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quinta-feira, maio 12, 2016

O Contemporâneo: De Agabem a Psicanálise


Sexual: o contemporâneo da psicanálise Sexual:
Nina Virgínia de Araújo Leite
Paulo Sérgio de Souza Jr.
Universidade Estadual de Campinas, Unicamp Campinas, SP, Brasil

Caso se esteja de acordo com a leitura de Roland Barthes a respeito da posição nietzschiana ao longo das Unzeitgemässe Betrachtungen [Considerações extemporâneas, 1873-76], o contemporâneo se trata daquilo que é da ordem do intempestivo. Será, aliás, partindo dessa observação relevante que Giorgio Agamben, no ensaio intitulado “O que é o contemporâneo?”, arrolará formulações sobre a contemporaneidade em sua radical diferença com relação ao que seria do foro da atualidade, pressupondo que a primeira se situaria na pendência de um descompasso que a segunda, de certo modo, se empenharia em mitigar.

Esse descompasso – marca da impossibilidade de se estar em dia, de fato, com aquilo que terá sido o contemporâneo – parece caracterizá-lo de modo determinante, uma vez que aí estaria em cena “uma singular relação com o próprio tempo, que adere a este e, ao mesmo tempo, dele toma distâncias”; e isso, por sua vez, faria com que ser contemporâneo equivalesse paradoxalmente a “ser pontual num compromisso ao qual se pode apenas faltar”.* Evocando Nietzsche, então, Agamben pensa aquilo que seria um pertencimento verdadeiro a seu tempo – pertencimento que podemos chamar de atualidade – como um obstáculo, com efeito, à possibilidade de ser contemporâneo, visto que a contemporaneidade implicaria precisamente uma não-coincidência do sujeito com sua época (um décalage hors-ère fundamental, por assim dizer).

Depreendemos ser essa tomada de posição bastante rica em consequências para além das elucubrações filosóficas, minimamente à medida que – se contemporâneo for aquele que for “capaz de escrever mergulhando a pena nas trevas do presente”* – isso coloca em jogo uma dimensão efetivamente prática do ser no mundo, e convoca um deslocamento do sujeito com relação ao tempo ao redor. Assim sendo, é suscitada de imediato a seguinte pergunta: se é o achado do inconsciente por Sigmund Freud que funda a psicanálise, e se, como dizia o próprio Freud,* os processos do sistema inconsciente não têm, justamente, nenhuma relação com o tempo [keine beziehung zur Zeit], haveria algo que, no campo da psicanálise como tal, se poderia chamar de contemporâneo?

O contemporâneo como o enigma do atual

“Contemporâneo é aquele que recebe em pleno rosto o facho de trevas que provém do seu tempo” – Giorgio Agamben, O que é o contemporâneo?- 2008

Para sustentar a proposição central deste artigo – que afirma ser o sexual o contemporâneo (pela concepção de Agamben) na psicanálise e/ou a partir do discurso freudiano –, importa indicar, mesmo que brevemente, a especificidade do termo sexualidade em psicanalise, alinhando-o diretamente com a lógica do funcionamento do inconsciente, porque estruturado como linguagem. Ou seja, propomo-nos, aqui, a indicar em que o sexual deve ser pensado como referido ao campo da linguagem – e, por obedecer à lógica desta, implicar o enigma. O gesto freudiano de descoberta (ou invenção?) do inconsciente não apenas retirou o termo “sexualidade” de suas amarras com a genitalidade, mas o incluiu definitivamente no campo da linguagem. Lacan, já em 1953, advertia os psicanalistas quanto ao estatuto dos fatos colocados em jogo por Freud: trata-se sempre de fatos de linguagem. Ora, por que o sexual está ligado com a linguagem e em que isto contribui para a aproximação com a abordagem do contemporâneo proposta por Agamben?

Nada mais precioso nessa empreitada do que retornar ao texto de 1910 em que Freud* argumenta contra a psicanálise denominada “selvagem”, e aí recolher os fundamentos da aproximação da sexualidade com a linguagem. Lembremos que, muitos anos mais tarde, Lacan afirmará que o inconsciente é efeito de linguagem – e tal afirmação, transformada atualmente em aforismo, não deixou de resultar em um encobrimento da novidade da descoberta freudiana quanto ao sentido do sexual. Daí a necessidade de, mais uma vez, retornarmos ao texto freudiano.

Nesse pequeno texto, Freud analisa a conduta de um médico que, supostamente, estaria utilizando os princípios da técnica psicanalítica ao oferecer conselhos a uma paciente que o procura se queixando de crises de angústia, especialmente intensificadas depois de sua separação do marido. Tal médico teria afirmado que a causa de sua angústia residiria na privação sexual e que, não podendo prescindir do comércio sexual com um homem, a ela restariam apenas três caminhos para recuperar sua saúde: retornar ao marido, arranjar um amante ou satisfazer-se sozinha. Os diversos erros da conduta desse suposto analista servem de motivação para o esclarecimento de questões tanto técnicas quanto teóricas, no que respeita ao entendimento que o médico revela quanto à noção de sexualidade. Segundo Freud, os conselhos que o médico oferece à paciente evidenciam o sentido que ele atribui à “vida sexual”, não sendo outro que o popular, ou seja, na esteira de uma sinonímia entre sexualidade e ato sexual. O conceito do sexual é, em psicanálise, estendido muito além de seu alcance ordinário, afirma Freud. Mas o que significa essa extensão do conceito, uma vez que logo em seguida afirmará que tal gesto de extensão implica “ultrapassar o sentido popular tanto para baixo como para cima” (er geht nach unten wie nach oben über den populären Sinn hinaus)? Do que se trataria em uma extensão para mais e para menos do sentido popular?

Uma interessante observação de Shoshana Felman* permite avançarmos na análise desse aparente paradoxo. A autora parte do reconhecimento de que a relação entre a noção psicanalítica de sexualidade e o ato sexual não pode ser pensada como uma relação de adequação simples e literal, mas, ao invés disso, deve ser pensada como uma relação de inadequação. Isso apontaria para a complicação específica que é inerente à sexualidade humana como tal, conduzindo ao reconhecimento de uma complexa relação entre sexualidade e sentido; “uma relação que não é de simples desvio do sentido literal”, mas conduz a uma problematização da literalidade como tal.

O fato de implicar simultaneamente um aquém e um além do sentido popular imediatamente introduz o traço do contraditório como constitutivo do sentido em jogo no uso do termo “sexualidade” em psicanálise. E isso se evidencia quando Freud avança no texto para identificar um segundo erro cometido pelo suposto psicanalista. É certo, diz Freud, que a psicanálise propõe a ausência de satisfação sexual como a causa das desordens nervosas. Mas ela diz mais do que isso, ao declarar que os sintomas nervosos surgem de um conflito entre duas forças: por um lado, a libido e, de outro, uma rejeição da sexualidade – ou um recalque. Ninguém que desconheça esse fato poderia acreditar que a satisfação sexual em si constituiria um remédio de confiabilidade geral para os sofrimentos dos neuróticos. Portanto, os sintomas neuróticos surgem não de uma falta de satisfação, mas, sim, de um conflito entre duas forças. O recalque é, portanto, constitutivo da sexualidade.

O sentido literal é subvertido e negado pelo segundo fator apontado (o conflito). O que nos leva a admitir que o sentido do sexual revela que este implica sua própria obstrução, e que a noção de sexualidade em psicanálise só pode ser pensada na vigência de dois fatores dinamicamente contraditórios – com isso, o sentido do sexual só pode ser ambíguo. Na feliz formulação de Shoshana Felman,* a sexualidade em psicanálise é retórica, uma vez que ela consiste essencialmente da ambiguidade: ela é a coexistência de sentidos dinamicamente antagonistas. A sexualidade na psicanálise coloca em jogo a divisão do sentido, ou melhor, o sentido como divisão, como conflito.
Na esteira da abordagem ao contemporâneo feita por Agamben, talvez se possa pensar que o que comparece como enigma no tempo atual (?) indicia o contemporâneo enquanto obscuridade, uma vez que podemos pensar, com Lacan, o enigma como uma enunciação sem enunciado. Sendo assim, pensar o sentido como conflito equivaleria a circunscrevê-lo como sexual, indicando a direção em que ele sempre fracassa. “Se o discurso analítico indica que esse sentido é sexual, isto só pode ser para dar razão do seu limite”.*

Questão de tempo

 “A estrutura fenomenológica do desejo é justamente valorizada no grau mediato das relações [relations] do porvir” – Jacques Lacan, Psychologie et esthétique, 1935

Lacan, em resenha sobre o livro de Eugène Minkowski (Le temps vecu. Études phenoménologiques et psychopathologiques, 1933), afirmaria que há ali um grande esforço para desespacializar o tempo – esse tempo sempre falseado pela medida, pela cronologia e pelo apaziguamento do sentido enquanto conflituoso –, embora para isso lance mão justamente de uma série de metáforas que colocam em ação a espacialidade que tanto pretende fazer desmoronar, no intuito de impelir a discussão para além do intento quotidiano: quando, sendo a temporalidade uma questão, “nós olhamos instintivamente nosso relógio ou calendário como se em relação ao tempo tudo se reduzisse a assinalar cada evento em um ponto fixo para exprimir em anos, meses e horas a distância que separa uns dos outros”.*

Esse paradoxo, no entanto, encontraria um desfecho no fim do livro – com a intuição mais original da obra, segundo Lacan –: precisamente quando o autor opõe ao “espaço claro, enquadre da objetividade, o espaço negro do tateio, da alucinação e da música”.* Logo, vemo-nos diante de um espaço que descompleta sua própria possibilidade de ser pensado como um todo minutado; um espaço que desconhece onde estão os seus limites, os terrenos que lhe são de direito, bem como as fronteiras entre os elementos que – sob a sua jurisdição aberta – interagem; espaço que, não por acaso, se confunde com a dimensão do corpo extático:

 (...) nem todos os pensamentos estão alojados na cabeça: alguns jazem, ativos, ao redor da boca, modulando o modo de comer, o timbre da voz, ou na superfície erétil dos seios; outros permanecem colados aos olhos; outros, aos ouvidos; outros, na borda do ânus; outros também marcam o sexo que, como todo mundo sabe, não pede opinião à cabeça, e até só faz, eventualmente, o que lhe dá na sua cabeça – jogando, inclusive, contra a cabeça.*

Acrescentaríamos, aí, entre a alucinação e a música, a poesia: afinal, se “contemporâneo é aquele que mantém fixo o olhar no seu tempo, para nele perceber não as luzes, mas o escuro”,* não seria por menos que o próprio Agamben faria da figura do poeta o representante do contemporâneo como tal, capaz de ver na língua suas sombras e fazer com elas algo que transgride (ao passo que também faz com que valham) as regras luminosas da gramática. Em suma, é o fato de que escutar-se/ler-se como um outro, é o fato de dar ouvidos ao que há do outro no código – e em si mesmo, sem negligenciar o que atravessa o falante em seu dizer (um dizer que o excede) – que constitui uma possibilidade de pensar aquilo que é invariavelmente contemporâneo ao sujeito. Isto é, aquilo que nele incide e insiste, a despeito da cronologia, sempre em dissonância com o acorde da atualidade: algo que é tão arcaico quanto futuro, visto que “a contemporaneidade se escreve no presente assinalando-o antes de tudo como arcaico, e somente quem percebe no mais moderno e recente os índices e as assinaturas do arcaico pode dele ser contemporâneo”.*

Digamos, pois, que uma problematização da definição de contemporâneo para além da ideia de atualidade é aquilo que permite depreender em que medida se poderia pensar a contemporaneidade no âmbito do inconsciente, a saber, algo na pendência de uma temporalidade que escapa por entre os dedos da cronologia e que, antes mesmo, faz desse entremeio sua morada – essa khôra [χώρα] de que falava Platão no Timeu [52b]: uma cisão radical no nível do próprio sentido; a indeterminação como tal em forma de lugar-não-lugar. E o escape dessa temporalidade se marca fundamentalmente por um comparecimento extemporâneo, por assim dizer, da origem – de modo que ela se eclipsa em seu pretenso ponto de partida e se dá a ver no convívio das questões mais atuais para o sujeito, assim “como o embrião continua a agir nos tecidos do organismo maduro e a criança na vida psíquica do adulto”.* Não seria por menos, aliás, que Platão falaria da khôra como sendo uma espacialidade que se oferece como que vista em sonho [νειροπολομεν βλποντες, oneiropoloumen blepontes]; e tampouco seria por menos que, no que se refere ao sonho, Freud apontaria como sendo a sua temporalidade precisamente aquela trazida pelo verbo no presente do indicativo (Präsens).

O sonho, portanto, como realização de desejo* – infantil, diga-se de passagem, o que mostra a infância originária inarredá- vel ao sujeito e ao seu tempo coevo –, tem, em sua dimensão presente, algo de sua inescapabilidade, ao mesmo tempo que é algo inapreensível pelo tempo da vigília: o narrar do sonho não se dá sem deixar restos, da mesma forma que aquilo que resta, enigmático (o umbigo do sonho, Nabel des Traums, de que falava Freud), é justamente o vazio agudo em torno do qual o texto onírico se estrutura.

Não é por menos que Freud diz que o inconsciente é atemporal, no sentido em que não tem nenhuma relação com o tempo [keine Beziehung zur Zeit]. O que está em jogo nessa operação entre inconsciente e tempo é, para retomarmos os termos de Agamben* sobre o contemporâneo, “uma singular relação”: na esteira de Lacan, chamemo-la rapport [Verhältnis], isto é, uma relação pautada pela escrita (uma relação que se escreve) – diferente, portanto, da relação enquanto relation [Beziehung]. Ora, entre tempo e inconsciente, não há, portanto, relação, mas isso não no sentido em que se fala que não há relação sexual (aforismo lacaniano no qual, segundo o próprio autor, deve-se ler Verhältnis, e não Beziehung, uma vez que o que não há é a escrita do ato sexual, rapport, e na medida em que sua formalização é pura impossibilidade lógica). Na instância do desejo e das letras que escrevem suas articulações, “um homem inteligente pode odiar o seu tempo, mas sabe, em todo caso, que lhe pertence irrevogavelmente, sabe que não pode fugir ao seu tempo”* do mesmo modo que não pode fugir ao seu inconsciente: isto é, por mais advertido que o sujeito esteja quanto ao fato de que, para ele, há desejo, este lhe é incontornável. Dito ainda de outro modo: é inescapável o fato de que nele há algo que se impõe, que age a despeito da sua vontade, e que marca – para além da divisão entre um corpo e outro –, a própria divisão entre aquele que, ao falar de si, é de um outro que estará falando.

Se apenas se pode dizer contemporâneo “quem não se deixa cegar pelas luzes do século e consegue entrever nessas a parte da sombra, sua íntima obscuridade”,* é na possibilidade de entrever outra cena – aquela de que nos fala Freud na Traumdeutung* –, ou melhor, é na possibilidade de ser por ela afetado e permitir-se ressoar àquilo que nela acena, que a psicanálise verifica uma autonomia possível do sujeito na ordem do desejo. Dito de outro modo, a cisão do sentido – que dá a ver sua dimensão de conflito e o circunscreve como sexual – abre para a indeterminação, benfazeja aos olhos da psicanálise: indeterminação essa presente desde a anatomia (não vista como destino) até a não-fixidez do objeto de desejo (qualquer um, ainda que ele deixe de ser, a partir daí, um qualquer para determinado sujeito).

Essa cisão é aquilo que, sempre contemporâneo (presente e fugidio qual o sonho), deve ser assumido pelo sujeito para que ele possa prosseguir sem tropeçar em si mesmo, sem ver em seu desejo – que lhe é tão seu, embora por vezes lhe pareça tão estranho – um percalço para seu devir. Digamos, pois, que é na condescendência com isso que, a um só tempo, é originário e atual para o sujeito que estaria a possibilidade de ser original, de fato. A originalidade, portanto, como operação significante do sujeito em relação com a sua história, teria a ver com a aposta de ser contemporâneo a seu tempo e, por assim dizer, com a não renúncia em se reconhecer compatriota de seu próprio desejo. Evidentemente, encarar o intempestivo [intempestif], o extemporâneo [unzeitgemäß], o atemporal [zeitlos] – na pena de Barthes, Nietzsche e Freud, respectivamente – não se dá sem certo trabalho [Arbeit]. Trabalho esse que, para Freud, estava presente no sonho [Traumarbeit] mas também na perlaboração [Durcharbeiten]. Em suma, inseparável daquilo que consiste um trabalho analítico [psychoanalytische Arbeit], afinal: “perceber esse escuro não é uma forma de inércia ou passividade, mas implica uma atividade e uma habilidade particular que [...] equivalem a neutralizar as luzes que provêm da época para descobrir as suas trevas”.*


terça-feira, dezembro 01, 2015

Laços familiares e Contemporaneidade



LAÇOS E DESENLACES NA CONTEMPORANEIDADE

 Joel Birman

Estrutura familiar e formas de subjetivação
A intenção primordial deste ensaio é a de procurar tecer algumas articulações possíveis entre certas características psíquicas, que se evidenciam nas subjetividades contemporâneas, com as transformações apresentadas pela estrutura familiar na atualidade. Se estas transformações foram fundamentais, revirando a família e as formas de conjugalidade de ponta-cabeça, sem dúvida, é preciso que se afirme e se reconheça isso logo de início. Desta maneira, é necessário delinear as mudanças ocorridas no campo da família hoje, sem as quais a leitura das especificidades psíquicas a que me referi acima e que se disseminam na atualidade perde não apenas qualquer densidade, mas também qualquer significação. Este é o meu ponto de partida aqui e a minha aposta metodológica fundamental ao longo deste ensaio.

Não se pode perder de vista, no que concerne a isso, aliás, que certas modalidades de experiência subjetiva, descritas pelo discurso psicanalítico desde o percurso freudiano inaugural, assim como as formas de dor e de sofrimento que lhes são correlatas, têm uma relação crucial com a estrutura moderna da família, como ainda veremos aqui posteriormente. O discurso freudiano reconhece a legitimidade teórica deste enunciado e suas teses são inseparáveis de um certo modelo de família.

Com efeito, no seu ensaio de 1908, intitulado “A moral sexual ‘civilizada’ e a doença nervosa dos tempos modernos”, Freud realizou uma brilhante genealogia da civilidade ocidental e sua inflexão decisiva na modernidade, destacando os efeitos catastróficos produzidos nas individualidades pelo imperativo então instituído da moral monogâmica (Freud, 1908/ 1973a). Com isso, a inserção do erotismo no campo da família monogâmica produziu as ditas “doenças nervosas” na modernidade que, ao lado da agressividade, da violência e da criminalidade que disso também seriam decorrentes, constituíram aquilo que Freud denominou malestar no final dos anos 20 (Freud, 1930). A impossibilidade de circulação e de expressão da sexualidade perverso-polimorfa, no campo desta estrutura de família, teria então provocado múltiplos efeitos nefastos sobre o psiquismo (Freud, 1908/ 1973a).

Portanto, para evidenciar as linhas de força que se esboçam nas ditas transformações da atualidade, é preciso descrever a estrutura familiar na sua complexidade social e histórica, destacando os processos político e econômico que nela se condensam. Para isso, é preciso diferenciar devidamente as estruturas da família na modernidade e na atualidade, para que as linhas de força e as valências presentes na construção subjetiva possam ser bem evidenciadas. Esta leitura contrastiva é fundamental para a genealogia que me proponho a realizar aqui das formas de subjetivação (Foucault, 1976), nestes diferentes contextos e tempos históricos.

Esta modalidade teórica de leitura aqui proposta se justifica em decorrência das mudanças psíquicas evidenciadas na atualidade, pelas quais uma transformação significativa se mostra patente. Esta transformação se inscreve então no registro eminentemente clínico, onde uma mudança no campo da demanda se torna evidente.

Assim, as neuroses clássicas se tornam hoje cada vez mais rarefeitas na demanda de cuidados, à medida que a conflitualidade psíquica se dilui de forma progressiva e significativa. A conflitualidade interior é cada vez mais substituída pelos embates que se estabelecem entre os indivíduos e destes com as instâncias exteriores, no campo social e interpessoal. Em decorrência disso, as performances e a apresentação das imagens de si de cada um se superpõem cada vez mais à interlocução e ao discurso entre os indivíduos. 
Consequentemente, a agressividade e a violência se disseminam como um rastilho explosivo, de maneira que a irritabilidade crescente toma totalmente aqueles de fio a pavio. Por isso mesmo, o corpo se transformou num lugar crucial onde o mal-estar se enuncia como queixa, pelo qual o indivíduo indica de maneira ostensiva que algo não está bem com ele. A sensibilidade excessiva dos indivíduos em relação à auto-imagem é transbordante, de forma que a depressão passa a dominar a cena contemporânea, assumindo o lugar privilegiado que era ocupado anteriormente pela angústia.

Não pretendo retomar esta descrição no presente ensaio, já que foi por mim desenvolvida em outros contextos, a que remeto o leitor (Birman, 2006a; 2006b). Porém, é evidente que esta problemática se relaciona com o que está em pauta no presente ensaio, no qual vou permanecer especificamente na relação entre estas mudanças psíquicas e a nova configuração da ordem familiar.

De qualquer maneira, a pertinência teórica desta problemática para a psicanálise é que as novas modalidades de subjetivação colocam em questão o dispositivo clínico da cura-tipo, configurado pelo discurso freudiano, como se evidencia claramente nas publicações psicanalíticas dos últimos anos. Estaria justamente aqui a atualidade desta problemática eminentemente contemporânea.

II. Da família extensa à família nuclear
A família moderna se iniciou na passagem do século XVIII para o século XIX, identificando-se assim com o incremento do poder social assumido pela burguesia na tradição ocidental. Daí por que essa configuração de família foi denominada seja nuclear seja burguesa, indicando então com isso a sua ruptura com a família pré-moderna.

Quais foram as mudanças cruciais que então ocorreram? A família pré-moderna foi denominada extensa pelos historiadores e cientistas sociais. O que isso quer dizer, afinal de contas? Nada mais nada menos que conviviam no mesmo espaço diferentes gerações, além do casal parental, acompanhado dos filhos e dos agregados. A autoridade do pai era quase absoluta e incontestável, como a figura do rei no espaço público, aliás, condensando então o pater potestas (Ariès & Chartier, 1991) o poder soberano que estava aqui no seu auge (Foucault, 1974). A figura da mulher seria aqui um mero apêndice nesta estrutura, corpo que se presta para a mera reprodução da prole, não obstante certos avanços face à mulher realizados pelo Cristianismo.

Ao longo do século XVIII algumas transformações importantes começaram a se evidenciar, no sentido da constituição de espaços de privacidade no campo da família. Assim, os pais começaram a possuir um espaço privado no interior da casa, no qual a intimidade seria preservada. Os filhos, que viviam anteriormente numa misturada promíscua com os pais, passam a ter também um quarto privado. Na dependência dos recursos econômicos da família, os meninos e as meninas seriam também separados em espaços distintos, para impedir qualquer promiscuidade sexual entre aqueles. As relações sexuais entre os pais, enfim, passaram a acontecer no espaço exclusivo da intimidade do casal, inscrevendo-se então nos registros do secreto e do segredo (Ariès, 1973).

Este conjunto de transformações convergiu para a constituição da família nuclear, na qual se inseriam agora tão somente as figuras dos pais e dos filhos. O poder paterno foi então relativizado, mantendo-se ainda no espaço privado; mas tendo no espaço público os seus signos mais ostensivos. Porém, a figura do pai foi permanentemente evocada e aludida pela figura da mãe, quando a criança ultrapassava os limites esperados e a possibilidade do castigo se fazia presente. Seria o pai então o agente da punição face à falta da criança, evocada que era permanentemente pela mãe nestas situações de transgressão. O discurso freudiano alude a isso o tempo todo, de maneira literal, referindo-se assim ao castigo e à castração.

Neste contexto, a figura da mulher foi reduzida à condição de mãe, de forma que a gestão do espaço privado da família ficou inteira ao seu encargo. Estava aqui incluída não apenas a administração doméstica da casa, mas também a gestão da saúde e da educação das crianças. Vale dizer, a figura da mulher-mãe se incumbia do espaço privado da família e das bordas dessa, nas suas articulações com as instituições médica e pedagógica. É evidente que ocorreu aqui um incremento do poder social da mulher, enquanto mãe, que se contrapunha ao poder paterno. No entanto, a relação entre estes poderes era ainda assimétrica, pendendo para o pólo do pai. De que maneira interpretar estas transformações radicais, num sentido mais abrangente?

III. Biopolítica
Para compreender devidamente essas mudanças é preciso inscrevê-las no campo da biopolítica, que seria constituinte da modernidade ocidental. Pela mediação da biopolítica ocorreu uma medicalização do espaço social, pela qual a medicina passou a regular os corpos no registro individual e coletivo. Pretendia-se assim engendrar a qualidade de vida da população (Foucault, 1976), como signo maior da riqueza das nações.

Foi assim que a população se transformou em objeto e alvo do poder, o que não ocorria anteriormente. O biopoder foi então uma das modalidades específicas assumidas pelo poder neste contexto. Com isso, uma outra forma de história foi também engendrada, denominada biohistória, mediante a qual a produção da espécie passou também a se inscrever nos cálculos do poder. A categoria de corpo-espécie foi então enunciada, com os seus dispositivos e discursos, à medida que a reprodução sexual e a regulação das genealogias passaram a ser também imperativos do poder, em nome sempre da produção de riqueza (Foucault, 1976)

Em decorrência disso, a demografia foi constituída como saber, para regular as variações e cortes da massa populacional. Do nascimento à morte, as diferentes idades da vida passaram a ser objeto da vigilância biopolítica, submetidas que foram à quantificação estatística. Ao lado disso, a epidemiologia foi também constituída como saber, procurando regular quantitativamente a incidência e a prevalência das enfermidades. A polícia médica se constituiu na segunda metade do século XVIII, inicialmente na Alemanha e se disseminando em seguida para os demais países europeus, visando esquadrinhar as cidades e o campo, nas suas relações com a sujeira e a limpeza, isto é, com as diversas fontes de saúde e de doença. A circulação do ar passou a ser objeto de controle médico estrito, de maneira que as edificações passaram a ser programadas de acordo com a produção das impurezas. Enfim, a limpeza urbana foi instituída como projeto do controle das doenças e de prevenção da saúde das populações.

Estamos lançados assim no campo da higiene social, que dominou o processo de medicalização ao longo do século XIX. O espaço social foi então meticulosamente esquadrinhado, de forma que as categorias do normal, do anormal e do patológico passaram a definir as ações normativas dos dispositivos biopolíticos (Foucault, 1963). A periculosidade social se enunciou como uma problemática crucial neste contexto, de maneira que o crime e a loucura foram inscritos neste projeto de normalização infinita do espaço social (Foucault, 1997; 1999). Enfim, as classes perigosas passaram a ser um dos alvos fundamentais da regulação biopolítica. É preciso indicar agora como este dispositivo da biopolítica incidiu sobre a ordem familiar, não apenas marcando os seus personagens e suas práticas, mas também engendrando novas formas de subjetivação.

IV. A biopolítica no discurso freudiano
Nesta perspectiva, se a promoção da saúde era fundamental a mulher-mãe deveria ser saudável, sendo condensada nela a figura da mãe-higiênica. Assim, para constituir uma prole saudável exames pré-nupciais foram progressivamente instituídos, para impedir desta maneira a conjunção de anomalias com o futuro marido. Ao lado disso, as enfermidades genitais femininas deveriam ser devidamente controladas, assim como a gesta- ção e o parto, em nome da qualidade de vida da prole. Daí por que a ginecologia e a obstetrícia tenham sido constituídas neste contexto histórico (Birman, 2001).

No que concerne à figura do homem, como pai que seria de uma prole saudável, necessário foi o controle social sistemático da prostituição pela medicina, para impedir os efeitos nefastos das doenças venéreas. Com efeito, se os homens poderiam dispor de uma ampla e complexa rede de bordéis, ao longo dos séculos XIX e XX, as prostitutas deveriam ser submetidas a exames regulares, para que fosse constatada a inexistência do “mal” venéreo como condição primordial do exercício profissional. Os atestados médicos eram então conferidos a estas mulheres, como garantia de que não transmitiriam doenças aos homens e à sua prole (Birman, 2001).

No que tange à prole, a discriminação das idades da vida foi então delineada. Os níveis de maturidade intelectual e afetivo foram assim esboçados, numa relação entre os potenciais evolutivos e involutivos daqueles momentos da vida. A hierarquia presente no processo escolar e nas técnicas pedagógicas correlatas se inscrevia neste modelo psicobiológico da vida, ao mesmo tempo evolutivo e desenvolvimentista. A infância, a adolescência, a idade adulta e a velhice foram assim destacadas nas suas especificidades biológicas e morais.

Sabe-se que o que denominamos infância e adolescência foi uma invenção marcante do Ocidente, que ocorreu apenas na passagem do século XVIII para o século XIX (Ariès, 2003). Isso porque a produção da qualidade de vida da população dependia agora de um investimento massivo nestas idades da vida, nos registros da saúde e da educação. O Capital econômico e simbólico das nações estaria aqui então condensado. A qualificação vital dos adultos, enfim, estaria na dependência estrita da qualificação dos jovens. Em decorrência disso, a pediatria e a puericultura como especialidades médicas foram constituídas neste contexto histórico. Ao lado disso, a universalização do ensino foi também instituída, para constituir uma população bem-educada, e que não ficasse restrita às elites e à aristocracia como no Antigo Regime. A totalidade da população passou a ir à escola desde então, sendo isso transformado num preceito constitucional das sociedades democrática e republicana na modernidade.

Quais foram os efeitos de subjetivação desta problemática? Antes de mais nada, a figura da mulher-mãe era o objeto de uma experiência sacrificial em nome do investimento dos filhos. A libido feminina se condensava na gestão da ordem familiar, nas conjunções dessa com as instituições médica e escolar. Os filhos consumiam toda a libido feminina, considerando-se aqui inicialmente o engendramento daqueles e os seus cuidados posteriores. A figura do homem-pai ficava a salvo disso, protegido que era pela sua inserção no espaço público. Por isso mesmo, o discurso freudiano pôde enunciar, em “A moral sexual ´civilizada´ e a doença nervosa dos tempos modernos”, que as mulheres pagaram um preço muito maior pelo projeto da civilização do que os homens (Freud, 1908/1973a). É evidente, repito, que Freud se refere aqui à modernidade, bem entendido.

Este sacrifício feminino se evidenciava  na representação das mulheres nos discursos psiquiátrico e psicanalítico. Assim, a figura da mulher era enunciada pela sua condição de ser nervosa inicial mente e de ser histérica em seguida, no discurso psiquiátrico (Foucault, 2003). Com a psicanálise o nervosismo e a histeria foram interpretados numa leitura libidinal, de forma que a insatisfação feminina estava sempre em causa. Esta insatisfação se redobrou numa leitura do masoquismo feminino, marca por excelência que seria da dita experiência sacrificial. Posteriormente, o masoquismo sacrificial assumiu francamente a forma da melancolia, como se pode depreender dos ensaios freudianos sobre a sexualidade feminina (Freud, 1925/1973c; 1931/ 1973d; 1932/1936).

Aonde isso nos conduz, afinal das contas? O masoquismo sacrificial conduziria as mulheres a um total depauperamento de si, no qual aquelas perderiam qualquer viço e brilho. O discurso freudiano nos mostrou isso com precisão pela figura exemplar da mãe de Dora, pois esta não poderia desta maneira escolhê-la como objeto de identificação, tendo que se servir para tal da Sra. K, objeto do desejo do pai de Dora (Freud, 1905/1975). A ruptura entre as figuras da mãe e da mulher, destacada por Freud na leitura do imaginário infantil, seria então a resultante deste processo histórico e biopolítico, no qual a figura da mulher foi reduzida à figura da mãe, com todos os desdobramentos que isso evidentemente implica.

O discurso freudiano retomou esta mesma problemática no ensaio sobre a jovem homossexual, em 1919 (Freud, 1914/ 1933). Decepcionada com a figura da mãe, pelo novo filho, a jovem se distancia daquela e transforma uma outra mulher em objeto de desejo e de identificação (Freud, 1914/1973b), que não era possível com a figura materna. Em 1917, num comentário inserido no ensaio inicial sobre Dora, Freud nos disse que o laço homossexual das jovens mulheres se inscrevia nesta mesma problemática (Freud, 1914/1973b), qual seja, pelo laço com uma outra mulher a jovem buscava uma identificação com o feminino, que não se encontrava na figura da mãe em função de sua impossibilidade. Vale dizer, as jovens se voltariam e se dirigiam para outras mulheres para descobrir o que é ser uma mulher, uma vez que, com a figura da mãe depauperada e esvaziada da potência libidinal, isso não seria possível.

A contrapartida disso, no registro do masculino, se evidencia no discurso freudiano sobre a fantasia dos meninos, permeada que seria essa pela oposição entre a maternidade e o erotismo. Com efeito, a figura da mãe-santa não poderia ser marcada pelo erotismo, pois este a desqualificaria efetivamente como puta. Daí a decepção e o nojo dos meninos, com a figura materna, ao descobrir nessa a presença do erotismo (Freud, 1905/1962). Não obstante o fato de nesta leitura de Freud este fantasma sexual masculino ser considerado universal, parece-me, que ele se inscreve no campo historicamente delineado pela biopolítica. Isso porque se a mãe representa o sacrifício libidinal face à devoção da prole, esse sacrifício se faria às custas do seu erotismo.

Portanto, aquilo que aparece no fantasma da menina no registro da identificação se enuncia no fantasma do menino no registro do objeto do desejo. No entanto, o que está em pauta nestas diferentes formas de subjetivação seria a oposição das figuras da mãe e da mulher constituídas no campo da biopolítica, no qual a segunda foi sacrificada em nome da primeira.

Em decorrência deste sacrifício libidinal materno, os filhos acabavam por contrair uma dívida com a figura da mãe. Isso implicava cobranças e culpabilizações desta com aqueles pela vida toda, mas que se incrementavam bastante com a saída dos filhos da casa dos pais. O mesmo não ocorria na relação dos filhos com a figura do pai, justamente porque este não era destituído de sua potência libidinal na experiência familiar.

Porém, a totalidade deste processo de subjetivação se condensa na célebre passagem enunciada pelo discurso freudiano em 1914, em “Introdução ao narcisismo”, de que para os pais os filhos ocupam a posição de “sua majestade” (Freud, 1914/1973b). Enquanto ocupam a posição fantasmática de “sua majestade o bebê”, pelo massivo investimento libidinal realizado pelas figuras parentais, os filhos iriam idealmente realizar tudo aquilo que estes não puderam empreender na existência, justamente porque se sacrificaram pelos filhos no campo biopolítico da família moderna. Com efeito, enquanto condensação maior do Capital econômico e simbólico da nação, a criança foi alçada à condição de soberana, pois a qualidade de vida da população, como signo maior que seria da riqueza do Estado, dependeria deste lugar onipotente conferido ao infante. Foi apenas neste contexto histórico, marcado que foi pela biopolítica, enfim, que a criança foi transformada no símbolo do futuro propriamente dito, que passou a colorir e encantar os nossos fantasmas sobre o infantil e a criança.

Podemos reconhecer assim como um conjunto de enunciados fundamentais do discurso freudiano se inscreveu no horizonte histórico delineado pelo biopoder, que configurou uma modalidade específica de família, de laços conjugais e de laços entre pais e filhos, que foram cruciais para a constituição de certas formas de subjetivação na modernidade.

A indagação que se coloca agora é a seguinte: o que ocorre na atualidade, no que concerne a isso? É o que veremos em seguida.

V. Desejo e reprodução
Nos anos 50 e 60, do século XX, foi desencadeado um processo radical de transformação da estrutura familiar moderna, que perdeu alguns de seus eixos fundamentais, como indicamos acima. O movimento feminista foi o seu desencadeador, à medida que as mulheres passaram a pleitear em outro lugar e uma outra posição social, pois demandavam a igualdade das condições com os homens. Pretendiam assim dispor das mesmas oportunidades sociais e de reconhecimento simbólico, buscando então se inserir no mercado de trabalho.
Este movimento teve a sua condição concreta de possibilidade, no entanto, na invenção de procedimentos anticoncepcionais seguros. Desde então estes procedimentos foram se multiplicando e se aprimorando do ponto de vista técnico, de forma que a reprodução sexual pudesse ser bem controlada, pelas mulheres e pelos homens.

Se o controle de natalidade era já realizado desde o século XIX, por meios e instrumentos biopolíticos que pretendiam produzir a população bem qualificada, não obstante a oposição sistemática da Igreja Católica, os seus procedimentos eram arcaicos e bastante incertos. Se a biopolítica enunciava, com Malthus, que enquanto a população crescia em progressão geométrica as fontes de alimentação cresciam em progressão aritmética, necessário seria restringir o tamanho da população para evitar a catástrofe da escassez e da precariedade alimentares. Ao lado disso, a demografia constatava, desde o final do século XVIII, que ocorria uma baixa da taxa de mortalidade e que a de natalidade se incrementava, invertendo então, pela primeira vez no Ocidente, esta relação. Com isso, o terror do fim da sociedade, que perseguiu a nossa tradição desde sempre, pôde ser finalmente apaziguado, pois a reprodução biológica sempre esteve atrelada à reprodução social. Por isso mesmo, as proles foram bastante reduzidas se comparadas às sociedades tradicionais e pré-modernas, até mesmo para que o investimento na qualidade de vida da população pudesse efetivamente se fazer com uma prole reduzida.

Não obstante tudo isso, as gestações eram imprevisíveis e no limite incontroláveis, de maneira que as mulheres ficavam à mercê de suas proles, que ocupavam quase todo o seu tempo e nada mais lhes restava para que pudessem investir em qualquer outra atividade. Portanto, o registro do desejo ficava regulado pelo registro da reprodução biológica, em nome sempre da reprodução social.

Contudo, com a invenção de meios anticoncepcionais seguros e múltiplos, as mulheres puderam separar finalmente os registros do desejo e da reprodução biológica, podendo então definir quando ter filhos e quantos filhos queriam ter. Com isso, a liberdade feminina se instituiu em larga escala, podendo ser mulher e mãe ao mesmo tempo, pois não estavam mais assujeitadas ao determinismo dos ciclos hormonais que sempre aprisionaram os seus corpos. Como se sabe, isso provocou uma importante revolução dos nossos costumes, provocando o exercício amplo, geral e irrestrito do desejo na nossa tradição.

Assim, as mulheres passaram a se capacitar intelectualmente para se inserir no mercado de trabalho, em condição de igualdade com os homens. Foram então para a Universidade, que anteriormente ficava restrita aos homens, não obstante as raras exceções que também ocorreram. Passaram então a priorizar mais as suas carreiras, colocando-as numa mesma posição que o casamento. Com isso, este passou a se realizar mais tarde na existência das mulheres, pois essas queriam constituir uma experiência importante, que as consolidasse no campo da profissão, antes de se lançarem na aventura da maternidade.

Além disso, como o ideal de constituição da família e da prole como seu correlato não ficava mais de pé, como no século XIX e até os anos 50 do século XX, pois as mulheres queriam se realizar como singularidades e não apenas como mães, as separações também se disseminaram. Com efeito, o laço conjugal entre um homem e uma mulher, assim como os laços homossexuais em seguida, somente seria possível de se produzir e de se manter caso os parceiros pudessem manter a sua condição desejante na conjugalidade. Caso contrário, cada qual saía em busca de outras relações, para articular a demanda do desejo na relação conjugal. Por condição desejante na conjugalidade é preciso entender aqui não apenas o exercício prazeroso do erotismo entre os parceiros, mas também a possibilidade que cada um ofereça ao outro para a expansão de sua potência de ser e de existir. Os impasses conjugais poderiam se constituir nestes dois registros do desejo, tornando assim possível ou impossível a continuidade dos laços conjugais.

VI. Nova ordem familiar
Constituiu-se assim uma outra configuração da ordem familiar, bastante diferente da família nuclear moderna. Passou a se tornar comum que cada um dos parceiros tivesse já uma prole anterior e que estas proles fossem conjugadas na nova cena conjugal, independentemente de a nova relação possibilitar outros filhos. As crianças, em contrapartida, passaram a se inscrever em dois cenários familiares, o que foi constituído por cada uma das figuras parentais.

 Ao lado disso, as famílias monoparentais se incrementaram progressivamente, em escala internacional, de forma que os filhos passaram a viver apenas com um dos pais. Além disso, a extensão da prole se restringiu mais ainda, não sendo rara a existência de uma só criança numa família. A diminuição da potência reprodutiva nos países europeus se transformou num padrão demográfico ao mesmo tempo importante e apavorante para os Estados atuais, que temem pelo seu futuro, pelo incremento da imigração dos países pobres.

Tudo isso coloca em cena as crianças e os jovens, que foram impactados de maneira radical por tais transformações. As modalidades da socialização familiar e das formas de subjetivação foram subvertidas, em relação à família nuclear moderna.

Assim, as mulheres saíram de casa para ir em busca de um projeto identitário e singularizante, mas, em contrapartida, os homens não voltaram para compensar e equilibrar a ausência materna. Com isso, as crianças passaram a frequentar desde muito cedo as creches e as escolas maternais, que passaram a suprir a ausência das figuras parentais. Com o crescimento das crianças a ausência destas se fazia ainda presente, de maneira que os empregados passaram a suprir tais ausências, quando os recursos financeiros possibilitaram isso, ou o excesso de atividades programadas.

Neste contexto, o espaço do jogo infantil foi evidentemente restringido, tendo na performance e na socialização compartilhada as suas contrapartidas. Parece-me que a fantasmatização das crianças foi aqui atingida de maneira frontal, assim como aquilo que é o seu correlato, qual seja, a potencialidade de simbolização e de articulação linguageira.

Algumas mães passaram a realizar a dupla jornada de trabalho neste contexto, para suprir as suas ausências. Com isso, se desgastam excessivamente, de maneira a perturbar as suas relações tanto com o parceiro quanto com os filhos.
Tudo isso acabou por produzir uma crise importante na relação da família com a escola, que está longe de ser resolvida. Assim, na ausência relativa das figuras parentais essas passaram a exigir que a escola realizasse não apenas a socialização primária mas também a secundária (Bourdieu & Passeran, 1970), isto é, a constituição do ethos primário e não apenas o ensino como foi instituído com a escola no século XIX. As escolas relutam em fazer isso, pois modificaria inteiramente a sua estrutura, e a questão permanece em aberto. As creches e as escolas maternais entraram já em parte na transmissão da socialização primária, que outrora era atribuição exclusiva da família, na ausência relativa dos pais nos primeiros anos de vida da criança. Parece-me, no entanto, que um novo pacto social entre a família e a escola será instituído no futuro, considerando as transformações que estão em curso.

VII. Formação de subjetivação
Este conjunto de transformações incidiu na economia do narcisismo das crianças inicialmente e dos adolescentes em seguida, produzindo novas modalidades de subjetivação e de transtornos psíquicos, que passaram a caracterizar a subjetividade na contemporaneidade.

Antes de mais nada, o autismo. Esta forma de perturbação psíquica foi apenas descrita nos anos 30, do século XX, pelo psiquiatra norte-americano Leo Kanner. Desde então, o seu crescimento tem sido vertiginoso, em escala internacional, de maneira a se destacar como uma modalidade específica de perturbação psíquica, da contemporaneidade. A sua emergência e ascensão irrefutável se articulam com as transformações familiares a que me referi acima. No que concerne a isso, com efeito, a ausência relativa das figuras parentais tais no campo familiar e o anonimato no cuidados das crianças e sobretudo dos infantes (babás, creches, escolas maternais) têm uma relação direta com a expansão do autismo. O desinvestimento narcísico daqueles seria aqui a condição concreta de possibilidade desta modalidade de dor psíquica.

Em seguida, as perturbações psíquicas se condensam cada vez mais nos registros do corpo, da ação e das intensidades (Birman, 2006b), nos quais a passagem ao ato passa a dominar a regulação psíquica, com descargas sobre o corpo e a ação. Se isso evidencia a pobreza dos processos de simbolização como afirmei acima, por um lado, denota ainda a perda do investimento narcísico, pelo outro, com a extensão daquilo que André Green denominava narcisismo de morte. Com efeito, da síndrome do pânico às perturbações psicossomáticas, passando pelo incremento da irritabilidade, da agressividade e da violência, e chegando às depressões, o que está sempre em pauta é a desnarcisação e a fragilização dos processos de simbolização (Birman, 2006b).

Por isso mesmo, o que se passou a denominar fronteiriços e estados-limite se incrementou nas estatísticas epidemiológicas, constituindo entidades novas nas nosografias psiquiátrica e psicanalítica. Foi neste contexto social e teórico, aliás, que Winnicott formulou o conceito de falso si-mesmo e destacou o lugar das perturbações psíquicas articuladas com o desmame e a desnarcisação (Winnicott, 1975). Ao lado disso, Pontalis pontuou a presença da dita desnarcisação e da fragilidade simbólica nos ditos estados-limite, nos quais a presença de uma boa escolaridade e do bom domínio da língua não impediriam a constituição de sujeitos com frágil potencial da metaforização (Pontalis, 1988).

Com isso, o que Freud denominava neuroses atuais tende a predominar sobre as psiconeuroses, numa inversão do que ocorria no final do século XIX e nos primórdios do discurso freudiano (Freud & Breuer, 1895/1971). Porém, se as neuroses atuais não são mais facilmente transformáveis em psiconeuroses, isso se deve seja à narcisação frágil seja à pobreza dos processos de simbolização.

Não se pode esquecer ainda a disseminação das compulsões hoje, que como ações falhas dominam o horizonte das perturbações psíquicas. Com efeito, das drogas à comida, passando ainda por outros objetos, as compulsões representam na atualidade um contingente importante no campo das perturbações psíquicas, no qual se pode evidenciar a conjunção de uma negatividade narcísica com uma fragilidade dos processos de simbolização.

Este narcisismo de morte se enuncia de forma eloquente nas depressões contemporâneas, que se destacam cada vez mais como a prima donna das perturbações psíquicas na atualidade. O que se apresenta aqui é a presença marcante do vazio no centro da experiência psíquica, de forma que o dito narcisismo de morte se evidencia pela pregnância assumida pelo masoquismo na experiência psíquica contemporânea. Seria este o correlato do narcisismo de morte nesta experiência, indicando assim o domínio da pulsão de morte sobre a pulsão de vida no aparelho psíquico.

VIII. Estilo adolescente de existência e a autoridade parental
Porém, se lançarmos agora este conjunto de transformações em curso num plano mais abrangente, podemos depreender ainda algumas decorrências cruciais do que ocorre na contemporaneidade.

Assim, se todos podem ser desejantes ao mesmo tempo e isso perdurar por toda a vida, a diferença entre a condição da adolescência e a que se faz presente no adulto e na velhice deixa de existir. Com efeito, as fronteiras psíquicas entre a adolescência e os demais momentos da existência tendem cada vez mais a se esfumaçar e até mesmo se apagar. Pode-se ser pai, mãe, avó e avô na atualidade sem perder o fulgor da adolescência, no qual a potência desejante se encontra ainda sempre presente. O que se impõe como indagação hoje, nesta expansão do estilo adolescente de existência, é se aquela separação destas idades da vida não foi um artefato produzido pelo discurso biopolítico dominante nos últimos duzentos anos e se este agora não tende a se transformar nas suas linhas fundamentais de força.

Uma das consequências disso é a perda da autoridade das figuras parentais aos olhos dos filhos, para os quais aquelas figuras se diferenciam deles cada vez menos, pois exercem um mesmo estilo de existência. Se este processo se iniciou lentamente nos anos 60, o seu incremento posterior se acelerou de maneira incrível, mudando completamente os padrões costumeiros de autoridade parental, na nossa tradição, de forma inequívoca.

Nesta transformação radical que se opera em face da infância hoje algumas consequências se avolumam e passam a nortear o nosso projeto de civilidade pós-moderna. Assim, a ausência e a diminuição flagrante da prole denota um não-desejo de crianças, na atualidade de nossa tradição, de maneira que um novo fantasma se constituiu. Este fantasma pode ser enunciado como matemos as crianças. Isso não tem mais o sentido que lhe deu Leclaire num ensaio brilhante dos anos 80, intitulado “Mata-se uma criança” — que se fundava no limite a ser conferido à onipotência narcísica do infantil, para que o sujeito pudesse se constituir, num campo definido pelo discurso da biopolítica dos séculos XIX e XX —, mas o de não se querer ter mais filhos e crianças, pois estes perturbam e impedem a nossa possibilidade desejante de existir. Enfim, as crianças passariam a atrapalhar a nossa liberdade e mobilidade, de existir e de desejar.

Portanto, não devemos estranhar que a pedofilia tenha se transformado em uma de nossas obsessões contemporâneas, pois se nos empenhamos em matar as crianças como um fantasma fundamental hoje, as crianças deixam de ser o signo por excelência do futuro, como eram no início do século XIX, e se transformam no objeto para o gozo imediato dos adultos, no nosso imaginário contemporâneo.

REFERÊNCIAS
Ariès, Ph. (1973). L´enfant et la vie familiale sous l´ancien regime. Paris: Seuil.
 Ariès, Ph. & Chartier, R. (1991). Histó- ria da vida privada 3: Da Renascença aos séculos das luzes. São Paulo: Companhia das Letras.
Birman, J. (2001). Gramáticas do erotismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
Birman, J. (2006a). Reviravoltas na soberania. In J. Birman, Arquivos do mal-estar e da resistência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
 Birman, J. (2006b). Subjetividades contemporâneas. In J. Birman, Arquivos do mal-estar e da resistência. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
Bourdieu, P. & Passeran, J. C. (1970). La reproduction. Paris: Minuit.
Foucault, M. (1963). Naissance de la clinique. Paris: PUF. Foucault, M. (1974). Surveiller et punir. Paris: Gallimard.
Foucault, M. (1976). La volonté de savoir. Paris: Gallimard. Foucault, M. (1997). Il faut défendre la société. Paris: Gallimard; Seuil.
Foucault, M. (1999). Les anormaux. Paris: Gallimard; Seuil. Foucault, M. (2003). Le pouvoir psychiatrique. Paris: Gallimard; Seuil.
Freud, S. (1930). Malaise dans la civilization. Paris, PUF.
Freud, S. (1933). Sur la psychogenèse d´un cas d´homosexualité feminine. In: S. Freud, Névrose, psychose, perversion (pp. X-XX). Paris: PUF. (Trabalho original publicado em 1914.)
Freud, S. (1936). La feminité. In S. Freud, Nouvelles conferences d’introduction à la psychanalyse. Paris: Gallimard. (Trabalho original publicado em 1932.)
Freud, S. (1962). Trois essays sur la théorie de la sexualité. Paris: Gallimard, 1962. (Trabalho original publicado em 1905.)
Freud, S. (1973a). La morale sexuelle ‘civilisée’ et la maladie nerveuse des temps modernes. In S. Freud, La vie sexuelle. Paris: PUF. (Trabalho original publicado em 1908.)
Freud, S. (1973b). Pour introduire le narcissisme. In S. Freud, La vie sexuell. Paris, PUF. (Trabalho original publicado em 1914.)
Freud, S. (1973c). Quelques consé- quences psychiques de la différence anatomique entre les sexes. In S. Freud, La vie sexuelle. Paris: PUF. (Trabalho original publicado em 1925.)
Freud, S. (1973d). La sexualité féminine. In S. Freud, La vie sexuelle. Paris: PUF. (Trabalho original publicado em 1931.)
Freud, S. (1975). Fragment d’une analyse d’hystérie (Dora). In S. Freud, Cinq psychanalyses. Paris: PUF. (Trabalho original publicado em 1905.)
Freud, S.& Breuer, J. (1971). Études sur l´hystérie. Paris: PUF. (Trabalho original publicado em 1895.)
Pontalis, J. B. (1988). Perdre de vue. Paris: Gallimard.
Winnicott, D. (1975). O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago

IN: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/jp/v40n72/v40n72a04.pdf


quinta-feira, dezembro 19, 2013

A instância da letra da letra ...: Ressonâncias

Escrita e Invenção


Doris Rinaldi

O poeta Manoel de Barros, em seu livro de memórias sobre a infância, intitulado Memórias Inventadas, abre o trabalho com a seguinte afirmação:“Tudo o que não invento é falso”.[1] Outro poeta, Ferreira Gullar, em recente entrevista, diz: “Um poema é uma invenção. Ele não existe antes de ser feito. Pode até sair outro... Poesia é uma aventura para captar coisas que não existem. Não está formulada. Ela não é nada. Ela é uma vontade, uma possibilidade. Só quando começa a escrever é que ganha forma”.[2]
Iniciar um trabalho sobre o tema da escrita convocando os poetas, quando a perspectiva adotada é a psicanalítica, vem reafirmar a posição sustentada tanto por Freud quanto por Lacan de que, diante da arte, estamos na condição de aprendizes, ou seja, o artista sempre precede o psicanalista e lhe abre os caminhos. Frente ao enigma da feminilidade, Freud sugeriu que consultássemos os poetas....[3].
Ainda que a psicanálise funde sua práxis na suposição de que o inconsciente é um saber falado, o interesse pela escrita está presente desde cedo na obra freudiana, quando aconselha que o sonho seja lido como uma “escritura sagrada” ou como um rébus a ser decifrado, devendo ser tomado ao pé da letra, o que pressupõe que o inconsciente deve ser pensado como um sistema de inscrições.
Lacan, por sua vez, desde o Seminário sobre A “Carta Roubada” [4], em que analisa o conto de Edgar Allan Poe, assim como do escrito “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud” [5], ambos da década de 50 do século passado, destaca o valor da escrita, em particular da letra, ao caracterizar o inconsciente a partir de sua estrutura de linguagem. Nesses textos privilegia a função do significante, concebendo a letra como seu suporte material ou como significante puro. Vinte anos depois irá aproximá-la cada vez mais do registro do Real, como o faz na lição de 13/01/76 do Seminário sobre Joyce, ao dizer que a escrita o interessa porque, “historicamente, foi por pequenos pedaços de escrita que se penetrou no real, a saber, que se cessou de imaginar. A escrita de letrinhas, letrinhas matemáticas, é isso que sustenta o real”. [6]
O ponto de partida da psicanálise é que a linguagem é habitada por aquele que fala, onde os significantes, que se modulam na voz, articulam-se uns aos outros, nos ditos e nos dizeres. Ao convidar o ser falante a dizer o que lhe vier à cabeça, a prática analítica abre espaço para emergência do sujeito, como efeito do discurso, através de um dizer verdadeiro que é sempre parcial e contingente. O dizer baseia-se na palavra e esta comporta uma dimensão imaginária, pois a fala tem função de significação; o escrito, ao contrário, dispensa esta dimensão, não exigindo necessariamente compreensão, como evidencia a escrita poética.
Como nos lembra Manoel de Barros, no poema “O apanhador de desperdícios”.[7]

“Uso as palavras para compor meus silêncios.
Não gosto das palavras
Fatigadas de informar.
Dou mais respeito
às que vivem de barriga no chão
tipo água pedra sapo.....”

A experiência analítica desenvolve-se através da palavra falada: se as palavras não são ditas, não basta escrevê-las; a dimensão da escrita, entretanto, já está aí colocada, pois é na medida em que o dizer se escreve que podemos supor a dimensão do saber inconsciente.
Lacan aborda a função da escrita no inconsciente e na constituição do sujeito a partir do traço unário, neologismo que constrói com base na noção de traço único (einziger Zug) formulada por Freud na teoria da identificação.[8] Ele retoma essa noção, dando-lhe um caráter estrutural, como marca primeira que inaugura o sujeito.  Essa marca inscreve uma diferença a partir da qual o sujeito insere-se em uma série simbólica. Como letra, ao mesmo tempo em que representa o sujeito no seu nascedouro, possibilitando uma identificação simbólica, traz a memória de um gozo perdido, que inaugura o processo de repetição característico do movimento inconsciente. Há, portanto, algo da ordem de uma escrita primordial que marca o sujeito na sua singularidade, onde se articulam letra e gozo. O significante é uma invenção a partir de alguma coisa que já está lá para ser lida. Não se trata, portanto, na experiência analítica, apenas de escuta, mas do que se lê no que se escuta. Poderíamos dizer que se trata de uma releitura, já que a própria fala do sujeito, seus sonhos, sintomas e fantasias são da ordem de uma primeira leitura das marcas primordiais que recebeu do Outro, ao fazê-las suas.
Alguns elementos da história do advento da escrita ajudam a pensar a função do traço unário como escrita primordial que funda o sujeito. É o que Lacan nos traz no Seminário IX, A identificação[9], quando chama a atenção para o fato de que, mesmo admitindo-se que o homem, desde que é homem, tem uma missão vocal como falante, há uma série de traços e traçados encontrados em material pré-histórico que são marcas significantes que poderíamos chamar de letras. Os ideogramas apresentam algo muito próximo de uma imagem, mas que se torna ideograma na medida em que se apaga cada vez mais o caráter de imagem. A escrita cuneiforme nasce assim. São traços que saem de algo figurativo, mas um figurativo apagado, recalcado ou mesmo rejeitado. O que fica é da ordem do traço unário, que funciona como distintivo, como marca.
Alguns estudos indicam que os significantes da escrita foram primeiramente produzidos como marcas distintivas, bem antes do nascimento dos caracteres hieróglifos. Na cerâmica da indústria pré-dinástica encontram-se quase todas as formas que foram utilizadas em seguida na evolução histórica, nos alfabetos grego, latino, fenício. A escrita como conjunto de marcas, como indica Lacan, “esperava para ser fonetizada, e é na medida em que ela é vocalizada, fonetizada como outros objetos, que a escrita aprende, se posso dizer assim, a funcionar como escrita”.[10]
Há, portanto, um tempo demarcado historicamente em que há algo para ser lido com a linguagem quando ainda não há escrita. É pela inversão dessa relação de leitura do signo que pode nascer, em seguida, a escrita, uma vez que ela serve para conotar a fonematização.
O que é importante assinalar nesse processo é que essas marcas são sempre marcas apagadas, rasuradas, que se transformam em escrita na medida em que são apropriadas pela linguagem, evidenciando algo de radical no enlaçamento da linguagem com o real. O que representa o advento da escrita é que alguma coisa que já é escrita, como traço, ao ser nomeada pela fala, pode servir de suporte à própria escrita. O sujeito, a propósito de algo que é marca, já lê antes de se tratar dos sinais da escrita e associa essas marcas a pedaços recortados de sua fala. São eles que, numa inversão, servirão em seguida como suporte fonético.
Na constituição do sujeito, o traço unário tem essa função de bastão, como traço distintivo, tanto mais distintivo quanto mais está apagado, pois é na medida em que se reduz ao traço sem qualidades, isto é, quanto mais ele é semelhante, puro bastão, mais ele funciona como suporte da diferença. É isso que introduz no real do ser falante a diferença como tal, já que no real não há nada. Se o traço apaga a Coisa (das Ding), dela restando apenas rastros de gozo, a passagem ao significante se dá a partir dos diversos apagamentos que farão surgir o sujeito em seus diferentes modos de manifestação. O traço unário é significante, portanto, não de uma presença, mas de uma ausência apagada que, a cada volta, a cada repetição, presentifica-se como ausência. É aí que se localiza o ponto radical, arcaico, suposto na origem do inconsciente. Ao supormos que o inconsciente é o lugar do sujeito onde isso fala, nos aproximamos desse ponto onde alguma coisa, à revelia do sujeito, é remanejada pelos efeitos de retroação significante, implicados na fala.
O significante é uma invenção a partir dessa marca apagada, assim como o saber, na medida em que inventamos sempre alguma coisa para contornar o nada do real. O mundo é uma hipótese, onde o sujeito reinventa-se continuamente, e ninguém melhor do que os escritores – especialmente os poetas - para trazerem isso à tona, a partir de seu savoir-faire com a língua. Eles evidenciam essa função da letra como aquilo que desenha a borda do furo do saber, como um litoral entre simbólico e real.

Lembrando Ferreira Gullar, citado na introdução desse trabalho,
"Um poema é uma invenção. Ele não existe antes de ser feito. Pode até sair outro...
ou  Manoel de Barros, quando diz:  "Uso as palavras para compor meus silêncios".

A escrita, portanto, não é impressão, decalque do significante. O que ela decalca são, como diz Lacan em “Lituraterra”, "os efeitos de língua, o que [do significante] se forja por quem a fala".[11] A letra, nesse sentido, ainda que sirva de apoio ao significante, não deve ser pensada como primária em relação a ele, mas antes como conseqüência do fato da linguagem ser habitada por quem fala. No campo do significante estamos, contudo, na dimensão do semblante, isto é, do "parecer", da ficção, em cujo ponto de ruptura, ou de transbordamento, emerge o real. Nesse lugar a psicanálise evoca o gozo.
Entre o saber e o gozo, a letra faz litoral que, como ponto de virada sempre buscado no movimento de repetição que constitui o inconsciente, transforma-se em literal. O traço unário, herança do Outro, situa-se exatamente aí, como um sulco que a linguagem faz no real do ser falante e é, ao mesmo tempo, de seu apagamento e de sua repetição que nasce o sujeito como uma invenção a ser sustentada permanentemente. É nesse movimento que constituirá sua verdade, sempre fictícia, sempre marcada pela parcialidade, mas que determinará a sua diferença. Como nos diz o poeta Manoel de Barros: "Tudo o que não invento é falso".
A escrita cava sulcos no real, ao apropriar-se dos efeitos do significante recortando pedaços de real, através da letra. Por isso Freud afirma que o sonho, como via régia de acesso ao inconsciente, deve ser tomado como uma escritura sagrada, pois é em sua letra que se pode apreender a dimensão real, enigmática do inconsciente, o umbigo de onde nasce o desejo, e, ao mesmo tempo, as vias significantes por onde ele caminha.
É o que também nos leva a sustentar que a literatura, como “acomodação de restos”[12], ensina à psicanálise, pois ao recortar esses restos e transmiti-los pela escrita, ela revela algo dessa dimensão fundadora do inconsciente humano. Como nos ensina mais uma vez Manoel de Barros, quando diz:

“Sou um apanhador de desperdícios:
Amo os restos
Como as boas moscas.
Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.
Porque eu não sou da informática: eu sou da invencionática.
Só uso palavra para compor meus silêncios”.[13]

Foi o que fascinou Lacan na escrita de Joyce, levando-o a dedicar um seminário inteiro ao escritor irlandês. Em conferência proferida na Universidade de Yale (24/11/75), afirmou que se interessava mais pela letra do que pela literatura e que Joyce o fascinou justamente porque tentou ir além da literatura, quebrando palavras e segmentando frases, numa tentativa de dissolver a própria linguagem.

Na experiência analítica estamos necessariamente no campo da linguagem e da palavra falada. Se esta dá notícias de inscrições apagadas, retomadas a cada volta no processo de invenção do sujeito que o percurso de uma análise reinventa, é nesse movimento mesmo de falar que algo se escreve, fazendo surgir a letra como litoral de gozo, na composição de uma escrita em que nada mais há a fazer para decifrá-la.

Referências Bibliográficas:
BARROS, M. Memórias Inventadas - A Infância, São Paulo, Planeta, 2003.
FREUD, S. “Psicologia de grupo e análise do eu” (1921) in Obras Psicológicas Completas, Edição Standard Brasileira, Rio de Janeiro, Imago Editora,1980
_______ Conferência XXXIII “Feminilidade”(1933) Novas Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise in Obras Psicológicas Completas, Edição Standard Brasileira: Rio de Janeiro, Imago Editora, 1980.
GULLAR, F.  Entrevista in Jornal O Globo de 12/08/2006.
LACAN, J. “O seminário sobre “A carta roubada”” (1955) in Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.1998.
__________. “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud” (1957) in Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.1998.
LACAN, J. A identificação: Seminário 1961-1962, Recife Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2003. (publicação para circulação interna).
_______   Le séminaire, Livre 23, Le  Sinthome, Paris, Editions du Seuil, 2005.
___________ “Lituraterra”(1971), in Outros Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2003.




[1] Barros, M. Memórias Inventadas - A Infância, São Paulo, Planeta, 2003.
[2] Gullar, F.  in Jornal O Globo, 12/08/2006.
[3] Ver Freud, S. Conferência XXXIII “Feminilidade”(1933) Novas Conferências Introdutórias sobre a Psicanálise in Obras Psicológicas Completas, Edição Standard Brasileira: Rio de Janeiro, Imago Editora, 1980. p.165.
[4] Lacan, J. “O seminário sobre “A carta roubada”” (1955) in Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.1998.
[5] Lacan, J. “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud” (1957) in Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor.1998.

[6] Lacan, J. Le séminaire, Livre 23, Le  Sinthome, Paris, Editions du Seuil, 2005.
[7] Barros, M. “O apanhador de desperdícios” in op.cit.
[8] Freud, S. “Psicologia de grupo e análise do eu” (1921) in Op. Cit.
[9] Lacan, J. A identificação: Seminário 1961-1962, Recife Centro de Estudos Freudianos do Recife, 2003. (publicação para circulação interna).
[10] Ibidem, p.93.
[11] Lacan, J. “Lituraterra”(1971), in Outros Escritos, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2003.
[12] Ibidem, p.16.
[13] Ibidem.

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