sábado, agosto 15, 2009

Libertinagem



Giordano Bruno:
“Meus pensamentos são meus cães. Eles me devoram.”



Diderot:
“Meus pensamentos são minhas prostitutas. Eu os deixo livre para seguir a primeira idéia.”



Jacques-Alain Miller:

O que é libertinagem?

É gozar, sem dúvida, mas gozar sem ser escravo do seu gozo. É, pelo contrário, ser dono do seu gozo. Trata-se de amar sua pulsão na indiferença do objeto, uma ou outra. É essencialmente não desposar nenhum pensamento, mas extrair de cada um uma satisfação que não aprisiona.


sexta-feira, agosto 07, 2009

CURSO PSICANÁLISE


O que causa o teu desejo?


O desejo na clínica lacaniana
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Sabemos que a natureza última do desejo é da categoria do impossível, mas, sabemos também, que a nossa experiência cotidiana como sujeitos desejantes não acontece nesse nível. O lugar dos objetos do desejo é o campo das representações da realidade e dos objetos ditos reais. Nesse campo, não falamos o desejo, mas do desejo. Na vida cotidiana caminhamos em direção a objetos secundários que aparecem para a consciência como objetos possíveis cujo alcance depende pelo menos em parte de nossa ação voluntária, consciente.

Em Freud, a realidade e seu Princípio só se introduzem no campo do desejo a partir do fracasso da satisfação alucinatória através da qual o psiquismo da criança tenta contentar as demandas imediatistas e onipresentes do Princípio do Prazer. O fracasso, parcial, do Princípio do Prazer inaugura a um só tempo três instâncias para a psique: o tempo, a realidade e o sujeito. O sujeito, visto aqui, como uma instância psíquica que se diferencia do todo ao qual se achava unido imaginariamente e portador de um desejo, já que no espaço do Princípio do Prazer não se pode falar exatamente em desejo por causa da vinculação imediata entre a necessidade e a satisfação alucinatória. No mínimo, não se pode falar de permanência do desejo antes do fracasso do Princípio do Prazer. É a partir desse fracasso que o psiquismo desenvolve recursos para fazer a mediação necessária entre a pulsão e a satisfação parcial da pulsão: o que Freud chamou de Princípio de Realidade.

É só a partir daí que podemos dizer que todo sujeito é sujeito de um desejo, ou que, todo sujeito é sujeito porque é desejante. Já que sujeito e desejo são paridos desde o mesmo evento; o fracasso do Princípio do Prazer. Primeira experiência de corte na unidade imaginária mãe-criança, ou mundo-criança, ou, ainda, na unidade imaginária entre a necessidade e sua imediata satisfação.

Uma conseqüência da interpretação lacaniana sobre o estatuto da linguagem e de sua forma de ser no inconsciente é a reformulação da questão da realidade. A articulação lacaniana das relações entre princípio do prazer, princípio de realidade e pulsão de morte, põe em jogo a noção de realidade freudiana. E, redimensiona as operações do desejo e o lugar do analista na clínica.

Esse curso tem por objetivo perseguir os caminhos teóricos e as conseqüências clínicas desses vários momentos da noção de desejo no ensino de Lacan.


Programa:



2. A leitura lacaniana do desejo hegeliano.

3. A lei institui o desejo.
(A influência de Santo Agostinho na leitura lacaniana do desejo)

4. O objeto a como causa de desejo.
(Seminário X – Cap. VIII)

5. Sinthoma: saber fazer com.
(As operações do desejo na segunda clínica lacaniana)


Cronograma:


Dia: Terça Feira
Horário: 16H30 as 18H00
Sala: 317 - CFH
Local: Faculdade de Filosofia – UFSC

Ministrante: Maria Leite

Data: 18 de agosto a 27 de Outubro de 2009.
Inscrições: Na primeira aula.
Gratuito - aberto a comunidade
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Coordenação: Marcos José Muller-Granzotto
1. A noção de desejo na teoria freudiana
(A interpretação dos Sonhos)

quarta-feira, agosto 05, 2009

CURSO





Curso de História da Arte:


Introdução ao Pensamento Plástico




Ministrante: MSc. Ligia Czesnat
Local: Museu Victor Meirelles
Número de aulas: 4 aulas de 2:30 hs.
Início: 10/08/09
Horário: 18H30 as 21H00






Ementa: Analisar conceitos importantes para a compreensão do pensamento plástico, decorrentes dos conflitos entre a percepção verbal e a invenção plástica. Entendendo que a obra de arte pictórica fala por si, e, portanto, esta fronteira porosa será enfrentada a partir de conceitos da própria pintura, além de imagens anacronicamente extraídas da História da Arte, buscando uma interlocução entre o visível-visual e o visível-dizível.

1ª aula: Pintura como Catástrofe.
Com a utilização de um conceito instrumental deleuziano de catástrofe, procurar-se introduzir outra noção sobre a criação plástica, a partir da formulação de conceitos relacionados com a pintura em momentos diferentes da história da arte.

2ª aula: Pintura Narrativa X Pintura Figural.
Usando o conceito de feito pictórico, compreende-se que o assunto da pintura não é falar de coisas visíveis, mais buscar perceber que a pintura é transfiguração ao tornar visível, coisas invisíveis.

3ª aula: Espaço Perceptível X A Vontade Artística.
Analisar sinteticamente as várias utilizações da noção de espaço e suas determinações como expressão da vontade plástica, entendendo que pintura é sempre produção de espaços e que são como senhas, das quais é possível extrair diferentes informações plásticas.

4ª aula: Passeio pelo acervo do Museu Victor Meirelles.
Instrumentalizados com os conceitos plásticos apreendidos nas aulas anteriores, procurar aplicá-los na prática, destacando algumas obras contidas no Museu; para tal será privilegiado a trajetória histórica da criação no Brasil da Academia de Belas-Artes no século XIX e seus desdobramentos no século XX.







sábado, agosto 01, 2009

Da amizade como modo de vida


De l'amitié comme mode de vie. Entrevista de Michel Foucault a R. de Ceccaty, J. Danet e J. le Bitoux, publicada no jornal Gai Pied, nº 25, abril de 1981, pp. 38-39. Tradução de wanderson flor do nascimento.
  • Você tem cinquenta anos. É um leitor deste jornal que existe há dois anos. O conjunto destes discursos te parece algo de positivo?
Que o jornal exista, é algo de positivo e importante. Ao seu jornal, o que eu pediria era que, lendo, eu não tivesse que colocar a questão da minha idade. Ora, a leitura me força a colocá-la. E eu não fiquei muito contente com a maneira que fui levado a fazê-lo. Muito simplesmente, eu não teria lugar ali.
  • Quem sabe o problema seja da faixa etária dos que colaboram e dos que lêem: uma maioria entre 25 e 35 anos.
É claro. Quanto mais escrito por pessoas jovens, mais diz respeito às pessoas jovens. Mas o problema não é ceder lugar a uma faixa etária de um lado a outro, mas saber o que se pode fazer em relação à quase identificação da homossexualidade com o amor entre jovens.
Outra coisa da qual é preciso desconfiar é a tendência de levar a questão da homossexualidade para o problema "Quem sou eu? Qual o segredo do meu desejo?" Quem sabe, seria melhor perguntar: "Quais relações podem ser estabelecidas, inventadas, multiplicadas, moduladas através da homossexualidade?" O problema não é descobrir em si a verdade sobre seu sexo, mas, para além disso, usar de sua sexualidade para chegar a uma multiplicidade de relações. E isso, sem dúvida é a razão pela qual a homossexualidade não é uma forma de desejo, mas algo de desejável. Temos que nos esforçar em nos tornar homossexuais e não nos obstinarmos em reconhecer que o somos. O lugar para onde caminha os desenvolvimentos do problema da homossexualidade é o problema da amizade.

  • Você pensou isso aos 20 anos ou descobriu no decorrer dos anos?
Tão longe quanto me recordo, desejar rapazes é desejar relações com rapazes. E isso foi sempre, para mim, algo importante. Não forçosamente sob a forma do casal, mas como uma questão de existência: Como é possível para homens estarem juntos? Viver juntos, compartilhar seus tempos, suas refeições, seus quartos, seus lazeres, suas aflições, seu saber, suas confidências? O que é isso de estar entre homens "nus", fora das relações institucionais, de família, de profissão, de companheirismo obrigatório? É um desejo, uma inquietação, um desejo-inquietação que existe em muitas pessoas.
  • Pode-se dizer que a relação com o desejo, com o prazer e a relação que alguém pode ter, seja dependente de sua idade?
Sim, muito profundamente. Entre um homem e uma mulher mais jovem, a instituição facilita as diferenças de idade, as aceita e as faz funcionar. Dois homens de idades notavelmente diferentes, que código têm para se comunicar? Estão um em frente ao outro sem armas, sem palavras convencionais, sem nada que os tranquilize sobre o sentido do movimento que os leva um para o outro. Terão que inventar de A a Z uma relação ainda sem forma que é a amizade: isto é, a soma de todas as coisas por meio das quais um e outro podem se dar prazer.
É uma das concessões que se fazem aos outros de apenas apresentar a homossexualidade sob a forma de um prazer imediato, de dois jovens que se encontram na rua, se seduzam por um olhar, que põem a mão na bunda um do outro, e devaneando por um quarto de hora. Esta é uma imagem comum da homossexualidade que perde toda a sua virtualidade inquietante por duas razões: ela responde a um cânone tranqüilizador da beleza e anula o que pode vir a inquietar no afeto, carinho, amizade, fidelidade, coleguismo, companheirismo, aos quais uma sociedade um pouco destrutiva não pode ceder espaço sem temer que se formem alianças, que se tracem linhas de força imprevistas. Penso que é isto o que torna "perturbadora" a homossexualidade: o modo de vida homossexual muito mais que o ato sexual mesmo. Imaginar um ato sexual que não esteja conforme a lei ou a natureza, não é isso que inquieta as pessoas. Mas que indivíduos comecem a se amar, e ai está o problema. A instituição é sacudida, intensidades afetivas a atravessam, ao mesmo tempo, a dominam e perturbam. Olhe o exército: ali o amor entre homens é, incessantemente, convocado e honrado. Os códigos institucionais não podem validar estas relações das intensidades múltiplas, das cores variáveis, dos movimentos imperceptíveis, das formas que se modificam. Estas relações instauram um curto-circuito e introduzem o amor onde deveria haver a lei, a regra ou o hábito.
  • Você diz a todo momento: "mais que chorar por prazeres esfacelados, me interessa o que podemos fazer de nós mesmos". Poderia explicar melhor?
O ascetismo como renúncia ao prazer tem má reputação. Porém a ascese é outra coisa. É o trabalho que se faz sobre si mesmo para transformar-se ou para fazer aparecer esse si que, felizmente, não se alcança jamais. Não seria este o nosso problema hoje? Nós colocamos o ascetismo de férias. Temos que avançar sobre uma ascese homossexual que nos faria trabalhar sobre nós mesmos e inventar – não digo descobrir – uma maneira de ser, ainda improvável.
  • Isso quer dizer que um jovem homossexual deveria ser muito prudente em relação à imagem homossexual e trabalhar sobre outra coisa?
Isso no que devemos trabalhar, me parece, não é tanto em liberar nossos desejos, mas em tornar a nós mesmos infinitamente mais suscetíveis a prazeres. É preciso, insisto, é preciso fazer escapar às duas fórmulas completamente feitas sobre o puro encontro sexual e sobre a fusão amorosa das identidades.
  • Podem-se ver premissas de construções relacionais fortes nos EUA, sobretudo, nas cidades onde o problema da miséria sexual parece resolvido?
O que me parece certo é que nos EUA, mesmo se no fundo a miséria sexual ainda exista, o interesse pela amizade está se tornando muito importante. Não se entra simplesmente na relação para poder chegar à consumação sexual, o que se faz muito facilmente; mas aquilo para o que as pessoas são polarizadas é a amizade. Como chegar, por meio das práticas sexuais, a um sistema relacional? É possível criar um modo de vida homossexual?
Esta noção de modo de vida me parece importante. Não seria preciso introduzir uma diversificação outra que não aquela devida às classes sociais, diferenças de profissão, de níveis culturais, uma diversificação que seria também uma forma de relação e que seria "o modo de vida"? Um modo de vida pode ser partilhado por indivíduos de idade, estatuto e atividade sociais diferentes. Pode dar lugar a relações intensas que não se pareçam com nenhuma daquelas que são institucionalizadas e me parece que um modo de vida pode dar lugar a uma cultura e a uma ética. Acredito que ser gay não seja se identificar aos traços psicológicos e às máscaras visíveis do homossexual, mas buscar definir e desenvolver um modo de vida.
  • Não é uma mitologia dizer: "Aí estejam, talvez, as premissas de uma socialização entre os seres, que é inter-classes, inter-idades, inter-nacionais?"
Sim, um grande mito como dizer: não haverá mais diferenças entre a homossexualidade e a heterossexualidade. Por outro lado, penso que é uma das razões pelas quais a homossexualidade se torna um problema atualmente. Acontece que a afirmação de que ser homossexual é ser um homem e que este se ama, esta busca de um modo de vida vai ao encontro desta ideologia dos movimentos de liberação sexual dos anos sessenta. Nesse sentido os "clones" bigodudos têm uma significação. É um modo de responder: "Não receiem nada, quanto mais se seja liberado, menos se amará as mulheres, menos se fundirá nesta polissexualidade onde não há mais diferença entre uns e outros." E não se trata, de modo algum, da idéia de uma grande fusão comunitária.
A homossexualidade é uma ocasião histórica de reabrir virtualidades relacionais e afetivas, não tanto pelas qualidades intrínsecas do homossexual, mas pela posição de "enviesado", em qualquer forma, as linhas diagonais que se podem traçar no tecido social, as quais permitem fazer aparecerem essas virtualidades.
  • As mulheres poderiam objetar: "O que é que os homens ganham entre eles e ganham em relação às relações possíveis entre um homem e uma mulher ou entre duas mulheres?”
Há um livro que apareceu nos EUA sobre a amizade entre as mulheres (Faderman, L. Surpassing the Love of Men. New York: William Marrow, 1980). É muito bem documentado a partir de testemunhos de relações de afeição e paixão entre mulheres. No prefácio, a autora diz que ela havia partido da idéia de detectar as relações homossexuais e se deu por conta de que essas relações não somente não estavam sempre presentes, mas que não era interessante saber se se poderia chamar a isso de homossexualidade ou não. E que, deixando a relação desdobrar-se tal como ela aparece nas palavras e nos gestos, apareceriam outras coisas bastante essenciais: amores, afetos densos, maravilhosos, ensolarados ou mesmo, muito tristes, muito obscuros. Este livro mostra também em que ponto o corpo da mulher desempenhou um grande papel e os contatos entre os corpos femininos: uma mulher penteia outra mulher, ela se deixa maquiar e vestir. As mulheres teriam direito ao corpo de outras mulheres, segurar pela cintura, abraçar-se. O corpo do homem estava proibido ao homem de maneira mais drástica. Se é verdade que a vida entre mulheres era tolerada, é somente em certos períodos e a partir do séc. XIX que a vida entre homens foi, não somente tolerada, mas rigorosamente obrigatória: simplesmente durante as guerras.
Igualmente nos campos de prisioneiros. Havia soldados, jovens oficiais que passaram meses, anos juntos. Durante a guerra de 1914, os homens viviam completamente juntos, uns sobre aos outros, e, para eles isso não era nada, na medida em que a morte estava ali; e de onde finalmente a devoção de um ao outro, o serviço feito era sancionado por um jogo de vida e morte. Fora algumas frases sobre o coleguismo, sobre a fraternidade da alma, de alguns testemunhos muito parciais, o que se sabe sobre furacões afetivos, sobre essas tempestades do coração que puderam haver ali nesses momentos? E alguém pode perguntar o faz que nessas guerras absurdas, grotescas, nesses massacres infernais, que as pessoas, apesar de tudo, tenham se sustentado? Sem dúvida, um tecido afetivo. Não quero dizer que era porque eles estavam amando uns aos outros que continuavam combatendo. Mas a honra, a coragem, a dignidade, o sacrifício, sair da trincheira com o companheiro, diante do companheiro, isso implicava uma trama afetiva muito intensa. Isto não quer dizer: "Ah, está ai a homossexualidade!" Detesto este tipo de raciocínio. Mas sem dúvida se tem ai uma das condições, não a única, que permitiu suportar essa vida infernal em que as pessoas, durante semanas, rolassem no barro, entre os cadáveres, a merda, se arrebentassem de fome; e estivessem bêbadas na manhã do ataque.
Eu queria dizer, enfim, que qualquer coisa refletida e voluntária, como uma publicação, deveria tornar possível uma cultura homossexual, isto é, possibilitar os instrumentos para relações polimorfas, variáveis, individualmente moduladas. Mas a idéia de um programa e de proposições é perigosa. Desde que um programa se apresenta, ele faz lei, é uma proibição de inventar. Deveria haver uma inventividade própria de uma situação como a nossa e que estas vontades disso que os americanos chamam de comming out, isto é, de se manifestar. O programa deve ser vazio. É preciso cavar para mostrar como as coisas foram historicamente contingentes, por tal ou qual razão inteligíveis, mas não necessárias. É preciso fazer aparecer o inteligível sob o fundo da vacuidade e negar uma necessidade; e pensar o que existe está longe de preencher todos os espaços possíveis. Fazer um verdadeiro desafio inevitável da questão: o que se pode jogar e como inventar um jogo?


- Obrigado, Michel Foucault.

sexta-feira, julho 31, 2009

Convite


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As Sonatas para piano de
Wolgang Amadeus Mozart

Com o pianista e compositor
Alberto Adré Heller
Dia 06 de Agosto - Quinta Feira
19H00
Teatro Alvaro de Carvalho - TAC
  • Sonata nr.6 em ré maior (“Dürnitz”), KV 284 (München, 1775)
    Allegro / Rondeau en Polonaise: Andante / Andante (tema com 12 variações)
    Sonata nr.7 em dó maior, KV 309 (Mannheim, 1777)
    Allegro con spirito / Andante un poco adagio / Rondeau: Allegretto grazioso
    Sonata nr.8 em ré maior, KV 311 (Mannheim, 1777)
    Allegro con spirito / Andante con espressione / Rondeau: Allegro
    Sonata nr.9 em lá menor, KV 310 (Paris, 1778)
    Allegro maestoso / Andante cantabile con espressione / Presto

sábado, julho 18, 2009

Lições de Stonewall a São Paulo



1969, Stonewall, Nova York. 2009, atentado com bomba na Parada Gay em São Paulo. Após sucessivas batidas policiais com humilhação e prisão no Bar Stonewall, reduto gay do Greenwich Village em NY, os homossexuais reagiram e se rebelaram contra a polícia; a rebelião ganhou o apoio dos passantes e os policiais recuaram.

É o marco histórico do início do movimento de emancipação e liberação dos homossexuais e do combate à homofobia. No ano seguinte, deu-se a primeira Parada Gay. Em São Paulo, além da bomba atirada numa sacola do alto de um prédio, outras agressões deixaram rapazes feridos. Um deles morreu.
Aos 40 anos de Stonewall, ataques como o de São Paulo estão além da homofobia. São atos de homoterrorismo. Apesar das transformações nos costumes e leis e da maior liberdade de expressão da opção sexual, prevalece, mundo afora, a repressão através de atos de guerra. No Brasil, o número de assassinatos de homossexuais aumentou 55% em 2008 em relação ao ano anterior, revela a pesquisa
anual sobre crimes com motivação homofóbica, do Grupo Gay da Bahia (GGB).

Como se explica o homoterrorismo? Como a homofobia, termo que designa medo, se transforma em ódio? Por um lado, podemos pensar a partir da lógica da exclusão do diferente e situar o homossexual ao lado do negro e do judeu, vítimas de discriminação e intolerância (o triângulo gay era cor-de-rosa nos campos de concentração) e também, como se tem visto, aqueles que frequentam religiões “fora da norma”, como a Umbanda, alvos de agressões em seus templos. As mulheres, acrescente-se, continuam a ser discriminadas. Essa norma mítica, que se confunde com o “normal”, é a do “branco, masculino, jovem, heterossexual, cristão, financeiramente seguro e magro” (cf. Dollimore). O homossexual provoca o imaginário de um gozo outro, tão diferente, e ao mesmo tempo tão semelhante. Para a consciência da norma, é melhor qualificá-lo de pervertido, não-confiável, pois um gozo periférico, daí ser perigoso. Como disse Arnaldo Jabor, os gays “ (…) sempre foram uma fonte de angústia, pois atrapalham nosso sossego, nossa identidade ‘clara’. O gay é duplo, é dois, o viado tem algo de centauro, de ameaçador para a unicidade do desejo… o gay sério inquieta… o gay de terno, o gay forte, o gay caubói são muito próximos de nós (…).”

Ao responder a uma mãe extremamente preocupada com a homossexualidade de seu filho, Sigmund Freud (que assinara uma petição pela descriminalização da homossexualidade) aponta, em 1935, que não é nenhuma desvantagem, nem vantagem, “não é motivo de vergonha, não é uma degradação, não é um vício e não pode ser considerada uma doença”. Apesar disso, só em 1973 a American Psychiatric Association (APA) deixou de classificar a homossexualidade como doença. E depois que ativistas gays, por duas vezes (1970 e 1971), invadiram seu encontro anual.

A psicanálise, na mesma direção, se opõe à pedagogia do desejo, pois esta é uma falácia. Não se pode educar a pulsão sexual, desviá-la para acomodá-la aos ideais da sociedade. A pulsão segue os caminhos traçados pelo inconsciente, individual e singular. A pulsão não é louca: obedece à lógica de uma lei simbólica a que todos estamos submetidos.

Para a psicanálise, o interesse exclusivo de um homem por uma mulher também merece esclarecimento. A investigação psicanalítica, diz Freud em seu texto premiado sobre Leonardo da Vinci, opõe-se à tentativa de separar os homossexuais dos outros seres como um “grupo de índole singular”, pois “todos os seres humanos são capazes de fazer uma escolha de objeto homossexual e que de fato a consumaram no inconsciente”. Ou seja, a bissexualidade é constitutiva de todos, seja a escolha homossexual praticada ou não.

O complexo de Édipo, que cai no esquecimento, comporta também a ligação libidinal do filho para com o pai e da menina para com a mãe, além das ligações do filho com a mãe e da filha com o pai. Assim, o número de homossexuais que se proclamam como tais, diz Freud, “não é nada em comparação com os homossexuais latentes”.

Há uma diversidade enorme na homossexualidade tanto na praticada quanto na latente e sublimada. Devemos falar, portanto, de homossexualidades”. As sexualidades são tantas quanto existem os sujeitos, determinadas pelas fantasias de cada um. A questão que se coloca nesse episódio de terror é como cada um lida com sua homossexualidade (patente ou latente) que se materializa nas amizades, nas relações entre parentes do mesmo sexo e em todo ajuntamento social.

Segundo Freud, a libido homossexual é o cimento dos grupos e da massa, assim como a raiz dos ideais subjetivos de cada um se encontra em seu narcisismo (do amor por si mesmo e até a auto-estima). O “amar aos outros como a si mesmo” tem claramente fundamento homo (igual) erótico. A aceitação da homossexualidade do outro se encontra na dependência de como o sujeito lida com a sua própria. Quanto mais ele a rejeita em si mesmo, menos saberá lidar com ela, podendo fazer desse outro um objeto de ódio, de agressão e até de assassinato.

Dentro de uma cultura machista e falocêntrica (existe no ocidente alguma que não o seja?) parece mais fácil para a mulher lidar com sua homossexualidade do que o homem. Não é à toa que o lipstick lesbian virou moda entre as meninas. O que está longe de ser o caso para os meninos que cedo, muitas vezes na escola, aprendem a prática do homoterrorismo. A aceitação do outro como sexuado, diferente e independente, podendo fazer suas próprias escolhas de gozo sem ter que se desculpar, é um índice de civilização. O contrário é a barbárie.


Antonio Quinet, psicanalista e doutor em filosofia.

quinta-feira, julho 16, 2009

Semínário XVIII


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Acaba de chegar às livrarias o
Seminário XVIII de Lacan:
de um discurso que não fosse semblante .


Sobre este Seminário, anuncia Jacques-Alain Miller: “Título enigmático, à primeira vista. Forneçamos a chave: trata-se do homem e da mulher – de suas relações mais concretas, amorosas e sexuais, na vida do dia a dia, sim, bem como em seus sonhos e fantasias. Isso nada tem a ver, é claro, com o que a biologia estuda sob o nome de sexualidade. Mas será preciso, por isso, deixar esse campo entregue à poesia, ao romance, às ideologias? Tenta-se aqui fornecer dele uma lógica. É ardiloso.”
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segunda-feira, julho 13, 2009

O Discurso, O Desejo



Em uma sociedade como a nossa, conhecemos, é certo, procedimentos de exclusão. O mais evidente, o mais familiar também, é a interdição. Sabe-se bem que não se tem o direito de dizer tudo, que não se pode falar de tudo em qualquer circunstância, que qualquer um, enfim, não pode falar de qualquer coisa. Tabu do objeto, ritual da circunstância, direito privilegiado ou exclusivo do sujeito que fala: temos aí o jogo de três tipos de interdição que se cruzam, se reforçam ou se compensam, formando uma grade complexa que não cessa de se modificar. Notaria apenas que, em nossos dias, as regiões onde a grade é mais cerrada, onde os buracos negros se multiplicam, são as regiões da sexualidade e as da política: como se o discurso, longe de ser esse elemento transparente ou neutro no qual a sexualidade se desarma e a política se pacifica, fosse um dos lugares onde elas exerçam, de modo privilegiado, alguns de seus mais temíveis poderes. Por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e com o poder. Nisto não há nada de espantoso, visto que o discurso – como a psicanálise nos mostrou – não é simplesmente aquilo que manifesta (ou oculta) o desejo; é, também, aquilo que é objeto do desejo; e visto que – isto a história não cessa de nos ensinar – o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar.


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Michel Foucault
in: A Ordem do Discurso - Aula Inaugural no Collège de France,

pronunciada em 2 de Dezembro de 1970.

sexta-feira, julho 10, 2009

Inconsciente



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Algumas associações sobre o inconsciente, a partir das questões levantadas por Nasio.

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  • “o sonho é a epifania do outro”. Maria [23/06/09]

  • O sonho é a epifania do outro... 09 de julho e já não me lembro mais em que contexto foi me dado a frase. Leio-a aqui, como coisa do dia, e flutuam os vocábulos, cada um grávido de si, o sonho, a epifania, o outro.

  • O inconsciente, pois, redunda operativo, no tropeço, no impossível do inconsciente do outro. O que existe então é um inconsciente posto às claras no encontro. Onde a conversa, não é propriamente conversa, é uma fala que se dá às avessas.



  • Há tempos de uma captura colossal. Segundos, às vezes, e basta um segundo.
    Neste tempo não há cronologia, o deus se isenta, extinto da lógica, do logos numérico, retórico, discursivo.

  • Um entre-reinos, interregno, uma fenda, um furo, uma passagem, entre caos e cosmos.
    Caosmose, fala Guattari. Numa língua dura e deslizante.

  • O insconsciente feito usina, máquina desejante. O eu e outro no acaso do encontro. Posso acreditar que estamos todos, quem saberá?, falando do mesmo caos dos acontecimentos humanos? Pondo fim às histórias, posto que se ousa, enfim, contar a fundo ficções.

Clarissa

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Li, gostei e achei muito instigante a pergunta final do texto Inconsciente. Ele não existe fora da Psicanálise, por Lacan. Ele está falando da sessão no divã, exatamente? Porque em tantos momentos a Psicanálise, ou inúmeros, se aproxima se imbrica com o quadro, o poema. Faz lembrar que no Seminário XI, no capítulo o que é um quadro, Lacan parece deixar mais claro o que é o objeto a, a esquize do olhar. Não seria uma maneira de construção do Inconsciente esse olhar, do outro lado do divã? Fique mesmo pensando sobre isso, partilho com você para esclarecer minha dúvida lacaniana..

Marcia

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  • Inconscientes:
Clarissa:
Um entre-reinos, interregno, uma fenda, um furo, uma passagem,
entre caos e cosmos.
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Marcia:
Esse olhar do outro lado do divã.
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Maria:
Um gaio saber alicerçado no des-ser (o chiste, o esquecimento, o tropeço, o sonho, o ato falho).
Quando a normatividade do fantasma e a ditadura dos ideais param de sustentar a ilusão de consistência do ser, o gaio saber advém como virtude.
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quarta-feira, julho 08, 2009

Inconsciente:

Para começar, o inconsciente revela-se num ato que surpreende e ultrapassa a intenção do analisando que fala. O sujeito diz mais do que pretende e, ao dizer, revela sua vontade.


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Esse ato, mais do que revelar um inconsciente oculto e já presente, produz o inconsciente e faz com que ele exista.

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Ora, para que esse ato efetivamente dê existência ao inconsciente, é indispensável que um outro sujeito escute e reconheça a importância do inconsciente, sendo esse sujeito o psicanalista: “... o inconsciente implica que ele seja escutado? Em minha opinião, sim”, respondeu Lacan. (Televisão) De fato, para que o inconsciente exista, é ainda necessário que ele seja reconhecido.

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Mas esse reconhecimento não é um reconhecimento do pensar, é um reconhecimento do ser, ou seja, o psicanalista reconhece como ato, a partir de seu ser e de seu próprio inconsciente, o inconsciente do outro. Para reconhecer que o ato do analisando é um colocar em prática o inconsciente, é preciso, pois, um outro ato, o do analista. É claro que numerosas diferenças distinguem o ato do analisando do ato do analista, que um lapso do analisando é diferente da interpretação do psicanalista, mas, do ponto de vista em que nos situamos, ou seja, do ponto de vista que considera o inconsciente como uma estrutura, esses dois atos são formalmente idênticos, ou, se preferimos, significantes.

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Se o psicanalista está em condição de sancionar como ato a existência do inconsciente de seu analisando, é porque ele mesmo já percorreu, na condição de paciente, o caminho de uma análise.

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Essa conjunção de dois atos que, no campo da análise, põe em prática o inconsciente, permite-nos formular três hipóteses, que submeto a vocês:
. O inconsciente não é uma instância oculta, já presente, à espera de uma interpretação que venha revelá-lo, mas uma instância produzida quando a interpretação do analista, considerada como um ato de seu inconsciente, reconhece o ato do inconsciente do analisando.
· Assim produzido, o inconsciente é uma estrutura única, comum a ambos os parceiros analíticos. Por conseguinte, devemos corrigir a hipótese anterior e concluir que não existe um inconsciente pertencente ao analisando e, depois, um outro inconsciente pertencente ao psicanalista, mas há apenas um único inconsciente, o que é produzido e é singular no seio da transferência.
· Por fim, a terceira hipótese é a reafirmação de minha proposta inicial de pensar a existência do inconsciente exclusivamente dentro da análise, lembrando que o próprio Lacan também se deteve sobre esse mesmo problema, sem resolvê-lo. Em resposta à observação de um interlocutor que afirmou: “Eu disse que a psicanálise só pode ser válida dentro do campo de suas observações, que é a situação analítica”, Lacan replicou: “É exatamente isso o que digo. Não temos meios de saber se o inconsciente existe fora da psicanálise.”(Scilicet)
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Cinco Lições sobre a Teoria de Jacques Lacan
Juan-David Nasio




terça-feira, junho 30, 2009

Pontuações sobre a direção de uma análise:



  1. O analista não dirige o paciente, mas dirige o tratamento.

  1. O analista faz parte do sintoma. Se ele não intervier, não tem análise.


  1. O analista tem que transformar o particular em singular. Ele chega à singularidade quebrando a expectativa do todo.
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O FEMINO E A ARTE

l'abandon - Camille Claudel QUERO UMA VERDADE INVENTADA MEMÓRIAS, LINGUAGENS E ESCRITAS Dia: Segunda...