domingo, novembro 02, 2008

Os sonhos



A interpretação dos Sonhos, publicado em 1900, foi considerado o melhor livro de século XX. Nesse ambicioso texto, contrariamente aos seus contemporâneos, Freud considera que a oniromancia tem fundamento de verdade. E, a partir daí, passa a estudar a vida onírica, apresentando os fatos que analisava com uma exatidão escrupulosa, exigindo de si mesmo o rigor próprio à ciência do seu tempo.

Durante dois anos o jovem Freud se dedica à elaboração de sua “tese”. Sua pesquisa não deixa de fora nenhuma obra conhecida que abordasse o tema dos sonhos, nem mesmo os sempre populares livros de sonhos egípcios. Cada possível argumento, cada possível interpretação é examinada com seriedade e rigor científico.


O livro é pleno de exemplos. Muitos sonhos são analisados e interpretados. O que mais custou ao autor, no entanto, foi o fato de que, devido ao sigilo com que deveria resguardar os sonhos de seus pacientes, Freud utiliza os próprios sonhos para dar seqüência à obra: se expõe aos efeitos de sua própria tese, tira as conseqüências de seus próprios sonhos trabalhando suas próprias neuroses. E, corajosamente, nos expõe todo o processo.

Graças a esse estudo sistemático, Freud conclui que o material do sonho propriamente dito - o conteúdo manifesto - não tem interesse; é constituído em geral por um conjunto incoerente de imagens insignificantes ou absurdas. O que conta é a significação implícita no conteúdo manifesto, o chamado conteúdo latente, ao qual só é possível ter acesso com uma chave apropriada. A chave que ele nos entregou com A Interpretação dos Sonhos. Qual seja, as leis próprias do inconsciente.

A tese central do texto é a de que "O sonho é a realização de um desejo". Esse desejo não é necessariamente um desejo que possamos aceitar em nossa vida consciente. Quando não se trata de um desejo aceitável, nos diz Freud, preferimos esquecê-lo. Este esquecimento será descrito como conseqüência de um mecanismo chamado “recalque”. O desejo recalcado, no entanto, permanece em algum lugar exercendo seus efeitos. Os sonhos são apenas um exemplo destes efeitos.

Os sonhos têm por característica sua falta de senso, sua não obediência às leis que nos regem na vigília. Seguem uma lei própria, seguem uma lógica que não é a lógica cotidiana. Freud é levado assim a demonstrar que nosso aparato mental é formado pela consciência, cujas regras reconhecemos, e pelo inconsciente, cujos efeitos nos surpreendem por seguir uma lógica diferente e desconhecida (ainda que sempre familiar).

Desta forma, um desejo que não condiz com o nosso ideal de vida é negado, jogado para aquele campo que não segue as mesmas regras de nossa consciência. No inconsciente este desejo vai procurar sua expressão a qualquer custo. Se não é possível que ele se expresse conscientemente (por que no consciente atua o recalque), ele vai buscar alguma expressão substitutiva que consiga escapar à censura. Assim, o sonho pode ser entendido como a expressão de uma série de desejos, que encontram nele a única via para a consciência. É por isto também que o sonho será entendido por Freud como a via régia para o inconsciente, uma vez que é sua manifestação mais direta.

Por essa mesma via, Freud vai compreender os sintomas neuróticos. Ou seja, o sintoma neurótico é também a manifestação de um desejo. A principal diferença é que no sintoma uma solução é encontrada para que o desejo se apresente na consciência. Também neste caso, contudo, este desejo se manifestará com as distorções necessárias para que possa ser aceito pelo consciente.

Sempre estamos às voltas com o conteúdo manifesto de nossos sonhos. Mas, se quisermos entendê-los verdadeiramente, precisamos passar para o conteúdo latente e isso implica fazer um trabalho consigo mesmo. Um trabalho que revele a direção do desejo inconsciente que o conteúdo latente insiste em apontar.


segunda-feira, outubro 27, 2008

Nome-do-Pai


Para compreender a importância do Nome-do-Pai é necessário lembrar que Lacan transforma o complexo de Édipo na estrutura de passagem da natureza à cultura por meio da introdução do sujeito na ordem simbólica. É no interior da família que o sujeito moderno descobre a existência de uma Lei simbólica baseada em interditos (como o incesto) e lugares fixos de parentesco. O pai, sendo aquele que dá nome ao filho e encarna a autoridade, será o representante da Lei. O Nome-do-Pai é o significante dessa função paterna, como uma chave que abre, ao sujeito, o acesso à estrutura simbólica e que lhe permitirá nomear seu desejo. Daí porque: "A função do pai é unir um desejo à Lei". Não é por outra razão que Lacan vê, no declínio da "imago" paterna, uma fonte privilegiada de neuroses contemporâneas.
Vlademir Safatle

sábado, outubro 25, 2008

O que é a Segunda Clínica de Jacques Lacan?


No percurso de Lacan, encontramos duas clínicas. Elas são diferentes na forma de abordar os fenômenos clínicos, de trabalhar psicanaliticamente, de dirigir o tratamento e de formalizá-lo. Estabelecem relações complexas entre si.


Nos anos 50, em seu retorno a Freud, Lacan fundou uma clínica estrutural, regida pelo simbólico, dirigida por um analista a quem cabia interpretar as formações do inconsciente e situar o sujeito no seu desejo. A clínica, edípica, se estruturava entre a neurose, a psicose e a perversão e, na sua vertente neurótica, o sintoma era concebido como uma mensagem a ser decifrada.

Nos anos 70, Lacan foi além de Freud e estabeleceu as bases de uma clínica dos nós, pós-edípica, que privilegia a experiência do real. Numa época em que ‘o Outro não existe’, as estruturas clínicas resultam dos modos de amarração dos registros simbólico, imaginário e real e o sintoma é concebido como forma de satisfação. Na transferência, o analista opera de modo a modificar a relação do sujeito com seu gozo.

Cada época tem suas “doenças” e seus “remédios” e, na globalização, o mal-estar assume novas formas. Se a primeira é uma clínica da modernidade, a segunda é uma clínica da pós-modernidade. Se a primeira é uma clínica pai-orientada, de um “mundo sólido”, a segunda é uma clínica do homem desbussolado, de um “mundo líquido”.


Publicado em: Instituto da Psicanálise Lacaniana.

sexta-feira, outubro 24, 2008

Saiu na Veja

Pesquisa consegue apagar memória ruim.

Um estudo americano abriu caminho para que um dia seja possível apagar aquelas lembranças dolorosas que muitos carregam durante a vida. Em um experimento realizado com ratos, pesquisadores liderados por Joe Z. Tsien, do Colégio Médico da Geórgia, conseguiram eliminar memórias específicas de ratos, sem eliminar outras lembranças importantes para os roedores. O estudo foi publicado nesta quinta-feira na revista científica Neuron. Os cientistas descobriram que o excesso de uma proteína reguladora da memória, conhecida pela sigla αCaMKII, é capaz de eliminar lembranças no momento em que elas são resgatadas no cérebro. Com base nessa informação, os cientistas desenvolveram um rato transgênico e o submeteram a uma droga especial, que inunda o cérebro com a αCaMKII. Qualquer eventual memória que for lembrada neste momento, é imediatamente suprimida.

terça-feira, outubro 21, 2008

O que Lacan pensava de Lacan

"Bastam dez anos para que o que escrevo se torne claro a todos." Com essas palavras, Jacques Lacan (1901-81) encerrava em 1971 uma rara entrevista dada à televisão francesa. Mais de 35 anos se passaram e não podemos dizer que sua premonição tenha se realizado, embora ela contenha algo de verdadeiro. Pois mesmo que Lacan ainda seja um autor cujo estilo elíptico desconcerta e afasta, é certo que sua importância intelectual foi paulatinamente sendo reconhecida.

Não se trata apenas de insistir aqui na relevância de suas posições no debate sobre a clínica psicanalítica nas últimas décadas. Trata-se de sublinhar como Lacan também se tornou um interlocutor privilegiado em reflexões contemporâneas sobre filosofia, teoria literária, crítica de arte, política e teoria social. Neste sentido, ele talvez tenha sido o único psicanalista, juntamente com Sigmund Freud (1856-1939), capaz de transformar sua obra em passagem obrigatória para aqueles cujas preocupações não se restringem apenas à clínica, mas dizem respeito a um campo amplo de produções socioculturais vinculadas aos modos de auto compreensão do presente com suas expectativas e impasses.

No entanto, isto só foi possível porque sua noção de clínica sempre guardou uma série de peculiaridades, mesmo conservando os dois princípios fundamentais para a constituição da práxis analítica desde Freud, a saber, ser radicalmente desmedicalizada e reduzir o campo de intervenção à dimensão da relação psicanalista-paciente. Começar lembrando alguns pressupostos da clínica lacaniana talvez seja uma boa estratégia para introduzir o sentido de sua experiência intelectual, assim como explicar as causas de sua ampla recepção. Uma estratégia ainda mais relevante se levarmos em conta que vivemos em uma época que assiste sucessivas tentativas de desqualificação pura e simples da racionalidade da clínica psicanalítica.

A partir dos anos 80 e principalmente depois da década de 1990, parecia consensual a noção de que a psicanálise entrara em "crise". Ultrapassada pelo avanço de novas gerações de antidepressivos, ansiolíticos, neurolépticos e afins, a psicanálise foi vista por muitos como uma prática terapêutica longa, cara, com resultados duvidosos e sem fundamentação epistemológica clara. Muitas vezes, psicanalistas foram descritos como irresponsáveis por não compreenderem, por exemplo, que patologias como ansiedade e depressão seriam resultados de distúrbios orgânicos e nada teriam a ver com noções "fluidas" como "posição subjetiva frente ao desejo".

Por sua vez, a insistência em continuar operando com grandes estruturas nosográficas (relativas à descrição ou explicação das doenças), como histeria, neurose, perversão ou melancolia, parecia resultado de um autismo conceitual que impedia a psicanálise de compreender os avanços do DSM III na catalogação científica das ditas afecções mentais com suas "síndromes" e "transtornos" relacionados a órgãos ou funções mentais específicos.

Nesse contexto, a noção de cura de afecções e patologias mentais parecia enfim encontrar um solo seguro. O desenvolvimento das ciências cognitivas, em especial das neurociências, teria permitido certa redução materialista capaz de demonstrar como todo estado mental (crenças, desejos, sentimentos etc.) seria apenas uma maneira "metafórica" de descrever estados cerebrais (configurações neuronais) cuja realidade é física. Com isso, estavam abertas as portas para que a própria noção de doença mental pudesse ser tratada como distúrbio fisiologicamente localizável, ou seja, como aquilo que se submete diretamente à medicalização.

A clínica, por ter sua racionalidade submetida a uma fisiologia elaborada, poderia, a partir de então, aparecer como o setor aplicado de uma farmacologia. Lacan, desde sua tese de doutorado em psiquiatria, de 1932, insistia na inadequação de perspectivas fundadas nessas reduções materialistas dos fenômenos mentais. É a consciência dessa inadequação que o levará a assumir a carreira de psicanalista.

Tal consciência o levará também a tentar reconstruir os padrões fundamentais de racionalidade das práticas clínicas, através da defesa de um conceito de sujeito não redutível a qualquer forma de materialismo neuronal. Ou seja, quando Lacan decide-se pela psicanálise, logo após a defesa de sua tese em psiquiatria, ele já tem um problema armado que, a partir de então, guiará sua experiência intelectual. Um problema que guarda estranha atualidade, se levarmos em conta os desenvolvimentos posteriores da psiquiatria em direção a uma reconstituição de suas práticas a partir da farmacologia.

É verdade que a clínica e a teoria lacanianas serão radicalmente modificadas ao longo dos anos. Mas nada entenderemos do sentido dessas modificações se não tivermos uma noção clara do processo de desenvolvimento do pensamento lacaniano desde seu início. Assim, vale a pena descrever esses primeiros passos, a fim de identificar a razão pela qual suas reflexões clínicas se transformaram em referência maior para as estratégias de autocompreensão do presente. Tais considerações servem ainda como resposta à questão sobre como começar a ler sua obra. Por mais estranho que possa parecer, devemos começar a ler Lacan pelo começo.

Nada melhor do que seguir o desenvolvimento cronológico de sua experiência intelectual a fim de determinar o processo de formação de seus conceitos e problemas. Embora sua obra vá modi - ficando paulatinamente o campo de interlocuções, as estratégias de problematização e o estilo de sua escrita, é inegável o esforço lacaniano em integrar desenvolvimentos recentes de seu pensamento a elaborações mais antigas. Esse é um ponto importante, porque a recorrência de certas questões é o que dá unidade a uma verdadeira experiência intelectual. Nesse sentido, devemos sempre nos perguntar: quais são as questões fundamentais que animam a trajetória lacaniana? Uma delas, sem dúvida, é a crítica à aplicação de um materialismo reducionista às clínicas dos fatos mentais.
Vlademir Safatle, in: Lacan, Ed. Publifolha

sábado, outubro 18, 2008

A morte do Sujeito



Longe de engrossar o coro daqueles que defendiam a "morte do sujeito", Lacan sempre acreditou no caráter irredutível da subjetividade. A seu ver, a especificidade da psicanálise vinha exatamente da recusa em admitir que os fatos psíquicos fossem apenas resultados de descargas neuroniais ou distúrbios orgânicos. Mas, por outro lado, o sujeito lacaniano não guarda muitas semelhanças com seus antepassados modernos.

Filho de um tempo que não acredita mais na transparência da consciência e na luz natural da razão, o sujeito lacaniano verá sua auto-identidade aparecer irremediavelmente despedaçada. Desprovido de vida interior e de profundidade psicológica, ele será como um personagem de "nouveau roman": vazio, impessoal e incapaz de se apropriar reflexivamente de sua própria história. A esse sujeito restará ser um movimento de fuga que não cessa de não se inscrever, tal como um sintoma que nunca se dissolve.


Vladimir Safatle

segunda-feira, outubro 06, 2008

O avesso da Psicanálise



A propósito do pai, as pessoas se julgam obrigadas a começar pela infância, pelas identificações, e isso é então algo que verdadeiramente pode chegar a uma extraordinária farfalhada, a uma estranha contradição. Falarão da identificação primária como aquela que liga a criança à mãe, e isto com efeito parece óbvio. Contudo, se nos reportarmos a Freud, a seu discurso de 1921 chamado Psicologia das massas e análise do eu, é precisamente a identificação ao pai que é dada como primária. É certamente bem estranho. Freud aponta ali que, de modo absolutamente primordial, o pai revela ser aquele que preside à primeiríssima identificação e nisso precisamente ele é, de maneira privilegiada, aquele que merece o amor.


Jacques Lacan – Seminário 17 – o avesso da psicanálise

quinta-feira, outubro 02, 2008

O avesso ... II




O saber, isto é o que faz com que a vida se detenham em um certo limite em direção ao gozo. Pois o caminho para a morte - é disso que se trata, é um discurso sobre o masoquismo -, o caminho para a morte nada mais é do que aquilo que se chama gozo.

Jacques Lacan, Seminário XVII - O avesso da psicanálise

domingo, setembro 21, 2008

Cinema dos anos 90



Comprei e li neste final de semana, “Cinema dos anos 90”, organizado por Denílson Lopes. O livro, segundo o seu título, é uma coletânea de ensaios sobre os filmes laçados na década de 90 em diversas “capitais” do cinema.

Partindo da diversidade da produção cinematográfica desse período, e de diferentes abordagens críticas, a leitura dos textos nos promove momentos de prazerosa reflexão. Alguns deles são memoráveis. Como, por exemplo, o ensaio de Wlademir Safatle sobre A estrada perdida, de David Lynch; e o ensaio de Denílson Lopes sobre A fraternidade é vermelha, de Krzystdf Kieslowski.

Outros textos, no entanto, poderiam entrar na lista dos “bonitinhos, mas ordinários”. Autores que tem pouco a dizer, que não tem tempo para reflexão, preenchem o espaço proposto com uma linguagem pretensiosa e vazia.

Mas, ainda assim, o livro "Cinema nos Anos 90", oferece aos seus leitores, na sua proposta ousada de falar do que é próximo, reflexões interessantes sobre 23 filmes que ainda estão impressos em nossa memória cinematográfica.

Maria Holthausen

segunda-feira, setembro 15, 2008

CLÁSSICO DE BERGMAN É EXIBIDO NO CINEMA FALADO


 
Ingmar Bergman é o motivo especial para uma boa conversa sobre cinema nesta quinta-feira, dia 18 de setembro de 2008, dentro do projeto Cinema Falado do Museu Victor Meirelles. Gritos e Sussurros, um dos mais belos filmes do diretor sueco, produzido em 1972, com Liv Ullmann à frente do elenco, promete um bom reencontro do público com Bergman na telona.
A mediadora convidada é Rosana Kamita, graduada em Letras pela Universidade Estadual de Londrina, mestre em Letras pela mesma instituição e doutora em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente é professora titular da UFSC nas disciplinas de Dramaturgia, Teoria da Narrativa e Teoria do Roteiro. Tem experiência na área de Artes, com ênfase em Cinema.


No final do século XIX a vida de quatro mulheres se entrelaça quando uma delas está à beira da morte. Em uma casa no campo, bastante enferma, ela recebe cuidados de suas duas irmãs e de uma empregada da família, que precocemente perdeu sua filha e por isso direciona o seu amor de mãe para aquela moça tão debilitada. Dentro deste contexto lembranças, frustrações e imaginações em um misto de amor e ódio surgem no interior de cada uma daquelas mulheres.

Frio, algumas vezes lento, mas sempre emocionalmente doloroso, Gritos e Sussurros é um filme obrigatório para os amantes do cinema clássico. E Bergman é extraordinariamente perspicaz em seu modo de mostrar os conflitos e as rivalidades, o amor e o desprezo. Há vários momentos no filme, durante os quais nada é falado, mas o silêncio é mais eloqüente do que qualquer palavra que pudesse ser dita, afinal é Bergman.

Por fim, como nos diz o próprio diretor através da doente Agnes, viver vale a pena mesmo que se consiga viver de verdade pouco mais que um instante num jardim, num balanço, numa tarde de sol.

Entre as premiações de Gritos e Sussurros destaca-se o Oscar de Melhor Fotografia, além de outras quatro indicações nas categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Original e Melhor Figurino. Recebeu também uma indicação ao Globo de Ouro, na categoria de Melhor Filme Estrangeiro e duas indicações ao BAFTA, nas categorias de Melhor Atriz (Ingrid Thulin) e Melhor Fotografia. No Festival de Cannes venceu ainda o Grande Prêmio Técnico (Ingmar Bergman) e do Instituto de Cinema Sueco ganhou os prêmios de Melhor Filme e de Melhor Atriz (Harriet Andersson).

A sessão começa às 18h30min, na Sala Multiuso do Museu Victor Meirelles, na Rua Victor Meirelles, 59, Centro, Florianópolis.
A entrada é gratuita.

terça-feira, setembro 02, 2008

O deslocamento significante e seus efeitos.





Se o que Freud descobriu, e redescobre com um gume cada vez mais afiado, tem algum sentido, é que o deslocamento do significante determina os sujeitos em seus atos, seu destino, suas recusas, suas cegueiras, seu sucesso e sua sorte; não obstante seus dons inatos e sua posição social, sem levar em conta o caráter ou o sexo, e que por bem ou por mal seguirá o rumo do significante, como armas e bagagens, tudo aquilo que é da ordem do dado psicológico.



Jacques Lacan – O seminário sobre “A carta roubada”, Escritos

sexta-feira, agosto 29, 2008

A inconsistência do Outro



"Para Lacan, porque Lacan é analista, o Outro existe como inconsciência constituída como tal. O Outro concerne a meu desejo na medida do que lhe falta e de que ele não sabe. É no nível do que lhe falta e do qual ele não sabe que sou implicado da maneira mais pregnante, porque, para mim, não há outro desvio para descobrir o que me falta como objeto de meu desejo. É por isso que, para mim, não só não há acesso a meu desejo, como sequer há uma sustentação possível de meu desejo que tenha referência a um objeto qualquer, a não ser acoplando-o atando-o a isto, o sujeito, que expressa a dependência necessária do sujeito em relação ao Outro como tal."

Lacan - Seminário a angústia, livro X

quarta-feira, agosto 27, 2008

O artista e o psicanalista







“A única vantagem que um psicanalista tem o direito de tirar de sua posição é a de se lembrar com Freud que em sua matéria o artista sempre o precede, portanto, ele não tem que bancar o psicólogo quando o artista lhe desbrava o caminho”


(Lacan, 1965/2003).

domingo, agosto 17, 2008

O Cinema de Pedro Almodóvar


Francisco Bosco



Aos dezesseis anos, Pedro Almodóvar mudava-se para Madri, sozinho e sem dinheiro, a fim de estudar cinema. Muitos anos depois, ele diria dessa experiência: "Eu me acostumei à realidade (eu a assumi, como se assume a doença de alguém que se ama)". Essa relação, ou melhor, esse vínculo entre realidade, doença e amor é o que, em sua obra, instaura uma insuspeitada dimensão política. Mas esse mesmo vínculo é o que decisivamente diferencia o cinema político de Almodóvar de um pensamento político tão bem intencionado (talvez) quanto desastroso (certamente): para este, a realidade também é uma doença, uma imperfeição cuja complexidade deve ser reduzida a golpes de idealismo e brutalidade; enquanto, para Almodóvar, a realidade é uma imperfeição incurável que nos obriga primordialmente a amá-la. O amor à realidade, que exige a assunção de sua complexidade irredutível,* surge aí como prevenção da brutalidade - e é nesse ponto que seu cinema se torna político. Vistos dessa perspectiva, o desejo e a paixão são manifestações da realidade que, reveladas em sua trama complexa, opõem-se a que seja injusto o juízo sobre a realidade e os sujeitos que dela participam. Mesmo que não seja deliberado - e afinal isso nunca importa -, o que aí ocorre é uma atitude política que visa à justiça.

Trata-se, digamo-lo de saída, de uma política da proximidade. A aproximação é sua estratégia artística de desmonte dos estereótipos (e sabemos o quanto os estereótipos propiciam e justificam bodes expiatórios sociais, tentações segregacionistas, juízos moralistas etc.). Tanto identidades sociais estereotipadas quanto gestos éticos condenáveis a priori são submetidos a um olhar aproximador que lhes desvela dimensões surpreendentes que, por sua vez, tendem a desmontar, suspender ou mesmo reverter o juízo do espectador. Assim, uma travesti, por exemplo, é mostrada em sua vida privada, dissolvendo o estereótipo social por excelência que se tornam as travestis enquanto aos olhos dos outros possuem uma identidade exclusivamente pública e sexual; uma freira está grávida; uma outra travesti é machista e moralizadora; um ex-policial na cadeira de rodas passa de baluarte moral a responsável indireto pela condenação de um jovem inocente, e assim em diante. Nenhum personagem e nenhum ato estão isentos de ambigüidades e complexidades éticas, basta que se aproxime o suficiente deles para percebê-los desse modo.

Essa aproximação não diz respeito apenas ao movimento do artista, mas também dos personagens. Há nestes uma abertura ao outro tantas vezes imediata, a que a seguinte frase, citada num mis-en-abîme em Tudo sobre minha mãe, serve de efígie: "Sempre confiei na bondade dos desconhecidos". Assim, nesse mesmo filme, Manuela torna-se imediatamente amiga de Rosa, a quem acolhe em sua casa; Huma, a atriz famosa, contrata Manuela como seu braço direito depois de conhecê-la numa única noite; Rosa, a freira, por definição abre-se ao outro em sua estranheza radical. Em Fale com ela, a toureira Lídia pede ao então desconhecido Marco que a leve a Madri. Em todos - e sobretudo nas mulheres - há essa abertura transparente ao outro desconhecido, essa vontade de aproximação. Se em A má educação essa lógica é invertida, isso ocorre sem prejuízo da aproximação como atitude artístico-política, e como que para evidenciar seu caráter de contraponto ratificador.

Essa inversão dá-se do seguinte modo. Em Tudo sobre minha mãe e, radicalmente, como veremos, em Fale com ela, é a revelação da dimensão amorosa de um ato ético em princípio condenável que fará o juízo recuar. Naquele, a travesti Lola, portadora do vírus da Aids, engravida e contamina a jovem freira Rosa (que morre em conseqüência do parto), mas, pelo mesmo lance, devolve o filho perdido a Manuela. Há aí uma cadeia amorosa que percorre Manuela, Lola e Rosa, e a que o acaso - outra imperfeição da realidade - confere uma ambivalência irredutível, de morte e vida. Já em A má educação, o padre Manolo ama o menino Ignácio, mas abusa sexualmente de sua ingenuidade e até o chantageia sexualmente, configurando a perversidade pedófila (que goza, precisamente, com esse abuso de poder). O ator Juan, irmão mais novo de Ignácio, fingirá ser este, e prestar-se-á a uma chantagem voluntária, isto é, deixar-se-á foder pelo cineasta Enrique para ver se consegue um papel no filme deste. Que, anos depois, seria o já adulto (e viciado e deteriorado) Ignácio quem chantagearia o padre Manolo, essa inversão não é apenas uma ironia do acaso, mas o caráter estrutural e infinito da "má educação". Pois a "má educação" é precisamente a perversidade originária que, colocando-se no lugar do amor - confundindo-se com ele - a tudo envenena, culminando com um fratricídio. É como se o ato perverso inicial do padre Manolo impedisse para sempre que o amor seja a motivação das existências e suas decisões éticas. A má educação é o avesso da abertura imediata ao outro, de sua transparência (ao contrário, aqui quase todos são opacos ou dissimulados), mas um avesso que também se demonstra pelo método artístico da proximidade.

É entretanto em Fale com ela que a política da proximidade atinge seu ponto mais radical. Aqui, a situação de sexo que envolve um sujeito consciente e outro, inconsciente, repete-se. Como vimos, em A má educação a atualização dessa situação pelo padre Manolo é abusiva, apesar do amor; já em Fale com ela, a atualização da situação por Benigno é amorosa, apesar do abuso. (Do mesmo modo, ainda em A má educação - a rigor no filme dentro do filme que é a peça de Ignácio chamada A visita -, Ignácio, travestido de Zahara, transa com Enrique enquanto este dorme, mas de pau duro. Para revelar a dimensão benigna de um gesto que em princípio é uma espécie de necrofilia, Almodóvar se aproxima de Benigno. O que começa a ocorrer aí é uma crítica que atinge inicialmente a ciência, roça de passagem a psicanálise e incide com tudo no direito. Pois, em primeiro lugar, o devotado amor de Benigno por Alicia (que está em coma há 4 anos) abala a perspectiva científica segundo a qual o estado de coma é uma morte cerebral. À indiferença científica de Marco, que lhe diz de nada adiantar falar com Alicia, já que ela não pode ouvir, Benigno responde com uma atordoante e bartlebyana simplicidade: "Como você pode ter certeza?".

Já a ligeira admoestação à psicanálise está imbricada à crítica contundente ao direito. Por ter abusado sexualmente de Alicia enquanto esta estava em coma, Benigno é diagnosticado pelo aparato jurídico-psicanalítico como "psicopata" e condenado à prisão por seu ato. O que aqui está em jogo é uma tensão entre generalidade e singularidade que, por meio de uma política da aproximação, dirige-se à justiça. Vejamos de que modo.

Em Força de lei, Derrida diferencia o direito da justiça. O direito não é a justiça. O direito manifesta-se por meio de leis que, originariamente, são autojustificadas, por jamais ter havido uma instância prévia que as pudesse legitimar. Assim, o direito, em si, não é justo nem injusto; ele é autofundado, "uma violência sem fundamento". O fundamento que falta é precisamente a justiça, da qual por isso mesmo "não se pode falar diretamente". A justiça é inapresentável, não se pode objetivá-la. O direito é da ordem do cálculo e da universalidade (que se expressa sob a forma das leis), mas a justiça exige que o cálculo seja submetido à experiência do incalculável, e a universalidade à da singularidade. Ora, o que é, então, a justiça? Justamente, a justiça não é - ela é um "porvir", algo a que se dirige um "apelo". Para talvez fazer justiça (pois, não existindo objetivamente, nunca se sabe ao certo se ela foi feita), um juiz deve decidir "como se a lei não existisse anteriormente", reinventando-a a cada caso, submetendo o princípio generalista da lei à singularidade do caso concreto, numa decisão que seja ao mesmo tempo "regrada e sem regra".No caso de Benigno, o direito parece ser claro: seu ato configura um tipo de crime e deve ser condenado. Mas o juiz, ao apenas garantir o cumprimento da lei, agiu, como diria Derrida, como "uma máquina de calcular". A justiça (nesse caso o aparelho jurídico que julga os réus) não fez justiça, porque não soube enxergar a dimensão amorosa do ato de Benigno, dimensão que é revelada pela arte, em sua política da proximidade. A arte, enquanto experiência da complexidade humana, emerge então como uma mediação decisiva entre o direito e a justiça. A arte, por meio da proximidade que não reduz a complexidade, revelou o envolvimento amoroso de Benigno com Alicia, amor que é a contrapartida singularizante do crime universalizado. Marco, que se aproximara de Benigno, pôde descobrir essa dimensão amorosa, e por isso não o julgava um estuprador covarde. Mas a justiça, em sua obtusidade generalizante, acabou por condená-lo à prisão (e, indiretamente, à morte). Não estou dizendo que a absolvição seria justa, mas é certo que a condenação não reflete com justeza a complexidade do ato de Benigno - que a saída do coma de Alicia e sua sugerida relação com Marco vêm redimir.

A última frase do filme, a propósito, é: "Nada é simples".

* grifo meu.

domingo, agosto 10, 2008

Metonímia:

Em seu Seminário de 1970, Lacan nos ensina que numa análise o manejo da linguagem que merece ser privilegiado pelo analista é a metonímia. O analista, diz Lacan, deve deslizar com a palavra e não substituir um sentido por outro.


Se, desde Freud, a metáfora foi o método predominante da interpretação. Foi por esta via que ele concluiu que a análise seria interminável e esbarraria, para o homem no temor da castração e para a mulher, no protesto feminino ou inveja do pênis.

Para Lacan, na experiência humana, a conta da satisfação nunca fecha, sempre fica um resto. Por mais que se tente interpretar a insatisfação de uma pessoa, não há justo acoplamento; algo sempre escapa: é o que ele chamou de mais-de-gozo.

Desse modo, enquanto a interpretação freudiana - pela via da metáfora -, é uma compreensão. A interpretação lacaniana - pela via da metonímia -, é uma alusão. O gozo se chega por alusão: conforme demonstra Lacan nesse Seminário.

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segunda-feira, julho 28, 2008

objektwahl - escolha objetal:



Há, em alemão, pelo menos duas palavras para dizer “escolha”. A primeira, entscheidung, - herdeira do vocabulário iluminista - diz respeito a uma escolha racional, consciente, deliberada. A raiz sheiden, significa separar, distinguir. Neste caso, escolher deve ser separar, distinguir pela razão, o bem do mal, o certo do errado, o verdadeiro e o falso. Mas foi a segunda palavra, objektwahl, que Freud utilizou para falar de “escolha objetal”: a escolha do objeto sexual. Aqui, wahl não significa uma decisão consciente, mas uma escolha permeada por afetos intensos que não se dão a conhecer pela razão. Assim, segundo Freud, objektwahl é uma escolha no nível do inconsciente.
Portanto, subvertendo a teoria kantiana que reúne decisão e liberdade, para a psicanálise escolher não quer dizer decisão; não quer dizer mais liberdade.

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quinta-feira, julho 24, 2008

Rascunho fenomenológico


Marcia Bianchi

Resumo:
Este artigo propõe a discussão do sujeito lírico no “Poema sujo” de Ferreira Gullar pelo viés da Fenomenologia da Percepção. A percepção merleau-pontyana propõe a noção de sujeito a partir do corpo e da linguagem, nela o sujeito é capturado pela palavra. A visibilidade, a invisibilidade, o ser de indivisão, o corpo fenomenal são alguns pontos pelos quais talvez se possa detalhar o que se passa com o olhar do Outro. Aqui o sujeito é o rebento, carnalidade da própria carne, isso ocorre à medida que ele é atravessado pela linguagem. Na reversibilidade entre o eu e o não-eu, o sujeito, reelabora signos, e, fabrica um universo que reside entre os significantes, visível ou invisível, e transita no corpo, nas cores e nos odores da intersubjetividade.

Palavras-chave: Sujeito, Fenomenologia, corpo, ser de indivisão, outro.
Introdução“Por um lado te vejo como um seio murcho/ Pelo outro como um ventre cujo umbigo pende ainda o cordão placentário”. O poema “Maçã” de Manuel Bandeira entrega ao corpo o completo abandono à arte, à Fenomenologia. Um olhar com fascínio, inacabado, entre eu e o outro, um cordão umbilical que nutre o rebento entre arte, filosofia e vida. A linguagem objetiva e a fala falante, tão bem traduzidas pelos versos: “por um lado/ por outro lado” como se a realidade objetiva fosse inevitável, como se a imbricação entre arte e vida fosse inevitável, necessária, e, que não precisa ser explicada, pois a obra de arte funda e revela sua transcendência. O corpo fenomenal a partir de sua inserção no mundo, e, de seu contínuo desdobramento encontra na alteridade sua indivisão. Essa experiência intersubjetiva ocorre como um sistema de trocas entre o corpo e o mundo, e revela um sujeito atravessado pela experiência da percepção e da linguagem. Por isso, a experiência da visão e da linguagem não se realizam pouco a pouco ou inversamente, ao contrário, elas são o próprio corpo.”Porque não estou diante do meu corpo, estou em meu corpo, sou meu próprio corpo. O corpo é, para retomar a expressão de Leibniz, a “lei eficaz” de suas mudanças. Se ainda se pode falar, na percepção do corpo próprio, de uma interpretação, seria preciso dizer que ele se interpreta a si mesmo”. (Ponty, 2006. p.208). Assim, para Merleau-Ponty o corpo não pode ser comparado apenas ao objeto físico, mas à própria obra de arte:

“Não é ao objeto físico que o corpo pode ser comparado, mas antes à obra de arte. Em um quadro ou uma peça musical, a idéia só pode comunicar-se pelo desdobramento de cores e dos sons. A análise da obra de Cézzane, se não vi seus quadros, deixa-me a escolha entre vários Cézannes possíveis, e é a percepção dos quadros que me dá o único Cézzane existente, é nela que as análises adquirem seu sentido pleno. O mesmo acontece com um poema ou com um romance, embora eles sejam feitos de palavras. Sabe-se que um poema, se comporta uma primeira significação, traduzível em prosa, leva no espírito do leitor uma segunda existência que o define enquanto poema. Assim como a fala significa não apenas pelas palavras, mas sim pelo sotaque, pelo tom pelos gestos...da mesma maneira a poesia, se por acidente é narrativa e significante, essencialmente é uma modulação da existência” ( 2006. p. 208 -9)
Por outro lado, como escrever sem explicar, sem mencionar a história, a fala falada? Como falar daquilo que “se fala há muito tempo”: uma maçã, uma gaveta, um nome, um Poema sujo. Como falar do rebento, da carne, da linguagem. Um sujeito lírico que vai para além da fragilidade da escrita. Talvez seja possível falar, então, da experiência do olhar, da percepção dos ritmos, da cores e dos odores, da ‘segunda potência da realidade objetiva’, como coloca Merleau Ponty, da linguagem que transita entre os significantes e atravessa o ser de indivisão e se desdobra na carnalidade da carne, em versos. A idéia para este sujeito nasce de uma visão fotográfica que mostra a imagem de José Ribamar Ferreira, sobre a qual repousam estas mediações. O sujeito lírico que há muito causa inquietação, estranhamento, pois há uma alteridade provocativa entre José Ribamar e Ferreira Gullar. Pode-se pensar no “sistema de trocas entre o corpo e o mundo que transita entre eu e não-eu” (Muller-Granzotto, 2007 p. 2) e que vê a cidade Buenos Aires, em 1974. Não cabe no texto dizer que ele apenas vê Buenos Aires, mas sim a própria arte. A cidade se torna perceptiva ao poeta como a natureza ao pintor, e nele provoca um alumbramento como se fosse ‘olhado’ pela cidade.E, nessa troca de alteridade radical a invisibilidade de um olhar atinge o poeta, sem que ele mesmo saiba de onde tenha partido, possibilitando o aparecimento de uma cumplicidade indeterminada. E nessa carnalidade formada por mim, pelo outro e pelo mundo Ferreira Gullar escreve o Poema sujo. É sobre alguns versos do poema que aproximo estas meditações do olhar fenomenológico, de uma existência mundana, de um rascunho.


1. Então, a linguagem não cabe no poema, não cabe no quadro. O poeta, pintor da vida moderna, se vê diante alteridade radical de reproduzir a cidade. Ela que gera o rascunho, a infinitude, o inacabado.
“_ Que faço entre coisas?
- De que me defendo?
Que importa um nome a esta hora do
Anoitecer em São Luis do Maranhão (...)
Mas que importa um nome (...)”





Que importa um nome se o sujeito está dividido entre sua consciência perceptiva e a arte, essa cumplicidade indeterminada. No entanto, é necessário falar nisso, é necessário fazer arte das coisas que ‘se fala há muito tempo’. Criar uma segunda potência para, assim, atingir uma nova dimensão de significantes. “É claro que não há somente frases feitas e que uma língua é capaz de assinalar o que ainda nunca foi visto. Mas como ela poderia se o novo não fosse feito de elementos antigos, já expressos, se não fosse inteiramente definível pelo vocabulário e pelas relações sintáticas da língua em uso? (Ponty, 2002. p. 23). Essa imbricação ocorre entre o poder vidente que habita o corpo e a sensibilidade de sentir-se entre as coisas, bem como pela importância que elas vão tecendo na vida e na arte. A poesia moderna é extremamente substantiva e plasmada no cotidiano de estar entre coisas. Há no sujeito que produz arte essa espécie de estranheza de algo que lhe é próprio, mas que ao mesmo tempo não se reduz a ele.
Desta forma, com as palavras é possível construir inúmeras possibilidades. Assim “uma língua é para nós esse aparelho fabuloso que permite exprimir um número indefinido de pensamentos ou de coisas com um número finito de signos, escolhidos de maneira a compor exatamente tudo o que se pode querer dizer de novo e comunicar-lhe a evidência das primeiras designações da coisas”.(Ponty, 2002. p. 24) . O sujeito vidente constituído pela identificação e pela diferença está entre os significantes do corpo próprio. Este corpo transita nas cores, nos odores da natureza e da vida, nas significações das coisas e da própria história. Os versos iniciais do Poema sujo dizem muito de identificação e diferença:
“ turvo turvo
A turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que mole e duro menos que fosso e muro: menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? Como pluma? claro mais que claro claro: coisa alguma
e tudo
(ou quase)
Um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as estranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
era o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva igual a tua bucetinha que parecia sorrir entre as folhas de
bacana entre os cheiros de flor e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo( não como a tua boca de palavras como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão de estrelas e oceano
entrando-nos em ti
bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?(...)”.


Muito além do ‘querer dizer de novo’ vem o sentir de novo a evidência das designações das coisas.Assim, a Filosofia reverte a visão natural do homem e esquece no pensar a função da palavra, criando novas possibilidades entre o mundo que habito, o mundo natural e o mundo histórico. É preciso uma fuga para a inversão a partir da experiência fenomenológica, e assim compor esse arranjo que traduz entre uma palavra e outra um silêncio que fala. O “Poema Sujo” é habitado por silêncios que falam muito. Silêncios escuros e claros e uma linguagem plástica“claro mais claro” que envolve o silêncio da página em branco e o gritante escuro da escrita, compondo um quadro claro/escuro. Um arranjo necessário de cores, pois claro também é o azul. Daí o outro escapa, o arranjo escapa à realidade objetiva, a arte já não é mais pura, e o azul vem fundir-se com o gato, o galo, o cavalo, o cu. As coisas fora de sua evidência objetiva, vestidas pela intersubjetividade de um corpo habitual que transcende sua imanência vidente.
A evidência de uma segunda potência não escapa ao olhar. O sujeito povoado pela percepção e por sentimentos não precisa apontar que o azul está ali, o outro sente sua presença no jogo fabuloso da linguagem e do corpo. O sujeito não pinta o quadro, não pinta o azul, não pinta o claro, não pinta o escuro, no entanto, essas cores são presenças pelo silêncio, pelo sentir, pelo invisível, pelo rastro da alteridade.
“A natureza e a pintura. Em Paul Cézanne é esse o conflito fundamental. Ele só concebe a pintura como expressão da natureza mas sabe que a natureza não é a pintura. Pintar é transformar a natureza em pintura. É negar a natureza mas não eliminá-la . A exclusão da natureza seria, para ele o fim da pintura. Em seu quadro O mar de Estanque, o azul do mar é, ainda que a imagem da água uma mancha azul. Uma mancha que seria a água. Sem alusão à água, a mancha azul não significaria nada. Desse modo a pintura é a superação dialética da natureza, isto é, uma superação que não a elimina e, sim, a transforma”.( Gullar, 2003. p. 61).
O corpo é presente, o olhar perpassa a escrita e a poesia se inunda de cores sujas para transgredir a objetividade do mundo. É preciso recuperar nos corpos visíveis os comportamentos que nele se apresentam, e, no que diz respeito à consciência “precisamos concebê-la não mais como uma consciência constituinte e como um puro ser-para-si, mas como uma consciência perceptiva, como o sujeito de um comportamento, como ser no mundo ou na existência, pois é somente assim que outrem poderá aparecer no cume do corpo fenomenal e receber essa espécie de localidade”.(Ponty, 2006. p. 470-71). A consciência perceptiva que aparece no corpo fenomenal diz respeito ao sujeito que habita o mundo, não é apenas a consciência de um puro ser-para-si. O sujeito que produz o poetar não é apenas um ser- para –si, mas um corpo fenomenal

“Não sei de que tecido é feita minha carne e essa vertigem"
que me arrasta por avenidas e vaginas entre cheiros de gás
E mijo a me consumir como um facho-corpo sem chama,
Ou dentro de um ônibus
Ou no bojo de um Boeing 707 acima do Atlântico
acima do arco-íris
perfeitamente fora
Do rigor cronológico
Sonhado”.


1.1 A espécie de “localidades" do corpo fenomenal, talvez, possa ser esse perder-se entre os corpos e as coisas. Na verdade, existe uma completude visceral entre os corpos e as coisas quase que arrastadas pela linguagem do cotidiano, porque as coisas são do cotidiano e os corpos também. Por isso a fenomenologia trata a linguagem com a evidência das primeiras designações e as ‘esgueira‘ para compor aquilo que se possa dizer de novo.






“Garfos enferrujados facas cegas cadeiras enferrujadas mesas gastas"
Balcões de quitanda pedras da Rua da Alegria beirais de casas
Cobertos de limos muros de musgos palavras ditas à mesa do
Jantar,
(...) vos esgueirais comigo, mesas velhas,
Armários obsoletos gavetas perfumadas de passado,
Dobrais comigo as esquinas do susto
E esperais esperais
Que o dia venha”.
Então o cotidiano dos garfos, cadeiras, balcões, do sujeito, dos armários, das gavetas, traduzem aquilo que Maurice Blanchot diz ser o mais difícil de descobrir: o próprio cotidiano, porque o movimento do cotidiano somos nós mesmos. Desta forma o sujeito que é feito de carne e vertigem se arrasta entre as coisas do cotidiano sendo o cotidiano e o cotidiano sendo, também o outro: eu e não eu: vos esgueirais comigo, mesas velhas,/ armários obsoletos gavetas perfumadas de passado“. O cotidiano se reduz à vida privada e não é a vida privada . O cotidiano é tudo aquilo que escapa, é atual mas é também passado. O cotidiano é suspeito. “O suspeito é essa presença fugitiva que não se deixa reconhecer”. ( Blanchot, 2007. p. 236).
“quanta coisa se perde
Nesta vidaComo se perdeu o que eles falavam ali
mastigando
misturando feijão com farinha e nacos de carne assada
e diziam coisas reais como a toalha bordada
ou a tosse da tia no quarto
e o clarão do sol morrendo a platibanda em frente à nossa
janela
tão reais que
se apagaram para sempreOu não”?
O que escapa ao sujeito enquanto ele está mastigando, misturando, pensando, resmungando, vivendo? Os pequenos nadas do cotidiano escapam em movimentos inexatos nos quais o sujeito ora aparece mergulhado no cotidiano, ora privado dele: “como se perdeu o que eles falavam”. Por isso, “o cotidiano tem esse traço essencial: não se deixa apanhar. Ele pertence à insignificância, e o insignificante é sem verdade, mas é também o lugar de toda significação possível. O cotidiano escapa”. (Blanchot, 2007. p. 237). Daí a arte ter essa proximidade tão próxima com o cotidiano, a redundância vem para assinalar como a explicação, também, pode escapar. A explicação escapa, se projeta na alteridade, na fala falada, mas deixa seu rastro na segunda potência, na mancha azul. Quando a poesia ainda não existia, mas seu rastro é presente.
“Plantas. Bichos. Cheiros. Roupas.
Olhos. Braços. Seios. Bocas.
Vidraça verde, jasmim.
Bicicleta de domingo.
Papagaios de papel.
Retreta na praça.
Luto.
Homem morto no mercado.
Sangue humano nos legumes.
Mundo sem voz. Coisa opaca.
(...)
Soube depois: fala humana, voz de
Gente, barulho escuro do corpo, intrecortado de relâmpagos”.

O campo social é uma dimensão permanente da existência, talvez até se possa desviar dele, mas nunca deixar de estar situado em relação e ele. A relação com o social é mais profunda do que qualquer outra percepção ou juízo.

”Os dois lados sempre se encontram, o cotidiano com seu lado mais aspecto sempre fastidioso, penoso e sórdido (o amorfo, o estagnante), e o cotidiano inesgotável, irrecusável, e sempre inacabado e sempre escapando às formas ou às estruturas (...) E que entre esses opostos possa haver uma certa relação de identidade é o que permite passar de um a outro, quando o espontâneo, isto é, o que subtrai as formas, o informal, torna-se o amorfo, e quando (talvez) o estagnante se confunde com a corrente da vida, que é também o próprio movimento da sociedade”. (Blanchot, 2007. p. 237).
O corpo próprio está no espetáculo visível que é o puro movimento do mundo, da sociedade. Um corpo vidente e visível em contínuo desdobramento, ser- para – si e o ser- no-mundo. Um corpo que ‘crepita’ sua verdadeira existência no mundo. Toda essa transcendência é também a sexualidade, porque é “na história sexual, concebida como a elaboração de uma forma geral de vida, podem introduzir todos os motivos psicológicos, porque não há interferência de suas causalidades e porque a vida genital está engendrada na vida sexual do sujeito”. ( Ponty, 2006. p. 219). Um pouco dessa transcendência é traduzida pelo corpo fenomenal em alguns versos do Poema sujo. O movimento e envolvimento do eu com o outro, estar dentro do outro, um perder-de-si . A percepção dessa transcendência permite lembrar que Merleau Ponty aponta o corpo como uma obra de arte.
“fazendo o sangue que faz a carne e o pensamento
e as palavras
e as mentiras
e os carinhos mais doces de mais sacanas
mais sentidos
para explodir como uma galáxia
de leite
no centro de tuas coxas no fundo
de tua noite ávida
cheiros de umbigo e de vagina
graves cheiros indecifráveis
como símbolos
do corpo
do teu corpo do meu corpo
corpo
que pode um sabre rasgar
um caco de vidro
uma navalha
meu corpo cheio de sangue
que o irriga como um continente
ou um jardim” (...).ConclusãoAssim, nesta breve meditação sobre arte e fenomenologia procurei rascunhar alguns, breves, momentos do extenso Poema sujo nos quais o olhar fenomenológico permite esta imbricação. Na verdade, parece ocorrer nos versos do poema um convite para este espetáculo, ou para este rebento. Um rebento necessário para a alteridade que é a própria arte, ou este cordão umbilical que alimenta arte e filosofia e traduz a carnalidade da própria carne. O sujeito encarnado no mundo perceptivo, o corpo fenomenal, visível e vidente, que reaprende a ver o mundo. O sujeito que transita entre os infinitos versos do poema é isso carne da própria carne, vive e sente o mundo, sua carnalidade, as coisas, a linguagem. Os fragmentos do Poema sujo, apresentados nesta breve fala, não obedecem à seqüência do poema, a escolha foi arbitrária, no entanto, respeita-se a composição poética. Resta ainda o rastro do sujeito a me perseguir, não sei ainda se ele precisa de uma definição neste “jogo insensato de escrever”. Afinal o outro sempre escapa, mesmo deixando seu rastro, assim pode escapar também uma explicação na própria intersubjetividade.

Referências Bibliográficas
[1] BANDEIRA, Manuel.Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993.
[2] BLANCHOT, Maurice. A fala cotidiana. In.: A Conversa Infinita 2: a experiência limite. Tradução João Moura Jr. São Paulo: Escuta, 2007.
[3] GULLAR, Ferreira. Relâmpagos – dizer e ver. São Paulo: Cosac e Naify, 2003.
[4] ______________. Poema Sujo. In.: Toda Poesia. Rio de Janeiro: José Olimpio, 1997.
[5] LEITE, Maria. O sujeito na teoria lacaniana. www. Psicanaliselacaniana.blogspot.com
[6] MERLEAU – PONTY, Maurice. O fantasma de uma linguagem pura. In.: A prosa do mundo. Tradução Paulo Neves. São Paulo: Cosac e Naify,2002.
[7]____________________. Outrem e o mundo. In.: Fenomenologia da Percepção. Tradução Carlos Alberto Ribeiro de Moura.3.ed. São Paulo: Martins Fonte, 2006.
[8] ______________________. O corpo sexuado. In.: Fenomenologia da Percepção. Tradução Carlos Alberto Ribeiro de Moura.3.ed. São Paulo: Martins Fonte, 2006.
[9] MÜLLER - GRANZOTTO, Marcos José . Típica ou criação; o problema da universalidade a luz da teoria Merleau-pontyana da expressão. In.: Questões da filosofia contemporânea. Anderson Gonçalves, Débora Morato Pinto, Luiz Damon Santos Moutinho, Paulo Vieira Neto, Rodrigo Brandão.(Org.) . São Paulo e Curitiba. Edusp e Editora da UFPR,2006. p. 157 -170
[10] ___________________ . Merleau-Ponty e Lacan: a respeito do Outro. Texto inédito. UFSC, 2007.

Autor(es)

[1] Marcia Bianchi, Doutoranda.
Universidade Federal de Santa Catarina.
mmarbianchi@uol.com.br

quarta-feira, julho 23, 2008

“No nível do inconsciente o sujeito mente."





Lacan – Seminário - a ética da psicanálise - Livro VII


O princípio do prazer, como equilíbrio do nível de excitação presente no aparelho psíquico, fica do lado da homeostase introduzida pela articulação significante. Enquanto do lado da Coisa, do excesso, habita o além do princípio do prazer.Esta oposição entre o princípio do prazer e a Coisa aparecerá duplicada na teoria da libido. Por um lado, haverá uma libido deduzida do princípio do prazer, que é o próprio desejo como efeito da cadeia significante. Por outro lado, haverá a libido como gozo.
O inconsciente, uma vez que tem estrutura de linguagem, fará parte do registro simbólico, e se limitará ao princípio do prazer, participando desta forma, da defesa contra o real do gozo. A Coisa não tem lugar na estrutura.
É por essa concepção que Lacan não terá dificuldade de dizer que no nível do inconsciente o sujeito mente.

segunda-feira, julho 21, 2008

Conversas do Grupo

Marcia Bianchi - que escreve sua tese de doutorado na Literatura - participou e apresentou trabalho no último Congresso da Abralic. De volta a Florianópolis, me mandou um e-mail contando as suas impressões do Congresso. Transcrevo, a seguir, o e-mail da Márcia porque acredito que ele faz parte da narrativa que estamos construindo no grupo. Aproveito, ainda, para convidá-la a publicar o trabalho neste espaço.

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Maria,

Participar da Abralic foi uma experiência ótima, penso que eu mereci mesmo estar lá. Fazer novos amigos e ouvir tantos discursos filosóficos, passear pela história do sujeito pelo viés das muitas falas. Filósofos e Literatos buscando uma forma amorosa de falar de arte e poesia. Fenomenologia sartreana predominou nas muitas conferências, imbricada no discurso psicanalítico de Lacan. Gostei muito do Congresso, e, São Paulo faz bem aos sentidos.

Marcia.




sexta-feira, julho 18, 2008

Clínica Lacania

O que faz o psicanalista lacaniano?

1 - não recua diante da desesperança de sujeitos que foram sentenciados pelas contingências (na forma de sentença judicial, diagnóstico médico, encaminhamento de familiares, etc.)

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2 - acolhe (sem resignar-se nem compadecer-se) o insuportável de cada um que o procura;
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3 - intervém para esvaziar a consistência dos discursos e seus diferentes imperativos;

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4 - aposta na vitalidade da psicanálise para interpretar os discursos (familiares, médicos, pedagógicos, jurídicos e etc..) que subjugam um sujeito, inviabilizam sua existência ou fazem dela uma tragédia;

######

5 - estabelece parcerias com instituições (a universidade, o judiciário, o hospital etc.) que ofereçam condições para potencializar o ato analítico, produzindo um pouco mais de satisfação como efeito;

######

6 - trabalha de modo a modificar diagnósticos, prognósticos e até a direção do tratamento médico, da orientação pedagógica, da decisão judicial e muitos outros procedimentos;

######


7 - reinsere, na consideração da sociedade líquida, a dimensão invariável do vivo, da sexualidade e da morte, pois sabe que, somente assim, se pode reinventar o uso do corpo e dos laços sociais;

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8 - condena à prescrição todo imperativo mortificante e toda sentença mórbida que vige sobre o sujeito, que de direito deve permanecer vivo;

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9 - coloca seu trabalho à prova da conversação, submetendo o relato de seus casos (princípios, métodos e resultados) ao escrutínio da comunidade científica e psicanalítica; e

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10 - transmite suas descobertas de modo claro e pouco ritualizado, facilitando a adesão de diferentes comunidades ao discurso psicanalítico e provocando, nesse movimento vivo, a constante reinvenção da psicanálise.
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(da jornada SAMPARIOCA, 28 de junho de 2008)

domingo, julho 13, 2008

Manoel de Barros


Estado - Nesse longo percurso, ao que parece, quase nada do menino pantaneiro se perdeu.
Manoel - Eu não mudei. Até hoje me entendo muito com as crianças. Elas são inteligentes, descobrem coisas que a gente não vê. Têm a sintaxe torta. Eu tenho em mim, sempre, um lado muito grande de brejo, de natureza. Acho que sou extraído das palavras. Os lacanianos adoram quando digo essas coisas.


Estado - Você conhece algum?
Manoel - Muitos. Eles não me deixam. Eu me correspondo há muito tempo com o M. D. Magno. Em Campo Grande, há um grupo de analistas lacanianas com quem saio uma ou duas noites por semana para tomar umas cervejas. Elas pensam que minha poesia comprova as teorias de Lacan. 


Estado - Você concorda com essa tese? 

Manoel - Só sei dizer que a palavra é o nascedouro que acaba compondo a gente. O poeta é um ser extraído das palavras. Não é a gente que faz com as palavras, são as palavras que fazem com a gente. O meu texto é isso.

Estado - E a natureza onde fica? 
Manoel - Somos parte da natureza. E, do mesmo modo, somos parte das palavras também. Quantas vezes uma palavra interrompe a gente e aparece? Quantas vezes ela se impõe sem que possamos entender por quê? Uns pensam que é mediunidade, mas é a palavra que fala em nós. Para um poeta, a palavra que se impõe é mais forte que o sentido. 

Estado - A palavra está, então, acima de tudo.

Manoel - Eu considero que, na escala dos valores humanos, o sujeito que mexe com palavras está em primeiro lugar. Recebo aqui em casa muitos poetas, e muitos maus poetas, e sempre lhes digo isso. Mesmo nos maus poetas a palavra já é uma qualidade. Só essa dedicação à gratuidade da palavra já merece meu respeito. Ser poeta é dedicar-se às inutilezas - que é como chamo as coisas inúteis.

Estado - De onde vem seu interesse particular pelos pássaros?

Manoel - Antes das palavras vem o canto puro, sem sentido, que é aquilo que está no bico dos pássaros. O canto é ágrafo, não admite escrita. Só depois dele é que as palavras aparecem. Existe uma continuidade entre o canto dos pássaros e as palavras humanas. O canto dos pássaros é uma "despalavra".

Estado - Seus poemas estão cheios, também, de insetos. Muita gente sente repulsa por insetos, você não?

Manoel - Meu impulso poético me diz que as coisas grandes devem ser desequilibradas com as pequenas. Tenho uma atração pelas coisas mínimas. O ínfimo tem sua grandeza e ela me encanta. Gosto muito das coisas desimportantes, como os insetos. Não só das coisas, mas também dos homens desimportantes, que eu chamo de "desheróis". 

Estado - Daí seu interesse por Charles Chaplin? 

Manoel - Chaplin descobriu o encanto dos vagabundos. Queria celebrar o ínfimo, o pobre coitado, o homem jogado fora, o joão-ninguém. Mas eu tomei gosto pelo desimportante lendo o Gogol, um escritor que exaltou como ninguém o homem sem valor, sem qualidade. Estou sempre relendo O Capote. A literatura do homem desqualificada, do pobre diabo, começou com Gogol.
....

Estado - No Pantanal, a natureza ainda se sobrepõe à cultura.

Manoel - É um lugar edênico. Eu diria adâmico. Está na origem do mundo. Parece que a formação geológica do Pantanal ainda não terminou. Claude Lévi-Strauss, quando o visitou, observou que seus rios não têm profundidade, não têm barrancos. O Pantanal é um lugar primário, não terminado, sem feições definitivas. É muito inquieto, muito incorreto, sem disciplina. "No Pantanal não se pode passar a régua", eu escrevi. A régua impõe limites e o Pantanal não tem limites. Tem uma estrutura aquática que não permite que ele seja modificado.

Estado - Você escreveu também: "O artista é um erro da natureza." Pode explicar isso?

Manoel - Mas eu também escrevi: "Beethoven é um erro perfeito." Logo, o erro é a perfeição. O artista é um doente, não é um homem normal. É sempre um psicótico, tem um desvio de sensibilidade, algo assim. Minha principal qualidade literária é minha visão torta do mundo - logo, minha principal qualidade literária é minha doença. Escrever que "Beethoven é um erro perfeito" é uma idéia torta, não é? Escrever que "o silêncio do mar é azul" também é uma idéia torta, porque silêncio não tem cor. E, no entanto, eu escrevi isso e as pessoas consideram. Todo artista tem um desvio lingüístico e é ele que forma seu estilo. 


Estado - O estilo é uma condenação?

Manoel - O estilo é um estigma, é uma coisa que marca. Já vem com as nuances do indivíduo. O estilo é coisa quase genética. Todo escritor surge de uma doença. Quanto mais um escritor é atingido pela anormalidade, mais seu estilo aparece.
....

Estado - Já em seu caso parece que o gozo com as palavras está acima de tudo. É isso?

Manoel - É verdade, eu gozo com as palavras. Já escrevi: "Meu gozo é no fazer." É no fazer o verso que o poeta goza. Eu tenho isso: todo verso meu, eu gozei nele. Não escrevo muito porque eu demoro muito para gozar. Eu trabalho muito em cima das palavras, bolino muito as palavras, acaricio. "Uma palavra tirou o roupão para mim", eu escrevi. E é exatamente isso o que acontece.

José Castello entrevista o poeta Manoel de Barros.
In: Jornal de Poesia

segunda-feira, julho 07, 2008

A Logosfera





Tudo aquilo que lemos ou ouvimos cobre-nos
como uma camada de forração,
cerca-nos e envolve-nos como um meio:
é a logosfera.

R. Barthes

quinta-feira, julho 03, 2008

Felicidade




"Dizemos para nós mesmos que as pessoas felizes devem estar em alguma parte. Pois bem, se vocês não tiram isso da cabeça é que não compreenderam nada da psicanálise".

(Jacques Lacan, Seminário Livro 3, aula de 11-01-1956).

sábado, junho 28, 2008

O bom uso da besteira


Longe de corresponder meramente a um estado de privação, a besteira consiste numa força positiva, estável e triunfante. O tolo é antes de tudo um opressor. Bata ligar a televisão para perceber o quanto o seu triunfo encontra-se solidamente assegurado na realidade. Pois a realidade, enquanto domínio das representações coesas, é de fato o que mais resiste, por estrutura, a todo efeito de dispersão. Por isso a besteira é inabalável, confessava a sua sobrinha um consternado Flaubert, ao comentar seu projeto de compor Bouvard e Pécuchet. Não há nenhum pensamento importante que a besteira não saiba usar, admitia o não menos desolado Ulrich, o homem sem qualidades de Robert Musil. Donde a constatação inevitável de que, para se comunicar, há que se ser um pouco besta. A razão, esclarece Jean-Claude Milner, é que todo discurso exige, da parte do sujeito, que ele fale em nome de algum laço coletivo, anestesiando-se com relação aos cortes que poderiam dissolvê-lo. Convém inclusive sabê-lo para não resistir à besteira além da medida, ao ponto de sucumbir nas manias da anacorese intelectual: "Não se deve chegar ao ponto de não suportar que haja demanda e semblant: ingenuidade cujo salário é a honra estéril e o preço, o isolamento".

"Do bom uso da besteira"
Antônio Teixeira, in: A Soberania do inútil
e outros ensaios de psicanálise e cultura,
São Paulo: Annablume,2007

quarta-feira, junho 11, 2008

Nelson Rodrigues: Fragmento




De fato, o futebol brasileiro tem tudo, menos o seu psicanalista. Cuida-se da integridade das canelas, mas ninguém se lembra de preservar a saúde interior, o delicadíssimo equilíbrio emocional do jogador. E, no entanto, vamos e venhamos: - já é tempo de atribuir-se ao craque uma alma, que talvez seja precária, talvez perecível, mas que é incontestável. (...)
(...) E aqui pergunto: - que entende de alma um técnico de futebol? Não é psicólogo, não é psicanalista, não é nem mesmo um padre. Por exemplo: - no jogo Brasil x Uruguai entendo que um Freud seria muito mais eficaz na boca do túnel do que Flávio Costa, um Zezé Moreira, um Martim Francisco. Nos Estados Unidos, não há uma Bovary, uma Kerênina que não passe, antes do adultério, no psicanalista. Pois bem: - teríamos sido campeões do mundo, naquele momento, se o escrete houvesse freqüentado, previamente, por uns cinco anos, o seu psicanalista.


Assim falou Nelson Rodrigues...
em abril de 1956.

domingo, junho 08, 2008

Dossiê Jacques Lacan - Cult






"O Sofrimento na Contemporaneidade"


O “Dossiê Jacques Lacan” elaborado pela revista Cult – junho/2008 – está de parabéns. São sete ótimos textos que transitam com delicadeza pela extensa e densa floresta conceitual desenvolvida por Lacan ao longo de seus muitos seminários e textos.


Vlademir Safatle inicia o dossiê com uma declaração que, por certo, provocará algumas querelas. Segundo Safatle, talvez seja impossível entender o início do século 21 sem passar por Lacan. “Não apenas devido à maneira com que, atualmente, conceitos seus são mobilizados para dar conta de questões maiores no interior da política, da teoria social, da filosofia, da crítica da cultura; mas também devido à maneira com que autores fundamentais para a contemporaneidade, como Michel Foucault, Gilles Deleuze, Jacques Derrida e, mais recentemente, Alain Badiou, Judith Butler, Ernesto Laclau, Slavoj Zizek construíram suas questões em confrontação e diálogo com Lacan”.

Já em “Revolução na Clínica”, Christian Ingo Lenz Dunker mostra porque a psicanálise não é uma terapia: quando a terapia termina, a análise começa.
No terceiro texto, Richard Theisen Simanke, provavelmente provocado por um dos últimos textos de Badiou, discute a antifilosofia na obra de Lacan.

Logo em seguida, Tânia River apresenta, em “Estética e descentramento do sujeito”, a influência da arte no pensamento lacaniano, e a influência do pensamento lacaniano no modo de pensar a estética contemporânea.

Em “Política, classe e singularidade”, Antônio Teixeira demonstra, com maestria, como a psicanálise pode articula a singularidade da clínica ao universal dos discursos.

O texto de Slavoj Zizek – Não existe grande Outro – fecha o dossiê em grande estilo. Para esse filósofo, com a releitura lacaniana da obra de Freud, a psicanálise continua sendo uma referência importante para nos orientar diante das inúmeras escolhas morais da atualidade.

Ao final da leitura do dossiê só nos resta gritar BRAVO, e pedir bis.

sexta-feira, junho 06, 2008

O paradoxo do sexo

Francisco Bosco escreve muito bem sobre muitos temas. Acaba de defender um doutorado em semiologia, e desponta como um grande ensaísta.
Vale a pena ler esse ensaio de Bosco
publicado na última edição da revista Cult.
O paradoxo do sexoHá, de fato, mais ou menos liberdade de acordo com as opções sexuais?
Por Francisco Bosco



Alguns acontecimentos recentes permitem apontarmos um paradoxo no modo como se pensa a sexualidade hoje, no Brasil, ou pelo menos nas suas cidades maiores e mais cosmopolitas. Vejamos os dois lados contraditórios da moeda. De um lado, têm se tornado freqüentes as declarações públicas de celebridades a respeito de sua sexualidade plenamente livre: gosto de homens, gosto de mulheres, sou bi, tri, penta, e o que mais tiver vontade de ser. Ora, do ponto de vista ético, isso está perfeito: cada um agindo de acordo com seu desejo, desde que esse desejo não interfira na liberdade do de outras pessoas. O problema, entretanto, está nessa concepção de sexualidade e, simultaneamente, na concepção de liberdade de que se faz o elogio, vinculando uma coisa à outra.
Já faz mais de um século que Freud, em seu revolucionário "Três ensaios sobre a teoria da sexualidade", afirmou que entre a pulsão sexual e seu objeto não existe uma relação inata e com uma direção normal, mas sim, para usar a sua precisa metáfora, uma solda. Todo sujeito possui uma quantidade de energia sexual (libido), mas os objetos sexuais sobre os quais o sujeito investirá essa energia são independentes dela mesma. Trocando em miúdos, ninguém nasce heterossexual, homossexual, bissexual, multissexual; no princípio há apenas a libido. Isso, entretanto, não significa que a pulsão sexual de cada sujeito poderá escolher, em sua vida adulta, qualquer objeto que sua vontade determinar. A "escolha" dos objetos vai sendo determinada pela singularidade da formação do sujeito, por meio de tramas complexas, identificações, alienações constitutivas, marcas, recalques etc. Está claro que escrevi "escolha" assim, entre aspas, porque o que está em jogo tem pouco ou nada de voluntário.

Não quero com isso incorrer num fatalismo da formação da sexualidade, que determinaria para todo sempre o destino da mesma em cada sujeito. Acredito que há acontecimentos na vida que podem mudar as regras do jogo, transformando o sujeito no cerne mesmo de suas fantasias, isto é, efetuando rupturas, abrindo novos caminhos, reconfigurando sua sexualidade. Mas esses acontecimentos não são propriamente cotidianos, são raros; ou seja, a sexualidade não é um campo plenamente livre, no sentido de uma tabula rasa a se deixar escrever por escolhas conscientes, voluntárias. Mesmo um sujeito com uma sexualidade que permite uma ampla gama de escolhas de objetos é um sujeito marcado pela determinação de seu desejo. Essa possibilidade é tão singular e marcada por uma história pessoal quanto qualquer outra. Um sujeito bissexual não me parece mais livre, sob essa perspectiva, do que um heterossexual homofóbico, por exemplo.

Mas o que é ainda mais questionável é a própria concepção de liberdade que está em jogo nessa declaração de irrestrita e incondicionada liberdade de escolha objetal. Ao associar a liberdade ao poder de escolher entre uma multiplicidade ilimitada de objetos sexuais, o que parece ocorrer é uma extensão do ditame do hiperconsumo à esfera da sexualidade. No entanto todos sabemos que não somos necessariamente mais felizes por poder escolher um perfume numa loja que os tem aos milhares. Portanto fica a pergunta: haverá mesmo alguma vantagem existencial em se representar a sexualidade sob a lógica do free shop?

Liberdade sexual
Por outro lado, o episódio envolvendo o jogador Ronaldo e três travestis fez vir à tona o avesso daquela liberdade improvável: a homofobia, a hipocrisia, o machismo, o conservadorismo, em suma, o que há de pior nas representações sociais da sexualidade. Ronaldo está sendo condenado, digo, massacrado, porque pegou travestis para fazer um programa. Não nos confundamos: o massacre nada tem a ver com o possível consumo de drogas pelo jogador, com o fato de ele ter se envolvido com prostituição ou com as implicações éticas que esse ato traz à sua relação amorosa (ele está, ou estava, noivo). As pessoas que o condenam parecem autorizar o consumo ilegal de drogas, o sexo pago e a "traição" masculina (não vou entrar no mérito desses três pontos), mas se sentem aviltadas por um ídolo ter ido parar num motel com travestis.

Pior, o próprio Ronaldo faz coro aos que o julgam. A entrevista que ele concedeu ao Fantástico, no dia 4 de maio, foi um dos momentos mais deploráveis da televisão brasileira. O jogador disse inúmeras vezes estar "profundamente envergonhado" por ter cometido um "erro gravíssimo" e assegurou todos quanto à sua heterossexualidade convicta. Argumentar que, em o fazendo, Ronaldo estava pensando na manutenção de seus contratos de publicidade apenas reforça o que se deve dizer com todas as letras: Ronaldo comportou-se como um covarde, um hipócrita, e subscreveu a pressão homofóbica. Se houve "erro gravíssimo" de Ronaldo, e houve, foi esse: o de admitir uma culpa que não lhe cabe e, com isso, contribuir para a falta de liberdade sexual de nossa sociedade.

Assim verificamos o paradoxo a que o título dessa coluna se refere. De um lado - entre os "artistas", as celebridades e os "descolados" - apresenta-se uma concepção duvidosa da sexualidade e uma concepção ainda mais duvidosa da liberdade; de outro, apresenta-se uma concepção normatizante da sexualidade, que condena qualquer suposto desvio e, assim, atenta contra a liberdade da sexualidade. Em meio a isso, que idéia mais vantajosa de liberdade podemos oferecer? Já será um grande passo se conseguirmos realizar essa, de tão simples aparência: que cada sujeito possa exercer a sexualidade de acordo com seu desejo, desde que não oprima o desejo do outro.

quinta-feira, junho 05, 2008

Aula: A Constituição do Sujeito em Lacan

11ª. Aula
03 de junho de 2008


A constituição do sujeito em Lacan


Em Lacan (1979), a proposição de um Outro está intimamente ligada à discussão sobre as duas grandes operações de constituição do sujeito, tais como as podemos encontrar no seminário XI. Para dizê-las de modo sintético, são elas as operações de alienação e separação: em ambas trata-se de descrever o advento do sujeito enquanto duplo efeito de “falta” gerado pela sobreposição de dois campos distintos: o campo do ser (ou das pulsões parciais) e o campo do significante (em que propriamente encontramos a teoria lacaniana do grande Outro).
Com a noção de alienação, Lacan se propõe descrever o processo de formação do sujeito visado pela psicanálise, processo esse que coincide com a descrição da entrada da criança no mundo da linguagem. Para um infante, que ainda não “sabe” nada de si, a fome, por exemplo, não tem sentido determinado. Ela não tem correspondência com um tipo específico de alimento ou demanda intersubjetiva. Tal só vai acontecer à medida que o infante for sendo “atravessado” pela linguagem. Num primeiro “estádio”, o infante encontra, junto ao corpo daquele que lhe fala, o anteparo imaginário, na mediação do qual ela vai se constituir como um significante de sua própria unidade, de sua própria forme. Logo a seguir, entrementes, o significante dessa fome vai ser subsumido por Outro falante que, mais do que como um corpo especular, apresenta-se como um cardápio de significantes. Na mediação desse cardápio, o significante da fome adquirirá o status de finalidade, meta, enfim, sujeito. De onde se segue, para Lacan, que o sujeito é sempre um efeito da linguagem, a alienação do infante na e pela linguagem. Nas palavras de Lacan (1979, p. 187), “(o) sujeito nasce no que, no campo do Outro, surge o significante. Mas, por este fato mesmo, isto – que antes não era nada senão sujeito por vir – se coagula em significante.” A linguagem, a sua vez, é para Lacan, a primeira forma de apresentação do que seja o Outro: esse lugar em que se situa “a cadeia significante que comanda tudo o que vai poder presentificar-se como sujeito” (1979, p. 193-4).
Isso não significa que o sujeito assim parido (assim falado ou, seria o caso de dizer, assim falido) corresponda ao ser do infante. Enquanto efeito da captura do infante pelo discurso, o sujeito não coincide com o próprio ser do infante. Este resta separado, perdido, como aquilo que não pode ser significado pelo Outro. Razão pela qual, vai dizer Lacan, “a relação do sujeito com seu próprio discurso sustenta-se, portanto, em um efeito singular: o sujeito só está ali presentificado ao preço de mostrar-se ausente em seu ser” (Lacan, 1979, p. 178). Alienado na e pela linguagem, o sujeito experimenta-se como sentido, como uma interrogação para a qual o Outro pode ter uma resposta. Mas, também, experimenta-se como radicalmente inessencial, porquanto as respostas não coincidem com seu ser. De onde se segue que, sob a forma da alienação, urge um sujeito dividido, por um lado marcado por um significante (que vem do Outro e que, no Outro, sempre pode se renovar), mas também perdido, desprovido de ser, sujeito “falta-a-ser”. A bem da verdade “(d)uas faltas aqui se recobrem”, diz Lacan no Seminário XI (1979, p. 194-5): uma “é da alçada do defeito central em torno do qual gira a dialética do advento do sujeito a seu próprio ser em relação ao OUTRO – pelo fato de que o sujeito depende do significante e de que o significante está primeiro no campo do Outro. Esta falta vem retomar a outra, que é falta real, anterior, a situar no advento do vivo, quer dizer, na reprodução sexuada”.
Essa divisão, entrementes, abre a possibilidade para a segunda operação descrita por Lacan, a saber, a separação. Nela, não se trata mais de mostrar os efeitos da alienação (o sujeito e seu resto). Trata-se de fazer ver como o sujeito, não obstante persistir atrelado aos laços significantes estabelecidos no seio do grande Outro, ainda assim pode operar com esse Outro desde outro lugar, desde um lugar separado precisamente: o lugar da falta, o lugar da “falta-a-ser”. Para tal, o sujeito faz da sua falta um objeto (o objeto “pequeno a”), que assim é oferecido ao Outro como aquilo que o Outro não pode ter, desencadeando, nesse Outro, uma falta correlata. Dessa forma o sujeito não só faz de sua própria falta um objeto, quanto a reencontra no Outro, como aquilo que o Outro não pode ter. Eis aqui o desejo, que é esse comércio impossível, em que ofereço ao Outro a minha falta, para ter dele a sua falta. De onde se segue a conseqüência de que, agora, o Outro já não é mais o cardápio, o tesouro de significantes a partir do qual o sujeito emerge como “falta-a-ser”. O Outro é também ele um faltante. Tal como o sujeito, também o Outro é barrado. Nas palavras de Colette Soler (1977, p. 63), “(o) Outro implicado na separação não é o Outro implicado na alienação. É um outro aspecto do Outro, não o Outro cheio de significantes, mas ao contrário, um Outro a que falta alguma coisa”.
Esse operar com a falta, que define o sujeito na separação, não significa que Lacan aposte em algum tipo de familiaridade negativa, às avessas, entre o sujeito e seu ser, ou entre o sujeito e o ser do outro semelhante. Não se trata de ressuscitar, às avessas, o mito de Aristófanes, como se o sujeito sempre pudesse encontrar sua metade na metade do outro semelhante. Essa fantasia é apenas um efeito da cadeia simbólica em que o sujeito está alienado. Trata-se da ilusão de que possa haver um significante outro que recupere, represente, signifique aquilo que falta. Todavia, do ponto de vista daquilo que é real, daquilo que se apresenta nas pulsões parciais, o desejo é sempre um desejo de falta e o amor, uma relação impossível. Não há familiaridade entre o sujeito e o semelhante, o que talvez explique em que sentido, para Miller, a tese merleau-pontyana do co-pertencimento do sujeito e do próximo ao mesmo ser de indivisão constitua o antípoda da tese lacaniana. Em certo sentido, para Miller, a teoria merleau-pontyana da reversibilidade e a mitologia de Aristófanes compartilham o mesmo ímpeto imaginário que faz da relação intersubjetiva o emblema de nossa comunhão com a natureza.

Merleau-Ponty e Lacan: a respeito do Outro
Marcos José Muller-Granzotto

OUTRO(S) NUM CASAMENTO

Uma conversa com Marcos José Müller, autor do recém lançado Outro(s) num Casamento. MARIA: Gostaria em primeiro lugar que você fala...