quinta-feira, julho 05, 2007

O sujeito na teoria lacaniana

O sujeito na teoria lacaniana

O conceito lacaniano do sujeito apresenta-se como uma questão complexa que pode ser abordada através de diferentes caminhos. Um destes, e talvez o mais conhecido, é o traçado por Lacan em um dos seus escritos intitulado “Subversão do Sujeito e Dialética do Desejo no Inconsciente Freudiano”. A questão apresentada neste texto é formulada por Lacan da seguinte maneira: qual é o sujeito que a psicanálise subverte, quando funda o inconsciente freudiano? O sujeito subvertido é o sujeito da concepção clássica, o sujeito do conhecimento.
O sujeito freudiano do inconsciente apresenta-se como uma hiância no sujeito do conhecimento, pensado até então como uno e senhor de si. O sujeito do inconsciente não possui substância, ele é o momento de eclipse que se manifesta num equívoco.
É esse mesmo conceito de sujeito que Lacan irá encontrar nas primeiras Meditações de Descartes. O sujeito enquanto esvaziado de todos os saberes, representações e imagens.
“Até o fim do século XVI, a semelhança desempenhou um papel construtor no saber da cultura ocidental. Foi ela que, em grande parte, conduziu a exegese e a interpretação dos textos: foi ela que organizou o jogo dos símbolos, permitiu o conhecimento das coisas visíveis e invisíveis, guiou a arte de representá-las. ”[1] A partir da metade do século XVII, Descartes (1596-1650) constitui uma filosofia na qual exclui a semelhança como forma primeira e experiência essencial do saber. A filosofia cartesiana é um momento de ruptura ao saber estabelecido, o que era aceito como certo se mostra falso: a semelhança não revela mais a verdade das coisas, mais se encontra do lado da imaginação.
Descartes, em seu trajeto ao longo das Meditações, trabalha procurando livrar-se das falsas opiniões do saber até então estabelecido. O instrumento que utiliza para encontrar um ponto de certeza é a dúvida metódica, que é o exercício da dúvida sistemática e generalizada. Tudo que seja enganoso será abandonado.
A dúvida cartesiana é metódica, pois se tem necessidade dela previamente. É também universal na medida em que é preciso duvidar de tudo o que possa ser posto em dúvida. Torna-se radical no momento em que propõe tomar como falso tudo o que for duvidoso. Assim, amplia a dúvida ao máximo, entregando-se a ela para daí tirar sua força. A dúvida é desta forma universalizada na primeira Meditação de Descartes.
Na segunda Meditação, pergunta-se pelo que existe e alcança a primeira certeza. Se há um Deus que o pode enganar o tempo todo, é somente porque ele existe. Alcança também a primeira proposição: Eu sou, eu existo. Ao continuar perguntando sobre a sua natureza, sobre o que é, atinge uma segunda certeza: sou uma coisa pensante. “Eu sou, eu existo: isto é certo; mas por quanto tempo? A saber, por todo tempo em que eu penso.”[1] Sua existência se autentifica no instante de pensar. O que o levará a formular: Penso, logo existo – Cogito ergo sum.
A leitura que é mais conhecida do cogito cartesiano identifica o sujeito ao eu, entendendo-o como substancial. No entanto, a leitura que Lacan faz das primeiras Meditações de Descartes implica um sujeito dessubstancializado pela operação de esvaziamento, que leva ao cogito. Esvaziamento da esfera psíquica, esvaziamento do universo das representações, esvaziamento de tudo o que é imaginário.[2] O que Lacan encontra aí é o sujeito freudiano, o sujeito do inconsciente, um sujeito dividido, que irá simbolizar por um S barrado ($).
“Desse modo, a identificação do sujeito cartesiano ao eu marca uma diferença radical relativamente à psicanálise. Se, em Descarte, o eu ganha o estatuto de substância, definindo o ser do sujeito, em psicanálise, este eu revela apenas as identificações imaginárias que não determinam, de modo algum, o ser do sujeito. O eu se constitui numa relação especular ao outro, como uma imagem a qual me identifico e na qual me reconheço, mas que nada revela sobre o que sou, há uma hiância fundamental que permite que eu possa ser, a todo instante, outro.”[1]
A constituição do eu na teoria Lacaniana é estabelecida a partir do “estádio do espelho”, que se dará entre os 6 meses e dois anos e meio.
O estádio do espelho, ou simplesmente, fase do espelho, organiza-se em torno de três tempos fundamentais, no qual a criança conquista progressivamente a imagem de seu corpo.
No primeiro tempo, a criança percebe a imagem de seu corpo como a de um ser real a quem ela procura se aproximar. Ou seja, “este primeiro tempo da experiência testemunha em favor de uma confusão primeira entre o si e o outro, confusão amplamente confirmada pela relação estereotipada que a criança tem com seus semelhantes, e que atesta, sem equívoco, que é sobretudo no outro que ela se vivencia e se orienta no início.”[1]
Esta primeira fase evidencia o assujeitamento da criança no registro do imaginário, enquanto que a segunda fase, que discutiremos a seguir, se constituirá numa etapa decisiva no processo identificatório.
Na segunda fase a criança descobre que o outro no espelho não é um outro real, mas uma imagem. Ela não mais procura apoderar-se da imagem, de agora em diante, distingue a imagem do outro da realidade do outro.
O terceiro momento, então, dialetiza as duas etapas anteriores. A criança pode perceber que o reflexo no espelho é uma imagem e que é a sua própria imagem. Ao reconhecer-se através desta imagem, a criança, nos diz Lacan, antecipa na cena mental a conquista da unidade funcional de seu próprio corpo, ainda inacabada nesse momento, no plano da motricidade voluntária. Existe aí uma primeira captação pela imagem onde se esboça o primeiro momento da dialética das identificações.[1]
Vemos que esta conquista de identidade é sustentada, em toda a sua extensão, pela dimensão imaginária, visto que ela se dará no próprio fato da criança identificar-se a partir de algo virtual (a imagem ótica), que não é ela enquanto tal, mas onde se re-conhece. “A própria dimensão deste re-conhecimento prefigura, para o sujeito que advém, na conquista de sua identidade, o caráter de sua alienação imaginária, de onde delineia-se o “desconhecimento crônico” que não cessará de alimentar em relação a si mesmo.” [2]
O estádio do espelho é a experiência primordial que revela a instalação do primeiro esboço do eu. É uma experiência ao nível do registro imaginário. Mas o imaginário se relaciona com o simbólico. A criança ainda não fala, mas já é falada, surgindo, assim, num lugar já marcado simbolicamente. Lacan irá dizer que é a relação simbólica que define a posição do sujeito como aquele que vê. É a palavra, a função simbólica, que define o maior ou menor grau de perfeição, de completude, de aproximação, do imaginário.[3]
A partir da relação da criança com o Outro[4] a experiência imaginária torne-se mais ou menos satisfatória. São, afinal, os significantes que iram definir o lugar do sujeito no mundo simbólico, seu nome, sua relação de parentesco, etc.
A criança, em seu júbilo frente ao espelho, procura a mãe para que ela autentifique sua descoberta. Para que se aproprie da imagem, precisa que o Outro - neste momento
encarnado pela mãe - a reconheça, dizendo de quem é esta imagem. É a partir desse reconhecimento, que vem do Outro, que se constitui o eu ideal.
O Outro, enquanto testemunha do estádio do espelho, regula a estruturação imaginária do eu, pois é através do Outro que acontece a entrada no registro simbólico. A mãe, ao dizer de quem é aquela imagem, dá significantes que marcam a criança, via linguagem. A partir destes significantes, que funcionam como traço unário, que se constitui o ideal do eu, via identificação, identificação do sujeito ao significante.
Ao sair da fase identificatória do estádio do espelho, a criança, em quem já se esboça um sujeito, nem por isso deixa de estar numa relação estreita e imediata com a mãe. Esta relação é proporcionada pela posição particular que a criança mantém junto à mãe, buscando identificar-se com o que supõe ser o objeto de seu desejo. Esta identificação, pela qual o desejo da criança se faz desejo do desejo da mãe, é amplamente facilitada pelo lugar que ocupa a mãe, de provedora dos cuidados e das necessidades da criança. Ou seja, a proximidade dessas trocas coloca a criança em situação de se fazer o objeto que supõe faltar à mãe. Este objeto suscetível de preencher a falta do Outro é, exatamente, o falo.
É necessário, aqui, fazer um recorte para que possamos compreender a noção de falta de objeto na teoria lacaniana. A falta de objeto pode manifestar-se de três maneiras: frustração, privação e castração, onde tanto a natureza da falta como o tipo de objetos relacionados são diferentes. Estas diferenças são efeitos das relações da criança com a mãe enquanto interpelada como Outro.
A frustração acontece como uma das primeiras experiências da criança, na sua relação com o objeto real, o seio. A mãe oferece à criança o objeto de necessidade, o seio, que pode acalmar suas necessidades físicas. Por outro lado, a mãe também pode dar o que Lacan chamou de seus dons, que são signos de amor, nos momentos em que não a alimenta. A mãe é por isso mesmo o objeto de apelo para a criança, encontrando-se ora ausente, ora presente.
O seio, enquanto objeto real de uma necessidade, quando não é dado à criança, gera uma frustração, aparecendo assim à falta imaginária de um objeto real. A partir de então, o objeto real, seio, passa a ter uma significação simbólica. O seio como objeto real, que pode satisfazer uma necessidade real, transforma-se em objeto simbólico. A frustração aparece em nível de reivindicação, não há possibilidade de satisfação, pois o objeto está perdido, a falta caracteriza-se como um dano imaginário enquanto o objeto é real.
Na privação, a falta é real, enquanto um buraco no real, mas o objeto é simbólico. O conceito de privação implica a simbolização do objeto no real, pois no real nada pode
faltar. Ao se falar da privação, é da privação enquanto simbolizada de que se fala, e ao supor que sua presença seja possível é que se pode dizer que algo falta.
Na castração, a falta é simbólica, embora o objeto faltante seja o objeto imaginário. O objeto imaginário é o falo imaginário.
A castração irá ocorrer na esfera do Outro, que a mãe faz carne, pois é a nível do Outro que se instaura a falta simbólica. O Outro é barrado[1], a criança percebe que algo falta à mãe, e faz-se necessário simbolizar esta falta. É em torno do falo que ocorre a castração. O complexo de castração tem como ponto decisivo a descoberta da mãe como castrada, desprovida de falo.
O falo é então um significante, o significante da falta. O falo, enquanto significante, vem marcar o falo imaginário no complexo de édipo. Falta imaginária que apontaria para a completude. O falo, enquanto uma imagem que falta, uma imagem negativizada, é o falo simbólico. Enquanto imagem negativa é que opera como elemento simbólico. O falo é o objeto que simboliza a falta, e o nome fundamental da falta é a castração.
Podemos ver agora como ocorre o complexo de castração através dos três tempos distintos do édipo, conforme a teoria lacaniana. Para Lacan estes não são tempos cronológicos, mas, antes, tempos lógicos.
No primeiro tempo do édipo, diz Lacan no “Seminário V” – as formações do inconsciente -, a relação da criança não é com a mãe, mas com o desejo da mãe. É um desejo de desejo. “O que cabe compreender é que esse desejo de desejo implica que estamos lidando com o objeto primordial que é a mãe, com efeito, e que a tenhamos constituído de tal maneira que seu desejo possa ser desejado por um outro desejo, o do filho, nomeadamente. Onde se situa a dialética dessa primeira etapa? A criança fica particularmente isolada nela, desprovida de qualquer outra coisa que não o desejo desse Outro que ela já constituiu como sendo o Outro que pode estar presente ou ausente.”[2]
O primeiro tempo refere-se ao registro imaginário, momento de perfeição e de completude narcísica. É o momento em que a criança acredita poder ser o objeto que falta à mãe. Identifica-se com o que supõe ser o objeto de desejo da mãe, colocando-se na posição de objeto passível de preencher a falta da mãe. Esta possibilidade só pode acontecer devido a natureza metonímica do objeto. Por outro lado criança cumpre para a mãe esta função obturadora da falta como elemento significante numa cadeia significante.
É no segundo tempo do Èdipo que o pai irá aparecer interferindo na relação mãe-criança. O pai surge como um outro nesta relação. Este outro toma o estatuto de objeto
fálico, com o qual a criança vai se rivalizar junto à mãe. Esta rivalidade imaginária possibilita à criança encontrar a lei do pai. O pai aparece então como privador, pois tanto priva a criança do objeto de seu desejo como priva a mãe do objeto fálico.
Para Lacan o segundo tempo tem como eixo o momento em que o pai se faz pressentir como proibidor. Ele aparece mediado no discurso da mãe. No primeiro tempo, o discurso da mãe era captado em estado bruto. Dizer agora que o discurso do pai é mediado não significa que façamos intervir novamente o que a mãe faz da palavra do pai, mas que a fala do pai intervém efetivamente no discurso da mãe. Portanto ele parece menos velado do que no primeiro tempo, mas não é completamente revelado. É a isso que corresponde o termo mediado, nessa ocasião.
Nessa etapa, o pai intervém a título de mensagem para a mãe. Essa mensagem não é simplesmente o “Não deitarás com tua mãe”, já nessa época dirigido à criança, mas um “Não reitegrarás teu produto”, que é endereçado à mãe.[1]
Essa segunda etapa, é um pouco menos feita de pontencialidade do que a primeira. Nem por isso é menos capital, pois é ela, afinal de contas, que constitui o âmago do que podemos chamar de momento privativo do complexo de Édipo. É na medida que a criança é desalojada, para seu grande benefício, da posição ideal com que ela e a mãe poderiam satisfazer-se e na qual ela exerce a função de ser o objeto metonímico da mãe, que pode estabelecer a terceira relação, a etapa seguinte, que é fecunda.[2]
A terceira etapa do Édipo é também a do seu desfecho. Põe fim a rivalidade fálica em torno da mãe. O pai entra em jogo como aquele que tem o falo e não como aquele que é. É neste momento nos diz Lacan, que pode se produzir algo que reinstaura a instância do falo como objeto desejado pela mãe, e não mais apenas como objeto do qual o pai pode privá-la.
Esta etapa é fundamentalmente marcada pela simbolização da lei, atesta que a criança recebeu sua plena significação. “O valor estruturante desta simbolização reside, para ela, na determinação do lugar exato do desejo da mãe. A função paterna só é representativa da lei sob esta condição.”[3] Modifica-se a relação fálica, a criança deixará a problemática do ser o falo para a de ter o falo. Esta mudança de posição só advirá na medida em que o pai não mais lhe aparecer como um falo rival junto à mãe. O falo aparece, neste momento, como uma perda simbólica de um objeto imaginário.
O pai não presentifica mais a lei, como na etapa anterior, onde o pai onipotente era o pai que se afirmava em uma presença privadora. O pai torna-se agora o representante
da lei. Ocorrendo a simbolização da lei, onde para a criança há a determinação do lugar do desejo da mãe. O pai passa a ocupar o lugar de objeto de identificação na formação do ideal do eu.
O falo, que antes era localizado como objeto imaginário em relação à mãe, agora revela-se como objeto simbólico. Tanto a mãe como a criança não têm o falo, mas desejam-no naquele que o detêm, o pai. É através da instauração do falo como simbólico que acontece a estruturação da criança enquanto sujeito. A criança ingressará a partir de então na dimensão simbólica, afastando-se do assujeitamento imaginário à mãe e constituindo-se enquanto sujeito.
“O advento desse sujeito atualiza-se numa operação inaugural de linguagem, na qual a criança se esforça por designar simbolicamente sua renúncia ao objeto perdido. Tal designação só é possível se estiver fundada no recalque do significante fálico, nomeado também significante do desejo da mãe. Coloquemos tal significante (S1) como aquele que irá governar a rede ulterior de toda a cadeia de significantes:[1]

 Inconsciente

 Cadeia falada

 S1 S2..... S3...... S4 .... S5....

 Recalque

O recalque originário, segundo Joel Dör, aparece como uma intervenção intrapsíquica que irá assegurar a passagem do real imediatamente vivido à sua simbolização na linguagem.
O recalque originário é então um processo fundamentalmente estruturante e se constitui numa metaforização. Metaforização que não é senão o ato da simbolização primordial da Lei, que se efetua na substituição do significante fálico pelo significante Nome-do-Pai.
Por meio do recalque originário e da metáfora paterna, impõem-se ao desejo a mediação da linguagem. O desejo de ser, recalcado em prol do desejo de ter, coloca o desejo no terreno dos objetos substitutivos do objeto perdido. O desejo torna-se palavra transformando-se em demanda. Desta forma, ao se fazer demanda, o desejo se perde na cadeia dos significantes do discurso.
“O desejo permanece, portanto, sempre insatisfeito, pela necessidade em que se encontrou de se fazer linguagem. Ele renasce continuamente, uma vez que está sempre, fundamentalmente, em outro lugar que não no objeto a que ele visa ou no significante suscetível de simbolizar este objeto. Em outras palavras, o desejo vê-se engajado na via da metonímia. A metáfora do Nome-do-Pai intima a criança a tomar a parte (objeto substitutivo) pelo todo (objeto perdido). Assim como “uma vela no horizonte” consiste em designar o todo (o navio) pela parte (vela), o desejo persiste em designar o desejo do todo (objeto perdido) pela expressão de desejo da parte (objetos substitutivos).”[2]
A metáfora do Nome-do-Pai é um processo da constituição psíquica que, além de permitir à criança advir como sujeito, acendendo ao simbólico, institui uma estrutura de divisão psíquica - Spaltung[3] - irreversível ao sujeito. O próprio princípio que a governa é sustentado pelo efeito de significante, ou mais especialmente, por uma substituição significante.
Para Lacan a Spaltung é o caráter inaugural que define a subjetividade, sendo que é através dela que o sujeito advém. Ela aparece como o que institui o aparelho psíquico num sistema plurissistêmico. É assim que ela pode ser colocada como divisão inaugural do sujeito, originária da submissão do sujeito a uma ordem terceira que é a ordem simbólica, ou seja, a ordem que irá mediatizar a relação do sujeito com o Real, enlaçando, para ele, o Imaginário e o Real. Operação que efetua-se na instauração do processo da metáfora paterna, ao fim da qual um símbolo de linguagem (o Nome-do-Pai, S2) vem designar metaforicamente o objeto primordial do desejo tornado inconsciente (significante do desejo da mãe, significante fálico S1).
“Se a criança continua assim a nomear, sem o saber, o objeto de seu desejo ao significar o Nome-do-Pai, uma única conclusão se impõe: a criança não sabe mais o que diz naquilo que anuncia. Outra maneira de evocar que a criança acede à linguagem não sabendo o que diz naquilo que fala. A linguagem aparece, pois, como esta atividade subjetiva pela qual se diz ‘algo totalmente diferente’ institui-se fundamentalmente como o inconsciente que escapa ao sujeito que fala, porquanto dele está constitutivamente separado.”[4]
Vemos assim que Lacan parte da estrutura da linguagem para pensar o inconsciente. Para ele a linguagem é a condição do inconsciente. Ou seja, precede o inconsciente e é sua causa. Posição que o levará a afirmar: O inconsciente é um conceito forjado sobre o rastro que opera para constituir o sujeito.
Apoiado na teoria do signo de Saussure, Lacan apresentará sua leitura do inconsciente, que será definido como uma cadeia significante sempre aberta a novas articulações, produzindo novos sentidos. Para Saussure o significante não é um elemento substancial, mas diferencial, portanto só pode ser definido por suas diferenças e não por propriedades ou atributos intrínsecos. Na medida em que se define por oposição, não se pode pensar em significante isolado, mas sempre num mínimo de dois.
Lacan mantém a estrutura binária do significante, cuja concepção já estava em Saussure e que foi desenvolvida por Jakobson, em particular na fonologia.
Assim, S1 – S2 é a escritura elementar da cadeia significante, o mínimo admissível. Mas estes dois significantes não são equivalentes, não são idênticos e nem podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo.
Vimos anteriormente que S1 é o primeiro significante, representativo da singularidade do sujeito, que funda a cadeia, mas que ao mesmo tempo está fora dela. Sabemos que S1 implica necessariamente S2, que S1 só pode ser cogitado a partir de S2, que a ele se articula e lhe confere sentido. Mas S1 e S2 são diferentes por excelência de modo que S2 não é capaz de representar S1 integralmente. Assim, se S1 representa o sujeito, não há outro significante que possa lhe conferir uma identidade. E mais, S1 apenas representa o sujeito, não se confunde com ele. O sujeito é diferente do significante que o representa.
Desta forma, mesmo representado por um significante, o sujeito não se confunde com ele: o sujeito não é o significante que o representa, pois este significante apenas reenvia a outros significantes. Ou seja, dizer que o sujeito é efeito do significante não implica que este significante revele algo sobre o que o sujeito é; ele apenas o representa na cadeia. Desse modo, o sujeito é dividido, pois onde é representado, ele não é, e onde é não é representado.
O sujeito aparece na cadeia significante quando nela se produzem dissimetrias, descontinuidades. O tropeço, a fenda, a descontinuidade. Foi com eles que Freud se deparou no discurso de seus pacientes, através dos sonhos, dos atos falhos, dos chistes e dos sintomas, os quais denominou as “formações do inconsciente”.
O conceito de sujeito que Lacan desenvolve ao longo de sua obra, podemos afirmar, não é estanque ou unívoco. Mas o sujeito do inconsciente que buscamos articular até aqui remete ao não sabido, impossível de tornar-se consciente, que se revela como efeito das formações do inconsciente, que são como dissemos acima: sonhos, atos falhos, chistes e sintomas. Um sujeito que se constitui na fala, não de forma definitiva, mas num paradoxal movimento que implica ausência e presença. No momento preciso em que a fala tropeça.
No seu Seminário “O Osso de uma Análise”, Miller nos diz que o sujeito não fala, mas, antes, ele é falado pelo ser falante. “E notem até que ponto o sujeito é falado, que se segue falando dele depois de sua morte física, depois da morte do organismo que deu lugar ao discurso sobre o sujeito que o habita.”[1]
A partir deste pressuposto, Miller vai afirmar neste mesmo Seminário, substanciado na análise do poema “No meio do caminho” de Carlos Drumomnd de Andrade, que “o ser falante é o poeta, que tem seu estatuto eminente, o sujeito é antes o poema que o poeta. É assim que Lacan o indica, o sujeito é antes o ser falado. A Psicanálise efetua, sobre o poema subjetivo, um tipo de análise textual que tem por efeito extrair daí o elemento poético, a fim de destacar o elemento lógico.”[1] Esta análise textual, no campo da teoria psicanalítica, Miller chamará de operação-redução.
Será que a partir desta afirmação de Miller não poderemos dizer, do mesmo modo, que o autor é o ser falante que, articulado às leis da linguagem, produz um texto literário que, assim como o texto produzido no divã marca o lugar onde o sujeito pode advir?
Um ser falante que, como nos diz Lacan, não sabe o que diz, mas sempre diz mais do que sabe. Um ser falante que desaparece, se desvanece pelo próprio efeito do texto, para que o sujeito possa ai se constituir.



[1] Miller, J.A, O osso de uma análise, Biblioteca – agente, Bahia, 1998, Pg. 45


[1] Miller, J. A, Los signos del gozo, Ed. Paidós, Buenos Aires, Argentina, 1998. Pg. 108



[1] Dor. J. op. Cit. PG. 91
[2] Dor. J. op. Cit. Pg. 94
[3] Termo originário do discurso da Psiquiatria e utilizado por Freud para designar a divisão psíquica.
[4] Dor, J. op.cit pg. 103



[1] Lacan, J. op. Cit. Pg. 209
[2] Lacan, J. op. Cit. Pg. 210.
[3] Dor, J. op. Cit. Pg. 88



[1] O termo barrado tem aqui o sentido de castrado, ou seja, não todo.
[2] Lacan, J. Seminário V – as formações do inconsciente, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1999. Pg. 205.


[1] Lacan, Jacques, Escritos 1, La agresividad en psicoanálisis, Siglo Veintiuno editores, Madri, Espanha, 17ª edición, Pg. 105.
[2] Dor, Jöel, op. Cit., pg. 80.
[3] Lcan, J. Sem. I - Os Escritos Técnicos de Freud, 3ª Edição, Rio de Janeiro, 1983. Pg. 165.
[4] O Outro com maiúsculo refere-se, neste contexto, ao Outro do registro simbólico, o grande Outro da linguagem, o que está sempre já aí. O lugar do código.


[1] Dor, Joël, Introdução à leitura de Lacan, Artes Médicas, Porto Alegre, RS, 1989. Pg. 79


[1] Winograd, M. Genealogia do Sujeito Freudiano, Artmed, Porto Alegre, RS. 1998. Pg. 37


[1] Descartes, R. Meditações. In: Os pensadores, São Paulo. Nova Cultura, 1991. Pg.85
[2] Miller, J. A ., Percurso de Lacan: uma introdução. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1994, Pg.50


[1] FOUCAULT. M. As Palavras e as Coisa. Cap. II A prosa do mundo. Ed. Martins Fontes, 6ª Edição, São Paulo, SP. 1992. Pg. 33

quinta-feira, junho 28, 2007

Convite

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
CENTRO DE COMUNICAÇÃO E EXPRESSÃO

CURSO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA

Doutoranda
Mara Lúcia Masutti
Tese
“Tradução Cultural: Desconstruções Logofonocêntricas em Zonas de Contato entre Surdos e Ouvintes”
Local: Auditório Henrique da Silva Fontes Prédio B CCE

Horário: 14 horas

Data: 29/06/2007

Banca Examinadora
Dra. Claudia de Lima Costa(UFSC Orientadora e presidente),

Dra. Lodenir Karnopp (UFRGS)
Dra. Lais de Toledo Krücken Pereira (UNISUL)
Dra. Maria Aparecida Leite (Núcleo de Investigação Metafísica UFSC)
Dr. Rafael Camorlinga Alcaraz (UFSC)
Dra. Ronice Müller de Quadros (UFSC)
Dra. Tânia Regina Oliveira Ramos (UFSC suplente)

segunda-feira, junho 25, 2007

Livro







Para os versados e/ou apaixonados por Maurice Blanchot, acaba de sair o segundo volume de Conversa Infinita – A experiência limite. Nesse volume Blanchot aponta sua “clara mirada” para os textos de: Heráclito, Pascal, Simone Weil, Nietzsche, Albert Camus, Georges Bataille e Freud.
Recomendo, claro, o belíssimo texto sobre “A Fala Analítica”.

quarta-feira, junho 20, 2007

Oitava Aula: Sujeito

· O sujeito na teoria psicanalítica não o indivíduo nem o eu.
· Freud, ao criar o conceito de inconsciente, subverte a noção do sujeito cartesiano enquanto sujeito da razão.
· Em Freud, pensar não equivale a ser, pois sou também onde não penso, e o fato de pensar não me assegura que eu seja. “O sujeito não é um dado, mas uma descontinuidade nos dados”.
· O sujeito freudiano não só não é idêntico a si, como se torna sempre outro, na medida em que, para Freud, a representação não é mais o espelho do mundo e o lugar da verdade.
  • Diferentemente de Descartes, a representação em psicanálise não pode ser definida como imagem especular do mundo, como instrumento de acesso à verdade das coisas, na medida em que a dimensão de uma ordem natural não faz parte do campo psicanalítico. Em Freud, a representação deve ser entendida como uma construção que dá ao mundo e ao próprio sujeito um sentido, colorindo-os com significações diversas sem que nenhuma possa ser apontada como verdadeira.
· Na intenção de sublinhar que o ser do sujeito não é constituído como uma identidade de consistência significante, Lacan caracteriza o discurso sobre o sujeito com o termo “pré-ontológico”. Vai buscar na teoria da linguagem de Saussure uma nova perspectiva para pensar a noção de inconsciente. Para Saussure nós não somos em nenhum sentido, os autores das afirmações que fazemos ou dos significados que expressamos na língua. Nós podemos utilizar a língua para produzir significados apenas nos posicionando no interior das regras da língua e dos sistemas de significado de nossa cultura. A língua é um sistema social e não um sistema individual. Ela preexiste a nós. Falar uma língua não significa apenas expressar nossos pensamentos mais interiores e originais; significa também ativar a imensa gama de significados que já estão embutidos em nossa língua e em nossos sistemas culturais.
  • Tudo o que dizemos tem um antes e um depois, uma margem na qual outras pessoas podem escrever. O significado é inerentemente instável: ele procura o fechamento (a identidade), mas é constantemente perturbado pela diferença. Existem sempre significados suplementares sobre os quais não temos qualquer controle, que surgirão e subverterão nossas tentativas para criar mundos fixos e estáveis.
  • Partindo das noções da lingüística Lacan vai apontar para a lógica que separa o sujeito do enunciado e o sujeito da enunciação. O “eu” num enunciado qualquer, apenas representa o sujeito que o enuncia, mas esta representação não reflete aquele que fala, antes é sua produção. Entre o eu do enunciado e o sujeito da enunciação a distância é grande e até, mesmo, intransponível, pois nenhum enunciado pode esgotar o ato da enunciação.
  • Desse modo, S1 – S2 é a escritura elementar da cadeia significante, o mínimo admissível. Mas estes dois significantes não são equivalentes, não são idênticos e nem podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo.
  • Mesmo representado por um significante, o sujeito não se confunde com ele: o sujeito não é o significante que o representa, pois este significante apenas reenvia a outros significantes. Ou seja, dizer que o sujeito é efeito do significante não implica que este significante revele algo sobre o que o sujeito é; ele apenas o representa na cadeia. Desse modo, o sujeito é dividido, pois onde é representado, ele não é, e onde é não é representado.
  • O sujeito aparece na cadeia significante quando nela se produzem dissimetrias, descontinuidades. O tropeço, a fenda, a descontinuidade. Foi com eles que Freud se deparou no discurso de seus analisantes: através dos sonhos, dos atos falhos, dos chistes e dos sintomas.
  • A entrada da criança na ordem simbólica produz o sujeito, mas, ao mesmo tempo, opera uma propriedade fundamental da subjetividade que é a alienação do sujeito na e pela linguagem. Por isso, ao definir a operação de alienação Lacan aponta para a necessidade dos conceitos do sujeito e do Outro. Define, então, o Outro como “o lugar em que se situa a cadeia significante que comanda tudo o que vai poder presentificar-se do sujeito”.
  • Assim, liga o Outro e o sujeito de um modo que “constitui, claramente, uma alienação: o sujeito como tal só pode ser conhecido no lugar ou locus do Outro. Não há meio de se definir um sujeito como consciência de si”.
  • Isso significa que é no campo do Outro que o sujeito se constitui, efeito da ação da linguagem sobre o infante. O sujeito nasce, portanto, numa relação de dependência significante com o lugar do Outro. Sempre que um significante representa um sujeito para outro significante, a alienação se produz.
  • Constrói-se nessa operação a primeira falta constituinte do sujeito. Ela se relaciona com o fato de que o sujeito não pode ser inteiramente representado no Outro; sempre há um resto. “A relação do sujeito com o seu próprio discurso sustenta-se, portanto, em um efeito singular: o sujeito só está ali presentificado ao preço de mostrar-se ausente em seu ser”. A divisão do sujeito operada pela ordem significante instaura a alienação do sujeito na e pela linguagem. É nesta relação que o sujeito experimenta o seu caráter radicalmente “inessencial”.
  • O sujeito petrificado pelo significante – e não presentificado – é um sujeito que não faz qualquer pergunta. É o sujeito do cogito, o sujeito da certeza, na medida em que o sujeito do pensamento significa autoconsciência e mestria.
  • No entanto, segundo Lacan, é necessária uma segunda operação, a separação, para que se consuma a causação do sujeito. A separação responde à inscrição do desejo do Outro na falta que há no intervalo significante. Portanto, uma falta que está tanto dentro do campo do sujeito quanto dentro do campo do Outro. O sujeito irá operar com sua própria falta, resultante da primeira operação – a alienação -, para responder à falta no Outro. É nessa operação que Lacan introduzirá o objeto pequeno a, através do qual o sujeito poderá fazer-se objeto do desejo do Outro.
  • Na interseção entre o sujeito e o Outro há uma falta, uma lacuna. Essa falta no Outro, Lacan denomina-a desejo. O desejo aparece na falta devido a uma impossibilidade: a impossibilidade de dizer o que se quer. A presença do desejo em si é a presença de algo que falta na fala: o inapreensível, o invisível, o impossível de se escrever.

quinta-feira, junho 07, 2007

sétima aula

Adorável ...Foram precisos muitos acasos, muitas coincidências surpreendentes (e talvez muitas procuras), para que eu encontre a Imagem que, entre mil, convém ao meu desejo. Eis um grande enigma do qual nunca terei a solução: por que desejo Esse? Por que o desejo por tanto tempo, languidamente? É ele inteiro que desejo (uma silhueta, uma forma, uma aparência)? Ou é apenas uma parte desse corpo? E nesse caso, o que, nesse corpo amado, tem tendência de fetiche em mim? Que porção, talvez incrivelmente pequena, que acidente? O corte de uma unha, um dente um pouquinho quebrado obliquamente, uma mecha, uma maneira de fumar afastando os dedos para falar? De todos esses relevos do corpo tenho vontade de dizer que são adoráveis. Adorável que dizer: este é meu desejo, tanto que único: “É isso! É exatamente isso (que amo)! No entanto, quanto mais experimento a especialidade do meu desejo, menos posso nomeá-la; à precisão do alvo corresponde um estremecimento do nome; o próprio do desejo não pode produzir senão um impróprio do enunciado: Deste fracasso da linguagem, só resta um vestígio: a palavra ‘adorável’ (a boa tradução de ‘adorável’ seria o ipse latino: é ele, ele mesmo em pessoa).”
Alteração ... O discurso amoroso, ordinariamente, é um invólucro liso que adere à Imagem, uma luva suave envolvendo o ser amado. É um discurso devoto, bem-pensante. Quando a imagem se altera, o invólucro da devoção se rasga; um tremor revira minha própria linguagem. Ferido por uma frase que ele surpreende, Werther vê de repente Charlotte como uma fofoqueira, ele a inclui no grupo das amiguinhas com quem ela bate-papo (ela não é mais o outro, mas um outro entre outros), e diz então desdenhosamente “minhas mulherezinhas”. Uma blasfêmia vem bruscamente aos lábios do sujeito e quebra desrespeitosamente a bênção do anamoramento; ele é possuído por um demônio que fala por sua boca, de onde saem, como nos contos de fadas, não flores, mas rãs. Horrível refluxo da Imagem.
(O horror de estragar é ainda mais forte que a angústia de perder.)

Roland Barthes, Fragmentos de um discurso amoros
.
Eu - Libido - falo
Freud apresenta o eu como o lugar próprio, primeiro, de investimento da libido. Para Freud o interesse erótico pelo corpo próprio se transforma no interesse erótico pelo eu.
Em Lacan há uma diferença essencial entre o sujeito e o eu. E essa diferença comporta uma lógica cujas conseqüências são perceptíveis no conjunto do ensino de Lacan. O sujeito da fala é, essencialmente, um sujeito vazio de libido.
Entre essas duas instâncias, entre essas duas versões da instância do si, do que se refere ao si-mesmo, a diferença é que uma, o eu, inclui o gozo, ao passo que a outra, o sujeito, o exclui.
Imagem fálica
Sujeito: $
eu
libido / falo

Assim, Lacan vai relacionar o sujeito do significante com um outro termo, susceptível de suportar a libido do eu. O termo essencial que vem, então, para inscrever essa libido, é o termo “falo”, que escreve com a letra phi. Para dar conta das propriedades do eu freudiano, é preciso acoplar, ao sujeito barrado, esse termo fálico como representante da libido.
Ou seja, a conseqüência da introdução do simbólico é a promoção do falo que vem representar o valor da libido.
Em seu texto "De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose" - 1955/56, Lacan introduz o falo no simbólico não como significante, mas como significação produzida pela metáfora paterna. Quando a metáfora paterna falha e a significação do falo como castração não emerge, é que encontramos evocada a presença de um gozo, em estado livre, não falicizado, que Lacan traduziu como gozo imaginário. A psicose ilustra o que se produz quando a significação do falo não chega a capturar a libido. E Lacan diz “gozo narcísico da imagem”, trazendo, como prova o interesse de Schreber pela própria imagem no espelho, vestido de mulher.

Em “A significação do falo” – 1958, Lacan enuncia o primado do falo em dois tempos:
1º. O primado do falo é a modificação lacaniana do narcisismo. Assim como Freud mostra que a libido, presente nas pulsões, está, todavia centrada no eu, e que é da libido do eu que procede a libido do objeto, Lacan mostra que o falo concentra a libido. O falo em Lacan é um analogon do eu em Freud.
2º. A vantagem dessa operação de deslocamento do eu para o falo é que o falo é um significante e, ao tratar do falo pela sua promoção a um significante maior, Lacan mostra que a libido pode ser abordada a partir do significante.
Com essa concepção Lacan dá conta do privilégio do significante do falo como uma espécie de significante dos significantes. Tudo o que é objeto ou necessidade é substituído pelo significante, devido à demanda: quando há necessidade, demanda-se.

Significante falo
Necessidade

O falo equivale à barra significante que anula o concreto, o objeto, e, em particular, o objeto da necessidade, para convertê-lo em significante.
No texto “A significação do falo”, o próprio falo é marcado pela barra. Ele é equivalente a essa barra, o significante da barra e, como significante, ele próprio a carrega. Surge assim, a sigla menos phi.
Neste sentido, o falo tem uma significação de gozo castrado. Lacan pôde, então, evocar o recalque do falo: longe de se confessar claramente no discurso, esse gozo é para ser encontrado sob a barra, no recalque.
Dessa forma, em “A significação do falo”, Lacan dá conta do que é o investimento de objeto na vida libidinal. No fundo, trata-se de dar conta de como o objeto é investido na vida amorosa. Para Freud, há um investimento de libido, com o eu se empobrecendo em benefício do objeto, o que justifica o termo “transfusão” usado por Lacan. Pode-se dizer que, em Lacan, isso é transposto para outros termos: o que era denominado como investimento de objeto, ele considera como o objeto assumindo a significação do falo.
Isso traduz o deslocamento do narcisismo para o falicismo, ou seja, as considerações de Freud concernentes à libido são traduzidas, por Lacan, em termos de significação do falo. Nesses termos, essa significação é dupla: há uma significação em termos de phi positivo , e uma outra em termos de menos phi.
O menos phi de Lacan, escritura de um gozo castrado, apenas faz repercutir o vazio do sujeito do significante. Lacan, substituindo o eu pelo sujeito, encontra o sujeito em déficit de gozo. Produz, então, o conceito de falo.
Todavia, esse conceito de falo, a partir do momento em que se torna um significante, também é tomado pela negatividade. Por fim, o menos phi impõe-se como falo significante.
Portanto, é necessário a Lacan reinventar um termo positivo. De início, ele é logicamente levado a reinventar o phi maiúsculo, em oposição ao menos phi, como sendo o significante do gozo impossível de negativizar.
Depois, em face das contradições que esse significante impossível de negativizar apresenta, no lugar do phi Lacan inscreverá o a, afirmando não se tratar de um significante, mas sim do positivo do gozo. É o que resta de positivo do gozo, visto que o gozo foi castrado como gozo fálico.



sábado, junho 02, 2007

5a. e 6a. aulas

Auto erotismo: O prazer torna-se independente da necessidade (por exemplo a função de nutrição), e exerce-se de forma auto-erótica; o objeto passa a ser uma parte do próprio corpo.
Narcisismo Primário:
Imaginário – fascinação frente à imagem especular - eu Ideal.
Narcisismo Secundário:
Simbólico – os significantes constroem o Ideal do eu e organizam o imaginário.

Em seu texto - Sobre o Narcisismo: Uma introdução (1914) – Freud distingue dois tipos de escolha de objeto: o tipo anaclítico (anáclise = apoio) e o tipo narcísico.
Segundo Freud, ama-se:
1)
Segundo o tipo narcísico
· O que se é (a si mesmo)
· O que se foi
· O que se quereria ser
· Alguém que foi parte do seu próprio eu.
(necessidade de amar)
2) Segundo o tipo anaclítico
· A mulher que alimenta
· O homem que protege
(necessidade de ser amado)
O nome-do-pai:
A posição do pai como simbólico não depende do fato de as pessoas haverem mais ou menos reconhecido a necessidade de uma certa seqüência de acontecimentos tão diferentes quanto um coito e um parto. A posição do Nome-do-Pai como tal, a qualidade do pai como procriador, é uma questão que se situa no nível simbólico. Pode materializar-se sob as diversas formas culturais, mas não depende como tal da forma cultural, é uma necessidade da cadeia significante. Pelo simples fato de vocês instituírem uma ordem simbólica, alguma coisa correspondente ou não à função definida pelo Nome-do-Pai, e no interior dessa função vocês colocam significações que podem ser diferentes conforme os casos, mas que de modo algum dependem de outra necessidade que não a necessidade da função paterna, à qual corresponde o Nome-do-Pai na cadeia significante.
....Ora, trata-se menos das relações pessoais entre o pai e a mãe, ou de saber se ambos estão ou não à altura, do que de um momento que tem que ser vivido como tal, e que concerne às relações não apenas da pessoa da mãe com a pessoa do pai, mas da mãe com a palavra do pai – com o pai na medida em que o que ele diz não é, de modo algum, igual a zero.
O que importa é a função na qual intervêm, primeiro, o Nome-do-Pai, o único significante do pai, segundo, a fala articulada do pai, e terceiro, a lei, considerando que o pai está numa relação mais ou menos íntima com ela. O essencial é que a mãe funde o pai como mediador daquilo que está para além da lei dela e de seu capricho, ou seja, pura e simplesmente, a lei como tal. Trata-se do pai, portanto, como Nome-do-Pai, estreitamente ligado à enunciação da lei, como todo o desenvolvimento da doutrina freudiana no-lo anuncia e promove. E é nisso que ele é ou não aceito pela criança como aquele que priva ou não priva a mãe do objeto de seu desejo.
Jacques Lacan – Seminário V
Complexo de Édipo
Três tempos de Édipo
1º. Tempo: O que a criança busca, como desejo de desejo, é poder satisfazer o desejo da mãe, isto é, ser o não ser o objeto de desejo da mãe... O sujeito se identifica especularmente com aquilo que é objeto do desejo de sua mãe. Essa é a etapa fálica primitiva, aquela em que a metáfora paterna age por si, uma vez que a primazia do falo já está instaurada no mundo pela existência do simbólico do discurso e da lei. Para agradar a mãe, ....é necessário e suficiente ser o falo. Nessa etapa, muitas coisas se detêm e se fixam num certo sentido. ...dentre elas as identificações que qualificamos de perversas.
Segundo tempo: Eu lhes disse que, no plano imaginário, o pai intervém efetivamente como privador da mãe, o que significa que a demanda endereçada ao Outro, caso transmitida como convém, será encaminhada a um tribunal superior, se assim posso me expressar.
Com efeito, aquilo sobre o qual o sujeito interroga o Outro, na medida em que ele o percorre por inteiro, sempre encontra dentro dele, sob certos aspectos, o Outro do Outro, ou seja, sua própria lei. É nesse nível que se produz o que faz com que aquilo que retorna à criança seja, pura e simplesmente, a lei do pai, tal imaginariamente concebida pelo sujeito como privador da mãe. Este é o estádio, digamos, nodal e negativo, pelo qual aquilo que desvincula o sujeito de sua identificação liga-o, ao mesmo tempo, ao primeiro aparecimento da lei, sob a forma desse fato de que a mãe é dependente de um objeto, que já não é simplesmente o objeto de seu desejo, mas um objeto que o Outro tem ou não tem.
Terceiro Tempo:
A terceira etapa é tão importante quanto a segunda, pois é dela que depende a saída do complexo de Édipo. O falo, o pai atestou dá-lo em sua condição e apenas em sua condição de portador ou de suporte, diria eu, da lei. É dele que depende a posse ou não desse falo pelo sujeito materno. Na medida em que a etapa do segundo tempo é atravessada, é preciso então, no terceiro tempo, que aquilo que o pai prometeu seja mantido. Ele pode dar ou recusar, posto que o tem, mas o fato de que ele, o pai, tem o falo, disso ele tem que dar provas. É por intervir no terceiro tempo como aquele que tem o falo, e não que o é, que se pode produzir a báscula que reinstaura a instância do falo como objeto de desejado da mãe, e não mais apenas como objeto do qual o pai pode privar.
O pai onipotente é aquele que priva. Esse é o segundo tempo. Era nesse estágio que se detinham as análises do complexo de Édipo, na época em que se achava que todas as devastações do complexo decorriam da onipotência paterna. Pensava-se apenas nesse segundo tempo, só que não se frisava que a castração exercida aí era a privação da mãe, e não do filho.
O terceiro tempo é este: o pai pode dar à mãe o que ela deseja, e pode dar porque o possui. Aqui intervém, portanto, a existência da potência no sentido genital da palavra – digamos que o pai é um pai potente. Por causa disso, a relação da mãe com o pai torna a passar para o plano real.
O terceiro lugar, o pai se revela como aquele que tem. É a saída do complexo de Édipo. Essa saída é favorável na medida em que a identificação com o pai é feita nesse terceiro tempo, no qual ele intervém como aquele que tem o falo. Essa identificação chama-se Ideal do eu.
In: Jacques Lacan, Seminário livro 5, as formações do inconsciente.
Capítulo X “Os três tempos de Édipo”.

OUTRO(S) NUM CASAMENTO

Uma conversa com Marcos José Müller, autor do recém lançado Outro(s) num Casamento. MARIA: Gostaria em primeiro lugar que você fala...