico.

É assim que poderíamos resumir o tratamento do pequeno Hans, como um processo de simbolização. Vale a pena parar um momento para uma reflexão a este respeito, pois é o único momento em Lacan que temos uma lógica do tratamento que seja mais do que uma bela expressão, mas de fato um trabalho baseado em um tratamento. Trata-se de um processo de simbolização sobre um elemento essencial: o falo. Poderíamos, por conseguinte, resumir o tratamento do pequeno Hans da seguinte maneira: do falo imaginário ao falo simbólico, e poderíamos situar o momento exato da doença do pequeno Hans, ou de seu sintoma, seja na aparição do falo como elemento real, seja em seu gozo fálico, seja na aparição de sua irmã menor, que são os elementos que desestabilizam sua posição. Poderíamos dizer também, mesmo que Lacan não empregue este termo no Seminário, que a fórmula da lógica da cura é também do phallus imaginário ao phallus simbólico. É somente depois do Seminário VIII, sobre A transferência, que Lacan utilizará o símbolo φ.

O privilégio do tratamento do pequeno Hans é que ele é, praticamente, uma cura por excelência. Há um sintoma perfeitamente manifesto e este sintoma desaparece. Há cura. O sintoma fóbico desaparece. Há resolução curativa. O tratamento do pequeno Hans, mesmo tendo interesse para nós como um exemplo único, tem entretanto um limite, no nível do que podemos dele extrair; nesse caso, a lógica do tratamento se confunde com a elaboração da metáfora paterna; é dizer que nesse caso, no caso de uma análise infantil, a lógica do tratamento é idêntica à metáfora paterna. Ocorre que nesse tratamento, para cuidar do sintoma fóbico, o poder simbólico do significante pai substitui o poder imaginário da mãe. Pode-se dizer também, segundo a opinião de Lacan, que no caso do pequeno Hans a metáfora paterna não se constitui de forma plena, mas de forma oblíqua, desviada. Todavia, poder-se ia dizer que, se se tratasse de uma cura analítica propriamente dita, ela deveria ter começado após - após a resolução curativa obtida nesse caso, para restabelecer o equilíbrio – a orientação desta metáfora paterna desviada do pequeno Hans. Evidentemente, quando nós dizemos que iremos, na pratica analítica, além do Édipo, o que nós dizemos é justamente que nós podemos tomar a lógica do tratamento do pequeno Hans como modelo da lógica do tratamento propriamente dito. A importância do Seminário IV se observa no fato de que neste Seminário, segue-se a Freud em “Inibição, sintoma e angústia”, Lacan diz que o sintoma fóbico tem o papel do Nome-do-Pai e é somente um tempo para compreender, para chegar a formular que o Nome-do-Pai não é mais do que um sintoma. Quinze anos foram necessários para chegar a essa formulação, mas, desde o Seminário IV, temos elementos para deduzi-las. O Nome-do-Pai e o sintoma têm algo a ver um com o outro na medida em que um pode substituir o outro. Nós supomos que, se o Nome-do-Pai é um sintoma, é um sintoma que deve ser qualificado de uma certa maneira para ser distinguido, mas isso não impede que ele possa ser também patológico. A posição de Lacan neste Seminário é de que o pequeno Hans elabora um pequeno Nome-do-Pai.

Com isso, eu passo ao segundo tema. O segundo tema, que não trata de lógica propriamente dita, trata da mãe. A mãe é o personagem central do Seminário IV. Existe um preconceito segundo o qual Lacan não diria nada sobre a mãe e que o lacanismo teria sido empregado para restabelecer a função do pai. Não! O Seminário IV, do início ao fim, é uma teoria da mãe. Devo dizer que esta convicção orientou-me, por exemplo, na escolha da ilustração da capa da edição francesa, que não é o cavalo evidentemente. O cavalo está presente como significante. Ademais, Lacan - trata-se de um excursu - se refere no Seminário ao cavalo que figura no quadro de Ticiano, de Venus e Vulcano com um cavalo. Verifiquei em todos os catálogos de Ticiano e acredito que se trate, na realidade de um quadro de Veronese que se denomina Vênus e Marte ligados por Eros. Neste quadro existe, de fato, bem no fundo, um cavalo e um pequeno anjo, um pequeno Eros que tenta equilibrar-se sobre o cavalo, signo fálico codificado. Isto teria sido uma bela capa, é um quadro doce, mas, não me pareceria que seria necessário ilustrar o cavalo em primeiro lugar e, além de tudo, esse Seminário é tudo menos doce. Não vou dizer lhes qual foi a capa que escolhi, pois isso ainda não foi feito. Veremos

Foi o tema da mãe que unificou a pesquisa naquele ano. E se não é tão fácil ver a trajetória lógica de Lacan, não a lógica do tratamento, mas a lógica do Seminário propriamente dito. Se fosse necessário determinar qual é o fio que corre ao longo deste Seminário, desde o início, e que condiciona tudo o que Lacan escolhe como exemplo, eu diria que se trata das consequências clínicas terríveis da sexualidade feminina para qualquer sujeito no sentido em que cada sujeito é filho de uma mãe. Ao centro deste Seminário, há aquilo que, no centro da metáfora paterna, Lacan designa como DM, desejo da mãe, e, como saliento frequentemente, este Desejo da mãe, com um D maiúsculo, não é o desejo da mãe que conhecemos desde As formações do inconsciente que Lacan elaborará no ano seguinte, não se trata deste desejo correlativo da demanda, que é essencialmente o espaço entre o significante e o significado. Em O Seminário IV, eu posso dizer que se vê o momento em que surge, provavelmente, o termo demanda para Lacan, quando ele se dá conta de que em inglês, a exigência se diz demand, também utilizável para apetite.

O desejo em As formações do inconsciente é a parte que resta fora da interpretação, de tal forma que Lacan pode concluir disso que o desejo, segundo sua interpretação, não é o DM, o desejo da mãe, mas sim uma outra coisa. Ele se refere ao desejo da mãe enquanto mulher. Isto quer dizer que ele se refere à castração feminina, seja à mãe enquanto sujeito correlato de uma falta, não uma falta de ser mas, de fato, uma falta de objeto. Isto é a primeira parte do Seminário que intitulei “Teoria da falta de objeto”, que Lacan opõe à maioria dos teóricos da relação de objeto. Ele o elabora com as diferentes modalidades dessa falta: a castração, a frustração, a privação. Creio que conhecemos muito bem este mecanismo, a construção deste quadro.

Mas qual é sua finalidade neste Seminário? Trata-se de desenvolver a tese, segundo a qual, é determinante para um sujeito a relação da mulher com sua falta, que poderia se escrever assim: S ◊ (- ), relacionada à falta, não qualquer uma, mas aquela que se escreve (- ). A questão que Lacan trabalha neste Seminário, a questão fundamental da psicanálise da criança, é de saber como ela se inscreve nessa relação. Por que não poderíamos escrever, desta vez, o sujeito criança articulando-o com a articulação do sujeito feminino com sua falta: Sc ◊ (Sm ◊ (- ))? É por isso que a elaboração teórica fundamental da primeira parte é a da frustração. É certo que se trata da frustração da criança em relação à mãe, e Lacan dá uma nova elaboração ao Fort! Da!, pois o fort-da que Lacan utilizou no Seminário IV para demonstrar que sob a repetição, há a frustração do sujeito. Mas, além da frustração do sujeito-criança, a frustração da mãe enquanto mulher percorre todo esse Seminário.

Estamos habituados à outra face da sexualidade feminina que é o suplemento, o mais-de-gozar. Mas no Seminário IV, a outra face é a insatisfação, segundo Lacan, a insatisfação constitutiva do sujeito mulher. É nesse sentido que o capítulo central deste Seminário, o capítulo XI, eu denominei: “O falo e a mãe não-realizada” (1956-57, p. 179).

A mãe lacaniana corresponde à formula quaerens quem devoret , ela procura alguém para devorar; Lacan a apresenta a seguir como o crocodilo, o sujeito com a boca aberta. De tal maneira que, sob o conjunto do mecanismo do quadro e de suas permutações, o elemento central é o devoramento, a relação oral com a mãe enquanto devoramento, devorar a mãe e ser devorado por ela. No complexo do cavalo, ou complexo dos cavalos, o elemento que parece à Lacan merecer um matema, é a mordida, a tal ponto que Lacan o indica com uma matema “m”. Este está igualmente presente em tudo aquilo que concerne ao casco do cavalo e Lacan mostra que a palavra “casco” (1956-57, p. 335) designa ao mesmo tempo a pinça ou as tenazes. Em consequência, a questão infantil, tal qual Lacan a situa (é quase possível dizer a questão infantil como se fala da questão histérica ou da questão do obsessivo) é de saber como saciar o desejo da mãe ligado a sua falta. Há muitas transformações que Lacan situa nesse Seminário, mas a transformação que me parece central, muito esclarecedora, é a da mordida da mãe no fechamento da torneira da banheira (1956-57, p. 331 e 341). Como o diz Lacan? Ele diz que o desmonte, o banho do pequeno Hans que é interrompido pelo fechamento da torneira nem dado momento, é quase o que encarna a passagem do imaginário ao simbólico. Assim como o diz Lacan – esta é a única citação que eu farei – “não é a mesma coisa morder gulosamente a mãe, apreensão de seu significado natural, até mesmo de temer, em retorno, esta famosa mordida que encarna o cavalo – ou de desaparafusar a mãe, soltar-lhe as engrenagens, mobilizá-la neste assunto, fazer com que ela entre também no conjunto do sistema, e, pela primeira vez, como um elemento móvel e ao mesmo tempo, equivalente aos outros.” (Ibid., p. 405).

Podemos dizer que o ponto mais avançado que o pequeno Hans conseguiu atingir é, devemos admitir esta fórmula assim – a transformação da mordida no fechamento da torneira da banheira. Isto quer dizer que a mãe, com sua potência opaca, ameaçadora, que parte, que vai e que volta (e com ela se vai toda a casa, é esse o temor do pequeno Hans), essa partida ameaçadora da mãe, transforma-se no desmonte de um aparelho que não é toda a casa, que esta banheira lhe dá seu lugar, pois, como o próprio pequeno Hans observa, é o lugar onde, numa banheira que ele ama, seu traseiro encontra seu exato lugar (1956-57, p. 333). Portanto, O Seminário IV, é um seminário sobre a sexualidade feminina. Tendo começado a redigi-lo, eu percebi que, para Lacan, a questão essencial da psicanálise com crianças era a sexualidade feminina. Não se trata da mulher em sua relação com o gozo, trata-se da mulher em sua ligação com o falo, isto é, ao significante fálico que faz dela um ser da falta. E, há evidentemente uma relação entre esta falta fálica e o suplemento de gozo que Lacan fixará muitos anos mais tarde.

Este Seminário é também um Seminário sobre a criança na medida em que a criança é uma solução a esta falta feminina. Lacan se refere, evidentemente, à equivalência, à equação, à Gleichung formulada por Freud, criança = falo. Mas não é nada mais do que uma substituição. Freud, ele próprio, só introduz a criança como substituto ao falo que falta. Justamente, um substituto que não basta, de tal forma que ao lado da metáfora paterna nós podemos escrever a metáfora infantil da mulher, que é uma outra forma da equivalência freudiana criança/- , e que corresponde ao estatuto que Lacan dará, muito tempo depois à criança, de objeto pequeno a. Talvez isto seja visto com mais facilidade quando está escrito: a criança como substituto da falta fálica: E/- . A questão é de saber como a criança descobre que não basta fechar o buraco, como ela descobre que o parceiro de sua mãe como mulher é sua falta, isto é, a falta de falo. É isto que ordena a pesquisa de Lacan. Ele se interroga, em detalhes, como uma criança pode descobrir a relação de sua mãe com o falo e sua própria falta. Não há então primary love no amor recíproco.

De forma similar, Lacan convoca o caso da fobia da pequena inglesa, caso de fobia que se inicia quando a mãe se manifesta diminuída em sua potência, onde o que parece ser o motor em causa é a aparição de sua falta. É assim que se justifica a escolha do caso da jovem homossexual no qual vemos que quando ela é confrontada ao fato de que o filho imaginário do pai, encarnado para ela no filho real da vizinha do qual ela se ocupa, é dado à mãe, uma mudança clínica ocorre que se esclarece com a equivalência freudiana entre a criança e o falo.

É também o que justifica os capítulos que Lacan dedica à perversão, às vias perversas do desejo e ao objeto fetiche, uma clínica onde se vê o sujeito se identificar ao falo da mãe, ou identificando-se à mãe, sobre o eixo imaginário, de tal forma que Lacan apresenta o fetichismo como uma solução possível para a criança que descobre a relação de sua mãe com a falta. Por essa razão, ele situa a prevalência do imaginário nas perversões. A tal ponto que eu me permiti, no último capítulo, colocar em evidência, similarmente à fórmula de Joyce, o sintoma a fórmula de Hans, o fetiche. Hans, o fetiche, não Hans, o fetichista. Ao contrário, e Lacan o situa de maneira muito precisa, há toda uma parte do estudo do pequeno Hans que se refere às calcinhas da mãe, que têm valor numa oposição significante, e que são diferentes se estiverem ou não vestidas na mãe. Quando a mãe não as está vestindo, o pequeno Hans as rejeita. E como o diz Lacan, é a orientação fundamental de que esta criança não será um fetichista, ou pelo menos um fetichista normal, isto é, que para ele o falo será aquele da equivalência girl= falo, situada por Fenichel em um artigo citado por Lacan.

O título do último capítulo “Hans o fetiche”, eu o intitulei exatamente “De Hans-o fetiche a Leonardo-em-espelho”. Lacan termina este Seminário com o caso de Leonardo Da Vinci, de Freud, ao qual ele dá sua versão da inversão de Leonardo, deixando em suspenso a questão de sua inversão sexual, e utilizando este termo para por em evidência a característica prevalente da relação imaginária para Leonardo. É fato que ele tinha por hábito dirigir-se a si mesmo por “tu”, e escrevendo páginas nas quais ele se refere a si mesmo por “tu”. Lacan lembra que da natureza ele fazia, não um grande Outro, mas um outro imaginário e simétrico, de tal forma que ele situa Leonardo em seu esquema Z.

É no caso de Leonardo Da Vinci que encontramos as figuras da “mãe dupla”, da Virgem e Santa Anna, e esta mãe dupla se articula com a dupla mãe do pequeno Hans. É desta forma que Lacan situa o desvio da metáfora paterna em Hans que, no lugar de acessar plenamente o Nome-do-Pai, desdobra a mãe entre sua mãe e a mãe de seu pai, a avó que tem a autoridade. Ele escreve MM, duplo M maiúsculo, esta avó, mãe do pai, lugar da autoridade que faz a lei do pai. Todos os domingos o pai e o pequeno Hans vão visitá-la e é neste traço que Lacan situa a força, a autoridade desta senhora. Temos a dupla mãe de Leonardo, a dupla mãe do pequeno Hans, e também a dupla mãe de André Gide. Quando Lacan lê André Gide, ele reconstrói sua mãe dupla através de sua mãe biológica e sua tia. Há uma série tripla: Hans-Leonardo-André Gide. Através destas considerações, eu estou também completando um pouco o que eu não tive tempo de dizer em meu seminário sobre André Gide, publicado há alguns anos na revista Malentendido. Esta mãe dupla é a fórmula da metáfora paterna desviada, fórmula indicada quando não há foraclusão propriamente dita do Nome-do-Pai, e quando a transmissão do Nome-do-Pai não parece passar pelo pai real, no sentido do real que Lacan utilizava nesta época. Devo dizer que isso me surpreende. Há anos que situamos o aporte de Lacan a respeito da outra mãe na histeria, mas não demos uma importância equivalente à mãe desdobrada, à função da mãe dupla. A mãe dupla não responde a um delírio da criança, mas de fato é uma invenção que lhe permite obter uma derivação feminina do Nome-do-Pai. Evidentemente as consequências não são as mesmas, mas podemos ver no caso de pequeno Hans aquilo que Lacan não hesita em chamar de carência do pai real. No pequeno Hans, há um chamado constante ao Nome-do-Pai, um chamado constante a um pai terrível, muito mais terrível do que este pai doce, que assim que algo lhe é dito corre para referir-se ao professor Freud.

No caso de André Gide, vemos que o pai está presente, mas é um companheiro de jogos. É a figura materna que suportou os imperativos da lei, a autoridade simbólica. As consequências não são as mesmas, Hans vai gostar das mulheres e Gide dos menininhos. Não! A heterossexualidade do pequeno Hans não o impede de permanecer, fundamentalmente, numa posição feminina, à tal ponto em que ele se situa como a filha de duas mães. Já Gide demonstra que goza de seu pênis como uma mulher, transbordando de gozo. Isto nos permite dizer que encontramos a dupla mãe, a cada vez que a metáfora paterna se realiza com os elementos femininos da história do sujeito. O pequeno Hans, segundo Lacan, não sai da dominação, o fio que percorre a procura da relação de objeto é também o do poder da mãe, que uma vez Lacan qualificou como mestre, o mestre-mãe.

É o que resta em sua teoria como mãe real, uma mãe não saciada, mas também todo-poderosa. O apavorante desta figura de mãe Lacaniana é exatamente este caráter todo-poderoso, concomitantemente à sua não realização. Evidentemente, sob esta figura encontramos a figura kleiniana da mãe e, em certo sentido, no Seminário IV encontramos a reelaboração de Lacan da doutrina de Melanie Klein. Isso não se percebe com muita facilidade quando ela está exposta nos Escritos sob a forma da dialética necessidade, demanda, desejo. Mas, no Seminário IV nós temos o esqueleto. Nada mostra melhor este esforço de ligação com Klein do que esse breve momento no qual Lacan tenta tornar compatível seu estádio do espelho com a posição depressiva. É quase cômico. Pois a criança lacaniana do espelho, do estádio do espelho, é totalmente o contrário da criança kleiniana. A criança kleiniana é depressiva, enquanto a experiência fundamental da criança lacaniana é o júbilo, o triunfo no momento em que experimenta a completude de sua imagem e seu domínio sobre sua imagem.

Mas, não compreendemos como uma mãe devorante pode ter um filho triunfante, a tal ponto que Lacan diz que quando a criança encontra sua imagem completa no espelho, é o triunfo. Mas, quando ele encontra a imagem completa sob a forma do corpo materno, ele constata que essa imagem não lhe obedece, de tal maneira que todo o poder materno se reflete como sua posição depressiva. Diante de sua própria imagem, o sujeito pode experimentar um triunfo, mas diante da imagem da mãe ele é fundamentalmente depressivo. O pequeno Hans está muito mais ao lado da criança lacaniana, no sentido de que ele se defende bastante bem, mas, certamente é uma criança sob uma ameaça encarnada pelo cavalo. Podemos então dizer que isto é uma correção kleiniana do estádio do espelho, e eu não ouvi falar nela ter sido utilizada até o presente momento. Lacan corrige também o comentário do Fort-da. Tanto no “discurso de Roma”, no Seminário II, quanto no Seminário sobre “A Carta roubada”, o Fort-da parece ser o exemplo freudiano da introdução do sujeito na ordem simbólica e ele nos apresenta o binário significante mínimo, isto é, o Fort-da, como repetição.

Neste Seminário, Lacan elabora o Fort-da como frustração e o que muda é que não se trata de um funcionamento cego, automático, lógico, de um algoritmo acéfalo, este funcionamento simbólico passa, ao contrário, por um ser, por uma dominação. O Fort-da pode assemelhar-se a um funcionamento unicamente simbólico, onde a criança reproduz no semblante a partida e o retorno da mãe, e num jogo no qual, ao utilizar um objeto qualquer, ele acompanha a aproximação e a desaparição do objeto de uma vocalização binária. É nisso somente que o Fort-da constitui-se numa simbolização da mãe.
Lacan necessita de uma mudança no estatuto da mãe. Quando a mãe não responde, ele diz que ela se transforma em real, isto é, em potência. De sorte que há algo como um cruzamento entre a satisfação e a mãe; quando a satisfação é real, a mãe é simbólica, e quando a mãe se torna real a satisfação se torna simbólica. Uma satisfação simbólica, o que é? A mãe não é só mestre, é também amor. A tese essencial de Lacan nesse Seminário é de que a satisfação essencial é a satisfação do amor. A exigência do amor é a exigência simbólica, a exigência do signo do amor. A exigência do signo do amor pode se conservar em toda sua intensidade no interior de um sujeito.

No Seminário IV temos uma clínica centrada sobre o amor, a tal ponto que Lacan situa a satisfação real, quando ela é obtida, como um substituto da satisfação simbólica. O que quer dizer que poderíamos escrevê-lo: satisfação real/satisfação simbólica. Isso é muito importante, Lacan o diz em uma frase, ele diz que toda frustração da satisfação simbólica, toda frustração de amor numa criança, é compensada por uma satisfação real, mas é um “plano B”, um recurso, um mal menor. Não temos de ficar fascinados com a satisfação real da criança no seio, pois a tese de Lacan é que esta satisfação real da criança é uma substituição, uma compensação da frustração real do amor. A intensidade da satisfação real vem do fato de que é um substituto da satisfação simbólica. É por essa razão que se erotizam as atividades do ser. A oralidade, por exemplo, não é somente comer para viver, a oralidade se erotiza na medida em que ela vem compensar a satisfação simbólica.

Dizer isso é dizer que a pulsão não é pura necessidade. O que surpreende nesse Seminário é que a pulsão parece ser a consequência da exigência de amor, é a forma que Lacan escolhe para dizer que o lugar do grande Outro já está presente na pulsão. Ademais, quando o pulsional aparece, ele tem sempre sua função ligada ao desenvolvimento de uma relação simbólica. Evidentemente, quando Lacan diz “amor” nesse seminário, trata-se do Eros freudiano. Este tema é importante na lógica do tratamento. É um pouco um excursus, mas há o exemplo que toma Lacan, um caso de exibicionismo apresentado por Melittta Schmideberg, que Lacan trata como um exibicionismo reacional, com a aparição ou o deslocamento de uma zona erógena (1956-57, cap. IX). De fato, quando nesse tratamento aparece o pulsional, num dado momento o sujeito cai na bulimia e, em outro momento, após haver realizado com dificuldade o ato sexual, o sujeito vai expor seu órgão diante de um trem internacional que passa na região. Lacan, ao invés de dizer que há uma regressão, diz que todas essas emergências devem ser situadas como estando enlaçadas com a relação simbólica à qual elas se reduzem. É um tema que eu não posso desenvolver agora. Parece-me, que na lógica do tratamento, deve-se situar esses fenômenos de redução simbólica, é uma coisa recorrente neste Seminário de Lacan, no fantasma, mesmo no fantasma apresentado por Freud.

A lógica do fantasma leva a um empobrecimento da estrutura do fantasma. Como Lacan o demonstra, há na primeira forma do fantasma uma relação intersubjetiva rica que se transforma numa fórmula sem sujeito: “Bate-se numa criança”, onde não há mais intersubjetividade. Isto quer dizer que no fantasma há toda a complexidade do simbólico e uma redução pontual dessa complexidade. A mesma coisa ocorre quando surge, no lugar de toda a complexidade simbólica, um acting-out, uma passagem ao ato ou a regressão pulsional ou quando, na perversão, Lacan apresenta a imagem como molde da perversão, a redução de toda uma história simbólica que se mantém como um resto. Assim, ele deduz e acentua a prevalência do modo imaginário na perversão.

Em outro momento, a respeito da jovem homossexual, ele fala da projeção do simbólico sobre o eixo imaginário. Eu não vou poder desenvolver isso, mas é como se houvesse momentos em que se pudesse situar e condensar esse fenômeno, momentos em que a relação simbólica se dobra sobre o imaginário ou sobre o pulsional mas, a cada vez, trata-se de uma redução simbólica. Mesmo que isso possa ser semblante, mesmo que sejam pontos de densidade máxima, trata-se de alguma coisa que parece real e ao mesmo tempo é semblante.

Vou parar por aqui. Não dediquei meu seminário desse ano a isso, de maneira que tenho muito a dizer e não calculei bem o tempo, mas gostaria de dar uma abertura para a leitura do Seminário. Só vou adicionar o seguinte: Leonardo Gorostiza falou da dificuldade do tema da lógica, do estudo da lógica. Portanto, eu concluo dizendo que antes do Seminário IV, há só um caso de Freud que Lacan parece abordar na inspiração da lógica do tratamento. É sua pequena “Intervenção sobre a transferência” (1951), a respeito do caso Dora. Nessa pequena “Intervenção sobre a transferência” pode-se dizer que ele lê o caso Dora com a Fenomenologia do espírito, de Hegel, isto é, que ele localiza as inversões dialéticas.

No Seminário IV, e para desenvolver o único exemplo que temos de lógica do tratamento, podemos dizer que Lacan lê Freud com Lévi-Strauss, mais exatamente com um artigo intitulado “A estrutura dos mitos” datado de 1955. Recomendo o estudo desse artigo, em que se vê a tentativa de Lévi-Strauss, na qual Lacan se inspirou na questão da permutação, de escrever a fórmula do mito, na ideia de que todo mito é redutível a uma fórmula. Não tenho o tempo de demonstrar que essa fórmula inspira a fórmula da metáfora paterna em Lacan, que é uma fórmula de equivalência. Armado de Lévi-Strauss, Lacan (1956-57, p. 329) tenta ordenar a estrutura dos mitos elaborados por Hans e seguir as tentativas de solução do pequeno Hans, concluindo com uma fórmula que é também a metáfora paterna.

Na lógica do tratamento, trata-se de saber se podemos retomar o tema deixado por Lacan, sabendo que, para nós, a lógica do tratamento não é uma elaboração da metáfora paterna, que a metáfora paterna não é a conclusão do tratamento. Mas temos de saber se o método vale, isto é, se além da estrutura do discurso, há uma lógica formalizável do tratamento. Um eco do caso do pequeno Hans se faz ouvir no ensinamento de Lacan até A lógica do fantasma, seu Seminário de 1966-67. O caso do pequeno Hans já é uma lógica do fantasma, vocês conhecem a importância dessa lógica do fantasma, pois é ao concluir esse Seminário que Lacan propõe o passe, de tal forma que podemos estudar juntos o Seminário IV: a relação de objeto, o Seminário 14: a lógica do fantasma e o texto sobre o passe. De certa maneira, em A lógica do fantasma, à distância do tratamento, através do grupo de Klein, Lacan elabora um certo tipo de estrutura com suas transformações, mas à distância dos eventos do tratamento.

O que é apaixonante nesse Seminário IV, é que Lacan não fica à distância da experiência e que ele formaliza os próprios elementos do tratamento, a ponto de definir “m” como a mordida do cavalo. É fato que Lacan abandonou essa perspectiva de expor a lógica do tratamento dessa forma e que ficou adstrito à elaboração da lógica do discurso. Minha questão, ao abrir esta jornada, mas não somente essa jornada, pois o tema da lógica do tratamento vai balizar as jornadas de todas as escolas pertencentes à Associação Mundial de Psicanálise, a questão, a verdadeira questão aberta que lhes proponho para estas jornadas é de saber se há possibilidade, necessidade, dever, ou se há impossibilidade de retomar a inspiração de Lacan em O Seminário IV para elaborar uma lógica do tratamento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LACAN, J. (1951) “Intervenção sobre a transferência”. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 214-225.
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_________. (1957) “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud”. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 496-533.
_________. (1957-58) “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 537-590.
_________. (1998) Escritos. Rio de Janeiro Jorge Zahar Ed.

 _________. Le Séminaire. Livre XVII: L’envers de la psychanalyse. Paris: Le Seuil, 1991. LÉVI-STRAUSS, C. (1955). A estrutura dos mitos. Antropologia Estrutural (1944- 56). Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, s/d, p. 237-265.

IN: Revista aSEPHALLUS, Vol. IV

OS NÃO-TOLOS ERRAM / OS NOMES DO PAI

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