domingo, setembro 06, 2009

Primeiras Estórias



Famigerado

Guimarães Rosa

Foi de incerta feita — o evento. Quem pode esperar coisa tão sem pés nem cabeça? Eu estava em casa, o arraial sendo de todo tranqüilo. Parou-me à porta o tropel. Cheguei à janela.


Um grupo de cavaleiros. Isto é, vendo melhor: um cavaleiro rente, frente à minha porta, equiparado, exato; e, embolados, de banda, três homens a cavalo. Tudo, num relance, insolitíssimo. Tomei-me nos nervos. O cavaleiro esse — o oh-homem-oh — com cara de nenhum amigo. Sei o que é influência de fisionomia. Saíra e viera, aquele homem, para morrer em guerra. Saudou-me seco, curto pesadamente. Seu cavalo era alto, um alazão; bem arreado, ferrado, suado. E concebi grande dúvida.

Nenhum se apeava. Os outros, tristes três, mal me haviam olhado, nem olhassem para nada. Semelhavam a gente receosa, tropa desbaratada, sopitados, constrangidos coagidos, sim. Isso por isso, que o cavaleiro solerte tinha o ar de regê-los: a meio-gesto, desprezivo, intimara-os de pegarem o lugar onde agora se encostavam. Dado que a frente da minha casa reentrava, metros, da linha da rua, e dos dois lados avançava a cerca, formava-se ali um encantoável, espécie de resguardo. Valendo-se do que, o homem obrigara os outros ao ponto donde seriam menos vistos, enquanto barrava-lhes qualquer fuga; sem contar que, unidos assim, os cavalos se apertando, não dispunham de rápida mobilidade. Tudo enxergara, tomando ganho da topografia. Os três seriam seus prisioneiros, não seus sequazes. Aquele homem, para proceder da forma, só podia ser um brabo sertanejo, jagunço até na escuma do bofe. Senti que não me ficava útil dar cara amena, mostras de temeroso. Eu não tinha arma ao alcance. Tivesse, também, não adiantava. Com um pingo no i, ele me dissolvia. O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo. O medo O. O medo me miava. Convidei-o a desmontar, a entrar.

Disse de não, conquanto os costumes. Conservava-se de chapéu. Via-se que passara a descansar na sela — decerto relaxava o corpo para dar-se mais à ingente tarefa de pensar. Perguntei: respondeu-me que não estava doente, nem vindo à receita ou consulta. Sua voz se espaçava, querendo-se calma; a fala de gente de mais longe, talvez são-franciscano. Sei desse tipo de valentão que nada alardeia, sem farroma. Mas avessado, estranhão, perverso brusco, podendo desfechar com algo, de repente, por um és-não-és. Muito de macio, mentalmente, comecei a me organizar. Ele falou:
"Eu vim preguntar a vosmecê uma opinião sua explicada..."
Carregara a celha. Causava outra inquietude, sua farrusca, a catadura de canibal. Desfranziu-se, porém, quase que sorriu. Daí, desceu do cavalo; maneiro, imprevisto. Se por se cumprir do maior valor de melhores modos; por esperteza? Reteve no pulso a ponta do cabresto, o alazão era para paz. O chapéu sempre na cabeça. Um alarve. Mais os ínvios olhos. E ele era para muito. Seria de ver-se: estava em armas — e de armas alimpadas. Dava para se sentir o peso da de fogo, no cinturão, que usado baixo, para ela estar-se já ao nível justo, ademão, tanto que ele se persistia de braço direito pendido, pronto meneável. Sendo a sela, de notar-se, uma jereba papuda urucuiana, pouco de se achar, na região, pelo menos de tão boa feitura. Tudo de gente brava. Aquele propunha sangue, em suas tenções. Pequeno, mas duro, grossudo, todo em tronco de árvore. Sua máxima violência podia ser para cada momento. Tivesse aceitado de entrar e um café, calmava-me. Assim, porém, banda de fora, sem a-graças de hóspede nem surdez de paredes, tinha para um se inquietar, sem medida e sem certeza.

— "Vosmecê é que não me conhece. Damázio, dos Siqueiras... Estou vindo da Serra..."

Sobressalto. Damázio, quem dele não ouvira? O feroz de estórias de léguas, com dezenas de carregadas mortes, homem perigosíssimo. Constando também, se verdade, que de para uns anos ele se serenara — evitava o de evitar. Fie-se, porém, quem, em tais tréguas de pantera? Ali, antenasal, de mim a palmo! Continuava:

— "Saiba vosmecê que, na Serra, por o ultimamente, se compareceu um moço do Governo, rapaz meio estrondoso... Saiba que estou com ele à revelia... Cá eu não quero questão com o Governo, não estou em saúde nem idade... O rapaz, muitos acham que ele é de seu tanto esmiolado..."
Com arranco, calou-se. Como arrependido de ter começado assim, de evidente. Contra que aí estava com o fígado em más margens; pensava, pensava. Cabismeditado. Do que, se resolveu. Levantou as feições. Se é que se riu: aquela crueldade de dentes. Encarar, não me encarava, só se fito à meia esguelha. Latejava-lhe um orgulho indeciso. Redigiu seu monologar.
O que frouxo falava: de outras, diversas pessoas e coisas, da Serra, do São Ão, travados assuntos, inseqüentes, como dificultação. A conversa era para teias de aranha. Eu tinha de entender-lhe as mínimas entonações, seguir seus propósitos e silêncios. Assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele enigmava: E, pá:
— "Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmisgerado... faz-me-gerado... falmisgeraldo... familhas-gerado...?
Disse, de golpe, trazia entre dentes aquela frase. Soara com riso seco. Mas, o gesto, que se seguiu, imperava-se de toda a rudez primitiva, de sua presença dilatada. Detinha minha resposta, não queria que eu a desse de imediato. E já aí outro susto vertiginoso suspendia-me: alguém podia ter feito intriga, invencionice de atribuir-me a palavra de ofensa àquele homem; que muito, pois, que aqui ele se famanasse, vindo para exigir-me, rosto a rosto, o fatal, a vexatória satisfação?

— "Saiba vosmecê que saí ind'hoje da Serra, que vim, sem parar, essas seis léguas, expresso direto pra mor de lhe preguntar a pregunta, pelo claro..."

Se sério, se era. Transiu-se-me.

— "Lá, e por estes meios de caminho, tem nenhum ninguém ciente, nem têm o legítimo — o livro que aprende as palavras... É gente pra informação torta, por se fingirem de menos ignorâncias... Só se o padre, no São Ão, capaz, mas com padres não me dou: eles logo engambelam... A bem. Agora, se me faz mercê, vosmecê me fale, no pau da peroba, no aperfeiçoado: o que é que é, o que já lhe perguntei?"
Se simples. Se digo. Transfoi-se-me. Esses trizes:

Famigerado?
— "Sim senhor..." — e, alto, repetiu, vezes, o termo, enfim nos vermelhões da raiva, sua voz fora de foco. E já me olhava, interpelador, intimativo — apertava-me. Tinha eu que descobrir a cara. — Famigerado? Habitei preâmbulos. Bem que eu me carecia noutro ínterim, em indúcias. Como por socorro, espiei os três outros, em seus cavalos, intugidos até então, mumumudos. Mas, Damázio:
— "Vosmecê declare. Estes aí são de nada não. São da Serra. Só vieram comigo, pra testemunho..."

Só tinha de desentalar-me. O homem queria estrito o caroço: o verivérbio.
Famigerado é inóxio, é "célebre", "notório", "notável"...

— "Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não entender. Mais me diga: é desaforado? É caçoável? É de arrenegar? Farsância? Nome de ofensa?"
— Vilta nenhuma, nenhum doesto. São expressões neutras, de outros usos...
— "Pois... e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em dia-de-semana?"
Famigerado? Bem. É: "importante", que merece louvor, respeito...
— "Vosmecê agarante, pra a paz das mães, mão na Escritura?"

Se certo! Era para se empenhar a barba. Do que o diabo, então eu sincero disse:
— Olhe: eu, como o sr. me vê, com vantagens, hum, o que eu queria uma hora destas era ser famigerado — bem famigerado, o mais que pudesse!...
— "Ah, bem!..." — soltou, exultante.

Saltando na sela, ele se levantou de molas. Subiu em si, desagravava-se, num desafogaréu. Sorriu-se, outro. Satisfez aqueles três: — "Vocês podem ir, compadres. Vocês escutaram bem a boa descrição..." — e eles prestes se partiram. Só aí se chegou, beirando-me a janela, aceitava um copo d'água. Disse: — "Não há como que as grandezas machas duma pessoa instruída!" Seja que de novo, por um mero, se torvava? Disse: — "Sei lá, às vezes o melhor mesmo, pra esse moço do Governo, era ir-se embora, sei não..." Mas mais sorriu, apagara-se-lhe a inquietação. Disse: — "A gente tem cada cisma de dúvida boba, dessas desconfianças... Só pra azedar a mandioca..." Agradeceu, quis me apertar a mão. Outra vez, aceitaria de entrar em minha casa. Oh, pois. Esporou, foi-se, o alazão, não pensava no que o trouxera, tese para alto rir, e mais, o famoso assunto.

Texto extraído do livro "Primeiras Estórias".

quarta-feira, setembro 02, 2009

Referências Bibliográficas
- Curso de 2009 -
  • Castelo Branco, Guilherme, Olhar e o amor – A Ontologia de Lacan, Rio de Janeiro: Nau Ed., 1995.


Capítulo 3 – “A coisa e o desejo”

  • Derrida, Jacques, [2002] A Escritura e a Diferença, São Paulo: Ed. Perspectiva.

- “Freud e a cena da escritura”

  • Garcia-Roza, Luiz Alfredo. [1991] Introdução à Metapsicologia Freudiana 2, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

- Capítulo 3 – Impressão, Traço e Texto
- Capítulo 8 – O Desejo

  • Kaufmann, Pierre. [1996]. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

  • Lacan, Jacques. [2005]. O Seminário livro 10, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

- Capítulo 8 – A causa do desejo
  • Miller, Jacques-Alain. [1997] Lacan Elucidado: palestras no Brasil, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
- Capítulo I - O mal-entendido
  • Neri, Regina. [2005] A psicanálise e o feminino: um horizonte da modernidade, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
- Capítulo 1 - Da invenção da Razão à Crise da Razão.

Novaes, Adauto. [1990]. O Desejo, São Paulo: Companhia das Letras.

- “O Desejo da Realidade” – Maria Rita Kehl

  • Rudinesco, Elisabeth,[1994] Jacques Lacan – Esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento, São Paulo: Companhia das Letras.

- Capítulo 3: A Escola da Filosofia – Em torno de Alexandre Koyré
  • Safatle, Vladimir [2006] A paixão do Negativo - Lacan e a Dialética, São Paulo: Editora UNESP.
- Capítulo 2 - A transcendência negativa do sujeito
  • Safatle, Vladimir [2007] Lacan - São Paulo: Publifolha.

obs: No transcorrer do Curso iremos acrescentando novas referências.

  • O grupo de estudo de Fenomenologia é coordenado
por Elizia Cristina Ferreira.

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quinta-feira, agosto 27, 2009





CONVITE

Grupo de Estudos: "A fenomenologia da percepção"

Horário: 14H00 às 16H00

Dia: Quinta Feira

Local: NIM - Núcleo de Investigações Metafísicas

(sala 207 - prédio novo CFH)

  • Serão fornecidos certificados para

os participantes.

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quinta-feira, agosto 20, 2009



  • Primeira Aula
  • 18 de agosto de 2009


Neste semestre começamos o quarto curso vinculado ao Grupo de Estudo de Arte, Filosofia e Psicanálise. A proposta desse grupo, desde o início do projeto, é abrir um diálogo entre este saber – a filosofia –, e os dois processos de criação, ou melhor, de invenção (pois, inventar é dar uma nova forma a algo que já existe), que são o trabalho do artista e o trabalho do psicanalista.
Relaciono o trabalho do psicanalista ao trabalho do artista, por acreditar que o que está em jogo no divã, se aproxima muito mais do procedimento de invenção de um saber, do que de um procedimento epistemológico. Podemos dizer: Assim como Marcel Duchamp, inventou um vaso sanitário como objeto de arte; em uma análise, inventamos um nome para objeto a. Essa nomeação vai gerar uma série de efeitos sobre a forma do gozo e no modo de operar o desejo de um sujeito.


Sobre o curso desse semestre, eu gostaria de iniciar apontando três intenções: Em primeiro lugar, esse curso dá continuidade ao do ano passado - Sujeito, Desejo e Discurso. No curso de 2008, nos propomos a falar do sujeito, do desejo e do discurso a partir do texto de Lacan, Subversão do Sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano, de 1960. Quem fez o curso sabe que trabalhamos bastante a noção de sujeito, e passamos muito rápido pela noção do desejo e do discurso. Então, nesse semestre, resolvemos voltar ao tema do desejo, sob outra perspectiva.

Em segundo lugar, demos um nome para esse curso na forma de questão: "O que causa o teu desejo?". Já está posto nessa nomeação, um modo de apreender o desejo na psicanálise lacaniana. O desejo, diz Lacan, é sempre uma questão, uma incógnita. Uma primeira leitura, dessa proposição lacaniana sobre o desejo, pode ser compreendida de uma maneira bastante simples. Por exemplo, se vamos para um texto, para um curso, para um projeto de mestrado ou doutorado sem uma questão, não vamos muito longe. Lacan diz assim: Se vamos para um texto com amor, ficamos embevecidos, extasiados, arrebatados, colados a ele; não aprendemos nada. Se vamos com desejo, nós o interrogamos, o esburacamos, percebemos seus furos, as pontas que não se amaram, provocamos e somos provocados por ele. Aí sim, começamos a aprender algo.

Essa é uma direção para pensar a importância do desejo do analista. Se o analista vai escutar o texto, a narrativa do analisando com amor; ele corre o risco de ir pela via da compaixão, da ajuda, do terapêutico. O que, no mínimo, é um risco ético. Já, se a escuta é sustentada pelo desejo ela vai provocar trabalho.
E, finalmente, a terceira intenção é demonstrar, através do significante causa, o que caracteriza e diferencia de outros saberes, a noção de desejo em Lacan. Essa construção do objeto como causa de desejo Lacan desenvolve no capítulo VIII, intitulado “A causa do desejo”, do Seminário X – a angústia, de 1962-63. Antes desse Seminário, a leitura lacaniana do desejo seguiu a trilha do saber estabelecido. No primeiro momento do seu ensino, Lacan se apropria da noção de desejo de Freud. Num segundo momento, sofre a influência da teoria do desejo de Hegel, através da leitura de Alexandre Kojève. No terceiro momento, o Seminário da ética, foi buscar na teoria de Kant as ferramentas que permitiram a construção da ética do desejo. E finalmente, no Seminário X, quando se propôs a pensar a angustia, já tinha construído a noção de objeto a, que lhe permitiu dar uma reviravolta, um novo passo de sentido na relação entre desejo e objeto.

Conforme o programa, nesse curso nossa proposta é percorrer esses vários momentos da noção de desejo no ensino de Lacan. Só não iremos nos debruçar sobre o Seminário VII – a ética. Não situei esse Seminário em nosso programa, porque, neste Seminário, Lacan associa a noção de desejo com as questões da ética; e essa articulação merece muito mais tempo de estudo. Portanto, falaremos dele quem sabe, no próximo ano.

Podemos dizer que para a clínica psicanalítica o desejo é um conceito fundamental. A proposta de trabalhar o gráfico do desejo, no ano passado, foi mostrar que naquele gráfico Lacan apresenta o percurso de uma análise. Podemos dizer, que se a clínica freudiana teve como foco o complexo de Édipo, a clínica lacaniana articula-se aos circuitos do desejo.

Mas, tratando-se do desejo, os caminhos nunca são curtos nem fáceis. Como posição subjetiva, é muito mais fácil o caminho da queixa: a queixa é coletiva. Como diz Jorge Forbes, os sindicatos estão aí para provar como é fácil nos constituirmos em grupo pela queixa. Outro caminho, que parece bem mais fácil do que o do desejo, é o da demanda. Veremos, no transcorrer do curso, que o neurótico toma com muita facilidade o desejo por demanda. Nós nos estafamos para responder as demandas dos outros, e nos estafamos também em criar demandas para os outros. Nossa ilusão primeira é que ao responder as demandas, estamos respondendo ao desejo. Pobre ilusão.

Por que damos tantas voltas em torno do desejo? Porque assumir a posição de sujeito desejante é, em primeiro lugar, parar de se queixar e assumir a responsabilidade pelas nossas escolhas. A ética da psicanálise proposta por Lacan no Seminário VII é: aja em conformidade com o teu desejo. Mas não se enganem, essa posição ética não tem nada de egocentrismo, individualismo ou de hedonismo. Desejo, para psicanálise, tem pouco haver com prazer.

Se fosse provocá-los com uma metáfora, eu diria que o desejo tem a cara do diabo. É Menfistófoles para Fausto de Goethe: o diabo cínico, de acordo com Peter Sloterdijk. É o diabo do conto O diabo enamorado, de Cazotte, de quem Lacan destaca a questão colocada no ápice de seu gráfico: “Que queres?”. São as sereias para Ulisses. É preciso tapar os ouvidos e se amarrar no mastro, para não ser atraído por seu canto.

Essa é uma boa via para começar a compreender as dificuldades de agir em conformidade com o seu desejo. Homero nos presenteia com duas grandes figuras que não cedem de seu desejo: Ulisses e Aquiles.

Se olharmos para Ulisses como uma figura civilizatória, podemos inferir que o que causa o desejo de Ulisses é a civilidade. Para sorte de Penélope, que acaba sendo tomada como representação desse objeto causa. Então, podemos dizer que o objeto do desejo de Ulisses é Penélope, porque nela se inscreve a causa de seu desejo.

Sabemos que Penélope ocupa com maestria esse lugar. Ela é a esposa fiel que espera, pacientemente, por longos anos, o regresso de seu marido. Enquanto espera se ocupa com o bordado da mortalha do seu pai, para ludibriar as expectativas de seus pretendentes. Durante o dia borda, a noite desmancha o bordado, para no dia seguinte novamente iniciá-lo. Conforme alguns comentadores da Odisséia, durante esses longos anos seu pai permanece insepulto.

Ulisses é o herói da civilidade. Por isso mesmo, um grande orador. Conhece toda a sorte de ardis e planos astutos. Representa a centralização do poder – defensor ferrenho de Agamenom na Ilíada -, a disciplina, a ordem e a ação conjunta.

Durante todo o longo período da Odisséia foi tentado pelo amor de mulheres poderosas e belas. Verdadeiras deusas tentaram conquistá-lo. Circe e Calipso chegaram a levá-lo para a cama. Calipso lhe ofereceu a imortalidade, uma ilha paradisíaca e o seu amor eterno, dádiva irrecusável para qualquer ser humano. Mas nenhum desses dons foi capaz de tirar Ulisses de sua posição desejante. Os circuitos do seu desejo inscrevem uma outra cartografia: Voltar para casa, reassumir o trono de Ítaca e o lugar de esposo de Penélope, era, para nosso herói, não se deixar aprisionar por imagens narcísicas que quando absolutizadas elidem a posição desejante.

Por outro via, se constrói o desejo de Aquiles. O objeto causa de desejo de Aquiles é o heroísmo do guerreiro. Por essa via, podemos entender que quando teve que escolher entre uma vida longa e obscura e uma vida breve e heróica, não cedeu um milímetro sequer de agir conforme seu desejo.

Pobre Briseida. Aquiles a amou? Penso que sim. Sua ira, quando Agamenon roubou-lhe Briseida foi sincera. Sofreu, entrou num processo de luto, revoltou-se, desistiu de ir para o campo de batalha. Por certo tempo, chegamos acreditar que o amor tinha suplantando o desejo. Mas, a morte de Pátroclo reconfigura sua posição subjetiva. Tendo que escolher entre o amor de Briseida e a vingança pela morte do jovem amigo, Aquiles responde a partir de seu desejo: opta pela vingança. Volta para batalha, e morre como herói. Escreve-se na história – da Ilíada – como o guerreiro dos guerreiros.

Para concluir o texto e, no mesmo ato, dar início a esse Curso. Podemos supor, a partir da construção proposta por Lacan no Seminário X - que eleva o objeto a, enquanto causa de desejo, a categoria de fetiche -; que, para Ulisses, Penélope adquiriu o estatuto de objeto fetichista. Enquanto para Aquiles, o brilho fetichista vinha-lhe da espada.
Maria Holthausen

sábado, agosto 15, 2009

Libertinagem



Giordano Bruno:
“Meus pensamentos são meus cães. Eles me devoram.”



Diderot:
“Meus pensamentos são minhas prostitutas. Eu os deixo livre para seguir a primeira idéia.”



Jacques-Alain Miller:

O que é libertinagem?

É gozar, sem dúvida, mas gozar sem ser escravo do seu gozo. É, pelo contrário, ser dono do seu gozo. Trata-se de amar sua pulsão na indiferença do objeto, uma ou outra. É essencialmente não desposar nenhum pensamento, mas extrair de cada um uma satisfação que não aprisiona.


sexta-feira, agosto 07, 2009

CURSO PSICANÁLISE


O que causa o teu desejo?


O desejo na clínica lacaniana
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Sabemos que a natureza última do desejo é da categoria do impossível, mas, sabemos também, que a nossa experiência cotidiana como sujeitos desejantes não acontece nesse nível. O lugar dos objetos do desejo é o campo das representações da realidade e dos objetos ditos reais. Nesse campo, não falamos o desejo, mas do desejo. Na vida cotidiana caminhamos em direção a objetos secundários que aparecem para a consciência como objetos possíveis cujo alcance depende pelo menos em parte de nossa ação voluntária, consciente.

Em Freud, a realidade e seu Princípio só se introduzem no campo do desejo a partir do fracasso da satisfação alucinatória através da qual o psiquismo da criança tenta contentar as demandas imediatistas e onipresentes do Princípio do Prazer. O fracasso, parcial, do Princípio do Prazer inaugura a um só tempo três instâncias para a psique: o tempo, a realidade e o sujeito. O sujeito, visto aqui, como uma instância psíquica que se diferencia do todo ao qual se achava unido imaginariamente e portador de um desejo, já que no espaço do Princípio do Prazer não se pode falar exatamente em desejo por causa da vinculação imediata entre a necessidade e a satisfação alucinatória. No mínimo, não se pode falar de permanência do desejo antes do fracasso do Princípio do Prazer. É a partir desse fracasso que o psiquismo desenvolve recursos para fazer a mediação necessária entre a pulsão e a satisfação parcial da pulsão: o que Freud chamou de Princípio de Realidade.

É só a partir daí que podemos dizer que todo sujeito é sujeito de um desejo, ou que, todo sujeito é sujeito porque é desejante. Já que sujeito e desejo são paridos desde o mesmo evento; o fracasso do Princípio do Prazer. Primeira experiência de corte na unidade imaginária mãe-criança, ou mundo-criança, ou, ainda, na unidade imaginária entre a necessidade e sua imediata satisfação.

Uma conseqüência da interpretação lacaniana sobre o estatuto da linguagem e de sua forma de ser no inconsciente é a reformulação da questão da realidade. A articulação lacaniana das relações entre princípio do prazer, princípio de realidade e pulsão de morte, põe em jogo a noção de realidade freudiana. E, redimensiona as operações do desejo e o lugar do analista na clínica.

Esse curso tem por objetivo perseguir os caminhos teóricos e as conseqüências clínicas desses vários momentos da noção de desejo no ensino de Lacan.


Programa:



2. A leitura lacaniana do desejo hegeliano.

3. A lei institui o desejo.
(A influência de Santo Agostinho na leitura lacaniana do desejo)

4. O objeto a como causa de desejo.
(Seminário X – Cap. VIII)

5. Sinthoma: saber fazer com.
(As operações do desejo na segunda clínica lacaniana)


Cronograma:


Dia: Terça Feira
Horário: 16H30 as 18H00
Sala: 317 - CFH
Local: Faculdade de Filosofia – UFSC

Ministrante: Maria Leite

Data: 18 de agosto a 27 de Outubro de 2009.
Inscrições: Na primeira aula.
Gratuito - aberto a comunidade
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Coordenação: Marcos José Muller-Granzotto
1. A noção de desejo na teoria freudiana
(A interpretação dos Sonhos)

quarta-feira, agosto 05, 2009

CURSO





Curso de História da Arte:


Introdução ao Pensamento Plástico




Ministrante: MSc. Ligia Czesnat
Local: Museu Victor Meirelles
Número de aulas: 4 aulas de 2:30 hs.
Início: 10/08/09
Horário: 18H30 as 21H00






Ementa: Analisar conceitos importantes para a compreensão do pensamento plástico, decorrentes dos conflitos entre a percepção verbal e a invenção plástica. Entendendo que a obra de arte pictórica fala por si, e, portanto, esta fronteira porosa será enfrentada a partir de conceitos da própria pintura, além de imagens anacronicamente extraídas da História da Arte, buscando uma interlocução entre o visível-visual e o visível-dizível.

1ª aula: Pintura como Catástrofe.
Com a utilização de um conceito instrumental deleuziano de catástrofe, procurar-se introduzir outra noção sobre a criação plástica, a partir da formulação de conceitos relacionados com a pintura em momentos diferentes da história da arte.

2ª aula: Pintura Narrativa X Pintura Figural.
Usando o conceito de feito pictórico, compreende-se que o assunto da pintura não é falar de coisas visíveis, mais buscar perceber que a pintura é transfiguração ao tornar visível, coisas invisíveis.

3ª aula: Espaço Perceptível X A Vontade Artística.
Analisar sinteticamente as várias utilizações da noção de espaço e suas determinações como expressão da vontade plástica, entendendo que pintura é sempre produção de espaços e que são como senhas, das quais é possível extrair diferentes informações plásticas.

4ª aula: Passeio pelo acervo do Museu Victor Meirelles.
Instrumentalizados com os conceitos plásticos apreendidos nas aulas anteriores, procurar aplicá-los na prática, destacando algumas obras contidas no Museu; para tal será privilegiado a trajetória histórica da criação no Brasil da Academia de Belas-Artes no século XIX e seus desdobramentos no século XX.







sábado, agosto 01, 2009

Da amizade como modo de vida


De l'amitié comme mode de vie. Entrevista de Michel Foucault a R. de Ceccaty, J. Danet e J. le Bitoux, publicada no jornal Gai Pied, nº 25, abril de 1981, pp. 38-39. Tradução de wanderson flor do nascimento.
  • Você tem cinquenta anos. É um leitor deste jornal que existe há dois anos. O conjunto destes discursos te parece algo de positivo?
Que o jornal exista, é algo de positivo e importante. Ao seu jornal, o que eu pediria era que, lendo, eu não tivesse que colocar a questão da minha idade. Ora, a leitura me força a colocá-la. E eu não fiquei muito contente com a maneira que fui levado a fazê-lo. Muito simplesmente, eu não teria lugar ali.
  • Quem sabe o problema seja da faixa etária dos que colaboram e dos que lêem: uma maioria entre 25 e 35 anos.
É claro. Quanto mais escrito por pessoas jovens, mais diz respeito às pessoas jovens. Mas o problema não é ceder lugar a uma faixa etária de um lado a outro, mas saber o que se pode fazer em relação à quase identificação da homossexualidade com o amor entre jovens.
Outra coisa da qual é preciso desconfiar é a tendência de levar a questão da homossexualidade para o problema "Quem sou eu? Qual o segredo do meu desejo?" Quem sabe, seria melhor perguntar: "Quais relações podem ser estabelecidas, inventadas, multiplicadas, moduladas através da homossexualidade?" O problema não é descobrir em si a verdade sobre seu sexo, mas, para além disso, usar de sua sexualidade para chegar a uma multiplicidade de relações. E isso, sem dúvida é a razão pela qual a homossexualidade não é uma forma de desejo, mas algo de desejável. Temos que nos esforçar em nos tornar homossexuais e não nos obstinarmos em reconhecer que o somos. O lugar para onde caminha os desenvolvimentos do problema da homossexualidade é o problema da amizade.

  • Você pensou isso aos 20 anos ou descobriu no decorrer dos anos?
Tão longe quanto me recordo, desejar rapazes é desejar relações com rapazes. E isso foi sempre, para mim, algo importante. Não forçosamente sob a forma do casal, mas como uma questão de existência: Como é possível para homens estarem juntos? Viver juntos, compartilhar seus tempos, suas refeições, seus quartos, seus lazeres, suas aflições, seu saber, suas confidências? O que é isso de estar entre homens "nus", fora das relações institucionais, de família, de profissão, de companheirismo obrigatório? É um desejo, uma inquietação, um desejo-inquietação que existe em muitas pessoas.
  • Pode-se dizer que a relação com o desejo, com o prazer e a relação que alguém pode ter, seja dependente de sua idade?
Sim, muito profundamente. Entre um homem e uma mulher mais jovem, a instituição facilita as diferenças de idade, as aceita e as faz funcionar. Dois homens de idades notavelmente diferentes, que código têm para se comunicar? Estão um em frente ao outro sem armas, sem palavras convencionais, sem nada que os tranquilize sobre o sentido do movimento que os leva um para o outro. Terão que inventar de A a Z uma relação ainda sem forma que é a amizade: isto é, a soma de todas as coisas por meio das quais um e outro podem se dar prazer.
É uma das concessões que se fazem aos outros de apenas apresentar a homossexualidade sob a forma de um prazer imediato, de dois jovens que se encontram na rua, se seduzam por um olhar, que põem a mão na bunda um do outro, e devaneando por um quarto de hora. Esta é uma imagem comum da homossexualidade que perde toda a sua virtualidade inquietante por duas razões: ela responde a um cânone tranqüilizador da beleza e anula o que pode vir a inquietar no afeto, carinho, amizade, fidelidade, coleguismo, companheirismo, aos quais uma sociedade um pouco destrutiva não pode ceder espaço sem temer que se formem alianças, que se tracem linhas de força imprevistas. Penso que é isto o que torna "perturbadora" a homossexualidade: o modo de vida homossexual muito mais que o ato sexual mesmo. Imaginar um ato sexual que não esteja conforme a lei ou a natureza, não é isso que inquieta as pessoas. Mas que indivíduos comecem a se amar, e ai está o problema. A instituição é sacudida, intensidades afetivas a atravessam, ao mesmo tempo, a dominam e perturbam. Olhe o exército: ali o amor entre homens é, incessantemente, convocado e honrado. Os códigos institucionais não podem validar estas relações das intensidades múltiplas, das cores variáveis, dos movimentos imperceptíveis, das formas que se modificam. Estas relações instauram um curto-circuito e introduzem o amor onde deveria haver a lei, a regra ou o hábito.
  • Você diz a todo momento: "mais que chorar por prazeres esfacelados, me interessa o que podemos fazer de nós mesmos". Poderia explicar melhor?
O ascetismo como renúncia ao prazer tem má reputação. Porém a ascese é outra coisa. É o trabalho que se faz sobre si mesmo para transformar-se ou para fazer aparecer esse si que, felizmente, não se alcança jamais. Não seria este o nosso problema hoje? Nós colocamos o ascetismo de férias. Temos que avançar sobre uma ascese homossexual que nos faria trabalhar sobre nós mesmos e inventar – não digo descobrir – uma maneira de ser, ainda improvável.
  • Isso quer dizer que um jovem homossexual deveria ser muito prudente em relação à imagem homossexual e trabalhar sobre outra coisa?
Isso no que devemos trabalhar, me parece, não é tanto em liberar nossos desejos, mas em tornar a nós mesmos infinitamente mais suscetíveis a prazeres. É preciso, insisto, é preciso fazer escapar às duas fórmulas completamente feitas sobre o puro encontro sexual e sobre a fusão amorosa das identidades.
  • Podem-se ver premissas de construções relacionais fortes nos EUA, sobretudo, nas cidades onde o problema da miséria sexual parece resolvido?
O que me parece certo é que nos EUA, mesmo se no fundo a miséria sexual ainda exista, o interesse pela amizade está se tornando muito importante. Não se entra simplesmente na relação para poder chegar à consumação sexual, o que se faz muito facilmente; mas aquilo para o que as pessoas são polarizadas é a amizade. Como chegar, por meio das práticas sexuais, a um sistema relacional? É possível criar um modo de vida homossexual?
Esta noção de modo de vida me parece importante. Não seria preciso introduzir uma diversificação outra que não aquela devida às classes sociais, diferenças de profissão, de níveis culturais, uma diversificação que seria também uma forma de relação e que seria "o modo de vida"? Um modo de vida pode ser partilhado por indivíduos de idade, estatuto e atividade sociais diferentes. Pode dar lugar a relações intensas que não se pareçam com nenhuma daquelas que são institucionalizadas e me parece que um modo de vida pode dar lugar a uma cultura e a uma ética. Acredito que ser gay não seja se identificar aos traços psicológicos e às máscaras visíveis do homossexual, mas buscar definir e desenvolver um modo de vida.
  • Não é uma mitologia dizer: "Aí estejam, talvez, as premissas de uma socialização entre os seres, que é inter-classes, inter-idades, inter-nacionais?"
Sim, um grande mito como dizer: não haverá mais diferenças entre a homossexualidade e a heterossexualidade. Por outro lado, penso que é uma das razões pelas quais a homossexualidade se torna um problema atualmente. Acontece que a afirmação de que ser homossexual é ser um homem e que este se ama, esta busca de um modo de vida vai ao encontro desta ideologia dos movimentos de liberação sexual dos anos sessenta. Nesse sentido os "clones" bigodudos têm uma significação. É um modo de responder: "Não receiem nada, quanto mais se seja liberado, menos se amará as mulheres, menos se fundirá nesta polissexualidade onde não há mais diferença entre uns e outros." E não se trata, de modo algum, da idéia de uma grande fusão comunitária.
A homossexualidade é uma ocasião histórica de reabrir virtualidades relacionais e afetivas, não tanto pelas qualidades intrínsecas do homossexual, mas pela posição de "enviesado", em qualquer forma, as linhas diagonais que se podem traçar no tecido social, as quais permitem fazer aparecerem essas virtualidades.
  • As mulheres poderiam objetar: "O que é que os homens ganham entre eles e ganham em relação às relações possíveis entre um homem e uma mulher ou entre duas mulheres?”
Há um livro que apareceu nos EUA sobre a amizade entre as mulheres (Faderman, L. Surpassing the Love of Men. New York: William Marrow, 1980). É muito bem documentado a partir de testemunhos de relações de afeição e paixão entre mulheres. No prefácio, a autora diz que ela havia partido da idéia de detectar as relações homossexuais e se deu por conta de que essas relações não somente não estavam sempre presentes, mas que não era interessante saber se se poderia chamar a isso de homossexualidade ou não. E que, deixando a relação desdobrar-se tal como ela aparece nas palavras e nos gestos, apareceriam outras coisas bastante essenciais: amores, afetos densos, maravilhosos, ensolarados ou mesmo, muito tristes, muito obscuros. Este livro mostra também em que ponto o corpo da mulher desempenhou um grande papel e os contatos entre os corpos femininos: uma mulher penteia outra mulher, ela se deixa maquiar e vestir. As mulheres teriam direito ao corpo de outras mulheres, segurar pela cintura, abraçar-se. O corpo do homem estava proibido ao homem de maneira mais drástica. Se é verdade que a vida entre mulheres era tolerada, é somente em certos períodos e a partir do séc. XIX que a vida entre homens foi, não somente tolerada, mas rigorosamente obrigatória: simplesmente durante as guerras.
Igualmente nos campos de prisioneiros. Havia soldados, jovens oficiais que passaram meses, anos juntos. Durante a guerra de 1914, os homens viviam completamente juntos, uns sobre aos outros, e, para eles isso não era nada, na medida em que a morte estava ali; e de onde finalmente a devoção de um ao outro, o serviço feito era sancionado por um jogo de vida e morte. Fora algumas frases sobre o coleguismo, sobre a fraternidade da alma, de alguns testemunhos muito parciais, o que se sabe sobre furacões afetivos, sobre essas tempestades do coração que puderam haver ali nesses momentos? E alguém pode perguntar o faz que nessas guerras absurdas, grotescas, nesses massacres infernais, que as pessoas, apesar de tudo, tenham se sustentado? Sem dúvida, um tecido afetivo. Não quero dizer que era porque eles estavam amando uns aos outros que continuavam combatendo. Mas a honra, a coragem, a dignidade, o sacrifício, sair da trincheira com o companheiro, diante do companheiro, isso implicava uma trama afetiva muito intensa. Isto não quer dizer: "Ah, está ai a homossexualidade!" Detesto este tipo de raciocínio. Mas sem dúvida se tem ai uma das condições, não a única, que permitiu suportar essa vida infernal em que as pessoas, durante semanas, rolassem no barro, entre os cadáveres, a merda, se arrebentassem de fome; e estivessem bêbadas na manhã do ataque.
Eu queria dizer, enfim, que qualquer coisa refletida e voluntária, como uma publicação, deveria tornar possível uma cultura homossexual, isto é, possibilitar os instrumentos para relações polimorfas, variáveis, individualmente moduladas. Mas a idéia de um programa e de proposições é perigosa. Desde que um programa se apresenta, ele faz lei, é uma proibição de inventar. Deveria haver uma inventividade própria de uma situação como a nossa e que estas vontades disso que os americanos chamam de comming out, isto é, de se manifestar. O programa deve ser vazio. É preciso cavar para mostrar como as coisas foram historicamente contingentes, por tal ou qual razão inteligíveis, mas não necessárias. É preciso fazer aparecer o inteligível sob o fundo da vacuidade e negar uma necessidade; e pensar o que existe está longe de preencher todos os espaços possíveis. Fazer um verdadeiro desafio inevitável da questão: o que se pode jogar e como inventar um jogo?


- Obrigado, Michel Foucault.

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