segunda-feira, abril 28, 2008

Merleau-Ponty e Psicanálise


Marcado pela herança filosófica de Husserl e procurando se deslocar dos impasses teóricos colocados pela filosofia da consciência, Merleau-Ponty indicou desde o início de seu percurso a necessidade de tematizar a abertura originária da consciência para o mundo e para o outro. Nesse contexto, o estudo da percepção ocupou um lugar central em sua pesquisa. Apesar de a categoria de consciência implicar a idéia de intenção da fenomenologia de Husserl, isto é, a consciência ser sempre consciência de algo que a transcende e estar inserida num corpo, a consciência ainda é o campo da referência fundamental da fenomenologia de Merleau-Ponty. Vale dizer, mesmo sendo consciência perceptiva, ainda é no campo da consciência que se realizam as indagações teóricas de Merleau-Ponty. A categoria de inconsciente não poderia ter lugar nesta concepção filosófica, de maneira que, no momento inaugural deste discurso, o pensamento freudiano foi criticado em seu fundamento, sendo considerado um modelo mecanicista de psicologia.

Entretanto, no desenvolvimento de seu percurso, Merleau-Ponty realizou uma aproximação efetiva com o discurso freudiano, conferindo um lugar consistente ao conceito de inconsciente. Passou, então, a tematizar o corpo como “carne”, de forma que o registro do inconsciente passou a ser identificado ao “sentir” mesmo da coisa, pelo corpo do sujeito. O que implicou a transformação fundamental do cogito cartesiano no pensamento de Merleau-Ponty, que do “eu penso” de Descartes se transformou no “eu quero”, nessa ontologia do corpo. Enfim, o inconsciente foi tematizado no registro do desejo, na apropriação sensível e erótica, pelo corpo, das coisas constitutivas do mundo.



Joel Birman, in: Psicanálise, Ciência e Cultura.

segunda-feira, abril 14, 2008

O Inconsciente Freudiano

3ª. Aula

O inconsciente freudiano


Ao criar a noção do inconsciente, Freud delimitou desde 1895 – Projeto para uma Psicologia Científica – a idéia de uma tópica psíquica estruturada segundo um modo plurissistêmico, com articulações e interferências intra e intersistêmicas de uma sutileza que ele não cessará de precisar no prolongamento de sua obra.
Processos psíquicos do ponto de vista Sistemático

Concepção Tópica: Supõe uma diferenciação do aparelho psíquico num certo número de sistemas dotados de características ou funções diferentes e dispostos numa certa ordem uns relativamente aos outros, o que permite considerar metaforicamente como lugares psíquicos de que podemos fornecer uma representação figurada espacialmente.
Dimensão Dinâmica: Considera os fenômenos psíquicos como resultantes do conflito e de composição de forças.
O inconsciente exerce uma ação permanente, exigindo uma força contrária, igualmente de forma permanente, para lhe interditar o acesso à consciência.
O caráter dinâmico pode ser ilustrado pela noção de “formações de compromisso”, que devem a sua consistência ao fato de ser mantidas ao mesmo tempo dos dois lados. (Sintomas, Sonhos)
Função Econômica: Hipótese segundo a qual os processos psíquicos consistem na circulação e repartição de uma energia quantificável, isto é, susceptível de aumento, de diminuição e de equivalências.

Estimulos (int/ext) Percepção↗/___/_/_/_______/↘ Motilidade

Percepção→→→Traços de percepção→→→inconscinte
→→→
pré-consciência→→→Consciência

Toda a nossa atividade psíquica inicia-se a partir de estímulos (interno ou externo) e termina em enervações. Por conseguinte, atribuímos uma extremidade sensória e uma extremidade motora ao aparelho.
O sistema perceptivo recebe os estímulos sensórios, mas não os registra nem os associa, isso porque ele necessita ficar permanentemente aberto aos novos estímulos.
As funções de armazenamento e de associação ficam reservadas aos vários sistemas mnêmicos que recebem as excitações do sistema perceptivo e as transforma em traços “permanentes”.


A experiência de satisfação produz um traço mnêmico que é a imagem (sensorial) do objeto que proporciona a satisfação.

imagens mnêmicas/imagens sensoriais
traços de memória/traços mnêmicos


Sistema Inconsciente
Processo primário – energia livre – princípio do prazer.
Comparado ao Pcs/Cs, o Inconsciente se caracteriza por uma grande mobilidade das intensidades de investimento, e que, do ponto de vista econômico, corresponde à livre circulação de energia de uma representação para outra. Essa circulação não se faz de forma anárquica, mas segundo as leis da condensação e do deslocamento. Pelo deslocamento, uma representação pode receber de uma outra toda a sua carga de investimento, e pela condensação ela pode receber o investimento de várias outras representações.
Portanto, condensação e deslocamento correspondem ao modo de funcionamento do processo primário, característico do sistema Ics.


Sistema Pré-Consciente/Consciente.
Processo secundário – energia ligada – princípio da realidade.
O sistema Pcs/Cs, funciona segundo o processo secundário, cuja característica é um investimento mais estável das representações, acompanhado do investimento do eu e por uma inibição dos processos primários.
Ou seja, enquanto os processos Ics procuram satisfação pelo caminho mais curto e direto, os processos Pcs/Cs, regulados pelo princípio de realidade, são obrigados a desvios e adiamentos na busca de satisfação.

Vorstellung = representação = imagem/traço
Affekt = afeto = intensidade/investimento.
Triebrepräsentanz = representante pulsional:
Instituído pela ação do recalcamento, o inconsciente é, de fato, constituído por representações da pulsão que querem descarregar seu investimento, portanto por moções de desejo. Essas moções pulsionais são corrdenadas umas às outras, persistem umas ao lado das outras sem se influenciar reciprocamente e não se contradizem entre si.
A representação-objeto não é a representação de um objeto externo existente no mundo, não é a coisa (Ding) do mundo que fornece à representação-objeto sua unidade e seu conceito (cadeira, mesa, pessoa, etc); o que a coisa externa fornece são “associações de objeto”, isto é, imagens elementares visuais, acústicas, táteis etc, que, a partir da relação com as representações-palavra, irão formar o objeto.
Vorstellungsrepräsentanz = representante da representação
Representante + afeto = traço + investimento
.

Freud não é um gestaltista; a percepção não capta estruturas, algo já organizado, mas sim elementos sensoriais dispersos que serão posteriormente organizados. Como o aparelho recebe impressões elementares, atomísticas, ao invés de receber gestalten, formas, e como os traços mnêmicos são traços de impressões, os primeiros sistemas são constituídos apenas por imagens elementares, exatamente as que serão reativadas quando do funcionamento regressivo do aparelho. (trabalho onírico)
Se todo traço é traço de uma impressão, quando houver simultaneidade ou semelhança de impressões perceptivas, haverá conexão dos traços. É o que Freud chama de associação, ou cadeia associativa.

O inconsciente não conhece nem o tempo (as diferenças passado/presente/futuro estão abolidas), nem a contradição, nem a exclusão induzida pela negação, nem a alternativa, nem a dúvida, nem a diferença dos sexos. Substitui a realidade externa pela realidade psíquica. Obedece a regras próprias que desconhecem as relações lógicas conscientes de não-contradição e de causa e efeito, que nos são habituais. Uma inscrição inconsciente pode persistir e se mostrar sempre ativa, ressurgindo sob uma forma travestida.
Só tomamos conhecimento do inconsciente por suas “formações” (Lacan), ou seja, o não dito significativo do branco do esquecimento, um dizer surgido dos sonhos, chistes, atos falhos, uma escrita: tudo aquilo que constitui sintoma no modo do compromisso surpreendente e que constitui “alíngua” (Lacan), e em que, sob forma da matáfora/metonímia, a verdade do desejo insiste e se repete em múltiplas demandas.

RecalqueFreud concebe o recalque como um mecanismo que opera na linha divisória entre os sistemas Ics e Pcs/Cs e, mais ainda, ele o concebe inicialmente como uma atividade do segundo sistema sobre o primeiro. Sendo assim, antes da clivagem da subjetividade em dois sistemas distintos, não podemos falar em recalque.

A passagem do conteúdo inconsciente para a consciência não é da ordem da transcrição, mas da tradução. O pensamento consciente na sua secundariedade é original e irredutível.

A pulsãoA pulsão é uma força (drang) que necessita ser submetida a um trabalho de ligação e simbolização para que possa se inscrever no psiquismo propriamente dito.

1900 – A Interpretação de Sonhos - Cap. 7 – Freud utiliza a noção de apoio. As pulsões se apóiam no instinto não para confundir-se com ele, mas para desviar-se dele. Ou seja, a pulsão é, fundamentalmente, a perversão do instinto.
O instinto é um padrão fixo de conduta.
A pulsão é um impulso anárquico.



segunda-feira, abril 07, 2008

Professor Denilson Lopes convida:
O Núcleo de Cultura e Tecnologia da Imagem (N-Imagem) da Universidade Federal do Rio de Janeiro e a MP2 Produções estarão lançando, no dia 11 de abril de 2008, no Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Salão Moniz Aragão, Av. Pasteur 250, Praia Vermelha) o DVD contendo toda a obra em vídeo da artista Letícia Parente.
Letícia Parente nasceu em Salvador, em 1930, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1991. Doutora em química, professora titular da Universidade Federal do Ceará e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, foi uma das pioneiras das novas mídias no Brasil (xérox, arte postal, vídeo arte). Entre 1975 e 2008, participou das mais importantes manifestações de vídeo arte no Brasil e no exterior. Seu vídeo Marca Registrada (1975) tornou-se um emblema da vídeo arte no país.
Depois de um longo trabalho de pesquisa e restauração, patrocinado pela Petrobras por meio do seu programa Petrobrás Cultural - Memória das artes (2006), 11 DVDs de Letícia serão exibidos e distribuídos para centros culturais, museus, escolas de cinema, comunicação e arte, bem como bibliotecas de referência no Brasil.
O evento de lançamento se dividirá em dois momentos. A partir das 13 horas haverá um ciclo de palestras: às 13 horas teremos a palestra da professora Kátia Maciel(Pesquisadora e artista de novas mídias, ECO-UFRJ) intitulada "A Casa", que discorrerá sobre da importância, para a obra da artista, do espaço de uma espécie de casa relacional constituída de espaços e objetos, de gestos e subjetividades múltiplas; às 15 horas, o professor André Parente (Pesquisador e artista de novas mídias UFRJ - idealizador do projeto do DVD) fará uma palestra intitulada "Vídeo e memória", na qual destacará o papel de Letícia como uma das pioneiras das novas mídias no Brasil; às 17 horas, Cláudio da Costa(Professor de Estética e Teoria da Arte do Instituto de Artes - UERJ) realizará uma palestra intitulada "Letícia Parente: a vídeo arte como prática da divergência", na qual situará o trabalho de Letícia face a questão do corpo, uma das questões seminais da arte contemporânea.
Após as palestras, haverá o lançamento do DVD com projeção dos vídeos de Letícia Parente.
PARA MAIS INFORMAÇÕES, SEGUE ABAIXO BIOGRAFIA, SINOPSES DOS VÍDEOS E CRÉDITOS DO DVD
Biografia
Letícia Parente nasceu em Salvador, em 1930, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1991. Doutora em química, professora titular da Universidade Federal do Ceará e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, foi uma das pioneiras da videoarte brasileira, tendo participado, entre 1975 e 1991, das mais importantes mostras de videoarte no Brasil e no exterior. Seu vídeo Marca Registrada (1975) tornou-se um emblema da videoarte no país. Entre 1970 e 1991, realizou pinturas, gravuras, objetos, fotografias, audiovisuais, arte postal e xerox, vídeos e instalações, nos quais predominam a dimensão experimental e conceitual. Em 1973, fez sua primeira exposição individual, com pinturas e gravuras, no Museu de Arte Contemporânea de Fortaleza. Em 1976, realizou a primeira exposição de arte e ciência no Brasil com a instalação Medidas, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Em 1981, participou da 16ª Bienal Internacional de São Paulo com um trabalho de arte postal e vídeo. Publicou vários livros, entre eles, um livro de filosofia da ciência, Bachelard e a Química (1990).
Sinopses dos vídeos:
PREPARAÇÃO I (1975, 3 min 30 seg, Porta-pack)
A artista chega diante do espelho para se preparar para sair. Cola esparadrapo sobre a boca e os olhos. Desenha sobre eles olhos e boca. Em seguida, ajeita o cabelo, pega a bolsa e sai.
MARCA REGISTRADA (1975, 10 min 30 seg, Porta-pack)
A autora costura, sobre a sola do pé, com agulha e linha preta, a inscrição "MADE IN BRASIL".
IN (1975, 1 min 20 seg, Porta-pack)
A artista entra no seu próprio armário vazio e se pendura, pelos ombros, no cabide. Em seguida, fecha a porta do armário.
PREPARAÇÃO II (1976, 7 min 40 seg, Porta-pack)
A artista aplica em si mesma quatro injeções. Após cada aplicação, são escritos dizeres em uma ficha de controle sanitário internacional para a saída do país: "anticolonialismo cultural"; "anti-racismo"; "anti-mistificação política"; e "anti-mistificação da arte".
QUEM PISCOU PRIMEIRO (1978, 1 min 10 seg, Porta-pack)
Duas pessoas (André e Angela Parente) sentadas, diante da câmera, se observam para ver quem pisca primeiro. Em um determinado momento dão o jogo por encerrado... Mas quem piscou primeiro?
ESPECULAR (1978, 1 min 50 seg, Porta-pack)
Duas pessoas, sentadas no chão, uma defronte da outra, estão ligadas por uma espécie de estetoscópio duplo, de modo que os tubos que saem dos ouvidos de cada uma se ligam no meio por meio de um tubo comum. Elas estabelecem um diálogo especular.
O HOMEM DO BRAÇO E O BRAÇO DO HOMEM (em co-autoria com André Parente - 1978, 6 min, Porta-pack)
Vê-se a imagem de um anúncio de uma academia de ginástica, em neon, de um corpo de homem da cintura para cima, exercitando o braço. Em seguida, vê-se um homem de torso nu, da cintura para cima, movimentando o braço da mesma forma. À medida que o gesto se repete, o homem demonstra fadiga e não sustenta o ritmo do movimento.
DE AFLICTI - ORA PRO NOBIS (1979, 3 min 50 seg, minutos, Porta-pack)
Aparecem, sucessivamente, em imagens fixas, gestos de mãos e pés entrelaçados, contraídos e contorcidos. Cada imagem surge do escuro e depois se dissolve no escuro. Uma voz reza uma litania: ORA PRO NOBIS. O ritmo é como o fechar e abrir de um olho, convocado pela invocação.
NORDESTE (1981, 1 min 50 sec, Betamax)
Uma mala de couro rústica é arrastada pela autora até o centro do campo visual. A mala é aberta e vê-se dentro dela duas cobras vivas sobre um lençol branco. A artista procura retirar o lençol sem ser atingida pelas cobras. Ao retirá-lo, fecha a mala e abraça-se com o mesmo.
TAREFA I (1982, 2 min, Betamax)
A artista deita-se sobre uma tábua de passar e alguém passa roupa a ferro (com a artista dentro da roupa).
TELEFONE-SEM-FIO (em co-autoria com o grupo - 1976, 13 min, Porta-pack) O grupo de artistas, autores do vídeo (Ana Vitória Mussi, Anna Bella Geiger, Fernando Cocchiarale, Ivens Machado, Letícia Parente, Miriam Danowski, Paulo Herkenhoff, Sônia Andrade), brinca de telefone-sem-fio, fazendo a mensagem passar de ouvido a ouvido e observando a deformação que ela sofre.
MARCA REGISTRADA – Versão Colorida (1980, 10 min 30 seg, Betamax)
A autora costura, sobre a sola do pé, com agulha e linha preta, a inscrição "MADE IN BRASIL".
Créditos:
Conceito e Direção: André Parente
Assistente: Natalia Klein
Edição de Vídeos e Autoração: Swami Guimarães
Projeto Gráfico: Estúdio Márcia Cabral
Prensagem DVD: Sonopress
Impressão: Zen
Serigrafia Produção: MP2 Produções
Realização: N-Imagem (Núcleo de Tecnologia da Imagem da Escola de Comunicação da UFRJ)
Apoio: Allternativa Filme X, Estúdios Márcia Cabral, Itaú Cultural, Canal Contemporâneo, Forum de Ciência e Cultura.
Agradecimentos: Nilton Cacheado, Aída Marques, Márcia Cabral, Chaim Litewski, Roberto Moreira Cruz, Katia Maciel, Anna Bella Geiger, Sonia Andrade, Ivens Machado, Fernando Cocchiarale, Paulo Herkenhoff, Miriam Danowski, Ana Vitória Mussi, Lia Parente, Cristiana Parente, Pedro Parente, Angela Parente, Lucas Parente, Júlio Parente, Daniela Bousso, Angela Santos, Swami Guimarães.
Patrocínio: Petrobrás

quinta-feira, abril 03, 2008

Aula: Introdução ao estudo de Lacan

Segunda Aula
01 de abril de 2008
Jacques Lacan:

Os pais:
Émilie Philippine Marie Baudry e
Charles Marie Alfred Lacan.
(Descendentes de prósperos comerciantes e católicos fervorosos.)

Os irmãos
O casal, Émile e Charles, teve quatro filhos:
1º. Jacques-Marie Émile Lacan (13 de abril de 1901 - 9 de setembro de 1981)
2º. Raymond (faleceu aos dois anos)
3º. Madeleine (casada, em 1925, foi viver na Indochina)
4º. Marc-Marie (Marc-François) – monge beneditino (ordenado em maio de 1935)

A medicina:
Entre 1927 e 1931, estudou a clínica das doenças mentais e do encéfalo no hospital Sainte-Anne, e estagiou na enfermaria especial da Chefatura de Política, para onde eram levados com urgência os indivíduos “perigosos”.
“Ele participava, na cantina da sala de plantão, junto com alguns colegas, da aristocracia dos candidatos à chefia da clínica. Fazia suas refeições à ‘mesinha’ animada por Henri Ey, onde se empregava o vocabulário elegante da fenomenologia e se via com desprezo o velho organicismo de Édouard Toulouse.”

Os mestres da psiquiatria:
Durante sua formação psiquiátrica, três mestres muito diferentes deixaram em Lacan uma marca importante:
Georges Dumas: Titular da cadeira de psicopatologia da Sorbonne, foi um terrível adversário da psicanálise.
Henri Claude: Grande rival de G. Dumas, de quem rejeitava o antifreudismo, Henri Claude foi Chefe da clínica de doenças mentais no Hospital Saint-Anne.
Gaëtan Gatian de Clérambault: Médico-chefe da enfermaria especial dos alienados da Chefatura de Polícia até 1934, ano em que se suicidou. Clérambault é lembrado pela paixão pelos tecidos, pelos debruns e as pregas e por sua teoria da erotomania.


A tese: O caso Aimée
Aimée = Marguerite Pantaine
Desde 1931, Lacan começa a efetuar uma síntese, a partir da paranóia, de três domínios do saber: a clínica psiquiátrica, a doutrina freudiana e o segundo surrealismo. Essa síntese, que se apoiava sobre um notável conhecimento de filosofia – Spinoza, Jaspers, Nietzsche, Husserl e Bergson -, lhe permitirá elaborar a tese de medicina, que será sua grande obra da juventude.
Seu trabalho representava uma ruptura com os trabalhos dos psiquiatras franceses da época, que viam na psicose paranóica um agravamento dos traços que definiam o caráter paranóico.
Da descrição fenomenológica exaustiva de um caso, sua tese, dirá Lacan, levou-o à psicanálise; o único meio de determinar as condições subjetivas da prevalência do duplo na constituição do eu.
Numa grande síntese de todas as aspirações freudianas e anti-organicistas da nova geração psiquiátrica francesa dos anos 1920, esse trabalho foi imediatamente considerado uma obra-prima por René Crevel, Salvador Dali e Paul Nizan. Que apreciaram, principalmente, a utilização feita por Lacan dos textos romanescos da paciente e da força doutrinária de sua posição quanto à loucura feminina.
- Em 1933, Lacan defende sua tese: “Da Psicose Paranóica em suas relações com a Personalidade”.

O primeiro casamento:
Em 1934, casou-se com Marie-Louise Blondin (1906-1983), irmã de seu amigo Sylvain Blondin, apelidada Malou. Desde o início, o casamento foi desastroso. Malou acredita ter-se casado com um homem perfeito, cuja fidelidade conjugal estaria à altura de seus sonhos de felicidade. Ora, Lacan não era esse homem, nem nunca seria. Três filhos nasceram: Caroline, Thibaut, Sibylle.


O amor por Sylvia:
Em 1937, apaixonou-se por Sylvia Maklès-Bataille (1908-1993). Separada nessa época de Georges Bataille, mas continuando a ser sua esposa. Sylvia era mãe de uma menina, Laurence Bataille (1930-1986), que se tornaria uma notável psicanalista.
Quando a segunda guerra começou, Sylvia Bataille se refugiou na chamada “zona livre”. A cada quinze dias, Lacan a visitava. Em Paris, ele interrompeu toda sua atividade pública, recebendo apenas sua clientela particular. Sem pertencer à Resistência, manifestou claramente hostilidade a todas as formas de anti-semitismo. Entretanto, era principalmente com sua vida privada que ele se preocupava durante os dois primeiros anos de guerra. Em setembro de 1940, Lacan encontrou-se em uma situação insustentável. Anunciou à sua mulher legítima, que estava grávida de oito meses, que Sylvia, sua companheira, também esperava um filho. Malou pediu o divórcio imediatamente e foi em plena crise de depressão que deu à luz, a 26 de novembro, uma menina à qual deu o nome de Sibylle.
Oito meses depois, em 3 de julho de 1941, Sylvia deu à luz a quarta filha de Lacan, Judith. Judith foi registrada com o sobrenome de Bataille.
No início do ano de 1941, Lacan instalou-se na rue de Lille nº5. Ficaria ali até a morte. Em 1943 Sylvia se instalou no nº3 da mesma rua com suas duas filhas, Laurence e Judith. Em julho de 1953, divorciada de Georges Bataille desde agosto de 1946, casou-se com Lacan.



A Instituição Psicanalítica: o percurso de Lacan.
- Em 1910, Freud patrocinou a criação de uma Associação Internacional de Psicanálise - International Psychoanalytical Association (IPA) -, para congregar as sociedades psicanalíticas existentes, normatizar a formação dos psicanalistas e evitar distorções e descaminhos na psicanálise, com a expansão de sua prática.
Atualmente sediada em Londres, a IPA é o organismo que coordena todo o movimento psicanalítico mundial.

- Em 1926 foi criada a Sociedade Psicanalítica de Paris – SPP (uma sociedade filiada a IPA).

- Em 1934, aos 33 anos, Lacan pede sua filiação a Sociedade Psicanalista de Paris:

- De 1932 a 1938. Lacan faz analise com Rudolf Loewenstein.

Na SPP, Lacan atraiu muitos alunos, fascinados pelo seu ensino e desejosos de romper com o freudismo acadêmico da primeira geração francesa. Começou então a ser reconhecido ao mesmo tempo como didata e como clínico.
A partir de 1936, Lacan iniciou-se na filosofia hegeliana, através dos seminários que Alexandre Kojève (1902-1968) dedicou à “Fenomenologia do espírito”. E na filosofia de Husserl, através dos seminários de Alexandre Koyré (1892-1964).

- 1953 – primeira cisão.
O motivo do rompimento foi à decisão tomada pela Sociedade Parisiense de fundar um Instituto de Psicanálise, encarregado de ministrar um ensino regulado e diplomável, tendo como modelo o da faculdade de Medicina. Para Lacan, com a criação do Instituto, o ensino da psicanálise ficava confinada a um isolamento doutrinal.
Neste mesmo ano, Lacan pede sua demissão da SPP e perde sua qualificação de membro da Associação Internacional.

Ainda neste ano, funda com Daniel Lagache a Sociedade Francesa de Psicanálise – SFP, para onde se transferiu a maior parte dos alunos da antiga Escola.
A SFP solicita o seu reconhecimento a IPA. No ano seguinte – 1954 – o pedido é rejeitado.
Em 1959 há uma nova solicitação de filiação. A IPA impõe, para o reconhecimento da SFP, que Lacan e Françoise Dolto não fossem reconhecidos como analistas didatas.

- A segunda cisão (“excomunhão”, como diria Lacan) do movimento psicanalítico ocorreu durante o inverno de 1963. A SFP se divide em dois grupos e foi dissolvida. Um grupo ratifica o ultimato da IPA e cria a Associação Psicanalítica Francesa – AFP. Lacan não figura mais na lista dos membros efetivos habilitados à análise didática e à supervisão.

Em 1964, Lacan fundou a Escola Freudiana de Paris EFP, enquanto a maioria de seus melhores alunos se posicionou ao lado de Lagache, na Associação Psicanalítica da França (AFP), reconhecida pela IPA. Na reunião de abertura da Escola, Lacan lê sua proposição - Ato de Fundação - que inicia com a famosa frase: “Fundo - tão sozinho quanto sempre estive em minha relação à causa psicanalítica – a Escola Francesa de Psicanálise.”

Obrigado a deslocar seu seminário, Lacan foi acolhido, graças à intervenção de Louis Althusser, em uma sala da École Normale Supérieure (ENS), onde pôde prosseguir seu ensino.
Na ENS, Lacan conquistou um novo auditório, uma parte da juventude filosófica francesa, à qual Althusse confiou o cuidado de trabalhar seus textos. Entre eles, encontrava-se Jacques Alain Miller, que se casou com Judith Lacan em 1966. Tornou-se redator dos seminários do sogro, seu executor testamentário e o iniciador, a partir de 1975, de uma corrente neolacaniana no próprio interior da EFP.Em 1965, com o estímulo da François Wahl, Lacan fundou a coleção “Champ Freudien” nas Éditions du Seuil e, no ano seguinte, em 15 de dezembro de 1966, publicou os Escritos.
Confrontado com as dificuldades de uma instituição gigantesca, Lacan tentou resolver os problemas de formação com a introdução do passe, novo procedimento de acesso à análise didática. Aplicado a partir de 1969, provocou a partida de um grupo de analistas oponentes, que formaram uma nova escola: a Organização Psicanalítica de Língua Francesa (OPLF) ou Quarto Grupo. Essa cisão, a terceira da história do movimento francês, marcou a entrada da EFP em uma crise institucional que resultou em sua dissolução a 5 de janeiro de 1980, e depois na dispersão do movimento lacaniano em cerca de vinte associações.
Neste mesmo ano – 1980 -, funda a Escola da causa Freudiana.

O ensino
Pré-ensino: 1936 a 1952
Em seus textos, desse período, Lacan se ocupa em redefinir o narcisismo freudiano a partir da sua formulação do estádio do espelho, de definir o sujeito como sujeito articulado com o sentido, e de algumas de suas formulações que introduzem a lingüística como ciência-piloto de seu trabalho.
Neste primeiro momento, seus escritos estão ligados à teoria freudiana, mas carecem da radicalidade do retorno a Freud; terão antecipado “a inserção do inconsciente como linguagem, mas carecem da lingüística de Saussure, que permite ao Lacan de 1953 dar estrutura de linguagem ao inconsciente; e conseguem um grande desenvolvimento do registro imaginário, mas fracassam em definir os registros simbólico e real.
1951: Intervenção sobre a Transferência. “A psicanálise é uma experiência dialética”. Com este texto, inicia a primeira dobra do Ensino de Lacan.

Primeiro movimento do Ensino de Lacan 1953 – 1970
Em seu escrito Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise (1953) e no seminário 1 Os escritos técnicos de Freud (1953-54), Lacan deixa de balbuciar noções estruturalistas e assume o conceito de estrutura que encontra nos primeiros textos de seu amigo Claude Lévi-Strauss. Juntamente com o conceito de estrutura, Lacan assume também as conseqüências teóricas implicadas neste conceito – ou seja, a lingüística de Ferdinand de Saussure como ciência-piloto e a oposição binária da fonologia de Roman Jakobson como modelo estrutural.


Segundo movimento: 1970 - 1980
O segundo período, que se anuncia no Seminário livro XVIII – D’um discours quin e serait pas du semblant, adquire sua força argumentativa a partir do Seminário livro XX – Mais, ainda. Neste segundo período Lacan se afasta do estruturalismo, porque rompe com o seu passado saussuriano. A lingüística deixa de ser o saber referencial, a estrutura deixa de ser uma ordem transcendente que captura o vivente impondo-lhe a sua legalidade. O que estará em jogo, neste segundo tempo do seu ensino, não é mais o binarismo diferencial que toda teoria estrutural implica, mas antes, a radicalização do unário como único. No começo não há dois, não há a estrutura como sistema diferencial, não há deriva. No começo há um, é o que afirma Lacan no Seminário XX. Por isso, o problema que apresenta este segundo período é como do um, do único, do diferencial, surge à estrutura como semblante, como aquilo que faz crer que há dois quando, na realidade, há um.

quinta-feira, março 27, 2008

Fragmento do Nada





“- Na nossa terra, dizia um personagem, aconteceu uma coisa ... inacreditável...
Ou melhor, está para acontecer ... é difícil de explicar
... começou assim:
a leste de nossa terra há um lago...
ou melhor dizendo, havia...
Tudo começou quando, certo dia o lago desapareceu...
pela manhã, não estava mais ali.
Compreenderam?
- Não, quer dizer que secou? Disse um outro.
- Não. Se assim fosse, haveria ali um lago seco.

No lugar onde havia o lago não havia nada...
Nada mesmo, compreendem?
- Havia um buraco?
- Não, não havia um buraco.... um buraco ainda é alguma coisa.

E ali não há nada, e isso é que é difícil de explicar.
É como se uma pessoa ficasse cega,
quando olhasse para esse lugar...”


“A História Sem Fim”, de Michael Ende

quinta-feira, março 06, 2008

Curso 2008

PROGRAMA DO CURSO 2008


Sujeito, Desejo e Discurso.

Estrutura do curso
O Curso será estruturado a partir dos três eixos temáticos:

1. O Sujeito.

· A noção de sujeito na psicanálise: de Descartes a Lacan.
· Sujeito e Inconsciente
· Os dois modos de causação do Sujeito.


2. O Discurso

· A psicanálise é uma prática discursiva
· O Sujeito como efeito do Discurso
· Discurso e Desejo


3. O Desejo

· Desejo e Necessidade
· Desejo e Demanda
· Freud: O Desejo só se realiza no sonho
· O Sujeito desejante.


segunda-feira, janeiro 28, 2008

Curso 2008

Sujeito, Desejo e Discurso.
Início: 18 de março.
Horário: 16:30 as 18:00 hs.
Dia: Terça Feira (uma aula por semana)
Local: CFH – UFSC

Inscrições: e-mail:
malholthausen@hotmail.com
Fone: 3223-1532
9957.7654

domingo, janeiro 20, 2008

Roteiro da Felicidade: Jurandir F. Costa


Roteiro social da felicidade
JURANDIR FREIRE COSTA

Vamos ao tesouro da sabedoria popular. Conta-se que um louco procurava algo sob o facho de luz de um poste. Outro louco se aproxima, pergunta o que ele estava procurando e obtém como resposta uma chave! O segundo louco pergunta se ele tem certeza de que perdera a chave naquele lugar. O primeiro diz que não, mas só ali havia bastante luz para que se pudesse ver alguma coisa. O segundo, espantado, diz que o primeiro é louco e propõe que ambos procurem a chave no escuro.

A emenda é tão ruim quanto o soneto. Procurar o que se perdeu no lugar errado, só porque está iluminado, ou no lugar certo, mas onde nada se pode enxergar, são duas saídas insensatas, pois ou nunca encontraremos o que queremos achar, ou, se acharmos, não poderemos reconhecer o que encontramos.

A anedota pode metaforizar, para alguns, a cegueira do destino humano, às voltas com o malogro inelutável da ilusória realização do desejo. Entre o desejo e o objeto existe sempre o empecilho da luz que nada ilumina ou da escuridão que nos impede de reconhecer, quando encontramos, aquilo mesmo que estamos procurando.

Mas, como disse Henry James, "nosso destino jamais se frustra". A idéia do insucesso "intrínseco" à natureza do desejo pode ser temperada com uma dose salutar de pragmatismo. Em vez de sucumbir à sedução da impossibilidade, por que não experimentar outra saída? Por exemplo, no caso da anedota, por que não pensar em usar uma boa e simples lanterna? É isso o que William James dizia, ao evocar o adágio escolástico: "Onde encontrar uma contradição, faça uma distinção". Feita a distinção, o enigma ganha outra descrição, e, quem sabe, virão a surgir novos fachos de luz, novas lanternas e novos parceiros na busca do que desejamos.

A impressão que fica, ao se assistir ao filme de Todd Solondz, "Felicidade", é a de "loucos em busca de uma chave". O diretor evita, com inteligência, a atitude de palmatória do mundo diante dos personagens. Não se trata de afirmar que os adultos se infantilizaram, que as crianças perderam a infância ou que as famílias de hoje, artificiais como bonecos playmobil, perderam o script do que fazer ou dizer. Trata-se de mostrar o novo roteiro social da "felicidade": a confissão e a autenticidade. Em nome da "autenticidade", os indivíduos se sentem autorizados a confessar tudo o que sentem ou pensam, pouco importa o que decorra da confissão.

À primeira vista, tudo parece uma honesta reação à hipocrisia dos velhos tempos. No novo código moral, toda ocultação é mentira, portanto qualquer sandice dita vale cem sabedorias caladas. De fato, é possível que algo de honesto exista em tudo isso. Mas entre o compromisso com a verdade e a compulsão da confissão existe um formidável abismo moral. No filme, o que é sobremaneira constrangedor não é a desenvoltura com que os personagens expõem as fantasias sexuais ou agressivas: é a incapacidade de dizerem "não" à ordem cultural de confessar! Fazer das relações humanas cópias de confessionários religiosos ou divãs de psicoterapias não é ser mais honesto, sincero ou autêntico: é desistir do exercício da autonomia.

Há 20 anos, mais ou menos, a psicanalista Piera Aulagnier dizia que o direito ao segredo é a condição de se poder pensar. Pensar é buscar a coerência consigo e, a partir disso, julgar o que é justo ou injusto, em decorrência do contexto em que se pensa. Ao renunciarmos ao direito de pensar e julgar, em favor da confissão compulsória, renunciamos ao poder de selecionar o que é relevante para a vida moral.

Como qualquer forma de consciência de si, a "verdade sentimental obtida por confissão" se apóia em crenças e regras de conduta que não revelam, de imediato, seus objetivos morais implícitos. A primeira dessas crenças é de que, ao confessarmos o que sentimos, estamos "descobrindo" algo sobre nós mesmos, até então enterrado pela dissimulação social ou pela covardia emocional.

Quem confessa o que sente, mesmo ao preço de sofrimentos, sente o alívio heróico de padecer pela "justa causa". Ora, a confissão sentimental não descobre nada. Ela inventa, isso sim, uma identidade pessoal que, sem a prática da confissão, deixaria de existir. Assim como a confissão religiosa criava a identidade do pecador, a confissão sentimental cria a identidade do "sujeito emocionalmente maduro", essa pífia figura da cultura do narcisismo. Para um budista, um estóico, um Padre do Deserto ou um vitoriano esclarecido, dedicar-se a confessar as esquisitices da vida íntima seria não apenas despudor, mas estupidez.

A segunda crença é de que, ao confessarmos o que julgamos indecente, podemos nos tornar totalmente transparentes à nossa consciência e à consciência do outro. O mito racionalista da onipotência cognitiva, no ato mesmo de idolatrar o pretenso "irracional" humano, recalca o que os moralistas franceses disseram há muito tempo, e que pode ser sintetizado na máxima de Pascal: "O coração tem razões que a própria razão desconhece". Não precisamos recitar Freud para mostrar quão caricato é o saber psicanalítico usado como aval científico para a orgia da confissão leiga atual.

A terceira crença, enfim, é de que a verdade de nossos desejos, impulsos ou inclinações é "mais verdadeira" do que a verdade da sensibilidade à dor e à humilhação do outro. Em uma cena do filme, o aspecto grotesco da cultura da confissão aparece em toda violência: diante do filho (Rufus Read), preocupado com os mistérios da sexualidade masculina, o pai (Dylan Baker) não hesita em dizer o que lhe vem à cabeça. A "autenticidade" de seus sentimentos tem mais valor moral do que a delicadeza para com o sofrimento e a perplexidade afetiva do filho criança.

Os personagens de "Felicidade" não são maus, perversos ou "seres reprimidos" ávidos por liberação; são, pura e simplesmente, indivíduos inconsequentes e irresponsáveis, em relação às atitudes morais que reclamam para si. Ou seja, todos querem ser compreendidos, tolerados, perdoados e inocentados no que sentem e dizem, mas nenhum, exceto o personagem de Joy Jordan (Jane Adams), duvida que a prática da boa vida consiste, exclusivamente, em saber e dizer "quem se é" em matéria de sexo e agressividade. Passamos da hipocrisia vitoriana, em que o inferno era o outro, para o vaudeville nova-iorquino ou californiano da auto-ajuda, em que o inferno está dentro de nós, até que venhamos a cuspi-lo na cara dos outros.

Não temos por que nos sentir obrigados a escolher entre um ou outro desses cacoetes mentais. Se escutarmos William James, entre outros, podemos jogar fora a "chave dos loucos" e tentar viver outras felicidades menos tolas e infelizes.

sexta-feira, novembro 09, 2007


PSICANÁLISE VAI AO CINEMA


"O Cheiro do Ralo"

Neste filme, Selton Mello interpreta Lourenço, um comprador de objetos usados que negocia com pessoas geralmente desesperadas por dinheiro, com as quais desenvolve um jogo perverso. Num encontro casual, se vê obrigado a relacionar-se com uma mulher usando uma moeda diferente: o afeto. Para Heitor Dahlia, diretor da comédia, o cheiro do ralo é aquele lugar que todo mundo tem escondido, aquelas coisas obscuras do ser humano. Na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo de 2006, foi eleito o melhor filme pelo júri, que o tratou como a junção de um fino humor negro com reflexões psicológicas e sociais.

Debatedores convidados:
Maria Holthausen - Psicanalista; Doutora em Teoria Literária.
Manoel Ricardo de lima- Escritor; Professor de Literatura Portuguesa na UFSC.


Data/hora: 14/11/07 às 19h00.Local: Sala multimídia do CIC.

Atividade livre e gratuita

segunda-feira, outubro 22, 2007

Sobre a construção do eu: as identificações, os ideais.


Sem dúvida amo a mim mesmo, e com todo o furor viscoso em que a bolha vital ferve sobre si mesma e se infla em uma palpitação ao mesmo tempo voraz e precária, não sem fomentar em seu seio o ponto vivo de onde sua unidade voltará a brotar, disseminada de sua própria explosão. Em outras palavras, sou ligado a meu corpo pela energia psíquica, o Eros que faz os corpos vivos se conjugarem para se reproduzir, que ele chama de libido.

Mas o que amo, na medida em que existe um eu a que me vinculo por uma concupiscência mental, não é esse corpo cujo batimento e pulsação escapam mais evidentemente ao meu controle, mas uma imagem que me engana ao me mostrar meu corpo em sua Gestalt, sua forma. Ele é belo, é grande, é forte, o é mais ainda por ser feio, pequeno e miserável. Só me amo na medida em que me desconheço essencialmente, amo apenas um outro, um outro com um pequeno a inicial, daí o costume de meus alunos de chamar de "o pequeno outro".

Nada de surpreendente no fato de ser nada mais que eu mesmo que amo em meu semelhante. Não apenas na devoção neurótica, se indico o que a experiência nos ensina, mas igualmente na forma extensiva e utilizada do altruísmo, seja ele educativo ou familiar, filantrópico, totalitário ou liberal, à qual freqüentemente almejaríamos ver corresponder algo como a vibração da garupa magnífica do animal desafortunado, o homem só faz passar seu amor-próprio. Provavelmente esse amor já foi há muito tempo detectado em suas extravagâncias, mesmo gloriosas, pela investigação moralista de suas pretensas virtudes. Mas a investigação analítica do eu permite identificá-lo com a forma do odre [outre], com o excesso [outrance] da sombra cuja vítima será o caçador, com a vaidade de uma forma visual. Eis a face ética do que articulei, para ser compreendido, sob a expressõ "estádio do espelho".

O eu é feito, Freud nos ensina, das identificações superpostas à maneira de casca, espécie de armário cujas peças trazem a marca do tudo-pronto, embora a combinação não raro seja bizarra. Nas identificações com suas formas imaginárias, o homem julga reconhecer o princípio de sua unidade sob a aparência de um domínio de si mesmo da qual ele é o tolo necessário, seja ou não ela ilusória, pois essa imagem de si mesmo não o contém em nada. Embora seja imóvel, apenas seu esgar, sua flexibilidade, sua desarticulação, seu desmembramento, sua dispersão aos quatro ventos esboçam indicar qual é seu lugar no mundo. Ser-lhe-á necessário ainda muito tempo para que abandone a idéia de que o mundo foi fabricado à sua imagem e para que reconheça que o que ele encontrava, dessa imagem, sob a forma dos significantes que sua indústria começara a espalhar pelo mundo, era, desse mundo, a essência...


Jacques Lacan
Discurso aos católicos

domingo, outubro 07, 2007

Questões sobre escrita


O estudante, segundo Nietzsche, está ligado a Universidade pela orelha. O lugar do estudante, dentro da instituição acadêmica, é o lugar do ouvinte. Um ouvinte passivo frente ao saber do Mestre. O estudante ouve, anota, repete na prova, cita em seus trabalhos o saber autorizado pelos seus mestres. Um saber que, de maneira geral, é conformista e homogêneo. Um saber que o psicanalista francês - Jacques Lacan - denominou de saber-semblante. Ou seja, um saber que alimenta o conformismo identificatório. Quanto mais cito Jacques Lacan, quanto maior é o meu repertório de palavras e conceitos lacaniano, maior será a minha aprovação como pesquisadora deste teórico. Este conformismo identificatório com o saber do Mestre, o discurso universitário chama de rigor teórico.

Dentro do discurso universitário, não há espaço para o não-saber. Portanto, não há espaço para a criação, só para a repetição que advém da memorização. O bom estudante repete, não inventa.

Não estou, aqui, contestando o rigor teórico enquanto preocupação em “fundamentar”, “justificar” e “contextualizar” as afirmações que constituem o núcleo de cada tese. O que me interessa colocar em questão é o ato da escrita, a forma do texto, o estilo. Ou seja, as características fundamentais de um texto que me parecem quase sempre suprimidas, em nome de uma suposta objetividade teórica.

Na minha experiência de escrita dentro da academia, a falta do espaço de criação foi uma das maiores dificuldades, pois compreendo que para escrever é preciso uma certa quantidade de criação, de invenção. Para isso, é preciso autorizar-se no lugar do não-saber. Só escrevemos, conforme Deleuze, na extremidade do nosso próprio saber, nesta ponta extrema que separa nosso saber e nossa ignorância e que transforma um no outro. Suprir a ignorância é transferir a escrita para depois, ou antes, torná-la impossível.

Escrevemos impelidos por um ato de certeza antecipada. A precipitação do saber, que torna a escrita possível, confunde a certeza do sujeito com o sujeito da certeza. É no só depois que o sujeito verifica a justeza de alguma coisa que é atingida como verdade antes mesmo de poder ser verificada.
Na sua forma de operar com o saber, o discurso universitário apaga o sujeito do desejo, só é possível, dentro desta instituição, o sujeito da certeza. Pela via da certeza, somos sempre monológicos e dogmáticos. Os discursos dogmáticos apóiam-se num significado último, daí as relações bem conhecidas entre o discurso dogmático e o discurso teológico. Pela via da certeza toda linguagem é imperialista. Todos os textos se constroem com o objetivo de dar um sentido final ao que se diz. Por essa via, o texto é sem espírito. Lembrando-nos do aforismo célebre do Evangelho: a letra mata o espírito vivifica.

Mas ainda assim, acredito na letra com espírito. Uma questão de fé talvez, mas como a fé remove montanha, eis me aqui confessando a minha fé. Na contramão da fé a argumentação “epistemológica”. Para tanto, partimos da teoria psicanalista. Para a psicanálise, a letra é uma grande encruzilhada de símbolos, ponto de partida e ponto de reunião de inumeráveis metáforas. O espírito de uma letra, de uma palavra é simplesmente o seu direito a começar a significar. Aí, a literalidade é a recusa de se comprometer num processo de novas significações.

Então, por essa via, talvez devêssemos começar a pensar a escrita já no ato da leitura. Porque ler não é consumir passivamente textos que nos caíam de algum modo prontinho sob os olhos. Se partirmos da noção de leitura de Roland Barthes, “ler é reencontrar – no nível do corpo, e não no da consciência – como aquilo foi escrito: é colocar-se na produção, muito mais do que no produto”. Iniciamos esse movimento retirando de nós mesmos toda espécie de censura e deixando ir o texto em todos os seus transbordamentos semânticos e simbólicos. “Nesse ponto, ler é verdadeiramente escrever: escrevo – ou reescrevo – o texto que leio, melhor e mais adiante do que o seu autor o fez.” (Barthes, O grão da voz, p.269)

Ou ainda, a noção de leitura na linguagem merleau-pontyana. Para Merleau-Ponty “ler é deixar-se transformar pelo texto e dotar-se por ele de novos órgãos. Não se fará idéia do poder da linguagem enquanto não se tiver reconhecido essa linguagem operante ou constituinte que aparece quando a linguagem constituída, subitamente descentrada e privada de seu equilíbrio, ordena-se de novo para ensinar ao leitor – e mesmo ao autor – o que ele não sabia pensar nem dizer”. (Merleau-Ponty, A Ciência e a experiência da expressão, p.16).

O que me convoca, nestas duas noções de leitura, é que há um movimento de coincidência, de sobreposição entre a leitura e a escrita; e esse movimento toca o corpo. O que nos permite pensar o ato de ler e o de escrever, tanto pela via do sensível quanto da razão, ou do conhecimento.

Mais ainda, se colocamos o corpo no ato de ler e escrever, então podemos implicar a leitura e a escrita com o prazer e até mesmo com o erotismo, no sentido de sensualidade. Mas, como ler com prazer, um texto sem prazer? Um texto sem erotismo, sem sedução? Parece-me que os textos acadêmicos, em sua maioria, são textos que não se preocupam em seduzir o leitor. São os textos sem espírito: textos insípidos, pesados, obsessivos, tediosos. Textos que tem a função de superego, cuja primeira tarefa denegadora é, evidentemente, recusar toda e qualquer metáfora. Aquele que pratica este texto assassina a si próprio, pois assassina o seu próprio desejo.

Maria Holthausen

Texto apresentado no "Seminário - Olhares Sobre a Pesquisa em Educação"
UFSC - 2005.

sexta-feira, setembro 28, 2007

Desejo:




Podemos entender o desejo como a negatividade do mundo narcísico, isto é, como aquilo para o que não há objeto dado e conformado de satisfação plena, como fazem parecer as imagens ideais.

O desejo é sempre de outra coisa. O desejo pressupõe a falta. Falta que, aliás, marca uma das diferenças entre Freud e Lacan: enquanto para Freud o desejo tem uma gênese empírica na perda da simbiose do bebê com sua mãe, para Lacan o desejo é a necessária relação do ser com a falta.

quinta-feira, setembro 27, 2007

Sartre & Descartes


... No texto de 1945 intitulado “A liberdade cartesiana”, Sartre critica Descarte por ter reservado ao homem apenas a liberdade negativa, a possibilidade de duvidar, de dizer não. Descartes, diz Sartre, sustou do homem, em proveito exclusivo de Deus, toda a liberdade da imaginação criativa. Humanista radical, Sartre vai reivindicar para o homem o estatuto de criador-criatura, ou seja, vai recolocar sobre os ombros do homem a responsabilidade total de produzir e justificar seus próprios valores universais. O homem está jogado e sozinho no mundo, sem justificativa alguma, e sobretudo sem o consolo de pensar que poderia encontrar algum fundamento para seus valores fora de si próprio, quer dizer, fora daqueles que ele mesmo deve produzir criativamente e justificar com todo o peso que essa responsabilidade implica.

Ser contingente é ser gratuito, sem razão e sem justificativa. Ora, para Sartre, uma das maneiras pelas quais o homem se aliena na inautenticidade, como forma de mascarar essa angústia, consiste em viver sua vida como um romance que ele mesmo se conta. É se imaginar contando a própria vida em vez de vivê-la. A aventura é mais saborosa quando a narramos para alguém como uma experiência que já passou e da qual nos salvamos como um herói.
Para Sartre, nada mais distante da vida real do que um belo enredo linear no qual o que é contado antes justifica e prepara o que vem depois e um herói vive feliz peripécias numa vida sem tédio. Tédio que, justamente, é uma das expressões da contingência na emoção do homem comum. Romancear a própria vida constitui uma poderosa defesa que nos permite fugir da facticidade até chegar à desrealização de si e do mundo. Essa desrealização Sartre encontra em si mesmo, quando narra sua infância, passada no meio dos livros, o que só lhe permitia ter acesso ao mundo real através das palavras. Essa estetização da vida permitia ao pequeno Sartre, sentir sua vida justificada como a do herói de algum romance de final feliz.

Essa mesma irrealização estética da vida é o cerne da psicanálise existencial a que Sartre submete Jean Genet...O projeto de Genet, segundo Sartre, é viver a si mesmo como um outro. Tentar coincidir com o estatuto de objeto ao qual ele é reduzido pelo olhar dos outros. Genet desrealiza sua vida ao aceitar preencher o vazio da existência com a essência já pronta que o olhar do outro lhe confere. Melhor do que sentir a angústia de ser um existente que, a cada instante, decide seu ser escolhendo suas possibilidades, Genet escolheu a santa eternidade da estátua, petrificada pelo mandamento do olhar do outro.

Genet é o homem que decidiu ser o que os outros fizeram dele.

Recortes do texto de: David Levy – Enredos satrianos.

terça-feira, setembro 11, 2007

Fragmentos: Objeto "a" na experiência analítica


fragmento...


O estado atual da civilização se descreve como individualismo de massa ou hedonismo conformista de massa. Alguns se lamentam das conseqüências que isto acarreta para o laço social e sua fragilização. Não podemos estar de acordo com esta queixa que aponta para as desordens que produzem a ascensão ao zênite da época do fantasma, do gozo. O objeto a aparece mais claramente, enquanto que antes estava velado. O que se denunciava desde antes da segunda guerra mundial como tirania do narcisismo é agora, a época do desvelamento do objeto tirano. Não se queixar das conseqüências que podemos ler nos sintomas que afetam os laços sociais é a indicação dada por Jacques-Alain Millar por ocasião do Congresso da AMP, em Comandatuba, em 2004. Um psicanalista não pode admitir este termo hedonismo contemporâneo, pois o hedonismo é um sonho. Este suporia uma medida possível das relações do sujeito e de seu gozo. Os limites desta relação podem se situar em duas vertentes. A primeira é a do amor, que prefere o nada à satisfação.

A outra vertente do limite do assim chamado hedonismo é o gozo mais além do princípio do prazer, que indica o horizonte da pulsão de morte.

Adições e laço social

A mobilização geral que produz o capitalismo global, nunca visto na história, produz um efeito que vai muito mais além da cantilena do hedonismo e da felicidade. Atualiza um "mais de gozar" que não pode cessar de produzir seus efeitos em duas vertentes: pulsão de morte e restauração de um amor pelo pai morto.

De um lado, o fundamentalismo religioso e do outro, o capitalismo "narco". Estas duas vertentes podem se reunir quando nos inteiramos que os Talibãs se financiam com o cultivo de amapola e a exportação do ópio, da mesma maneira que a guerrilha colombiana se financia com a coca. Há um estudo muito interessante que mostra que, à medida que a queda dos ideais transforma as guerrilhas em um discurso absolutamente vazio sobre o porquê lutam, em que estão, o transforma em um discurso a nível ideológico cada vez mais vazio, mas em profundidade, transformam-se na organização precisamente mais adaptada à fabricação, distribuição, financiamento do circuito "narco". E temos, então, uma mistura dos extremos, que nos faz pensar que o mais difícil na civilização do suposto hedonismo é tratar sua relação com a adição.

A adição é o horizonte autista e mortífero do gozo. Apresenta-se, aparentemente, como o outro pólo completamente distinto deste amor que nos remeteria ao nada. Inclusive, o "narco" não só nos separa do Outro, como também nos re(inclui) dentro de Outro, que é o fato de que há um tratamento possível da adição. Há especialistas na sala e eles sabem que mais que um tratamento, há tratamentos possíveis da adição, no plural.

De fato, a civilização do chamado hedonismo é uma civilização da dependência, da adição. O tratamento da adição, da toxicomania do sujeito, é um dos mais difíceis que existem. Haveria que partir por outra parte de tratamentos, no plural, e reparti-los segundo os quatro eixos que podemos inscrever com os matemas do sujeito, do objeto, do saber e do significante amo.

O tratamento pelo sujeito consiste em afirmar que "o toxicômano não existe!" Propõe ao sujeito, não se identificar mais a seu ser de toxicômano para deixar um lugar para sua divisão subjetiva e para o gozo da palavra. Este tratamento só é aceito por um número limitado dos sujeitos que franquearam o passe da adição.

Existe também o tratamento pelo saber, por sua vez, pedagogia do toxicômano e extração do saber do toxicômano sobre seu objeto. De um lado, propõe-se a ele: "Explique-me bem os efeitos que a droga produz sobre você!". Do outro, explica-se a ele: "se continuar assim, você vai morrer em tais e tais circunstâncias". É um modo de tratamento participativo. Em nome do saber, você tem direitos e deveres. Você pode, deste modo, negociar sua relação com este gozo desordenado, em nome deste saber.

O tratamento pelo S1, ao contrário, é o avesso do tratamento pelo S barrado. "Você é um toxicômano, sem dúvida nenhuma, e vamos tratá-lo como tal. Você não tem já nenhum direito mais de se colocar sob um ideal: o de ser um "ex-adito". Situar-se-ão, por tanto, os sujeitos em grupos de toxicômanos-anônimos, onde cada um buscará apoio no outro, em nome da identificação ideal.

Existe também, o tratamento pelo objeto, pelos objetos de substituição. Você é dependente da heroína, lhe propomos a metadona ou o Subutex®. Esta substituição não lhe matará, lhe dará acesso a um objeto legal, a direitos, a um status social. É um modo de reinscrever o sujeito separado do todo, em um discurso, em um laço social. Deste modo, o terrível objeto de poder que destrói todos os laços sociais permite, paradoxalmente, reunir o Sujeito com o Outro. É êxtimo a ele e, portanto o inscreve, de um certo modo, neste Outro. É a razão, creio, pela qual Lacan não se angustiou frente ao estado atual da civilização. Melhor, falou da fadiga que a longo prazo ia capturar o sujeito frente aos objetos de dependência que lhe são propostos. Mais precisamente, Lacan oscilou entre o aspecto angustiante de uma civilização onde falta a falta e efeito de fadiga, de tédio, de depressão generalizada que produz.
Vemos, deste modo, duas modalidades segundo as quais, com este objeto de gozo, reenodamos um laço com o Outro. Não a partir do simbólico, mas por meio do corpo nestas duas consistências de real e de imaginário.
....
Éric Laurent
A aposta maior do Congresso de 2008 da AMP sobre os “objetos a na experiência analítica” é prosseguir nosso diálogo entre a psicanálise como prática e a civilização, que é nossa parceira.

quinta-feira, setembro 06, 2007

Cursos

Universidade Federal de Santa Catarina
Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Departamento de Filosofia
Curso de Pós-Graduação em Filosofia
Área de Ontologia 2007/02


Professor: Marcos José Müller-Granzotto
Disciplina: Ontologia e Método II
FIL 3150
Data/horário: 3ª feira / das 13:30 às 16h - Sala: 322

Título do Curso: O Outro no discurso fenomenológico.

Objetivo do curso:
Discutir, a partir da Quinta Meditação Metafísica de Edmund Husserl (1931), a concepção fenomenológica da experiência do outro (entendido como alter-ego) e a maneira como essa concepção repercutiu na filosofia da intersubjetividade desenvolvida por Merleau-Ponty.

Conteúdo programático comentado:
A apresentação do outro como uma possibilidade do ego transcendental, como uma das muitas objetivações possíveis desse campo amplo de experiências intencionais, que é a consciência transcendental, não foi suficiente para livrar Husserl das críticas que o acusaram de transformar a fenomenologia das “Investigações Lógicas” num solipsismo transcendental. Desse ponto de vista, o outro, assim como todo e qualquer objeto intencional, não significaria mais que uma apresentação unificada dos vividos articulados por um ego transcendental. Ora, é verdade que o ego transcendental pode representar o outro como um objeto categorial. Mas isso não quer dizer que não haja, para o ego, uma apresentação intuitiva do outro como alter ego, como poder intencional diferente, núcleo distinto de articulação entre atos e vividos. Afinal, para Husserl, a consciência transcendental é governada por muitos egos, tem muitos articuladores; ela é um mundo intersubjetivo(1). De toda sorte, é sempre o ego quem pode visar o alter ego. E a questão é como o ego pode fazê-lo.
De fato, nas “Meditações cartesianas” (1931, p. 16-17), Husserl diz:
E no que se refere aos outros egos? Eles não são, todavia, simples representações e objetos representados em mim, unidades sintéticas de um processo de verificação que se desenrola em mim, mas justamente outro. Os “outros” dão-se igualmente na experiência como regendo psiquicamente os corpos fisiológicos que lhes pertencem. Ligados assim aos corpos de maneira singular como objetos psicofísicos, eles estão no mundo. Por outro lado, percebo-os ao mesmo tempo como sujeitos para este mundo que eu percebo e que tem, por isso, experiência de mim como eu tenho a experiência do mundo e nele dos outros.

De onde se segue à questão que dará o norte na quinta meditação proposta por Husserl:
Como é que o meu ego no interior de seu ser próprio pode de alguma maneira constituir “o outro” justamente como lhe sendo “estranho”; quer dizer, conferir-lhe um sentido existencial que o coloca fora do conteúdo concreto do “eu próprio” concreto que o constitui? (HUSSERL, 1931, p. 121)

Para Husserl, em verdade, não se trata de “construir” ou “deduzir” a existência do outro para o ego transcendental. Cabe à fenomenologia tão somente explicitar em que medida pode haver para o ego transcendental uma inatualidade que, por um lado, se oferece tal como os perfis, os aspectos, os lados e as apresentações intuitivas das coisas; mas, por outro, diferentemente desses modos de apresentação, porquanto se introduz como um “estranho”, não se deixa apreender numa unidade intuitiva evidente, tal como evidentes são as unidades intuitivas que denominamos de coisas (cubos, cadeiras, árvores...). Ou seja, para o ego transcendental, o outro é um modo de apresentação especial, na medida em que deixa perceber algo que não pode ser percebido, como se se tratasse de uma manifestação não apenas inatual, cheia ou vazia, mas, sobremodo, negativa, estranha. O ego transcendental percebe uma impossibilidade perceptiva, mas que, paradoxalmente, se mostra como impossível.

Mas não é apenas isso. O mais paradoxal é que esse estranho se revela capaz de intencionar; o que significa dizer: ele se revela investido da capacidade de visar às mesmas inatualidades que eu próprio (enquanto ego transcendental) sou capaz de visar. O que introduz, para mim (como ego transcendental), novas “orientações” no modo de se visar ao mesmo mundo; orientações que, entretanto, não partiram de mim, mas de um lugar de meu mundo de inatualidades que é, antes, uma “lacuna”. Nela posso presumir, apenas de modo “lateral”, a presença de um eu que é outro, de um ego que é alter ego. Esse alter ego não se mostra ele mesmo; ele se dissimula por detrás de condutas em que reconheço certo “estilo”, determinada orientação, a qual, por vezes, me é tão familiar que posso tranqüilamente assumi-la com meu próprio corpo. Mesmo porque, o alter ego é indissociável de um corpo, de um corpo de inatualidades organizadas segundo uma intenção que não é a minha. Husserl denomina de acoplamento (paarung) ou, ainda, de transgressão intencional essa transponibilidade motora e gestual entre o ego e o alter ego.

Mas Husserl não pode assumir até o fim as conseqüências dessa maneira de descrever o alter ego. Isso porque tal descrição implica admitir que a consciência transcendental é habitada por um “estranho”, que exerce funções semelhantes às do ego transcendental, mas não se deixa reconhecer como o ego. Trata-se, portanto, de algo “não evidente”, o que estabelece um sério limite ao projeto husserliano de apresentação da consciência como um campo “evidente” nele mesmo. Mesmo admitindo essa intersubjetividade por acoplamento, que se mostra de modo lateral, nos termos de uma mútua transgressão entre meu corpo e o um corpo estranho, Husserl não declina de “aceder ao outro a partir do cogito, da ‘esfera da pertinência’”, como diz Merleau-Ponty (1949b, p. 48). Ainda que, nos textos tardios, possamos encontrar em Husserl uma “tendência a revisar a noção de cogito (a encarnação do eu em suas expressões), (...) ela esbarrava na própria definição de uma consciência pura” (MERLEAU-PONTY, 1949b, p. 51). E, de fato, nas “Meditações cartesianas”, Husserl (1931, p. 126) afirma que:


Na atitude transcendental tento, antes de mais nada, circunscrever no interior dos horizontes da minha experiência transcendental aquilo que me é próprio (das Mir-Eigene). Tudo o que o eu transcendental constitui nessa primeira camada como “não-estranho”, como aquilo que lhe pertence é, com efeito, seu a título de componente do seu ser próprio e concreto (...) e inseparável do seu ser concreto. Mas no interior de suas pretensões o ego constitui o mundo objetivo como universalidade do ser que é estranho ao ego e em primeiro lugar, o ser do alter-ego.

Em função dessas proposições, Merleau-Ponty (1960, p. 100) conclui que:
a posição de outrem como um outro eu próprio não é possível se for efetuado pela consciência: ter consciência é constituir. Portanto, não posso ter consciência de outrem, pois seria constituí-lo como constituinte com respeito ao próprio ato pelo qual o constituo. Essa dificuldade de princípio, posto como limite no início da Quinta Meditação Cartesiana, não é resolvida em parte alguma.

Ora, Merleau-Ponty toma para si o desafio de descrever a intersubjetividade da consciência prescindindo do ideal de evidência constantemente perseguido por Husserl. Mais do que isso, na trilha aberta pelo próprio Husserl, Merleau-Ponty admite pensar o outro como um “estranho”, como essa lacuna de nossa experiência que, enfim, nunca conseguimos preencher ou habitar integralmente. E é essa transformação no modo de compreender o problema husserliano do outro que propriamente fundamenta nosso dizer sobre uma “deriva da fenomenologia em direção à ética”.

Ao dar direito de cidadania ao “estranho”, Merleau-Ponty declina de uma fenomenologia que quer ser “explicitação”, para estabelecer um discurso que tem antes um sentido ético (com eta), um sentido de acolhida e tolerância àquilo que se mostra como um irredutível. Merleau-Ponty declina da evidência em favor daquilo que estabelece um desvio no curso da investigação. Tal decisão, ademais, se fez acompanhar de outra tomada de posição, que é a suspensão da própria idéia de que a redução nos conduz a um ambiente “puro”, em que todas as relações intencionais possam ser explicitadas. Para Merleau-Ponty, a consciência enquanto campo não é uma instância pura. Afinal, não só o ego transcendental, fundamento dinâmico dessas relações, não é mais exclusivo (ele é acompanhado de outros egos, tal como já admitia Husserl), como também não é mais capaz de gerenciar (ainda que operativamente) todas as relações intencionais da qual ele próprio participa. O que faz implodir o ideal de uma consciência transparente para si mesma: um ego já não nos dá todos os outros, como gostaria Husserl. Cada ego é para seu semelhante a encarnação do mistério que, a partir de agora, define a consciência como um campo fenomenal, como um campo de ocorrências não apenas inatuais, mas investidas de uma autonomia que não pode ser integralmente possuída, integralmente habitada.

Essa idéia de uma consciência impura, de um campo fenomenal não apenas intersubjetivo, mas desprovido de transparência, não é uma idéia que surgiu apenas com Merleau-Ponty. A bem da verdade, ela já estava em obra com a segunda geração de psicólogos da gestalt, que leram no idealismo transcendental de Husserl, os mesmos paradoxos lidos por Merleau-Ponty anos mais tarde. Especialmente Kurt Goldstein reconheceu na idéia de uma consciência fundada em uma intencionalidade operativa, articulada nos termos de uma egologia não exclusiva, a possibilidade de compreender o funcionamento do organismo e a paradoxal presença da doença. Afinal, Goldstein percebeu que, mais do que uma falha do funcionamento homeostático, a doença é como um outro ego, que impõe ao organismo uma nova forma de se ajustar, a qual é tão criativa e espontânea quanto aquela atribuída ao ego “saudável”. A partir dessa leitura egológica da doença e da saúde, Goldstein compreendeu que: o organismo é ele mesmo um campo fenomenal povoado por muitos vetores intencionais, por muitas formas de intencionalidade, às quais são correlatas daquelas que vigem entre o organismo e os outros organismos no interior de um novo campo fenomenal, mais abrangente, que é o “meio”. De onde Goldstein se autorizou a falar da relação organismo/meio como uma sorte de consciência alargada, que muito contribuiu para Merleau-Ponty estabelecer a sua “Fenomenologia da Percepção”. Em certa medida, Goldstein inaugurou a guinada ética que a fenomenologia viria a conhecer na pena de Merleau-Ponty e, em seu formato mais explícito, na prática clínica inaugurada por Perls, Hefferline e Goodman.

Bibliografia
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NOTAS:
1.Nas palavras de Husserl: “realmente” (reell), qualquer mônada é uma unidade absolutamente circunscrita e fechada, todavia, a penetração irreal, penetração intencional de outrem na minha esfera primordial, não é irreal no sentido do sonho ou da fantasia. É o ser que está em comunhão espiritual com o ser. É uma ligação que, por princípio, é “sui generis”; uma comunhão efetiva, o que constitui precisamente a condição transcendental da existência de um mundo, de um mundo dos homens e das coisas (...). A esta comunidade corresponde, bem entendido, ao concreto transcendental, uma comunidade ilimitada de mônadas [egos transcendentais] que designamos pelo termo intersubjetividade transcendental (HUSSERL, 1931, p. 114-165).


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