segunda-feira, janeiro 26, 2009

- Curso do Professor Marcos -
na Pós Graduação de Literatura da UFSC
Disciplina: PGL 3103 - Filosofia e Literatura
Nume do Curso: A leitura lacaniana de "O visível e o invisível"Prof. Dr. Marcos Müller
Período: 1º semestre 2009.
Horário: 13:30 às 16:30 (terça-Feira)
Duração: 15 semanas / 4 créditos
e-mail: mjmuller@cfh.ufsc.br

Ementa: No seminário XI (Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise), Jacques-Lacan interrompe a primeira sessão, dedicada a discutir a noção freudiana de pulsão. Para tratar não mais dos conceitos fundamentais da psicanálise, mas do modo como Maurice Merleau-Ponty, na obra póstuma "O visível e o invisível", estabelece aquilo que Lacan denominou de uma diferença entre o olho e o olhar. Lacan reconheceu, nessa passagem, uma forma original de articular a ligação do corpo e da palavra; ligação essa que Merleau-Ponty denominou de invisível. Seria ela o correlativo merleau-pontyano da noção de pulsão de morte tal como a lemos em Freud? Em que medida nos ajuda a pensar a noção lacaniana de objeto 'a'? Como as noções de invisível e objeto 'a' nos ajudam a pensar a sublimação e a arte?

domingo, janeiro 04, 2009

A reclamação é coletiva




Uma pessoa esta sempre acompanhada ante o que não gosta, pois a reclamação é coletiva, daí os sindicatos. A opção desejante, por sua vez, é solitária; ela não se explica, se faz.

Há um pavor oriundo da dificuldade de cada qual sustentar seu desejo, pois, sendo este singular, não-compartilhável, surge com facilidade a fantasia de exclusão, de ser abandonado pelo grupo, tribo ou bando a que pertence. "Vão me matar" é um fantasma paradigmático.


Jorge Forbes - Você quer o que deseja?

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Reinvidicações Permissivas






"Fala-se do declínio paterno, da ascensão da sociedade fraterna e da regressão afirmada pela vontade de gozar na reivindicação permissiva. ...A isso, Lacan respondeu: na tradição freudiana, a dos grandes tratados freudianos sobre o poder, não há mestre mais duro que o supereu, e este não passou por nenhum declínio. Ele mostra ser, cada vez mais, um imperativo de gozo. O mestre, à medida que está cada vez mais presente dentro de nós. Cabe a cada um virar-se com os mandamentos impossíveis e reais que garantem um caminho frágil e obrigatório em direção ao gozo. Essa grande epidemia histérica que atravessou a nossa civilização foi uma espécie de greve contra a cultura, a partir do modelo histérico da recusa de gozo."



Eric Laurent

sexta-feira, dezembro 26, 2008

A Função Fálica




...Todo mundo sabe que há mulheres fálicas, e que a função fálica não impede os homens de serem homossexuais. Mas é ela também que lhes serve para se situarem como homens, e abordar as mulheres. Para o homem eu vou depressa, porque o que tenho a falar hoje é da mulher e porque suponho que já repeti isto o bastante para que vocês ainda o tenham na cabeça - para o homem, a menos que haja castração, quer dizer, alguma coisa que diga não à função fálica, não há nenhuma chance de que ele goze do corpo da mulher, ou, dito de outro modo, de que ele faça o amor.

É o resultado da experiência analítica. Isto não impede que ele possa desejar a mulher de todas as maneiras, mesmo quando essa condição não é realizada. Não só ele a deseja, mas lhe faz toda sorte de coisas que se parecem espontaneamente com o amor.

Contrariamente ao que adianta Freud, é o homem - quero dizer, aquele que se vê macho sem saber o que fazer disto, no que sendo ser falante - que aborda a mulher, que pode crer que a aborda, porque, com respeito a isto, as convicções, aquelas de que eu falava da última vez, as cão-vicções, não faltam. Só que, o que ele aborda, é a causa de seu desejo, que eu designei pelo objeto a. Aí está o ato de amor. Fazer o amor, como o nome o indica, é poesia. Mas há um mundo entre a poesia e o ato. O ato de amor, é a perversão polimorfa do macho, isto entre os seres falantes. Não há nada de mais seguro, de mais coerente, de mais estrito quanto ao discurso freudiano.

Jacques Lacan
Seminário XX - Mais, Ainda
Cap. VI - "Deus e o Gozo d'A Mulher"

sábado, dezembro 13, 2008

A evolução e a natureza

Antonio Cicero

NORMALMENTE SUPÕE-SE que o grande escândalo causado pela teoria da evolução seja devido à descoberta de que o ser humano descende de alguma espécie de macacos. De fato, isso foi sem dúvida um escândalo espetacular, uma enorme "ferida narcísica", como dizia Freud, infligida ao homem que aprendera ter sido criado à imagem de Deus.

Mas a teoria da evolução provocou também outros escândalos.

Quero falar de um que, embora menos espetacular, não é menos importante. Trata-se da relativização das espécies naturais. Desde Aristóteles, supunha-se que, criadas ou não, as espécies naturais fossem imutáveis.

A espécie à qual um ente qualquer pertencia era considerada a sua natureza. Ora, a natureza de uma coisa se confundia com seu fim, que era seu bem e sua perfeição próprias. Descobria-se essa natureza a partir do estudo dos espécimes que se encontravam, como dizia Aristóteles, num estado natural, em oposição aos espécimes "degenerados".

Como se pensava saber que um espécime se encontrava no estado natural? Pela observação da sua normalidade, isto é, do fato de que sua constituição física e seu comportamento não desviavam da constituição e do comportamento da maior parte dos indivíduos da mesma espécie. O anormal, ao contrário, era considerado degenerado. Desse modo, a normalidade se tornava normativa. O degenerado era aquele que se constituía ou se comportava contra a sua natureza: "contra naturam".

Pois bem, observando a natureza humana e a natureza da sociedade humana, Aristóteles concluiu que o natural era que a alma governasse o corpo, a inteligência, os apetites, o homem, os animais, o macho, a fêmea, e o senhor, o escravo. Para ele, essas relações eram naturais, e qualquer supressão ou inversão delas se daria contra a natureza. Do mesmo modo, o velho Platão, na sua última obra, pressupunha que a finalidade do erotismo, no indivíduo natural/normal, era a reprodução; logo, considerava contra a natureza toda relação homossexual. Esta última concepção se consolidou na Idade Média e é até hoje doutrina da Igreja Católica, para a qual toda relação homossexual infringe uma "lei natural".

Tal "lei" não passa, evidentemente, de um equívoco, pois as leis da natureza, que são descritivas, isto é, que dizem o que realmente acontece, não devem ser confundidas com as leis humanas, que são prescritivas, isto é, dizem o que deve (ou não deve) ser feito. A lei da gravidade, por exemplo, não diz que todos os corpos que têm massa devem se atrair de determinado modo e sim que se atraem desse modo. Se for descoberto que determinados corpos têm massa e, no entanto, não se atraem do modo previsto, não serão esses corpos que estarão errados, mas a lei da gravidade. Assim também, se uma "lei natural" diz que os indivíduos do mesmo sexo não sentem atração erótica uns pelos outros, basta abrir os olhos para ver que essa "lei" está errada, ou melhor, não é lei, não existe.

A teoria da evolução mostrou que a própria natureza não é algo fixo de uma vez por todas, mas se encontra em transformação. As espécies biológicas mesmas não têm "naturezas" eternas, mas estão em incessante evolução. Isso significa que não se pode considerar como natural exclusivamente a constituição física ou o comportamento "normal", isto é, tradicional. Uma espécie nova surge exatamente a partir das mutações – da "degeneração" – de uma espécie antiga. O indivíduo que, por ser portador de uma mutação está sujeito a ser considerado uma monstruosidade, talvez seja o limiar de uma nova espécie.

O ser humano é o produto de tais mutações, e sua maior novidade consiste em que não apenas a espécie humana, mas cada espécime humano é infinitamente capaz de mudar a si próprio, capaz de experimentar o que nunca antes se experimentou, capaz de criar o que nunca antes existiu. Toda invenção, toda arte, toda técnica, toda cultura pode ser considerada como o resultado da transformação – poderíamos dizer, da perversão – da natureza pelo homem. O primeiro antropóide a se erguer e usar as patas dianteiras como mãos – abrindo caminho para a aventura humana – estava pervertendo a função "natural" desses membros.

Não é lícito, portanto, invocar a "natureza" para justificar – ou para condenar – tais ou quais comportamentos, atos ou instituições. Quem o faz inevitavelmente incorre no provincianismo de "naturalizar" comportamentos, atos ou instituições contingentes e históricos, tais como a dominação do homem sobre a mulher, a escravidão ou a condenação da homossexualidade.

Artigo publicado no caderno "Ilustrada",
do Jornal Folha de São Paulo


sábado, dezembro 06, 2008

Sobre o Desejo










O trajeto do desejo não é uma linha reta orientada para o futuro, mas uma espiral girando em torno de um vazio central, que atrai e anima o movimento circular do desejo.

domingo, novembro 16, 2008

Livro revela o poder do inconsciente




André Singer
Da Folha de S. Paulo


À diferença do que pensa o senso comum, o complexo de Édipo habita os indivíduos até a morte. Como um fragmento de matéria radioativa, ele continua a produzir emanações dentro de nós muito tempo depois da fase infantil em que foi superado.

Mas, se foi resolvido na infância, por que o desejo do menino pela mãe e da menina pelo pai continua a produzir efeitos nos adultos, sãos ou neuróticos? Porque, embora reprimido, o desejo resiste no inconsciente, onde opera em "sintonia com a vivência que cada indivíduo teve" da fase da vida em que ele foi suprimido das possibilidades práticas e da consciência, como explica o psicanalista Luiz Tenório Oliveira Lima em "Freud", da série "Folha Explica".

O modo pelo qual Tenório mostra a força do inconsciente, prescindindo do recurso a abstrações, é uma das virtudes do livro. Assim, sem fazer concessão a visões simplificadas, o autor produziu um roteiro de fácil compreensão para quem quiser começar uma visita ao reino da psicanálise.

A clareza do texto é fiel, aliás, a uma das marcas do trabalho do próprio Freud. Embora tivesse que lidar com um universo até então desconhecido, o criador da nova disciplina foi capaz de escrever de modo cristalino. Qualquer leitor medianamente ilustrado, desde que disposto a ler com concentração, é capaz de entender o raciocínio do mestre vienense.

A vantagem de começar por uma introdução como "Freud" está em que ela organiza uma obra vasta, fruto de vida longa. Nascido na Morávia (atual República Tcheca) em 1856, Freud morreu em Londres 83 anos depois. Desde 1900, quando publicou "A Interpretação dos Sonhos" (tido como texto fundador da psicanálise), ele não parou de produzir até a morte, em 1939.

Em meio às inúmeras possibilidades de leitura de Freud, Tenório foi feliz ao escolher a linha de continuidade que vai do "Estudo sobre a Histeria" (em co-autoria com o médico Josef Breuer ainda em 1896), no qual já aparece a idéia de que são emoções reprimidas as causas de sintomas histéricos, ao "Mal-Estar na Civilização" (30). Neste brilhante ensaio, um Freud maduro volta ao tema da repressão, mas do ângulo social.

Para Freud, a repressão dos desejos e impulsos agressivos naturais é inerente ao processo civilizatório. Em "Totem e Tabu" ele já mostrava que a sociedade não se formaria se não fossem criadas proibições, como a que incide sobre relações sexuais endogâmicas. O indivíduo também não se torna adulto relativamente independente (nunca há independência total) caso não internalize, como superego, as regras da cultura ("O Ego e o Id").

Porém, em "Mal-Estar na Civilização", Freud aponta um dos paradoxos centrais do nosso tempo: o de que quanto mais avança a civilização - portanto quanto mais democrática ela se torna - mais cresce a violência, uma vez que o avanço cultural vem de um incremento na repressão aos instintos, os quais tendem a se descontrolar sob excesso repressivo.

A única saída, assinala Tenório, é administrar os sentimentos destrutivos. Isto é, reconhecê-los, falar deles, tratá-los, para não precisar colocá-los em ação. Saber que o inconsciente existe e que nunca se tornará transparente por inteiro é um primeiro passo para compreender por que a psicanálise é indispensável no violento mundo de hoje. O "Freud" de Tenório funciona, assim, como excelente convite para aprofundar o conhecimento da matéria.

sexta-feira, novembro 14, 2008

Da Conversa Infinita






A situação da análise tal como Freud a descobriu é uma situação extraordinária que parece tomada de empréstimo à magia dos livros. Essa relação que se estabelece, como se diz, entre o divã e a poltrona, essa conversa nua em que, num espaço separado, recortado do mundo, duas pessoas, invisíveis uma à outra, são pouco a pouco chamadas a confundir-se com o poder de falar e o poder de ouvir, a não ter outra relação a não ser a intimidade neutra do discurso, essa liberdade para um de dizer seja lá o que for, para o outro de escutar sem atenção, como à revelia e como se não estivesse aí - e essa liberdade que se torna, por isso mesmo, a mais obscura, a mais aberta e a mais fechada das relações.

Maurice Blanchot, in A Conversa Infinita - II

domingo, novembro 09, 2008

Foucault e Lacan







Lacan não exercia nenhum poder institucional. Os que o escutavam queriam exatamente escutá-lo. Ele não aterrorizava senão aqueles que tinham medo. A influência que exercemos não pode nunca ser um poder que impomos.

"Lacan, o 'libertador' da Psicanálise"
Michel Foucault, in: Ditos e Escritos I

quinta-feira, novembro 06, 2008

Rostidades

Apropriação dos traços faciais de outra pessoa rompe o sentido de identidade e relativiza o narcisismo da sociedade contemporânea

Maria Rita Khel

"Um rosto extinto. Um grau de extinção por certo nunca antes atingido na espécie humana"(Michel Tournier)

O que acontece com o sentimento de identidade de uma pessoa que se depara, diante do espelho, com um rosto que não é seu? Como é possível manter a convicção razoavelmente estável que nos acompanha pela vida, a respeito do nosso ser - essa ficção indispensável - no caso de sofrermos uma alteração radical em nossa imagem?

Perguntas como essas provocaram um intenso debate a respeito da ética médica depois do transplante de parte da face em uma mulher que teve o rosto desfigurado por seu cachorro em Amiens, na França. Deixo de lado os aspectos da discussão motivados pela rivalidade profissional, em que argumentos éticos podem mascarar a disputa por prestígio e glória entre equipes médicas da França e da Inglaterra. Interessa-me a relação subjetiva entre a identidade e o rosto. Essa relação é tão íntima que, dentre as várias possibilidades de mutilação física, consideramos hediondas as que destroem partes do rosto. Nesses casos, empregamos o termo desfiguração.


Quando o rosto se torna irreconhecível, a figura humana se desfaz. A legislação britânica que condena o transplante de rosto em consideração à (previsível) crise subjetiva ante uma transformação radical dos traços da face desconsidera que, mais despersonalizante do que encontrar no espelho um rosto alheio, é não encontrar rosto nenhum. Ou não: talvez seja menos custoso para um acidentado suportar o luto pela perda da figura facial - e manter sob as ataduras a identificação imaginária com o rosto antigo - do que o estranhamento diante de um rosto outro.

Ilusão necessária
Mas penso que vale a pena o trabalho de refazer essa identificação. O que chamamos, confusamente, de identidade não tem nada a ver com o ideal - sempre fracassado - de nos mantermos idênticos, seja a nós mesmos, seja à imagem ideal que pretendemos oferecer ao olhar do outro. A identidade é uma ilusão necessária, de unidade e continuidade do eu.Ocorre que o eu se constitui a partir da imagem corporal. Nosso sentimento de permanência e unidade se estabelece diante do espelho, a despeito de todas as mudanças que o corpo sofre ao longo da vida. A criança humana, em um determinado estágio de maturação, identifica-se com sua imagem no espelho. Nesse caso, um transplante (ainda que parcial) que altera tanto os traços fenotípicos quanto as marcas da história de vida inscritas na face destruiria para sempre o sentimento de identidade do transplantado?

Talvez não. Ocorre que o poder do espelho - esse de vidro e aço pendurado na parede - não é tão absoluto: o espelho que importa, para o humano, é o olhar de um outro humano. A cultura contemporânea do narcisismo, ao remeter as pessoas continuamente a buscar o testemunho do espelho, não considera que o espelho do humano é, antes de mais nada, o olhar do semelhante.

É o reconhecimento do outro que nos confirma que existimos e que somos (mais ou menos) os mesmos ao longo da vida, na medida em que as pessoas próximas continuam a nos devolver nossa "identidade" - aspas necessárias.

Sagrado e insubstituível
O rosto é a sede do olhar que reconhece e busca reconhecimento. O rosto é sagrado, disse e escreveu insistentemente Emmanuel Lévinas. Por que sagrado? O que há de insubstituível em um rosto, que faz dele o centro da nossa humanidade e a sede imaginária do eu? É que o rosto não se reduz à dimensão da imagem: ele é a própria presentificação de um ser humano, em sua singularidade irrecusável. Além disso, dentre todas as partes do corpo, o rosto é a que faz apelo ao outro. A que se comunica, expressa amor ou ódio e, acima de tudo, demanda amor.

A literatura pode nos ajudar a amenizar o drama da paciente francesa. O Robinson Crusoé do livro "Sexta-Feira ou os Limbos do Pacífico" (Bertrand Brasil), de Michel Tournier, perde a noção de sua identidade e enlouquece, na falta do olhar de um semelhante que lhe confirme que ele é um ser humano. No início do romance o náufrago solitário tenta fazer da natureza seu espelho. Faz do estranho, familiar, trabalhando para "civilizar" a ilha e representando diante de si mesmo o papel de senhor sem escravos, mestre sem discípulos.

Mas depois de algum tempo o isolamento degrada sua humanidade. O Robinson de Tournier passa a se identificar com os animais, falar com os macacos e rolar na lama com os porcos. "Narciso de um tipo novo, abismado de tristeza, com recrudescido nojo de si (...), compreendeu que o rosto é essa parte da carne modelada e remodelada, aquecida e permanentemente animada pela presença dos nossos semelhantes."

Na versão de Tournier, a entrada em cena do selvagem Sexta-Feira vem salvar Robinson Crusoé não da solidão, mas da loucura.

A paciente francesa, que agradeceu aos médicos a recomposição de uma face humana, ainda que não seja a "sua", vai agora depender de um esforço de tolerância e generosidade por parte dos que lhe são próximos.Parentes e amigos terão que superar o desconforto de olhar para ela e não encontrar a mesma de antes. Diante de um rosto outro, deverão ainda assim confirmar que ela continua sendo ela. E amar a mulher estranha a si mesma que renasceu daquela operação.

Maria Rita Kehl é psicanalista e ensaísta.




in: Jornal de Poesia - on-line



domingo, novembro 02, 2008

Os sonhos



A interpretação dos Sonhos, publicado em 1900, foi considerado o melhor livro de século XX. Nesse ambicioso texto, contrariamente aos seus contemporâneos, Freud considera que a oniromancia tem fundamento de verdade. E, a partir daí, passa a estudar a vida onírica, apresentando os fatos que analisava com uma exatidão escrupulosa, exigindo de si mesmo o rigor próprio à ciência do seu tempo.

Durante dois anos o jovem Freud se dedica à elaboração de sua “tese”. Sua pesquisa não deixa de fora nenhuma obra conhecida que abordasse o tema dos sonhos, nem mesmo os sempre populares livros de sonhos egípcios. Cada possível argumento, cada possível interpretação é examinada com seriedade e rigor científico.


O livro é pleno de exemplos. Muitos sonhos são analisados e interpretados. O que mais custou ao autor, no entanto, foi o fato de que, devido ao sigilo com que deveria resguardar os sonhos de seus pacientes, Freud utiliza os próprios sonhos para dar seqüência à obra: se expõe aos efeitos de sua própria tese, tira as conseqüências de seus próprios sonhos trabalhando suas próprias neuroses. E, corajosamente, nos expõe todo o processo.

Graças a esse estudo sistemático, Freud conclui que o material do sonho propriamente dito - o conteúdo manifesto - não tem interesse; é constituído em geral por um conjunto incoerente de imagens insignificantes ou absurdas. O que conta é a significação implícita no conteúdo manifesto, o chamado conteúdo latente, ao qual só é possível ter acesso com uma chave apropriada. A chave que ele nos entregou com A Interpretação dos Sonhos. Qual seja, as leis próprias do inconsciente.

A tese central do texto é a de que "O sonho é a realização de um desejo". Esse desejo não é necessariamente um desejo que possamos aceitar em nossa vida consciente. Quando não se trata de um desejo aceitável, nos diz Freud, preferimos esquecê-lo. Este esquecimento será descrito como conseqüência de um mecanismo chamado “recalque”. O desejo recalcado, no entanto, permanece em algum lugar exercendo seus efeitos. Os sonhos são apenas um exemplo destes efeitos.

Os sonhos têm por característica sua falta de senso, sua não obediência às leis que nos regem na vigília. Seguem uma lei própria, seguem uma lógica que não é a lógica cotidiana. Freud é levado assim a demonstrar que nosso aparato mental é formado pela consciência, cujas regras reconhecemos, e pelo inconsciente, cujos efeitos nos surpreendem por seguir uma lógica diferente e desconhecida (ainda que sempre familiar).

Desta forma, um desejo que não condiz com o nosso ideal de vida é negado, jogado para aquele campo que não segue as mesmas regras de nossa consciência. No inconsciente este desejo vai procurar sua expressão a qualquer custo. Se não é possível que ele se expresse conscientemente (por que no consciente atua o recalque), ele vai buscar alguma expressão substitutiva que consiga escapar à censura. Assim, o sonho pode ser entendido como a expressão de uma série de desejos, que encontram nele a única via para a consciência. É por isto também que o sonho será entendido por Freud como a via régia para o inconsciente, uma vez que é sua manifestação mais direta.

Por essa mesma via, Freud vai compreender os sintomas neuróticos. Ou seja, o sintoma neurótico é também a manifestação de um desejo. A principal diferença é que no sintoma uma solução é encontrada para que o desejo se apresente na consciência. Também neste caso, contudo, este desejo se manifestará com as distorções necessárias para que possa ser aceito pelo consciente.

Sempre estamos às voltas com o conteúdo manifesto de nossos sonhos. Mas, se quisermos entendê-los verdadeiramente, precisamos passar para o conteúdo latente e isso implica fazer um trabalho consigo mesmo. Um trabalho que revele a direção do desejo inconsciente que o conteúdo latente insiste em apontar.


O FEMINO E A ARTE

l'abandon - Camille Claudel QUERO UMA VERDADE INVENTADA MEMÓRIAS, LINGUAGENS E ESCRITAS Dia: Segunda...