quarta-feira, maio 23, 2007

Bibliografia


BIBLIOGRAFIA

  • Barthes, Roland, Como viver junto, São Paulo, Martins Fontes, 2003.

  • Birman, Joel, Gramáticas do erotismo, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2001.
  • Freud, Sigmund, Três Ensaios sobre a teoria da sexualidade - (1905), Vol. VII, Obras Completas, Rio de Janeiro, Imago, 1980.
  • ____________, Delírios e sonhos na “Gradiva” de Jensen – (1906), Vol. IX, Obras Completas, Rio de Janeiro, Imago, 1980.
  • _____________, O mal-estar na civilização – (1930), Vol. XXI, Obras Completas, Rio de Janeiro, Imago, 1980.
  • Foucault, Michel, Ética, Sexualidade, Política, Ditos e Escritos – livro V, Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2004.
  • ____________, A Hermenêutica do Sujeito, São Paulo, Martins Fontes, 2004.
  • Kristeva, Julia, Histórias de Amor, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988.
  • ---------------, No Princípio era o amor – psicanálise e fé, São Paulo, Brasiliense, 1987.
  • Kierkegaard, Soren A., As obras do Amor – Algumas considerações cristãs em forma de discursos, Petrópolis, Vozes, 2005.
  • Lacan, Jacques, O Seminário, livro 8 – a transferência, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1982.
  • ____________, O Seminário, livro 5 – as formações do inconsciente, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1999.
  • ____________, O Seminário, livro 20 – mais, ainda, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1982.
  • Montero, Rosa, paixões – amores e desamores que mudaram a história, Rio de Janeiro, Ediouro, 2005.
  • Nasio, J.- D., Édipo – o complexo do qual nenhuma criança escapa, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2007.
  • Nasio, J.- D., Cinco lições sobre a Teoria de Jacques Lacan, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1993.
  • Nasio, J.- D., Lições sobre Os 7 Conceitos crucias da Psicanálise, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1989.
  • Novaes, Adauto – Organizador, O Desejo, São Paulo, Companhia das Letras, 1990.
  • Ovídio, A arte de Amar, Portugal, Europa-américa, 1931.
  • Platão, Diálogos – Mênon – Banquete – Fedro, Rio de Janeiro, Ediouro.
  • Soler, Colette, O que Lacan dizia das Mulheres, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2005.
  • Wilke, Rejane, O Fim do Desejo no Casamento sem Fim, Florianópolis, Insular, 2006.

quarta-feira, maio 16, 2007

Complexo de Édipo

QUARTA AULA
09/05/2007

Primeiro momento
: auto-erotismo – corpo despedaçado.
Segundo momento: eu Ideal.
Campo do Imaginário - Estádio do espelho – imagem especular.
(O eu está ligado à imagem do corpo próprio. A criança vê sua imagem total refletida pelo espelho, mas existe uma discordância entre essa visão global da forma de seu corpo, que precipita a formação do eu, e o estado de dependência e de impotência motora em que ela se encontra na realidade. Lacan enfatiza, nesse ponto, a prematuridade, a condição de impotência da criança, que seria a razão de tal alienação imaginária no espelho. Ele mostra como a criança antecipa, através dessa experiência, o domínio de seu corpo: enquanto, antes, vivenciava-se como um corpo despedaçado, agora ela se acha cativada, fascinada por essa imagem do espelho, e se rejubila. Mas trata-se de uma imagem ideal dela mesma, à qual ela jamais conseguirá unir-se. A criança se identifica com essa imagem e fixa-se então numa “estrutura”. Toma-se pela imagem e conclui; “a imagem sou eu”, embora essa imagem se situe do lado de fora, externa a ela. Aí está o que Lacan chama de identificação primordial com uma imagem ideal de si mesmo.) in: Os 7 conceitos cruciais da psicanálise, Juan David Nasio.
No Seminário XI Lacan volta à dialética do estádio do espelho e assinala que a visão da imagem no outro não basta, por si só, para constituir a imagem do corpo próprio. O importante, para que a imagem se mantenha, é a existência de um furo nessa imagem: posso ver minha imagem no espelho, mas o que não posso ver é meu próprio olhar.
Neste momento o infans procura o olhar da “mãe”: o olho que se olha no olho que o olha. Neste espaço virtual se constitui um intercâmbio libidinal, que, no fundo, nada mais é que um intercâmbio de fascinação recíproca.
Tal relação dual torna-se efetivamente impossível de viver, não havendo saída satisfatória nessa relação entre um eu e um eu ideal, pois não há subjetivação: o sujeito não se reconhece ali, porque está apenas capturado ali. De fato, é o ideal do eu – simbólico – que pode regular as relações entre um eu e um eu ideal.
Terceiro Momento: Ideal do eu
Campo Simbólico.
O ideal do eu corresponde a um conjunto de traços simbólicos implicados pela linguagem, pela sociedade e pelas leis. Esses traços são introjetados e fazem a mediação na relação dual imaginária. O sujeito encontra um lugar para si num ponto – o ideal do eu – de onde se vê como possível de ser amado, na medida em que satisfaça a certas exigências. O simbólico passa a prevalecer sobre o imaginário, o ideal do eu sobre o eu. Assim, o simbólico superpõe-se ao imaginário e o organiza. O ideal do eu representa uma introjeção simbólica (em oposição ao eu ideal, assimilado a uma projeção imaginária) que se constrói com o significante do pai como terceiro na ralação dual com a mãe.
Em 1955, no Seminário 2 sobre o eu, Lacan retorna à questão do narcisismo: para que se estabeleça uma relação com o objeto do desejo, é preciso que haja uma relação narcísica do eu com o outro. O narcisismo representa a condição necessária para que os desejos dos outros se inscrevam, ou para que os significantes se inscrevam. Uma definição possível do significante, entre outras, seria esta: um elemento de uma cadeia da linguagem onde o desejo do outro se inscreve. E a imagem do corpo fornece o quadro das inscrições significantes do desejo do outro. A imagem do corpo representa o primeiro ponto de engate dos significantes e, inicialmente, dos significantes da mãe. O modo como eles se inscrevem, sobretudo a sucessão das identificações, determina as modalidades segundo as quais se farão as flutuações libidinais.
De fato, a imagem do outro aparece então como fragmentada: são séries de imagens, um conjunto de traços que o sujeito investe.
Existe para cada sujeito uma séria de significantes privilegiados, uma série de elementos em que o desejo do outro se inscreve, e esses significantes se revelam para ele na relação imaginária com o semelhante. Ganham efeito, adquirem consistência na relação narcísica com o outro. Ilustremos essas proposições com o auxílio de uma seqüência clínica, comentada por Lacan no Seminário XVI – De um outro ao Outro.
Trata-se da história de uma fobia infantil narrada por um homem de vinte anos. Quando contava sete anos de idade, ele estava brincando com o seu irmão mais velho no quintal da granja onde fora criado. Estava agachado quando, bruscamente, o irmão pulou em cima dele, por trás, imobilizou-o nessa posição e disse: “Eu sou o galo e você é a galinha!” O menino recusou-se a ser a galinha e caiu em prantos, no auge da raiva. A partir desse momento, ficou com uma fobia às galinhas. Esse episódio com o irmão agiu como um revelador: fez saber ao sujeito o que ele era antes, sem que se apercebesse, em sua relação com a mãe. De fato, fazia muito tempo que o menino cuidava do galinheiro com a mãe, e os dois iam juntos ver se as galinhas estavam pondo ovos corretamente. O menino gostava da maneira como a mãe o tocava e lhe perguntava, à guisa de brincadeira, antes de lhe dar banho, se devia tocá-lo com o dedo para ver se ele ia pôr um ovo. Ele estava no lugar da galinha para a mãe, estava na situação de suprir a falta da mãe, encarnando a “galinha” dela e podendo fornecer-lhe ovos fecais. Assim, estava dedicado ao gozo da mãe, sem ver surgir a questão de seu desejo e de sua falta.
Essa seqüência mostra que foi realmente na relação narcísica com o semelhante, através da imagem remetida pelo semelhante, que o significante “galinha” revelou-se ao sujeito. Foi na relação imaginária com o outro que lhe foi revelado o que ele era, havia muito tempo, sem o saber.

sábado, maio 05, 2007

O estádio do espelho

TERCEIRA AULA
02/05/2007

O estádio do espelho
O estádio do espelho é, para a teoria lacaniana, o momento inaugural de constituição do eu. Por volta dos dezoitos meses o infans, aquele que ainda não fala, configura uma totalidade corporal por meio da percepção da própria imagem no espelho. Esta percepção precisa ser acompanhada do assentimento do outro que a reconhece como verdadeira.
Assim, o eu é descrito por Lacan como essencialmente imaginário, embora sua constituição não prescinda do reconhecimento simbólico do Outro (no caso, encarnado pela mãe). A vivência de unidade que o bebê tem nesse momento, com a obtenção de um contorno nítido e definido, estabelece a passagem da sensação de um corpo fragmentado, no qual há uma indiferenciação entre seu corpo e o de sua mãe, para a do corpo próprio.
Em uma dimensão contraria as pulsões, o eu é, desde sempre, a sede das resistências ao pulsional e ao desejo. A ilusão de totalidade que ele configura estará a partir daí em constante confronto com a parcialidade das pulsões.
Considerando o eu como sede do desconhecimento crônico do desejo do sujeito, Lacan empenhou-se em estabelecer a distinção entre o eu e o sujeito. Se o eu é da ordem do imaginário e do sentido, o sujeito é efeito dos significantes: registro simbólico. Isso equivale a dizer que a unidade obtida no eu não é jamais alcançada no nível do sujeito, pois este é sempre dividido, impossível de se identificar de modo absoluto.
É preciso salientar que o imaginário lacaniano não é da ordem da mera imaginação. Esse registro deve ser entendido como o da relação especular, dual, com seus logros e identificações, mas, sobretudo, segundo os desenvolvimentos finais de Lacan, com o advento do sentido. Já o simbólico é da ordem do duplo sentido, e o real, que não se confunde com a realidade, é o não-senso radical, ou como diz Lacan, o “sentido em branco”.

quarta-feira, abril 25, 2007

Aula

Segunda aula
Resumo
Nó Borromeu
SIMBOLICO
IMAGINÁRIO
REAL
1. Sujeito do inconsciente - $
1. Eu – totalidade
1. Ser – ser de gozo
2. Duplo sentido
2. Sentido
2. não sentido/ não-senso
3. Inconsciente (Outro)
3. Identificações
3. Pulsões
4. objeto a – semblante: peito, fezes, olhar, voz
4. I(a) – falo (objeto da fantasia)
4. das Ding – a Coisa
(furo – consistência lógica)
5. amor na ordem da contingência – cessa de não se escrever.
5. amor na ordem do necessário (sintoma) – não cessa de se escrever.
5. amor na ordem do impossível – não cessa de não se escrever.

Desdobramento dos três registros:
Campo do Real:
  1. Real-real: a Coisa horrenda: a cabeça da Medusa, o alienígena do filme, o abismo, o monstro.
  2. Real-imaginário: designa não a ilusão do Real, mas o Real da própria ilusão. Esse é o ponto do Real no Outro.
  3. Real-simbólico: as fórmulas científicas sem sentido, por exemplo, a física quântica. Não conseguimos integrá-la em nosso horizonte de significações; ela consiste em fórmulas que simplesmente funcionam.

Campo do Simbólico:
  1. Simbólico-real: É idêntico ao Real simbólico, formulas sem sentido.
  2. Simbólico-simbólico: é simplesmente a fala como tal, a fala dotada de sentido.
  3. Simbólico-imaginário: os arquétipos – símbolos junguianos e coisas similares.

Campo Imaginário
  1. Imaginário-real: seria a Coisa pavorosa.
  2. Imaginário-imaginário: seria a imagem como tal, a imagem sedutora.
  3. Imaginário-simbólico: os símbolos.
Slavoj Zizek em Arriscar o impossível

quinta-feira, abril 19, 2007

"O Esplendor de Portugal": a desconstrução da identidade na ficção de Lobo Antunes

 

António Lobo Antunes, o grande vencedor do Prêmio Camões de Literatura deste ano, é um dos escritores portugueses mais conhecidos fora do seu país. No entanto, ao contrário de outros ilustres autores lusitanos, Lobo Antunes nunca manteve uma grande relação de amor com Portugal. Nascido em Lisboa, em 1942, formou-se em Medicina, exerceu a Psiquiatria e participou da Guerra Colonial de Angola (1961-1974), quando as últimas colônias européias na África foram desocupadas.

Entre os vários romances de Antunes publicados no Brasil destaco O Esplendor de Portugal, cujo título é lícito interpretar pela via do irônico, pois nos remete ao último verso do hino nacional português: “Levantai hoje de novo o esplendor de Portugal”.O hino português, de 1890, conseguiu traduzir numa associação entre música e poesia o sentimento patriótico de revolta dos portugueses contra o ultimato imposto pela Grã-Bretanha. Constitui-se em expressão simbólica da nação portuguesa, vindo a ganhar força de símbolo nacional consagrado por meio da afirmação de independência que representa e reitera.

Por contraste, a narrativa ficcional do romance não se propõe a consagrar nenhum símbolo, nenhum traço da identidade portuguesa. Esse hiato entre a representabilidade significante do título e a história ficcional é o que nos permite pensar o título como uma mirada irônica do autor.A ironia é um caso típico de discurso bivocal. Nela, segundo Mikhail Bakhtin, a palavra tem duplo sentido: volta-se para o objeto do discurso como palavra comum, e também para um outro discurso. A consideração pelo discurso do outro implica o reconhecimento de um segundo contexto como meio de perceber o significado da ironia. O autor fala a linguagem do outro, revestindo, porém, essa linguagem de orientação oposta à do outro. É uma espécie de emprego ambíguo do discurso do outro. A “segunda voz, uma vez instalada no discurso do outro, entra em hostilidade com o seu agente primitivo e o obriga a servir a fins diametralmente opostos. O discurso se converte em palco de luta entre duas vozes”.

Ironizar é dizer algo pelo enunciado e, portanto, remeter à enunciação, mas é também voltar-se contra a própria enunciação acrescendo-lhe uma idéia oposta no instante mesmo da enunciação. Assim sendo, a mesma enunciação serve para dizer algo e, simultaneamente, para dizer o seu contrário, devido ao valor argumentativo oposto das enunciações. É esse valor argumentativo oposto que garante a instauração dos opostos.
Assim, compreendemos a ironia do título no justo momento em que ele afirma uma identidade nacional consagrada, qual seja, a do colonizador português, encetando já, no mesmo passo, a desconstrução - dir-se-ia que traço por traço - dessa identidade por meio da narrativa do romance.Toda identidade humana é uma construção simbólica e histórica. Como assevera Kwane Appiah: todo o mundo tem o seu quinhão de pressupostos falsos, erros e imprecisões que a cortesia chama de “mito”, a religião de “heresia”, e a ciência de “magia”. Histórias inventadas, biologias inventadas e afinidades culturais inventadas vêm juntamente com toda a identidade; cada qual é uma espécie de papel que tem que ser roteirizado, estruturado por convenções de narrativa a que o mundo jamais consegue conformar-se realmente.Para o psicanalista Jacques Lacan, o ser humano ao entrar na linguagem perde qualquer garantia de consistência. 

A linguagem constrói o sujeito em torno de uma falta, tornando-o um sujeito dividido, um sujeito a quem falta-a-ser.Por se constituir enquanto falta-a-ser, o sujeito precisa dos significantes que irão representá-lo no mundo. Esses significantes, dados pelo grande Outro da cultura, regulam a estruturação imaginária do “eu” e constroem uma identidade. Desse modo, relações de parentesco, cor, gênero e nacionalidade são alguns dos significantes com os quais o sujeito se deixa representar, ou seja, se identifica e, a partir deles, constrói seu lugar no mundo.Na narrativa ficcional de O Esplendor de Portugal, Lobo Antunes constrói personagens cujas identificações não garantem qualquer representatividade, não garantem um lugar social. O fluxo narrativo vai se armando por meio da desconstrução de representatividades estabelecidas por papéis e lugares sociais.Num jogo de equívocos e incompreensões mútuas, conversas truncada entre seres alienados de sua realidade própria, quatro personagens vão tecendo o fio narrativo do romance.

Na primeira parte, Carlos e a sua mãe – Isilda - vão sucedendo-se na narração da história. Na segunda parte, Rui e Clarisse, os irmãos de Carlos, vêm juntar as suas vozes à narrativa.No entanto, sobre o personagem Carlos é que se concentra a diluição identificatória com a qual o autor, numa brincadeira que nos pareceu às vezes cínica, às vezes sádica, constrói seus personagens.Carlos é apresentado no primeiro momento do romance como irmão de Clarisse e de Rui, e filho de Isilda. Porém, essas identificações que garantiam ao personagem um lugar dentro de uma família, vão sendo desconstruídas ao longo do romance. Logo descobrimos que Carlos é só meio-irmão de Clarisse e de Rui, e não é filho de Isilda, mas é filho do marido de Isilda com uma negra. Isilda compra a criança da mãe biológica, e traz para dentro da sua família. Afinal, Carlos era uma criança com uma pele muito clara, quase branca. Só olhando-o bem de perto notava-se que Carlos não era branco, era um preto. Não, também não era preto, era mestiço.Assim, ele é e, ao mesmo tempo, não é. A sua voz como narrador tenta definir essa inconsistência na seguinte passagem:

...as pessoas quando chamavam
Carlos
Chamavam um Carlos que era eu em elas não eu nem era eu em eu, era um outro, da mesma forma que se lhes respondia não era eu quem respondia era o eu deles que falava e o eu em eu calava-se em mim e portanto sabiam apenas do Carlos delas não sabiam de mim e eu permanecia um estranho, um estrangeiro, um eu que era dois, o deles e o meu, e o meu por ser apenas meu não era e então dizia como eles diziam

Carlos
Carlos, Carlos, Carlos

até a palavra Carlos esvaziada de nexo não significar nada salvo um som semelhante aos dos ramos das mangueiras ou aos suspiros sem perguntas dos setters no seu sono, até a palavra Carlos se tornar uma pele que se larga, não o eco de um eco mas um corpo sem vida fora da vida deles, e então podia fechar os olhos, partir do escuro deles, das preocupações deles, da fazenda deles e dissolver o meu eu em mim à medida que o relógio de parede, mudando de ritmo, intrigava os pavões..

Atormentado pelos significantes que marcam sua origem, Carlos vai mostrando que num mundo dividido entre “ser branco” e “ser negro” o mestiço está além desses lugares identificatórios marcados pela cultura. Um “entre-lugar” que para ele era percebido como “lugar nenhum”.
Ao longo da narrativa, o personagem vai sendo apresentado por várias vozes, a partir desse movimento paradoxal de construção e des-construção de todas as suas identificações.

Para a avó materna, Carlos era uma presença estranha, incômoda e vergonhosa dentro da família: Desde quando se mistura um mestiço com brancos Isilda, desde quando um mestiço come à mesa conosco?. Mas veremos que à aversão da avó pelo neto mestiço, não se diferencia da visão da portuguesa branca colonizadora pelo povo africano colonizado.

A minha avó para quem os africanos eram não uma raça diferente, mas uma espécie zoológica distinta capazes até certo ponto de imitar as pessoas e todavia sem nada meu Deus que os aparentasse a nós, basta ver do que se alimentam que até baratas engolem, basta ver como andam, reparar como transportam os filhotes, iguaizinhos aos mandris, a minha avó num eco de agonia como anos mais tarde com o padre à volta dela, mascarado de feiticeiro mas sem anilinas nem penas, desenhando-lhe cruzes na testa numa polca em latim, a minha avó olhava para o Carlos como se o Carlos não pudesse fazer mais do que mentir, os trapaceiros dos mestiços, repugnantes, sujos, por que motivo o trouxeram de Malanje, por que razão não o deixaram no quimbo a acabar de fome como lhe competia para descanso da gente.

Não é difícil detectarmos nesse fragmento a cadeia metafórica na qual a avó representa a figura do neto: “trapaceiro”, “mestiço”, “repugnante”, “sujo”. A partir destes significantes, desses lugares simbólicos em que é representado pelo Outro e pelo qual ele crê poder representar-se; pode, simultaneamente, assegurar-se de que tem corpo, de que pertence à ordem dos semelhantes. Eis aí alguns dos lugares em que Carlos, no discurso da avó, era incluído e, ao mesmo tempo, excluído da ordem dos semelhantes na família “branca portuguesa”.É também, nesse universo fronteiriço entre a interioridade e a exterioridade social, incluindo e, ao mesmo tempo, excluído dos laços familiares, que iremos constatar a posição do filho no discurso da mãe:

o meu filho Carlos, o mais velho, o primeiro dos meus filhos e Deus sabe o que me custou aceitá-lo, aquele que toma conta dos irmãos em Lisboa e acha que eu não gosto dele por.
eu não ser mãe dele.
por eu não ser mãe dele calcule-se como se a mãe de uma pessoa.
como se a mãe de uma pessoa não fosse.
aquela que o aceitou desde pequena e se afeiçoou a ele e o criou.
como se a mãe de uma pessoa não.
... o Carlos nunca soube quem era nem nunca perguntou quem era da mesma forma que estou segura que nunca a procurou em Malanje no caso de continuar em Malanje no caso de continuar viva.
como se a mãe de uma pessoa não fosse.
como se a mãe de uma pessoa não fosse a que o aceitou desde pequeno e o criou ..

A maneira pela qual o autor nos apresenta os fragmentos de idéias de Isilda, espalhados ao longo de um capítulo, aproxima-se da desordem das idéias em seu nascedouro, antes de sofrerem a influência da consciência ordenadora.

Assim, num primeiro momento, Isilda define para si mesma que a mãe de uma pessoa é aquela que se afeiçoou a esta última e a criou. Mas logo em seguida lhe vem à lembrança a mãe negra que gerou e pariu Carlos, aquela que mora em Malanje, e sobre a qual pensa que Carlos nada quer saber. Mas, na verdade, não é Carlos que não quer saber sobre essa outra mulher, ele vai atrás dela em determinado momento, ele quer vê-la, ele quer saber dos segredos que transformaram em enigma a sua concepção. Isilda, esta sim, nada quer saber sobre essa outra que foi por certo tempo objeto de desejo do seu marido. Magoada com o marido, um homem que vive bêbedo pelos cantos da casa e que não pode protegê-la, Isilda nada quer saber sobre o desejo desse homem. Então, após a lembrança de Malanje, conclui que a mãe de uma pessoa é aquela que a aceitou desde a infância e a criou.Vemos, então, que num primeiro momento Isilda pode pensar no seu lugar de mãe para Carlos, marcado não pela significação do amor, mas pela da afeição. Mas logo em seguida essa idéia é atravessada pela imagem da outra, representada pelo lugar de origem desta: Malanje. Isilda então define o seu lugar de mãe não mais pelo afeto, mas pela aceitação. Ela aceitou, com grande dificuldade, o filho do seu marido com a outra. Ela aceitou e criou a criança, que representava o desejo do seu marido por Outra, colocando-se numa posição diametralmente oposta à da sua mãe, que, como acompanhamos na narração da própria Isilda, tomava para si a função de interditar o desejo do marido pela amante francesa, relembrando ao marido que era ela, a esposa, quem deveria ocupar o lugar de objeto do seu desejo. Isilda não esquece nem perdoa a traição do marido. Ao trazer o fruto desse ato para dentro de sua casa, ela garante que o ato jamais será esquecido. No entanto, o lugar que irá ocupar não é a da furiosa mulher traída, mas antes o lugar de um aparente sacrifício abnegado. Ela aceita e cria o filho do marido com a outra, mas, nesse mesmo ato, ela se ausenta como esposa e objeto do seu desejo. A partir daí, ela pode trair o marido dentro de sua própria casa, no escritório, enquanto o marido dorme, caído de bêbado nalgum lugar da casa. Ela pode, enfim, vir a ocupar o lugar de objeto de desejo de um homem.

Isilda acredita que o filho não gosta dela. Não gosta da mãe que o criou. Acredita que a única pessoa de quem o filho gosta é a Maria da Boa Morte, a criada negra que a ajudou a criar os seus três filhos e que a acompanhará até o final da sua vida. Isilda, ao olhar para Carlos, reconhece sua própria falta refletida no olhar do “filho”.Carlos vivencia a sua dor, a sua falta-a-ser, através da sonoridade significante das batidas do relógio da sala: “sístole, diástole, sístole, diástole, sístole diástole”. Desvela-se assim na sonoridade do relógio que a função da palavra inscrita se funde com a função significante que por si só não significa nada, mas que remete à sua característica de imagem acústica. Testemunhamos o personagem imerso em som, referindo-se ao relógio como aos seus movimentos cardíacos que parecem ter vida e quem sabe tato, textura, como se as letras chegassem a poder tocá-lo.



Durante muitos anos se me acontecia acordar antes dos outros pensava que o bater do relógio de parede na sala era o meu próprio coração e ficava horas e horas de olhos abertos quieto no escuro a ouvir-me viver.

Através da sonoridade desses significantes, Carlos parece encontrar uma representação de si e um lugar dentro da família. Assim, a lembrança da mãe zangada gritando o seu nome o faz observar que

...sem entender que era graças a mim que podia zangar-se, que no momento em que o relógio, em que eu, cessássemos de bater
...sístole diástole, sístole diástole
...a casa e a minha família e Angola inteira se sumiam, tinha de permanecer quieto, com qualquer coisa no peito da esquerda para a direita e da direita para a esquerda.
...não podia adormecer, nunca poderia adormecer, tinha de ficar horas e horas de olhos abertos, quieto no escuro para que ninguém morresse dado que enquanto qualquer coisa no meu peito oscilasse da esquerda para a direita e da direita para a esquerda continuávamos a existir, a casa, os meus pais, a minha avó, a Maria da Boa Morte, eu, continuaríamos todos, para sempre, a existir.

Seria realmente Carlos o núcleo, o coração da família? Aquele que ao marcar o seu lugar como resto, como enigma, como menos um, pode vir a ser causa de desejo do outro? Carlos agrega em torno de si uma família cujos laços afetivos são frouxos, quase inexistentes. Uma família na qual o pai, totalmente imerso no solitário estado de alcoólatra, não consegue assumir a sua função de representante da lei, que poderia vir a interditar o gozo sem limite da mulher e da filha. Carlos tenta fazer suplência da falta paterna, tenta por várias vezes imprimir uma ordem à vida da mãe e principalmente da irmã, mas não consegue. Frustrado, acaba por abandonar a mãe, no seu retorno para Portugal com os irmãos. O lugar de Carlos no papel daquele que mantinha o laço familiar não era o do grande Outro, representante da lei, mas do pequeno objeto a, enquanto resto, enquanto enigma. Deste lugar, Carlos poderia sustentar a posição de vazio, de não saber, provocando no outro ou nos outros a sua volta, o desejo de saber, e daí, desse lugar, construir laços sociais. Ou então, se tornar um Cínico, aquele que não acredita nos semblantes sociais, que não acredita que nenhum significante possa fazer suplência de sua falta-a-ser, mas que, ainda assim, pode sustentar laços sociais.


No entanto, Carlos não consegue fazer nenhuma escolha. Imerso em um profundo estado melancólico e abandonado por todos - inclusive por Lena, a moça pobre com quem se casa, e da qual sente muita vergonha perante seus amigos de escola –, Carlos depara consigo solitário na noite de Natal, num pequeno apartamento em Lisboa, que não ficou um centímetro maior com a ausência da mulher “amada”: a tremer um aceno de adeus no fundo da memória.



Texto publicado no Caderno de Cultura - DC - de 14/04/2007
Maria Leite Holthausen

quarta-feira, abril 11, 2007

CURSO - 2007
O que é o insustentável da co-existência?

O que nos impele a viver junto, a fazer par, a amar? A tradição filosófica apela para o reencontro da unidade perdida. Amar é aspirar a ser um só.
Por sua vez, na tradição da teoria psicanalítica – a obra de Freud - o amor reina entre as águas do narcisismo e da idealização. Amar implica em querer ser amado e dar consistência à vaidade do amor que se dirige ao próprio eu. É, por isso mesmo, a via do amor-paixão que coloca em cena o objeto amoroso na vertente da idealização. O registro do impossível – do objeto para sempre perdido – é negado e substituído pela promessa de felicidade. Nega-se a castração para sustentar a ilusão de que o amado tem o que falta ao amante.
Seguindo a trilha freudiana, Lacan, primeiramente, localizou o amor no campo do Imaginário. É a versão do amor que engana e é enganador: dois semelhantes se ligam num engodo de aprisionamento em que se perdem transitando do amor à agressividade. Trata-se do equivoco de persuadir o outro de que ele tem o objeto que nos falta.
Num segundo momento, atravessado pela teoria da transferência - a partir do Seminário VIII -, Lacan continua a problematizar as questões relativas ao amor pela via dos dois outros registros: Simbólico e Real.
No campo do Simbólico, no nível do ser falante, o que o amor vem demonstrar é a não inscrição no Real de um saber que diga respeito à sexualidade. Não há entre os seres falantes o que chamamos de instinto. A relação com o Outro dentro do campo Simbólico não é estabelecida por qualquer instinto. O desejo não pode absolutamente servir-se disso uma vez que o desejo é uma questão.
A partir desta perspectiva, Lacan pode definir o amor como o encontro, no parceiro, dos sintomas, dos afetos, de tudo o que em cada um marca o rastro de seu exílio da relação sexual. Isto é, se o amor é da ordem da contingência, é porque algo não está inscrito.
É, notadamente, no Seminário XX onde se pode ler um elogio do amor pela função de suplência à inexistência da relação sexual que ele comporta. Segundo Lacan, no plano do gozo, não há como ter acesso ao Outro sexo: não há relação sexual porque o gozo do Outro, tomado como corpo é sempre inadequado – perverso de um lado, no que o Outro se reduz ao objeto a – e de outro, eu direi louco, enigmático.
Assim, se no real do sexo a relação sexual não se inscreve, se no corpo a corpo nenhum dos parceiros goza do corpo do outro, a suplência do amor consiste no laço que se estabelece entre um casal situado aqui não no eixo imaginário, mas, segundo Lacan, entre dois sujeitos do saber inconsciente.
È, então, por esta via, a via do inconsciente, que Lacan vai deduzir a relação intrínseca entre amor e verdade. Afirmando que ambos têm estrutura de ficção e, como tais, são artifícios com a função de criar uma tela protetora diante dos enigmas sem decifrações.
Objetivos:
Partindo do trabalho de leitura das formulações de Jacques Lacan e Maurice Merleau-Ponty, pretendemos problematizar as relações: Sujeito-Objeto, e Sujeito-Outro sobre a perspectiva da psicanálise e da fenomenologia.
A quem se dirige:
A todos aqueles interessados pela teoria e clínica da psicanálise lacaniana e da fenomenologia merleaupontyana. Profissionais e estudantes de qualquer área; praticantes e não praticantes da psicanálise.
Estrutura do curso
O Curso será estruturado a partir de quatro eixos temáticos:
1. O campo do Sujeito
· Alienação/Separação: as duas operações de causação do Sujeito.
· Sujeito: falta-a-ser
·Falasser
· O sintoma

2. O campo do Amor
               . Narcisismo
· Objeto amoroso: érastès/érôménos.
·Freud e o amor: o mal-estar na civilização
· O Parceiro sintoma

3. O campo do Desejo e a Sexualidade
·O desejo e a lei.
· O desejo: o que não cessa de não se escrever.
· A necessidade: o que não cessa de se escrever.
· O objeto causa de desejo: a Coisa.

4. O Campo do Outro
·A metáfora amorosa
· O insustentável da relação: “a relação sexual não existe”.
· A Coisa.
· O Outro.
· O Invisível.


Carga Horária:
20 horas (dez semanas)

Horário:

Dia: Quarta Feira
Horas: Das 16:30 às 18:20.

Início:
18 de abril de 2007.
Local:
CFH – sala 310 – UFSC – Trindade-SC

Inscrições:
Departamento de Filosofia - UFSC
BIBLIOGRAFIA
FREUD, Sigmund, O mal-estar na Civilização, in: Obras Completas, livro 24.
LACAN, Jacques, O aturdito, in: Outros Escritos, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2003.
-------------------, O Seminário, livro 20, mais, ainda, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1982.
MERLEAU-PONTY, Maurice, O Visível e o Invisível, São Paulo: Editor Perspectiva S.A., 2003.
Zizek, Slavoj, e Daly Glyn, Arriscar o impossível – Conversas com Zizek, São Paulo: Martins, 2006.


quinta-feira, abril 05, 2007

CLARISSA CONVIDA


CABARÉ VOLTAIRE
Dias 21 e 22,
sábado e domigo,
20 horas



CORPOEMAPROCESSO TEATRODESESSÊNCIA:
O QUE NASCE DO ESQUECIMENTO
Apresentação da Performer
CLARISSA ALCÂNTARA (SC)
Processo inaugurado em 1988, denominando-se teatro desessência, Corpoemaprocesso é uma experiência performática indeterminada que põe, por pura determinação, o corpo em uso no acontecimento do agora.

A proposta é investigar um pensamento do corpo que aparece no inapreensível, no acontecimento imprevisto, desprovido da dominação da palavra, separado de qualquer origem, sem lei, sem manifesto, sem estatuto, criado em ato/processo. O que nasce do esquecimento, inaugura seu novo projeto performático: "eu me contei uma história, gostei dela e adormeci..." ; texto-imagem dos diários de Lourdes Alcantara.
Realização: CCBH - Centro de Cultura Belo Horizonte

terça-feira, março 20, 2007


CURSO DO PROFESSOR MARCOS NESTE SEMESTRE
PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA
UFSC

Curso: Estética e inestética no discurso filosófico
Ministrante: Prof. Marcos Muller
Dia: terça-feira: (Horário:das 13:30 às 16:30 horas);

Objetivo do curso:
Estabelecer uma leitura do texto “O olho e o espírito” de Maurice Merleau-Ponty à luz da proposta de constituição de um discurso inestético, tal como este foi concebido por Alain Badiou em seu “Pequeno manual de instética”.

Apresentação do curso:
Alain Badiou, em seu “Pequeno manual de inestética” (2002), reconhece haver, entre a filosofia e a arte, uma espécie de “laço” que muito faz lembrar a cumplicidade que Lacan reconheceu haver entre o discurso do mestre e o discurso da histérica. Se, por um lado, é a partir da provocação histérica (“o que tens tu para me ensinar?”) que o mestre se põe a trabalhar, por outro, é a obstinação do mestre que faz da histérica uma cortesã. Da mesma forma, para Badiou, a arte é a encarnação de uma dúvida que a filosofia é incapaz de dirimir, muito embora fosse à filosofia que os artistas, por séculos a fio, recorreram no intuito de compreender o mistério que eles viviam por dentro. Tal relação, na versão de Badiou, não fez mais que sedimentar três respostas distintas à interrogação sobre a “natureza” da arte, respostas estas que nem mesmo o século XX foi capaz de ultrapassar. A resposta “didática”, formulada por Platão, retorna no século XX pela pena do marxismo. A resposta “romântica”, estabelecida no século XIX, ressurge nos termos da hermenêutica heideggeriana. E o “classicismo” aristotélico, para o qual a arte não é mais que um órgão de prazer frente à impossibilidade de uma apresentação sensível da verdade, é ressuscitado no discurso psicanalítico. Mas Badiou não desacredita na possibilidade de uma transformação nessa história de submissão histérica da arte à filosofia. Mais do que isso, Badiou aposta na possibilidade de haver um discurso filosófico que opere a partir de uma verdade que, a sua vez, não tem origem no universalismo filosófico, mas na singularidade artística. A noção de inestética, em algum sentido, vem denominar essa possibilidade, que Badiou explica nos seguintes termos: “(p)or inestética entendo uma relação da filosofia com a arte, que, colocando que a arte é, por si mesma, produtora de verdades, não pretende de maneira alguma torná-la, para a filosofia, um objeto seu. Contra a especulação estética, a inestética descreve os efeitos estritamente intrafilosóficos produzidos pela existência independente de algumas obras de arte” (p. 8).
Em nosso curso, pretendemos discutir e “experimentar” a possibilidade de uma tal inestética, a qual encontramos executada não apenas nos capítulos em que Badiou disserta sobre a poesia, a dança, o cinema... Antes dele, num ensaio consagrado a estabelecer uma ontologia a partir da obra de arte, Merleau-Ponty escreve um clássico que poderíamos considerar um tratado de inestética avant la lettre. Com esse texto, Merleau-Ponty introduz a temática que será título de sua famosa obra incabada, postumamente denominada de “O visível e o invisível”, mas que, mais a contento de Badiou, deveria se chamar “A origem da verdade”. O que, enfim, a arte tem a nos dizer sobre a verdade? O que é uma verdade artística? Ou, conforme Derrida, “qual é a verdade em pintura” (1989, p. 10).

Bibliografia básica:

BADIOU, Alain. 2002 Pequeno manual de inestética. Trad. Marina Appenzeller. São Paulo: Estação Liberdade.
DERRIDA, Jacques.
La vérité en peinture. Paris: Flammarion.
FERRY, Luc. 1994. Homo aestheticus: a invenção do gosto na era democrática. Trad.Eliana Maria de Melo Souza - São Paulo: Ensaio. 1994.
HAAR, Michel.
2000 A obra de arte – ensaio sobre a ontologia das obras. Trad. Maria
Helena Kühner. Rio de Janeiro: Difel
MERLEAU-PONTY, MAURICE 1945: Phénoménologie de la perception. Paris, Gallimard. Tradução brasileira de Carlos A. R. Moura: Fenomenologia da percepção. São Paulo, Martins Fontes, 1994.
_____ 1960: Signes. Paris, Gallimard.
_____ 1962: “Candidature au Collège de France – Un inédit de Merleau-Ponty”. Revue de métaphysique et de morale, v. 1, n.67, pp. 401-9.
_____ 1964a: Le visible et l'invisible.
Paris, Gallimard. Tradução brasileira de José A. Gianotti>: O visible e o invisível. São Paulo, Perspectiva, 1992.
_____ 1969: La prose du monde. Paris, Gallimard.
_____. 2004. O olho e o espírito. Trad. Paulo Neves e alli. São Paulo: Cosac & Naify
SARTRE, Jean- Paul. 1997 O ser e o nada – ensaio de ontologia fenomenológica. Trad.Paulo Perdigão. 2.ed. Petrópolis: Vozes
_____ 1989. Que é a literatura. Trad. Carlos Felipe Moisés. SP: Ática, 1989.

domingo, março 18, 2007


A Aliança Francesa de Florianópolis convida para a conferência As palavras viajam, os homens emigram de Tahar Ben Jelloun. O escritor franco-marroquino autografará o seu último livro lançado no Brasil.

O evento dá início ao curso de literatura, francófona e fancesa - A Flânerie Desvendada em Protótipos LIterários - Olhares e Travessias de Contrastes.
Este curso será regido por um dos membros deste grupo, querido amigo Daniel Felix.
Dia: 22/3/2007
Local: Hotel Sofitel (Beira-Mar) Av. Rubes de Arruda Ramos, 2034
Horário: 19h
Informações: (48) 3202.6100

quinta-feira, março 15, 2007


AS MULTIMODULAÇÕES
DO TRABALHO DE CLARISSA

http://clarissaalcantara.blogspot.com/

terça-feira, março 13, 2007

SUGESTÃO

Para quem ainda não leu, fica aqui a sugestão para uma boa leitura:

Slavoj Zizek e Glyn Daly
Arriscar o impossível – Conversas com Zizek
Editora Martins Fontes

É, verdadeiramente, espantoso acompanhar a forma como Zizek cruza a simplicidade do entorno com o rigor na interpretação de noções filosófica e psicanalítica de difícil compreensão. Inegável, em meu entender, é também a atualidade com que alguns temas são tratados e que, a somar à dimensão filosófica, abordam a esfera ética e política com uma firmeza irrepreensível.
Desaconselhável para os dogmáticos da Filosofia e da Psicanalítica. Para os outros todos, uma deliciosa leitura.

sábado, março 03, 2007

CINEMA BOM E DE GRAÇA

Cine Clube Aliança Francesa, inicia nesta segunda 05/03, 18:30, com o filme Nha Fala.

Local: Fundação Cultural BADESC (Rua Visconde de Ouro Preto, 216, Centro), Entrada Franca.
Uma comédia musical cheia de alegria, humor e otimismo, onde a heroína Vita é interpretada por Fatou N’Daye. A banda sonora é do lendário Manu Dibango.
Nha Fala conta à história de uma garota proibida de cantar pelos pais, conseqüência de uma maldição ancestral que condena á morte toda a mulher da família que ouse quebrar esse tabu. Ao optar por estudar em França, Vita resolve cantar e gravar um CD, cujo sucesso é imediato. Com medo que a sua mãe descubra que quebrou a promessa, decide voltar e encenar a sua própria morte para melhor ressuscitar.
É uma história contemporânea que pretende construir uma ponte entre Europa e África, e representa uma nova geração que respeita as tradições mas que quer viver no seu tempo.

 

domingo, fevereiro 25, 2007

DISCURSIVIDADE



 
" O homem, novo Aquiles perseguindo uma outra tartaruga, está fadado, em razão da captação de seu desejo no mecanismo da linguagem, a essa aproximação infinita e nunca satisfeita, ligada ao próprio mecanismo do desejo, que chamaremos simplesmente de discursividade."
Lacan, Seminário V, 1957-58, p.127

sexta-feira, fevereiro 16, 2007

A noção de sujeito na Psicanálise

A Noção de Sujeito na Psicanálise Lacaniana

Maria Holthausen

Octavio Paz, logo no início de A dupla chama, diz que “tanto nos sonhos como no ato sexual abraçamos fantasmas. O nosso parceiro tem corpo, rosto e nome, mas a sua realidade, principalmente no momento mais intenso do abraço, dispersa-se em uma cascata de sensações que, por sua vez, se dissipam. Há uma pergunta que se fazem todos os apaixonados e que condensa em si o mistério erótico: ‘Quem é você?” Pergunta sem resposta, Os sentidos são e não são deste mundo”.

Se para Octavio Paz o sentido está no mundo – que compreendemos como realidade discursiva – e fora dele; para Lacan, o sentido se capta por escapar. Nem tudo é dizível, nem tudo pode ser falado. Há algo mais ainda, que insiste além das tentativas da representação simbólica: o sentido é desejo, mas também é gozo. Sempre que falamos, escrevemos ou lemos, intervimos na rede de filiação dos sentidos. No entanto, lembra Orlandi, falamos, escrevemos e lemos com palavras já ditas: “É porque a língua está sujeita ao equívoco, e o saber é um ritual com falas que o sujeito, ao significar, se significa.”


A noção de Sujeito: Descartes a Freud.


Fred constrói o aparelho psíquico através de uma estrutura tripartite: Ide, Ego e Superego. Desde então, o sujeito na teoria psicanalítica não pode ser pensado nem como indivíduo nem como eu. Ao falar do sujeito da psicanálise não é possível remeter-se ao sujeito cartesiano: racional, pensante e consciente.  

Em Descartes, pensar assegura a existência daquele que pensa como coisa (ser) pensante, conferindo-lhe uma identidade a si. O “eu sou” cartesiano vale como a substantificação do eu penso, que se torna uma realidade plenamente presente a si, substancialmente certa. Este é o ponto de dessimetria entre a teoria cartesiana e a teoria freudiana. Em Freud, pensar não equivale a ser, pois sou também onde não penso, e o fato de pensar não me assegura que eu seja. “O sujeito não é um dado, mas uma descontinuidade nos dados”.

O sujeito freudiano não só não é idêntico a si, como se torna sempre outro, na medida em que, para Freud, a representação não é mais o espelho do mundo e o lugar da verdade.

Diferentemente de Descartes, a representação em psicanálise não pode ser definida como imagem especular do mundo, como instrumento de acesso à verdade das coisas, na medida em que a dimensão de uma ordem natural não faz parte do campo psicanalítico. Em Freud, a representação deve ser entendida como uma construção que dá ao mundo e ao próprio sujeito um sentido, colorindo-os com significações diversas sem que nenhuma possa ser apontada como verdadeira.

De Freud à Lacan






Na intenção de sublinhar que o ser do sujeito não é constituído como uma identidade de consistência significante, Lacan caracteriza o discurso sobre o sujeito com o termo “pré-ontológico”. Vai buscar na teoria da linguagem de Saussure uma nova perspectiva para pensar a noção de inconsciente. Para Saussure nós não somos em nenhum sentido, os autores das afirmações que fazemos ou dos significados que expressamos na língua. Nós podemos utilizar a língua para produzir significados apenas nos posicionando no interior das regras da língua e dos sistemas de significado de nossa cultura. A língua é um sistema social e não um sistema individual. Ela preexiste a nós. Falar uma língua não significa apenas expressar nossos pensamentos mais interiores e originais; significa também ativar a imensa gama de significados que já estão embutidos em nossa língua e em nossos sistemas culturais.


As palavras são multimoduladas, nos ensina Derrida, elas sempre carregam ecos de outros significados que elas colocam em movimento, apesar de nossos melhores esforços para cerrar o significado. Nossas afirmações são baseadas em proposições e premissas das quais nós não temos consciência. Tudo o que dizemos tem um antes e um depois, uma margem na qual outras pessoas podem escrever. O significado é inerentemente instável: ele procura o fechamento (a identidade), mas é constantemente perturbado pela diferença. Existem sempre significados suplementares sobre os quais não temos qualquer controle, que surgirão e subverterão nossas tentativas para criar mundos fixos e estáveis.

Partindo das noções da linguística Lacan vai apontar para a lógica que separa o sujeito do enunciado e o sujeito da enunciação. O “eu” num enunciado qualquer, apenas representa o sujeito que o enuncia, mas esta representação não reflete aquele que fala, antes é sua produção. Entre o eu do enunciado e o sujeito da enunciação a distância é grande e até, mesmo, intransponível, pois nenhum enunciado pode esgotar o ato da enunciação.

O sujeito do enunciado e o da enunciação não se recobrem: eis a divisão que marca o sujeito da psicanálise, na qual o eu deve ser pensado como uma objetivação imaginária construída a partir da relação especular a um outro. O que o eu manifesta é tão somente a imagem do outro à qual me identifico e na qual me reconheço, e que, por isso mesmo é o lugar de minha alienação.

O eu é uma imagem (significante imaginário) à qual me identifico e na qual me reconheço, mas que nada revela sobre o que sou, na medida em que, entre o que eu penso e o que eu sou, há uma hiância fundamental que permite que eu possa ser, a todo instante outro.

No enunciado: Eu vou ao cinema. O “eu” desse enunciado é o representante do sujeito no discurso, e, mais precisamente, um representante invocado pelo sujeito no ato mesmo de sua enunciação. Na enunciação trata-se do locutor enquanto considerado como uma entidade subjetiva e como lugar e agente da produção dos enunciados.

Uma vez que o sujeito advém pela linguagem é no próprio ato da articulação significante, isto é, na enunciação, que ele advém. No entanto, este sujeito tão logo advém pela linguagem, se perde nela a verdade de seu ser, por não estar aí senão representado. Ao mesmo tempo, quanto à verdade do sujeito, ela só advém naquilo por intermédio do qual o próprio sujeito advém, isto é, na articulação da linguagem, em sua enunciação.

Assim, apoiado na teoria do signo de Saussure, Lacan apresentará sua leitura do inconsciente, que será definido como uma cadeia significante sempre aberta a novas articulações, produzindo novos sentidos. Para Saussure o significante não é um elemento substancial, mas diferencial, portanto só pode ser definido por suas diferenças e não por propriedades ou atributos intrínsecos. Na medida em que se define por oposição, não se pode pensar em significante isolado, mas sempre num mínimo de dois.

Desse modo, S1 – S2 é a escritura elementar da cadeia significante, o mínimo admissível. Mas estes dois significantes não são equivalentes, não são idênticos e nem podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo.

S1 é o primeiro significante representativo da singularidade do sujeito. S1 funda a cadeia significante, mas ao mesmo tempo está fora dela. Sabemos que S1 implica necessariamente S2, que S1 só pode ser cogitado a partir de S2, que a ele se articula e lhe confere sentido. Mas S1 e S2 são diferentes por excelência de modo que S2 não é capaz de representar S1 integralmente. Assim, se S1 representa o sujeito, não há outro significante que possa lhe conferir uma identidade. E mais, S1 apenas representa o sujeito, não se confunde com ele. O sujeito é diferente do significante que o representa.

Mesmo representado por um significante, o sujeito não se confunde com ele: o sujeito não é o significante que o representa, pois este significante apenas reenvia a outros significantes. Ou seja, dizer que o sujeito é efeito do significante não implica que este significante revele algo sobre o que o sujeito é; ele apenas o representa na cadeia. Desse modo, o sujeito é dividido, pois onde é representado, ele não é, e onde é não é representado.

O sujeito aparece na cadeia significante quando nela se produzem dissimetrias, descontinuidades. O tropeço, a fenda, a descontinuidade. Foi com eles que Freud se deparou no discurso de seus analisantes: através dos sonhos, dos atos falhos, dos chistes e dos sintomas.

No Seminário XI Lacan propõe duas operações de constituição do sujeito: Alienação e Separação. A partir dessas duas operações, Lacan determina as duas faltas constitutivas do sujeito.

A entrada da criança na ordem simbólica produz o sujeito, mas, ao mesmo tempo, opera uma propriedade fundamental da subjetividade que é a alienação do sujeito na e pela linguagem. Por isso, ao definir a operação de alienação Lacan aponta para a necessidade dos conceitos do sujeito e do Outro. Define, então, o Outro como “o lugar em que se situa a cadeia significante que comanda tudo o que vai poder presentificar-se do sujeito”.

Assim, liga o Outro e o sujeito de um modo que “constitui, claramente, uma alienação: o sujeito como tal só pode ser conhecido no lugar ou locus do Outro. Não há meio de se definir um sujeito como consciência de si”.

Isso significa que é no campo do Outro que o sujeito se constitui, efeito da ação da linguagem sobre o infante. O sujeito nasce, portanto, numa relação de dependência significante com o lugar do Outro. Sempre que um significante representa um sujeito para outro significante, a alienação se produz.

A alienação, primeira operação essencial em que se funda o sujeito, será mostrada por Lacan através de um gráfico. Esse gráfico apresenta dois conjuntos: o conjunto do Outro e o conjunto do ser – este último transformado em sujeito pelo Outro. Ou seja, não é simplesmente um ser, é um ser transformado pela linguagem.

Constrói-se nessa operação a primeira falta constituinte do sujeito. Ela se relaciona com o fato de que o sujeito não pode ser inteiramente representado no Outro; sempre há um resto. “A relação do sujeito com o seu próprio discurso sustenta-se, portanto, em um efeito singular: o sujeito só está ali presentificado ao preço de mostrar-se ausente em seu ser”. A divisão do sujeito operada pela ordem significante instaura a alienação do sujeito na e pela linguagem. É nesta relação que o sujeito experimenta o seu caráter radicalmente “inessencial”.

O sujeito petrificado pelo significante – e não presentificado – é um sujeito que não faz qualquer pergunta. É o sujeito do cogito, o sujeito da certeza, na medida em que o sujeito do pensamento significa autoconsciência e mestria.

No entanto, segundo Lacan, é necessária uma segunda operação, a separação, para que se consuma a causação do sujeito. A separação responde à inscrição do desejo do Outro na falta que há no intervalo significante. Portanto, uma falta que está tanto dentro do campo do sujeito quanto dentro do campo do Outro. O sujeito irá operar com sua própria falta, resultante da primeira operação – a alienação -, para responder à falta no Outro. É nessa operação que Lacan introduzirá o objeto pequeno a, através do qual o sujeito poderá fazer-se objeto do desejo do Outro.

Na interseção entre o sujeito e o Outro há uma falta, uma lacuna. Essa falta no Outro, Lacan denomina-a desejo. O desejo aparece na falta devido a uma impossibilidade: a impossibilidade de dizer o que se quer. A presença do desejo em si é a presença de algo que falta na fala: o inapreensível, o invisível, o impossível de se escrever. 


Referências Bibliográficas
COLETTE, Soler, O Sujeito e o OutroII, in: Para ler o Seminário 11 de Lacan, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Ed., 1997.
DERRIDA, Jacques, A Escritura e a Diferença, São Paulo: Ed. Perspectiva, 2002
DOR, Joël, Introdução à leitura de Lacan – O inconsciente Estruturado como Linguagem, Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
LACAN, Jacques, Seminário, Livro XI – os quatros conceitos fundamentais da psicanálise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1990.
ORLANDI, Eni, Análise de Discurso – Princípios e Procedimentos, Campinas, SP: Pontes, 2003.
PAZ, Octavio, A Dupla Chama – amor e erotismo, São Paulo: Siciliano, 1994.




OUTRO(S) NUM CASAMENTO

Uma conversa com Marcos José Müller, autor do recém lançado Outro(s) num Casamento. MARIA: Gostaria em primeiro lugar que você fala...