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quarta-feira, junho 13, 2012

Entrevista com o filósofo francês Luc Ferry, por Andrei Netto.



ESP: O senhor refletia sobre o livro há muito tempo, até 40 anos. Por que se trata de uma obra tão pessoal e importante?
LF: Eu me sinto como se estivéssemos entre amigos, ao fogo de uma lareira na serra. Sim, este livro é de longe o mais importante a meu ver entre todos os que escrevi. É o primeiro que no qual eu emprego minha própria filosofia, minha análise do tempo presente, que me parece caracterizado por três grandes traços: a desconstrução dos valores tradicionais, a emergência da globalização liberal e o nascimento do casamento por amor e da família moderna. Estes três traços são ligados entre eles, e formam uma paisagem coerente. É nesta paisagem que nossas vidas vão tomar sentido. Sim, também é verdade que se trata de um livro de toda uma vida.
ESP: Sobre A Revolução do Amor, comecemos por sua ideia de base: algo de revolucionário teria acontecido há alguns séculos: a invenção do casamento por amor na Europa. Qual é a amplitude desta revolução?
JF: É imensa! O que eu chamo de "revolução do amor" é o nascimento da família moderna, ou seja, a passagem do casamento arranjado pelos pais e pelos vilarejos, ao casamento escolhido livremente pelos jovens imbuídos de amor. Esta revolução na vida privada chacoalhou nossas existências. Ela aportou um novo princípio de sentido, que exige uma nova filosofia. Mas, ao contrário do que poderíamos crer, ela não chacoalha apenas nossas existências privadas, mas toda a nossa relação com a coletividade. É o que eu chamo de "segundo humanismo". O primeiro foi o humanismo da lei e da razão. Era o do Iluminismo e dos direitos humanos, dos Republicanos franceses e de Kant. O segundo humanismo é um humanismo da fraternidade e da simpatia. Minha convicção é que existe desde então uma única visão do mundo movida por este sopro de uma utopia possível. Porque o ideal que ela visa a realizar não é o dos nacionalismos, nem as ideias revolucionárias. Não se trata mais de organizar os grandes massacres em nome de princípios mortíferos que se acreditava serem exteriores e superiores à humanidade, mas de preparar o futuro para os que nós amamos mais, o das gerações futuras.
ESP: Essa revolução produziu efeitos sobre a arte e a moral, mas há efeitos ainda em progresso, como a evolução da condição da mulher e dos homossexuais, por exemplo. Quais são os indícios desta revolução hoje?
JF: Antes de mais nada, é preciso dizer que esta revolução do casamento de amor, escolhido e não imposto, começa na Europa e depois se estende a todo o mundo cultural ocidental. Isso quer dizer que no resto do mundo o casamento tradicional, imposto pelos pais e pelos vilarejos continua a ser a regra. No Ocidente, nós temos vivido desde o século 20 uma formidável desconstrução dos valores tradicionais. Ela às vezes teve efeitos negativos, em especial na escola, mas também formidavelmente positivos, em especial para os homossexuais e para as mulheres. Observe que em um país como a Suíça, no coração da Europa, o último cantão a conceder o direito de voto às mulheres o fez, pense bem, em 29 de abril de 1991! Isso quer dizer que, até então, as mulheres ainda eram vistas como crianças. Na França, foi um pouco mais cedo, mas, enfim, foi preciso esperar o fim da Segunda Guerra Mundial para que as mulheres tivessem o direito de voto. Quanto aos homossexuais, lembre-se o que a Organização Mundial da Saúde (OMS) definia a homossexualidade como uma doença até 1990! Sim, nosso mundo ocidental mudou mais nos 50 anos da segunda metade do século 20 do que nos 500 anos anteriores! E eu não falo nem mesmo das revoluções científicas, da genética, do digital, etc.
ESP: Falemos sobre a destruição dos valores tradicionais. No seu entender, parte desse processo vem do fato de que as ideias não merecem mais sacrifício, só o humano. É isso o retorno da "sacralização", do reencantamento do mundo?
JF: Como a "consciência infeliz" da qual falava Hegel, nós temos sempre a tendência de nos dar conta na história do que se destrói e morre, quase nunca do que surge, toma forma e vida. Logo, temos uma propensão ao pessimismo, propensão tão forte que dá asas ao pensamento negativo. Ao contrário do otimismo, sempre um pouco simplório, ele confere à primeira vista uma presunção de inteligência. Às vésperas do século 21, é verdade, a maior parte dos valores tradicionais, em especial a nação de direito e a revolução de esquerda, desmoronaram, ao menos na Europa. Logo, devemos constatar, pelo menos na Europa, que os motivos tradicionais do sacrifício coletivo, violento e maciço, foram liquidados. Quem desejaria nos dias de hoje, ao menos nos países que vivem da cultura europeia, morrer por Deus, pela pátria ou pela revolução? Não muita gente, ou pelo menos mil vezes menos do que no início do último século. Mas, ao encontro da morosidade ambiente, eu defendo que esta é uma grande notícia, não do século, mas do milênio. Champanhe! No que diz respeito às guerras nacionalistas, como eu poderia lamentar, eu que estudei na Alemanha, o tempo em que meu pai atacava meus professores (e reciprocamente)? Quanto às estupidezes mortíferas do maoismo, com suas dezenas de milhões de mortos em condições atrozes, quem, fora alguns intelectuais senis corroídos pelo desejo de se pretender interessante, poderia não se felicitar da sua liquidação?
ESP: Isso não quer dizer que nós vivemos a era do desencantamento do mundo? Há mesmo lugar ainda, hoje, para alguma espiritualidade?

JF:
Não creio nisso que vivamos uma era do desencantamento do mundo. Aí está até mesmo a ilusão arquetipal desta consciência infeliz que adora tanto não adorar. O que nós vivemos não é de forma alguma a liquidação do sagrado, o eclipse dos valores (da espiritualidade), mas sua encarnação em nova face, a da humanidade. Questione-se honestamente: por quem ou pelo que você estaria pronto a arriscar sua vida? Em outros termos, o que você considera sagrado no sentido próprio, como digno de sacrifício? A resposta para a imensa maior parte seria: é o homem que é sagrado, o próximo, mas também o seu contrário, o seguinte. Em todo caso, não são as abstrações vazias da religião e da política tradicionais. Vivemos o nascimento de uma nova face do humanismo, que não é mais aquele de Voltaire e Kant, dos direitos do homem e da razão, desses iluminismos que portaram, é verdade, um vasto projeto de emancipação, mas que conduziram também ao imperialismo e à colonização. Trata-se, ao contrário, de um humanismo pós-colonial e pós-metafísico, da transcendência do outro e do amor. Precisaremos, então, dessas novas categorias filosóficas (uma espiritualidade sem Deus) para refletir sobre suas armadilhas e perspectivas.
ESP: O senhor diz que a globalização tem um papel na desconstrução dos valores. Estamos na era do consumo de massa e da economia global, o que gera um impacto social e altera nossa maneira de ver o mundo, certo?
JF: Sim, é isso. O verdadeiro motor da desconstrução dos valores tradicionais foi o capitalismo moderno. Marx já tinha compreendido isso de forma genial quando dizia que o capitalismo era a revolução permanente. Por quê? Porque a competição, sobretudo quando é mundial, leva inevitavelmente à lógica da inovação permanente, da inovação pela inovação. Uma empresa que não inova o tempo todo está fadada a morrer. Mas há mais do que isso. Os que desconstruíram os valores tradicionais no século 20 eram com frequência de esquerda, mais ou menos boêmios ou anarquistas, como em Maio de 68. A verdade do século é que esta grande desconstrução serviu aos interesses do capitalismo.
ESP: Fale mais sobre isso.
JF: Foi necessário que os valores e as autoridades tradicionais fossem desconstruídas pelos boêmios, pelos jovens de cabelos longos, libertários, anarquistas, republicanos e antiburgueses para que o capitalismo, ele também moderno e fadado à inovação pela inovação, pudesse fazer entrar nossos filhos na era do grande consumo de massa sem o qual seu enfraquecimento e seu futuro globalizado simplesmente não teriam sido possíveis. Eis o que me parece uma das verdades mais profundas do século passado, verdade que vai crescer no século que está aí. Se nossos filhos tivessem os mesmos valores que nossos avós, eles não comprariam um telefone celular por ano, ou um MP3, ou um novo videogame. Do contrário, se nossos antepassados pudessem ver um grande centro comercial ao estilo americano, eles acharia provavelmente que estes novos templos edificados ao deus do consumo escoam besteiras e obscenidades. Eles talvez pensassem que estas bugigangas absurdas que transbordam das vitrines nós distanciam dos verdadeiros valores, como os deveres em relação ao próximo, mas também em relação a si mesmo. Logo, foi necessário que as visões tradicionais do mundo fossem desconstruídas totalmente para que, enfim livre dos velhos freios, nós pudéssemos nos consagrar ao consumo sem complexos, ao menos no limite de nosso poder de compra.
ESP: Sua ideia de reencantamento é um paradoxo à de Max Weber, que falava no início do século 20 do desencantamento do mundo. Minha questão é: o reencantamento é só positivo, ou também tem sua "parte do diabo"?
JF: Você tem razão, há uma verdadeira parte do diabo. Não sou ingênuo. Quando eu falo da revolução do casamento escolhido, do casamento do amor em nossas vidas, não quero dizer que nós entramos no mundo ideal, no qual todo mundo se ama, ou todo mundo é bonito e gentil. Antes de mais nada, porque o reverso da medalha do amor, é o ódio. Não há rosas sem espinhos, nem amor sem ódio. Além disso, o amor dos seus, dos próximos, pode levar a um egoísmo louco. Nós estaríamos prontos a tudo pelo sucesso de nossos filhos, inclusive a sacrificar o dos outros. Tudo isso é verdade. Mas também é verdade que o amor que dá sentido a nossas vidas não é mais o amor pela nação, nem pela revolução. A questão que as gerações futuras vão definir, como os ecologistas já compreenderam, é cada vez mais crucial: que mundo vamos deixar a nossos filhos? Eis essa nova e grande questão política não diz respeito só à ecologia, mas à dívida pública, ao futuro da proteção social na época da globalização, à regulação financeira ou ao choque de civilizações. Não é porque o amor dá sentido a nossas vidas que os problemas desaparecem. Mas nós podemos observá-los em uma perspectiva de sentido novo, em relação às gerações futuras.
ESP: Quando falamos em um mundo no qual o casamento de amor está no centro de uma revolução, como devemos ver as civilizações em que o casamento ainda é determinado por interesses financeiros, políticos ou diplomáticos?
JF: Sem defender o eurocentrismo, é preciso reconhecer que nosso velho continente inventou algo de único e de precioso, de singular e de grandioso: uma cultura da autonomia dos indivíduos como nenhuma outra, uma exigência de pensar por si mesmo, de sair dessa "menoridade" infantil - como dizia Kant sobre o Iluminismo - mantida por todas as civilizações religiosas, todas as teocracias e todos os regimes autoritários. Este movimento caminha em direção à autonomia, como aconteceu primeiro com a arte, desde o século 17, quando ela deixou de ser exclusivamente religiosa, depois se infiltrou em toda a civilização europeia, da filosofia, racionalista, à política, laica e democrática, passando pela ciência, hostil aos dogmatismos clericais, e pela vida privada, quando o casamento decidido pelo amor substitui o casamento racional imposto pelos pais e pelos vilarejos. Este é o gênio da Europa que acabaria por si mesmo por abolir a escravidão e a colonização, por se desfazer dos totalitarismos e, enfim, reconhecer a alteridade. Nada, nesta valorização da civilização europeia, implica o menor racismo, a menor tendência neocolonial. Outras civilizações são igualmente grandiosas, mas sim, é inegável, a civilização europeia inventou a autonomia política, como a democracia, assim como a autonomia privada, como o casamento por amor e a família escolhida. E, francamente, como não se apegar a isso?
ESP: O senhor diz que o sagrado reencarna na cultura ocidental. Mas e as revoluções no mundo árabe, marcada por princípios modernos, como a liberdade e a democracia? Devemos esperar um dia uma nova onda de revoluções? A dinâmica do Ocidente é válida para todo o mundo?
JF: Sim, eu estou convencido disso. As revoluções árabes, embora corram o risco de serem apropriadas pelo islamismo radical, são apesar de tudo uma novidade magnífica. Observe como o mundo evoluiu nos últimos 50 anos. Quando eu era criança, a velha Europa estava tomada por ditaduras. Franco ainda era vivo, a revolução dos cravos em Portugal não tinha acontecido e a Grécia ainda sofria o regime fascista dos coronéis! A Rússia e os países do leste viviam na pior tirania, e a América Latina estava povoada de ditaduras. Tudo isso mudou para melhor, e apesar do delírio pessimista que reina hoje, esta é a verdade. Mesmo a China é cem vezes mais democrática do que no tempo de Mao e da Revolução Cultural que deixou 70 milhões de mortos em circunstâncias atrozes. O paradoxo é: nós vamos viver um declínio econômico e social na Europa, mas ao mesmo tempo uma formidável vitória dos valores da democracia europeia. Estou certo que, como aconteceu aqui, um "segundo humanismo" vai se seguir ao primeiro.
FONTE: JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO – 08/06/2012

segunda-feira, outubro 31, 2011

Sobre o Existencialismo: fragmentos


"A existência precede a essência" ou os cinco conceitos- chaves do existencialismo sartriano: a má-fé, a reificação, o ser e o nada, a náusea.

Comecemos pelo começo; o que é o existencialismo? Simplesmente, segundo Sartre, a filosofia que assume como própria a convicção de que "a existência precede a essência". Essa formula pode parecer abrupta e pouco eloquente à primeira vista. No entanto, ela é muito simples e mais profunda do que parece. Significa em primeiro lugar o seguinte: em toda a filosofia clássica de inspiração platônica e, talvez mais ainda, na religião cristã, partiu-se da ideia de que para o ser humano "a essência precedia a existência". Claramente falando: primeiro Deus concebe o homem e a mulher e depois vem, num segundo tempo, a criação que os faz existir. Haveria em certo sentido um "Deus artesão" que, como um operário que tem de fabricar um objeto, faria primeiro um projeto e depois o realizaria. Em outras palavras ainda, nessa perspectiva, Deus primeiro faz funcionar seu entendimento e somente depois, num segundo momento, sua vontade.
Para tornar suas ideias totalmente claras, Sartre, num pequeno texto que aconselho todos os meus alunos a ler, O existencialismo é um humanismo, toma o exemplo de um operário que tivesse de fabricar um corta-papel. Eis como formula as coisas:
Consideremos um objeto fabricado, como, por exemplo, um livro ou um corta-papel: tal objeto foi fabricado por um artífice que se inspirou num conceito; ele se reportou ao conceito do corta-papel e igualmente a uma técnica prévia de produção que faz parte do conceito, e que e no fundo uma receita. Assim, o corta-papel é ao mesmo tempo um objeto que se produz de uma certa maneira e que, por outro lado, tem uma utilidade definida, e não é possível imaginar um homem que produzisse um corta-papel sem saber para que há de servir tal objeto. Diremos, pois, que, para o corta-papel, a essência - quer dizer, o conjunto de receitas e de características que possibilitam produzi-lo e de defini-lo - precede a existência... Quando concebemos um Deus criador, identificamos esse Deus quase sempre com um artífice superior; e qualquer que seja a doutrina que consideremos, trate-se de uma doutrina como a de Descartes ou a de Leibniz, admitimos sempre que a vontade segue mais ou menos a inteligência ou pelos menos a acompanha, e que Deus, quando cria, sabe perfeitamente o que cria. Assim o conceito de homem, no espírito de Deus, é assimilável ao conceito de um corta-papel no espírito do industrial... O existencialismo ateu, que eu represento... declara que, se Deus não existe, há pelo menos um ser no qual a existência precede a essência, um ser que existe antes de poder ser definido por qualquer conceito, e que este ser é o homem...
Vemos, portanto, que Sartre, sem se dar conta (acreditando inclusive ser totalmente original), coincide quase palavra por palavra com a noção de liberdade humana elaborada por Rousseau e Kant. Para ele assim como para eles, o homem é livre no sentido que escapa a todas as categorias "essenciais", a todas as definições, mas também a todos os "programas" nos quais gostariam de encerrá-lo.
Eis por que, aos olhos de Sartre, o principal adversário do existencialismo é a religião, e particularmente a teologia cristã. De fato, segundo a visão teológica do mundo, a essência (o plano) vem antes da existência (sua realização), de tal sorte que se deve supor uma finalidade prévia do ser criado da qual se poderia deduzir uma reflexão sobre sua destinação - no que concerne ao homem, uma moral. Assim como o corta-papel é "feito para" abrir livros ou o relógio para dar as horas, deve-se imaginar que também o ser humano, na perspectiva de ser "fabricado" por Deus, deva responder a um objetivo e cumprir uma certa missão (por exemplo, servir a ele, obedecer a seus mandamentos etc.)
É esse esquema clássico, com todas as suas implicações éticas, que o existencialismo sartriano propõe inverter: se o ser humano não é estritamente falando uma criatura, nenhum "plano", nenhuma “essência” precede sua existência. Por conseguinte, nenhuma finalidade particular esta vinculada a seu ser - como ocorre, em contrapartida, no caso de todos os objetos fabricados. O ser humano é nesse sentido o único ser plenamente livre, o único que escapa a priori a toda definição prévia. Compete a ele, não seguir mandamentos divinos que estariam vinculados a sua condição de criatura, mas, ao contrário, “inventar” o Bem e o Mal.
Dessa simples abordagem do existencialismo já se deduz uma tese crucial: para Sartre, assim como para Rousseau e Kant, não existe “natureza humana” intangível, não existe destinação do homem inscrita a priori na sua essência.
Deve-se prestar bastante atenção ao ler Sartre: por não ser um bom historiador da filosofia, ele ignora seus predecessores e não para de afirmar, equivocadamente, que o existencialismo marca uma ruptura total com as filosofias do século XVIII. Há nisso um engano, o que não tem importância no que diz respeito ao fundo, mas é às vezes constrangedor no plano histórico. Na verdade, como Rousseau e Kant, Sartre acha que o homem é o ser que por assim dizer faz “explodir” todas as categorias, todas as definições nas quais querem aprisioná-lo – no que, mais uma vez, reside sua liberdade. Por isso também, assim como eles, acaba desmontando os pressupostos do racismo e do sexismo. De fato, em que mais eles consistem senão na ideia de que existe uma essência da mulher, do árabe, do negro, do amarelo ou do judeu que precederia a existência deles e da qual poderiam ser deduzidas características necessárias e comuns à “espécies”? Logo, faria parte da “natureza” “da” mulher (como se houvesse apenas uma!) ter filhos, não participar da vida pública e ficar fechada na vida doméstica, ser doce e sensível, intuitiva mais que intelectual etc, assim como, segundo os clichês habituais do racismo, faria parte da natureza “do” negro ter o ritmo no sangue e ser infantil (“o africano é brincalhão”), “do” árabe ser hábil, “do” judeu ser inteligente, gostar de dinheiro e outras baboseiras desse tipo.
Se não existe nenhuma “natureza” do ser humano em geral, tampouco existe natureza de determinado sexo ou “raça”. Foi sobre essa convicção que o existencialismo teve por vocação fundar um feminismo e um anti-racismo de tipo universalista: o que dá dignidade ao ser humano em geral é o fato de ser, diferentemente dos objetos ou dos animais, um ser fundamentalmente livre, transcendendo todas as etiquetas que pretendam colar nele. O que constitui seu valor não é sua pertença a uma determinada comunidade sexual, étnica, nacional, linguística ou cultural, mas, ao contrário, o fato de ser capaz de se elevar acima de todos esses enraizamentos possíveis para participar da humanidade em geral.
Pelas mesmas razões, nem a história nem a natureza poderiam ser tidas por “códigos” determinantes. É verdade que o humano existe em situação: tem um sexo, uma nação, uma família etc. Em suma, tem uma natureza e uma história. Ocorre que, justamente ao contrário do que diz o materialismo, ele não é essa natureza e essa história e nem poderia ser reduzido a elas. Ele as tem e pode pô-las em perspectiva, ou até, em certa medida, abstrair-se delas para lançar-lhes um olhar crítico. Não é por ser mulher que se é menos Homem...
Luc Ferry, in: Vencer os Medos
Tradução de Claudia Berliner
Editora: WMF Martins Fontes
Parte III – Para levar para a ilha deserta...
                                       

OS NÃO-TOLOS ERRAM / OS NOMES DO PAI

Nesta sexta-feira, Gustavo Capobianco Volaco abre espaço para uma conversa sobre o seu processo de tradução do Seminário de Jacques Lac...