quinta-feira, junho 28, 2007

Convite

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
CENTRO DE COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO

CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA

Doutoranda
Mara Lúcia Masutti
Tese
“Tradução Cultural: Desconstruções Logofonocêntricas em Zonas de Contato entre Surdos e Ouvintes”
Local: Auditório Henrique da Silva Fontes Prédio B CCE

Horário: 14 horas

Data: 29/06/2007

Banca Examinadora
Dra. Claudia de Lima Costa(UFSC Orientadora e presidente),

Dra. Lodenir Karnopp (UFRGS)
Dra. Lais de Toledo Krücken Pereira (UNISUL)
Dra. Maria Aparecida Leite (Núcleo de Investigação Metafísica UFSC)
Dr. Rafael Camorlinga Alcaraz (UFSC)
Dra. Ronice Müller de Quadros (UFSC)
Dra. Tânia Regina Oliveira Ramos (UFSC suplente)

segunda-feira, junho 25, 2007

Livro







Para os versados e/ou apaixonados por Maurice Blanchot, acaba de sair o segundo volume de Conversa Infinita – A experiência limite. Nesse volume Blanchot aponta sua “clara mirada” para os textos de: Heráclito, Pascal, Simone Weil, Nietzsche, Albert Camus, Georges Bataille e Freud.
Recomendo, claro, o belíssimo texto sobre “A Fala Analítica”.

quarta-feira, junho 20, 2007

Oitava Aula: Sujeito

· O sujeito na teoria psicanalítica não o indivíduo nem o eu.
· Freud, ao criar o conceito de inconsciente, subverte a noção do sujeito cartesiano enquanto sujeito da razão.
· Em Freud, pensar não equivale a ser, pois sou também onde não penso, e o fato de pensar não me assegura que eu seja. “O sujeito não é um dado, mas uma descontinuidade nos dados”.
· O sujeito freudiano não só não é idêntico a si, como se torna sempre outro, na medida em que, para Freud, a representação não é mais o espelho do mundo e o lugar da verdade.
  • Diferentemente de Descartes, a representação em psicanálise não pode ser definida como imagem especular do mundo, como instrumento de acesso à verdade das coisas, na medida em que a dimensão de uma ordem natural não faz parte do campo psicanalítico. Em Freud, a representação deve ser entendida como uma construção que dá ao mundo e ao próprio sujeito um sentido, colorindo-os com significações diversas sem que nenhuma possa ser apontada como verdadeira.
· Na intenção de sublinhar que o ser do sujeito não é constituído como uma identidade de consistência significante, Lacan caracteriza o discurso sobre o sujeito com o termo “pré-ontológico”. Vai buscar na teoria da linguagem de Saussure uma nova perspectiva para pensar a noção de inconsciente. Para Saussure nós não somos em nenhum sentido, os autores das afirmações que fazemos ou dos significados que expressamos na língua. Nós podemos utilizar a língua para produzir significados apenas nos posicionando no interior das regras da língua e dos sistemas de significado de nossa cultura. A língua é um sistema social e não um sistema individual. Ela preexiste a nós. Falar uma língua não significa apenas expressar nossos pensamentos mais interiores e originais; significa também ativar a imensa gama de significados que já estão embutidos em nossa língua e em nossos sistemas culturais.
  • Tudo o que dizemos tem um antes e um depois, uma margem na qual outras pessoas podem escrever. O significado é inerentemente instável: ele procura o fechamento (a identidade), mas é constantemente perturbado pela diferença. Existem sempre significados suplementares sobre os quais não temos qualquer controle, que surgirão e subverterão nossas tentativas para criar mundos fixos e estáveis.
  • Partindo das noções da lingüística Lacan vai apontar para a lógica que separa o sujeito do enunciado e o sujeito da enunciação. O “eu” num enunciado qualquer, apenas representa o sujeito que o enuncia, mas esta representação não reflete aquele que fala, antes é sua produção. Entre o eu do enunciado e o sujeito da enunciação a distância é grande e até, mesmo, intransponível, pois nenhum enunciado pode esgotar o ato da enunciação.
  • Desse modo, S1 – S2 é a escritura elementar da cadeia significante, o mínimo admissível. Mas estes dois significantes não são equivalentes, não são idênticos e nem podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo.
  • Mesmo representado por um significante, o sujeito não se confunde com ele: o sujeito não é o significante que o representa, pois este significante apenas reenvia a outros significantes. Ou seja, dizer que o sujeito é efeito do significante não implica que este significante revele algo sobre o que o sujeito é; ele apenas o representa na cadeia. Desse modo, o sujeito é dividido, pois onde é representado, ele não é, e onde é não é representado.
  • O sujeito aparece na cadeia significante quando nela se produzem dissimetrias, descontinuidades. O tropeço, a fenda, a descontinuidade. Foi com eles que Freud se deparou no discurso de seus analisantes: através dos sonhos, dos atos falhos, dos chistes e dos sintomas.
  • A entrada da criança na ordem simbólica produz o sujeito, mas, ao mesmo tempo, opera uma propriedade fundamental da subjetividade que é a alienação do sujeito na e pela linguagem. Por isso, ao definir a operação de alienação Lacan aponta para a necessidade dos conceitos do sujeito e do Outro. Define, então, o Outro como “o lugar em que se situa a cadeia significante que comanda tudo o que vai poder presentificar-se do sujeito”.
  • Assim, liga o Outro e o sujeito de um modo que “constitui, claramente, uma alienação: o sujeito como tal só pode ser conhecido no lugar ou locus do Outro. Não há meio de se definir um sujeito como consciência de si”.
  • Isso significa que é no campo do Outro que o sujeito se constitui, efeito da ação da linguagem sobre o infante. O sujeito nasce, portanto, numa relação de dependência significante com o lugar do Outro. Sempre que um significante representa um sujeito para outro significante, a alienação se produz.
  • Constrói-se nessa operação a primeira falta constituinte do sujeito. Ela se relaciona com o fato de que o sujeito não pode ser inteiramente representado no Outro; sempre há um resto. “A relação do sujeito com o seu próprio discurso sustenta-se, portanto, em um efeito singular: o sujeito só está ali presentificado ao preço de mostrar-se ausente em seu ser”. A divisão do sujeito operada pela ordem significante instaura a alienação do sujeito na e pela linguagem. É nesta relação que o sujeito experimenta o seu caráter radicalmente “inessencial”.
  • O sujeito petrificado pelo significante – e não presentificado – é um sujeito que não faz qualquer pergunta. É o sujeito do cogito, o sujeito da certeza, na medida em que o sujeito do pensamento significa autoconsciência e mestria.
  • No entanto, segundo Lacan, é necessária uma segunda operação, a separação, para que se consuma a causação do sujeito. A separação responde à inscrição do desejo do Outro na falta que há no intervalo significante. Portanto, uma falta que está tanto dentro do campo do sujeito quanto dentro do campo do Outro. O sujeito irá operar com sua própria falta, resultante da primeira operação – a alienação -, para responder à falta no Outro. É nessa operação que Lacan introduzirá o objeto pequeno a, através do qual o sujeito poderá fazer-se objeto do desejo do Outro.
  • Na interseção entre o sujeito e o Outro há uma falta, uma lacuna. Essa falta no Outro, Lacan denomina-a desejo. O desejo aparece na falta devido a uma impossibilidade: a impossibilidade de dizer o que se quer. A presença do desejo em si é a presença de algo que falta na fala: o inapreensível, o invisível, o impossível de se escrever.

quinta-feira, junho 07, 2007

sétima aula

Adorável ...Foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas procuras), para que eu encontre a Imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Eis um grande enigma do qual nunca terei a solução: por que desejo Esse? Por que o desejo por tanto tempo, languidamente? É ele inteiro que desejo (uma silhueta, uma forma, uma aparência)? Ou é apenas uma parte desse corpo? E nesse caso, o que, nesse corpo amado, tem tendência de fetiche em mim? Que porção, talvez incrivelmente pequena, que acidente? O corte de uma unha, um dente um pouquinho quebrado obliquamente, uma mecha, uma maneira de fumar afastando os dedos para falar? De todos esses relevos do corpo tenho vontade de dizer que são adoráveis. Adorável que dizer: este é meu desejo, tanto que único: “É isso! É exatamente isso (que amo)! No entanto, quanto mais experimento a especialidade do meu desejo, menos posso nomeá-la; à precisão do alvo corresponde um estremecimento do nome; o próprio do desejo não pode produzir senão um impróprio do enunciado: Deste fracasso da linguagem, só resta um vestígio: a palavra ‘adorável’ (a boa tradução de ‘adorável’ seria o ipse latino: é ele, ele mesmo em pessoa).”
Alteração ... O discurso amoroso, ordinariamente, é um invólucro liso que adere à Imagem, uma luva suave envolvendo o ser amado. É um discurso devoto, bem-pensante. Quando a imagem se altera, o invólucro da devoção se rasga; um tremor revira minha própria linguagem. Ferido por uma frase que ele surpreende, Werther vê de repente Charlotte como uma fofoqueira, ele a inclui no grupo das amiguinhas com quem ela bate-papo (ela não é mais o outro, mas um outro entre outros), e diz então desdenhosamente “minhas mulherezinhas”. Uma blasfêmia vem bruscamente aos lábios do sujeito e quebra desrespeitosamente a bênção do anamoramento; ele é possuído por um demônio que fala por sua boca, de onde saem, como nos contos de fadas, não flores, mas rãs. Horrível refluxo da Imagem.
(O horror de estragar é ainda mais forte que a angústia de perder.)

Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoros
.
Eu - Libido - falo
Freud apresenta o eu como o lugar próprio, primeiro, de investimento da libido. Para Freud o interesse erótico pelo corpo próprio se transforma no interesse erótico pelo eu.
Em Lacan há uma diferença essencial entre o sujeito e o eu. E essa diferença comporta uma lógica cujas conseqüências são perceptíveis no conjunto do ensino de Lacan. O sujeito da fala é, essencialmente, um sujeito vazio de libido.
Entre essas duas instâncias, entre essas duas versões da instância do si, do que se refere ao si-mesmo, a diferença é que uma, o eu, inclui o gozo, ao passo que a outra, o sujeito, o exclui.
Imagem fálica
Sujeito: $
eu
libido / falo

Assim, Lacan vai relacionar o sujeito do significante com um outro termo, susceptível de suportar a libido do eu. O termo essencial que vem, então, para inscrever essa libido, é o termo “falo”, que escreve com a letra phi. Para dar conta das propriedades do eu freudiano, é preciso acoplar, ao sujeito barrado, esse termo fálico como representante da libido.
Ou seja, a conseqüência da introdução do simbólico é a promoção do falo que vem representar o valor da libido.
Em seu texto "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose" - 1955/56, Lacan introduz o falo no simbólico não como significante, mas como significação produzida pela metáfora paterna. Quando a metáfora paterna falha e a significação do falo como castração não emerge, é que encontramos evocada a presença de um gozo, em estado livre, não falicizado, que Lacan traduziu como gozo imaginário. A psicose ilustra o que se produz quando a significação do falo não chega a capturar a libido. E Lacan diz “gozo narcísico da imagem”, trazendo, como prova o interesse de Schreber pela própria imagem no espelho, vestido de mulher.

Em “A significação do falo” – 1958, Lacan enuncia o primado do falo em dois tempos:
1º. O primado do falo é a modificação lacaniana do narcisismo. Assim como Freud mostra que a libido, presente nas pulsões, está, todavia centrada no eu, e que é da libido do eu que procede a libido do objeto, Lacan mostra que o falo concentra a libido. O falo em Lacan é um analogon do eu em Freud.
2º. A vantagem dessa operação de deslocamento do eu para o falo é que o falo é um significante e, ao tratar do falo pela sua promoção a um significante maior, Lacan mostra que a libido pode ser abordada a partir do significante.
Com essa concepção Lacan dá conta do privilégio do significante do falo como uma espécie de significante dos significantes. Tudo o que é objeto ou necessidade é substituído pelo significante, devido à demanda: quando há necessidade, demanda-se.

Significante falo
Necessidade

O falo equivale à barra significante que anula o concreto, o objeto, e, em particular, o objeto da necessidade, para convertê-lo em significante.
No texto “A significação do falo”, o próprio falo é marcado pela barra. Ele é equivalente a essa barra, o significante da barra e, como significante, ele próprio a carrega. Surge assim, a sigla menos phi.
Neste sentido, o falo tem uma significação de gozo castrado. Lacan pôde, então, evocar o recalque do falo: longe de se confessar claramente no discurso, esse gozo é para ser encontrado sob a barra, no recalque.
Dessa forma, em “A significação do falo”, Lacan dá conta do que é o investimento de objeto na vida libidinal. No fundo, trata-se de dar conta de como o objeto é investido na vida amorosa. Para Freud, há um investimento de libido, com o eu se empobrecendo em benefício do objeto, o que justifica o termo “transfusão” usado por Lacan. Pode-se dizer que, em Lacan, isso é transposto para outros termos: o que era denominado como investimento de objeto, ele considera como o objeto assumindo a significação do falo.
Isso traduz o deslocamento do narcisismo para o falicismo, ou seja, as considerações de Freud concernentes à libido são traduzidas, por Lacan, em termos de significação do falo. Nesses termos, essa significação é dupla: há uma significação em termos de phi positivo , e uma outra em termos de menos phi.
O menos phi de Lacan, escritura de um gozo castrado, apenas faz repercutir o vazio do sujeito do significante. Lacan, substituindo o eu pelo sujeito, encontra o sujeito em déficit de gozo. Produz, então, o conceito de falo.
Todavia, esse conceito de falo, a partir do momento em que se torna um significante, também é tomado pela negatividade. Por fim, o menos phi impõe-se como falo significante.
Portanto, é necessário a Lacan reinventar um termo positivo. De início, ele é logicamente levado a reinventar o phi maiúsculo, em oposição ao menos phi, como sendo o significante do gozo impossível de negativizar.
Depois, em face das contradições que esse significante impossível de negativizar apresenta, no lugar do phi Lacan inscreverá o a, afirmando não se tratar de um significante, mas sim do positivo do gozo. É o que resta de positivo do gozo, visto que o gozo foi castrado como gozo fálico.



sábado, junho 02, 2007

5a. e 6a. aulas

Auto erotismo: O prazer torna-se independente da necessidade (por exemplo a função de nutrição), e exerce-se de forma auto-erótica; o objeto passa a ser uma parte do próprio corpo.
Narcisismo Primário:
Imaginário – fascinação frente à imagem especular - eu Ideal.
Narcisismo Secundário:
Simbólico – os significantes constroem o Ideal do eu e organizam o imaginário.

Em seu texto - Sobre o Narcisismo: Uma introdução (1914) – Freud distingue dois tipos de escolha de objeto: o tipo anaclítico (anáclise = apoio) e o tipo narcísico.
Segundo Freud, ama-se:
1)
Segundo o tipo narcísico
· O que se é (a si mesmo)
· O que se foi
· O que se quereria ser
· Alguém que foi parte do seu próprio eu.
(necessidade de amar)
2) Segundo o tipo anaclítico
· A mulher que alimenta
· O homem que protege
(necessidade de ser amado)
O nome-do-pai:
A posição do pai como simbólico não depende do fato de as pessoas haverem mais ou menos reconhecido a necessidade de uma certa seqüência de acontecimentos tão diferentes quanto um coito e um parto. A posição do Nome-do-Pai como tal, a qualidade do pai como procriador, é uma questão que se situa no nível simbólico. Pode materializar-se sob as diversas formas culturais, mas não depende como tal da forma cultural, é uma necessidade da cadeia significante. Pelo simples fato de vocês instituírem uma ordem simbólica, alguma coisa correspondente ou não à função definida pelo Nome-do-Pai, e no interior dessa função vocês colocam significações que podem ser diferentes conforme os casos, mas que de modo algum dependem de outra necessidade que não a necessidade da função paterna, à qual corresponde o Nome-do-Pai na cadeia significante.
....Ora, trata-se menos das relações pessoais entre o pai e a mãe, ou de saber se ambos estão ou não à altura, do que de um momento que tem que ser vivido como tal, e que concerne às relações não apenas da pessoa da mãe com a pessoa do pai, mas da mãe com a palavra do pai – com o pai na medida em que o que ele diz não é, de modo algum, igual a zero.
O que importa é a função na qual intervêm, primeiro, o Nome-do-Pai, o único significante do pai, segundo, a fala articulada do pai, e terceiro, a lei, considerando que o pai está numa relação mais ou menos íntima com ela. O essencial é que a mãe funde o pai como mediador daquilo que está para além da lei dela e de seu capricho, ou seja, pura e simplesmente, a lei como tal. Trata-se do pai, portanto, como Nome-do-Pai, estreitamente ligado à enunciação da lei, como todo o desenvolvimento da doutrina freudiana no-lo anuncia e promove. E é nisso que ele é ou não aceito pela criança como aquele que priva ou não priva a mãe do objeto de seu desejo.
Jacques Lacan – Seminário V
Complexo de Édipo
Três tempos de Édipo
1º. Tempo: O que a criança busca, como desejo de desejo, é poder satisfazer o desejo da mãe, isto é, ser o não ser o objeto de desejo da mãe... O sujeito se identifica especularmente com aquilo que é objeto do desejo de sua mãe. Essa é a etapa fálica primitiva, aquela em que a metáfora paterna age por si, uma vez que a primazia do falo já está instaurada no mundo pela existência do simbólico do discurso e da lei. Para agradar a mãe, ....é necessário e suficiente ser o falo. Nessa etapa, muitas coisas se detêm e se fixam num certo sentido. ...dentre elas as identificações que qualificamos de perversas.
Segundo tempo: Eu lhes disse que, no plano imaginário, o pai intervém efetivamente como privador da mãe, o que significa que a demanda endereçada ao Outro, caso transmitida como convém, será encaminhada a um tribunal superior, se assim posso me expressar.
Com efeito, aquilo sobre o qual o sujeito interroga o Outro, na medida em que ele o percorre por inteiro, sempre encontra dentro dele, sob certos aspectos, o Outro do Outro, ou seja, sua própria lei. É nesse nível que se produz o que faz com que aquilo que retorna à criança seja, pura e simplesmente, a lei do pai, tal imaginariamente concebida pelo sujeito como privador da mãe. Este é o estádio, digamos, nodal e negativo, pelo qual aquilo que desvincula o sujeito de sua identificação liga-o, ao mesmo tempo, ao primeiro aparecimento da lei, sob a forma desse fato de que a mãe é dependente de um objeto, que já não é simplesmente o objeto de seu desejo, mas um objeto que o Outro tem ou não tem.
Terceiro Tempo:
A terceira etapa é tão importante quanto a segunda, pois é dela que depende a saída do complexo de Édipo. O falo, o pai atestou dá-lo em sua condição e apenas em sua condição de portador ou de suporte, diria eu, da lei. É dele que depende a posse ou não desse falo pelo sujeito materno. Na medida em que a etapa do segundo tempo é atravessada, é preciso então, no terceiro tempo, que aquilo que o pai prometeu seja mantido. Ele pode dar ou recusar, posto que o tem, mas o fato de que ele, o pai, tem o falo, disso ele tem que dar provas. É por intervir no terceiro tempo como aquele que tem o falo, e não que o é, que se pode produzir a báscula que reinstaura a instância do falo como objeto de desejado da mãe, e não mais apenas como objeto do qual o pai pode privar.
O pai onipotente é aquele que priva. Esse é o segundo tempo. Era nesse estágio que se detinham as análises do complexo de Édipo, na época em que se achava que todas as devastações do complexo decorriam da onipotência paterna. Pensava-se apenas nesse segundo tempo, só que não se frisava que a castração exercida aí era a privação da mãe, e não do filho.
O terceiro tempo é este: o pai pode dar à mãe o que ela deseja, e pode dar porque o possui. Aqui intervém, portanto, a existência da potência no sentido genital da palavra – digamos que o pai é um pai potente. Por causa disso, a relação da mãe com o pai torna a passar para o plano real.
O terceiro lugar, o pai se revela como aquele que tem. É a saída do complexo de Édipo. Essa saída é favorável na medida em que a identificação com o pai é feita nesse terceiro tempo, no qual ele intervém como aquele que tem o falo. Essa identificação chama-se Ideal do eu.
In: Jacques Lacan, Seminário livro 5, as formações do inconsciente.
Capítulo X “Os três tempos de Édipo”.

quarta-feira, maio 23, 2007

Bibliografia


BIBLIOGRAFIA

  • Barthes, Roland, Como viver junto, São Paulo, Martins Fontes, 2003.

  • Birman, Joel, Gramáticas do erotismo, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2001.
  • Freud, Sigmund, Três Ensaios sobre a teoria da sexualidade - (1905), Vol. VII, Obras Completas, Rio de Janeiro, Imago, 1980.
  • ____________, Delírios e sonhos na “Gradiva” de Jensen – (1906), Vol. IX, Obras Completas, Rio de Janeiro, Imago, 1980.
  • _____________, O mal-estar na civilização – (1930), Vol. XXI, Obras Completas, Rio de Janeiro, Imago, 1980.
  • Foucault, Michel, Ética, Sexualidade, Política, Ditos e Escritos – livro V, Rio de Janeiro, Forense Universitária, 2004.
  • ____________, A Hermenêutica do Sujeito, São Paulo, Martins Fontes, 2004.
  • Kristeva, Julia, Histórias de Amor, Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1988.
  • ---------------, No Princípio era o amor – psicanálise e fé, São Paulo, Brasiliense, 1987.
  • Kierkegaard, Soren A., As obras do Amor – Algumas considerações cristãs em forma de discursos, Petrópolis, Vozes, 2005.
  • Lacan, Jacques, O Seminário, livro 8 – a transferência, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1982.
  • ____________, O Seminário, livro 5 – as formações do inconsciente, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1999.
  • ____________, O Seminário, livro 20 – mais, ainda, Rio de Janeiro, Zahar Editores, 1982.
  • Montero, Rosa, paixões – amores e desamores que mudaram a história, Rio de Janeiro, Ediouro, 2005.
  • Nasio, J.- D., Édipo – o complexo do qual nenhuma criança escapa, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2007.
  • Nasio, J.- D., Cinco lições sobre a Teoria de Jacques Lacan, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1993.
  • Nasio, J.- D., Lições sobre Os 7 Conceitos crucias da Psicanálise, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1989.
  • Novaes, Adauto – Organizador, O Desejo, São Paulo, Companhia das Letras, 1990.
  • Ovídio, A arte de Amar, Portugal, Europa-américa, 1931.
  • Platão, Diálogos – Mênon – Banquete – Fedro, Rio de Janeiro, Ediouro.
  • Soler, Colette, O que Lacan dizia das Mulheres, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2005.
  • Wilke, Rejane, O Fim do Desejo no Casamento sem Fim, Florianópolis, Insular, 2006.

quarta-feira, maio 16, 2007

Complexo de Édipo

QUARTA AULA
09/05/2007

Primeiro momento
: auto-erotismo – corpo despedaçado.
Segundo momento: eu Ideal.
Campo do Imaginário - Estádio do espelho – imagem especular.
(O eu está ligado à imagem do corpo próprio. A criança vê sua imagem total refletida pelo espelho, mas existe uma discordância entre essa visão global da forma de seu corpo, que precipita a formação do eu, e o estado de dependência e de impotência motora em que ela se encontra na realidade. Lacan enfatiza, nesse ponto, a prematuridade, a condição de impotência da criança, que seria a razão de tal alienação imaginária no espelho. Ele mostra como a criança antecipa, através dessa experiência, o domínio de seu corpo: enquanto, antes, vivenciava-se como um corpo despedaçado, agora ela se acha cativada, fascinada por essa imagem do espelho, e se rejubila. Mas trata-se de uma imagem ideal dela mesma, à qual ela jamais conseguirá unir-se. A criança se identifica com essa imagem e fixa-se então numa “estrutura”. Toma-se pela imagem e conclui; “a imagem sou eu”, embora essa imagem se situe do lado de fora, externa a ela. Aí está o que Lacan chama de identificação primordial com uma imagem ideal de si mesmo.) in: Os 7 conceitos cruciais da psicanálise, Juan David Nasio.
No Seminário XI Lacan volta à dialética do estádio do espelho e assinala que a visão da imagem no outro não basta, por si só, para constituir a imagem do corpo próprio. O importante, para que a imagem se mantenha, é a existência de um furo nessa imagem: posso ver minha imagem no espelho, mas o que não posso ver é meu próprio olhar.
Neste momento o infans procura o olhar da “mãe”: o olho que se olha no olho que o olha. Neste espaço virtual se constitui um intercâmbio libidinal, que, no fundo, nada mais é que um intercâmbio de fascinação recíproca.
Tal relação dual torna-se efetivamente impossível de viver, não havendo saída satisfatória nessa relação entre um eu e um eu ideal, pois não há subjetivação: o sujeito não se reconhece ali, porque está apenas capturado ali. De fato, é o ideal do eu – simbólico – que pode regular as relações entre um eu e um eu ideal.
Terceiro Momento: Ideal do eu
Campo Simbólico.
O ideal do eu corresponde a um conjunto de traços simbólicos implicados pela linguagem, pela sociedade e pelas leis. Esses traços são introjetados e fazem a mediação na relação dual imaginária. O sujeito encontra um lugar para si num ponto – o ideal do eu – de onde se vê como possível de ser amado, na medida em que satisfaça a certas exigências. O simbólico passa a prevalecer sobre o imaginário, o ideal do eu sobre o eu. Assim, o simbólico superpõe-se ao imaginário e o organiza. O ideal do eu representa uma introjeção simbólica (em oposição ao eu ideal, assimilado a uma projeção imaginária) que se constrói com o significante do pai como terceiro na ralação dual com a mãe.
Em 1955, no Seminário 2 sobre o eu, Lacan retorna à questão do narcisismo: para que se estabeleça uma relação com o objeto do desejo, é preciso que haja uma relação narcísica do eu com o outro. O narcisismo representa a condição necessária para que os desejos dos outros se inscrevam, ou para que os significantes se inscrevam. Uma definição possível do significante, entre outras, seria esta: um elemento de uma cadeia da linguagem onde o desejo do outro se inscreve. E a imagem do corpo fornece o quadro das inscrições significantes do desejo do outro. A imagem do corpo representa o primeiro ponto de engate dos significantes e, inicialmente, dos significantes da mãe. O modo como eles se inscrevem, sobretudo a sucessão das identificações, determina as modalidades segundo as quais se farão as flutuações libidinais.
De fato, a imagem do outro aparece então como fragmentada: são séries de imagens, um conjunto de traços que o sujeito investe.
Existe para cada sujeito uma séria de significantes privilegiados, uma série de elementos em que o desejo do outro se inscreve, e esses significantes se revelam para ele na relação imaginária com o semelhante. Ganham efeito, adquirem consistência na relação narcísica com o outro. Ilustremos essas proposições com o auxílio de uma seqüência clínica, comentada por Lacan no Seminário XVI – De um outro ao Outro.
Trata-se da história de uma fobia infantil narrada por um homem de vinte anos. Quando contava sete anos de idade, ele estava brincando com o seu irmão mais velho no quintal da granja onde fora criado. Estava agachado quando, bruscamente, o irmão pulou em cima dele, por trás, imobilizou-o nessa posição e disse: “Eu sou o galo e você é a galinha!” O menino recusou-se a ser a galinha e caiu em prantos, no auge da raiva. A partir desse momento, ficou com uma fobia às galinhas. Esse episódio com o irmão agiu como um revelador: fez saber ao sujeito o que ele era antes, sem que se apercebesse, em sua relação com a mãe. De fato, fazia muito tempo que o menino cuidava do galinheiro com a mãe, e os dois iam juntos ver se as galinhas estavam pondo ovos corretamente. O menino gostava da maneira como a mãe o tocava e lhe perguntava, à guisa de brincadeira, antes de lhe dar banho, se devia tocá-lo com o dedo para ver se ele ia pôr um ovo. Ele estava no lugar da galinha para a mãe, estava na situação de suprir a falta da mãe, encarnando a “galinha” dela e podendo fornecer-lhe ovos fecais. Assim, estava dedicado ao gozo da mãe, sem ver surgir a questão de seu desejo e de sua falta.
Essa seqüência mostra que foi realmente na relação narcísica com o semelhante, através da imagem remetida pelo semelhante, que o significante “galinha” revelou-se ao sujeito. Foi na relação imaginária com o outro que lhe foi revelado o que ele era, havia muito tempo, sem o saber.

sábado, maio 05, 2007

O estádio do espelho

TERCEIRA AULA
02/05/2007

O estádio do espelho
O estádio do espelho é, para a teoria lacaniana, o momento inaugural de constituição do eu. Por volta dos dezoitos meses o infans, aquele que ainda não fala, configura uma totalidade corporal por meio da percepção da própria imagem no espelho. Esta percepção precisa ser acompanhada do assentimento do outro que a reconhece como verdadeira.
Assim, o eu é descrito por Lacan como essencialmente imaginário, embora sua constituição não prescinda do reconhecimento simbólico do Outro (no caso, encarnado pela mãe). A vivência de unidade que o bebê tem nesse momento, com a obtenção de um contorno nítido e definido, estabelece a passagem da sensação de um corpo fragmentado, no qual há uma indiferenciação entre seu corpo e o de sua mãe, para a do corpo próprio.
Em uma dimensão contraria as pulsões, o eu é, desde sempre, a sede das resistências ao pulsional e ao desejo. A ilusão de totalidade que ele configura estará a partir daí em constante confronto com a parcialidade das pulsões.
Considerando o eu como sede do desconhecimento crônico do desejo do sujeito, Lacan empenhou-se em estabelecer a distinção entre o eu e o sujeito. Se o eu é da ordem do imaginário e do sentido, o sujeito é efeito dos significantes: registro simbólico. Isso equivale a dizer que a unidade obtida no eu não é jamais alcançada no nível do sujeito, pois este é sempre dividido, impossível de se identificar de modo absoluto.
É preciso salientar que o imaginário lacaniano não é da ordem da mera imaginação. Esse registro deve ser entendido como o da relação especular, dual, com seus logros e identificações, mas, sobretudo, segundo os desenvolvimentos finais de Lacan, com o advento do sentido. Já o simbólico é da ordem do duplo sentido, e o real, que não se confunde com a realidade, é o não-senso radical, ou como diz Lacan, o “sentido em branco”.

quarta-feira, abril 25, 2007

Aula

Segunda aula
Resumo
Nó Borromeu
SIMBOLICO
IMAGINÁRIO
REAL
1. Sujeito do inconsciente - $
1. Eu – totalidade
1. Ser – ser de gozo
2. Duplo sentido
2. Sentido
2. não sentido/ não-senso
3. Inconsciente (Outro)
3. Identificações
3. Pulsões
4. objeto a – semblante: peito, fezes, olhar, voz
4. I(a) – falo (objeto da fantasia)
4. das Ding – a Coisa
(furo – consistência lógica)
5. amor na ordem da contingência – cessa de não se escrever.
5. amor na ordem do necessário (sintoma) – não cessa de se escrever.
5. amor na ordem do impossível – não cessa de não se escrever.

Desdobramento dos três registros:
Campo do Real:
  1. Real-real: a Coisa horrenda: a cabeça da Medusa, o alienígena do filme, o abismo, o monstro.
  2. Real-imaginário: designa não a ilusão do Real, mas o Real da própria ilusão. Esse é o ponto do Real no Outro.
  3. Real-simbólico: as fórmulas científicas sem sentido, por exemplo, a física quântica. Não conseguimos integrá-la em nosso horizonte de significações; ela consiste em fórmulas que simplesmente funcionam.

Campo do Simbólico:
  1. Simbólico-real: É idêntico ao Real simbólico, formulas sem sentido.
  2. Simbólico-simbólico: é simplesmente a fala como tal, a fala dotada de sentido.
  3. Simbólico-imaginário: os arquétipos – símbolos junguianos e coisas similares.

Campo Imaginário
  1. Imaginário-real: seria a Coisa pavorosa.
  2. Imaginário-imaginário: seria a imagem como tal, a imagem sedutora.
  3. Imaginário-simbólico: os símbolos.
Slavoj Zizek em Arriscar o impossível

quinta-feira, abril 19, 2007

"O Esplendor de Portugal": a desconstrução da identidade na ficção de Lobo Antunes

 

António Lobo Antunes, o grande vencedor do Prêmio Camões de Literatura deste ano, é um dos escritores portugueses mais conhecidos fora do seu país. No entanto, ao contrário de outros ilustres autores lusitanos, Lobo Antunes nunca manteve uma grande relação de amor com Portugal. Nascido em Lisboa, em 1942, formou-se em Medicina, exerceu a Psiquiatria e participou da Guerra Colonial de Angola (1961-1974), quando as últimas colônias européias na África foram desocupadas.

Entre os vários romances de Antunes publicados no Brasil destaco O Esplendor de Portugal, cujo título é lícito interpretar pela via do irônico, pois nos remete ao último verso do hino nacional português: “Levantai hoje de novo o esplendor de Portugal”.O hino português, de 1890, conseguiu traduzir numa associação entre música e poesia o sentimento patriótico de revolta dos portugueses contra o ultimato imposto pela Grã-Bretanha. Constitui-se em expressão simbólica da nação portuguesa, vindo a ganhar força de símbolo nacional consagrado por meio da afirmação de independência que representa e reitera.

Por contraste, a narrativa ficcional do romance não se propõe a consagrar nenhum símbolo, nenhum traço da identidade portuguesa. Esse hiato entre a representabilidade significante do título e a história ficcional é o que nos permite pensar o título como uma mirada irônica do autor.A ironia é um caso típico de discurso bivocal. Nela, segundo Mikhail Bakhtin, a palavra tem duplo sentido: volta-se para o objeto do discurso como palavra comum, e também para um outro discurso. A consideração pelo discurso do outro implica o reconhecimento de um segundo contexto como meio de perceber o significado da ironia. O autor fala a linguagem do outro, revestindo, porém, essa linguagem de orientação oposta à do outro. É uma espécie de emprego ambíguo do discurso do outro. A “segunda voz, uma vez instalada no discurso do outro, entra em hostilidade com o seu agente primitivo e o obriga a servir a fins diametralmente opostos. O discurso se converte em palco de luta entre duas vozes”.

Ironizar é dizer algo pelo enunciado e, portanto, remeter à enunciação, mas é também voltar-se contra a própria enunciação acrescendo-lhe uma idéia oposta no instante mesmo da enunciação. Assim sendo, a mesma enunciação serve para dizer algo e, simultaneamente, para dizer o seu contrário, devido ao valor argumentativo oposto das enunciações. É esse valor argumentativo oposto que garante a instauração dos opostos.
Assim, compreendemos a ironia do título no justo momento em que ele afirma uma identidade nacional consagrada, qual seja, a do colonizador português, encetando já, no mesmo passo, a desconstrução - dir-se-ia que traço por traço - dessa identidade por meio da narrativa do romance.Toda identidade humana é uma construção simbólica e histórica. Como assevera Kwane Appiah: todo o mundo tem o seu quinhão de pressupostos falsos, erros e imprecisões que a cortesia chama de “mito”, a religião de “heresia”, e a ciência de “magia”. Histórias inventadas, biologias inventadas e afinidades culturais inventadas vêm juntamente com toda a identidade; cada qual é uma espécie de papel que tem que ser roteirizado, estruturado por convenções de narrativa a que o mundo jamais consegue conformar-se realmente.Para o psicanalista Jacques Lacan, o ser humano ao entrar na linguagem perde qualquer garantia de consistência. 

A linguagem constrói o sujeito em torno de uma falta, tornando-o um sujeito dividido, um sujeito a quem falta-a-ser.Por se constituir enquanto falta-a-ser, o sujeito precisa dos significantes que irão representá-lo no mundo. Esses significantes, dados pelo grande Outro da cultura, regulam a estruturação imaginária do “eu” e constroem uma identidade. Desse modo, relações de parentesco, cor, gênero e nacionalidade são alguns dos significantes com os quais o sujeito se deixa representar, ou seja, se identifica e, a partir deles, constrói seu lugar no mundo.Na narrativa ficcional de O Esplendor de Portugal, Lobo Antunes constrói personagens cujas identificações não garantem qualquer representatividade, não garantem um lugar social. O fluxo narrativo vai se armando por meio da desconstrução de representatividades estabelecidas por papéis e lugares sociais.Num jogo de equívocos e incompreensões mútuas, conversas truncada entre seres alienados de sua realidade própria, quatro personagens vão tecendo o fio narrativo do romance.

Na primeira parte, Carlos e a sua mãe – Isilda - vão sucedendo-se na narração da história. Na segunda parte, Rui e Clarisse, os irmãos de Carlos, vêm juntar as suas vozes à narrativa.No entanto, sobre o personagem Carlos é que se concentra a diluição identificatória com a qual o autor, numa brincadeira que nos pareceu às vezes cínica, às vezes sádica, constrói seus personagens.Carlos é apresentado no primeiro momento do romance como irmão de Clarisse e de Rui, e filho de Isilda. Porém, essas identificações que garantiam ao personagem um lugar dentro de uma família, vão sendo desconstruídas ao longo do romance. Logo descobrimos que Carlos é só meio-irmão de Clarisse e de Rui, e não é filho de Isilda, mas é filho do marido de Isilda com uma negra. Isilda compra a criança da mãe biológica, e traz para dentro da sua família. Afinal, Carlos era uma criança com uma pele muito clara, quase branca. Só olhando-o bem de perto notava-se que Carlos não era branco, era um preto. Não, também não era preto, era mestiço.Assim, ele é e, ao mesmo tempo, não é. A sua voz como narrador tenta definir essa inconsistência na seguinte passagem:

...as pessoas quando chamavam
Carlos
Chamavam um Carlos que era eu em elas não eu nem era eu em eu, era um outro, da mesma forma que se lhes respondia não era eu quem respondia era o eu deles que falava e o eu em eu calava-se em mim e portanto sabiam apenas do Carlos delas não sabiam de mim e eu permanecia um estranho, um estrangeiro, um eu que era dois, o deles e o meu, e o meu por ser apenas meu não era e então dizia como eles diziam

Carlos
Carlos, Carlos, Carlos

até a palavra Carlos esvaziada de nexo não significar nada salvo um som semelhante aos dos ramos das mangueiras ou aos suspiros sem perguntas dos setters no seu sono, até a palavra Carlos se tornar uma pele que se larga, não o eco de um eco mas um corpo sem vida fora da vida deles, e então podia fechar os olhos, partir do escuro deles, das preocupações deles, da fazenda deles e dissolver o meu eu em mim à medida que o relógio de parede, mudando de ritmo, intrigava os pavões..

Atormentado pelos significantes que marcam sua origem, Carlos vai mostrando que num mundo dividido entre “ser branco” e “ser negro” o mestiço está além desses lugares identificatórios marcados pela cultura. Um “entre-lugar” que para ele era percebido como “lugar nenhum”.
Ao longo da narrativa, o personagem vai sendo apresentado por várias vozes, a partir desse movimento paradoxal de construção e des-construção de todas as suas identificações.

Para a avó materna, Carlos era uma presença estranha, incômoda e vergonhosa dentro da família: Desde quando se mistura um mestiço com brancos Isilda, desde quando um mestiço come à mesa conosco?. Mas veremos que à aversão da avó pelo neto mestiço, não se diferencia da visão da portuguesa branca colonizadora pelo povo africano colonizado.

A minha avó para quem os africanos eram não uma raça diferente, mas uma espécie zoológica distinta capazes até certo ponto de imitar as pessoas e todavia sem nada meu Deus que os aparentasse a nós, basta ver do que se alimentam que até baratas engolem, basta ver como andam, reparar como transportam os filhotes, iguaizinhos aos mandris, a minha avó num eco de agonia como anos mais tarde com o padre à volta dela, mascarado de feiticeiro mas sem anilinas nem penas, desenhando-lhe cruzes na testa numa polca em latim, a minha avó olhava para o Carlos como se o Carlos não pudesse fazer mais do que mentir, os trapaceiros dos mestiços, repugnantes, sujos, por que motivo o trouxeram de Malanje, por que razão não o deixaram no quimbo a acabar de fome como lhe competia para descanso da gente.

Não é difícil detectarmos nesse fragmento a cadeia metafórica na qual a avó representa a figura do neto: “trapaceiro”, “mestiço”, “repugnante”, “sujo”. A partir destes significantes, desses lugares simbólicos em que é representado pelo Outro e pelo qual ele crê poder representar-se; pode, simultaneamente, assegurar-se de que tem corpo, de que pertence à ordem dos semelhantes. Eis aí alguns dos lugares em que Carlos, no discurso da avó, era incluído e, ao mesmo tempo, excluído da ordem dos semelhantes na família “branca portuguesa”.É também, nesse universo fronteiriço entre a interioridade e a exterioridade social, incluindo e, ao mesmo tempo, excluído dos laços familiares, que iremos constatar a posição do filho no discurso da mãe:

o meu filho Carlos, o mais velho, o primeiro dos meus filhos e Deus sabe o que me custou aceitá-lo, aquele que toma conta dos irmãos em Lisboa e acha que eu não gosto dele por.
eu não ser mãe dele.
por eu não ser mãe dele calcule-se como se a mãe de uma pessoa.
como se a mãe de uma pessoa não fosse.
aquela que o aceitou desde pequena e se afeiçoou a ele e o criou.
como se a mãe de uma pessoa não.
... o Carlos nunca soube quem era nem nunca perguntou quem era da mesma forma que estou segura que nunca a procurou em Malanje no caso de continuar em Malanje no caso de continuar viva.
como se a mãe de uma pessoa não fosse.
como se a mãe de uma pessoa não fosse a que o aceitou desde pequeno e o criou ..

A maneira pela qual o autor nos apresenta os fragmentos de idéias de Isilda, espalhados ao longo de um capítulo, aproxima-se da desordem das idéias em seu nascedouro, antes de sofrerem a influência da consciência ordenadora.

Assim, num primeiro momento, Isilda define para si mesma que a mãe de uma pessoa é aquela que se afeiçoou a esta última e a criou. Mas logo em seguida lhe vem à lembrança a mãe negra que gerou e pariu Carlos, aquela que mora em Malanje, e sobre a qual pensa que Carlos nada quer saber. Mas, na verdade, não é Carlos que não quer saber sobre essa outra mulher, ele vai atrás dela em determinado momento, ele quer vê-la, ele quer saber dos segredos que transformaram em enigma a sua concepção. Isilda, esta sim, nada quer saber sobre essa outra que foi por certo tempo objeto de desejo do seu marido. Magoada com o marido, um homem que vive bêbedo pelos cantos da casa e que não pode protegê-la, Isilda nada quer saber sobre o desejo desse homem. Então, após a lembrança de Malanje, conclui que a mãe de uma pessoa é aquela que a aceitou desde a infância e a criou.Vemos, então, que num primeiro momento Isilda pode pensar no seu lugar de mãe para Carlos, marcado não pela significação do amor, mas pela da afeição. Mas logo em seguida essa idéia é atravessada pela imagem da outra, representada pelo lugar de origem desta: Malanje. Isilda então define o seu lugar de mãe não mais pelo afeto, mas pela aceitação. Ela aceitou, com grande dificuldade, o filho do seu marido com a outra. Ela aceitou e criou a criança, que representava o desejo do seu marido por Outra, colocando-se numa posição diametralmente oposta à da sua mãe, que, como acompanhamos na narração da própria Isilda, tomava para si a função de interditar o desejo do marido pela amante francesa, relembrando ao marido que era ela, a esposa, quem deveria ocupar o lugar de objeto do seu desejo. Isilda não esquece nem perdoa a traição do marido. Ao trazer o fruto desse ato para dentro de sua casa, ela garante que o ato jamais será esquecido. No entanto, o lugar que irá ocupar não é a da furiosa mulher traída, mas antes o lugar de um aparente sacrifício abnegado. Ela aceita e cria o filho do marido com a outra, mas, nesse mesmo ato, ela se ausenta como esposa e objeto do seu desejo. A partir daí, ela pode trair o marido dentro de sua própria casa, no escritório, enquanto o marido dorme, caído de bêbado nalgum lugar da casa. Ela pode, enfim, vir a ocupar o lugar de objeto de desejo de um homem.

Isilda acredita que o filho não gosta dela. Não gosta da mãe que o criou. Acredita que a única pessoa de quem o filho gosta é a Maria da Boa Morte, a criada negra que a ajudou a criar os seus três filhos e que a acompanhará até o final da sua vida. Isilda, ao olhar para Carlos, reconhece sua própria falta refletida no olhar do “filho”.Carlos vivencia a sua dor, a sua falta-a-ser, através da sonoridade significante das batidas do relógio da sala: “sístole, diástole, sístole, diástole, sístole diástole”. Desvela-se assim na sonoridade do relógio que a função da palavra inscrita se funde com a função significante que por si só não significa nada, mas que remete à sua característica de imagem acústica. Testemunhamos o personagem imerso em som, referindo-se ao relógio como aos seus movimentos cardíacos que parecem ter vida e quem sabe tato, textura, como se as letras chegassem a poder tocá-lo.



Durante muitos anos se me acontecia acordar antes dos outros pensava que o bater do relógio de parede na sala era o meu próprio coração e ficava horas e horas de olhos abertos quieto no escuro a ouvir-me viver.

Através da sonoridade desses significantes, Carlos parece encontrar uma representação de si e um lugar dentro da família. Assim, a lembrança da mãe zangada gritando o seu nome o faz observar que

...sem entender que era graças a mim que podia zangar-se, que no momento em que o relógio, em que eu, cessássemos de bater
...sístole diástole, sístole diástole
...a casa e a minha família e Angola inteira se sumiam, tinha de permanecer quieto, com qualquer coisa no peito da esquerda para a direita e da direita para a esquerda.
...não podia adormecer, nunca poderia adormecer, tinha de ficar horas e horas de olhos abertos, quieto no escuro para que ninguém morresse dado que enquanto qualquer coisa no meu peito oscilasse da esquerda para a direita e da direita para a esquerda continuávamos a existir, a casa, os meus pais, a minha avó, a Maria da Boa Morte, eu, continuaríamos todos, para sempre, a existir.

Seria realmente Carlos o núcleo, o coração da família? Aquele que ao marcar o seu lugar como resto, como enigma, como menos um, pode vir a ser causa de desejo do outro? Carlos agrega em torno de si uma família cujos laços afetivos são frouxos, quase inexistentes. Uma família na qual o pai, totalmente imerso no solitário estado de alcoólatra, não consegue assumir a sua função de representante da lei, que poderia vir a interditar o gozo sem limite da mulher e da filha. Carlos tenta fazer suplência da falta paterna, tenta por várias vezes imprimir uma ordem à vida da mãe e principalmente da irmã, mas não consegue. Frustrado, acaba por abandonar a mãe, no seu retorno para Portugal com os irmãos. O lugar de Carlos no papel daquele que mantinha o laço familiar não era o do grande Outro, representante da lei, mas do pequeno objeto a, enquanto resto, enquanto enigma. Deste lugar, Carlos poderia sustentar a posição de vazio, de não saber, provocando no outro ou nos outros a sua volta, o desejo de saber, e daí, desse lugar, construir laços sociais. Ou então, se tornar um Cínico, aquele que não acredita nos semblantes sociais, que não acredita que nenhum significante possa fazer suplência de sua falta-a-ser, mas que, ainda assim, pode sustentar laços sociais.


No entanto, Carlos não consegue fazer nenhuma escolha. Imerso em um profundo estado melancólico e abandonado por todos - inclusive por Lena, a moça pobre com quem se casa, e da qual sente muita vergonha perante seus amigos de escola –, Carlos depara consigo solitário na noite de Natal, num pequeno apartamento em Lisboa, que não ficou um centímetro maior com a ausência da mulher “amada”: a tremer um aceno de adeus no fundo da memória.



Texto publicado no Caderno de Cultura - DC - de 14/04/2007
Maria Leite Holthausen

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