quinta-feira, novembro 26, 2009

CONVITE








Local: Café Cultura
Endereço: Praça XV de Novembro - Centro - Florianópolis-SC
Dia: 12 de Dezembro de 2009 - sábado
Horário: 18H00

clarissa alcântara – clóvis domingos 
 matheus silva – nicolas corres


Quatro performers instauram individualmente o processo de invenção de suas histórias pessoais, subtraindo sua experiência única da multiplicidade a ser constituída.

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Vamos fechar o ano com a performance do grupo de Belo Horizonte, e, no mesmo movimento, abrir nossos laços de trabalho para 2010.


segunda-feira, novembro 16, 2009



Sempre que se produz um fenômeno em dois tempos, na obsessão por exemplo, o primeiro tempo é a angústia, e o segundo é a culpa, que aplaca a angústia no registro da culpabilidade.


Jacques Lacan
O simbólico, o imaginário e o real


domingo, outubro 18, 2009

"Não"



A dificuldade de dizer não (ou sim)
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Contardo Calligaris
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DURANTE TODA minha infância, eu dizia "não" mesmo quando queria dizer "sim".

Usava o não como uma palavra de apoio, uma maneira de começar a falar. Minha mãe: "Vou sair para fazer compras; algo que você gostaria para o jantar?". Eu, enérgico: "Não", acrescentando imediatamente: "Sim, estou a fim de ovos fritos (ou sei lá o quê)".

Os adultos tentavam me corrigir: "Então, é sim ou não?". "Não, é sim", eu respondia.

Entendi esse meu hábito muito mais tarde, quando li "O Não e o Sim", de René Spitz (ed. Martins Fontes). No fim da faculdade, Spitz era um dos meus autores preferidos, o único, ao meu ver, que conciliava a psicanálise com o estudo experimental do desenvolvimento infantil. No livro, pequeno e crucial, Spitz nota que, nas crianças, o uso do "não" aparece por volta do décimo oitavo mês de vida, logo quando elas costumam falar de si na terceira pessoa, como se precisassem (e conseguissem, enfim) se enxergar como seres distintos dos outros.
Para Spitz, a aquisição da capacidade de dizer "não" é um grande evento da primeira época da vida: a conquista da primeira palavra que serve para dialogar e não só para designar um objeto.Mas, cuidado, especialmente no segundo ano de vida, o "não" teimoso da criança não significa que ela discorde do que está lhe sendo proposto ou imposto: a criança diz "não" para afirmar que, mesmo ao concordar ou obedecer, ela está exercendo sua própria vontade, a qual não se confunde com a do adulto.
Em suma, durante muito tempo, eu persisti na atitude de meus dois anos. Mais tarde, consegui me corrigir. Mas em termos; sobrou-me uma paixão pelas adversativas: mal consigo dizer "sim" sem acrescentar um "mas" que limita meu consentimento. É um jeito de dizer que aceito, mas minha aceitação não é incondicional. "Vamos ao cinema?". "Sim, mas à noite, não agora."
O uso do sim e do não, no discurso de cada um de nós, pode ser um indicador psicológico valioso.
Mas, para isso, é preciso distinguir entre "sim" e "não" "objetivos", que têm a ver com a questão da qual se trata (quero ou não tomar café ou votar nas próximas eleições), e "sim" e "não" "subjetivos", que são abstratos, ou seja, que expressam uma disposição de quem fala, quase sem levar em conta o que está sendo negado ou afirmado.
Se o "não" subjetivo é um grito de independência, o "sim" subjetivo é uma covardia, consiste em concordar para evitar os inconvenientes de uma negativa que aborreceria nosso interlocutor.
Alguns exemplos desse "sim" covarde (e, em geral, objetivamente mentiroso). "Respondeu à minha carta?" "Sim, já mandei." "Gostou de minha performance?" "Sim, adorei." "Quer me ver de novo?" "Sim, te ligo amanhã." Mas também: "Você vai assinar a petição para expulsar os judeus do ensino público?" "Claro, claro, estou assinando."
Acontece que dizer "não" é arriscado. A confusão com o outro, aquela confusão que ameaça a primeira infância e contra a qual se erguia nosso "não" abstrato e rebelde, é substituída, com o passar do tempo, por mil dependências afetivas: "Desde os meus dois anos, não sou você, não me confundo com você, existo separadamente, mas, se eu perder seu amor (sua amizade, sua simpatia, sua benevolência), quem reconhecerá que existo? Será que posso existir sem a aprovação dos outros?".
Em suma, o sim subjetivo é um consentimento abstrato (o objeto de consenso é indiferente e pode ser monstruoso), pois o que importa é agradar ao outro, não perder sua consideração. A necessidade narcisista de sermos amados nos torna covardes e nos leva a assentir.
Por sua vez, nossa covardia fomenta explosões negativas, tanto mais violentas quanto mais nossa concordância foi preguiçosa. À força de dizer "sim" para que o outro goste de mim, eu corro o perigo de me perder e, de repente, posso apelar à negação abstrata, espalhafatosa e violenta, só para mostrar que não me confundo com o outro, penso com a minha cabeça.
Bom, Spitz tinha razão, o uso do não e do sim permitem o diálogo humano. Mas é um diálogo que (sejamos otimistas) nem sempre tem a ver com as questões que estão sendo discutidas; ele tem mais a ver com uma necessidade subjetiva: digo "não" para me separar do outro ou digo "sim" para obter dele um olhar agradecido. Nos dois casos, tento apenas alimentar a ilusão de que existo.

quarta-feira, outubro 14, 2009

A Jimena nos mandou o texto do Renato Mezan, que a Mara se referiu na última aula, e que gerou várias questões sobre o discurso do Mestre.
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Perigos da obediência

Livro e filme retratam como a sociedade administrada e a manipulação da linguagem desenvolvem no indivíduo o ódio pelo outro.

RENATO MEZAN
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Teria o mês de setembro alguma afinidade secreta com a violência? Diante do número de matanças que ocorreram ou começaram nele, poderíamos brincar com a ideia: em 2001, os atentados de Nova York; em 1939, o início da Segunda Guerra; em 1970, o massacre dos palestinos na Jordânia (o "Setembro Negro"); em 1792, grassa o Terror em Paris, que deu origem aos termos "septembriser" e "septembrisade", significando "massacre de opositores" - e haveria outras a lembrar.
O primeiro transpõe para a Alemanha atual um fato que teve lugar em 1967, na cidade de Palo Alto [EUA]. Querendo mostrar a seus alunos como o fascismo se apoderou das massas nos anos 1930, um professor põe em prática um "experimento pedagógico": durante uma semana, organiza com eles o núcleo de um movimento ao qual dão o nome de "Terceira Onda".
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Nesse setembro de 2009, um filme -"A Onda" [em cartaz em SP]- e um livro -"LTI - A Linguagem do Terceiro Reich" [de Victor Klemperer, trad. Miriam Bettina Paulina Oelsner, ed. Contraponto] nos convidam a refletir sobre a facilidade e a rapidez com que a violência se alastra, fazendo com que pessoas comuns se convertam em sádicos ferozes.
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Sem lhes contar que ele só "existe" na escola, vai treinando-os com as técnicas consagradas pelo totalitarismo: exercícios de ordem unida, uniformes, adoção de um símbolo e de uma saudação etc. Os efeitos dessas coisas aparentemente inocentes não tardam a surgir: como num passe de mágica, o grupo adquire extraordinária coesão, que dá a cada integrante a sensação de ser parte de algo "grande" ou, pelo menos, maior que sua própria insignificância.
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Aparecem também aspectos menos simpáticos: intolerância contra os que se recusam a participar, desprezo, ódio e logo agressões a supostos opositores (os alunos de outra classe, que estão estudando o anarquismo, passam a ser vistos como anarquistas, e portanto inimigos). Escolhido como chefe pela garotada, o professor se identifica com o papel; rapidamente, o "experimento" foge ao controle - dele e dos próprios integrantes - e termina em tragédia: na vida real, um rapaz perde a mão tentando fabricar uma bomba caseira - o que custou a Jones sua licença para lecionar - e, no filme... bem, não vou contar o desfecho.
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Em "Psicologia das Massas e Análise do Ego", Freud desvendou os mecanismos psicológicos que nas "massas artificiais" criam a disciplina e o devotamento ao líder: instituindo-o no lugar do superego, os indivíduos que delas participam passam a obedecê-lo mais ou menos cegamente e, imaginando-se igualmente amados por ele, identificam-se uns com os outros, pois de certo modo são todos filhos do grande Pai.
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Instrumentos Nesse processo, abdicam de sua capacidade de pensar por si mesmos; compartilhando a crença na doutrina proposta pelo chefe, que geralmente divide o mundo em bons (os adeptos da "causa") e maus (todos os demais), eles a transformam em instrumento de uma dominação capaz de os arrastar a atos que, se não fizessem parte do grupo, jamais teriam coragem de praticar.
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Forças destrutivas
Muito bem dirigido e interpretado, o filme mostra como a euforia de ser membro de algo supostamente tão "poderoso", e o desejo de agradar ao líder, vão dando margem a ações cada vez mais próximas da delinquência. Tudo se justifica em nome da "causa", que no caso é nenhuma: a "Onda" não tem conteúdo, a não ser ela mesma e uma vaga solidariedade entre seus membros, que se incentivam e protegem mutuamente.
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À medida que transcorre a semana, no íntimo dos adolescentes dão-se modificações de vulto. Por um lado, eles transferem seu entusiasmo juvenil para o movimento, que desperta neles qualidades até então adormecidas: mostram-se criativos, capazes de levar a cabo projetos que exigem organização e trabalho conjunto (como, por exemplo, a montagem de uma peça de teatro).

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Por outro, a vibração dessa intensa energia como que dissolve os freios sociais e morais e libera forças destrutivas das quais não tinham consciência: ameaçam colegas, intimidam crianças, um rapaz esbofeteia a namorada que se recusa a participar do grupo, outro adquire um revólver, um terceiro tenta afogar um adversário no polo aquático...
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Nas primeiras décadas do século 20, e em escala muitíssimo maior, os mesmos fenômenos ocorreram em várias sociedades europeias. Os mais graves tiveram lugar na Alemanha, cujo führer arrastou o mundo para uma guerra que deixou dezenas de milhões de mortos e refugiados. Muito se escreveu sobre por que os alemães aceitaram seguir um demagogo enlouquecido e por 12 anos aplaudiram suas iniciativas e seus discursos delirantes, que Victor Klemperer - o autor de "LTI"- compara aos "desvarios de um criado bêbado".
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Entre os motivos que os levaram a isso, o analisado por ele se destaca como dos mais importantes: a manipulação da linguagem. O estudo da LTI -sigla de "Lingua Tertii Imperii", ou do Terceiro Reich- é uma das mais originais contribuições à compreensão do fenômeno totalitário. Examinando cartazes, livros, jornais, revistas, conversas ouvidas e discursos de dignitários do regime, Klemperer (irmão do regente Otto) mostra como uma ideologia absurda e cruel se entranhou "na carne e no sangue das massas".
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Impostas pela repetição e pelo controle absoluto dos meios de comunicação, as frases e expressões nazistas foram "aceitas mecânica e inconscientemente" pelo povo alemão, passando a moldar sua autoimagem e a justificar a barbárie, pelo método simples e eficaz de a fazer parecer natural.
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Não é possível, neste espaço, mais do que uma breve referência aos recursos de que se valeram Goebbels [o ministro da Propaganda no regime nazista] e sua corja para obter tão fantástico resultado. Numa prosa límpida, que a tradutora Miriam Oelsner restitui com fluidez e precisão, o autor vai desmontando os ardis que inventaram.
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Seu livro revela como a criação de novas palavras, o uso desmesurado de abreviações e de superlativos, a mescla de tecnicismo "moderno" e apelo ao "orgânico", o emprego de estrangeirismos bem-soantes, mas intimidadores, a ênfase declamatória, o exagero, a mentira, a calúnia e, ao mesmo tempo, a pobreza monótona de um discurso calculado para abolir toda nuança e toda reflexão se combinam para produzir alienação.
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Até as vítimas do regime empregam, sem se dar conta, termos e expressões da "língua dos vencedores"! No filme, temos vários exemplos do poder ao mesmo tempo mobilizador e mistificador da linguagem. Um deles é a explicação dada pelo professor para o exercício de marchar no lugar: "melhorar a circulação".
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Ritmo acelerado
O bater dos pés em uníssono cria um efeito de homogeneidade: a energia posta na pisada se espraia por entre os alunos, fazendo-os sentir-se parte de um só corpo e capazes de grandes feitos. O ritmo se acelera, uma expressão beatífica aparece no rosto de alguns, os olhos brilham - alguma coisa está de fato circulando, uma exaltação crescente - e, sem se darem conta, rendem-se à manipulação de que estão sendo objeto.
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(Em "O Triunfo da Vontade", Leni Riefenstahl utiliza a aceleração das respostas dos recrutas à pergunta "de onde você vem?" para sugerir que o movimento hitlerista está se expandindo irresistivelmente.) O que ambos - filme e livro - revelam sobre a capacidade do ser humano para obedecer sem questionar é confirmado por diversos experimentos científicos; para concluir essas observações, mencionemos o mais famoso deles.
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Em 1961, por ocasião do processo Eichmann, Hannah Arendt falava da "banalidade do mal": o carrasco nazista não era um monstro, mas um homenzinho insosso como tantos que existem em toda parte.
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O psicólogo Stanley Milgram decidiu por à prova a ideia de que, sob certas condições, qualquer pessoa pode agir como Eichmann: na Universidade Yale (EUA), convocou voluntários para o que ficou conhecido como Experimento de Milgram ("google it", caro leitor, e veja por si mesmo os detalhes do teste).
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Em resumo, pedia aos "instrutores" que acionassem um aparelho de dar choques a cada vez que os "sujeitos" errassem na repetição de certas palavras. A voltagem iria num crescendo, atingindo rapidamente patamares que, era-lhes dito, poderiam causar danos irreversíveis ao cérebro. A máquina, é claro, estava desligada; do outro lado da parede, o ator que representava a pessoa sendo testada permanecia incólume, apenas gritando como se estivesse de fato sendo eletrocutado.
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O objetivo do experimento não era avaliar a memória dele, mas até onde seriam capazes de ir os "instrutores". Para surpresa de Milgram, dois terços deles superaram o limiar além do qual o choque levaria a prejuízos irreparáveis.
Ao chegar ao nível perigoso, muitos se mostravam aflitos, mas cediam aos pedidos do psicólogo para prosseguir; mesmo cientes das consequências para o outro, a garantia de que nada lhes aconteceria bastava para continuarem a apertar os botões. O artigo em que Milgram discute sua experiência -cujo título tomo emprestado para estas notas- tornou-se um clássico da psicologia.
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Ela foi reproduzida em outros lugares, com outros sujeitos, por outros cientistas -sempre com resultados próximos aos da primeira vez. A conclusão do psicólogo americano merece ser citada: "A obediência consiste em que a pessoa passa a se ver como instrumento para realizar os desejos de outra e, portanto, não mais se considera responsável por seus atos. Uma vez ocorrida essa mudança essencial de ponto de vista, seguem-se todas as consequências da obediência".
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Outros experimentos, como o Experimento Prisional de Stanford, de 1971, confirmam os achados de Milgram e, a meu ver, também a análise de Freud sobre a submissão ao líder.
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Nestes tempos em que, sob os mais variados pretextos, volta-se a solicitar nossa adesão a ideais de rebanho, impõe-se meditar sobre o que em nós se curva tão facilmente à vontade de outrem. A "servidão voluntária" de que falava La Boétie nos idos de 1500 espreita nas nossas entranhas; já o sabia Wilhelm Reich, cujo alerta é hoje tão atual quanto em 1930: "O fascista está em nós".
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RENATO MEZAN é psicanalista e professor titular da Pontifícia Universidade Católica de SP. Escreve na seção "Autores", do Mais!.

quarta-feira, setembro 30, 2009

Sexta Aula


Na primeira fase de seu ensino, entre 1936 e 1949, Lacan publica vários textos cujo foco é redefinir o narcisismo freudiano a partir de sua formulação do estádio do espelho, e de apresentar uma noção de sujeito articulado com o sentido.


Em 1949, Lacan publica uma versão modificada de seu texto, O estádio do espelho como formador da função do eu, apresentado pela primeira em 1936, num Congresso de Psicanálise.

Em O estádio do espelho, a partir da observação de sua própria filha, ele descreve a experiência de uma criança, entre seis e dezoito meses de idade, frente ao espelho. Para Lacan, nesta fase, apresentada como fase do espelho, a criança – tal como no mito de Narciso – se fascina e se identifica com a sua imagem, enxergada como outra no espaço virtual que lhe apresenta o espelho.

Influenciado pela filosofia de Hegel, Lacan formaliza essa experiência empírica como paradigma da dialética do senhor e do escravo. Na fase do espelho, como em toda relação dialética, no sentido hegeliano, o que acontece no outro – o espelho – não está separado do que acontece na criança. Por isso, a imagem que o espelho devolve à criança se cristaliza como o seu eu, como a sua consciência de si, mas na posição de um mestre parasitário. Segundo Lacan, a imagem está na posição de um mestre parasitário porque, por um lado, cria a ficção de uma identidade, mas, por outro lado, esta ficção, que é o seu eu, não cumpre nenhuma função que permita a adaptação da criança ao seu meio.

Nesse período, diz Lacan, o essencial para psicanálise é a função das identificações, que constitui sua teoria antes de evidenciar a função do significante. O sujeito, durante toda a sua vida, é captado por imagens, às quais ele se identifica sucessivamente e, portanto, o seu ego é um bazar de miudezas de identificações, que podem ser contraditórias entre si.

Com a formulação do estádio do espelho, a partir da dialética do senhor e do escravo, Lacan redefine o narcisismo freudiano. De acordo com Freud - Introdução sobre o Narcisismo, 1914 - , o conceito de narcisismo designa o investimento libidinal do eu ao ser tomado como objeto pela pulsão. No início, diz Freud, o corpo da criança se encontra fragmentado em zonas de gozo, zonas essas que se satisfazem auto-eroticamente. Cada zona erótica apresenta-se uma economia isolada de satisfação e desvinculada das outras. A unidade só é conquistada numa nova ação psíquica que ”se agrega” ao auto-erotismo. Esta nova ação psíquica, que permite a passagem da fragmentação à unidade corporal, não é outra coisa senão a libidinização do eu na fase do narcisismo – narcisismo primário. Esta fase, em que o eu é tomado como objeto da pulsão sexual, dá lugar a um novo estágio, no qual a libido se desloca do eu para os objetos do mundo. Este deslocamento da libido do eu para os objetos, libido objetal, permite que o desejo seja cativado pelos objetos. Ou seja, que se estabeleça uma passagem do amor de si, narcísico, ao amor pelo outro. Mas como o que estabelece essa passagem é o deslocamento da libido do eu para o outro, o amor pelo outro ficará sempre preço as raízes do narcisismo. Amamos o nosso parceiro não por ser uma alteridade radical, mas porque equivale à nossa imagem. Amamos no outro a nossa própria imagem.

Em Lacan, o estádio do espelho é que introduz o que Freud chamou de narcisismo. Este novo ato psíquico, também em Lacan, se agrega ao auto-erotismo, de uma maneira súbita. Por isso, o estádio do espelho não responde a uma lógica evolutiva, a sua emergência implica um corte com o que antecede; e se caracteriza pelo fato da criança reconhecer a sua imagem no espelho.

Este reconhecimento é um efeito do dinamismo libidinal que a sua própria imagem produz. Mas, como adverte Lacan, devemos entender este processo, não como um mero reconhecimento, senão como uma identificação “no sentido pleno que a análise atribui a esse termo, ou seja, a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem”. (Lacan, 1998)

Por essa via, para Lacan, a identificação do sujeito com a sua imagem, na fase do espelho, não só constituirá o eu como uma projeção imaginária, como também o determinará com a função de desconhecimento. Isto se deve a que, pela imagem que o espelho lhe devolve, acredita ter uma unidade que não condiz com a prematuração de seu corpo anato-fisio-biológico, que se encontra na impotência motriz e na dependência da amamentação. Mas a característica de desconhecimento do eu não se deve simplesmente a que o eu se constitui por identificação com o outro, a que o eu é outro. A característica do eu é de desconhecimento porque, uma vez produzida à identificação com o outro, o eu desconhece a mediação do outro, ou seja, o eu acredita ser igual ao eu, e não igual ao outro que o constituiu como tal. Por isso mesmo, em seu escrito Formulações sobre a causalidade psíquica, Lacan define o desconhecimento como a loucura mais geral, por ser a loucura própria do eu.

Assim, para Lacan, o sujeito estabelece uma dialética identificatória com o seu entorno porque não sabe quem é, e por sofrer de um desraizamento instintual, não sabe o que quer. Nesta dialética, o sujeito conquista um duplo conhecimento. Por um lado, a identificação com o outro, o assumir como sua a imagem do outro, lhe permite “conhecer” quem é. E por outro lado, por se crer outro, assume como objeto de seu desejo aqueles que são objetos do desejo do outro, e isto lhe permite “conhecer” o que quer.

Por perder a matriz instintual, o ser humano não sabe o que quer, e não sabe qual é o objeto do seu desejo. Qualquer objeto pode cativar o seu desejo: a única condição para isto é que ele seja objeto do desejo do outro. Portanto, os objetos não são fixos, não são determinados instintivamente, como no animal. Isto indica que, no ser humano, o campo de força do desejo é mais autônomo que nos animais: os objetos possíveis são infinitos.

No entanto, no ser humano, a autonomia de seu desejo, em relação a seu objeto, tem um preço a ser pago. O preço que paga pela autonomia de seu desejo, Lacan o encontra na pouca realidade dos objetos. Diferentemente do instinto animal, que tem objetos fixos, insubstituíveis, com os quais o animal se satisfaz, o desejo humano só fica cativado pelos objetos que o outro deseja, mas se estes objetos deixam de ser desejados pelo outro perdem o brilho libidinal que os iluminava, apagam-se, ficando apenas o pouco de realidade constituinte.


quarta-feira, setembro 23, 2009

CONVITE


Camerata Florianópolis
Teatro Governador Pedro Ivo

  • 27 de Setembro - Domingo
  • 20H00
Sinfonia Concertante para Violino e Viola
Concerto no. 4 para Piano e Orquestra
  • Jeferson Della Rocca - Maestro
  • Alberto Andrés Heller - Piano
  • Walesca Sieczkowska - Violino
  • Paolo Finott - Viola [Italia]
Ingressos:
R$ 20,00 (Inteira)
R$ 10,00 (estudantes, idosos e Clube DC)

terça-feira, setembro 22, 2009

Quarta e Quinta Aula

Conforme Elizabeth Rudinesco, foi no convívio com Alexandre Koyré, Henry Corbin, Alexandre Kojève e Georges Bataille; que Lacan inicia-se na modernidade filosófica passando pela leitura de Husserl, Nietzsche, Hegel e Heidegger.

Entre 1933 e 1939, Alexandre Kojève, jovem filósofo russo, ministra um curso sobre a Fenomenologia do Espírito, de Hegel. Influentes autores franceses de várias áreas disciplinares participam do Curso, entre eles: Raymond Quenau e André Breton – da literatura; Maurice Merleau-Ponty, Eric Weil, Raymond Aron e Pierre Klossowski – da filosofia; Roger Caillois – da antropologia; e Jacques Lacan.

A partir de então, a teoria e a clínica lacaniana serão fortemente influenciadas pela leitura do filósofo russo, e a teoria do filosofo alemão. Sendo que um dos conceitos que mais sofreram estas influências foi, por certo, o do desejo. Não há como falar na noção de desejo em Lacan sem passar pela parábola da “dialética do senhor e do escravo”.

Regina Neri – 2005 - resume com clareza e simplicidade a parábola kojeviana da “dialética do senhor e do escravo”, de Hegel. Diz Neri: Para Hegel, o homem toma consciência de si quando não está mais alienado na apreensão dos objetos naturais, mas dirigido para algo não-natural – um outro desejo. Ele se constitui como sujeito humano desejante ou como Autoconsciência de si, no encontro com um outro eu desejante. O desejo é desejo de reconhecimento pelo outro que estaria ilustrado na dialética hegeliana do senhor e do escravo. Nessa busca de auto-reconhecimento, cada autoconsciência ameaça a vida do outro e aceita colocar em risco a sua própria vida. Nesse confronto, torna-se senhor aquele que aceita correr o risco da morte e escravo aquele que por medo, se submete ao senhor, reconhecendo-o como seu mestre. Assim, o eu só pode se constituir como autoconsciência no encontro com o outro; o eu só pode aprender-se objetivamente mediado pelo outro.

Ou seja, para que o desejo supere sua forma natural (animal) e se constitua como desejo humano, são necessárias duas condições: 1. Que o desejo se volte para um objeto não natural; 2. A existência da linguagem.

Segundo Garcia-Roza, a razão da primeira é evidente. Se o desejo animal supera momentaneamente a natureza ao negá-la, ele permanece no entanto escravizado a ela pela necessidade de satisfação. Para que o desejo se constitua como desejo humano, é necessário que ele se dirija para um objeto não-natural. Mas o único objeto não-natural é o próprio desejo, já que é um vazio.

Assim, sendo o desejo um vazio, ausência de ser, ao se voltar para um outro vazio, e apenas desta forma supera sua realidade natural, dá lugar ao surgimento de algo não-natural: o desejo de desejo.

Mas se o desejo humano é sempre desejo de outro desejo, como justificar o fato de que, enquanto homens, desejamos objetos? Hegel responde que o desejo humano volta-se para objetos na medida em que estes se constituem como objetos do desejo de outros homens. Nesta medida, ao nos apossarmos desses objetos, estamos afirmando nosso domínio sobre o desejo do outro.

Esse reconhecimento só pode ser feito pela palavra. É esta a segunda condição do desejo humano. Sem a palavra ficamos irremediavelmente aprisionados na subjetividade. A linguagem é mediação, meio necessário para o reconhecimento. É a linguagem e somente ela que possibilita a intersubjetividade. Fora da linguagem não há eu humano.

Lacan

Influenciado pela leitura de Hegel, Lacan concebe a noção de desejo como falta. Não a falta de um objeto determinado da necessidade, mas pura negatividade desprovida de objeto natural. Daí a noção do sujeito de desejo como falta-a-ser, como perda irreparável.

Por essa via, podemos entender o desejo como a negatividade do mundo narcísico: como aquilo para o que não há objeto dado e conformado de satisfação plena, como fazem parecer as imagens ideais. O desejo é sempre de outra coisa. Ele não complementa a imagem e não satisfaz plenamente as pulsões. O desejo, segundo Lacan, é a necessária relação do ser com a falta.

Para Vlademir Safatle, ao falar de desejo como pura negatividade, Lacan supõe uma potência de indeterminação. É a presença, em todo o sujeito, daquilo que não se submete integralmente à determinação identitária da unidade sintética de um Eu, que não se submete à forma positiva de um objeto finito. Ou seja, a falta própria ao desejo é, na verdade, o modo de descrição de uma potência de indeterminação e de despersonalização que habita todo sujeito e que Lacan chamará em certos momentos de infinitude.


Assim, a clínica lacaniana pode ser enunciada como uma espécie de crítica da alienação do Eu, que visa abrir espaço para o reconhecimento do desejo. No entanto, pergunta Safatle, o que pode exatamente significar “abrir espaço para o reconhecimento”de um desejo que é pura negatividade? Significa descobrir que o desejo é indiferente aos objetos aos quais se fixa, que sua natureza consiste em mudar continuamente de objeto? Significa dizer que o desejo destrói todos seus objetos, como se sua verdade fosse ser puro desejo de destruição e morte? É nesse ponto que o recurso à noção de estrutura mostra sua importância.

Lacan insiste que a Lei social que estrutura o universo simbólico não é uma lei normativa no sentido forte do termo, ou seja, uma lei que enuncia claramente o que devo fazer e quais condições devo preencher para segui-la. Essa é uma questão central que costuma gerar confusões. A Lei simplesmente organiza distinções e oposições que, em si, não teriam sentido algum.


Por exemplo, a Lei da estrutura de parentesco pode determinar topicamente vários lugares, como “filho de ...”, “pai de...”, mas esses lugares não têm em si nenhuma significação normativa, nenhuma referência estável. Por isso, nunca sei claramente o que significa, por exemplo, ser “pai de...”, mesmo tendo consciência de que ocupo atualmente tal lugar. Só posso saber o que um pai é, o que devo fazer para assumir a autoridade e enunciar a norma à condição de acreditar em certa impostura. É essa ausência de conteúdo que Lacan tem em vista ao afirmar que a Lei sociossimbólica é composta por significantes puros, que ela é uma “cadeia de significantes”.

Para Lacan, o significante puro, desprovido de referência, é a formalização mais adequada para um desejo que, por sua vez, é negatividade desprovida de objeto. Pois só um significante puro pode dar forma a um desejo que é fundamentalmente inadequado a toda figuração. Ou seja, a crítica da alienação a que se propõe Lacan deve se realizar através do desvelamento de que a verdade do desejo do sujeito é ser desejo da Lei, isso nos dois sentidos do genitivo: desejo enunciado no lugar da Lei e desejo pelo significante puro da Lei.

terça-feira, setembro 08, 2009

Segunda e Terceira aula

O desejo no ensino de Freud

Para Freud o desejo é um movimento que, frente à repetição da necessidade, procura reinvestir (recatexizar) o traço mnêmico da experiência de satisfação. Dessa definição, é possível destacar alguns termos:

Movimento: O desejo é definido como uma moção, uma força que dirige o sujeito para um fim determinado.
Essas moções do desejo fluem em direção aos objetos da realidade investindo-os de libido, num processo chamado de libidinização do objeto. Para Freud o primeiro objeto libidinizado é o Eu, dando origem ao narcisismo.
As moções do desejo podem também mudar o seu curso – sublimação -, ou serem inibidas. Quando a realidade é muito hostil - lugar de privação e frustração permanente - apresenta-se o que se pode chamar de psicose da miséria: afrouxamento dos vínculos e dos investimentos da libido em relação à realidade.

Repetição: No campo do desejo, podemos compreender a repetição como a insistência do desejo não apenas em se realizar plenamente, mas em se expressar, em ser reconhecido pelo Eu. O que se realiza no sonho é a expressão disfarçada do desejo. Continuar desejando significa continuar vivendo enquanto sujeito, pois a manutenção do desejo é a manutenção de uma fala. “O recalcado não quer se esgotar. Quer se repetir, e se repete inclusive nos traços que persistem iguais entre as várias escolhas, aparentemente tão diversas, que fazemos pela vida.”(Khel, M. Rita)

Necessidade: Em Freud a necessidade dá origem à vida psíquica. O recém- nascido, impossibilitado por sua prematuração de satisfazer suas necessidades vitais, precisa da intervenção de um adulto, resultando daí a erogenização de seu corpo, suas alucinações e fantasias.
A partir da primeira experiência de satisfação surge o que Freud chamou de Princípio do Prazer: os processos primários inconscientes. No reino do Princípio do Prazer e dos processos primários, a psique vive uma espécie de atemporalidade, de simultaneidade entre as manifestações da necessidade e a alucinação do objeto de satisfação. A primeira experiência de satisfação estabelece uma ligação - facilitação, associação - entre a imagem do objeto que proporcionou a satisfação e a imagem do movimento que permitiu a descarga.
Ou seja, a repetição da necessidade desencadeia um impulso psíquico que procurará reinvestir a imagem mnêmica do objeto, com a finalidade de reproduzir a primeira satisfação.
Quando fracassa o Princípio do Prazer – recalque – é que a criança começa a desenvolver recursos para fazer a mediação necessária entre a pulsão e a satisfação parcial da pulsão: recurso chamado de Princípio da Realidade. “É com o fracasso do Princípio do Prazer que surge a possibilidade de este recém-chegado ao mundo se tornar sujeito de uma história, que será a história das tentativas que ele fará para encontrar satisfação substitutiva para a satisfação alucinatória: a história dos embates do indivíduo com a realidade e das múltiplas anunciações do desejo, que só são possíveis se referidas aos objetos do “mundo real”.” (Khel, M. Rita)
Com o surgimento do Princípio de Realidade a criança desenvolve consciência, atenção, memória, discernimento, pensamento e ação.
Procura: Trata-se sempre de uma tentativa. Algo que busca realizar-se, e nesse processo se depara com diversos tipos de obstáculos. Obstáculos produzidos pelos conflitos psíquicos: censura, inibição, repressão, ideais; que podemos chamar de atemporais. E os obstáculos produzidos pelos códigos da cultura que habitamos. Obstáculos históricos, temporais.

Reinvestir o traço mnêmico da experiência de satisfação. O desejo não se dirige a um objeto da realidade, mas procura reinvestir uma lembrança.

Assim sendo, podemos dizer que em Freud o desejo é teorizado como algo indestrutível, impossível de satisfazer e marcado pela alteridade.

Formação de Compromisso:

Na teoria freudiana, a noção de desejo é inseparável da noção de formação de compromisso: - Sonhos, atos falhos, chistes, sintomas e lembranças encobridoras. Como o desejo é essa tendência ao impossível, essa moção sem corpo, ele precisa estabelecer um pacto ou compromisso com outras instâncias para surgir. Além disso, a divisão do psiquismo faz com que o prazer para uma instância seja desprazer para outra, pois cada qual tem diferentes interesses. Assim, o sonho é uma formação de compromisso entre o desejo pré-consciente de dormir e o desejo inconsciente; este, após transferir sua força para um pensamento pré-consciente censurado, se alia àquele.

O sintoma é uma formação de compromisso entre o desejo e sua censura, chamado por Freud de supereu. As formações de compromisso teorizadas por Freud – sonhos, atos falhos, chistes, sintomas e lembranças encobridoras – serão denominadas por Lacan de formações do inconsciente.

As formações do inconsciente – ou as formações no inconsciente – podem ser entendidas não como uma produção de um homenzinho dentro do homem que seria o inconsciente, mas como uma produção discursiva em uma Outra cena.

Mas, é preciso compreender que a Outra cena, como a expressão diz, só tem sentido se articulada com a cena. Uma “outra cena” precisa da cena para existir e só existe nesta relação. É justamente isto que faz com que, nas formações do inconsciente, o desejo, amarrado a alguns significantes, possa mudar de circuito.
O próprio da formação do inconsciente reside em uma função da passagem de uma cena para outra. Esta Outra cena será então materializada. Ela poderá ser reconstruída no trabalho analítico, com efeitos sobre o real do sintoma, pois será apreendido a partir de uma nova formação significante.






domingo, setembro 06, 2009

Primeiras Estórias



Famigerado

Guimarães Rosa

Foi de incerta feita — o evento. Quem pode esperar coisa tão sem pés nem cabeça? Eu estava em casa, o arraial sendo de todo tranqüilo. Parou-me à porta o tropel. Cheguei à janela.


Um grupo de cavaleiros. Isto é, vendo melhor: um cavaleiro rente, frente à minha porta, equiparado, exato; e, embolados, de banda, três homens a cavalo. Tudo, num relance, insolitíssimo. Tomei-me nos nervos. O cavaleiro esse — o oh-homem-oh — com cara de nenhum amigo. Sei o que é influência de fisionomia. Saíra e viera, aquele homem, para morrer em guerra. Saudou-me seco, curto pesadamente. Seu cavalo era alto, um alazão; bem arreado, ferrado, suado. E concebi grande dúvida.

Nenhum se apeava. Os outros, tristes três, mal me haviam olhado, nem olhassem para nada. Semelhavam a gente receosa, tropa desbaratada, sopitados, constrangidos coagidos, sim. Isso por isso, que o cavaleiro solerte tinha o ar de regê-los: a meio-gesto, desprezivo, intimara-os de pegarem o lugar onde agora se encostavam. Dado que a frente da minha casa reentrava, metros, da linha da rua, e dos dois lados avançava a cerca, formava-se ali um encantoável, espécie de resguardo. Valendo-se do que, o homem obrigara os outros ao ponto donde seriam menos vistos, enquanto barrava-lhes qualquer fuga; sem contar que, unidos assim, os cavalos se apertando, não dispunham de rápida mobilidade. Tudo enxergara, tomando ganho da topografia. Os três seriam seus prisioneiros, não seus sequazes. Aquele homem, para proceder da forma, só podia ser um brabo sertanejo, jagunço até na escuma do bofe. Senti que não me ficava útil dar cara amena, mostras de temeroso. Eu não tinha arma ao alcance. Tivesse, também, não adiantava. Com um pingo no i, ele me dissolvia. O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo. O medo O. O medo me miava. Convidei-o a desmontar, a entrar.

Disse de não, conquanto os costumes. Conservava-se de chapéu. Via-se que passara a descansar na sela — decerto relaxava o corpo para dar-se mais à ingente tarefa de pensar. Perguntei: respondeu-me que não estava doente, nem vindo à receita ou consulta. Sua voz se espaçava, querendo-se calma; a fala de gente de mais longe, talvez são-franciscano. Sei desse tipo de valentão que nada alardeia, sem farroma. Mas avessado, estranhão, perverso brusco, podendo desfechar com algo, de repente, por um és-não-és. Muito de macio, mentalmente, comecei a me organizar. Ele falou:
"Eu vim preguntar a vosmecê uma opinião sua explicada..."
Carregara a celha. Causava outra inquietude, sua farrusca, a catadura de canibal. Desfranziu-se, porém, quase que sorriu. Daí, desceu do cavalo; maneiro, imprevisto. Se por se cumprir do maior valor de melhores modos; por esperteza? Reteve no pulso a ponta do cabresto, o alazão era para paz. O chapéu sempre na cabeça. Um alarve. Mais os ínvios olhos. E ele era para muito. Seria de ver-se: estava em armas — e de armas alimpadas. Dava para se sentir o peso da de fogo, no cinturão, que usado baixo, para ela estar-se já ao nível justo, ademão, tanto que ele se persistia de braço direito pendido, pronto meneável. Sendo a sela, de notar-se, uma jereba papuda urucuiana, pouco de se achar, na região, pelo menos de tão boa feitura. Tudo de gente brava. Aquele propunha sangue, em suas tenções. Pequeno, mas duro, grossudo, todo em tronco de árvore. Sua máxima violência podia ser para cada momento. Tivesse aceitado de entrar e um café, calmava-me. Assim, porém, banda de fora, sem a-graças de hóspede nem surdez de paredes, tinha para um se inquietar, sem medida e sem certeza.

— "Vosmecê é que não me conhece. Damázio, dos Siqueiras... Estou vindo da Serra..."

Sobressalto. Damázio, quem dele não ouvira? O feroz de estórias de léguas, com dezenas de carregadas mortes, homem perigosíssimo. Constando também, se verdade, que de para uns anos ele se serenara — evitava o de evitar. Fie-se, porém, quem, em tais tréguas de pantera? Ali, antenasal, de mim a palmo! Continuava:

— "Saiba vosmecê que, na Serra, por o ultimamente, se compareceu um moço do Governo, rapaz meio estrondoso... Saiba que estou com ele à revelia... Cá eu não quero questão com o Governo, não estou em saúde nem idade... O rapaz, muitos acham que ele é de seu tanto esmiolado..."
Com arranco, calou-se. Como arrependido de ter começado assim, de evidente. Contra que aí estava com o fígado em más margens; pensava, pensava. Cabismeditado. Do que, se resolveu. Levantou as feições. Se é que se riu: aquela crueldade de dentes. Encarar, não me encarava, só se fito à meia esguelha. Latejava-lhe um orgulho indeciso. Redigiu seu monologar.
O que frouxo falava: de outras, diversas pessoas e coisas, da Serra, do São Ão, travados assuntos, inseqüentes, como dificultação. A conversa era para teias de aranha. Eu tinha de entender-lhe as mínimas entonações, seguir seus propósitos e silêncios. Assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele enigmava: E, pá:
— "Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmisgerado... faz-me-gerado... falmisgeraldo... familhas-gerado...?
Disse, de golpe, trazia entre dentes aquela frase. Soara com riso seco. Mas, o gesto, que se seguiu, imperava-se de toda a rudez primitiva, de sua presença dilatada. Detinha minha resposta, não queria que eu a desse de imediato. E já aí outro susto vertiginoso suspendia-me: alguém podia ter feito intriga, invencionice de atribuir-me a palavra de ofensa àquele homem; que muito, pois, que aqui ele se famanasse, vindo para exigir-me, rosto a rosto, o fatal, a vexatória satisfação?

— "Saiba vosmecê que saí ind'hoje da Serra, que vim, sem parar, essas seis léguas, expresso direto pra mor de lhe preguntar a pregunta, pelo claro..."

Se sério, se era. Transiu-se-me.

— "Lá, e por estes meios de caminho, tem nenhum ninguém ciente, nem têm o legítimo — o livro que aprende as palavras... É gente pra informação torta, por se fingirem de menos ignorâncias... Só se o padre, no São Ão, capaz, mas com padres não me dou: eles logo engambelam... A bem. Agora, se me faz mercê, vosmecê me fale, no pau da peroba, no aperfeiçoado: o que é que é, o que já lhe perguntei?"
Se simples. Se digo. Transfoi-se-me. Esses trizes:

Famigerado?
— "Sim senhor..." — e, alto, repetiu, vezes, o termo, enfim nos vermelhões da raiva, sua voz fora de foco. E já me olhava, interpelador, intimativo — apertava-me. Tinha eu que descobrir a cara. — Famigerado? Habitei preâmbulos. Bem que eu me carecia noutro ínterim, em indúcias. Como por socorro, espiei os três outros, em seus cavalos, intugidos até então, mumumudos. Mas, Damázio:
— "Vosmecê declare. Estes aí são de nada não. São da Serra. Só vieram comigo, pra testemunho..."

Só tinha de desentalar-me. O homem queria estrito o caroço: o verivérbio.
Famigerado é inóxio, é "célebre", "notório", "notável"...

— "Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não entender. Mais me diga: é desaforado? É caçoável? É de arrenegar? Farsância? Nome de ofensa?"
— Vilta nenhuma, nenhum doesto. São expressões neutras, de outros usos...
— "Pois... e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em dia-de-semana?"
Famigerado? Bem. É: "importante", que merece louvor, respeito...
— "Vosmecê agarante, pra a paz das mães, mão na Escritura?"

Se certo! Era para se empenhar a barba. Do que o diabo, então eu sincero disse:
— Olhe: eu, como o sr. me vê, com vantagens, hum, o que eu queria uma hora destas era ser famigerado — bem famigerado, o mais que pudesse!...
— "Ah, bem!..." — soltou, exultante.

Saltando na sela, ele se levantou de molas. Subiu em si, desagravava-se, num desafogaréu. Sorriu-se, outro. Satisfez aqueles três: — "Vocês podem ir, compadres. Vocês escutaram bem a boa descrição..." — e eles prestes se partiram. Só aí se chegou, beirando-me a janela, aceitava um copo d'água. Disse: — "Não há como que as grandezas machas duma pessoa instruída!" Seja que de novo, por um mero, se torvava? Disse: — "Sei lá, às vezes o melhor mesmo, pra esse moço do Governo, era ir-se embora, sei não..." Mas mais sorriu, apagara-se-lhe a inquietação. Disse: — "A gente tem cada cisma de dúvida boba, dessas desconfianças... Só pra azedar a mandioca..." Agradeceu, quis me apertar a mão. Outra vez, aceitaria de entrar em minha casa. Oh, pois. Esporou, foi-se, o alazão, não pensava no que o trouxera, tese para alto rir, e mais, o famoso assunto.

Texto extraído do livro "Primeiras Estórias".

quarta-feira, setembro 02, 2009

Referências Bibliográficas
- Curso de 2009 -
  • Castelo Branco, Guilherme, Olhar e o amor – A Ontologia de Lacan, Rio de Janeiro: Nau Ed., 1995.


Capítulo 3 – “A coisa e o desejo”

  • Derrida, Jacques, [2002] A Escritura e a Diferença, São Paulo: Ed. Perspectiva.

- “Freud e a cena da escritura”

  • Garcia-Roza, Luiz Alfredo. [1991] Introdução à Metapsicologia Freudiana 2, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

- Capítulo 3 – Impressão, Traço e Texto
- Capítulo 8 – O Desejo

  • Kaufmann, Pierre. [1996]. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

  • Lacan, Jacques. [2005]. O Seminário livro 10, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

- Capítulo 8 – A causa do desejo
  • Miller, Jacques-Alain. [1997] Lacan Elucidado: palestras no Brasil, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
- Capítulo I - O mal-entendido
  • Neri, Regina. [2005] A psicanálise e o feminino: um horizonte da modernidade, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
- Capítulo 1 - Da invenção da Razão à Crise da Razão.

Novaes, Adauto. [1990]. O Desejo, São Paulo: Companhia das Letras.

- “O Desejo da Realidade” – Maria Rita Kehl

  • Rudinesco, Elisabeth,[1994] Jacques Lacan – Esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento, São Paulo: Companhia das Letras.

- Capítulo 3: A Escola da Filosofia – Em torno de Alexandre Koyré
  • Safatle, Vladimir [2006] A paixão do Negativo - Lacan e a Dialética, São Paulo: Editora UNESP.
- Capítulo 2 - A transcendência negativa do sujeito
  • Safatle, Vladimir [2007] Lacan - São Paulo: Publifolha.

obs: No transcorrer do Curso iremos acrescentando novas referências.

  • O grupo de estudo de Fenomenologia é coordenado
por Elizia Cristina Ferreira.

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