quinta-feira, julho 24, 2008

Rascunho fenomenológico


Marcia Bianchi

Resumo:
Este artigo propõe a discussão do sujeito lírico no “Poema sujo” de Ferreira Gullar pelo viés da Fenomenologia da Percepção. A percepção merleau-pontyana propõe a noção de sujeito a partir do corpo e da linguagem, nela o sujeito é capturado pela palavra. A visibilidade, a invisibilidade, o ser de indivisão, o corpo fenomenal são alguns pontos pelos quais talvez se possa detalhar o que se passa com o olhar do Outro. Aqui o sujeito é o rebento, carnalidade da própria carne, isso ocorre à medida que ele é atravessado pela linguagem. Na reversibilidade entre o eu e o não-eu, o sujeito, reelabora signos, e, fabrica um universo que reside entre os significantes, visível ou invisível, e transita no corpo, nas cores e nos odores da intersubjetividade.

Palavras-chave: Sujeito, Fenomenologia, corpo, ser de indivisão, outro.
Introdução“Por um lado te vejo como um seio murcho/ Pelo outro como um ventre cujo umbigo pende ainda o cordão placentário”. O poema “Maçã” de Manuel Bandeira entrega ao corpo o completo abandono à arte, à Fenomenologia. Um olhar com fascínio, inacabado, entre eu e o outro, um cordão umbilical que nutre o rebento entre arte, filosofia e vida. A linguagem objetiva e a fala falante, tão bem traduzidas pelos versos: “por um lado/ por outro lado” como se a realidade objetiva fosse inevitável, como se a imbricação entre arte e vida fosse inevitável, necessária, e, que não precisa ser explicada, pois a obra de arte funda e revela sua transcendência. O corpo fenomenal a partir de sua inserção no mundo, e, de seu contínuo desdobramento encontra na alteridade sua indivisão. Essa experiência intersubjetiva ocorre como um sistema de trocas entre o corpo e o mundo, e revela um sujeito atravessado pela experiência da percepção e da linguagem. Por isso, a experiência da visão e da linguagem não se realizam pouco a pouco ou inversamente, ao contrário, elas são o próprio corpo.”Porque não estou diante do meu corpo, estou em meu corpo, sou meu próprio corpo. O corpo é, para retomar a expressão de Leibniz, a “lei eficaz” de suas mudanças. Se ainda se pode falar, na percepção do corpo próprio, de uma interpretação, seria preciso dizer que ele se interpreta a si mesmo”. (Ponty, 2006. p.208). Assim, para Merleau-Ponty o corpo não pode ser comparado apenas ao objeto físico, mas à própria obra de arte:

“Não é ao objeto físico que o corpo pode ser comparado, mas antes à obra de arte. Em um quadro ou uma peça musical, a idéia só pode comunicar-se pelo desdobramento de cores e dos sons. A análise da obra de Cézzane, se não vi seus quadros, deixa-me a escolha entre vários Cézannes possíveis, e é a percepção dos quadros que me dá o único Cézzane existente, é nela que as análises adquirem seu sentido pleno. O mesmo acontece com um poema ou com um romance, embora eles sejam feitos de palavras. Sabe-se que um poema, se comporta uma primeira significação, traduzível em prosa, leva no espírito do leitor uma segunda existência que o define enquanto poema. Assim como a fala significa não apenas pelas palavras, mas sim pelo sotaque, pelo tom pelos gestos...da mesma maneira a poesia, se por acidente é narrativa e significante, essencialmente é uma modulação da existência” ( 2006. p. 208 -9)
Por outro lado, como escrever sem explicar, sem mencionar a história, a fala falada? Como falar daquilo que “se fala há muito tempo”: uma maçã, uma gaveta, um nome, um Poema sujo. Como falar do rebento, da carne, da linguagem. Um sujeito lírico que vai para além da fragilidade da escrita. Talvez seja possível falar, então, da experiência do olhar, da percepção dos ritmos, da cores e dos odores, da ‘segunda potência da realidade objetiva’, como coloca Merleau Ponty, da linguagem que transita entre os significantes e atravessa o ser de indivisão e se desdobra na carnalidade da carne, em versos. A idéia para este sujeito nasce de uma visão fotográfica que mostra a imagem de José Ribamar Ferreira, sobre a qual repousam estas mediações. O sujeito lírico que há muito causa inquietação, estranhamento, pois há uma alteridade provocativa entre José Ribamar e Ferreira Gullar. Pode-se pensar no “sistema de trocas entre o corpo e o mundo que transita entre eu e não-eu” (Muller-Granzotto, 2007 p. 2) e que vê a cidade Buenos Aires, em 1974. Não cabe no texto dizer que ele apenas vê Buenos Aires, mas sim a própria arte. A cidade se torna perceptiva ao poeta como a natureza ao pintor, e nele provoca um alumbramento como se fosse ‘olhado’ pela cidade.E, nessa troca de alteridade radical a invisibilidade de um olhar atinge o poeta, sem que ele mesmo saiba de onde tenha partido, possibilitando o aparecimento de uma cumplicidade indeterminada. E nessa carnalidade formada por mim, pelo outro e pelo mundo Ferreira Gullar escreve o Poema sujo. É sobre alguns versos do poema que aproximo estas meditações do olhar fenomenológico, de uma existência mundana, de um rascunho.


1. Então, a linguagem não cabe no poema, não cabe no quadro. O poeta, pintor da vida moderna, se vê diante alteridade radical de reproduzir a cidade. Ela que gera o rascunho, a infinitude, o inacabado.
“_ Que faço entre coisas?
- De que me defendo?
Que importa um nome a esta hora do
Anoitecer em São Luis do Maranhão (...)
Mas que importa um nome (...)”





Que importa um nome se o sujeito está dividido entre sua consciência perceptiva e a arte, essa cumplicidade indeterminada. No entanto, é necessário falar nisso, é necessário fazer arte das coisas que ‘se fala há muito tempo’. Criar uma segunda potência para, assim, atingir uma nova dimensão de significantes. “É claro que não há somente frases feitas e que uma língua é capaz de assinalar o que ainda nunca foi visto. Mas como ela poderia se o novo não fosse feito de elementos antigos, já expressos, se não fosse inteiramente definível pelo vocabulário e pelas relações sintáticas da língua em uso? (Ponty, 2002. p. 23). Essa imbricação ocorre entre o poder vidente que habita o corpo e a sensibilidade de sentir-se entre as coisas, bem como pela importância que elas vão tecendo na vida e na arte. A poesia moderna é extremamente substantiva e plasmada no cotidiano de estar entre coisas. Há no sujeito que produz arte essa espécie de estranheza de algo que lhe é próprio, mas que ao mesmo tempo não se reduz a ele.
Desta forma, com as palavras é possível construir inúmeras possibilidades. Assim “uma língua é para nós esse aparelho fabuloso que permite exprimir um número indefinido de pensamentos ou de coisas com um número finito de signos, escolhidos de maneira a compor exatamente tudo o que se pode querer dizer de novo e comunicar-lhe a evidência das primeiras designações da coisas”.(Ponty, 2002. p. 24) . O sujeito vidente constituído pela identificação e pela diferença está entre os significantes do corpo próprio. Este corpo transita nas cores, nos odores da natureza e da vida, nas significações das coisas e da própria história. Os versos iniciais do Poema sujo dizem muito de identificação e diferença:
“ turvo turvo
A turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? Como pluma? claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
Um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as estranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
era o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bucetinha que parecia sorrir entre as folhas de
bacana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo( não como a tua boca de palavras como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti
bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?(...)”.


Muito além do ‘querer dizer de novo’ vem o sentir de novo a evidência das designações das coisas.Assim, a Filosofia reverte a visão natural do homem e esquece no pensar a função da palavra, criando novas possibilidades entre o mundo que habito, o mundo natural e o mundo histórico. É preciso uma fuga para a inversão a partir da experiência fenomenológica, e assim compor esse arranjo que traduz entre uma palavra e outra um silêncio que fala. O “Poema Sujo” é habitado por silêncios que falam muito. Silêncios escuros e claros e uma linguagem plástica“claro mais claro” que envolve o silêncio da página em branco e o gritante escuro da escrita, compondo um quadro claro/escuro. Um arranjo necessário de cores, pois claro também é o azul. Daí o outro escapa, o arranjo escapa à realidade objetiva, a arte já não é mais pura, e o azul vem fundir-se com o gato, o galo, o cavalo, o cu. As coisas fora de sua evidência objetiva, vestidas pela intersubjetividade de um corpo habitual que transcende sua imanência vidente.
A evidência de uma segunda potência não escapa ao olhar. O sujeito povoado pela percepção e por sentimentos não precisa apontar que o azul está ali, o outro sente sua presença no jogo fabuloso da linguagem e do corpo. O sujeito não pinta o quadro, não pinta o azul, não pinta o claro, não pinta o escuro, no entanto, essas cores são presenças pelo silêncio, pelo sentir, pelo invisível, pelo rastro da alteridade.
“A natureza e a pintura. Em Paul Cézanne é esse o conflito fundamental. Ele só concebe a pintura como expressão da natureza mas sabe que a natureza não é a pintura. Pintar é transformar a natureza em pintura. É negar a natureza mas não eliminá-la . A exclusão da natureza seria, para ele o fim da pintura. Em seu quadro O mar de Estanque, o azul do mar é, ainda que a imagem da água uma mancha azul. Uma mancha que seria a água. Sem alusão à água, a mancha azul não significaria nada. Desse modo a pintura é a superação dialética da natureza, isto é, uma superação que não a elimina e, sim, a transforma”.( Gullar, 2003. p. 61).
O corpo é presente, o olhar perpassa a escrita e a poesia se inunda de cores sujas para transgredir a objetividade do mundo. É preciso recuperar nos corpos visíveis os comportamentos que nele se apresentam, e, no que diz respeito à consciência “precisamos concebê-la não mais como uma consciência constituinte e como um puro ser-para-si, mas como uma consciência perceptiva, como o sujeito de um comportamento, como ser no mundo ou na existência, pois é somente assim que outrem poderá aparecer no cume do corpo fenomenal e receber essa espécie de localidade”.(Ponty, 2006. p. 470-71). A consciência perceptiva que aparece no corpo fenomenal diz respeito ao sujeito que habita o mundo, não é apenas a consciência de um puro ser-para-si. O sujeito que produz o poetar não é apenas um ser- para –si, mas um corpo fenomenal

“Não sei de que tecido é feita minha carne e essa vertigem"
que me arrasta por avenidas e vaginas entre cheiros de gás
E mijo a me consumir como um facho-corpo sem chama,
Ou dentro de um ônibus
Ou no bojo de um Boeing 707 acima do Atlântico
acima do arco-íris
perfeitamente fora
Do rigor cronológico
Sonhado”.


1.1 A espécie de “localidades" do corpo fenomenal, talvez, possa ser esse perder-se entre os corpos e as coisas. Na verdade, existe uma completude visceral entre os corpos e as coisas quase que arrastadas pela linguagem do cotidiano, porque as coisas são do cotidiano e os corpos também. Por isso a fenomenologia trata a linguagem com a evidência das primeiras designações e as ‘esgueira‘ para compor aquilo que se possa dizer de novo.






“Garfos enferrujados facas cegas cadeiras enferrujadas mesas gastas"
Balcões de quitanda pedras da Rua da Alegria beirais de casas
Cobertos de limos muros de musgos palavras ditas à mesa do
Jantar,
(...) vos esgueirais comigo, mesas velhas,
Armários obsoletos gavetas perfumadas de passado,
Dobrais comigo as esquinas do susto
E esperais esperais
Que o dia venha”.
Então o cotidiano dos garfos, cadeiras, balcões, do sujeito, dos armários, das gavetas, traduzem aquilo que Maurice Blanchot diz ser o mais difícil de descobrir: o próprio cotidiano, porque o movimento do cotidiano somos nós mesmos. Desta forma o sujeito que é feito de carne e vertigem se arrasta entre as coisas do cotidiano sendo o cotidiano e o cotidiano sendo, também o outro: eu e não eu: vos esgueirais comigo, mesas velhas,/ armários obsoletos gavetas perfumadas de passado“. O cotidiano se reduz à vida privada e não é a vida privada . O cotidiano é tudo aquilo que escapa, é atual mas é também passado. O cotidiano é suspeito. “O suspeito é essa presença fugitiva que não se deixa reconhecer”. ( Blanchot, 2007. p. 236).
“quanta coisa se perde
Nesta vidaComo se perdeu o que eles falavam ali
mastigando
misturando feijão com farinha e nacos de carne assada
e diziam coisas reais como a toalha bordada
ou a tosse da tia no quarto
e o clarão do sol morrendo a platibanda em frente à nossa
janela
tão reais que
se apagaram para sempreOu não”?
O que escapa ao sujeito enquanto ele está mastigando, misturando, pensando, resmungando, vivendo? Os pequenos nadas do cotidiano escapam em movimentos inexatos nos quais o sujeito ora aparece mergulhado no cotidiano, ora privado dele: “como se perdeu o que eles falavam”. Por isso, “o cotidiano tem esse traço essencial: não se deixa apanhar. Ele pertence à insignificância, e o insignificante é sem verdade, mas é também o lugar de toda significação possível. O cotidiano escapa”. (Blanchot, 2007. p. 237). Daí a arte ter essa proximidade tão próxima com o cotidiano, a redundância vem para assinalar como a explicação, também, pode escapar. A explicação escapa, se projeta na alteridade, na fala falada, mas deixa seu rastro na segunda potência, na mancha azul. Quando a poesia ainda não existia, mas seu rastro é presente.
“Plantas. Bichos. Cheiros. Roupas.
Olhos. Braços. Seios. Bocas.
Vidraça verde, jasmim.
Bicicleta de domingo.
Papagaios de papel.
Retreta na praça.
Luto.
Homem morto no mercado.
Sangue humano nos legumes.
Mundo sem voz. Coisa opaca.
(...)
Soube depois: fala humana, voz de
Gente, barulho escuro do corpo, intrecortado de relâmpagos”.

O campo social é uma dimensão permanente da existência, talvez até se possa desviar dele, mas nunca deixar de estar situado em relação e ele. A relação com o social é mais profunda do que qualquer outra percepção ou juízo.

”Os dois lados sempre se encontram, o cotidiano com seu lado mais aspecto sempre fastidioso, penoso e sórdido (o amorfo, o estagnante), e o cotidiano inesgotável, irrecusável, e sempre inacabado e sempre escapando às formas ou às estruturas (...) E que entre esses opostos possa haver uma certa relação de identidade é o que permite passar de um a outro, quando o espontâneo, isto é, o que subtrai as formas, o informal, torna-se o amorfo, e quando (talvez) o estagnante se confunde com a corrente da vida, que é também o próprio movimento da sociedade”. (Blanchot, 2007. p. 237).
O corpo próprio está no espetáculo visível que é o puro movimento do mundo, da sociedade. Um corpo vidente e visível em contínuo desdobramento, ser- para – si e o ser- no-mundo. Um corpo que ‘crepita’ sua verdadeira existência no mundo. Toda essa transcendência é também a sexualidade, porque é “na história sexual, concebida como a elaboração de uma forma geral de vida, podem introduzir todos os motivos psicológicos, porque não há interferência de suas causalidades e porque a vida genital está engendrada na vida sexual do sujeito”. ( Ponty, 2006. p. 219). Um pouco dessa transcendência é traduzida pelo corpo fenomenal em alguns versos do Poema sujo. O movimento e envolvimento do eu com o outro, estar dentro do outro, um perder-de-si . A percepção dessa transcendência permite lembrar que Merleau Ponty aponta o corpo como uma obra de arte.
“fazendo o sangue que faz a carne e o pensamento
e as palavras
e as mentiras
e os carinhos mais doces de mais sacanas
mais sentidos
para explodir como uma galáxia
de leite
no centro de tuas coxas no fundo
de tua noite ávida
cheiros de umbigo e de vagina
graves cheiros indecifráveis
como símbolos
do corpo
do teu corpo do meu corpo
corpo
que pode um sabre rasgar
um caco de vidro
uma navalha
meu corpo cheio de sangue
que o irriga como um continente
ou um jardim” (...).ConclusãoAssim, nesta breve meditação sobre arte e fenomenologia procurei rascunhar alguns, breves, momentos do extenso Poema sujo nos quais o olhar fenomenológico permite esta imbricação. Na verdade, parece ocorrer nos versos do poema um convite para este espetáculo, ou para este rebento. Um rebento necessário para a alteridade que é a própria arte, ou este cordão umbilical que alimenta arte e filosofia e traduz a carnalidade da própria carne. O sujeito encarnado no mundo perceptivo, o corpo fenomenal, visível e vidente, que reaprende a ver o mundo. O sujeito que transita entre os infinitos versos do poema é isso carne da própria carne, vive e sente o mundo, sua carnalidade, as coisas, a linguagem. Os fragmentos do Poema sujo, apresentados nesta breve fala, não obedecem à seqüência do poema, a escolha foi arbitrária, no entanto, respeita-se a composição poética. Resta ainda o rastro do sujeito a me perseguir, não sei ainda se ele precisa de uma definição neste “jogo insensato de escrever”. Afinal o outro sempre escapa, mesmo deixando seu rastro, assim pode escapar também uma explicação na própria intersubjetividade.

Referências Bibliográficas
[1] BANDEIRA, Manuel.Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.
[2] BLANCHOT, Maurice. A fala cotidiana. In.: A Conversa Infinita 2: a experiência limite. Tradução João Moura Jr. São Paulo: Escuta, 2007.
[3] GULLAR, Ferreira. Relâmpagos – dizer e ver. São Paulo: Cosac e Naify, 2003.
[4] ______________. Poema Sujo. In.: Toda Poesia. Rio de Janeiro: José Olimpio, 1997.
[5] LEITE, Maria. O sujeito na teoria lacaniana. www. Psicanaliselacaniana.blogspot.com
[6] MERLEAU – PONTY, Maurice. O fantasma de uma linguagem pura. In.: A prosa do mundo. Tradução Paulo Neves. São Paulo: Cosac e Naify,2002.
[7]____________________. Outrem e o mundo. In.: Fenomenologia da Percepção. Tradução Carlos Alberto Ribeiro de Moura.3.ed. São Paulo: Martins Fonte, 2006.
[8] ______________________. O corpo sexuado. In.: Fenomenologia da Percepção. Tradução Carlos Alberto Ribeiro de Moura.3.ed. São Paulo: Martins Fonte, 2006.
[9] MÜLLER - GRANZOTTO, Marcos José . Típica ou criação; o problema da universalidade a luz da teoria Merleau-pontyana da expressão. In.: Questões da filosofia contemporânea. Anderson Gonçalves, Débora Morato Pinto, Luiz Damon Santos Moutinho, Paulo Vieira Neto, Rodrigo Brandão.(Org.) . São Paulo e Curitiba. Edusp e Editora da UFPR,2006. p. 157 -170
[10] ___________________ . Merleau-Ponty e Lacan: a respeito do Outro. Texto inédito. UFSC, 2007.

Autor(es)

[1] Marcia Bianchi, Doutoranda.
Universidade Federal de Santa Catarina.
mmarbianchi@uol.com.br

quarta-feira, julho 23, 2008

“No nível do inconsciente o sujeito mente."





Lacan – Seminário - a ética da psicanálise - Livro VII


O princípio do prazer, como equilíbrio do nível de excitação presente no aparelho psíquico, fica do lado da homeostase introduzida pela articulação significante. Enquanto do lado da Coisa, do excesso, habita o além do princípio do prazer.Esta oposição entre o princípio do prazer e a Coisa aparecerá duplicada na teoria da libido. Por um lado, haverá uma libido deduzida do princípio do prazer, que é o próprio desejo como efeito da cadeia significante. Por outro lado, haverá a libido como gozo.
O inconsciente, uma vez que tem estrutura de linguagem, fará parte do registro simbólico, e se limitará ao princípio do prazer, participando desta forma, da defesa contra o real do gozo. A Coisa não tem lugar na estrutura.
É por essa concepção que Lacan não terá dificuldade de dizer que no nível do inconsciente o sujeito mente.

segunda-feira, julho 21, 2008

Conversas do Grupo

Marcia Bianchi - que escreve sua tese de doutorado na Literatura - participou e apresentou trabalho no último Congresso da Abralic. De volta a Florianópolis, me mandou um e-mail contando as suas impressões do Congresso. Transcrevo, a seguir, o e-mail da Márcia porque acredito que ele faz parte da narrativa que estamos construindo no grupo. Aproveito, ainda, para convidá-la a publicar o trabalho neste espaço.

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Maria,

Participar da Abralic foi uma experiência ótima, penso que eu mereci mesmo estar lá. Fazer novos amigos e ouvir tantos discursos filosóficos, passear pela história do sujeito pelo viés das muitas falas. Filósofos e Literatos buscando uma forma amorosa de falar de arte e poesia. Fenomenologia sartreana predominou nas muitas conferências, imbricada no discurso psicanalítico de Lacan. Gostei muito do Congresso, e, São Paulo faz bem aos sentidos.

Marcia.




sexta-feira, julho 18, 2008

Clínica Lacania

O que faz o psicanalista lacaniano?

1 - não recua diante da desesperança de sujeitos que foram sentenciados pelas contingências (na forma de sentença judicial, diagnóstico médico, encaminhamento de familiares, etc.)

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2 - acolhe (sem resignar-se nem compadecer-se) o insuportável de cada um que o procura;
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3 - intervém para esvaziar a consistência dos discursos e seus diferentes imperativos;

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4 - aposta na vitalidade da psicanálise para interpretar os discursos (familiares, médicos, pedagógicos, jurídicos e etc..) que subjugam um sujeito, inviabilizam sua existência ou fazem dela uma tragédia;

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5 - estabelece parcerias com instituições (a universidade, o judiciário, o hospital etc.) que ofereçam condições para potencializar o ato analítico, produzindo um pouco mais de satisfação como efeito;

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6 - trabalha de modo a modificar diagnósticos, prognósticos e até a direção do tratamento médico, da orientação pedagógica, da decisão judicial e muitos outros procedimentos;

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7 - reinsere, na consideração da sociedade líquida, a dimensão invariável do vivo, da sexualidade e da morte, pois sabe que, somente assim, se pode reinventar o uso do corpo e dos laços sociais;

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8 - condena à prescrição todo imperativo mortificante e toda sentença mórbida que vige sobre o sujeito, que de direito deve permanecer vivo;

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9 - coloca seu trabalho à prova da conversação, submetendo o relato de seus casos (princípios, métodos e resultados) ao escrutínio da comunidade científica e psicanalítica; e

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10 - transmite suas descobertas de modo claro e pouco ritualizado, facilitando a adesão de diferentes comunidades ao discurso psicanalítico e provocando, nesse movimento vivo, a constante reinvenção da psicanálise.
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(da jornada SAMPARIOCA, 28 de junho de 2008)

domingo, julho 13, 2008

Manoel de Barros


Estado - Nesse longo percurso, ao que parece, quase nada do menino pantaneiro se perdeu.
Manoel - Eu não mudei. Até hoje me entendo muito com as crianças. Elas são inteligentes, descobrem coisas que a gente não vê. Têm a sintaxe torta. Eu tenho em mim, sempre, um lado muito grande de brejo, de natureza. Acho que sou extraído das palavras. Os lacanianos adoram quando digo essas coisas.


Estado - Você conhece algum?
Manoel - Muitos. Eles não me deixam. Eu me correspondo há muito tempo com o M. D. Magno. Em Campo Grande, há um grupo de analistas lacanianas com quem saio uma ou duas noites por semana para tomar umas cervejas. Elas pensam que minha poesia comprova as teorias de Lacan. 


Estado - Você concorda com essa tese? 

Manoel - Só sei dizer que a palavra é o nascedouro que acaba compondo a gente. O poeta é um ser extraído das palavras. Não é a gente que faz com as palavras, são as palavras que fazem com a gente. O meu texto é isso.

Estado - E a natureza onde fica? 
Manoel - Somos parte da natureza. E, do mesmo modo, somos parte das palavras também. Quantas vezes uma palavra interrompe a gente e aparece? Quantas vezes ela se impõe sem que possamos entender por quê? Uns pensam que é mediunidade, mas é a palavra que fala em nós. Para um poeta, a palavra que se impõe é mais forte que o sentido. 

Estado - A palavra está, então, acima de tudo.

Manoel - Eu considero que, na escala dos valores humanos, o sujeito que mexe com palavras está em primeiro lugar. Recebo aqui em casa muitos poetas, e muitos maus poetas, e sempre lhes digo isso. Mesmo nos maus poetas a palavra já é uma qualidade. Só essa dedicação à gratuidade da palavra já merece meu respeito. Ser poeta é dedicar-se às inutilezas - que é como chamo as coisas inúteis.

Estado - De onde vem seu interesse particular pelos pássaros?

Manoel - Antes das palavras vem o canto puro, sem sentido, que é aquilo que está no bico dos pássaros. O canto é ágrafo, não admite escrita. Só depois dele é que as palavras aparecem. Existe uma continuidade entre o canto dos pássaros e as palavras humanas. O canto dos pássaros é uma "despalavra".

Estado - Seus poemas estão cheios, também, de insetos. Muita gente sente repulsa por insetos, você não?

Manoel - Meu impulso poético me diz que as coisas grandes devem ser desequilibradas com as pequenas. Tenho uma atração pelas coisas mínimas. O ínfimo tem sua grandeza e ela me encanta. Gosto muito das coisas desimportantes, como os insetos. Não só das coisas, mas também dos homens desimportantes, que eu chamo de "desheróis". 

Estado - Daí seu interesse por Charles Chaplin? 

Manoel - Chaplin descobriu o encanto dos vagabundos. Queria celebrar o ínfimo, o pobre coitado, o homem jogado fora, o joão-ninguém. Mas eu tomei gosto pelo desimportante lendo o Gogol, um escritor que exaltou como ninguém o homem sem valor, sem qualidade. Estou sempre relendo O Capote. A literatura do homem desqualificada, do pobre diabo, começou com Gogol.
....

Estado - No Pantanal, a natureza ainda se sobrepõe à cultura.

Manoel - É um lugar edênico. Eu diria adâmico. Está na origem do mundo. Parece que a formação geológica do Pantanal ainda não terminou. Claude Lévi-Strauss, quando o visitou, observou que seus rios não têm profundidade, não têm barrancos. O Pantanal é um lugar primário, não terminado, sem feições definitivas. É muito inquieto, muito incorreto, sem disciplina. "No Pantanal não se pode passar a régua", eu escrevi. A régua impõe limites e o Pantanal não tem limites. Tem uma estrutura aquática que não permite que ele seja modificado.

Estado - Você escreveu também: "O artista é um erro da natureza." Pode explicar isso?

Manoel - Mas eu também escrevi: "Beethoven é um erro perfeito." Logo, o erro é a perfeição. O artista é um doente, não é um homem normal. É sempre um psicótico, tem um desvio de sensibilidade, algo assim. Minha principal qualidade literária é minha visão torta do mundo - logo, minha principal qualidade literária é minha doença. Escrever que "Beethoven é um erro perfeito" é uma idéia torta, não é? Escrever que "o silêncio do mar é azul" também é uma idéia torta, porque silêncio não tem cor. E, no entanto, eu escrevi isso e as pessoas consideram. Todo artista tem um desvio lingüístico e é ele que forma seu estilo. 


Estado - O estilo é uma condenação?

Manoel - O estilo é um estigma, é uma coisa que marca. Já vem com as nuances do indivíduo. O estilo é coisa quase genética. Todo escritor surge de uma doença. Quanto mais um escritor é atingido pela anormalidade, mais seu estilo aparece.
....

Estado - Já em seu caso parece que o gozo com as palavras está acima de tudo. É isso?

Manoel - É verdade, eu gozo com as palavras. Já escrevi: "Meu gozo é no fazer." É no fazer o verso que o poeta goza. Eu tenho isso: todo verso meu, eu gozei nele. Não escrevo muito porque eu demoro muito para gozar. Eu trabalho muito em cima das palavras, bolino muito as palavras, acaricio. "Uma palavra tirou o roupão para mim", eu escrevi. E é exatamente isso o que acontece.

José Castello entrevista o poeta Manoel de Barros.
In: Jornal de Poesia

segunda-feira, julho 07, 2008

A Logosfera





Tudo aquilo que lemos ou ouvimos cobre-nos
como uma camada de forração,
cerca-nos e envolve-nos como um meio:
é a logosfera.

R. Barthes

quinta-feira, julho 03, 2008

Felicidade




"Dizemos para nós mesmos que as pessoas felizes devem estar em alguma parte. Pois bem, se vocês não tiram isso da cabeça é que não compreenderam nada da psicanálise".

(Jacques Lacan, Seminário Livro 3, aula de 11-01-1956).

sábado, junho 28, 2008

O bom uso da besteira


Longe de corresponder meramente a um estado de privação, a besteira consiste numa força positiva, estável e triunfante. O tolo é antes de tudo um opressor. Bata ligar a televisão para perceber o quanto o seu triunfo encontra-se solidamente assegurado na realidade. Pois a realidade, enquanto domínio das representações coesas, é de fato o que mais resiste, por estrutura, a todo efeito de dispersão. Por isso a besteira é inabalável, confessava a sua sobrinha um consternado Flaubert, ao comentar seu projeto de compor Bouvard e Pécuchet. Não há nenhum pensamento importante que a besteira não saiba usar, admitia o não menos desolado Ulrich, o homem sem qualidades de Robert Musil. Donde a constatação inevitável de que, para se comunicar, há que se ser um pouco besta. A razão, esclarece Jean-Claude Milner, é que todo discurso exige, da parte do sujeito, que ele fale em nome de algum laço coletivo, anestesiando-se com relação aos cortes que poderiam dissolvê-lo. Convém inclusive sabê-lo para não resistir à besteira além da medida, ao ponto de sucumbir nas manias da anacorese intelectual: "Não se deve chegar ao ponto de não suportar que haja demanda e semblant: ingenuidade cujo salário é a honra estéril e o preço, o isolamento".

"Do bom uso da besteira"
Antônio Teixeira, in: A Soberania do inútil
e outros ensaios de psicanálise e cultura,
São Paulo: Annablume,2007

quarta-feira, junho 11, 2008

Nelson Rodrigues: Fragmento




De fato, o futebol brasileiro tem tudo, menos o seu psicanalista. Cuida-se da integridade das canelas, mas ninguém se lembra de preservar a saúde interior, o delicadíssimo equilíbrio emocional do jogador. E, no entanto, vamos e venhamos: - já é tempo de atribuir-se ao craque uma alma, que talvez seja precária, talvez perecível, mas que é incontestável. (...)
(...) E aqui pergunto: - que entende de alma um técnico de futebol? Não é psicólogo, não é psicanalista, não é nem mesmo um padre. Por exemplo: - no jogo Brasil x Uruguai entendo que um Freud seria muito mais eficaz na boca do túnel do que Flávio Costa, um Zezé Moreira, um Martim Francisco. Nos Estados Unidos, não há uma Bovary, uma Kerênina que não passe, antes do adultério, no psicanalista. Pois bem: - teríamos sido campeões do mundo, naquele momento, se o escrete houvesse freqüentado, previamente, por uns cinco anos, o seu psicanalista.


Assim falou Nelson Rodrigues...
em abril de 1956.

domingo, junho 08, 2008

Dossiê Jacques Lacan - Cult






"O Sofrimento na Contemporaneidade"


O “Dossiê Jacques Lacan” elaborado pela revista Cult – junho/2008 – está de parabéns. São sete ótimos textos que transitam com delicadeza pela extensa e densa floresta conceitual desenvolvida por Lacan ao longo de seus muitos seminários e textos.


Vlademir Safatle inicia o dossiê com uma declaração que, por certo, provocará algumas querelas. Segundo Safatle, talvez seja impossível entender o início do século 21 sem passar por Lacan. “Não apenas devido à maneira com que, atualmente, conceitos seus são mobilizados para dar conta de questões maiores no interior da política, da teoria social, da filosofia, da crítica da cultura; mas também devido à maneira com que autores fundamentais para a contemporaneidade, como Michel Foucault, Gilles Deleuze, Jacques Derrida e, mais recentemente, Alain Badiou, Judith Butler, Ernesto Laclau, Slavoj Zizek construíram suas questões em confrontação e diálogo com Lacan”.

Já em “Revolução na Clínica”, Christian Ingo Lenz Dunker mostra porque a psicanálise não é uma terapia: quando a terapia termina, a análise começa.
No terceiro texto, Richard Theisen Simanke, provavelmente provocado por um dos últimos textos de Badiou, discute a antifilosofia na obra de Lacan.

Logo em seguida, Tânia River apresenta, em “Estética e descentramento do sujeito”, a influência da arte no pensamento lacaniano, e a influência do pensamento lacaniano no modo de pensar a estética contemporânea.

Em “Política, classe e singularidade”, Antônio Teixeira demonstra, com maestria, como a psicanálise pode articula a singularidade da clínica ao universal dos discursos.

O texto de Slavoj Zizek – Não existe grande Outro – fecha o dossiê em grande estilo. Para esse filósofo, com a releitura lacaniana da obra de Freud, a psicanálise continua sendo uma referência importante para nos orientar diante das inúmeras escolhas morais da atualidade.

Ao final da leitura do dossiê só nos resta gritar BRAVO, e pedir bis.

sexta-feira, junho 06, 2008

O paradoxo do sexo

Francisco Bosco escreve muito bem sobre muitos temas. Acaba de defender um doutorado em semiologia, e desponta como um grande ensaísta.
Vale a pena ler esse ensaio de Bosco
publicado na última edição da revista Cult.
O paradoxo do sexoHá, de fato, mais ou menos liberdade de acordo com as opções sexuais?
Por Francisco Bosco



Alguns acontecimentos recentes permitem apontarmos um paradoxo no modo como se pensa a sexualidade hoje, no Brasil, ou pelo menos nas suas cidades maiores e mais cosmopolitas. Vejamos os dois lados contraditórios da moeda. De um lado, têm se tornado freqüentes as declarações públicas de celebridades a respeito de sua sexualidade plenamente livre: gosto de homens, gosto de mulheres, sou bi, tri, penta, e o que mais tiver vontade de ser. Ora, do ponto de vista ético, isso está perfeito: cada um agindo de acordo com seu desejo, desde que esse desejo não interfira na liberdade do de outras pessoas. O problema, entretanto, está nessa concepção de sexualidade e, simultaneamente, na concepção de liberdade de que se faz o elogio, vinculando uma coisa à outra.
Já faz mais de um século que Freud, em seu revolucionário "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade", afirmou que entre a pulsão sexual e seu objeto não existe uma relação inata e com uma direção normal, mas sim, para usar a sua precisa metáfora, uma solda. Todo sujeito possui uma quantidade de energia sexual (libido), mas os objetos sexuais sobre os quais o sujeito investirá essa energia são independentes dela mesma. Trocando em miúdos, ninguém nasce heterossexual, homossexual, bissexual, multissexual; no princípio há apenas a libido. Isso, entretanto, não significa que a pulsão sexual de cada sujeito poderá escolher, em sua vida adulta, qualquer objeto que sua vontade determinar. A "escolha" dos objetos vai sendo determinada pela singularidade da formação do sujeito, por meio de tramas complexas, identificações, alienações constitutivas, marcas, recalques etc. Está claro que escrevi "escolha" assim, entre aspas, porque o que está em jogo tem pouco ou nada de voluntário.

Não quero com isso incorrer num fatalismo da formação da sexualidade, que determinaria para todo sempre o destino da mesma em cada sujeito. Acredito que há acontecimentos na vida que podem mudar as regras do jogo, transformando o sujeito no cerne mesmo de suas fantasias, isto é, efetuando rupturas, abrindo novos caminhos, reconfigurando sua sexualidade. Mas esses acontecimentos não são propriamente cotidianos, são raros; ou seja, a sexualidade não é um campo plenamente livre, no sentido de uma tabula rasa a se deixar escrever por escolhas conscientes, voluntárias. Mesmo um sujeito com uma sexualidade que permite uma ampla gama de escolhas de objetos é um sujeito marcado pela determinação de seu desejo. Essa possibilidade é tão singular e marcada por uma história pessoal quanto qualquer outra. Um sujeito bissexual não me parece mais livre, sob essa perspectiva, do que um heterossexual homofóbico, por exemplo.

Mas o que é ainda mais questionável é a própria concepção de liberdade que está em jogo nessa declaração de irrestrita e incondicionada liberdade de escolha objetal. Ao associar a liberdade ao poder de escolher entre uma multiplicidade ilimitada de objetos sexuais, o que parece ocorrer é uma extensão do ditame do hiperconsumo à esfera da sexualidade. No entanto todos sabemos que não somos necessariamente mais felizes por poder escolher um perfume numa loja que os tem aos milhares. Portanto fica a pergunta: haverá mesmo alguma vantagem existencial em se representar a sexualidade sob a lógica do free shop?

Liberdade sexual
Por outro lado, o episódio envolvendo o jogador Ronaldo e três travestis fez vir à tona o avesso daquela liberdade improvável: a homofobia, a hipocrisia, o machismo, o conservadorismo, em suma, o que há de pior nas representações sociais da sexualidade. Ronaldo está sendo condenado, digo, massacrado, porque pegou travestis para fazer um programa. Não nos confundamos: o massacre nada tem a ver com o possível consumo de drogas pelo jogador, com o fato de ele ter se envolvido com prostituição ou com as implicações éticas que esse ato traz à sua relação amorosa (ele está, ou estava, noivo). As pessoas que o condenam parecem autorizar o consumo ilegal de drogas, o sexo pago e a "traição" masculina (não vou entrar no mérito desses três pontos), mas se sentem aviltadas por um ídolo ter ido parar num motel com travestis.

Pior, o próprio Ronaldo faz coro aos que o julgam. A entrevista que ele concedeu ao Fantástico, no dia 4 de maio, foi um dos momentos mais deploráveis da televisão brasileira. O jogador disse inúmeras vezes estar "profundamente envergonhado" por ter cometido um "erro gravíssimo" e assegurou todos quanto à sua heterossexualidade convicta. Argumentar que, em o fazendo, Ronaldo estava pensando na manutenção de seus contratos de publicidade apenas reforça o que se deve dizer com todas as letras: Ronaldo comportou-se como um covarde, um hipócrita, e subscreveu a pressão homofóbica. Se houve "erro gravíssimo" de Ronaldo, e houve, foi esse: o de admitir uma culpa que não lhe cabe e, com isso, contribuir para a falta de liberdade sexual de nossa sociedade.

Assim verificamos o paradoxo a que o título dessa coluna se refere. De um lado - entre os "artistas", as celebridades e os "descolados" - apresenta-se uma concepção duvidosa da sexualidade e uma concepção ainda mais duvidosa da liberdade; de outro, apresenta-se uma concepção normatizante da sexualidade, que condena qualquer suposto desvio e, assim, atenta contra a liberdade da sexualidade. Em meio a isso, que idéia mais vantajosa de liberdade podemos oferecer? Já será um grande passo se conseguirmos realizar essa, de tão simples aparência: que cada sujeito possa exercer a sexualidade de acordo com seu desejo, desde que não oprima o desejo do outro.

quinta-feira, junho 05, 2008

Aula: A Constituição do Sujeito em Lacan

11ª. Aula
03 de junho de 2008


A constituição do sujeito em Lacan


Em Lacan (1979), a proposição de um Outro está intimamente ligada à discussão sobre as duas grandes operações de constituição do sujeito, tais como as podemos encontrar no seminário XI. Para dizê-las de modo sintético, são elas as operações de alienação e separação: em ambas trata-se de descrever o advento do sujeito enquanto duplo efeito de “falta” gerado pela sobreposição de dois campos distintos: o campo do ser (ou das pulsões parciais) e o campo do significante (em que propriamente encontramos a teoria lacaniana do grande Outro).
Com a noção de alienação, Lacan se propõe descrever o processo de formação do sujeito visado pela psicanálise, processo esse que coincide com a descrição da entrada da criança no mundo da linguagem. Para um infante, que ainda não “sabe” nada de si, a fome, por exemplo, não tem sentido determinado. Ela não tem correspondência com um tipo específico de alimento ou demanda intersubjetiva. Tal só vai acontecer à medida que o infante for sendo “atravessado” pela linguagem. Num primeiro “estádio”, o infante encontra, junto ao corpo daquele que lhe fala, o anteparo imaginário, na mediação do qual ela vai se constituir como um significante de sua própria unidade, de sua própria forme. Logo a seguir, entrementes, o significante dessa fome vai ser subsumido por Outro falante que, mais do que como um corpo especular, apresenta-se como um cardápio de significantes. Na mediação desse cardápio, o significante da fome adquirirá o status de finalidade, meta, enfim, sujeito. De onde se segue, para Lacan, que o sujeito é sempre um efeito da linguagem, a alienação do infante na e pela linguagem. Nas palavras de Lacan (1979, p. 187), “(o) sujeito nasce no que, no campo do Outro, surge o significante. Mas, por este fato mesmo, isto – que antes não era nada senão sujeito por vir – se coagula em significante.” A linguagem, a sua vez, é para Lacan, a primeira forma de apresentação do que seja o Outro: esse lugar em que se situa “a cadeia significante que comanda tudo o que vai poder presentificar-se como sujeito” (1979, p. 193-4).
Isso não significa que o sujeito assim parido (assim falado ou, seria o caso de dizer, assim falido) corresponda ao ser do infante. Enquanto efeito da captura do infante pelo discurso, o sujeito não coincide com o próprio ser do infante. Este resta separado, perdido, como aquilo que não pode ser significado pelo Outro. Razão pela qual, vai dizer Lacan, “a relação do sujeito com seu próprio discurso sustenta-se, portanto, em um efeito singular: o sujeito só está ali presentificado ao preço de mostrar-se ausente em seu ser” (Lacan, 1979, p. 178). Alienado na e pela linguagem, o sujeito experimenta-se como sentido, como uma interrogação para a qual o Outro pode ter uma resposta. Mas, também, experimenta-se como radicalmente inessencial, porquanto as respostas não coincidem com seu ser. De onde se segue que, sob a forma da alienação, urge um sujeito dividido, por um lado marcado por um significante (que vem do Outro e que, no Outro, sempre pode se renovar), mas também perdido, desprovido de ser, sujeito “falta-a-ser”. A bem da verdade “(d)uas faltas aqui se recobrem”, diz Lacan no Seminário XI (1979, p. 194-5): uma “é da alçada do defeito central em torno do qual gira a dialética do advento do sujeito a seu próprio ser em relação ao OUTRO – pelo fato de que o sujeito depende do significante e de que o significante está primeiro no campo do Outro. Esta falta vem retomar a outra, que é falta real, anterior, a situar no advento do vivo, quer dizer, na reprodução sexuada”.
Essa divisão, entrementes, abre a possibilidade para a segunda operação descrita por Lacan, a saber, a separação. Nela, não se trata mais de mostrar os efeitos da alienação (o sujeito e seu resto). Trata-se de fazer ver como o sujeito, não obstante persistir atrelado aos laços significantes estabelecidos no seio do grande Outro, ainda assim pode operar com esse Outro desde outro lugar, desde um lugar separado precisamente: o lugar da falta, o lugar da “falta-a-ser”. Para tal, o sujeito faz da sua falta um objeto (o objeto “pequeno a”), que assim é oferecido ao Outro como aquilo que o Outro não pode ter, desencadeando, nesse Outro, uma falta correlata. Dessa forma o sujeito não só faz de sua própria falta um objeto, quanto a reencontra no Outro, como aquilo que o Outro não pode ter. Eis aqui o desejo, que é esse comércio impossível, em que ofereço ao Outro a minha falta, para ter dele a sua falta. De onde se segue a conseqüência de que, agora, o Outro já não é mais o cardápio, o tesouro de significantes a partir do qual o sujeito emerge como “falta-a-ser”. O Outro é também ele um faltante. Tal como o sujeito, também o Outro é barrado. Nas palavras de Colette Soler (1977, p. 63), “(o) Outro implicado na separação não é o Outro implicado na alienação. É um outro aspecto do Outro, não o Outro cheio de significantes, mas ao contrário, um Outro a que falta alguma coisa”.
Esse operar com a falta, que define o sujeito na separação, não significa que Lacan aposte em algum tipo de familiaridade negativa, às avessas, entre o sujeito e seu ser, ou entre o sujeito e o ser do outro semelhante. Não se trata de ressuscitar, às avessas, o mito de Aristófanes, como se o sujeito sempre pudesse encontrar sua metade na metade do outro semelhante. Essa fantasia é apenas um efeito da cadeia simbólica em que o sujeito está alienado. Trata-se da ilusão de que possa haver um significante outro que recupere, represente, signifique aquilo que falta. Todavia, do ponto de vista daquilo que é real, daquilo que se apresenta nas pulsões parciais, o desejo é sempre um desejo de falta e o amor, uma relação impossível. Não há familiaridade entre o sujeito e o semelhante, o que talvez explique em que sentido, para Miller, a tese merleau-pontyana do co-pertencimento do sujeito e do próximo ao mesmo ser de indivisão constitua o antípoda da tese lacaniana. Em certo sentido, para Miller, a teoria merleau-pontyana da reversibilidade e a mitologia de Aristófanes compartilham o mesmo ímpeto imaginário que faz da relação intersubjetiva o emblema de nossa comunhão com a natureza.

Merleau-Ponty e Lacan: a respeito do Outro
Marcos José Muller-Granzotto

sábado, maio 10, 2008

..........................6ª. Aula ........................

...................29 de abril de 2008 ...................



O Real não é a realidade externa, material ou não, nem muito menos a realidade psíquica de Freud, constituída pela fantasia; o Real é o que subsiste a toda simbolização, é o que sempre resta, o impossível de simbolizar.
Se em Lévi-Strauss o Simbólico é o lugar da cultura, em Lacan o Simbólico não se resume a ela. Para a teoria lacaniana, o Simbólico é a rede significante, o conjunto dos significantes marcado pelo significante da falta de um significante que pudesse totalizá-lo.
O Imaginário não é a imaginação, mas o sistema dos significados ou das significações cristalizadas.

.......................O inconsciente lacaniano

“O inconsciente é estruturado como uma linguagem.”

Ao longo de sua obra, Lacan não cansa de demonstrar a convergência do registro do inconsciente com os processos de simbolização. Isto é, a conjunção do simbólico e do inconsciente. Onde Freud sublinhou a preeminência das palavras, das falas, das associações livres; Lacan formulou a hipótese do inconsciente estruturado como uma linguagem.
Em Função e Campo da Fala e da Linguagem, Lacan nos remete ao jogo do fort-da – Freud, “Além do Princípio do Prazer”, 1920 – como ilustração mais explícita do processo de acesso ao simbólico na criança, ou seja, o controle simbólico do objeto perdido.
Tal era o jogo completo observado por Freud:
“Um dia fiz uma observação que confirmou minha forma de ver. A criança tinha um carretel de madeira amarrado a um cordão. Não lhe ocorria, em nenhum momento, por exemplo, a idéia de puxá-lo para brincar de carro; lançava, porém, com grande destreza, o carretel amarrado ao cordão, por baixo da borda de sua caminha, onde este desaparecia, enquanto ele pronunciava um o-o-o-o rico em sentido; a seguir, ele retirava o carretel para fora da cama, puxando o cordão, e saudava então sua reaparição com um alegre da. Assim era o jogo completo: desaparecimento e retorno; quase só se via o primeiro ato, que era incansavelmente repetido por si só como um jogo, embora não restasse dúvida de que o maior prazer ligava-se ao segundo ato.”
Eis a interpretação que Freud lhe deu: “A interpretação do jogo não apresentava mais dificuldades. O jogo estava em relação com os importantes resultados de ordem cultural obtidos pela criança, com a renúncia pulsional que havia realizado (renúncia à satisfação da pulsão) para permitir as ausências de sua mãe sem manifestar oposição. Ela encontrava uma reparação, por assim dizer, encenando ela mesma, com os objetos a seu alcance, o mesmo desaparecimento-retorno”.
Não se pode encontrar um melhor exemplo da expressão lacaniana substituição significante do que o fort-da. O jogo infantil se constitui de um duplo processo metafórico. O carretel, como tal, já é uma metáfora da mãe: o jogo presença/ausência é outra, já que simboliza os retornos e as partidas. Por outro lado, a atividade lúdica da criança – e aí reside o mais instrutivo da observação de Freud – prova que ela inverteu completamente a situação em seu proveito.
“A considerar as coisas sem idéias preconcebidas, temos a sensação de que a criança transformou sua experiência em jogo por um outro motivo. Estava passiva, à mercê dos acontecimentos; mas eis que ao repeti-los, por mais desagradáveis que seja, como um jogo, ela assume um papel ativo”.
De fato, a criança transformou a situação, posto que de agora em diante é ela que abandona sua mãe simbolicamente. A inversão simbólica operada é a justificativa mais evidente da atualização de um processo de controle: “a criança fez-se mestre da ausência graças a uma identificação”. Era a mãe que a repelia ausentando-se; agora é ela que repele a mãe ao arremessar o carretel. Daí a jubilação intensa da criança ao descobrir seu controle da ausência do objeto perdido (a mãe). Em outras palavras, o fort-da nos indica que ela consegue doravante controlar fundamentalmente o fato de não ser mais o único e exclusivo objeto do desejo da mãe, isto é, o objeto que preenche a falta do Outro, ou seja, o falo. A criança pode então mobilizar seu desejo, como desejo de sujeito, para objetos substitutos ao objeto perdido. Mas, antes de qualquer coisa, é o advento da linguagem (o acesso ao simbólico) que irá tornar-se signo incontestável do controle simbólico do objeto perdido, através da realização da metáfora do Nome-do-Pai, sustentada pelo recalque originário
O recalque originário aparece como processo fundamentalmente estruturante e que consiste numa metaforização. Esta metaforização não é outra senão o ato mesmo da simbolização primordial da Lei, que se efetua na substituição do significante fálico pelo significante Nome-do-Pai.
Neste processo dá-se a experiência subjetiva por meio da qual a criança irá subtrair-se a uma vivência imediata, para lhe dar um substituto. É o sentido da fórmula lacaniana: “é preciso que a coisa se perca para ser representada”. A vivência imediata da criança funda-se no modo de expressão de sua captura na dialética do ser: ser o único objeto do desejo da mãe, ser o objeto que preenche sua falta, ser seu falo. Para dar um substituto a essa vivência no ser, a criança deverá aceder à dimensão do ter. Ora, aceder a tal dialética supõe que a criança esteja apta a distinguir a si própria da vivência e do substituto simbólico convocado para representá-la. Em outras palavras, a operação necessita que a criança seja conduzida a colocar-se como sujeito, e não mais apenas como objeto do desejo do Outro. O advento desse sujeito atualiza-se numa operação inaugural de linguagem, na qual a criança se esforça por designar simbolicamente sua renúncia ao objeto perdido. Tal designação só é possível se estiver fundada no recalque do significante fálico, nomeado também significante do desejo da mãe.

Inconsciente /...... Cadeia falada_____→
................S1 / ..........S2... S3........S4........S5
..................../
................recalque
................../
................./

...................................Metáfora Paterna

A metáfora Paterna – Metáfora do Nome-do-Pai – é antes de tudo uma substituição significante. O significante do desejo da mãe é recalcado – passado para baixo da barra da significação – em benefício de um significante novo: o significante Nome-do-Pai.
Operação simbólica, a metáfora do Nome-do-Pai tem valor de corte fundador do sujeito do inconsciente: o significante do desejo da mãe, proibido para sempre, persiste no estado inconsciente, porque recalcado, mas insiste em se re-presentar compulsivamente, repetitivamente. Para exprimir seu desejo impossível e reiterar sua demanda, o sujeito não tem mais outra saída senão pendurar-se na cadeia metonímia do discurso.

Nome-do-Pai.......... Desejo da mãe →→→Nome-do-Pai A
Desejo da Mãe....... Sigdo do sujeito .....................Falo
.
.............S2 ..S1 →→→→ S2 I
.............S1.. s1............ s1


......................A arbitrariedade do Signo


Aceitar a tese lacaniana de que o inconsciente é estruturado como uma linguagem corresponde a aceitar a aplicação do princípio da arbitrariedade do signo lingüístico aos conteúdos do inconsciente. A noção de arbitrariedade do signo lingüístico refere-se ao fato de que o laço que une o significante e o significado é arbitrário, isto é, não natural.
A linguagem não é uma nomenclatura. O signo lingüístico não é constituído pela união de uma coisa e um nome, mas pela união de um conceito (significado) a uma imagem acústica (significante).
Por isso mesmo, um significante só se define por outro significante, na medida em que a língua é uma estrutura de pura diferença sem termos positivos.
Se fosse possível estabelecer uma relação fixa entre o objeto e o signo, a linguagem seria transformada num mero sistema de sinais, análogo ao que podemos encontrar no mundo animal.
Este é um dos pontos que nos permite a aproximação da Vorstellung freudiana ao signo lingüístico, assim como sua equiparação ao significante lacaniano. Se a representação-coisa fosse concebida por Freud como representação de coisa, isto é, como imagem mental, representando por semelhança a coisa externa, ela seria apenas um ícone dessa realidade externa.
Mesmo no caso das representações Pcs/Cs, Freud não hesita em afirmar que seu significado decorre não da relação que a representação mantém com a coisa externa, mas da relação que ela mantém com a representação-palavra.
As representações podem conter um índice da exterioridade, mas seu caráter de significante não decorre de sua relação com a exterioridade do objeto. Se não é a coisa externa que fornece à representação seu significado, este só pode resultar da relação que cada representação mantém com as demais. Ora, quando um signo significa, não por sua relação com a coisa mas por sua relação com os demais signos, temos precisamente a característica fundamental do signo lingüístico: a arbitrariedade.

Para não incorrer no erro de simplesmente assimilar a Vorstellung freudiana – ou mesmo o significante lacaniano – ao signo lingüístico, é importante assinalar algumas distinções:
- Para Saussure, o signo lingüístico une um significado e um significante, sendo que esta união constitui uma unidade. Enquanto que, para Lacan, o significante possui uma extensão maior, abarcando significantes não lingüísticos. Para a psicanálise, um significante pode ser uma palavra, mas pode ser também um sintoma corporal, um lapso, um sonho, um gesto, um som, um silêncio.
- A articulação do significante psicanalítico com o corpo.
- Se por um lado o Vorstellung articulado com os demais Vorstellung formam uma rede significante, por outro lado ele é uma forma de presentificação da pulsão.
- Uma outra diferença importante entre a concepção psicanalítica do significante e os signo lingüístico é a implicação de sujeito, essencial à primeira e ausente no segundo. (Um significante representa um sujeito para outro significante).

Para Lacan, o inconsciente freudiano, ainda que estruturado como uma linguagem nas suas formações, é marcado por uma hiância, uma fenda, algo de não-nascido, real, impossível de simbolizar, da ordem do “não-realizado”.
Em torno desta fenda – real - que se tece a trama das representações, da Vorstellung freudiana e do significante lacaniano, segundo certas leis. Portanto, o inconsciente lacaniano não é um sistema categorial ou combinatório, sem referência a um sujeito.

O inconsciente não é uma realidade onde estariam escondidas as suas fantasias, suas tendências ocultas. Não se trata de nenhum conteúdo já dado que marque pela profundidade a subjetividade. Para Laca, o inconsciente, como simbólico, é uma exterioridade; como real, ele se faz ser, encontra-se numa zona que não é do ser nem do não-ser, zona de limbo, do vir-a-ser.

A presença de uma teoria do sujeito no pensamento lacaniano – “sujeito do inconsciente” – vai afastá-lo de Lévi-Strauss e dos demais participantes do movimento estruturalista que tendiam a subsumir o conceito de sujeito ao conceito de estrutura.



sexta-feira, maio 02, 2008

O Inconsciente: Fragmentos


O inconsciente é o capítulo de minha história que é marcado por um branco ou ocupado por uma mentira: é o capítulo censurado. Mas a verdade pode ser resgatada; na maioria das vezes, já está escrita em outro lugar. Qual seja:
- nos monumentos: e esse é meu corpo, isto é, o núcleo histérico da neurose em que o sintoma histérico mostra a estrutura de uma linguagem e se decifra como uma inscrição que, uma vez recolhida, pode ser destruída sem perda grave;
- nos documentos de arquivo, igualmente: e esses são as lembranças de minha infância, tão impenetráveis quanto eles, quando não lhes conheço a procedência;
- na evolução semântica: e isso corresponde ao estoque e às acepções do vocabulário que me é particular, bem como ao estilo de minha vida e a meu caráter;
- nas tradições também, ou seja, nas lendas que sob forma heroicizada veiculam minha história;
- nos vestígios, enfim, que conservam inevitavelmente as distorções exigidas pela reinserção do capítulo adulterado nos capítulos que o enquadram, e cujo sentido minha exegese restabelecerá.
(p.260, Escritos)Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise
Relatório de Roma
1953

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... Trata-se, pois, de definir a tópica desse inconsciente. Digo que é justamente ela que se define pelo algoritmo (p.518, Escritos)
........................................S
........................................s

... O inconsciente não é o primordial nem o instintivo e, de elementar, conhece apenas os elementos do significante. (p.526, Escritos)
... Se eu disse que o inconsciente é o discurso do Outro com maiúsculo, foi para apontar o para-além em que se ata o reconhecimento do desejo ao desejo de reconhecimento. (p.529, Escritos)
A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud
1957

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O inconsciente, a partir de Freud, é uma cadeia de significantes que em algum lugar (numa outra cena, escreve ele) se repete e insiste, para interferir nos cortes que lhe oferece o discurso efetivo e na cogitação a que ele dá forma.
Nessa fórmula, que só é nossa por ser conforme tanto ao texto freudiano quanto à experiência que ele inaugurou, o termo crucial é o significante, ressuscitado da retórica antiga pela lingüística moderna,...(p.813, Escritos)
Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano
1960
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... O inconsciente é um conceito forjado no rastro daquilo que opera para constituir o sujeito. (p.844, Escritos).... O efeito de linguagem é a causa introduzida no sujeito. Por esse efeito, ele não é causa dele mesmo, mas traz em si o germe da causa que o cinde. Pois sua causa é o significante sem o qual não haveria nenhum sujeito no real. Mas esse sujeito é o que o significante representa, e este não pode representar nada senão para um outro significante: ao que se reduz, por conseguinte, o sujeito que escuta.Com o sujeito, portanto, não se fala. Isso fala dele, e é aí que ele se apreende, e tão mais forçosamente quanto, antes de – pelo simples fato de isso se dirigir a ele – desaparecer como sujeito sob o significante em que se transforma, ele não é absolutamente nada. Mas esse nada se sustenta por seu advento, produzido agora pelo apelo, feito no Outro, ao segundo significante. (p.849, Escritos)... O registro do significante institui-se pelo fato de um significante representar um sujeito para outro significante. Essa é a estrutura, sonho, lapso e chiste, de todas as formações do inconsciente. E é também a que explica a divisão originária do sujeito. (p.854, Escritos)
Posição do inconsciente
1960-1964

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Tropeço, desfalecimento, rachadura. Numa frase pronunciada, escrita, alguma coisa se estatela. Freud fica siderado por esses fenômenos, e é neles que vai procurar o inconsciente. Ali, alguma outra coisa quer se realizar – algo que aparece como intencional, certamente, mas de uma estranha temporalidade. O que se produz nessa hiância, no sentido pelo do termo produzir-se, se apresenta como um achado. É assim, de começo, que a exploração freudiana encontra o que se passa no inconsciente.
... Ora, esse achado, uma vez que ele se apresenta, é um reachado, e mais ainda, sempre está prestes a escapar de novo, instaurando a dimensão da perda.
Para me deixar levar por uma metáfora. Eurídice duas vezes perdida, esta a imagem mais sensível que poderíamos dar, no mito, do que é a realidade de Orfeu analista com o inconsciente. (p.30)

O que, com efeito, se mostrou de começo a Freud, aos descobridores, aos que deram os primeiros passos, o que se mostra ainda a quem quer na análise acomode por um momento seu olhar ao que é propriamente da ordem do inconsciente – é que ele não é nem ser nem não-ser, mas é algo de não-realizado. ( p.34)
Se formulo que o estatuto do inconsciente é ético, e não ôntico, é precisamente porque o próprio Freud não adianta isto quando dá seu estatuto ao inconsciente. (p.37)
Seminário – livro 11 – os quatro conceitos fundamentais da psicanálise
1964

segunda-feira, abril 28, 2008

Merleau-Ponty e Psicanálise


Marcado pela herança filosófica de Husserl e procurando se deslocar dos impasses teóricos colocados pela filosofia da consciência, Merleau-Ponty indicou desde o início de seu percurso a necessidade de tematizar a abertura originária da consciência para o mundo e para o outro. Nesse contexto, o estudo da percepção ocupou um lugar central em sua pesquisa. Apesar de a categoria de consciência implicar a idéia de intenção da fenomenologia de Husserl, isto é, a consciência ser sempre consciência de algo que a transcende e estar inserida num corpo, a consciência ainda é o campo da referência fundamental da fenomenologia de Merleau-Ponty. Vale dizer, mesmo sendo consciência perceptiva, ainda é no campo da consciência que se realizam as indagações teóricas de Merleau-Ponty. A categoria de inconsciente não poderia ter lugar nesta concepção filosófica, de maneira que, no momento inaugural deste discurso, o pensamento freudiano foi criticado em seu fundamento, sendo considerado um modelo mecanicista de psicologia.

Entretanto, no desenvolvimento de seu percurso, Merleau-Ponty realizou uma aproximação efetiva com o discurso freudiano, conferindo um lugar consistente ao conceito de inconsciente. Passou, então, a tematizar o corpo como “carne”, de forma que o registro do inconsciente passou a ser identificado ao “sentir” mesmo da coisa, pelo corpo do sujeito. O que implicou a transformação fundamental do cogito cartesiano no pensamento de Merleau-Ponty, que do “eu penso” de Descartes se transformou no “eu quero”, nessa ontologia do corpo. Enfim, o inconsciente foi tematizado no registro do desejo, na apropriação sensível e erótica, pelo corpo, das coisas constitutivas do mundo.



Joel Birman, in: Psicanálise, Ciência e Cultura.

segunda-feira, abril 14, 2008

O Inconsciente Freudiano

3ª. Aula

O inconsciente freudiano


Ao criar a noção do inconsciente, Freud delimitou desde 1895 – Projeto para uma Psicologia Científica – a idéia de uma tópica psíquica estruturada segundo um modo plurissistêmico, com articulações e interferências intra e intersistêmicas de uma sutileza que ele não cessará de precisar no prolongamento de sua obra.
Processos psíquicos do ponto de vista Sistemático

Concepção Tópica: Supõe uma diferenciação do aparelho psíquico num certo número de sistemas dotados de características ou funções diferentes e dispostos numa certa ordem uns relativamente aos outros, o que permite considerar metaforicamente como lugares psíquicos de que podemos fornecer uma representação figurada espacialmente.
Dimensão Dinâmica: Considera os fenômenos psíquicos como resultantes do conflito e de composição de forças.
O inconsciente exerce uma ação permanente, exigindo uma força contrária, igualmente de forma permanente, para lhe interditar o acesso à consciência.
O caráter dinâmico pode ser ilustrado pela noção de “formações de compromisso”, que devem a sua consistência ao fato de ser mantidas ao mesmo tempo dos dois lados. (Sintomas, Sonhos)
Função Econômica: Hipótese segundo a qual os processos psíquicos consistem na circulação e repartição de uma energia quantificável, isto é, susceptível de aumento, de diminuição e de equivalências.

Estimulos (int/ext) Percepção↗/___/_/_/_______/↘ Motilidade

Percepção→→→Traços de percepção→→→inconscinte
→→→
pré-consciência→→→Consciência

Toda a nossa atividade psíquica inicia-se a partir de estímulos (interno ou externo) e termina em enervações. Por conseguinte, atribuímos uma extremidade sensória e uma extremidade motora ao aparelho.
O sistema perceptivo recebe os estímulos sensórios, mas não os registra nem os associa, isso porque ele necessita ficar permanentemente aberto aos novos estímulos.
As funções de armazenamento e de associação ficam reservadas aos vários sistemas mnêmicos que recebem as excitações do sistema perceptivo e as transforma em traços “permanentes”.


A experiência de satisfação produz um traço mnêmico que é a imagem (sensorial) do objeto que proporciona a satisfação.

imagens mnêmicas/imagens sensoriais
traços de memória/traços mnêmicos


Sistema Inconsciente
Processo primário – energia livre – princípio do prazer.
Comparado ao Pcs/Cs, o Inconsciente se caracteriza por uma grande mobilidade das intensidades de investimento, e que, do ponto de vista econômico, corresponde à livre circulação de energia de uma representação para outra. Essa circulação não se faz de forma anárquica, mas segundo as leis da condensação e do deslocamento. Pelo deslocamento, uma representação pode receber de uma outra toda a sua carga de investimento, e pela condensação ela pode receber o investimento de várias outras representações.
Portanto, condensação e deslocamento correspondem ao modo de funcionamento do processo primário, característico do sistema Ics.


Sistema Pré-Consciente/Consciente.
Processo secundário – energia ligada – princípio da realidade.
O sistema Pcs/Cs, funciona segundo o processo secundário, cuja característica é um investimento mais estável das representações, acompanhado do investimento do eu e por uma inibição dos processos primários.
Ou seja, enquanto os processos Ics procuram satisfação pelo caminho mais curto e direto, os processos Pcs/Cs, regulados pelo princípio de realidade, são obrigados a desvios e adiamentos na busca de satisfação.

Vorstellung = representação = imagem/traço
Affekt = afeto = intensidade/investimento.
Triebrepräsentanz = representante pulsional:
Instituído pela ação do recalcamento, o inconsciente é, de fato, constituído por representações da pulsão que querem descarregar seu investimento, portanto por moções de desejo. Essas moções pulsionais são corrdenadas umas às outras, persistem umas ao lado das outras sem se influenciar reciprocamente e não se contradizem entre si.
A representação-objeto não é a representação de um objeto externo existente no mundo, não é a coisa (Ding) do mundo que fornece à representação-objeto sua unidade e seu conceito (cadeira, mesa, pessoa, etc); o que a coisa externa fornece são “associações de objeto”, isto é, imagens elementares visuais, acústicas, táteis etc, que, a partir da relação com as representações-palavra, irão formar o objeto.
Vorstellungsrepräsentanz = representante da representação
Representante + afeto = traço + investimento
.

Freud não é um gestaltista; a percepção não capta estruturas, algo já organizado, mas sim elementos sensoriais dispersos que serão posteriormente organizados. Como o aparelho recebe impressões elementares, atomísticas, ao invés de receber gestalten, formas, e como os traços mnêmicos são traços de impressões, os primeiros sistemas são constituídos apenas por imagens elementares, exatamente as que serão reativadas quando do funcionamento regressivo do aparelho. (trabalho onírico)
Se todo traço é traço de uma impressão, quando houver simultaneidade ou semelhança de impressões perceptivas, haverá conexão dos traços. É o que Freud chama de associação, ou cadeia associativa.

O inconsciente não conhece nem o tempo (as diferenças passado/presente/futuro estão abolidas), nem a contradição, nem a exclusão induzida pela negação, nem a alternativa, nem a dúvida, nem a diferença dos sexos. Substitui a realidade externa pela realidade psíquica. Obedece a regras próprias que desconhecem as relações lógicas conscientes de não-contradição e de causa e efeito, que nos são habituais. Uma inscrição inconsciente pode persistir e se mostrar sempre ativa, ressurgindo sob uma forma travestida.
Só tomamos conhecimento do inconsciente por suas “formações” (Lacan), ou seja, o não dito significativo do branco do esquecimento, um dizer surgido dos sonhos, chistes, atos falhos, uma escrita: tudo aquilo que constitui sintoma no modo do compromisso surpreendente e que constitui “alíngua” (Lacan), e em que, sob forma da matáfora/metonímia, a verdade do desejo insiste e se repete em múltiplas demandas.

RecalqueFreud concebe o recalque como um mecanismo que opera na linha divisória entre os sistemas Ics e Pcs/Cs e, mais ainda, ele o concebe inicialmente como uma atividade do segundo sistema sobre o primeiro. Sendo assim, antes da clivagem da subjetividade em dois sistemas distintos, não podemos falar em recalque.

A passagem do conteúdo inconsciente para a consciência não é da ordem da transcrição, mas da tradução. O pensamento consciente na sua secundariedade é original e irredutível.

A pulsãoA pulsão é uma força (drang) que necessita ser submetida a um trabalho de ligação e simbolização para que possa se inscrever no psiquismo propriamente dito.

1900 – A Interpretação de Sonhos - Cap. 7 – Freud utiliza a noção de apoio. As pulsões se apóiam no instinto não para confundir-se com ele, mas para desviar-se dele. Ou seja, a pulsão é, fundamentalmente, a perversão do instinto.
O instinto é um padrão fixo de conduta.
A pulsão é um impulso anárquico.



segunda-feira, abril 07, 2008

Professor Denilson Lopes convida:
O Núcleo de Cultura e Tecnologia da Imagem (N-Imagem) da Universidade Federal do Rio de Janeiro e a MP2 Produções estarão lançando, no dia 11 de abril de 2008, no Fórum de Ciência e Cultura da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Salão Moniz Aragão, Av. Pasteur 250, Praia Vermelha) o DVD contendo toda a obra em vídeo da artista Letícia Parente.
Letícia Parente nasceu em Salvador, em 1930, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1991. Doutora em química, professora titular da Universidade Federal do Ceará e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, foi uma das pioneiras das novas mídias no Brasil (xérox, arte postal, vídeo arte). Entre 1975 e 2008, participou das mais importantes manifestações de vídeo arte no Brasil e no exterior. Seu vídeo Marca Registrada (1975) tornou-se um emblema da vídeo arte no país.
Depois de um longo trabalho de pesquisa e restauração, patrocinado pela Petrobras por meio do seu programa Petrobrás Cultural - Memória das artes (2006), 11 DVDs de Letícia serão exibidos e distribuídos para centros culturais, museus, escolas de cinema, comunicação e arte, bem como bibliotecas de referência no Brasil.
O evento de lançamento se dividirá em dois momentos. A partir das 13 horas haverá um ciclo de palestras: às 13 horas teremos a palestra da professora Kátia Maciel(Pesquisadora e artista de novas mídias, ECO-UFRJ) intitulada "A Casa", que discorrerá sobre da importância, para a obra da artista, do espaço de uma espécie de casa relacional constituída de espaços e objetos, de gestos e subjetividades múltiplas; às 15 horas, o professor André Parente (Pesquisador e artista de novas mídias UFRJ - idealizador do projeto do DVD) fará uma palestra intitulada "Vídeo e memória", na qual destacará o papel de Letícia como uma das pioneiras das novas mídias no Brasil; às 17 horas, Cláudio da Costa(Professor de Estética e Teoria da Arte do Instituto de Artes - UERJ) realizará uma palestra intitulada "Letícia Parente: a vídeo arte como prática da divergência", na qual situará o trabalho de Letícia face a questão do corpo, uma das questões seminais da arte contemporânea.
Após as palestras, haverá o lançamento do DVD com projeção dos vídeos de Letícia Parente.
PARA MAIS INFORMAÇÕES, SEGUE ABAIXO BIOGRAFIA, SINOPSES DOS VÍDEOS E CRÉDITOS DO DVD
Biografia
Letícia Parente nasceu em Salvador, em 1930, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1991. Doutora em química, professora titular da Universidade Federal do Ceará e da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, foi uma das pioneiras da videoarte brasileira, tendo participado, entre 1975 e 1991, das mais importantes mostras de videoarte no Brasil e no exterior. Seu vídeo Marca Registrada (1975) tornou-se um emblema da videoarte no país. Entre 1970 e 1991, realizou pinturas, gravuras, objetos, fotografias, audiovisuais, arte postal e xerox, vídeos e instalações, nos quais predominam a dimensão experimental e conceitual. Em 1973, fez sua primeira exposição individual, com pinturas e gravuras, no Museu de Arte Contemporânea de Fortaleza. Em 1976, realizou a primeira exposição de arte e ciência no Brasil com a instalação Medidas, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Em 1981, participou da 16ª Bienal Internacional de São Paulo com um trabalho de arte postal e vídeo. Publicou vários livros, entre eles, um livro de filosofia da ciência, Bachelard e a Química (1990).
Sinopses dos vídeos:
PREPARAÇÃO I (1975, 3 min 30 seg, Porta-pack)
A artista chega diante do espelho para se preparar para sair. Cola esparadrapo sobre a boca e os olhos. Desenha sobre eles olhos e boca. Em seguida, ajeita o cabelo, pega a bolsa e sai.
MARCA REGISTRADA (1975, 10 min 30 seg, Porta-pack)
A autora costura, sobre a sola do pé, com agulha e linha preta, a inscrição "MADE IN BRASIL".
IN (1975, 1 min 20 seg, Porta-pack)
A artista entra no seu próprio armário vazio e se pendura, pelos ombros, no cabide. Em seguida, fecha a porta do armário.
PREPARAÇÃO II (1976, 7 min 40 seg, Porta-pack)
A artista aplica em si mesma quatro injeções. Após cada aplicação, são escritos dizeres em uma ficha de controle sanitário internacional para a saída do país: "anticolonialismo cultural"; "anti-racismo"; "anti-mistificação política"; e "anti-mistificação da arte".
QUEM PISCOU PRIMEIRO (1978, 1 min 10 seg, Porta-pack)
Duas pessoas (André e Angela Parente) sentadas, diante da câmera, se observam para ver quem pisca primeiro. Em um determinado momento dão o jogo por encerrado... Mas quem piscou primeiro?
ESPECULAR (1978, 1 min 50 seg, Porta-pack)
Duas pessoas, sentadas no chão, uma defronte da outra, estão ligadas por uma espécie de estetoscópio duplo, de modo que os tubos que saem dos ouvidos de cada uma se ligam no meio por meio de um tubo comum. Elas estabelecem um diálogo especular.
O HOMEM DO BRAÇO E O BRAÇO DO HOMEM (em co-autoria com André Parente - 1978, 6 min, Porta-pack)
Vê-se a imagem de um anúncio de uma academia de ginástica, em neon, de um corpo de homem da cintura para cima, exercitando o braço. Em seguida, vê-se um homem de torso nu, da cintura para cima, movimentando o braço da mesma forma. À medida que o gesto se repete, o homem demonstra fadiga e não sustenta o ritmo do movimento.
DE AFLICTI - ORA PRO NOBIS (1979, 3 min 50 seg, minutos, Porta-pack)
Aparecem, sucessivamente, em imagens fixas, gestos de mãos e pés entrelaçados, contraídos e contorcidos. Cada imagem surge do escuro e depois se dissolve no escuro. Uma voz reza uma litania: ORA PRO NOBIS. O ritmo é como o fechar e abrir de um olho, convocado pela invocação.
NORDESTE (1981, 1 min 50 sec, Betamax)
Uma mala de couro rústica é arrastada pela autora até o centro do campo visual. A mala é aberta e vê-se dentro dela duas cobras vivas sobre um lençol branco. A artista procura retirar o lençol sem ser atingida pelas cobras. Ao retirá-lo, fecha a mala e abraça-se com o mesmo.
TAREFA I (1982, 2 min, Betamax)
A artista deita-se sobre uma tábua de passar e alguém passa roupa a ferro (com a artista dentro da roupa).
TELEFONE-SEM-FIO (em co-autoria com o grupo - 1976, 13 min, Porta-pack) O grupo de artistas, autores do vídeo (Ana Vitória Mussi, Anna Bella Geiger, Fernando Cocchiarale, Ivens Machado, Letícia Parente, Miriam Danowski, Paulo Herkenhoff, Sônia Andrade), brinca de telefone-sem-fio, fazendo a mensagem passar de ouvido a ouvido e observando a deformação que ela sofre.
MARCA REGISTRADA – Versão Colorida (1980, 10 min 30 seg, Betamax)
A autora costura, sobre a sola do pé, com agulha e linha preta, a inscrição "MADE IN BRASIL".
Créditos:
Conceito e Direção: André Parente
Assistente: Natalia Klein
Edição de Vídeos e Autoração: Swami Guimarães
Projeto Gráfico: Estúdio Márcia Cabral
Prensagem DVD: Sonopress
Impressão: Zen
Serigrafia Produção: MP2 Produções
Realização: N-Imagem (Núcleo de Tecnologia da Imagem da Escola de Comunicação da UFRJ)
Apoio: Allternativa Filme X, Estúdios Márcia Cabral, Itaú Cultural, Canal Contemporâneo, Forum de Ciência e Cultura.
Agradecimentos: Nilton Cacheado, Aída Marques, Márcia Cabral, Chaim Litewski, Roberto Moreira Cruz, Katia Maciel, Anna Bella Geiger, Sonia Andrade, Ivens Machado, Fernando Cocchiarale, Paulo Herkenhoff, Miriam Danowski, Ana Vitória Mussi, Lia Parente, Cristiana Parente, Pedro Parente, Angela Parente, Lucas Parente, Júlio Parente, Daniela Bousso, Angela Santos, Swami Guimarães.
Patrocínio: Petrobrás

quinta-feira, abril 03, 2008

Aula: Introdução ao estudo de Lacan

Segunda Aula
01 de abril de 2008
Jacques Lacan:

Os pais:
Émilie Philippine Marie Baudry e
Charles Marie Alfred Lacan.
(Descendentes de prósperos comerciantes e católicos fervorosos.)

Os irmãos
O casal, Émile e Charles, teve quatro filhos:
1º. Jacques-Marie Émile Lacan (13 de abril de 1901 - 9 de setembro de 1981)
2º. Raymond (faleceu aos dois anos)
3º. Madeleine (casada, em 1925, foi viver na Indochina)
4º. Marc-Marie (Marc-François) – monge beneditino (ordenado em maio de 1935)

A medicina:
Entre 1927 e 1931, estudou a clínica das doenças mentais e do encéfalo no hospital Sainte-Anne, e estagiou na enfermaria especial da Chefatura de Política, para onde eram levados com urgência os indivíduos “perigosos”.
“Ele participava, na cantina da sala de plantão, junto com alguns colegas, da aristocracia dos candidatos à chefia da clínica. Fazia suas refeições à ‘mesinha’ animada por Henri Ey, onde se empregava o vocabulário elegante da fenomenologia e se via com desprezo o velho organicismo de Édouard Toulouse.”

Os mestres da psiquiatria:
Durante sua formação psiquiátrica, três mestres muito diferentes deixaram em Lacan uma marca importante:
Georges Dumas: Titular da cadeira de psicopatologia da Sorbonne, foi um terrível adversário da psicanálise.
Henri Claude: Grande rival de G. Dumas, de quem rejeitava o antifreudismo, Henri Claude foi Chefe da clínica de doenças mentais no Hospital Saint-Anne.
Gaëtan Gatian de Clérambault: Médico-chefe da enfermaria especial dos alienados da Chefatura de Polícia até 1934, ano em que se suicidou. Clérambault é lembrado pela paixão pelos tecidos, pelos debruns e as pregas e por sua teoria da erotomania.


A tese: O caso Aimée
Aimée = Marguerite Pantaine
Desde 1931, Lacan começa a efetuar uma síntese, a partir da paranóia, de três domínios do saber: a clínica psiquiátrica, a doutrina freudiana e o segundo surrealismo. Essa síntese, que se apoiava sobre um notável conhecimento de filosofia – Spinoza, Jaspers, Nietzsche, Husserl e Bergson -, lhe permitirá elaborar a tese de medicina, que será sua grande obra da juventude.
Seu trabalho representava uma ruptura com os trabalhos dos psiquiatras franceses da época, que viam na psicose paranóica um agravamento dos traços que definiam o caráter paranóico.
Da descrição fenomenológica exaustiva de um caso, sua tese, dirá Lacan, levou-o à psicanálise; o único meio de determinar as condições subjetivas da prevalência do duplo na constituição do eu.
Numa grande síntese de todas as aspirações freudianas e anti-organicistas da nova geração psiquiátrica francesa dos anos 1920, esse trabalho foi imediatamente considerado uma obra-prima por René Crevel, Salvador Dali e Paul Nizan. Que apreciaram, principalmente, a utilização feita por Lacan dos textos romanescos da paciente e da força doutrinária de sua posição quanto à loucura feminina.
- Em 1933, Lacan defende sua tese: “Da Psicose Paranóica em suas relações com a Personalidade”.

O primeiro casamento:
Em 1934, casou-se com Marie-Louise Blondin (1906-1983), irmã de seu amigo Sylvain Blondin, apelidada Malou. Desde o início, o casamento foi desastroso. Malou acredita ter-se casado com um homem perfeito, cuja fidelidade conjugal estaria à altura de seus sonhos de felicidade. Ora, Lacan não era esse homem, nem nunca seria. Três filhos nasceram: Caroline, Thibaut, Sibylle.


O amor por Sylvia:
Em 1937, apaixonou-se por Sylvia Maklès-Bataille (1908-1993). Separada nessa época de Georges Bataille, mas continuando a ser sua esposa. Sylvia era mãe de uma menina, Laurence Bataille (1930-1986), que se tornaria uma notável psicanalista.
Quando a segunda guerra começou, Sylvia Bataille se refugiou na chamada “zona livre”. A cada quinze dias, Lacan a visitava. Em Paris, ele interrompeu toda sua atividade pública, recebendo apenas sua clientela particular. Sem pertencer à Resistência, manifestou claramente hostilidade a todas as formas de anti-semitismo. Entretanto, era principalmente com sua vida privada que ele se preocupava durante os dois primeiros anos de guerra. Em setembro de 1940, Lacan encontrou-se em uma situação insustentável. Anunciou à sua mulher legítima, que estava grávida de oito meses, que Sylvia, sua companheira, também esperava um filho. Malou pediu o divórcio imediatamente e foi em plena crise de depressão que deu à luz, a 26 de novembro, uma menina à qual deu o nome de Sibylle.
Oito meses depois, em 3 de julho de 1941, Sylvia deu à luz a quarta filha de Lacan, Judith. Judith foi registrada com o sobrenome de Bataille.
No início do ano de 1941, Lacan instalou-se na rue de Lille nº5. Ficaria ali até a morte. Em 1943 Sylvia se instalou no nº3 da mesma rua com suas duas filhas, Laurence e Judith. Em julho de 1953, divorciada de Georges Bataille desde agosto de 1946, casou-se com Lacan.



A Instituição Psicanalítica: o percurso de Lacan.
- Em 1910, Freud patrocinou a criação de uma Associação Internacional de Psicanálise - International Psychoanalytical Association (IPA) -, para congregar as sociedades psicanalíticas existentes, normatizar a formação dos psicanalistas e evitar distorções e descaminhos na psicanálise, com a expansão de sua prática.
Atualmente sediada em Londres, a IPA é o organismo que coordena todo o movimento psicanalítico mundial.

- Em 1926 foi criada a Sociedade Psicanalítica de Paris – SPP (uma sociedade filiada a IPA).

- Em 1934, aos 33 anos, Lacan pede sua filiação a Sociedade Psicanalista de Paris:

- De 1932 a 1938. Lacan faz analise com Rudolf Loewenstein.

Na SPP, Lacan atraiu muitos alunos, fascinados pelo seu ensino e desejosos de romper com o freudismo acadêmico da primeira geração francesa. Começou então a ser reconhecido ao mesmo tempo como didata e como clínico.
A partir de 1936, Lacan iniciou-se na filosofia hegeliana, através dos seminários que Alexandre Kojève (1902-1968) dedicou à “Fenomenologia do espírito”. E na filosofia de Husserl, através dos seminários de Alexandre Koyré (1892-1964).

- 1953 – primeira cisão.
O motivo do rompimento foi à decisão tomada pela Sociedade Parisiense de fundar um Instituto de Psicanálise, encarregado de ministrar um ensino regulado e diplomável, tendo como modelo o da faculdade de Medicina. Para Lacan, com a criação do Instituto, o ensino da psicanálise ficava confinada a um isolamento doutrinal.
Neste mesmo ano, Lacan pede sua demissão da SPP e perde sua qualificação de membro da Associação Internacional.

Ainda neste ano, funda com Daniel Lagache a Sociedade Francesa de Psicanálise – SFP, para onde se transferiu a maior parte dos alunos da antiga Escola.
A SFP solicita o seu reconhecimento a IPA. No ano seguinte – 1954 – o pedido é rejeitado.
Em 1959 há uma nova solicitação de filiação. A IPA impõe, para o reconhecimento da SFP, que Lacan e Françoise Dolto não fossem reconhecidos como analistas didatas.

- A segunda cisão (“excomunhão”, como diria Lacan) do movimento psicanalítico ocorreu durante o inverno de 1963. A SFP se divide em dois grupos e foi dissolvida. Um grupo ratifica o ultimato da IPA e cria a Associação Psicanalítica Francesa – AFP. Lacan não figura mais na lista dos membros efetivos habilitados à análise didática e à supervisão.

Em 1964, Lacan fundou a Escola Freudiana de Paris EFP, enquanto a maioria de seus melhores alunos se posicionou ao lado de Lagache, na Associação Psicanalítica da França (AFP), reconhecida pela IPA. Na reunião de abertura da Escola, Lacan lê sua proposição - Ato de Fundação - que inicia com a famosa frase: “Fundo - tão sozinho quanto sempre estive em minha relação à causa psicanalítica – a Escola Francesa de Psicanálise.”

Obrigado a deslocar seu seminário, Lacan foi acolhido, graças à intervenção de Louis Althusser, em uma sala da École Normale Supérieure (ENS), onde pôde prosseguir seu ensino.
Na ENS, Lacan conquistou um novo auditório, uma parte da juventude filosófica francesa, à qual Althusse confiou o cuidado de trabalhar seus textos. Entre eles, encontrava-se Jacques Alain Miller, que se casou com Judith Lacan em 1966. Tornou-se redator dos seminários do sogro, seu executor testamentário e o iniciador, a partir de 1975, de uma corrente neolacaniana no próprio interior da EFP.Em 1965, com o estímulo da François Wahl, Lacan fundou a coleção “Champ Freudien” nas Éditions du Seuil e, no ano seguinte, em 15 de dezembro de 1966, publicou os Escritos.
Confrontado com as dificuldades de uma instituição gigantesca, Lacan tentou resolver os problemas de formação com a introdução do passe, novo procedimento de acesso à análise didática. Aplicado a partir de 1969, provocou a partida de um grupo de analistas oponentes, que formaram uma nova escola: a Organização Psicanalítica de Língua Francesa (OPLF) ou Quarto Grupo. Essa cisão, a terceira da história do movimento francês, marcou a entrada da EFP em uma crise institucional que resultou em sua dissolução a 5 de janeiro de 1980, e depois na dispersão do movimento lacaniano em cerca de vinte associações.
Neste mesmo ano – 1980 -, funda a Escola da causa Freudiana.

O ensino
Pré-ensino: 1936 a 1952
Em seus textos, desse período, Lacan se ocupa em redefinir o narcisismo freudiano a partir da sua formulação do estádio do espelho, de definir o sujeito como sujeito articulado com o sentido, e de algumas de suas formulações que introduzem a lingüística como ciência-piloto de seu trabalho.
Neste primeiro momento, seus escritos estão ligados à teoria freudiana, mas carecem da radicalidade do retorno a Freud; terão antecipado “a inserção do inconsciente como linguagem, mas carecem da lingüística de Saussure, que permite ao Lacan de 1953 dar estrutura de linguagem ao inconsciente; e conseguem um grande desenvolvimento do registro imaginário, mas fracassam em definir os registros simbólico e real.
1951: Intervenção sobre a Transferência. “A psicanálise é uma experiência dialética”. Com este texto, inicia a primeira dobra do Ensino de Lacan.

Primeiro movimento do Ensino de Lacan 1953 – 1970
Em seu escrito Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise (1953) e no seminário 1 Os escritos técnicos de Freud (1953-54), Lacan deixa de balbuciar noções estruturalistas e assume o conceito de estrutura que encontra nos primeiros textos de seu amigo Claude Lévi-Strauss. Juntamente com o conceito de estrutura, Lacan assume também as conseqüências teóricas implicadas neste conceito – ou seja, a lingüística de Ferdinand de Saussure como ciência-piloto e a oposição binária da fonologia de Roman Jakobson como modelo estrutural.


Segundo movimento: 1970 - 1980
O segundo período, que se anuncia no Seminário livro XVIII – D’um discours quin e serait pas du semblant, adquire sua força argumentativa a partir do Seminário livro XX – Mais, ainda. Neste segundo período Lacan se afasta do estruturalismo, porque rompe com o seu passado saussuriano. A lingüística deixa de ser o saber referencial, a estrutura deixa de ser uma ordem transcendente que captura o vivente impondo-lhe a sua legalidade. O que estará em jogo, neste segundo tempo do seu ensino, não é mais o binarismo diferencial que toda teoria estrutural implica, mas antes, a radicalização do unário como único. No começo não há dois, não há a estrutura como sistema diferencial, não há deriva. No começo há um, é o que afirma Lacan no Seminário XX. Por isso, o problema que apresenta este segundo período é como do um, do único, do diferencial, surge à estrutura como semblante, como aquilo que faz crer que há dois quando, na realidade, há um.

OUTRO(S) NUM CASAMENTO

Uma conversa com Marcos José Müller, autor do recém lançado Outro(s) num Casamento. MARIA: Gostaria em primeiro lugar que você fala...