terça-feira, março 20, 2007


CURSO DO PROFESSOR MARCOS NESTE SEMESTRE
PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA
UFSC

Curso: Estética e inestética no discurso filosófico
Ministrante: Prof. Marcos Muller
Dia: terça-feira: (Horário:das 13:30 às 16:30 horas);

Objetivo do curso:
Estabelecer uma leitura do texto “O olho e o espírito” de Maurice Merleau-Ponty à luz da proposta de constituição de um discurso inestético, tal como este foi concebido por Alain Badiou em seu “Pequeno manual de instética”.

Apresentação do curso:
Alain Badiou, em seu “Pequeno manual de inestética” (2002), reconhece haver, entre a filosofia e a arte, uma espécie de “laço” que muito faz lembrar a cumplicidade que Lacan reconheceu haver entre o discurso do mestre e o discurso da histérica. Se, por um lado, é a partir da provocação histérica (“o que tens tu para me ensinar?”) que o mestre se põe a trabalhar, por outro, é a obstinação do mestre que faz da histérica uma cortesã. Da mesma forma, para Badiou, a arte é a encarnação de uma dúvida que a filosofia é incapaz de dirimir, muito embora fosse à filosofia que os artistas, por séculos a fio, recorreram no intuito de compreender o mistério que eles viviam por dentro. Tal relação, na versão de Badiou, não fez mais que sedimentar três respostas distintas à interrogação sobre a “natureza” da arte, respostas estas que nem mesmo o século XX foi capaz de ultrapassar. A resposta “didática”, formulada por Platão, retorna no século XX pela pena do marxismo. A resposta “romântica”, estabelecida no século XIX, ressurge nos termos da hermenêutica heideggeriana. E o “classicismo” aristotélico, para o qual a arte não é mais que um órgão de prazer frente à impossibilidade de uma apresentação sensível da verdade, é ressuscitado no discurso psicanalítico. Mas Badiou não desacredita na possibilidade de uma transformação nessa história de submissão histérica da arte à filosofia. Mais do que isso, Badiou aposta na possibilidade de haver um discurso filosófico que opere a partir de uma verdade que, a sua vez, não tem origem no universalismo filosófico, mas na singularidade artística. A noção de inestética, em algum sentido, vem denominar essa possibilidade, que Badiou explica nos seguintes termos: “(p)or inestética entendo uma relação da filosofia com a arte, que, colocando que a arte é, por si mesma, produtora de verdades, não pretende de maneira alguma torná-la, para a filosofia, um objeto seu. Contra a especulação estética, a inestética descreve os efeitos estritamente intrafilosóficos produzidos pela existência independente de algumas obras de arte” (p. 8).
Em nosso curso, pretendemos discutir e “experimentar” a possibilidade de uma tal inestética, a qual encontramos executada não apenas nos capítulos em que Badiou disserta sobre a poesia, a dança, o cinema... Antes dele, num ensaio consagrado a estabelecer uma ontologia a partir da obra de arte, Merleau-Ponty escreve um clássico que poderíamos considerar um tratado de inestética avant la lettre. Com esse texto, Merleau-Ponty introduz a temática que será título de sua famosa obra incabada, postumamente denominada de “O visível e o invisível”, mas que, mais a contento de Badiou, deveria se chamar “A origem da verdade”. O que, enfim, a arte tem a nos dizer sobre a verdade? O que é uma verdade artística? Ou, conforme Derrida, “qual é a verdade em pintura” (1989, p. 10).

Bibliografia básica:

BADIOU, Alain. 2002 Pequeno manual de inestética. Trad. Marina Appenzeller. São Paulo: Estação Liberdade.
DERRIDA, Jacques.
La vérité en peinture. Paris: Flammarion.
FERRY, Luc. 1994. Homo aestheticus: a invenção do gosto na era democrática. Trad.Eliana Maria de Melo Souza - São Paulo: Ensaio. 1994.
HAAR, Michel.
2000 A obra de arte – ensaio sobre a ontologia das obras. Trad. Maria
Helena Kühner. Rio de Janeiro: Difel
MERLEAU-PONTY, MAURICE 1945: Phénoménologie de la perception. Paris, Gallimard. Tradução brasileira de Carlos A. R. Moura: Fenomenologia da percepção. São Paulo, Martins Fontes, 1994.
_____ 1960: Signes. Paris, Gallimard.
_____ 1962: “Candidature au Collège de France – Un inédit de Merleau-Ponty”. Revue de métaphysique et de morale, v. 1, n.67, pp. 401-9.
_____ 1964a: Le visible et l'invisible.
Paris, Gallimard. Tradução brasileira de José A. Gianotti>: O visible e o invisível. São Paulo, Perspectiva, 1992.
_____ 1969: La prose du monde. Paris, Gallimard.
_____. 2004. O olho e o espírito. Trad. Paulo Neves e alli. São Paulo: Cosac & Naify
SARTRE, Jean- Paul. 1997 O ser e o nada – ensaio de ontologia fenomenológica. Trad.Paulo Perdigão. 2.ed. Petrópolis: Vozes
_____ 1989. Que é a literatura. Trad. Carlos Felipe Moisés. SP: Ática, 1989.

domingo, março 18, 2007


A Aliança Francesa de Florianópolis convida para a conferência As palavras viajam, os homens emigram de Tahar Ben Jelloun. O escritor franco-marroquino autografará o seu último livro lançado no Brasil.

O evento dá início ao curso de literatura, francófona e fancesa - A Flânerie Desvendada em Protótipos LIterários - Olhares e Travessias de Contrastes.
Este curso será regido por um dos membros deste grupo, querido amigo Daniel Felix.
Dia: 22/3/2007
Local: Hotel Sofitel (Beira-Mar) Av. Rubes de Arruda Ramos, 2034
Horário: 19h
Informações: (48) 3202.6100

quinta-feira, março 15, 2007


AS MULTIMODULAÇÕES
DO TRABALHO DE CLARISSA

http://clarissaalcantara.blogspot.com/

terça-feira, março 13, 2007

SUGESTÃO

Para quem ainda não leu, fica aqui a sugestão para uma boa leitura:

Slavoj Zizek e Glyn Daly
Arriscar o impossível – Conversas com Zizek
Editora Martins Fontes

É, verdadeiramente, espantoso acompanhar a forma como Zizek cruza a simplicidade do entorno com o rigor na interpretação de noções filosófica e psicanalítica de difícil compreensão. Inegável, em meu entender, é também a atualidade com que alguns temas são tratados e que, a somar à dimensão filosófica, abordam a esfera ética e política com uma firmeza irrepreensível.
Desaconselhável para os dogmáticos da Filosofia e da Psicanalítica. Para os outros todos, uma deliciosa leitura.

sábado, março 03, 2007

CINEMA BOM E DE GRAÇA

Cine Clube Aliança Francesa, inicia nesta segunda 05/03, 18:30, com o filme Nha Fala.

Local: Fundação Cultural BADESC (Rua Visconde de Ouro Preto, 216, Centro), Entrada Franca.
Uma comédia musical cheia de alegria, humor e otimismo, onde a heroína Vita é interpretada por Fatou N’Daye. A banda sonora é do lendário Manu Dibango.
Nha Fala conta à história de uma garota proibida de cantar pelos pais, conseqüência de uma maldição ancestral que condena á morte toda a mulher da família que ouse quebrar esse tabu. Ao optar por estudar em França, Vita resolve cantar e gravar um CD, cujo sucesso é imediato. Com medo que a sua mãe descubra que quebrou a promessa, decide voltar e encenar a sua própria morte para melhor ressuscitar.
É uma história contemporânea que pretende construir uma ponte entre Europa e África, e representa uma nova geração que respeita as tradições mas que quer viver no seu tempo.

 

domingo, fevereiro 25, 2007

DISCURSIVIDADE



 
" O homem, novo Aquiles perseguindo uma outra tartaruga, está fadado, em razão da captação de seu desejo no mecanismo da linguagem, a essa aproximação infinita e nunca satisfeita, ligada ao próprio mecanismo do desejo, que chamaremos simplesmente de discursividade."
Lacan, Seminário V, 1957-58, p.127

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

A noção de sujeito na Psicanálise

A Noção de Sujeito na Psicanálise Lacaniana

Maria Holthausen

Octavio Paz, logo no início de A dupla chama, diz que “tanto nos sonhos como no ato sexual abraçamos fantasmas. O nosso parceiro tem corpo, rosto e nome, mas a sua realidade, principalmente no momento mais intenso do abraço, dispersa-se em uma cascata de sensações que, por sua vez, se dissipam. Há uma pergunta que se fazem todos os apaixonados e que condensa em si o mistério erótico: ‘Quem é você?” Pergunta sem resposta, Os sentidos são e não são deste mundo”.

Se para Octavio Paz o sentido está no mundo – que compreendemos como realidade discursiva – e fora dele; para Lacan, o sentido se capta por escapar. Nem tudo é dizível, nem tudo pode ser falado. Há algo mais ainda, que insiste além das tentativas da representação simbólica: o sentido é desejo, mas também é gozo. Sempre que falamos, escrevemos ou lemos, intervimos na rede de filiação dos sentidos. No entanto, lembra Orlandi, falamos, escrevemos e lemos com palavras já ditas: “É porque a língua está sujeita ao equívoco, e o saber é um ritual com falas que o sujeito, ao significar, se significa.”


A noção de Sujeito: Descartes a Freud.


Fred constrói o aparelho psíquico através de uma estrutura tripartite: Ide, Ego e Superego. Desde então, o sujeito na teoria psicanalítica não pode ser pensado nem como indivíduo nem como eu. Ao falar do sujeito da psicanálise não é possível remeter-se ao sujeito cartesiano: racional, pensante e consciente.  

Em Descartes, pensar assegura a existência daquele que pensa como coisa (ser) pensante, conferindo-lhe uma identidade a si. O “eu sou” cartesiano vale como a substantificação do eu penso, que se torna uma realidade plenamente presente a si, substancialmente certa. Este é o ponto de dessimetria entre a teoria cartesiana e a teoria freudiana. Em Freud, pensar não equivale a ser, pois sou também onde não penso, e o fato de pensar não me assegura que eu seja. “O sujeito não é um dado, mas uma descontinuidade nos dados”.

O sujeito freudiano não só não é idêntico a si, como se torna sempre outro, na medida em que, para Freud, a representação não é mais o espelho do mundo e o lugar da verdade.

Diferentemente de Descartes, a representação em psicanálise não pode ser definida como imagem especular do mundo, como instrumento de acesso à verdade das coisas, na medida em que a dimensão de uma ordem natural não faz parte do campo psicanalítico. Em Freud, a representação deve ser entendida como uma construção que dá ao mundo e ao próprio sujeito um sentido, colorindo-os com significações diversas sem que nenhuma possa ser apontada como verdadeira.

De Freud à Lacan






Na intenção de sublinhar que o ser do sujeito não é constituído como uma identidade de consistência significante, Lacan caracteriza o discurso sobre o sujeito com o termo “pré-ontológico”. Vai buscar na teoria da linguagem de Saussure uma nova perspectiva para pensar a noção de inconsciente. Para Saussure nós não somos em nenhum sentido, os autores das afirmações que fazemos ou dos significados que expressamos na língua. Nós podemos utilizar a língua para produzir significados apenas nos posicionando no interior das regras da língua e dos sistemas de significado de nossa cultura. A língua é um sistema social e não um sistema individual. Ela preexiste a nós. Falar uma língua não significa apenas expressar nossos pensamentos mais interiores e originais; significa também ativar a imensa gama de significados que já estão embutidos em nossa língua e em nossos sistemas culturais.


As palavras são multimoduladas, nos ensina Derrida, elas sempre carregam ecos de outros significados que elas colocam em movimento, apesar de nossos melhores esforços para cerrar o significado. Nossas afirmações são baseadas em proposições e premissas das quais nós não temos consciência. Tudo o que dizemos tem um antes e um depois, uma margem na qual outras pessoas podem escrever. O significado é inerentemente instável: ele procura o fechamento (a identidade), mas é constantemente perturbado pela diferença. Existem sempre significados suplementares sobre os quais não temos qualquer controle, que surgirão e subverterão nossas tentativas para criar mundos fixos e estáveis.

Partindo das noções da linguística Lacan vai apontar para a lógica que separa o sujeito do enunciado e o sujeito da enunciação. O “eu” num enunciado qualquer, apenas representa o sujeito que o enuncia, mas esta representação não reflete aquele que fala, antes é sua produção. Entre o eu do enunciado e o sujeito da enunciação a distância é grande e até, mesmo, intransponível, pois nenhum enunciado pode esgotar o ato da enunciação.

O sujeito do enunciado e o da enunciação não se recobrem: eis a divisão que marca o sujeito da psicanálise, na qual o eu deve ser pensado como uma objetivação imaginária construída a partir da relação especular a um outro. O que o eu manifesta é tão somente a imagem do outro à qual me identifico e na qual me reconheço, e que, por isso mesmo é o lugar de minha alienação.

O eu é uma imagem (significante imaginário) à qual me identifico e na qual me reconheço, mas que nada revela sobre o que sou, na medida em que, entre o que eu penso e o que eu sou, há uma hiância fundamental que permite que eu possa ser, a todo instante outro.

No enunciado: Eu vou ao cinema. O “eu” desse enunciado é o representante do sujeito no discurso, e, mais precisamente, um representante invocado pelo sujeito no ato mesmo de sua enunciação. Na enunciação trata-se do locutor enquanto considerado como uma entidade subjetiva e como lugar e agente da produção dos enunciados.

Uma vez que o sujeito advém pela linguagem é no próprio ato da articulação significante, isto é, na enunciação, que ele advém. No entanto, este sujeito tão logo advém pela linguagem, se perde nela a verdade de seu ser, por não estar aí senão representado. Ao mesmo tempo, quanto à verdade do sujeito, ela só advém naquilo por intermédio do qual o próprio sujeito advém, isto é, na articulação da linguagem, em sua enunciação.

Assim, apoiado na teoria do signo de Saussure, Lacan apresentará sua leitura do inconsciente, que será definido como uma cadeia significante sempre aberta a novas articulações, produzindo novos sentidos. Para Saussure o significante não é um elemento substancial, mas diferencial, portanto só pode ser definido por suas diferenças e não por propriedades ou atributos intrínsecos. Na medida em que se define por oposição, não se pode pensar em significante isolado, mas sempre num mínimo de dois.

Desse modo, S1 – S2 é a escritura elementar da cadeia significante, o mínimo admissível. Mas estes dois significantes não são equivalentes, não são idênticos e nem podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo.

S1 é o primeiro significante representativo da singularidade do sujeito. S1 funda a cadeia significante, mas ao mesmo tempo está fora dela. Sabemos que S1 implica necessariamente S2, que S1 só pode ser cogitado a partir de S2, que a ele se articula e lhe confere sentido. Mas S1 e S2 são diferentes por excelência de modo que S2 não é capaz de representar S1 integralmente. Assim, se S1 representa o sujeito, não há outro significante que possa lhe conferir uma identidade. E mais, S1 apenas representa o sujeito, não se confunde com ele. O sujeito é diferente do significante que o representa.

Mesmo representado por um significante, o sujeito não se confunde com ele: o sujeito não é o significante que o representa, pois este significante apenas reenvia a outros significantes. Ou seja, dizer que o sujeito é efeito do significante não implica que este significante revele algo sobre o que o sujeito é; ele apenas o representa na cadeia. Desse modo, o sujeito é dividido, pois onde é representado, ele não é, e onde é não é representado.

O sujeito aparece na cadeia significante quando nela se produzem dissimetrias, descontinuidades. O tropeço, a fenda, a descontinuidade. Foi com eles que Freud se deparou no discurso de seus analisantes: através dos sonhos, dos atos falhos, dos chistes e dos sintomas.

No Seminário XI Lacan propõe duas operações de constituição do sujeito: Alienação e Separação. A partir dessas duas operações, Lacan determina as duas faltas constitutivas do sujeito.

A entrada da criança na ordem simbólica produz o sujeito, mas, ao mesmo tempo, opera uma propriedade fundamental da subjetividade que é a alienação do sujeito na e pela linguagem. Por isso, ao definir a operação de alienação Lacan aponta para a necessidade dos conceitos do sujeito e do Outro. Define, então, o Outro como “o lugar em que se situa a cadeia significante que comanda tudo o que vai poder presentificar-se do sujeito”.

Assim, liga o Outro e o sujeito de um modo que “constitui, claramente, uma alienação: o sujeito como tal só pode ser conhecido no lugar ou locus do Outro. Não há meio de se definir um sujeito como consciência de si”.

Isso significa que é no campo do Outro que o sujeito se constitui, efeito da ação da linguagem sobre o infante. O sujeito nasce, portanto, numa relação de dependência significante com o lugar do Outro. Sempre que um significante representa um sujeito para outro significante, a alienação se produz.

A alienação, primeira operação essencial em que se funda o sujeito, será mostrada por Lacan através de um gráfico. Esse gráfico apresenta dois conjuntos: o conjunto do Outro e o conjunto do ser – este último transformado em sujeito pelo Outro. Ou seja, não é simplesmente um ser, é um ser transformado pela linguagem.

Constrói-se nessa operação a primeira falta constituinte do sujeito. Ela se relaciona com o fato de que o sujeito não pode ser inteiramente representado no Outro; sempre há um resto. “A relação do sujeito com o seu próprio discurso sustenta-se, portanto, em um efeito singular: o sujeito só está ali presentificado ao preço de mostrar-se ausente em seu ser”. A divisão do sujeito operada pela ordem significante instaura a alienação do sujeito na e pela linguagem. É nesta relação que o sujeito experimenta o seu caráter radicalmente “inessencial”.

O sujeito petrificado pelo significante – e não presentificado – é um sujeito que não faz qualquer pergunta. É o sujeito do cogito, o sujeito da certeza, na medida em que o sujeito do pensamento significa autoconsciência e mestria.

No entanto, segundo Lacan, é necessária uma segunda operação, a separação, para que se consuma a causação do sujeito. A separação responde à inscrição do desejo do Outro na falta que há no intervalo significante. Portanto, uma falta que está tanto dentro do campo do sujeito quanto dentro do campo do Outro. O sujeito irá operar com sua própria falta, resultante da primeira operação – a alienação -, para responder à falta no Outro. É nessa operação que Lacan introduzirá o objeto pequeno a, através do qual o sujeito poderá fazer-se objeto do desejo do Outro.

Na interseção entre o sujeito e o Outro há uma falta, uma lacuna. Essa falta no Outro, Lacan denomina-a desejo. O desejo aparece na falta devido a uma impossibilidade: a impossibilidade de dizer o que se quer. A presença do desejo em si é a presença de algo que falta na fala: o inapreensível, o invisível, o impossível de se escrever. 


Referências Bibliográficas
COLETTE, Soler, O Sujeito e o OutroII, in: Para ler o Seminário 11 de Lacan, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1997.
DERRIDA, Jacques, A Escritura e a Diferença, São Paulo: Ed. Perspectiva, 2002
DOR, Joël, Introdução à leitura de Lacan – O inconsciente Estruturado como Linguagem, Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
LACAN, Jacques, Seminário, Livro XI – os quatros conceitos fundamentais da psicanálise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1990.
ORLANDI, Eni, Análise de Discurso – Princípios e Procedimentos, Campinas, SP: Pontes, 2003.
PAZ, Octavio, A Dupla Chama – amor e erotismo, São Paulo: Siciliano, 1994.




sexta-feira, agosto 25, 2006

TRANSFERÊNCIA E DROGADIÇÃO

Não há clínica sem transferência. Toda a clínica baseada no sujeito pressupõe a transferência, seja ela: médica, psicológica ou psicanalítica. Somente a clínica mecanicista, isto é, a que se constitui apenas pelos exames e medicações prescinde da transferência.
Quando alguém procura um analista para marcar uma hora, dizemos que há uma demanda de atendimento, mas não há ainda transferência. A transferência se constituirá a partir das primeiras entrevistas.
Para a clínica psicanalítica a transferência será o pivô, o eixo no qual gira, se desenvolve o tratamento. Por esse motivo é que para a psicanálise este termo ganha uma dimensão muito específica.
Quando uma pessoa busca um analista, essa busca é vinculada à hipótese de que há um saber em jogo no seu sintoma. Ela quer saber o que se passa com ela: Porque repete uma conduta indesejável que não consegue parar? Qual a razão da sua inconformidade, se podia ser feliz com tudo que a vida lhe deu?
Assim, se por um lado falta o saber, por outro, acredita que ao encontrar a resposta alcançará sua cura. Esse saber que desconhece o sujeito busca fora dele, num outro.
O analista será colocado no lugar daquele que sabe o porquê de sua dor. Essa suposição de saber, que o analisando coloca no analista, constitui a transferência. Cada vez que para uma pessoa essa função do sujeito suposto saber é encarnada por quem quer que seja, analista ou não, isso significa que a transferência já está estabelecida.
Ao analista cabe emprestar sua pessoa para encarnar esse sujeito que se supõe saber, mas ele não deve de maneira alguma identificar-se com essa posição de saber que nada mais é do que um erro, uma equivocação.
A posição do analista não é a de saber, nem tão pouco de compreender o paciente, ao contrário, sua posição, conforme ensina Lacan, é de ignorância. Uma ignorância que podemos traduzir por um convite não apenas à prudência, mas também à humildade, um convite a se precaver contra o que seria a posição de um saber absoluto.
Mas se por um lado o analista não se coloca nesse lugar de saber, por outro também não rechaça essa posição. Ele empresta sua pessoa para ser colocada neste lugar, visto que a análise se realizará a partir da instituição desse outro (o analista), como o sujeito suposto saber.
E é por estar em jogo o saber que o analisando fala. Fala pressupondo que o saber está no lado do analista, mas se engana, porque o saber está no lado do sujeito que fala.
Para que esse saber circule, exige-se que o analista se abstenha de querer dominar, controlar a vida de seus analisandos: de querer educá-los, adapté-los. Pois, assumir o lugar daquele que sabe, é se identificar com o lugar de amo, da figura que se presta a ser modelo, a ser a ideal, provocando a partir desse lugar traços identificatórios.
Podemos falar então da transferência como o amor ao saber, diferenciando-a de qualquer outra relação quotidiana de amor. Fora da relação analítica buscamos no amor um objeto (uma pessoa) que nos preencha, que nos torne completo, pois acreditamos que esta completude nos dará felicidade. O objeto do amor será sempre aquele que sonhamos poder nos completar, aquele que um dia, alcançado, nos trará a felicidade eterna de não mais sentirmos falta. Conforme a parábola de Platão: a nossa outra metade.
Um amor que demanda ser amado, em oposição à revelação acerca do saber sobre o objeto que o causa. O amor que demanda o ser em detrimento ao saber.
A esse ideal de completude do amor à psicanálise vem se opor em sua prática, pois acredita que o sujeito se constitui na falta. Ao não responder a demanda narcísica de amor do analisando, aponta para a falta que o constitui. Buscando então um saber sobre esse objeto precioso que o sujeito constrói para tapar sua falta.
Aquele que chega ao consultório dizendo “eu sou um toxicômano”, não faz uma questão, faz uma nomeação. Esta nomeação é o resultado do discurso de outros e vem no lugar do nome próprio. Diferentemente dos demais sintomas a toxicomania não constitui um enigma para o sujeito, ela está ali como uma máscara ao enigma do sintoma, como fechamento a palavra, como resposta as suas dificuldades.
É uma outra convocação que nos faz esse sujeito. Ele não demanda sentido, demanda ser amado como é, ser compreendido e encontra no analista alguém que compreende algo que vai além da sua relação com a droga, algo que experimentará como enigmático. Que quer esse sujeito de mim? – se perguntará então.
Que o toxicômano possa chegar a esta questão, é nossa aposta de tratamento. Pois ao abrir esse enigma poderemos ser colocados no lugar do Outro que sabe: sabe algo que ele desconhece. Possibilidade de abertura ao movimento da transferência e ao processo analítico.
Maria Holthausen

terça-feira, agosto 15, 2006

NOVA TRADUÇÃO DA OBRA DE FREUD

A editora Imago está realizando uma nova edição das obras completas de Sigmund Freud, sendo que o primeiro volume já foi lançado em meados de 2005, e o segundo recentemente: em 2006. Eis o que consta no site da editora:
“A nova edição brasileira das obras de Freud agrupa os textos por eixos temáticos e está sendo publicada em duas etapas. Na primeira etapa serão publicados os textos mais lidos em psicanálise e obras que refletem a amplitude das idéias de Freud de interesse também para áreas afins, tais como sociologia, pedagogia, ciência política, antropologia, lingüística e ciências cognitivas.
Os artigos e obras estão agrupados pelos seguintes eixos: Artes Plásticas e Literatura; A Vida Sexual; Compulsão, Paranóia e Perversão; Conferências de Introdução à Psicanálise; Escritos sobre Fenômenos Diversos da Psicologia; Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente; Escritos sobre Técnicas Clínicas em Psicanálise; Questões da Cultura e da Sociedade e as Origens da Religião. Além desses temas, a primeira fase de publicação inclui as obras “Projeto para uma Psicologia” (1895); A Interpretação dos Sonhos (1990) e “Sobre a Psicologia do Cotidiano” (1901). Dentro de cada eixo temático a ordem dos textos é cronológica. Esta primeira seleção inspira-se na edição alemã Sigmund Freud Studienausgabe, muito embora a edição brasileira abranja mais textos do que a congênere alemã. Os primeiros três volumes que abrem a tradução brasileira abordam a teoria freudiana sobre a formação do inconsciente e seu papel nas patologias, sob o título genérico de Escritos sobre a Psicologia do Inconscinte.
A segunda etapa também está organizada por eixos temáticos, abarca as numerosas cartas pessoais escritas por Freud, os artigos restantes do denominado período pré-analítico, também alguns importantes textos psicanalíticos que, por repetirem idéias contidas nos textos selecionados na primeira etapa, foram deixados para a segunda fase, resenhas e artigos menores sobre temas diversos. Em conjunto, ambas as etapas cobrem as obras completas da edição alemã Gesammelte Werke.”
O grande diferencial dessa edição é que ela está sendo traduzida diretamente do texto original em alemão, e não a partir da edição inglesa como a atual. Esta nova tradução tem a missão de corrigir as falhas nevrálgicas apresentadas na primeira edição. Então, que seja bem vinda.

terça-feira, julho 18, 2006

SOBRE A VIENA DE FREUD

Texto elaborado por Ligia Czesnat:

VIENA FIN-DE-SIÉCLE
SCORSKE, Cal. Viena fin-de-siécle: cultura e política. Trad. Denise Bottmann. S.P.: Cia das Letras, 1988.


Contexto cultural do fim do século XIX


Viena fin-de siécle, foi uma cidade que realizou inovações, através de sua intelligentsia, que viriam a ser conhecidas em toda a esfera cultural européia como “escolas” vienenses – principalmente na psicologia, história da arte e música. Mesmo nos campos onde as realizações austríacas tardaram mais a obterem o reconhecimento internacional – literatura, arquitetura, pintura e política, por exemplo -, os austríacos entregaram-se a reformulações críticas ou transformações subversivas de suas tradições, que foram reconhecidas pela sua sociedade como radicalmente novas, quando não efetivamente revolucionárias. O termo Die Jungen (os jovens), designação comum aos révoltés inovadores, difundiu-se entre as várias esferas da vida. Inicialmente empregado na política dos anos de 1870, em relação a um grupo de jovens revoltados contra o liberalismo austríaco clássico, a expressão logo apareceu na literatura (Jung-Wien), e a seguir entre os primeiros artistas e arquitetos a adotar o art nouveau e lhe conferir caráter austríaco próprio.
Os novos produtores culturais da cidade de Freud definiam-se reiteradamente em função de uma espécie de revolta coletiva. Mas os jovens estavam se revoltando, não contra os pais, mas contra a autoridade da cultura paterna que lhes fora legada. O que atacavam numa frente ampla era o sistema de valores do liberalismo clássico predominante em que tinham sido criados.
A sociedade austríaca não conseguiu lidar com as coordenadas liberais de ordem e progresso. No último quarto do século XIX, o programa elaborado pelos liberais contra as classes superiores provocou a explosão das inferiores. Os liberais conseguiram soltar as energias políticas das massas, mas antes contra eles próprios do que contra seus antigos inimigos. A um nacionalismo alemão articulado contra os cosmopolitas aristocratas, respondeu a reivindicação de autonomia dos eslavos. Quando os liberais atenuaram seu germanismo em favor do Estado multinacional, foram rotulados de traidores do nacionalismo por uma petite burgeoisie alemã tradicional. O laissez-faire, ao qual caberia libertar a economia dos grilhões do passado, levantou-se os revolucionários marxistas do futuro. O catolicismo, expulso da escola e do tribunal como lacaio da opressão aristocrata, voltou como ideologia dos camponeses e artesões, para os quais os liberalismo significava
capitalismo, e o capitalismo significava judeus. No final do século, mesmo os judeus, a quem o autoliberalismo oferecera a emancipação, a oportunidade e assimilação à modernidade, começaram a virar as costas aos seus benfeitores. O malogro do liberalismo fez dos judeus vítimas, e a resposta mais convincente à vitimação foi dada pelo sionismo: a fuga para o lar nacional. Enquanto outros nacionalistas ameaçavam o despedaçamento do Estado austríaco, os sionistas ameaçavam a secessão.
Portanto, ao invés de unir as massas contra a velha classe dirigente do alto, os liberais convocaram, das profundezas sociais, as forças de uma desintegração geral. O liberalismo não conseguira controlar as forças sociais liberadas por essa dissolução, as quais geraram um novo movimento centrífugo sob a égide tolerante, mas inflexível do liberalismo.
Em Viena, até cerca de 1900, era sólida a coesão entre toda a elite. O salão e o café conservavam sua vitalidade como instituições onde vários tipos de intelectuais compartilhavam idéias e valores, e se misturavam a uma elite de profissionais liberais e homens de negócios, orgulhosa de sua cultura geral e artística. Além disso, a “alienação” dos intelectuais em relação a outros setores da elite, o desenvolvimento de uma subcultura iniciática ou vanguardista, afastada dos valores políticos, éticos e estéticos da classe média, ocorreu em Viena mais tardiamente do que em outras capitais culturais européias, embora talvez de forma mais rápida e definida. A maior parte da geração de produtores culturais, foi excluída do poder político, sem chegar a se separar e se opor a ela como classe dirigente.
Os refinados escritores de Viena, pintores, psicólogos e até historiadores da arte preocuparam-se com o problema da natureza do indivíduo numa sociedade em desintegração. Dessa preocupação resultou a contribuição austríaca para uma nova concepção do homem.
A cultura liberal tradicional tinha se concentrado sobre o homem racional, cujo domínio científico sobre a natureza e controle moral sobre si deveriam criar a boa sociedade. No século XX, o homem racional teve que dar lugar àquela criatura mais rica, mas mais perigosa e inconsciente, que é o homem psicológico. Esse novo homem não é simplesmente um animal racional, mas uma criatura de sentimentos e instintos. Nossos artistas de subjetividade interior pintam-no. Nossos filósofos existencialistas tentam dar-lhe sentido. Nossos cientistas sociais, políticos e publicitários manipulam-no. Até a opressão política e econômica avaliamos em termos de frustração psicológica. Ironicamente, em Viena, foi a frustração política que estimulou a descoberta desse homem psicológico hoje onipresente.
O liberalismo austríaco, como na maioria das noções européias, conheceu sua idade heróica na luta contra a aristocracia e o absolutismo barroco. Essa luta se encerou com a extraordinária derrota de 1848. Os liberais moderados chegaram ao poder e, quase que à sua revelia, estabeleceram um regime constitucional nos anos de 1860. O que os levou à direção do Estado não foi a sua força interna, mas as derrotas da velha ordem às mãos de inimigos externos. Desde o início, os liberais tiveram de partilhar o poder com a aristocracia e burocracia imperiais. Mesmo durante seus vinte anos de governo, a base social dos liberais continuou frágil, restrita aos alemães e judeus-alemães da classe média urbana. Cada vez mais identificados com o capitalismo, conservaram o poder legislativo graças ao expediente não-democrático de direito de voto restrito.
Logo novos grupos sociais passaram a reivindicar a participação política: os camponeses, artesãos e operários urbanos, e os povos eslavos. Nos anos 1880, esses grupos formaram partidos de massa para enfrentar a hegemonia liberal: social-cristãos e pangermânicos anti-semitas, socialistas e nacionalistas eslavos. Seu êxito foi rápido. Em 1895, o bastião do liberalismo, a própria cidade de Viena, foi engolfada por um vagalhão social-cristão. O imperador Francisco José, com o apoio da hierarquia católica, recusou-se a ratificar a eleição de Karl Lueger, o prefeito católico anti-semita. Sigmund Freud, o liberal, comemorou o gesto salvador autocrático dos judeus. Dois anos depois, não se pôde mais deter o vagalhão. O imperador, curvando-se à vontade do eleitorado, ratificou Lueger como prefeito. Os social-cristãos iniciaram uma década de governo em Viena, combinando tudo o que era anátema para o liberalismo clássico: anti-semitismo, clericalismo e socialismo municipal. Também em nível nacional, em 1900, os liberais foram derrotados, como poder político parlamentar, e não vieram a se recuperar. Tinham sido esmagados pelos movimentos de massa modernos, cristãos, anti-semitas, socialistas e nacionalistas.
Essa derrota teve profundas repercussões psicológicas. O estado de espírito suscitado não era tanto de decadência, mas de impotência. O progresso parecia ter chegado ao fim.
Os escritores dos anos 1890 eram filhos dessa cultura liberal ameaçada. Quais eram os valores que tinham herdado, com que teriam de enfrentar a crise? É possível distinguir dois conjuntos de valores na cultura da segunda metade do século: um moral e científico, o outro estético.
A cultura moral e científica da haute bourgeoisie vienense praticamente não se distingue do vitorianismo corrente dos outros países europeus. Em termos morais, era convicta, virtuosa e repressora; em termos políticos, importava-se com o império da lei, ao qual se submetiam os direitos individuais e a ordem social. Intelectualmente, defendia o domínio da mente sobre o corpo e um voltairianismo atualizado: progresso social através da ciência, educação e trabalho duro. É muito freqüente se subestimar as realizações que, em poucas décadas, resultaram da aplicação desses valores à vida jurídica, educacional e econômica da Áustria. Mas nem os valores, nem o progresso alçado com eles conferiram à alta classe média austríaca um caráter único.
A evolução da cultura estética da burguesia cultivada a partir da metade do século, originou a receptividade à vida artística e, ao mesmo tempo, no nível individual, a sensibilidade a estados psíquicos. No início do século XX, à cultura moralista corrente da burguesia européia se sobrepôs, na Áustria, uma Gefühlskutur (cultura dos sentimentos) que minou com o seu amoralismo.
Dois fatos sociais básicos distinguem a burguesia austríaca das burguesias francesa e inglesa: ela não conseguiu destruir e tampouco se fundir com a aristocracia, e, devido à sua fragilidade, ela se manteve dependente e profundamente leal ao imperador, como protetor paterno distante, mas indispensável. A capacidade de monopolizar o poder fez com que o burguês, sentindo-se sempre um pouco forasteiro, procurasse uma integração com a aristocracia. O elemento judaico em Viena, numeroso e próspero, apenas fortaleceu essa tendência, com seu forte impulso assimilacionista.
Raras vezes ocorreu na Áustria uma assimilação social direta na aristocracia. Mesmo os que recebiam título de nobreza não eram admitidos, como na Alemanha, à vida da corte imperial. Mas existia uma outra via mais aberta se assimilação: a via da cultura. Ela, no entanto, também tinha suas dificuldades. A cultura tradicional da aristocracia austríaca distanciava-se muito da cultura legalista e puritana de burgueses e judeus. Profundamente católica, era de uma cultura plástica, sensual. Enquanto a cultura burguesa tradicional via a natureza como uma esfera a ser dominada pela imposição da ordem sob leis divinas, a cultura aristocrata austríaca concebia a natureza como cenário de alegria, manifestação da graça divina a ser glorificada na arte. A cultura austríaca tradicional, ao contrário da alemã, não era moral, filosófica ou científica, mas basicamente estética. Suas maiores manifestações estavam nas artes aplicadas e de espetáculo: arquitetura, teatro e música. A burguesia austríaca, radicada na cultura liberal da razão e do direito, se confrontou com uma cultura anterior elegante e sensual. Os dois elementos, resultaram num composto altamente instável.
A primeira fase de assimilação à cultura aristocrática foi externa. Mostra-a em fatos arquitetônicos da nova Viena, construída pela burguesia ascendente dos anos 1860. Os dirigente liberais, numa reconstrução urbana que excedia à Paris sob Napoleão III, tentaram desenhar sua história, numa linhagem, por meio de edifícios grandiosos inspirados por um passado gótico, renascentista ou barroco que não lhes pertencia.
Uma segunda via de acesso à cultura aristocrática, ainda mais extraordinária do que a orgia arquitetônica, passava pelo patronato das artes de espetáculo, de sólida tradição. Essa forma penetrou mais na consciência da classe média do que a arquitetura, pois o terreno já fora preparado pelo teatro popular tradicional de Viena. A nova haute bourgeoisie de Viena pode ter começado a patrocinar o teatro e música clássica , mas no final do século é inegável que seu entusiasmo por essas artes era mais autêntico do que o das outras burguesias européias. Nos anos de 1890, os heróis da classe média alta não eram mais líderes políticos e sim atores, artistas e críticos.
No final do século, alterou-se a função da arte para a sociedade de classe média de Viena, e nessa transformação a política desempenhou um papel central. Se os burgueses vienenses tinham começado por sustentar o templo da arte como sucedâneo da assimilação à aristocracia, terminaram por encontrar nele uma válvula de escape, um refúgio fora do desagradável mundo da realidade política cada vez mais ameaçadora. A vida da arte tornou-se um sucedâneo da vida de ação. Com efeito, à medida que a ação civil se mostrava cada vez mais vazia, a arte se convertia quase que numa religião, fonte de sentido alimento do espírito.
Ao absorver a cultura estética, o burguês vienense absorveu junto o sentimento coletivo de casta e função, que a aristocracia conservava mesmo na decadência. O burguês, fosse dândi, artista ou político, não podia anular sua herança individualista. Conforme
aumentava o sentimento das Gleitende, o escorregar do mundo, o burguês interiorizava sua cultura estética adquirida, para assim cultivar o eu, a sua unicidade pessoal. Essa tendência levou à preocupação da vida psíquica individual. Ela fornece o elo entre a devoção à arte e o interesse pela psique. Uma boa ilustração sua é o estilo empregado na seção cultural da imprensa, lida com avidez: o feuilleton. Ele tendia a transformar a análise objetiva do mundo como uma sucessão casual de estímulos às sensibilidades, e não como um palco de ações. O folhetinista era o reflexo do leitor de sua coluna: suas características eram o narcisismo e a introversão, a receptividade passiva da realidade exterior e, sobretudo, a sensibilidade a estados psíquicos. Essa cultura burguesa do sentimento condicionou a mentalidade dos intelectuais e artistas, refinou suas sensibilidades e gerou seus problemas.
As conseqüências foram o narcisismo e a hipertrofia da vida dos sentimentos. A ameaça dos movimentos políticos de massa emprestou uma nova intensidade e essa tendência já existente, ao enfraquecer a confiança liberal tradicional no seu legado de racionalidade, lei moral e progresso. A arte se transformou de ornamento em essência, de expressão em fonte de valor. A ruína do liberalismo metamorfoseou ainda mais a herança estética em cultura de nervos sensíveis, hedonismo inquieto e, muitas vezes, franca ansiedade. E, acrescendo-se ao quadro já complexo, a intelligentsia liberal austríaca não deixou totalmente de lado o fio anterior de sua tradição, a saber, a cultura moralista-científica da lei. Com isso, a culpa se mesclou, e mutilou, nos melhores representantes austríacos, a afirmação da arte e da vida dos sentidos. Essa presença continuada da consciência no tempo de Narciso reforçou as fontes políticas da ansiedade na psique individual.
Intelectuais e artistas: Arthur Schnitzler, Georg Wegenthin, Hugo von Hofmannsthal, Sigmund Freud, Wilhelm Fliess, Maurice Ravel, Gustav Klimt, Oto Wagner, Camillo Sitte, Richard Wagner, Arnold Schoenberg, Oskar Kokoschka, etc.

sexta-feira, junho 09, 2006

corpoemaprocesso / teatrodesessência


Eu estou em posição de risco: qualquer traço, ou sulco profundo na superfície do objeto; esboço; projeto; horizonte visual. Risco: penhasco alto; possibilidade de perigo; de perda ou ganho; responsabilidade pelo dano.
Eu prefiro admitir que não haja mais nada a ser dito ou que o dito, a fala, não é o mesmo que afirmar que a linguagem fala “como consonância do quieto”, no modo de dizer do filósofo que busca, no poema, o falar da linguagem como o que se diz genuinamente (isto afirma Heidegger, a caminho da linguagem).
O que busco no poema é o que escapa à linguagem. Um descaminho. Se a experiência da linguagem e a linguagem da experiência estão em jogo no fazer a experiência da experiência, então é possível entrar no lugar vazio da escuta. Não de uma escuta que extraia o que é levado a soar em palavra, mas a escuta de um não-dizer próprio que se abisma fora da linguagem, no saber ouvir uma linguagem sem entendimento. Saber ir ao desencontro.
Que lugar é este fora da linguagem? É preciso, primeiramente, desfazer-se do desejo de morar na fala essencial da linguagem (como aspirou o filósofo), para perder-se no desconhecido da experiência que se dá para além do limite possível do já dito. Maurice Blanchot aponta para “o lado de fora de toda a fala” [BLANCHOT, E.L., p.45]. Ele sugere uma escrita que, invisivelmente, é convocada a desfazer o discurso, mas, estranhamente, ele também confia à linguagem a importância de, ela mesma, se tornar o essencial. Afirma ele: “a linguagem fala como o essencial e é por isso que a fala confiada ao poeta pode ser qualificada de fala essencial. (...) O poeta faz obra de pura linguagem e a linguagem nessa obra é retorno à sua essência”. Mas que essência é essa, afinal? Heidegger, por exemplo, tenta destruir a noção de essência aristotélica que arrasta para si toda a substância universal, o ‘é’ absoluto, a unidade da forma, e evoca o vigor. Essência é aquilo que é enquanto vigora. A experiência de realizar o modo de ser de mundo e coisa em sua transitividade vigente. No entanto, o uso da fisicalidade do corpo próprio como experiência da linguagem delata, ao contrário, uma des-essência. Um modo de ser às avessas. Um fora que transita dentro e um dentro que transita fora. Uma presença radicalmente ausente, que des-vigora a estrutura e põe em vigor um processo, sem vigas, flutuante, sem começo, sem fim. É a experiência da linguagem desfazendo-se da linguagem, como coisa que, originariamente, necessita do conhecido para dizer. Aqui se enuncia um antilogocentrismo. O corpo, irredutível ao discurso, é ele mesmo amphíbolos, o ambíguo que escapa à apreensão do logos, do código, separado que está das operações lógicas. É a incidência da obscuridade no gesto, o estranho, o suspeito, ‘o que é de fora’.
Corpoemaprocesso: o que permanece indeterminado faz provar do inacabamento. Isto implica uma leitura produtiva, de processo e, desse modo, acaba-se por criar uma versão do corpo como objeto/poema: e aqui, ocorre a livre intervenção (apropriação, no rigor da versão) à poética de Wlademir Dias-Pino, instaurador do Poema/Processo – movimento literário surgido no Brasil, em 1967, como continuidade radical à Poesia Concreta – e que, hoje, ainda reúne o diverso, desconforta, discorda e se ultrapassa.
1948: Wlademir Dias-Pino elabora A ave, trazendo em sua fisicalidade funcional, sempre em processo, a invenção do primeiro livro/poema da história da literatura, feito para uma leitura de manuseio. Um objeto/poema que se explica ao longo do uso: é sua fisicalidade funcional de objeto de leitura autoconsumível que faz dele o poema. É Wlademir quem dissocia a poesia do poema. Poesia é estrutura, língua; não existe sem a palavra. Poema é linguagem, processo. A poesia traz a marca redundante do autor, a soberania do estilo. O que interessa para Wlademir é a “anti-redundância de soluções: a despersonificação”, o contra-estilo, conquista operacional do Poema/Processo. O critério de valor está no “teste de funcionalidade do poema”, criando novas versões a cada apropriação imprevisível, operando processos na visualização do projeto. Processo, versão e contra-estilo, são conceitos-chaves que o livro/poema de Wlademir Dias-Pino traz para o uso de um leitor/produtivo, problematizando a relação produção/consumo, em que fica claro que o interesse está mais na formação de produtores do que de consumidores.
Fim dos anos 80. A experiência que denominei Teatro Desessência, vivenciada numa práxis/teórica, embrenha-se pelo caminho vertiginoso da filosofia, com toda a sua violência que força a pensar, em direção a um pensamento do corpo, da carne, que aparece no inapreensível, em acontecimento imprevisto, aleatório, desprovido da dominação da palavra. É preciso des-vigorar o que vigora no domínio da fala essencial. A experiência solitária no ato realiza um descaminho com o teatro de Antonin Artaud, suspendido entre todas as formas. O uso da fotografia como matéria extraída do imaterial da própria vivência performática, a um passo alcança o vídeo, não como uma maneira de registrar e narrar, mas como um modo de pensar que dá lugar à fragmentação, ao descentramento, à vertigem do corpo criando uma corpovideografia. É pela mistura desses elementos que o trabalho desta pesquisa atingiu o espaço da literatura, através da porta escancarada pelo Poema/Processo. A tese de doutorado executa um objeto/tese. Ela é a leitura física desse corpoescritura, gerado na desordem e na diferença, unido e despedaçado, simbólico e alegórico, orgânico, múltiplo, disperso, suspenso num paradoxo indissolúvel. O discurso acadêmico produzido pela pesquisa e o suporte formal que o recebe estão, aí, radicalmente afetados. A tese impressa em 19m de tecido, versão primeira composta por quatro volumes separados em rolos, é ilegível. Foram apresentadas, então, dez outras versões em papel, com os quatro livros amarrados, em cruz, a um pedaço de couro – condição física para que o corpoemaprocesso possa ser lido à luz do dia.
Clarissa Alcantara
Apresentado no Seminário Internacional Paradigmas para as Artes Visuais no Século XXI
Universidade Federal Fluminense / Programa de Pós-Graduação em Ciência da Arte
Centro Cultural Banco do Brasil – Rio de Janeiro
E Jornada do Poema concreto – processo - experimental
Universidade Federal de Minas Gerais – Belo Horizonte
Maio / 2006

terça-feira, junho 06, 2006

Um endereço virtual interessante

Muito interessante, criativo e corajoso o trabalho de Fernanda Magalhães.
Artista, fotógrafa, performer, professora da universidade estadual de londrina e doutoranda em artes na unicamp.
http://fermaga.blogspot.com/


sábado, maio 20, 2006

e-mail do Rogerio

O Rogério continuou pensando o discurso da última aula e elaborou uma questão muito interessante. Voltaremos a ela na próxima aula.


“Ao ser indagado sobre a inclusão da Imagem Acústica de Saussure no Campo das Pulsões Parciais, afirmei que sim. Não obstante, devia estar errado, pois se a Imagem Acústica é uma das faces (inseparáveis) do signo saussuriano, juntamente com o conceito (Significante/Significado) ela só pode pertencer ao Campo do Outro, Campo A.
Se entendi direito, o campo do Outro é o do Significante, da Linguagem (do assujeitamento), conceito que Lacan deriva do signo linguístico de Saussure, substituindo a noção de dualidade (faces inseparáveis) saussuriana pela noção de duplicidade, ou seja, liberdade, e prioridade, do significante com relação ao significado.
É isso, Professora?”

sábado, abril 22, 2006

PROGRAMA DO CURSO

Acompanha, concomitante a proposta deste Curso, a responsabilidade de instaurar um espaço de discursividade alinhavado por um desejo de transmissão. Sabemos, de acordo com o mito freudiano da horda primeva, que fundar um espaço nada mais é que tornar efetivo um ato assassino, que, como tal, é a invenção, a criação de um lugar entre aqueles mesmos que lhe dão corpo, laço de in-corpo-ração.
Assim é que, para a psicanálise, as gerações não são o produto de uma genealogia ou de uma filiação, mas do assassinato, metafórico, do significante pelo significado. Nenhum pai é naturalmente pai. O Urvater freudiano á apenas um pai de construção discursiva pelo qual se radicaliza toda a ausência de um pai, anterior ao ato assassino.
Nenhum analista pode crer num pai fundador. Ele não pode - pela razão mesma de que não há analista, mas apenas uma função analista -, imaginar sua tarefa de outra forma que numa reinvenção de um discurso no qual a função “autor” prevalece em relação a toda noção de “pai”. Tudo o que, em psicanálise, procede da sucessão ou de transmissão só pode ser considerado, portanto, a partir da noção de discursividade e, mais particularmente, a de instauração de discursividade.
Será “autor” aquele que, ao ocupar essa função, produz uma obra pessoal. Uma obra cuja regra de formação permite, por sua vez, a produção de outros enunciados, os quais podem, em seu conteúdo, diferir dos textos fundadores que os tornaram possíveis, mas que têm que exigir para si, entretanto, a origem num mesmo lugar de discurso.
Alheios a essa noção situaram-se aqueles a quem Lacan chamou de “os freudianos da segunda geração”. Foram os que, por não terem sabido pôr em operação o modo de instauração de discursividade freudiano, desenvolveram um regime de aderente adesão ao texto, para finalmente chegar apenas, por pura fetichização, a um modo de transmissão geracional – ou pior: de engendramento clonado.
O processo das gerações em psicanálise, ao contrário de uma tal inércia, só pode, portanto, ser entendido a partir de um eterno retorno a Freud. O fato de que Lacan tenha se sentido intimado a operá-lo nem por isso nos deixa quites. Pois, ao final de cada retorno é preciso reinventar esse lugar vazio, essa contagem – a partir do zero – sem a qual nenhuma série é possível.
Objetivos:
Oferecer um percurso de estudo dos fundamentos da psicanálise de orientação lacaniana, levando em conta as mudanças de paradigma na teoria freudiana e no ensino de Lacan.
A quem se dirige
A todos aqueles interessados pela teoria e clínica da psicanálise lacaniana: profissionais e estudantes de qualquer área; praticantes e não praticantes da psicanálise.
Estrutura do curso
O Curso será estruturado a partir de quatro eixos temáticos:
1º. Semestre de 2006
<!--[if !supportLists]-->1) <!--[endif]-->Conceitos Fundamentais da Psicanálise (Inconsciente, Repetição, Transferência, Pulsão).
<!--[if !supportLists]-->2) <!--[endif]-->Os quatro discursos (Discurso do Mestre, Discurso da Histérica, Discurso do Analista, Discurso Universitário).
2o. Semestre de 2006
3) Real, Simbólico e Imaginário nas formulações lacanianas.
4) Estruturas clínicas: Neuroses, Psicoses e Perversão.
Carga Horária:
32 horas Semestrais
Horários:
Quinzenal
Dia: Sexta Feira
Horas: Das 14:30 às 18:00hs.
Início:
05 de Maio de 2006.

OUTRO(S) NUM CASAMENTO

Uma conversa com Marcos José Müller, autor do recém lançado Outro(s) num Casamento. MARIA: Gostaria em primeiro lugar que você fala...