segunda-feira, abril 06, 2009



Textos para o Cartel de MG
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O espelho
Esboços de uma nova teoria da alma humana
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Machado de Assis
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Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo.

Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e cinqüenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante, e respondeu:


- Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.

Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça, cada sentença; não só o acordo, mas a mesma discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela inconsistência dos pareceres. Um dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, - uma conjetura, ao menos.

- Nem conjetura, nem
opinião, redargüiu ele; uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas...

- Duas?

- Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para entro... Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior aquele judeu eram os seus ducados; perdê-los equivalia a morrer. "Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um punhal que me enterras no coração." Vejam bem esta frase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma...

- Não?

- Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela minha parte, conheço uma senhora, - na verdade, gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera; cessando a estação, a alma exterior substitui-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do Ouvidor, Petrópolis...


- Perdão; essa senhora quem é?

- Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome; chama-se Legião... E assim outros mais casos. Eu mesmo tenho experimentado dessas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus vinte e cinco anos...


Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! tu não és só a alma da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta divina, de outro sabor que não aquele pomo da mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos estão no Jacobina, que conserta a ponta do charuto, recolhendo as memórias. Eis aqui como ele começou a narração:

- Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da Guarda Nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na vila, note-se bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na Escritura; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e que esses perderam. Suponho também que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distinção. Lembra-me de alguns rapazes, que se davam comigo, e passaram a olhar-me de revés, durante algum tempo. Em compensação, tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos... Vai então uma das minhas tias, D. Marcolina, viúva do Capitão Peçanha, que morava a muitas léguas da vila, num sítio escuso e solitário, desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda. Fui, acompanhado de um pajem, que daí a dias tornou à vila, porque a tia Marcolina, apenas me pilhou no sítio, escreveu a minha mãe dizendo que não me soltava antes de um mês, pelo menos. E abraçava-me! Chamava-me também o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher. Jurava que em toda a província não havia outro que me pusesse o pé adiante. E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como dantes; e ela abanava a cabeça, bradando que não, que era o "senhor alferes". Um cunhado dela, irmão do finado Peçanha, que ali morava, não me chamava de outra maneira. Era o "senhor alferes", não por gracejo, mas a sério, e à vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na mesa tinha eu o melhor lugar, e era o primeiro servido. Não imaginam. Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples... Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI. Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição. O espelho estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom...

- Espelho grande?

- Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho estava na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que a demovessem do propósito; respondia que não fazia falta, que era só por algumas semanas, e finalmente que o "senhor alferes" merecia muito mais. O certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. Imaginam, creio eu?

- Não.

- O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. Custa-lhes acreditar, não?


- Custa-me até entender, respondeu um dos ouvintes.

- Vai entender. Os fatos explicarão melhor os sentimentos: os fatos são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou o movimento andando. Vamos aos fatos. Vamos ver como, ao tempo em que a consciência do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e intensa. As dores humanas, as alegrias humanas, se eram só isso, mal obtinham de mim uma compaixão apática ou um sorriso de favor. No fim de três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes. Ora, um dia recebeu a tia Marcolina uma notícia grave; uma de suas filhas, casada com um lavrador residente dali a cinco léguas, estava mal e à morte. Adeus, sobrinho! adeus, alferes! Era mãe extremosa, armou logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela, e a mim que tomasse conta do sítio. Creio que, se não fosse a aflição, disporia o contrário; deixaria o cunhado e iria comigo. Mas o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos boçais. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciência mais débil. Os escravos punham uma nota de humildade nas suas cortesias, que de certa maneira compensava a afeição dos parentes e a intimidade doméstica interrompida. Notei mesmo, naquela noite, que eles redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nhô alferes, de minuto a minuto; nhô alferes é muito bonito; nhô alferes há de ser coronel; nhô alferes há de casar com moça bonita, filha de general; um concerto de louvores e profecias, que me deixou extático. Ah ! pérfidos! mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados.


- Matá-lo?

- Antes assim fosse.

- Coisa pior?

- Ouçam-me. Na manhã seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos por outros, ou de movimento próprio, tinham resolvido fugir durante a noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum fôlego humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo; ninguém, um molequinho que fosse. Galos e galinhastão-somente, um par de mulas, que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois. Os mesmos cães foram levados pelos escravos. Nenhum ente humano. Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido? era pior. Não por medo; juro-lhes que não tinha medo; era um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada, durante as primeiras horas. Fiquei triste por causa do dano causado à tia Marcolina; fiquei também um pouco perplexo, não sabendo se devia ir ter com ela, para lhe dar a triste notícia, ou ficar tomando conta da casa. Adotei o segundo alvitre, para não desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma estava mal, eu ia somente aumentar a dor da mãe, sem remédio nenhum; finalmente, esperei que o irmão do tio Peçanha voltasse naquele dia ou no outro, visto que tinha saído havia já trinta e seis horas. Mas a manhã passou sem vestígio dele; à tarde comecei a sentir a sensação como de pessoa que houvesse perdido toda a ação nervosa, e não tivesse consciência da ação muscular. O irmão do tio Peçanha não voltou nesse dia, nem no outro, nem em toda aquela semana. Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de século a século no velho relógio da sala, cuja pêndula tic-tac, tic-tac, feria-me a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade. Quando, muitos anos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei este famoso estribilho: Never, for ever! - For ever, never! confesso-lhes que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina: - Never, for ever!- For ever, never! Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho do nada. E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. O silêncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita, ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Ninguém, nas salas, na varanda, nos corredores, no terreiro, ninguém em parte nenhuma... Riem-se?

- Sim, parece que tinha um pouco de medo.

- Oh! fora bom se eu pudesse ter medo! Viveria. Mas o característico daquela situação é que eu nem sequer podia ter medo, isto é, o medo vulgarmente entendido. Tinha uma sensação inexplicável. Era como um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico. Dormindo, era outra coisa. O sono dava-me alívio, não pela razão comum de ser irmão da morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse fenômeno: - o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me orgulhosamente, no meio da família e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes; vinha um amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de tenente, outro o de capitão ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando acordava, dia claro, esvaía-se com o sono a consciência do meu ser novo e único -porque a alma interior perdia a ação exclusiva, e ficava dependente da outra, que teimava em não tornar... Não tornava. Eu saía fora, a um lado e outro, a ver se descobria algum sinal de regresso. Soeur Anne, soeur Anne, ne vois-tu rien venir? Nada, coisa nenhuma; tal qual como na lenda francesa. Nada mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para casa, nervoso, desesperado, estirava-me no canapé da sala. Tic-tac, tic-tac. Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janelas, assobiava. Em certa ocasião lembrei-me de escrever alguma coisa, um artigo político, um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente; sentei-me e tracei no papel algumas palavras e frases soltas, para intercalar no estilo. Mas o estilo, como tia Marcolina, deixava-se estar. Soeur Anne, soeur Anne... Coisa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel.

- Mas não comia?

- Comia mal, frutas, farinha, conservas, algumas raízes tostadas ao fogo, mas suportaria tudo alegremente, se não fora a terrível situação moral em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, liras de Gonzaga, oitavas de Camões, décimas, uma antologia em trinta volumes. As vezes fazia ginástica; outra dava beliscões nas pernas; mas o efeito era só uma sensação física de dor ou de cansaço, e mais nada. Tudo silêncio, um silêncio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da pêndula. Tic-tac, tic-tac...

- Na verdade, era de enlouquecer.

- Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo, e enlouquecer. - Vou-me embora, disse comigo. E levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado, mutilado... Entrei a vestir-me, murmurando comigo, tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrépito, afligindo-me a frio com os botões, para dizer alguma coisa. De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição de contornos... Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração inexplicável, por um impulso sem cálculo, lembrou-me... Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha idéia...

- Diga.

- Estava a olhar para o vidro, com uma persistência de desesperado, contemplando as próprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento... Não, não são capazes de adivinhar.

- Mas, diga, diga.

- Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e...não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este é Fulano, aquele é Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá. Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir...


Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.
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Cartografia de um Corpo Reinventado
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Francisco Bosco, in: Banalogias
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O corpo das putas é um corpo singular. Uma espécie de mapa em que linhas contratuais organizam regiões de acordo com seu estatuto “jurídico”: cada zona desse corpo assumirá um sentido determinado por sua relação com o fato, primordial, de que se trata de um corpo sob contrato. Ocorre que o fato de haver contrato implica imediatamente o haver também a possibilidade de sua transgressão; é dessa dialética que resultará uma cartografia original, redefinidora dos valores e significações dos lugares do corpo. Toda a trama, complexa, do sexo pago se tece a partir desses dois fios principais, contrato e transgressão.
O primeiro e principal efeito de se pôr o sexo sob contrato é a forma como isso atinge o imaginário. No erotismo não-pago há sempre uma alta dose de imaginário, às vezes cansativa, embora ao mesmo tempo eroticamente poderosa: “quem sou eu para o outro?”, “será que ele me deseja?”, “será que ele vai gostar de minha perfomance?” etc. O contrato, em princípio, é como uma rolha em toda essa hemorragia narcísica. Eu não sou uma imagem para o outro, não preciso seduzi-lo nem ser seduzido por ele, não há dúvidas quanto a que interesse esta em jogo. O contrato zera o imaginário, na medida em que substitui a lógica particular da imagem por aquela, genérica, do dinheiro. Trata-se de reduzir o sexo ao sexo.
Talvez o sentido decisivo do sexo pago seja portanto esse: a anulação do imaginário. É por isso que a prostituição nada tem a ver com o mundo do amor, dos relacionamentos, ou mesmo do sexo sem compromisso. Pode ser que esse último deseje o esvaziamento do imaginário, mas está submetido à lógica da escolha particular, o que acarreta a presença da imagem. Já o sexo pago é um sexo vazio, desde que se entenda isso como sua maior virtude. A coisa se complica, entretanto, pelo fato de que tão forte quanto o apelo do contrato é o apelo de sua transgressão. Entrar no campo do imaginário vazio é expor-se, imediatamente, à tentação de restabelecê-lo sob outras regras. Aqui começa o enredo do sexo pago.
A cartografia do corpo das putas é bastante conhecida, pelo menos em suas regiões mais expressivas: a boca é a zona de maior intimidade, a boceta é o próprio objeto do contrato, o cu pode ou não ser contratuado. É claro que, referindo-me à boca, falo do beijo, e não da tradicional felação, também objeto clássico do contrato. Entre o corpo do “contratante” e o corpo do “cedente” há assim uma série de combinações legais ou infratoras. As infrações, contudo, são de categorias bastante diversas. Putas não gostam que se lhes enfie os dedos na boceta, mas isso é uma infração, paradoxalmente, dentro dos termos da lei: uma espécie de barganha, uma negociação. O contrato do programa estabelece a penetração do pau, não a dedada, mas a dedada é um movimento que se situa ainda na lógica do sexo vazio, irredutível. A mesma coisa quanto ao sexo anal, quando não acordado previamente.
O beijo na boca, contudo, caracteriza uma outra categoria de transgressão, e é aqui que a trama se adensa. O sexo costuma ser o reduto mais inexpugnável da privacidade do sujeito. Submetê-lo à lógica da mercadoria, torná-lo indiscriminadamente público conduz à necessidade de reconfigurar critérios e espaços para a preservação da intimidade. É assim que a boca ressurge, no corpo reinventado das putas, como região interdita ao público, item proibitivo do contrato, lugar que restabelece o corpo privado tornado público pelo contrato. Só que a boca, por esse mesmo movimento de escapar ao contrato, torna-se símbolo desse escape, e converte-se, para o contratante, em objeto do desejo de transgredir a lei.
É um fetiche clássico e uma fantasia banal de virilidade o beijo na boca das putas. Por ele restabelece-se o imaginário, triunfante, sob a forma da distinção transgressora: “ela me escolheu, mesmo sob contrato”, “eu paguei pelo sexo, mas, como sou especial, ela me deu, espontaneamente, a intimidade”. O beijo na boca marca a passagem do geral ao particular, do público ao privado, do grau zero da imagem ao transbordamento do imaginário. Algo semelhante – porém não igual – ocorre quanto ao desejo de o contratante fazer a puta gozar. Pois o contrato prevê apenas o gozo do contratante e, conferindo ao contratado um estatuto pragmático, como que afasta dele a experiência do gozo. De certa forma, a puta não gozar é a lei. O gozo da puta é transgressivo, íntimo, passa ao espaço privado. Isso não quer dizer que a puta não tem prazer enquanto faz sexo profissionalmente, mas, sim, que não tem obrigação de tê-lo, e que a repetição profissional cria um contexto em que seu gozo, imaginariamente, é tomado como uma distinção.
O cruzamento dos imaginários se restabelece no sexo pago, portanto, nestes termos: aquele que paga deseja a intimidade e o privado da puta como transgressão do contrato, transgressão cujo sentido é uma afirmação da auto-imagem; ocorre que a puta sabe disso, e pode negociar sua intimidade, encenando o gozo ou permitindo beijar-se, oferecendo, assim, o espaço privado como recurso profissional, usando a restrição do contrato de forma a sofisticar o uso do próprio contrato. É preciso repetir a ressalva: isso não significa que o gozo da puta é necessariamente encenado, que o beijo na boca é sempre performático, mas sim que toda passagem à intimidade, “falsa” ou “verdadeira” (ou as duas coisas ao mesmo tempo), dá-se a partir dessa trama prévia, no contexto de sua ambigüidade.
Mas talvez a região mais interditada do corpo da puta seja aquela, transgeográfica, do afeto. A palavra é o instrumento mais obsceno do sexo pago. Uma puta dificilmente dá um passo nesse sentido, pois sabe que quem paga o faz para livrar-se, em princípio, do imaginário (o afeto envolve sempre a imagem). Ao mesmo tempo, a puta pode jogar com o afeto, uma vez que o contrato está bem constituído, e então o afeto ressurge como transgressão maior, distinção das distinções: o amor substitui o sexo num lance em que o contrato é espetacularmente rasgado por força de uma particularidade irresistível. Mas também aqui o afeto faz parte de uma trama que inclui o afago no imaginário de quem paga, podendo ser outro recurso profissional.
Mais habitual, talvez, é a passagem ao afeto pelo discurso de quem paga. Aí a questão chega a seu ponto conflituoso máximo. Querer estabelecer uma comunicação afetiva, não-pragmática com uma puta pode ser algo de uma violência insuportável. É preciso não confundir, aqui, o afetivo com a delicadeza. A delicadeza é uma forma pela qual quem paga respeita o trabalho da puta. Já o afeto corre sempre o risco do desrespeito: pode ser tomado, seja como intolerável discurso da redenção (“tenho pena de você, da sua vida”), seja como uma veleidade antropológica (querer saber mais da vida da puta), seja ainda como uma transgressão muito abusiva rumo ao espaço privado. Não importa qual a intenção de quem paga ao fazê-lo, o afeto pode sempre parecer uma forma de mascarar a violência social que não deixa de ser o sexo sob contrato (o que não exclui o prazer, o gozo, a alegria das putas). Sim, o afeto no sexo pago é a cordialidade – no sentido conceitual – em estado puro, com sua ambivalência irredutível: esplendor e obscuridade.
É por isso que, no belo conto do escritor Nilo de Oliveira, “Pornografia Pessoal de um Ilusionista Fracassado” (que consta no livro Putas, antologia de contos luso-brasileiros), um homem leva uma puta de 11 anos a um quarto de hotel, assiste à sua tentativa de parecer uma puta experiente (fazendo strip-tease, performando com segurança), fica com pena de si e dela, coloca-a numa banheira (ela entra contrita, eriçada como um gato), é tomado por um afeto de redenção (dar carinho para redimi-la de sua vida miserável), põe-se a ensaboá-la (limpar as máculas da vida de puta), e quando olha para ela nota que ela o encara... com ódio. É assim que se estupra uma puta: penetrando o para-além de seu corpo. De resto, todo redentor é arrogante.


sexta-feira, abril 03, 2009



A pulsão




A pulsão, conforme Freud, não obedece a nenhuma causalidade ou finalidade predeterminadas numa suposta ordem natural.
A temporalidade das pulsões é completamente indiferente a toda a noção de encadeamento causal, ou seja, a pulsão não participa de nenhuma sequencia de causalidade.
Por não ter nem origem nem meta estritamente definidas, é uma força errante alheia a toda a necessidade biológica ou social.
Por ser uma força errante, nem constitui nem submete-se a um esqueleto inteligível do devir.
Se a pulsão tem uma dimensão histórica, seu devir é devir de devir.
A noção freudiana de pulsão desconstrói toda a idéia que pretenda enxergar a presença de uma razão imanente ao aparelho psíquico, pois sua atuação leva à contradição e a correlações provisórias nas instâncias do aparelho psíquico onde comparece e se motamorfoseia.

domingo, março 15, 2009

Programa e Cronograma do Curso
A leitura lacaniana de “O visível e o invisível”
10/03 – Apresentação do programa
17/03 – Tópico 1 ( Sob quais condições as noções de pulsão escópica - Lacan - e invisível - Merleau-Ponty - se aproximam ou se distanciam?)
17/03 – Idem
24/03 – Tópico 2 (A cura pelo desejo e o lugar da pulsão no primeiro ensino de Lacan.)
31/03 – Idem
07/04 – Tópico 3 (Em torno do objeto a: o retorno a Freud.)
14/04 - Curso com a Dra. Maria Leite
28/04 – Curso com a Dra. Maria Leite

05/05 – Tópico 4 (A constituição do sujeito do inconsciente no Campo do Outro e a separação como resposta à alienação.)
12/05 – Tópico 5 (Do olhar como objeto a minúsculo.)
19/05 – Tópico 6 (Mais além da fenomenologia: o quiasma vidente-visível em Merleau-Ponty)
26/05 – Tópico 7 (O outro como visível e o outro como invisível.)
02/06 – Tópico 8 ( O invisível: chora ou pulsão?)
09/06 – Tópico 9 (Idealidade de horizonte e idealidade cultural: pulsão e arte.)
16/09 – Tópico 10 (Porosidade carnal e o falasser lacaniano.)
23/06 – Tópico 11 (O discurso sobre a sublimação.)
30/06 – Conclusão.
Local: CCE B – sala 325 - UFSC
Horário: 13H30 as 16H30




Pós-Graduação em Literatura
Prof. Dr. Marcos José Müller-Granzotto




sábado, fevereiro 28, 2009

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

O obsessivo e seu desejo


O obsessivo e seu desejo,
segundo o Seminário V de Lacan.


O desejo para o obsessivo se apresenta de forma evanescente, diz Lacan no Seminário V. Essa evanescência do desejo é efeito da dificuldade, do sujeito obsessivo, na relação com o Outro; na medida em que o campo do Outro é o lugar onde se ordena o desejo.

Se, conforme Lacan, o desejo se ordena pelo significante. É no interior do campo Simbólico que o sujeito é obrigado a se exprimir e produzir um efeito de significante, isto é, um significado. Esse é o pacto da constituição do sujeito da linguagem, fora de qualquer imanência. É no interior da experiência que o sujeito tem com a linguagem que vem se formular sua relação com o desejo.

A relação do sujeito com o Outro, e com a vida, é simbolizada por um engodo, uma isca, cujo ponto de referência é o significante do falo. O falo como simbólico tem por tarefa orientar o ser humano com relação a um significado, assim sendo orienta o desejo, e por esta razão se encontra numa posição privilegiada.

Para a teoria lacaniana, a inserção do sujeito no desejo é sempre problemática, pois o desejo se insere através da dialética da demanda, e a demanda sempre pede algo a mais que a satisfação a que ela apela. “Daí o caráter problemático e ambíguo do lugar onde se situa o desejo.” Esse lugar está para além da demanda, na medida em que esta visa à satisfação: o desejo busca algo a mais, algo para além. Mas, por outro lado, o desejo está aquém da demanda considerando que ela, por ser articulada em significantes, é demanda de amor. O amor almeja obter do Outro uma presenticação essencial, o ser do Outro. Que o Outro dê o seu próprio ser, é justamente o que é visado no amor. No entanto, o desejo visa este aquém da presentificação do significante, aquém da presentificação do ser.

Ou seja, enquanto a demanda de amor visa o ser o desejo visa à falta a ser, isto que estaria aquém da presentificação do significante, aquém da presentificação do ser. “É no espaço virtual entre o apelo da satisfação e a demanda de amor que o desejo ocupa seu lugar e se organiza”.

Desse modo, só podemos situar o desejo a partir de sua dupla relação à demanda. Aquém ou além, dependendo do aspecto que considerarmos a demanda. Além da demanda em relação a uma necessidade, ou aquém da demanda estruturada em termos significantes. Ou seja: além da necessidade, aquém das palavras.

Como tal, o desejo não se reduz a satisfação da demanda e ao mesmo tempo necessita da articulação desta. “O outro como lugar da fala, como aquele a quem se dirige a demanda, passa a ser também o lugar onde deve ser descoberto o desejo, onde deve ser descoberta sua formulação possível. É aí que se exerce a todo instante a contradição, porque esse Outro é possuído por um desejo – um desejo que, inaugural e fundamentalmente, é estranho ao sujeito.”

Daí a dificuldade da formulação do desejo nas estruturas neuróticas. O sujeito histérico fica preso no desejo enquanto insatisfação da demanda. Não é isto o que deseja, o que deseja é sempre outra coisa. Este algo a mais, que está para além de toda satisfação da demanda, caracteriza seu desejo como desejo de insatisfação. O sujeito histérico se identifica com o outro insatisfeito, e a identificação histérica aponta para o além da demanda.

Por sua vez, o sujeito obsessivo fica na dependência do Outro para obter acesso ao seu desejo, precisa que o Outro diga o que ele quer para que ele possa ser. Lembramos que esse aquém da demanda aponta para a falta a ser: o desejo do Outro aponta para esta falta que ele não consegue interpretar.

Mas, se por um lado, o sujeito obsessivo fica preso na demanda do Outro, tentando ser o que ele demanda; por outro, busca com afinco desvencilhar-se dessa identificação dada pelo Outro para poder desejar. “Poderíamos dizer que o obsessivo está sempre pedindo alguma permissão. ... Pedir permissão é, justamente, ter como sujeito uma certa relação com a própria demanda. Pedir permissão, na medida mesma em que a dialética com o Outro – o Outro falante – é posta em causa, posta em questão, ou até posta em perigo, é dedicar-se, afinal de contas, a restaurar esse Outro, é colocar-se na mais extrema dependência dele. Isso já nos indica a que ponto esse lugar é de manutenção essencial para o obsessivo. É exatamente aí que vemos a pertinência do que Freud sempre chama de Versagung, a recusa. Recusa e permissão implicam uma na outra. O pacto é recusado sobre o fundo da promessa, o que é melhor do que falar em frustração”.

O impasse do desejo no sujeito obsessivo se demonstra com o fato que para ele desejar, isto é, ter acesso a falta a ser que o desejo exige, é necessário se desvencilhar do ser do Outro do significante que é lhe imposto com a demanda. Para isso, procura destruir o Outro: o desejo do obsessivo implica na destruição do Outro. Quando ele detém o objeto do seu desejo nada mais existe, e na destruição do Outro, quando ocorre, o próprio desejo vem a desaparecer. No entanto, se essa destruição não ocorre torna-se servo da demanda. Preso na demanda de amor tenta ser para o Outro, e, simultaneamente, preserva o Outro na sua toda potência.

Numa análise, o analista deve sustentar esse impasse entre a falta e a potência do Outro, abstendo-se do furor terapêutico. Único modo de construir um espaço onde o sujeito obsessivo poderá colocar em questão, por um lado, suas identificações, o seu ser, para deixar aparecer o sujeito dividido; e, por outro lado, reencontrar-se na ex-sistência, na sua falta a ser, lá onde é apesar de não ser. O que provoca uma nova inserção do sujeito no mundo com o trabalho que nunca acaba e com respeito ao amor, não mais visto como uma solução, uma possibilidade de se livrar da falta, mas como resultado da impossibilidade da queda do Outro.
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Referência Bibliográfica
Lacan, Jacques, O Seminário – livro 5 – as formações do inconsciente.
  • (Parte 4 – A Dialética do desejo e da demanda na clínica e no tratamento das neuroses.)

domingo, fevereiro 15, 2009








A cólera, eu lhes disse, é o que acontece nos sujeitos quando os pininhos não entram nos buraquinhos. Que quer dizer isso? É quando, no nível do Outro, do significante - ou seja, sempre, mais ou menos, no nível da fé, da boa fé -, não se joga o jogo. Pois bem, é isso que provoca a cólera.


Jacques Lacan - Seminário: a angústia

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sábado, fevereiro 14, 2009

O desejo e o sujeito histérico:




O sujeito histérico é, por "natureza", eternamente insatisfeito. Com medo de um gozo arrebatador que poderia enlouquecê-lo, ele se defende com a fantasia inconsciente, da impossibilidade de concretizá-lo. Assim, em suas relações, o Outro é sempre causador de insatisfação. Para sustentar este estado de insatisfação, no seu imaginário, o histérico transforma realidade em fantasias, sexualiza o que não é sexual, encarna uma sensualidade provocadora mas acaba por frustrar o Outro para continuar como ser insatisfeito.

Nega a relação sexual, anestesiando seus órgãos genitais mas, por outro lado, faliciza globalmente o corpo. O desejo do histérico é um desejo de insatisfação.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Lalíngua ou Alíngua: pequena introdução

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Embora as traduções dos textos de Lacan apresentem ora a palavra alíngua, ora lalíngua, um grande número de seus comentadores opta por manter a palavra lalangue tal como Lacan a criou, por considerar esse neologismo intraduzível, já que ele associa o termo à lalação do bebê.
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“Je fais lalangue parce que ça veut dire lalala, la lallation, à savoir que c’est un fait que très tôt l’être humain fait des lallations, comme ça, il n’y a qu’à voir un bébé, l’entendre, et que peu à peu il y a une personne, la mère, qui est exactement la même chose que lalangue, à part que c’est quelqu’un d’incarné, qui lui transmet lalangue”. (Jacques Lacan: Conférence donnée au Centre culturel français le 30 mars 1974.)

 
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Para Haroldo de Campos, tradutor-inventor desse significante lacaniano, o prefixo “a”, em português, tem um sentido privativo que o distancia do artigo feminino francês La escolhido por Lacan. Assim sendo, a opção por “alíngua” poderia vir a significar o oposto do que se pretende com lalangue. Em vez de um destaque, de uma ênfase nas ressonâncias com “lalia”, “lalação” e de uma evocação de tudo o que nos afeta quanto a um fluxo polifônico das palavras, poderíamos incorrer no erro de conceber lalangue como uma ausência de linguagem. (Campos, Haroldo de, “O afreudisíaco Lacan na galáxia de lalíngua (Freud, Lacan e a escritura)
“Desde a origem há uma relação com lalangue, que merece ser chamada, com toda razão, de materna, porque é pela mãe que a criança – se assim posso dizer – a recebe. Ela não aprende lalangue”
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Lalangue é do domínio onomatopaico: não mais uma língua arbitrária, mas motivada. É uma forma de satisfação que não depende da significação. Ela introduz a conseqüência na linguagem, e essa introdução é mediada pela figura materna:
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A noção de lalangue aparece pela primeira vez em O aturdito, mas é no Seminário Mais, ainda (1972-73) que Lacan melhor desenvolve esse conceito. Refere-se à lalangue nas aulas de 13 de março, 8 e 15 de maio de 1973, e a aula de 26 de junho é especificamente dedicada a esse tema. “A linguagem é apenas aquilo que o discurso científico elabora para dar conta do que chamo de lalangue”, diz Lacan ao citar o discurso científico como produtor de saber.

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Na última aula do Seminário XX, Lacan fala que o ponto chave de seu ensino naquele ano foi o saber, e que a linguagem é uma elucubração de saber sobre lalangue, enquanto o inconsciente é um saber-fazer sobre lalangue. O conceito de lalangue será retomado regularmente em seu ensino, principalmente de 1973 a 1975, como em Televisão (1973), no Seminário XXI – Les non-dupes-errent (1973/74), em La troisième - Intervention au Congrès de Rome (31.10.1974 / 3.11.74), no Seminário XXIII – O sinthome (1975-76), em Conference et entretiens dans des universités nord-americaines (1975) e segue até o Seminário XXVII – Dissolution, Le Séminaire de Caracas, de 12 a 15 de julho de 1980.
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No Seminário XXIII - O Sinthome -, Lacan analisa o escritor Joyce e sua obra. A leitura de Joyce foi tão importante para Lacan, teve tanta influência em sua teoria, que acabou por se tornar o mito lacaniano. Joyce está para Lacan como o mito de Édipo está para Freud.
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Segundo Lacan, no Seminário XXIII, Joyce abstrai-se do querer-dizer, isto é, não quer mais nada dizer. Não dá o significado do significante, mas somente o eco homofônico e translingüístico que confunde que despista todo significado e, principalmente, que o anula e que o multiplica, sendo uma câmara de ecos que baterá um no outro ao acaso, de maneira contingente. Lacan diz que Joyce é o que está ali, para demonstrar a relação de cada um com lalangue.
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Uma primeira articulação entre psicose e lalangue foi pensar em que os
neologismos se distanciam de lalangue. Os neologismos são criações de novas palavras ou uma palavra que não tem significação e passa a ter para um determinado sujeito. Lalangue é feita de qualquer coisa, de mal-entendido, anterior ao significante-mestre. Não é um instrumento de comunicação, mas uma forma de tecer um esboço de laço social.
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Sob a perspectiva da psicose, “lalangue, faz do ser que a habita e que a falará, um doente, um diferente e tudo que lhe é permitido fazer com, é uma obra.” Esse seria o exemplo de Joyce. Pela via do traumatismo sofrido da lalangue, e de suas conseqüências, fazer uma obra. Joyce trabalhou durante dezessete anos um ideal - a que o autor irlandês prometeu a si mesmo dedicar-se e realizar, afastando-se dos vínculos sociais -, e que Lacan chamou o seu “escabelo” – “S.K.beau”.
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Outros escritores igualmente se isolaram durante muitos anos. Dois exemplos bastante conhecido são os de Montaigne, fechado na sua torre de marfim depois de perder seu grande amigo; e o do escritor Marcel Proust que, bastante doente, permaneceu em seu quarto, durante catorze anos. - Após a morte da mãe, dois anos depois da do pai, dedicou-se a estudar psicanálise e psicologia, internou-se numa clínica e, de volta à sua casa escreveu À la recherche du temps perdu, obra de quatro mil páginas. - Também esses fizeram de seu traumatismo, de seu sintoma, uma obra de arte.
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Cada lalangue é incomparável a qualquer outra, já que não existem dois ditos que sejam iguais. Partindo da perspectiva lacaniana de que não há discurso que não seja do semblante, a psicanálise, como qualquer discurso, é um artifício e uma tentativa de abordar lalangue.
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Lalangue é a língua da magia, das crianças, dos amantes. É a palavra fora da significação. Está em oposição à linguagem estruturada, que separa o saber do real. É um saber que está inteiramente investido no fazer, um saber-fazer.
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Essa é à base da Segunda Clínica de Lacan. Lalangue, L´apparole e Lituraterre estão para a Segunda Clínica de Lacan, assim como a Fala, a Linguagem e a Letra estão para a Primeira Clínica. Antes, o sujeito buscava uma análise para encontrar um sentido, uma interpretação da sua vida. Hoje, o analisando encontra uma orientação na análise, mas ele é quem dá o sentido, ele decide e se responsabiliza por sua escolha.
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É um convite ao que Lacan chamava da lógica da fantasia – a elevação da libido ao patamar do gozo suposto, um dos nomes do real. Enquanto a linguagem e o discurso podem ser considerados uma defesa contra o real, lalangue veicula o real.
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 (Jacques Lacan: Conference et entretiens dans des universités nord-americaines. Scilicet n. 6/7, 1975, p.42-45)

segunda-feira, janeiro 26, 2009

- Curso do Professor Marcos -
na Pós Graduação de Literatura da UFSC
Disciplina: PGL 3103 - Filosofia e Literatura
Nume do Curso: A leitura lacaniana de "O visível e o invisível"Prof. Dr. Marcos Müller
Período: 1º semestre 2009.
Horário: 13:30 às 16:30 (terça-Feira)
Duração: 15 semanas / 4 créditos
e-mail: mjmuller@cfh.ufsc.br

Ementa: No seminário XI (Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise), Jacques-Lacan interrompe a primeira sessão, dedicada a discutir a noção freudiana de pulsão. Para tratar não mais dos conceitos fundamentais da psicanálise, mas do modo como Maurice Merleau-Ponty, na obra póstuma "O visível e o invisível", estabelece aquilo que Lacan denominou de uma diferença entre o olho e o olhar. Lacan reconheceu, nessa passagem, uma forma original de articular a ligação do corpo e da palavra; ligação essa que Merleau-Ponty denominou de invisível. Seria ela o correlativo merleau-pontyano da noção de pulsão de morte tal como a lemos em Freud? Em que medida nos ajuda a pensar a noção lacaniana de objeto 'a'? Como as noções de invisível e objeto 'a' nos ajudam a pensar a sublimação e a arte?

domingo, janeiro 04, 2009

A reclamação é coletiva




Uma pessoa esta sempre acompanhada ante o que não gosta, pois a reclamação é coletiva, daí os sindicatos. A opção desejante, por sua vez, é solitária; ela não se explica, se faz.

Há um pavor oriundo da dificuldade de cada qual sustentar seu desejo, pois, sendo este singular, não-compartilhável, surge com facilidade a fantasia de exclusão, de ser abandonado pelo grupo, tribo ou bando a que pertence. "Vão me matar" é um fantasma paradigmático.


Jorge Forbes - Você quer o que deseja?

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Reinvidicações Permissivas






"Fala-se do declínio paterno, da ascensão da sociedade fraterna e da regressão afirmada pela vontade de gozar na reivindicação permissiva. ...A isso, Lacan respondeu: na tradição freudiana, a dos grandes tratados freudianos sobre o poder, não há mestre mais duro que o supereu, e este não passou por nenhum declínio. Ele mostra ser, cada vez mais, um imperativo de gozo. O mestre, à medida que está cada vez mais presente dentro de nós. Cabe a cada um virar-se com os mandamentos impossíveis e reais que garantem um caminho frágil e obrigatório em direção ao gozo. Essa grande epidemia histérica que atravessou a nossa civilização foi uma espécie de greve contra a cultura, a partir do modelo histérico da recusa de gozo."



Eric Laurent

sexta-feira, dezembro 26, 2008

A Função Fálica




...Todo mundo sabe que há mulheres fálicas, e que a função fálica não impede os homens de serem homossexuais. Mas é ela também que lhes serve para se situarem como homens, e abordar as mulheres. Para o homem eu vou depressa, porque o que tenho a falar hoje é da mulher e porque suponho que já repeti isto o bastante para que vocês ainda o tenham na cabeça - para o homem, a menos que haja castração, quer dizer, alguma coisa que diga não à função fálica, não há nenhuma chance de que ele goze do corpo da mulher, ou, dito de outro modo, de que ele faça o amor.

É o resultado da experiência analítica. Isto não impede que ele possa desejar a mulher de todas as maneiras, mesmo quando essa condição não é realizada. Não só ele a deseja, mas lhe faz toda sorte de coisas que se parecem espontaneamente com o amor.

Contrariamente ao que adianta Freud, é o homem - quero dizer, aquele que se vê macho sem saber o que fazer disto, no que sendo ser falante - que aborda a mulher, que pode crer que a aborda, porque, com respeito a isto, as convicções, aquelas de que eu falava da última vez, as cão-vicções, não faltam. Só que, o que ele aborda, é a causa de seu desejo, que eu designei pelo objeto a. Aí está o ato de amor. Fazer o amor, como o nome o indica, é poesia. Mas há um mundo entre a poesia e o ato. O ato de amor, é a perversão polimorfa do macho, isto entre os seres falantes. Não há nada de mais seguro, de mais coerente, de mais estrito quanto ao discurso freudiano.

Jacques Lacan
Seminário XX - Mais, Ainda
Cap. VI - "Deus e o Gozo d'A Mulher"

sábado, dezembro 13, 2008

A evolução e a natureza

Antonio Cicero

NORMALMENTE SUPÕE-SE que o grande escândalo causado pela teoria da evolução seja devido à descoberta de que o ser humano descende de alguma espécie de macacos. De fato, isso foi sem dúvida um escândalo espetacular, uma enorme "ferida narcísica", como dizia Freud, infligida ao homem que aprendera ter sido criado à imagem de Deus.

Mas a teoria da evolução provocou também outros escândalos.

Quero falar de um que, embora menos espetacular, não é menos importante. Trata-se da relativização das espécies naturais. Desde Aristóteles, supunha-se que, criadas ou não, as espécies naturais fossem imutáveis.

A espécie à qual um ente qualquer pertencia era considerada a sua natureza. Ora, a natureza de uma coisa se confundia com seu fim, que era seu bem e sua perfeição próprias. Descobria-se essa natureza a partir do estudo dos espécimes que se encontravam, como dizia Aristóteles, num estado natural, em oposição aos espécimes "degenerados".

Como se pensava saber que um espécime se encontrava no estado natural? Pela observação da sua normalidade, isto é, do fato de que sua constituição física e seu comportamento não desviavam da constituição e do comportamento da maior parte dos indivíduos da mesma espécie. O anormal, ao contrário, era considerado degenerado. Desse modo, a normalidade se tornava normativa. O degenerado era aquele que se constituía ou se comportava contra a sua natureza: "contra naturam".

Pois bem, observando a natureza humana e a natureza da sociedade humana, Aristóteles concluiu que o natural era que a alma governasse o corpo, a inteligência, os apetites, o homem, os animais, o macho, a fêmea, e o senhor, o escravo. Para ele, essas relações eram naturais, e qualquer supressão ou inversão delas se daria contra a natureza. Do mesmo modo, o velho Platão, na sua última obra, pressupunha que a finalidade do erotismo, no indivíduo natural/normal, era a reprodução; logo, considerava contra a natureza toda relação homossexual. Esta última concepção se consolidou na Idade Média e é até hoje doutrina da Igreja Católica, para a qual toda relação homossexual infringe uma "lei natural".

Tal "lei" não passa, evidentemente, de um equívoco, pois as leis da natureza, que são descritivas, isto é, que dizem o que realmente acontece, não devem ser confundidas com as leis humanas, que são prescritivas, isto é, dizem o que deve (ou não deve) ser feito. A lei da gravidade, por exemplo, não diz que todos os corpos que têm massa devem se atrair de determinado modo e sim que se atraem desse modo. Se for descoberto que determinados corpos têm massa e, no entanto, não se atraem do modo previsto, não serão esses corpos que estarão errados, mas a lei da gravidade. Assim também, se uma "lei natural" diz que os indivíduos do mesmo sexo não sentem atração erótica uns pelos outros, basta abrir os olhos para ver que essa "lei" está errada, ou melhor, não é lei, não existe.

A teoria da evolução mostrou que a própria natureza não é algo fixo de uma vez por todas, mas se encontra em transformação. As espécies biológicas mesmas não têm "naturezas" eternas, mas estão em incessante evolução. Isso significa que não se pode considerar como natural exclusivamente a constituição física ou o comportamento "normal", isto é, tradicional. Uma espécie nova surge exatamente a partir das mutações – da "degeneração" – de uma espécie antiga. O indivíduo que, por ser portador de uma mutação está sujeito a ser considerado uma monstruosidade, talvez seja o limiar de uma nova espécie.

O ser humano é o produto de tais mutações, e sua maior novidade consiste em que não apenas a espécie humana, mas cada espécime humano é infinitamente capaz de mudar a si próprio, capaz de experimentar o que nunca antes se experimentou, capaz de criar o que nunca antes existiu. Toda invenção, toda arte, toda técnica, toda cultura pode ser considerada como o resultado da transformação – poderíamos dizer, da perversão – da natureza pelo homem. O primeiro antropóide a se erguer e usar as patas dianteiras como mãos – abrindo caminho para a aventura humana – estava pervertendo a função "natural" desses membros.

Não é lícito, portanto, invocar a "natureza" para justificar – ou para condenar – tais ou quais comportamentos, atos ou instituições. Quem o faz inevitavelmente incorre no provincianismo de "naturalizar" comportamentos, atos ou instituições contingentes e históricos, tais como a dominação do homem sobre a mulher, a escravidão ou a condenação da homossexualidade.

Artigo publicado no caderno "Ilustrada",
do Jornal Folha de São Paulo


sábado, dezembro 06, 2008

Sobre o Desejo










O trajeto do desejo não é uma linha reta orientada para o futuro, mas uma espiral girando em torno de um vazio central, que atrai e anima o movimento circular do desejo.

domingo, novembro 16, 2008

Livro revela o poder do inconsciente




André Singer
Da Folha de S. Paulo


À diferença do que pensa o senso comum, o complexo de Édipo habita os indivíduos até a morte. Como um fragmento de matéria radioativa, ele continua a produzir emanações dentro de nós muito tempo depois da fase infantil em que foi superado.

Mas, se foi resolvido na infância, por que o desejo do menino pela mãe e da menina pelo pai continua a produzir efeitos nos adultos, sãos ou neuróticos? Porque, embora reprimido, o desejo resiste no inconsciente, onde opera em "sintonia com a vivência que cada indivíduo teve" da fase da vida em que ele foi suprimido das possibilidades práticas e da consciência, como explica o psicanalista Luiz Tenório Oliveira Lima em "Freud", da série "Folha Explica".

O modo pelo qual Tenório mostra a força do inconsciente, prescindindo do recurso a abstrações, é uma das virtudes do livro. Assim, sem fazer concessão a visões simplificadas, o autor produziu um roteiro de fácil compreensão para quem quiser começar uma visita ao reino da psicanálise.

A clareza do texto é fiel, aliás, a uma das marcas do trabalho do próprio Freud. Embora tivesse que lidar com um universo até então desconhecido, o criador da nova disciplina foi capaz de escrever de modo cristalino. Qualquer leitor medianamente ilustrado, desde que disposto a ler com concentração, é capaz de entender o raciocínio do mestre vienense.

A vantagem de começar por uma introdução como "Freud" está em que ela organiza uma obra vasta, fruto de vida longa. Nascido na Morávia (atual República Tcheca) em 1856, Freud morreu em Londres 83 anos depois. Desde 1900, quando publicou "A Interpretação dos Sonhos" (tido como texto fundador da psicanálise), ele não parou de produzir até a morte, em 1939.

Em meio às inúmeras possibilidades de leitura de Freud, Tenório foi feliz ao escolher a linha de continuidade que vai do "Estudo sobre a Histeria" (em co-autoria com o médico Josef Breuer ainda em 1896), no qual já aparece a idéia de que são emoções reprimidas as causas de sintomas histéricos, ao "Mal-Estar na Civilização" (30). Neste brilhante ensaio, um Freud maduro volta ao tema da repressão, mas do ângulo social.

Para Freud, a repressão dos desejos e impulsos agressivos naturais é inerente ao processo civilizatório. Em "Totem e Tabu" ele já mostrava que a sociedade não se formaria se não fossem criadas proibições, como a que incide sobre relações sexuais endogâmicas. O indivíduo também não se torna adulto relativamente independente (nunca há independência total) caso não internalize, como superego, as regras da cultura ("O Ego e o Id").

Porém, em "Mal-Estar na Civilização", Freud aponta um dos paradoxos centrais do nosso tempo: o de que quanto mais avança a civilização - portanto quanto mais democrática ela se torna - mais cresce a violência, uma vez que o avanço cultural vem de um incremento na repressão aos instintos, os quais tendem a se descontrolar sob excesso repressivo.

A única saída, assinala Tenório, é administrar os sentimentos destrutivos. Isto é, reconhecê-los, falar deles, tratá-los, para não precisar colocá-los em ação. Saber que o inconsciente existe e que nunca se tornará transparente por inteiro é um primeiro passo para compreender por que a psicanálise é indispensável no violento mundo de hoje. O "Freud" de Tenório funciona, assim, como excelente convite para aprofundar o conhecimento da matéria.

sexta-feira, novembro 14, 2008

Da Conversa Infinita






A situação da análise tal como Freud a descobriu é uma situação extraordinária que parece tomada de empréstimo à magia dos livros. Essa relação que se estabelece, como se diz, entre o divã e a poltrona, essa conversa nua em que, num espaço separado, recortado do mundo, duas pessoas, invisíveis uma à outra, são pouco a pouco chamadas a confundir-se com o poder de falar e o poder de ouvir, a não ter outra relação a não ser a intimidade neutra do discurso, essa liberdade para um de dizer seja lá o que for, para o outro de escutar sem atenção, como à revelia e como se não estivesse aí - e essa liberdade que se torna, por isso mesmo, a mais obscura, a mais aberta e a mais fechada das relações.

Maurice Blanchot, in A Conversa Infinita - II

domingo, novembro 09, 2008

Foucault e Lacan







Lacan não exercia nenhum poder institucional. Os que o escutavam queriam exatamente escutá-lo. Ele não aterrorizava senão aqueles que tinham medo. A influência que exercemos não pode nunca ser um poder que impomos.

"Lacan, o 'libertador' da Psicanálise"
Michel Foucault, in: Ditos e Escritos I

quinta-feira, novembro 06, 2008

Rostidades

Apropriação dos traços faciais de outra pessoa rompe o sentido de identidade e relativiza o narcisismo da sociedade contemporânea

Maria Rita Khel

"Um rosto extinto. Um grau de extinção por certo nunca antes atingido na espécie humana"(Michel Tournier)

O que acontece com o sentimento de identidade de uma pessoa que se depara, diante do espelho, com um rosto que não é seu? Como é possível manter a convicção razoavelmente estável que nos acompanha pela vida, a respeito do nosso ser - essa ficção indispensável - no caso de sofrermos uma alteração radical em nossa imagem?

Perguntas como essas provocaram um intenso debate a respeito da ética médica depois do transplante de parte da face em uma mulher que teve o rosto desfigurado por seu cachorro em Amiens, na França. Deixo de lado os aspectos da discussão motivados pela rivalidade profissional, em que argumentos éticos podem mascarar a disputa por prestígio e glória entre equipes médicas da França e da Inglaterra. Interessa-me a relação subjetiva entre a identidade e o rosto. Essa relação é tão íntima que, dentre as várias possibilidades de mutilação física, consideramos hediondas as que destroem partes do rosto. Nesses casos, empregamos o termo desfiguração.


Quando o rosto se torna irreconhecível, a figura humana se desfaz. A legislação britânica que condena o transplante de rosto em consideração à (previsível) crise subjetiva ante uma transformação radical dos traços da face desconsidera que, mais despersonalizante do que encontrar no espelho um rosto alheio, é não encontrar rosto nenhum. Ou não: talvez seja menos custoso para um acidentado suportar o luto pela perda da figura facial - e manter sob as ataduras a identificação imaginária com o rosto antigo - do que o estranhamento diante de um rosto outro.

Ilusão necessária
Mas penso que vale a pena o trabalho de refazer essa identificação. O que chamamos, confusamente, de identidade não tem nada a ver com o ideal - sempre fracassado - de nos mantermos idênticos, seja a nós mesmos, seja à imagem ideal que pretendemos oferecer ao olhar do outro. A identidade é uma ilusão necessária, de unidade e continuidade do eu.Ocorre que o eu se constitui a partir da imagem corporal. Nosso sentimento de permanência e unidade se estabelece diante do espelho, a despeito de todas as mudanças que o corpo sofre ao longo da vida. A criança humana, em um determinado estágio de maturação, identifica-se com sua imagem no espelho. Nesse caso, um transplante (ainda que parcial) que altera tanto os traços fenotípicos quanto as marcas da história de vida inscritas na face destruiria para sempre o sentimento de identidade do transplantado?

Talvez não. Ocorre que o poder do espelho - esse de vidro e aço pendurado na parede - não é tão absoluto: o espelho que importa, para o humano, é o olhar de um outro humano. A cultura contemporânea do narcisismo, ao remeter as pessoas continuamente a buscar o testemunho do espelho, não considera que o espelho do humano é, antes de mais nada, o olhar do semelhante.

É o reconhecimento do outro que nos confirma que existimos e que somos (mais ou menos) os mesmos ao longo da vida, na medida em que as pessoas próximas continuam a nos devolver nossa "identidade" - aspas necessárias.

Sagrado e insubstituível
O rosto é a sede do olhar que reconhece e busca reconhecimento. O rosto é sagrado, disse e escreveu insistentemente Emmanuel Lévinas. Por que sagrado? O que há de insubstituível em um rosto, que faz dele o centro da nossa humanidade e a sede imaginária do eu? É que o rosto não se reduz à dimensão da imagem: ele é a própria presentificação de um ser humano, em sua singularidade irrecusável. Além disso, dentre todas as partes do corpo, o rosto é a que faz apelo ao outro. A que se comunica, expressa amor ou ódio e, acima de tudo, demanda amor.

A literatura pode nos ajudar a amenizar o drama da paciente francesa. O Robinson Crusoé do livro "Sexta-Feira ou os Limbos do Pacífico" (Bertrand Brasil), de Michel Tournier, perde a noção de sua identidade e enlouquece, na falta do olhar de um semelhante que lhe confirme que ele é um ser humano. No início do romance o náufrago solitário tenta fazer da natureza seu espelho. Faz do estranho, familiar, trabalhando para "civilizar" a ilha e representando diante de si mesmo o papel de senhor sem escravos, mestre sem discípulos.

Mas depois de algum tempo o isolamento degrada sua humanidade. O Robinson de Tournier passa a se identificar com os animais, falar com os macacos e rolar na lama com os porcos. "Narciso de um tipo novo, abismado de tristeza, com recrudescido nojo de si (...), compreendeu que o rosto é essa parte da carne modelada e remodelada, aquecida e permanentemente animada pela presença dos nossos semelhantes."

Na versão de Tournier, a entrada em cena do selvagem Sexta-Feira vem salvar Robinson Crusoé não da solidão, mas da loucura.

A paciente francesa, que agradeceu aos médicos a recomposição de uma face humana, ainda que não seja a "sua", vai agora depender de um esforço de tolerância e generosidade por parte dos que lhe são próximos.Parentes e amigos terão que superar o desconforto de olhar para ela e não encontrar a mesma de antes. Diante de um rosto outro, deverão ainda assim confirmar que ela continua sendo ela. E amar a mulher estranha a si mesma que renasceu daquela operação.

Maria Rita Kehl é psicanalista e ensaísta.




in: Jornal de Poesia - on-line



domingo, novembro 02, 2008

Os sonhos



A interpretação dos Sonhos, publicado em 1900, foi considerado o melhor livro de século XX. Nesse ambicioso texto, contrariamente aos seus contemporâneos, Freud considera que a oniromancia tem fundamento de verdade. E, a partir daí, passa a estudar a vida onírica, apresentando os fatos que analisava com uma exatidão escrupulosa, exigindo de si mesmo o rigor próprio à ciência do seu tempo.

Durante dois anos o jovem Freud se dedica à elaboração de sua “tese”. Sua pesquisa não deixa de fora nenhuma obra conhecida que abordasse o tema dos sonhos, nem mesmo os sempre populares livros de sonhos egípcios. Cada possível argumento, cada possível interpretação é examinada com seriedade e rigor científico.


O livro é pleno de exemplos. Muitos sonhos são analisados e interpretados. O que mais custou ao autor, no entanto, foi o fato de que, devido ao sigilo com que deveria resguardar os sonhos de seus pacientes, Freud utiliza os próprios sonhos para dar seqüência à obra: se expõe aos efeitos de sua própria tese, tira as conseqüências de seus próprios sonhos trabalhando suas próprias neuroses. E, corajosamente, nos expõe todo o processo.

Graças a esse estudo sistemático, Freud conclui que o material do sonho propriamente dito - o conteúdo manifesto - não tem interesse; é constituído em geral por um conjunto incoerente de imagens insignificantes ou absurdas. O que conta é a significação implícita no conteúdo manifesto, o chamado conteúdo latente, ao qual só é possível ter acesso com uma chave apropriada. A chave que ele nos entregou com A Interpretação dos Sonhos. Qual seja, as leis próprias do inconsciente.

A tese central do texto é a de que "O sonho é a realização de um desejo". Esse desejo não é necessariamente um desejo que possamos aceitar em nossa vida consciente. Quando não se trata de um desejo aceitável, nos diz Freud, preferimos esquecê-lo. Este esquecimento será descrito como conseqüência de um mecanismo chamado “recalque”. O desejo recalcado, no entanto, permanece em algum lugar exercendo seus efeitos. Os sonhos são apenas um exemplo destes efeitos.

Os sonhos têm por característica sua falta de senso, sua não obediência às leis que nos regem na vigília. Seguem uma lei própria, seguem uma lógica que não é a lógica cotidiana. Freud é levado assim a demonstrar que nosso aparato mental é formado pela consciência, cujas regras reconhecemos, e pelo inconsciente, cujos efeitos nos surpreendem por seguir uma lógica diferente e desconhecida (ainda que sempre familiar).

Desta forma, um desejo que não condiz com o nosso ideal de vida é negado, jogado para aquele campo que não segue as mesmas regras de nossa consciência. No inconsciente este desejo vai procurar sua expressão a qualquer custo. Se não é possível que ele se expresse conscientemente (por que no consciente atua o recalque), ele vai buscar alguma expressão substitutiva que consiga escapar à censura. Assim, o sonho pode ser entendido como a expressão de uma série de desejos, que encontram nele a única via para a consciência. É por isto também que o sonho será entendido por Freud como a via régia para o inconsciente, uma vez que é sua manifestação mais direta.

Por essa mesma via, Freud vai compreender os sintomas neuróticos. Ou seja, o sintoma neurótico é também a manifestação de um desejo. A principal diferença é que no sintoma uma solução é encontrada para que o desejo se apresente na consciência. Também neste caso, contudo, este desejo se manifestará com as distorções necessárias para que possa ser aceito pelo consciente.

Sempre estamos às voltas com o conteúdo manifesto de nossos sonhos. Mas, se quisermos entendê-los verdadeiramente, precisamos passar para o conteúdo latente e isso implica fazer um trabalho consigo mesmo. Um trabalho que revele a direção do desejo inconsciente que o conteúdo latente insiste em apontar.


segunda-feira, outubro 27, 2008

Nome-do-Pai


Para compreender a importância do Nome-do-Pai é necessário lembrar que Lacan transforma o complexo de Édipo na estrutura de passagem da natureza à cultura por meio da introdução do sujeito na ordem simbólica. É no interior da família que o sujeito moderno descobre a existência de uma Lei simbólica baseada em interditos (como o incesto) e lugares fixos de parentesco. O pai, sendo aquele que dá nome ao filho e encarna a autoridade, será o representante da Lei. O Nome-do-Pai é o significante dessa função paterna, como uma chave que abre, ao sujeito, o acesso à estrutura simbólica e que lhe permitirá nomear seu desejo. Daí porque: "A função do pai é unir um desejo à Lei". Não é por outra razão que Lacan vê, no declínio da "imago" paterna, uma fonte privilegiada de neuroses contemporâneas.
Vlademir Safatle

sábado, outubro 25, 2008

O que é a Segunda Clínica de Jacques Lacan?


No percurso de Lacan, encontramos duas clínicas. Elas são diferentes na forma de abordar os fenômenos clínicos, de trabalhar psicanaliticamente, de dirigir o tratamento e de formalizá-lo. Estabelecem relações complexas entre si.


Nos anos 50, em seu retorno a Freud, Lacan fundou uma clínica estrutural, regida pelo simbólico, dirigida por um analista a quem cabia interpretar as formações do inconsciente e situar o sujeito no seu desejo. A clínica, edípica, se estruturava entre a neurose, a psicose e a perversão e, na sua vertente neurótica, o sintoma era concebido como uma mensagem a ser decifrada.

Nos anos 70, Lacan foi além de Freud e estabeleceu as bases de uma clínica dos nós, pós-edípica, que privilegia a experiência do real. Numa época em que ‘o Outro não existe’, as estruturas clínicas resultam dos modos de amarração dos registros simbólico, imaginário e real e o sintoma é concebido como forma de satisfação. Na transferência, o analista opera de modo a modificar a relação do sujeito com seu gozo.

Cada época tem suas “doenças” e seus “remédios” e, na globalização, o mal-estar assume novas formas. Se a primeira é uma clínica da modernidade, a segunda é uma clínica da pós-modernidade. Se a primeira é uma clínica pai-orientada, de um “mundo sólido”, a segunda é uma clínica do homem desbussolado, de um “mundo líquido”.


Publicado em: Instituto da Psicanálise Lacaniana.

sexta-feira, outubro 24, 2008

Saiu na Veja

Pesquisa consegue apagar memória ruim.

Um estudo americano abriu caminho para que um dia seja possível apagar aquelas lembranças dolorosas que muitos carregam durante a vida. Em um experimento realizado com ratos, pesquisadores liderados por Joe Z. Tsien, do Colégio Médico da Geórgia, conseguiram eliminar memórias específicas de ratos, sem eliminar outras lembranças importantes para os roedores. O estudo foi publicado nesta quinta-feira na revista científica Neuron. Os cientistas descobriram que o excesso de uma proteína reguladora da memória, conhecida pela sigla αCaMKII, é capaz de eliminar lembranças no momento em que elas são resgatadas no cérebro. Com base nessa informação, os cientistas desenvolveram um rato transgênico e o submeteram a uma droga especial, que inunda o cérebro com a αCaMKII. Qualquer eventual memória que for lembrada neste momento, é imediatamente suprimida.

terça-feira, outubro 21, 2008

O que Lacan pensava de Lacan

"Bastam dez anos para que o que escrevo se torne claro a todos." Com essas palavras, Jacques Lacan (1901-81) encerrava em 1971 uma rara entrevista dada à televisão francesa. Mais de 35 anos se passaram e não podemos dizer que sua premonição tenha se realizado, embora ela contenha algo de verdadeiro. Pois mesmo que Lacan ainda seja um autor cujo estilo elíptico desconcerta e afasta, é certo que sua importância intelectual foi paulatinamente sendo reconhecida.

Não se trata apenas de insistir aqui na relevância de suas posições no debate sobre a clínica psicanalítica nas últimas décadas. Trata-se de sublinhar como Lacan também se tornou um interlocutor privilegiado em reflexões contemporâneas sobre filosofia, teoria literária, crítica de arte, política e teoria social. Neste sentido, ele talvez tenha sido o único psicanalista, juntamente com Sigmund Freud (1856-1939), capaz de transformar sua obra em passagem obrigatória para aqueles cujas preocupações não se restringem apenas à clínica, mas dizem respeito a um campo amplo de produções socioculturais vinculadas aos modos de auto compreensão do presente com suas expectativas e impasses.

No entanto, isto só foi possível porque sua noção de clínica sempre guardou uma série de peculiaridades, mesmo conservando os dois princípios fundamentais para a constituição da práxis analítica desde Freud, a saber, ser radicalmente desmedicalizada e reduzir o campo de intervenção à dimensão da relação psicanalista-paciente. Começar lembrando alguns pressupostos da clínica lacaniana talvez seja uma boa estratégia para introduzir o sentido de sua experiência intelectual, assim como explicar as causas de sua ampla recepção. Uma estratégia ainda mais relevante se levarmos em conta que vivemos em uma época que assiste sucessivas tentativas de desqualificação pura e simples da racionalidade da clínica psicanalítica.

A partir dos anos 80 e principalmente depois da década de 1990, parecia consensual a noção de que a psicanálise entrara em "crise". Ultrapassada pelo avanço de novas gerações de antidepressivos, ansiolíticos, neurolépticos e afins, a psicanálise foi vista por muitos como uma prática terapêutica longa, cara, com resultados duvidosos e sem fundamentação epistemológica clara. Muitas vezes, psicanalistas foram descritos como irresponsáveis por não compreenderem, por exemplo, que patologias como ansiedade e depressão seriam resultados de distúrbios orgânicos e nada teriam a ver com noções "fluidas" como "posição subjetiva frente ao desejo".

Por sua vez, a insistência em continuar operando com grandes estruturas nosográficas (relativas à descrição ou explicação das doenças), como histeria, neurose, perversão ou melancolia, parecia resultado de um autismo conceitual que impedia a psicanálise de compreender os avanços do DSM III na catalogação científica das ditas afecções mentais com suas "síndromes" e "transtornos" relacionados a órgãos ou funções mentais específicos.

Nesse contexto, a noção de cura de afecções e patologias mentais parecia enfim encontrar um solo seguro. O desenvolvimento das ciências cognitivas, em especial das neurociências, teria permitido certa redução materialista capaz de demonstrar como todo estado mental (crenças, desejos, sentimentos etc.) seria apenas uma maneira "metafórica" de descrever estados cerebrais (configurações neuronais) cuja realidade é física. Com isso, estavam abertas as portas para que a própria noção de doença mental pudesse ser tratada como distúrbio fisiologicamente localizável, ou seja, como aquilo que se submete diretamente à medicalização.

A clínica, por ter sua racionalidade submetida a uma fisiologia elaborada, poderia, a partir de então, aparecer como o setor aplicado de uma farmacologia. Lacan, desde sua tese de doutorado em psiquiatria, de 1932, insistia na inadequação de perspectivas fundadas nessas reduções materialistas dos fenômenos mentais. É a consciência dessa inadequação que o levará a assumir a carreira de psicanalista.

Tal consciência o levará também a tentar reconstruir os padrões fundamentais de racionalidade das práticas clínicas, através da defesa de um conceito de sujeito não redutível a qualquer forma de materialismo neuronal. Ou seja, quando Lacan decide-se pela psicanálise, logo após a defesa de sua tese em psiquiatria, ele já tem um problema armado que, a partir de então, guiará sua experiência intelectual. Um problema que guarda estranha atualidade, se levarmos em conta os desenvolvimentos posteriores da psiquiatria em direção a uma reconstituição de suas práticas a partir da farmacologia.

É verdade que a clínica e a teoria lacanianas serão radicalmente modificadas ao longo dos anos. Mas nada entenderemos do sentido dessas modificações se não tivermos uma noção clara do processo de desenvolvimento do pensamento lacaniano desde seu início. Assim, vale a pena descrever esses primeiros passos, a fim de identificar a razão pela qual suas reflexões clínicas se transformaram em referência maior para as estratégias de autocompreensão do presente. Tais considerações servem ainda como resposta à questão sobre como começar a ler sua obra. Por mais estranho que possa parecer, devemos começar a ler Lacan pelo começo.

Nada melhor do que seguir o desenvolvimento cronológico de sua experiência intelectual a fim de determinar o processo de formação de seus conceitos e problemas. Embora sua obra vá modi - ficando paulatinamente o campo de interlocuções, as estratégias de problematização e o estilo de sua escrita, é inegável o esforço lacaniano em integrar desenvolvimentos recentes de seu pensamento a elaborações mais antigas. Esse é um ponto importante, porque a recorrência de certas questões é o que dá unidade a uma verdadeira experiência intelectual. Nesse sentido, devemos sempre nos perguntar: quais são as questões fundamentais que animam a trajetória lacaniana? Uma delas, sem dúvida, é a crítica à aplicação de um materialismo reducionista às clínicas dos fatos mentais.
Vlademir Safatle, in: Lacan, Ed. Publifolha

sábado, outubro 18, 2008

A morte do Sujeito



Longe de engrossar o coro daqueles que defendiam a "morte do sujeito", Lacan sempre acreditou no caráter irredutível da subjetividade. A seu ver, a especificidade da psicanálise vinha exatamente da recusa em admitir que os fatos psíquicos fossem apenas resultados de descargas neuroniais ou distúrbios orgânicos. Mas, por outro lado, o sujeito lacaniano não guarda muitas semelhanças com seus antepassados modernos.

Filho de um tempo que não acredita mais na transparência da consciência e na luz natural da razão, o sujeito lacaniano verá sua auto-identidade aparecer irremediavelmente despedaçada. Desprovido de vida interior e de profundidade psicológica, ele será como um personagem de "nouveau roman": vazio, impessoal e incapaz de se apropriar reflexivamente de sua própria história. A esse sujeito restará ser um movimento de fuga que não cessa de não se inscrever, tal como um sintoma que nunca se dissolve.


Vladimir Safatle

segunda-feira, outubro 06, 2008

O avesso da Psicanálise



A propósito do pai, as pessoas se julgam obrigadas a começar pela infância, pelas identificações, e isso é então algo que verdadeiramente pode chegar a uma extraordinária farfalhada, a uma estranha contradição. Falarão da identificação primária como aquela que liga a criança à mãe, e isto com efeito parece óbvio. Contudo, se nos reportarmos a Freud, a seu discurso de 1921 chamado Psicologia das massas e análise do eu, é precisamente a identificação ao pai que é dada como primária. É certamente bem estranho. Freud aponta ali que, de modo absolutamente primordial, o pai revela ser aquele que preside à primeiríssima identificação e nisso precisamente ele é, de maneira privilegiada, aquele que merece o amor.


Jacques Lacan – Seminário 17 – o avesso da psicanálise

quinta-feira, outubro 02, 2008

O avesso ... II




O saber, isto é o que faz com que a vida se detenham em um certo limite em direção ao gozo. Pois o caminho para a morte - é disso que se trata, é um discurso sobre o masoquismo -, o caminho para a morte nada mais é do que aquilo que se chama gozo.

Jacques Lacan, Seminário XVII - O avesso da psicanálise

OUTRO(S) NUM CASAMENTO

Uma conversa com Marcos José Müller, autor do recém lançado Outro(s) num Casamento. MARIA: Gostaria em primeiro lugar que você fala...