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sábado, junho 29, 2013

A mulher, de Lacan, que não existe




Desde o início da civilização até hoje, vemos uma impropriedade comum no tratamento da mulher

O que Lacan sabia das mulheres? É a pergunta, em título, do Colóquio de Miami, em junho de 2013.

Nós todos conhecemos a resposta, Lacan a deu inúmeras vezes nos últimos anos de seu ensino. Ele a sintetizou em quatro palavras.

Lacan sabia das mulheres que: A MULHER NÃO EXISTE.

O que está condensado nessa oração aforismática é uma radical revolução no laço social, pois aponta a uma mudança de paradigma com implicações fundamentais na clínica e na vida em geral da pós-modernidade. É a isso que vou me dedicar a analisar nesse breve artigo:

a. como a mulher era vista;
b. o que há de novo quando a mulher não existe;
c. a possibilidade de um novo amor: a ressonância;
d. a segunda clínica: a consequência;
e. “a mulher de Lacan e a mulher de hoje”, tema dessa mesa.

Como a mulher sempre foi habitualmente vista? (*)

Começou como sempre, no começo. No Gênesis, quando Deus diz à mulher que levara o homem a comer o que não devia: “Multiplicarei teus trabalhos e misérias em tua gravidez; com dor parirás os filhos e estarás sob a lei de teu marido, e ele te dominará”.

De lá até aqui, numa longa e inacabada história, a lista de impropriedades sobre a mulher só fez crescer. Os autores, paradoxalmente, são da melhor qualidade. Senão, vejamos.

"Uma mulher estéril deve ser substituída no oitavo ano; aquela que perdeu todos os filhos, no décimo; a que só dá luz a filhas, no décimo primeiro; aquela que é azeda, imediatamente" (Código de Manu, século XIII A.C.).

"A mulher é má. Cada vez que tiver ocasião, toda mulher pecará" (Buda, 600 A.C.).

"As mulheres, os escravos e os estrangeiros não são cidadãos" (Péricles, 450 A.C.).

Eurípedes, o dramaturgo, na mesma época: "Os melhores adornos de uma mulher são o silêncio e a modéstia".

Um pouco depois, o pai da lógica, Aristóteles, saía-se com esta: "A mulher é por natureza inferior ao homem; deve, pois, obedecer... O escravo não tem vontade; a criança tem, mas incompleta; a mulher tem, mas impotente".
"A mulher deve aprender em silêncio, com plena submissão. Não consinto que a mulher ensine nem domine o marido, apenas que se mantenha em silêncio" (São Paulo, século I).

"Os homens são superiores às mulheres, porque Deus lhes outorgou a preeminência sobre elas. Os maridos que sofram desobediência de suas esposas podem castigá-las: deixá-las sozinhas em seus leitos e até mesmo golpeá-las" (Maomé, século VII).

"Para a boa ordem da família humana, uns devem ser governados por outros mais sábios do que eles; em decorrência, a mulher, mais débil em vigor da alma e força corporal, está sujeita por natureza ao homem, em quem a razão predomina. O pai há de ser mais amado do que a mãe e merecerá maior respeito, porque a sua concepção é ativa, e a mãe simplesmente passiva e material" (São Tomás de Aquino, século XIII).

"Você não sabe que sou mulher? Quando penso, tenho de falar" (Shakespeare, século XVII).

"Ainda que o homem e a mulher sejam duas metades, não são nem podem ser iguais. Há uma metade principal e outra metade subalterna: a primeira manda e a segunda obedece” (Molière, século XVII).

"Uma mulher amavelmente estúpida é uma bendição do céu" (Voltaire, século XVIII).

"A mulher pode, naturalmente, receber educação, porém, sua mente não é adequada às ciências mais elevadas, à filosofia e a algumas artes" (Hegel, século XIX).

"Todas as mulheres acabam sendo como suas mães: essa é a tragédia" (Oscar Wilde; século XIX).

"... de quem, de fato, aprendemos a volúpia, o afeminamento, a frivolidade total, e outros muitos vícios, senão da mulher? Quem é o responsável por perdermos tantos sentimentos inerentes a nossa natureza, como o valor, a fortaleza, a prudência, a equidade e tantos outros, senão a mulher?" (Tolstoi, século XIX).

"A mulher parece resolvida a manter a espécie dentro de limites medíocres, a procurar que o homem não chegue nunca a ser semideus" (Ortega y Gasset, século XX).

Nosso contemporâneo, Elias Canetti, búlgaro, Prêmio Nobel de Literatura de 1981: "Sua confusão era tal que começou a piorar mentalmente, como uma mulher".

Finalmente, fora da ordem histórica, o epitáfio que o poeta inglês John Donne (século XVII) inscreveu na tumba de sua esposa: "Enquanto você repousa, eu descanso".

Saltando de século em século, do início da civilização até hoje, por meio desses flashes pinçados ao acaso, vemos uma impropriedade comum no tratamento da mulher, um conjunto de desaforos, literalmente: um conjunto de "fora de lugares". Historiadores, filósofos, teólogos, dramaturgos, políticos, enfim, a inteligência, os que pensam, pensam muito mal a mulher. Razões culturais, sim, não há dúvida, mas o que provoca essa quase desrazão cultural?

A mulher não existe quer dizer que falta à civilização, à cultura, um nome apropriado à satisfação feminina, à essência da mulher. Quando se tenta classificá-la, como vimos, é um desastre, acaba-se por degradá-la, mudar de grau. É diferente do homem que, este sim, encontra conforto nos braços da cultura e aí dormiria em berço esplêndido se não fosse a mulher acordá-lo de seu sono narcísico e homossexual da civilização, de tempos em tempos.
O homem adora estar no mundo, na ordem unida; quanto mais todos forem iguais, melhor. O exército, a igreja e as legiões de executivos são bons exemplos da vontade de ser uniforme: todos de farda, de batina, de terno cinza, gravata escura, sapato preto, no máximo, marrom.

Se você elogia um homem, tipo: “Você é inteligente”, ele fica contente e, se nesse elogio se acrescenta uma comparação com outro homem – como, por exemplo, "Você é inteligente como Churchill", tanto melhor.  Já as mulheres questionam o coletivo e a ordem unida. O elogio a uma mulher há de ser específico. Jamais diga, por exemplo: "Você é sensual como Gloria Estefan, pois se arrisca a ouvir: "O quê? Aquela cubana, de Miami, cantora de salsa?". Melhor restringir o elogio, tal como: “Você é de uma sensualidade jamais vista”.

Pois bem, seja para homens ou para mulheres, uma análise se propõe a escutar e a inventar um nome para o que se exclui da linguagem; daí dizer, com Lacan, que uma análise deve ser conduzida ao território da inexistência da mulher, além do Édipo, lembrando que "complexo de Édipo" é a maneira da psicanálise conceituar a articulação do sujeito com a cultura.

Ir além do Édipo é forçar a palavra onde normalmente nada poderia ser dito. Lembremos do final do Tractatus logico-philosophicus de Wittgenstein: "Do que não se pode falar, melhor é calar-se". Contrariamente a essa assertiva do filósofo, a psicanálise insiste no mais além, convida ao excesso: onde nada pode ser dito, tal como faz o poeta, há de ser inventado um significante novo.

Inventar um significante novo e se responsabilizar por sua passagem no mundo. Invenção e responsabilidade são dois movimentos fundamentais da clínica do sujeito da pós-modernidade, a segunda clínica de Jacques Lacan. Nesta, onde na primeira se buscava o sentido a mais, aqui o que importa é a consequência. Nada a esperar que uma mulher venha a existir. É por que ela não existe que podemos inventá-la e inventar-nos.

Essa série de impropérios sobre a mulher, que listei, é sinal de um tempo em que a norma era masculina. Muito tempo, dois mil anos. Tempo no qual o amor, para voltar ao tema referido na primeira mesa, se realizava sempre em nome de um bem maior: a família, a religião, a tradição etc. Hoje, no novo amor da pós-modernidade, se estou com alguém é porque eu quero, sem justificativa outra, logo é por minha conta e risco. E não há como degradar uma mulher, posto que ela não existe.

A clínica mudou, o mundo mudou também. Seremos capazes de viver esse mundo da ressonância, não da compreensão, na medida em que suportarmos efetivamente o que Lacan sabia das mulheres, ou seja, que ela não existe. Mais que nunca, nos novos tempos da globalização, a mulher de Lacan é a mulher de hoje.


by: Jorge Forbes
Miami, 2 de junho de 2013

(*)Nota: retomo aqui, em parte, o que desenvolvi em artigo anterior: “A mulher e o analista, fora da civilização.”, publicado em livro por mim organizado: “Psicanálise: problemas ao feminino”, artigo que pode ser lido em: http://migre.me/eZqbq





quarta-feira, abril 10, 2013

Sobre a Angústia


A Angústia.

Em princípio, gostaria de dizer que vou falar sobre a angústia. Peço licença de fazer essa modificação da palavra ansiedade, título neste Simpósio, pela palavra angústia, devido a uma discussão ocasionada pela tradução da palavra que Freud utilizou: angst traduzida para o português na coleção de suas obras completas como ansiedade. Não quero cansá-los com essa problemática, só quero precisar que prefiro utilizar o termo ‘angústia’ uma vez que minha abordagem tem a ver com a psicanálise e foi esse o termo referido por Lacan, autor junto com Freud, que me baseio no desenvolvimento do que aqui trago.

1. Angústia é um Sentimento

Diria simplesmente, retomando uma expressão de Freud: “Angústia é algo que se sente”.

Embora essa expressão possa parecer absolutamente óbvia para os que consideram que a psicanálise lida com os sentimentos, gostaria de privilegiar um fato: não há muitos sentimentos com os quais a psicanálise lida. Diria mesmo que existe um sentimento: angústia.

Melhor que dizê-la um sentimento falaria em estado, estado de angústia. Estado é algo que toca o ser. Sentimento é algo da ordem da representação; representação que em Freud recebe o nome de traços mnêmicos que podemos tentar uma aproximação com o que Lacan define como significante.

O trabalho de uma análise se divide entre essas duas vertentes: uma a que trabalha com esses significantes colocados em cadeia, pela regra fundamental - a associação livre - também chamada vertente do sintoma. Já desde ‘Interpretação dos Sonhos’, Freud se dava conta que os afetos não eram anteriores à palavra. Seria necessária a associação livre para daí surgir o afeto, como consequência das articulações significantes produzidas. Os afetos são assim: consequência do que é dito. Esse é um dos pontos que fez com que Lacan dissesse que “o inconsciente é estruturado como uma linguagem” que se antepõe às concepções do inconsciente visto como reservatório de fantasias primitivas e arcaicas e outra, - a vertente do fantasma - que faz trabalhar exatamente o que falta à representação - o objeto de desejo não representável. Aquilo que Freud denominou “a coisa”, o “isso”, mal traduzido na edição brasileira por “Id”, o inominável, o que escapa à representação, o que escapa ao significante.

Angústia está assim, do lado daquilo que escapa à representação, na vertente do fantasma.

Quando Lacan fala dessa diferença, nos auxilia a marcar que a psicanálise não é ortopedia psíquica, embora a difusão leiga favoreça que na clínica nos deparemos muito freqüentemente com pacientes que dizem ”... não tenho mais nada para falar, não estou sentindo nada de especial hoje”.
Enquanto através da palavra o sujeito tenta encontrar sua verdade que sempre lhe escapa, é através da angústia que mais podemos nos aproximar do Real do ser.
E dessa angústia, assim contextuada, que pretendo aqui tratar, dando importância à sua aparição na clínica.

2. Em Freud

É muito conhecida a expressão freudiana que “angústia é a angústia da castração”.

De imediato, ao inverter a frase, podemos dizer: a castração é a solução da angústia.

O texto de Freud de 1925 ‘Inibição, sintoma e angústia’ marca um ponto de virada no pensamento freudiano a respeito desse tema. Até então, o autor defendia a idéia que angústia era uma conseqüência do processo de recalcamento. A partir daí, é exatamente o inverso o que ele conclui, dizendo que a angústia é o precipitador do recalcamento.

Tomemos o exemplo clássico do complexo de Édipo. Ali se impõe a dolorosa escolha para o sujeito. Tem-se que optar entre a bolsa ou a vida, tem-se que optar, dada a intervenção da lei paterna, em conservar a mãe, objeto primordial de desejo, e perder o pênis, ou conservar o pênis e perder a mãe. Mas, sabemos, não há eleição, só sujeição à lei.

Dado o anedótico e o folclórico em que foi transformada a conceituação do complexo de Édipo, peço a vocês que o pensem enquanto uma estrutura que põe em jogo a escolha entre o gozo e o desejo.
Por isso não nos ser necessário inventarmos novos complexos, como por exemplo, de Electra, de inferioridade, de superioridade, de Cinderela, etc.

A intervenção paterna inscreve o sujeito na palavra, dando-lhe um instrumento de articulação do seu desejo. Sabemos no entanto, que sempre ao terminar uma frase, nos damos conta que ficou algo a dizer. A última palavra é corriqueiramente acompanhada de insatisfação, o que faz com que o humano sempre providencie ocasiões em que possa falar um pouco mais, como é o nosso caso de hoje, aqui.

Ao dizer que a castração é a solução da angústia, quero com isso lembrar que se ela é a solução é porque afasta do sujeito a presença do objeto de desejo.

Talvez seja paradoxal dizer isto e busco uma maneira de exemplificar mais claramente o que, através da intervenção paterna, é dado como possível a este ser, que por ela é transformado em um ser de fala. O que se torna possível é a expressão de um desejo para sempre insatisfeito pela total discordância entre o instrumento que se tem como ferramenta de busca, a palavra e a natureza da coisa a ser conquistada, um objeto que a ela não se adequa.
A proximidade ao objeto de desejo angustia e por isso chamarmos o orgasmo de “pequena morte”, dado que este momento utópico e imaginário de felicidade e complementação absoluta, entre o que se é e o que falta, ser um momento de ausência de palavras.
Popularmente, Ataulfo Alves cantou: “eu era feliz e não sabia, quando tinha a mulher de verdade”. Agora que sei, não sou mais. Outra vez, toco na discordância pela qual abri este trabalho, agora, via nossa canção popular: a discordância do estar, do ser, com o pensar. Por isso havia dito da angústia enquanto um estado.

É a falha sempre presente na inscrição simbólica do sujeito que pode defrontá-lo ao desejo do Outro. Aqui me refiro a uma conceituação muito precisa em Lacan de “Outro”, que prefiro abordar através de um exemplo comum.

A todo momento em que uma pessoa se defronta ao desejo do outro, outro esse colocado numa situação de importância para ele, numa ocasião de uma solicitação de emprego, por exemplo, conhecemos os ensaios que o sujeito faz para ali se apresentar: “com que roupa que eu vou... que eu vou dizer... será que vai aceitar minha proposta... chego na hora ou um pouco antes... mostro indiferença ou interesse... falo de um jeitão positivo e auto-suficiente ou vou numa de humilde... trato de senhor ou de você, etc, etc., etc.”.

Sabemos que só há uma solução: se apresentar no emprego e dizer o que deseja. O outro caminho, o que solicita a garantia do reconhecimento, é o caminho certo da angústia. É ao reconhecimento absoluto, absoluto pois nada escapa, nada falta, que damos o nome de gozo e, a sustentar o eventual do jogo das possibilidades: desejo.
3. Na Clínica

Abordarei a incidência da angústia na clínica desde dois lugares: o lugar do analista e o lugar do analisando.

3.1 Do analista

Se há algo especifico de que o analista priva seu analisando é, exatamente, a sua angústia. A concepção lacaniana, que um analista sustenta uma análise através do seu desejo, diz respeito à esse fato. Não se trabalha em análise com a divisão da angústia, mesmo porque, não querendo ir muito longe, quando dividimos angústia, ou quando dividimos um bolo, cada um fica com menos.

No trabalho da análise, ao não se dividir a angústia, ao não se participar analista e analisando da mesma angústia, o que se faz é pôr a angústia a trabalhar. Isso esclarece a definição lacaniana, que análise é o tratamento do Real pelo Simbólico.

Ao privar seu paciente de sua angústia, a do analista, este possibilita pela transferência, que a expressão dessa resposta, que é endereçada ao Outro e não ao analista, se transforma em um saber operável, livrando o analisante dos seus aspectos paralisantes.

A angústia pode ser pensada como um estado de uma presença insuportável que deve ser simbolizada. Em termos médicos, faríamos uma analogia com a asma, por exemplo, que aparece pela presença de um alergeno.

3.2 Do analisando

Do lado do analisando: podemos pensar numa repartição da clínica, à partir das estratégias que o sujeito executa no evitamento de se deparar frente ao enigma do desejo do Outro.

3.2.1 Tipos clínicos

Na histeria, o sujeito visa prever o desejo do Outro, suscitando-lhe um desejo, do qual tenta e se quer fazer objeto.
Na obsessão, o sujeito instaura um Outro, ao qual se liga enquanto escravo fazendo dessa relação, uma relação única e ignorando que exista um Outro desejante e, até mesmo, que existam outros.

Na fobia, a insuficiência da intervenção paterna, faz com que o sujeito busque na realidade exterior, um evitamento do encontro do objeto angustiante.
Nas perversões, o sujeito tem como estratégia produzir a angústia no Outro, apontar a sua falha, denunciar a sua divisão.
E, finalmente, nas psicoses, o delírio serve a inventar um Outro de desejo, que lhe possibilite um lugar de inscrição.

Conclusão

Em primeiro lugar a angústia sob esses pontos de vista, é um elemento própria da constituição do sujeito do Inconsciente. Isso basta para dizer que ela não é um obstáculo para análise, pois idealizar um tratamento analítico sem angústia seria tão difícil quanto sem o analisando.
Esquematicamente, poderíamos pensar três momentos do aparecimento da angústia numa análise; antes do tratamento, durante e ao final.

a) Antes

Habitualmente, é por um acontecimento qualquer na vida de um sujeito que lhe desestabiliza, que lhe coloca uma interrogação, que lhe obriga interpretações costumeiramente decepcionantes, ou, dito em termos mais precisos, um acontecimento que tem a propriedade de tocar o Real, ponto de angústia, é que se procura uma análise.

b) Durante

No decorrer de um tratamento, como por exemplo, no caso de um obsessivo, é a angústia um acontecimento bastante favorável ao questionamento do imperativo superegóico do gozo, que massacra o sujeito, possibilitando ao desprendimento do desejo, resolvedor dessa situação.

c) Ao final

Ao final de uma análise a angústia pode surgir em sua forma mais direta, naquilo que Freud chamou o rochedo da castração e que Lacan, por sua vez, denominou como o passe, travessia.

O atravessamento da ligação do sujeito com seu objeto, o toque no ser, o toque, sempre angustiante.

A perda consequente de toda certeza, própria e do Outro, a decepção de que exista a garantia de reconhecimento absoluto, faz, no fim de uma análise, transformação da angústia paralisante, que só se sustenta no totalitário, no pleno, no sem falha e no sem falta. A relativização desse absoluto, traz consequências de um talvez, consequências da ocasião.

Transforma-se, assim, uma estratégia alienante, numa possibilidade de um trabalho, num ir mais além, mesmo que não se saiba aonde.

by: Jorge Forbes

Palestra apresentada ao ‘Simpósio sobre Ansiedade e Benzodiazepínicos’, promovido pelo Departamento de Neuropsiquiatria da Faculdade de Medicina da universidade de São Paulo, em 12 de abril de 1985.


terça-feira, maio 22, 2012

Luto e perplexidade


Aprendemos que tudo tem razão de ser - e aí vem a tragédia do menino de 10 anos que se matou

Luto e perplexidade

Artigo publicado no Estadão – Caderno Aliás - 25 de setembro de 2011
JORGE FORBES




Escrevo o que ninguém quer ler nem ouvir falar: não existe nenhuma fórmula, nenhum procedimento ou protocolo que tenha capacidade de prever uma atrocidade como a de um menino de 10 anos roubar o revólver do pai; esconder a arma, quando perguntado pelo próprio pai; atirar na sua professora; e em seguida se matar.

É esperado que sejamos nestes próximos dias bombardeados com detalhes da vida desse menino: suas leituras, amizades, humores, ascendência familiar, credos, hábitos, notas escolares, desenhos, bilhetes eletrônicos, tiques, sexualidade, estranhezas. Tudo é bom, tudo serve, para a tentativa desesperada de estabelecer um nexo causal. Somos filhos do Iluminismo. Aprendemos desde pequenos que tudo tem uma razão de ser e, se não compreendemos, a falha não está no saber - pois o saber é sem falha -, mas no raciocínio imperfeito.

A sociedade ainda não suporta constatar que a pós-modernidade nos fez órfãos do Iluminismo porque isso é desesperador. E agora que a festa do "tudo é explicável" acabou? Como suportar não saber se aquele garoto um pouco arredio não é o próximo assassino de si mesmo ou de alguém? Se insistirmos em causalidades forçadas, vamos criar uma sociedade irrespirável. Afinal, qual de nós não tem a sua esquisitice? Já se fala que a professora teria notado um comportamento diferente no menino e não lhe teriam dado atenção. Já se fala que o pai deveria ter prevenido a direção da escola sobre o desaparecimento da arma. Como é fácil ser profeta do passado! Duro é constatar que estamos em uma época na qual esses crimes inusitados são um dos tipos de manifestação.

Há poucos dias, a presidente, em nosso nome, disse na abertura da Assembleia-Geral da ONU: "O desafio colocado pela crise é substituir teorias defasadas, de um mundo velho, por novas formulações para um mundo novo". Está correto e é válido para além da crise econômica: vivemos nos amparando nas teorias defasadas de um mundo velho, sim. Quem duvida que uma das interpretações que mais vai se fazer é a de que o menino se identificou com o pai policial? Ou que, ao contrário, para provocar o pai, teve um comportamento de bandido? Ou, pior, que por ódio ao pai se matou com seu instrumento?

Estamos desbussolados. Os sintomas de nossa inaptidão para viver neste novo mundo estão sendo tragicamente anunciados. Ontem, foi o moço da Noruega; hoje, o garoto brasileiro. Tão distantes e tão perto. Quando tudo parecia tão bem, tão perfeito: bom filho, boas notas, ia à igreja e até tocava bateria... ocorre o acidente, o fato inusitado, que nos deixa pasmados, ignorantes de nossa condição humana.

Urge, assembleia-geral de uma nova época, urge que abandonemos nosso conforto iluminista do tudo tem sua razão: essa luz ficou fraca, está nos deixando na sombra e liberando monstruosidades. A psicanálise tem novas contribuições para o momento atual. Não se trata mais do Freud explica, mas do Freud implica. O Freud explica é do tempo da revelação do saber escondido, fora da consciência, no inconsciente. O Freud implica é de agora, da constatação de que, de uma sociedade da razão, fomos a um novo tipo de laço social: o ressoar, "tá ligado?". Essa é a pergunta dessa geração que está aí, a geração mutante. Seus membros não perguntam se o que ele disse você entendeu, mas se lhe tocou, se você pode fazer alguma coisa com o que ele falou, não a mesma coisa feita por ele, mas algo marcado, atravessado por sua singularidade, necessariamente diferente da dele, daí o "tá ligado?".

O que se teme é que então estaríamos caminhando para uma esbórnia geral de comportamentos individualistas. Falsa conclusão de nossas mentes viciadas na segurança da razão padronizada. A sociedade do ressoar exige um duplo movimento de cada um: invenção e responsabilidade. Invenção, pois quando falta o caminho pré-estabelecido há que se inventar um. E responsabilidade, pois se deve inscrever no mundo a sua invenção, motivo pelo qual o medo do individualismo não se sustenta.

Para isso, uma guinada de 180 graus nos é exigida. A educação, sem dúvida, é um dos principais setores dessa mudança que já tarda. Em vez de medicalizar o aluno supostamente inadequado à escola, como tem sido feito nos últimos anos, amparados abusivamente no diagnóstico de transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH), melhor questionar a escola; não essa ou aquela, mas a instituição escolar, se ela está preparada para uma sociedade viral, das redes horizontais, da criatividade responsável. Na medida em que pudermos habitar esse novo mundo com uma nova bússola, na medida em que ampliarmos a legitimação das singularidades, seremos menos surpreendidos. Estamos atrasados.

domingo, janeiro 04, 2009

A reclamação é coletiva




Uma pessoa esta sempre acompanhada ante o que não gosta, pois a reclamação é coletiva, daí os sindicatos. A opção desejante, por sua vez, é solitária; ela não se explica, se faz.

Há um pavor oriundo da dificuldade de cada qual sustentar seu desejo, pois, sendo este singular, não-compartilhável, surge com facilidade a fantasia de exclusão, de ser abandonado pelo grupo, tribo ou bando a que pertence. "Vão me matar" é um fantasma paradigmático.


Jorge Forbes - Você quer o que deseja?

OS NÃO-TOLOS ERRAM / OS NOMES DO PAI

Nesta sexta-feira, Gustavo Capobianco Volaco abre espaço para uma conversa sobre o seu processo de tradução do Seminário de Jacques Lac...