domingo, novembro 16, 2008

Livro revela o poder do inconsciente




André Singer
Da Folha de S. Paulo


À diferença do que pensa o senso comum, o complexo de Édipo habita os indivíduos até a morte. Como um fragmento de matéria radioativa, ele continua a produzir emanações dentro de nós muito tempo depois da fase infantil em que foi superado.

Mas, se foi resolvido na infância, por que o desejo do menino pela mãe e da menina pelo pai continua a produzir efeitos nos adultos, sãos ou neuróticos? Porque, embora reprimido, o desejo resiste no inconsciente, onde opera em "sintonia com a vivência que cada indivíduo teve" da fase da vida em que ele foi suprimido das possibilidades práticas e da consciência, como explica o psicanalista Luiz Tenório Oliveira Lima em "Freud", da série "Folha Explica".

O modo pelo qual Tenório mostra a força do inconsciente, prescindindo do recurso a abstrações, é uma das virtudes do livro. Assim, sem fazer concessão a visões simplificadas, o autor produziu um roteiro de fácil compreensão para quem quiser começar uma visita ao reino da psicanálise.

A clareza do texto é fiel, aliás, a uma das marcas do trabalho do próprio Freud. Embora tivesse que lidar com um universo até então desconhecido, o criador da nova disciplina foi capaz de escrever de modo cristalino. Qualquer leitor medianamente ilustrado, desde que disposto a ler com concentração, é capaz de entender o raciocínio do mestre vienense.

A vantagem de começar por uma introdução como "Freud" está em que ela organiza uma obra vasta, fruto de vida longa. Nascido na Morávia (atual República Tcheca) em 1856, Freud morreu em Londres 83 anos depois. Desde 1900, quando publicou "A Interpretação dos Sonhos" (tido como texto fundador da psicanálise), ele não parou de produzir até a morte, em 1939.

Em meio às inúmeras possibilidades de leitura de Freud, Tenório foi feliz ao escolher a linha de continuidade que vai do "Estudo sobre a Histeria" (em co-autoria com o médico Josef Breuer ainda em 1896), no qual já aparece a idéia de que são emoções reprimidas as causas de sintomas histéricos, ao "Mal-Estar na Civilização" (30). Neste brilhante ensaio, um Freud maduro volta ao tema da repressão, mas do ângulo social.

Para Freud, a repressão dos desejos e impulsos agressivos naturais é inerente ao processo civilizatório. Em "Totem e Tabu" ele já mostrava que a sociedade não se formaria se não fossem criadas proibições, como a que incide sobre relações sexuais endogâmicas. O indivíduo também não se torna adulto relativamente independente (nunca há independência total) caso não internalize, como superego, as regras da cultura ("O Ego e o Id").

Porém, em "Mal-Estar na Civilização", Freud aponta um dos paradoxos centrais do nosso tempo: o de que quanto mais avança a civilização - portanto quanto mais democrática ela se torna - mais cresce a violência, uma vez que o avanço cultural vem de um incremento na repressão aos instintos, os quais tendem a se descontrolar sob excesso repressivo.

A única saída, assinala Tenório, é administrar os sentimentos destrutivos. Isto é, reconhecê-los, falar deles, tratá-los, para não precisar colocá-los em ação. Saber que o inconsciente existe e que nunca se tornará transparente por inteiro é um primeiro passo para compreender por que a psicanálise é indispensável no violento mundo de hoje. O "Freud" de Tenório funciona, assim, como excelente convite para aprofundar o conhecimento da matéria.

sexta-feira, novembro 14, 2008

Da Conversa Infinita






A situação da análise tal como Freud a descobriu é uma situação extraordinária que parece tomada de empréstimo à magia dos livros. Essa relação que se estabelece, como se diz, entre o divã e a poltrona, essa conversa nua em que, num espaço separado, recortado do mundo, duas pessoas, invisíveis uma à outra, são pouco a pouco chamadas a confundir-se com o poder de falar e o poder de ouvir, a não ter outra relação a não ser a intimidade neutra do discurso, essa liberdade para um de dizer seja lá o que for, para o outro de escutar sem atenção, como à revelia e como se não estivesse aí - e essa liberdade que se torna, por isso mesmo, a mais obscura, a mais aberta e a mais fechada das relações.

Maurice Blanchot, in A Conversa Infinita - II

domingo, novembro 09, 2008

Foucault e Lacan







Lacan não exercia nenhum poder institucional. Os que o escutavam queriam exatamente escutá-lo. Ele não aterrorizava senão aqueles que tinham medo. A influência que exercemos não pode nunca ser um poder que impomos.

"Lacan, o 'libertador' da Psicanálise"
Michel Foucault, in: Ditos e Escritos I

quinta-feira, novembro 06, 2008

Rostidades

Apropriação dos traços faciais de outra pessoa rompe o sentido de identidade e relativiza o narcisismo da sociedade contemporânea

Maria Rita Khel

"Um rosto extinto. Um grau de extinção por certo nunca antes atingido na espécie humana"(Michel Tournier)

O que acontece com o sentimento de identidade de uma pessoa que se depara, diante do espelho, com um rosto que não é seu? Como é possível manter a convicção razoavelmente estável que nos acompanha pela vida, a respeito do nosso ser - essa ficção indispensável - no caso de sofrermos uma alteração radical em nossa imagem?

Perguntas como essas provocaram um intenso debate a respeito da ética médica depois do transplante de parte da face em uma mulher que teve o rosto desfigurado por seu cachorro em Amiens, na França. Deixo de lado os aspectos da discussão motivados pela rivalidade profissional, em que argumentos éticos podem mascarar a disputa por prestígio e glória entre equipes médicas da França e da Inglaterra. Interessa-me a relação subjetiva entre a identidade e o rosto. Essa relação é tão íntima que, dentre as várias possibilidades de mutilação física, consideramos hediondas as que destroem partes do rosto. Nesses casos, empregamos o termo desfiguração.


Quando o rosto se torna irreconhecível, a figura humana se desfaz. A legislação britânica que condena o transplante de rosto em consideração à (previsível) crise subjetiva ante uma transformação radical dos traços da face desconsidera que, mais despersonalizante do que encontrar no espelho um rosto alheio, é não encontrar rosto nenhum. Ou não: talvez seja menos custoso para um acidentado suportar o luto pela perda da figura facial - e manter sob as ataduras a identificação imaginária com o rosto antigo - do que o estranhamento diante de um rosto outro.

Ilusão necessária
Mas penso que vale a pena o trabalho de refazer essa identificação. O que chamamos, confusamente, de identidade não tem nada a ver com o ideal - sempre fracassado - de nos mantermos idênticos, seja a nós mesmos, seja à imagem ideal que pretendemos oferecer ao olhar do outro. A identidade é uma ilusão necessária, de unidade e continuidade do eu.Ocorre que o eu se constitui a partir da imagem corporal. Nosso sentimento de permanência e unidade se estabelece diante do espelho, a despeito de todas as mudanças que o corpo sofre ao longo da vida. A criança humana, em um determinado estágio de maturação, identifica-se com sua imagem no espelho. Nesse caso, um transplante (ainda que parcial) que altera tanto os traços fenotípicos quanto as marcas da história de vida inscritas na face destruiria para sempre o sentimento de identidade do transplantado?

Talvez não. Ocorre que o poder do espelho - esse de vidro e aço pendurado na parede - não é tão absoluto: o espelho que importa, para o humano, é o olhar de um outro humano. A cultura contemporânea do narcisismo, ao remeter as pessoas continuamente a buscar o testemunho do espelho, não considera que o espelho do humano é, antes de mais nada, o olhar do semelhante.

É o reconhecimento do outro que nos confirma que existimos e que somos (mais ou menos) os mesmos ao longo da vida, na medida em que as pessoas próximas continuam a nos devolver nossa "identidade" - aspas necessárias.

Sagrado e insubstituível
O rosto é a sede do olhar que reconhece e busca reconhecimento. O rosto é sagrado, disse e escreveu insistentemente Emmanuel Lévinas. Por que sagrado? O que há de insubstituível em um rosto, que faz dele o centro da nossa humanidade e a sede imaginária do eu? É que o rosto não se reduz à dimensão da imagem: ele é a própria presentificação de um ser humano, em sua singularidade irrecusável. Além disso, dentre todas as partes do corpo, o rosto é a que faz apelo ao outro. A que se comunica, expressa amor ou ódio e, acima de tudo, demanda amor.

A literatura pode nos ajudar a amenizar o drama da paciente francesa. O Robinson Crusoé do livro "Sexta-Feira ou os Limbos do Pacífico" (Bertrand Brasil), de Michel Tournier, perde a noção de sua identidade e enlouquece, na falta do olhar de um semelhante que lhe confirme que ele é um ser humano. No início do romance o náufrago solitário tenta fazer da natureza seu espelho. Faz do estranho, familiar, trabalhando para "civilizar" a ilha e representando diante de si mesmo o papel de senhor sem escravos, mestre sem discípulos.

Mas depois de algum tempo o isolamento degrada sua humanidade. O Robinson de Tournier passa a se identificar com os animais, falar com os macacos e rolar na lama com os porcos. "Narciso de um tipo novo, abismado de tristeza, com recrudescido nojo de si (...), compreendeu que o rosto é essa parte da carne modelada e remodelada, aquecida e permanentemente animada pela presença dos nossos semelhantes."

Na versão de Tournier, a entrada em cena do selvagem Sexta-Feira vem salvar Robinson Crusoé não da solidão, mas da loucura.

A paciente francesa, que agradeceu aos médicos a recomposição de uma face humana, ainda que não seja a "sua", vai agora depender de um esforço de tolerância e generosidade por parte dos que lhe são próximos.Parentes e amigos terão que superar o desconforto de olhar para ela e não encontrar a mesma de antes. Diante de um rosto outro, deverão ainda assim confirmar que ela continua sendo ela. E amar a mulher estranha a si mesma que renasceu daquela operação.

Maria Rita Kehl é psicanalista e ensaísta.




in: Jornal de Poesia - on-line



domingo, novembro 02, 2008

Os sonhos



A interpretação dos Sonhos, publicado em 1900, foi considerado o melhor livro de século XX. Nesse ambicioso texto, contrariamente aos seus contemporâneos, Freud considera que a oniromancia tem fundamento de verdade. E, a partir daí, passa a estudar a vida onírica, apresentando os fatos que analisava com uma exatidão escrupulosa, exigindo de si mesmo o rigor próprio à ciência do seu tempo.

Durante dois anos o jovem Freud se dedica à elaboração de sua “tese”. Sua pesquisa não deixa de fora nenhuma obra conhecida que abordasse o tema dos sonhos, nem mesmo os sempre populares livros de sonhos egípcios. Cada possível argumento, cada possível interpretação é examinada com seriedade e rigor científico.


O livro é pleno de exemplos. Muitos sonhos são analisados e interpretados. O que mais custou ao autor, no entanto, foi o fato de que, devido ao sigilo com que deveria resguardar os sonhos de seus pacientes, Freud utiliza os próprios sonhos para dar seqüência à obra: se expõe aos efeitos de sua própria tese, tira as conseqüências de seus próprios sonhos trabalhando suas próprias neuroses. E, corajosamente, nos expõe todo o processo.

Graças a esse estudo sistemático, Freud conclui que o material do sonho propriamente dito - o conteúdo manifesto - não tem interesse; é constituído em geral por um conjunto incoerente de imagens insignificantes ou absurdas. O que conta é a significação implícita no conteúdo manifesto, o chamado conteúdo latente, ao qual só é possível ter acesso com uma chave apropriada. A chave que ele nos entregou com A Interpretação dos Sonhos. Qual seja, as leis próprias do inconsciente.

A tese central do texto é a de que "O sonho é a realização de um desejo". Esse desejo não é necessariamente um desejo que possamos aceitar em nossa vida consciente. Quando não se trata de um desejo aceitável, nos diz Freud, preferimos esquecê-lo. Este esquecimento será descrito como conseqüência de um mecanismo chamado “recalque”. O desejo recalcado, no entanto, permanece em algum lugar exercendo seus efeitos. Os sonhos são apenas um exemplo destes efeitos.

Os sonhos têm por característica sua falta de senso, sua não obediência às leis que nos regem na vigília. Seguem uma lei própria, seguem uma lógica que não é a lógica cotidiana. Freud é levado assim a demonstrar que nosso aparato mental é formado pela consciência, cujas regras reconhecemos, e pelo inconsciente, cujos efeitos nos surpreendem por seguir uma lógica diferente e desconhecida (ainda que sempre familiar).

Desta forma, um desejo que não condiz com o nosso ideal de vida é negado, jogado para aquele campo que não segue as mesmas regras de nossa consciência. No inconsciente este desejo vai procurar sua expressão a qualquer custo. Se não é possível que ele se expresse conscientemente (por que no consciente atua o recalque), ele vai buscar alguma expressão substitutiva que consiga escapar à censura. Assim, o sonho pode ser entendido como a expressão de uma série de desejos, que encontram nele a única via para a consciência. É por isto também que o sonho será entendido por Freud como a via régia para o inconsciente, uma vez que é sua manifestação mais direta.

Por essa mesma via, Freud vai compreender os sintomas neuróticos. Ou seja, o sintoma neurótico é também a manifestação de um desejo. A principal diferença é que no sintoma uma solução é encontrada para que o desejo se apresente na consciência. Também neste caso, contudo, este desejo se manifestará com as distorções necessárias para que possa ser aceito pelo consciente.

Sempre estamos às voltas com o conteúdo manifesto de nossos sonhos. Mas, se quisermos entendê-los verdadeiramente, precisamos passar para o conteúdo latente e isso implica fazer um trabalho consigo mesmo. Um trabalho que revele a direção do desejo inconsciente que o conteúdo latente insiste em apontar.


segunda-feira, outubro 27, 2008

Nome-do-Pai


Para compreender a importância do Nome-do-Pai é necessário lembrar que Lacan transforma o complexo de Édipo na estrutura de passagem da natureza à cultura por meio da introdução do sujeito na ordem simbólica. É no interior da família que o sujeito moderno descobre a existência de uma Lei simbólica baseada em interditos (como o incesto) e lugares fixos de parentesco. O pai, sendo aquele que dá nome ao filho e encarna a autoridade, será o representante da Lei. O Nome-do-Pai é o significante dessa função paterna, como uma chave que abre, ao sujeito, o acesso à estrutura simbólica e que lhe permitirá nomear seu desejo. Daí porque: "A função do pai é unir um desejo à Lei". Não é por outra razão que Lacan vê, no declínio da "imago" paterna, uma fonte privilegiada de neuroses contemporâneas.
Vlademir Safatle

sábado, outubro 25, 2008

O que é a Segunda Clínica de Jacques Lacan?


No percurso de Lacan, encontramos duas clínicas. Elas são diferentes na forma de abordar os fenômenos clínicos, de trabalhar psicanaliticamente, de dirigir o tratamento e de formalizá-lo. Estabelecem relações complexas entre si.


Nos anos 50, em seu retorno a Freud, Lacan fundou uma clínica estrutural, regida pelo simbólico, dirigida por um analista a quem cabia interpretar as formações do inconsciente e situar o sujeito no seu desejo. A clínica, edípica, se estruturava entre a neurose, a psicose e a perversão e, na sua vertente neurótica, o sintoma era concebido como uma mensagem a ser decifrada.

Nos anos 70, Lacan foi além de Freud e estabeleceu as bases de uma clínica dos nós, pós-edípica, que privilegia a experiência do real. Numa época em que ‘o Outro não existe’, as estruturas clínicas resultam dos modos de amarração dos registros simbólico, imaginário e real e o sintoma é concebido como forma de satisfação. Na transferência, o analista opera de modo a modificar a relação do sujeito com seu gozo.

Cada época tem suas “doenças” e seus “remédios” e, na globalização, o mal-estar assume novas formas. Se a primeira é uma clínica da modernidade, a segunda é uma clínica da pós-modernidade. Se a primeira é uma clínica pai-orientada, de um “mundo sólido”, a segunda é uma clínica do homem desbussolado, de um “mundo líquido”.


Publicado em: Instituto da Psicanálise Lacaniana.

sexta-feira, outubro 24, 2008

Saiu na Veja

Pesquisa consegue apagar memória ruim.

Um estudo americano abriu caminho para que um dia seja possível apagar aquelas lembranças dolorosas que muitos carregam durante a vida. Em um experimento realizado com ratos, pesquisadores liderados por Joe Z. Tsien, do Colégio Médico da Geórgia, conseguiram eliminar memórias específicas de ratos, sem eliminar outras lembranças importantes para os roedores. O estudo foi publicado nesta quinta-feira na revista científica Neuron. Os cientistas descobriram que o excesso de uma proteína reguladora da memória, conhecida pela sigla αCaMKII, é capaz de eliminar lembranças no momento em que elas são resgatadas no cérebro. Com base nessa informação, os cientistas desenvolveram um rato transgênico e o submeteram a uma droga especial, que inunda o cérebro com a αCaMKII. Qualquer eventual memória que for lembrada neste momento, é imediatamente suprimida.

terça-feira, outubro 21, 2008

O que Lacan pensava de Lacan

"Bastam dez anos para que o que escrevo se torne claro a todos." Com essas palavras, Jacques Lacan (1901-81) encerrava em 1971 uma rara entrevista dada à televisão francesa. Mais de 35 anos se passaram e não podemos dizer que sua premonição tenha se realizado, embora ela contenha algo de verdadeiro. Pois mesmo que Lacan ainda seja um autor cujo estilo elíptico desconcerta e afasta, é certo que sua importância intelectual foi paulatinamente sendo reconhecida.

Não se trata apenas de insistir aqui na relevância de suas posições no debate sobre a clínica psicanalítica nas últimas décadas. Trata-se de sublinhar como Lacan também se tornou um interlocutor privilegiado em reflexões contemporâneas sobre filosofia, teoria literária, crítica de arte, política e teoria social. Neste sentido, ele talvez tenha sido o único psicanalista, juntamente com Sigmund Freud (1856-1939), capaz de transformar sua obra em passagem obrigatória para aqueles cujas preocupações não se restringem apenas à clínica, mas dizem respeito a um campo amplo de produções socioculturais vinculadas aos modos de auto compreensão do presente com suas expectativas e impasses.

No entanto, isto só foi possível porque sua noção de clínica sempre guardou uma série de peculiaridades, mesmo conservando os dois princípios fundamentais para a constituição da práxis analítica desde Freud, a saber, ser radicalmente desmedicalizada e reduzir o campo de intervenção à dimensão da relação psicanalista-paciente. Começar lembrando alguns pressupostos da clínica lacaniana talvez seja uma boa estratégia para introduzir o sentido de sua experiência intelectual, assim como explicar as causas de sua ampla recepção. Uma estratégia ainda mais relevante se levarmos em conta que vivemos em uma época que assiste sucessivas tentativas de desqualificação pura e simples da racionalidade da clínica psicanalítica.

A partir dos anos 80 e principalmente depois da década de 1990, parecia consensual a noção de que a psicanálise entrara em "crise". Ultrapassada pelo avanço de novas gerações de antidepressivos, ansiolíticos, neurolépticos e afins, a psicanálise foi vista por muitos como uma prática terapêutica longa, cara, com resultados duvidosos e sem fundamentação epistemológica clara. Muitas vezes, psicanalistas foram descritos como irresponsáveis por não compreenderem, por exemplo, que patologias como ansiedade e depressão seriam resultados de distúrbios orgânicos e nada teriam a ver com noções "fluidas" como "posição subjetiva frente ao desejo".

Por sua vez, a insistência em continuar operando com grandes estruturas nosográficas (relativas à descrição ou explicação das doenças), como histeria, neurose, perversão ou melancolia, parecia resultado de um autismo conceitual que impedia a psicanálise de compreender os avanços do DSM III na catalogação científica das ditas afecções mentais com suas "síndromes" e "transtornos" relacionados a órgãos ou funções mentais específicos.

Nesse contexto, a noção de cura de afecções e patologias mentais parecia enfim encontrar um solo seguro. O desenvolvimento das ciências cognitivas, em especial das neurociências, teria permitido certa redução materialista capaz de demonstrar como todo estado mental (crenças, desejos, sentimentos etc.) seria apenas uma maneira "metafórica" de descrever estados cerebrais (configurações neuronais) cuja realidade é física. Com isso, estavam abertas as portas para que a própria noção de doença mental pudesse ser tratada como distúrbio fisiologicamente localizável, ou seja, como aquilo que se submete diretamente à medicalização.

A clínica, por ter sua racionalidade submetida a uma fisiologia elaborada, poderia, a partir de então, aparecer como o setor aplicado de uma farmacologia. Lacan, desde sua tese de doutorado em psiquiatria, de 1932, insistia na inadequação de perspectivas fundadas nessas reduções materialistas dos fenômenos mentais. É a consciência dessa inadequação que o levará a assumir a carreira de psicanalista.

Tal consciência o levará também a tentar reconstruir os padrões fundamentais de racionalidade das práticas clínicas, através da defesa de um conceito de sujeito não redutível a qualquer forma de materialismo neuronal. Ou seja, quando Lacan decide-se pela psicanálise, logo após a defesa de sua tese em psiquiatria, ele já tem um problema armado que, a partir de então, guiará sua experiência intelectual. Um problema que guarda estranha atualidade, se levarmos em conta os desenvolvimentos posteriores da psiquiatria em direção a uma reconstituição de suas práticas a partir da farmacologia.

É verdade que a clínica e a teoria lacanianas serão radicalmente modificadas ao longo dos anos. Mas nada entenderemos do sentido dessas modificações se não tivermos uma noção clara do processo de desenvolvimento do pensamento lacaniano desde seu início. Assim, vale a pena descrever esses primeiros passos, a fim de identificar a razão pela qual suas reflexões clínicas se transformaram em referência maior para as estratégias de autocompreensão do presente. Tais considerações servem ainda como resposta à questão sobre como começar a ler sua obra. Por mais estranho que possa parecer, devemos começar a ler Lacan pelo começo.

Nada melhor do que seguir o desenvolvimento cronológico de sua experiência intelectual a fim de determinar o processo de formação de seus conceitos e problemas. Embora sua obra vá modi - ficando paulatinamente o campo de interlocuções, as estratégias de problematização e o estilo de sua escrita, é inegável o esforço lacaniano em integrar desenvolvimentos recentes de seu pensamento a elaborações mais antigas. Esse é um ponto importante, porque a recorrência de certas questões é o que dá unidade a uma verdadeira experiência intelectual. Nesse sentido, devemos sempre nos perguntar: quais são as questões fundamentais que animam a trajetória lacaniana? Uma delas, sem dúvida, é a crítica à aplicação de um materialismo reducionista às clínicas dos fatos mentais.
Vlademir Safatle, in: Lacan, Ed. Publifolha

sábado, outubro 18, 2008

A morte do Sujeito



Longe de engrossar o coro daqueles que defendiam a "morte do sujeito", Lacan sempre acreditou no caráter irredutível da subjetividade. A seu ver, a especificidade da psicanálise vinha exatamente da recusa em admitir que os fatos psíquicos fossem apenas resultados de descargas neuroniais ou distúrbios orgânicos. Mas, por outro lado, o sujeito lacaniano não guarda muitas semelhanças com seus antepassados modernos.

Filho de um tempo que não acredita mais na transparência da consciência e na luz natural da razão, o sujeito lacaniano verá sua auto-identidade aparecer irremediavelmente despedaçada. Desprovido de vida interior e de profundidade psicológica, ele será como um personagem de "nouveau roman": vazio, impessoal e incapaz de se apropriar reflexivamente de sua própria história. A esse sujeito restará ser um movimento de fuga que não cessa de não se inscrever, tal como um sintoma que nunca se dissolve.


Vladimir Safatle

segunda-feira, outubro 06, 2008

O avesso da Psicanálise



A propósito do pai, as pessoas se julgam obrigadas a começar pela infância, pelas identificações, e isso é então algo que verdadeiramente pode chegar a uma extraordinária farfalhada, a uma estranha contradição. Falarão da identificação primária como aquela que liga a criança à mãe, e isto com efeito parece óbvio. Contudo, se nos reportarmos a Freud, a seu discurso de 1921 chamado Psicologia das massas e análise do eu, é precisamente a identificação ao pai que é dada como primária. É certamente bem estranho. Freud aponta ali que, de modo absolutamente primordial, o pai revela ser aquele que preside à primeiríssima identificação e nisso precisamente ele é, de maneira privilegiada, aquele que merece o amor.


Jacques Lacan – Seminário 17 – o avesso da psicanálise

O FEMINO E A ARTE

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