quinta-feira, julho 16, 2009

Semínário XVIII


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Acaba de chegar às livrarias o
Seminário XVIII de Lacan:
de um discurso que não fosse semblante .


Sobre este Seminário, anuncia Jacques-Alain Miller: “Título enigmático, à primeira vista. Forneçamos a chave: trata-se do homem e da mulher – de suas relações mais concretas, amorosas e sexuais, na vida do dia a dia, sim, bem como em seus sonhos e fantasias. Isso nada tem a ver, é claro, com o que a biologia estuda sob o nome de sexualidade. Mas será preciso, por isso, deixar esse campo entregue à poesia, ao romance, às ideologias? Tenta-se aqui fornecer dele uma lógica. É ardiloso.”
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segunda-feira, julho 13, 2009

O Discurso, O Desejo



Em uma sociedade como a nossa, conhecemos, é certo, procedimentos de exclusão. O mais evidente, o mais familiar também, é a interdição. Sabe-se bem que não se tem o direito de dizer tudo, que não se pode falar de tudo em qualquer circunstância, que qualquer um, enfim, não pode falar de qualquer coisa. Tabu do objeto, ritual da circunstância, direito privilegiado ou exclusivo do sujeito que fala: temos aí o jogo de três tipos de interdição que se cruzam, se reforçam ou se compensam, formando uma grade complexa que não cessa de se modificar. Notaria apenas que, em nossos dias, as regiões onde a grade é mais cerrada, onde os buracos negros se multiplicam, são as regiões da sexualidade e as da política: como se o discurso, longe de ser esse elemento transparente ou neutro no qual a sexualidade se desarma e a política se pacifica, fosse um dos lugares onde elas exerçam, de modo privilegiado, alguns de seus mais temíveis poderes. Por mais que o discurso seja aparentemente bem pouca coisa, as interdições que o atingem revelam logo, rapidamente, sua ligação com o desejo e com o poder. Nisto não há nada de espantoso, visto que o discurso – como a psicanálise nos mostrou – não é simplesmente aquilo que manifesta (ou oculta) o desejo; é, também, aquilo que é objeto do desejo; e visto que – isto a história não cessa de nos ensinar – o discurso não é simplesmente aquilo que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, pelo que se luta, o poder do qual nos queremos apoderar.


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Michel Foucault
in: A Ordem do Discurso - Aula Inaugural no Collège de France,

pronunciada em 2 de Dezembro de 1970.

sexta-feira, julho 10, 2009

Inconsciente



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Algumas associações sobre o inconsciente, a partir das questões levantadas por Nasio.

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  • “o sonho é a epifania do outro”. Maria [23/06/09]

  • O sonho é a epifania do outro... 09 de julho e já não me lembro mais em que contexto foi me dado a frase. Leio-a aqui, como coisa do dia, e flutuam os vocábulos, cada um grávido de si, o sonho, a epifania, o outro.

  • O inconsciente, pois, redunda operativo, no tropeço, no impossível do inconsciente do outro. O que existe então é um inconsciente posto às claras no encontro. Onde a conversa, não é propriamente conversa, é uma fala que se dá às avessas.



  • Há tempos de uma captura colossal. Segundos, às vezes, e basta um segundo.
    Neste tempo não há cronologia, o deus se isenta, extinto da lógica, do logos numérico, retórico, discursivo.

  • Um entre-reinos, interregno, uma fenda, um furo, uma passagem, entre caos e cosmos.
    Caosmose, fala Guattari. Numa língua dura e deslizante.

  • O insconsciente feito usina, máquina desejante. O eu e outro no acaso do encontro. Posso acreditar que estamos todos, quem saberá?, falando do mesmo caos dos acontecimentos humanos? Pondo fim às histórias, posto que se ousa, enfim, contar a fundo ficções.

Clarissa

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Li, gostei e achei muito instigante a pergunta final do texto Inconsciente. Ele não existe fora da Psicanálise, por Lacan. Ele está falando da sessão no divã, exatamente? Porque em tantos momentos a Psicanálise, ou inúmeros, se aproxima se imbrica com o quadro, o poema. Faz lembrar que no Seminário XI, no capítulo o que é um quadro, Lacan parece deixar mais claro o que é o objeto a, a esquize do olhar. Não seria uma maneira de construção do Inconsciente esse olhar, do outro lado do divã? Fique mesmo pensando sobre isso, partilho com você para esclarecer minha dúvida lacaniana..

Marcia

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  • Inconscientes:
Clarissa:
Um entre-reinos, interregno, uma fenda, um furo, uma passagem,
entre caos e cosmos.
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Marcia:
Esse olhar do outro lado do divã.
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Maria:
Um gaio saber alicerçado no des-ser (o chiste, o esquecimento, o tropeço, o sonho, o ato falho).
Quando a normatividade do fantasma e a ditadura dos ideais param de sustentar a ilusão de consistência do ser, o gaio saber advém como virtude.
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quarta-feira, julho 08, 2009

Inconsciente:

Para começar, o inconsciente revela-se num ato que surpreende e ultrapassa a intenção do analisando que fala. O sujeito diz mais do que pretende e, ao dizer, revela sua vontade.


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Esse ato, mais do que revelar um inconsciente oculto e já presente, produz o inconsciente e faz com que ele exista.

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Ora, para que esse ato efetivamente dê existência ao inconsciente, é indispensável que um outro sujeito escute e reconheça a importância do inconsciente, sendo esse sujeito o psicanalista: “... o inconsciente implica que ele seja escutado? Em minha opinião, sim”, respondeu Lacan. (Televisão) De fato, para que o inconsciente exista, é ainda necessário que ele seja reconhecido.

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Mas esse reconhecimento não é um reconhecimento do pensar, é um reconhecimento do ser, ou seja, o psicanalista reconhece como ato, a partir de seu ser e de seu próprio inconsciente, o inconsciente do outro. Para reconhecer que o ato do analisando é um colocar em prática o inconsciente, é preciso, pois, um outro ato, o do analista. É claro que numerosas diferenças distinguem o ato do analisando do ato do analista, que um lapso do analisando é diferente da interpretação do psicanalista, mas, do ponto de vista em que nos situamos, ou seja, do ponto de vista que considera o inconsciente como uma estrutura, esses dois atos são formalmente idênticos, ou, se preferimos, significantes.

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Se o psicanalista está em condição de sancionar como ato a existência do inconsciente de seu analisando, é porque ele mesmo já percorreu, na condição de paciente, o caminho de uma análise.

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Essa conjunção de dois atos que, no campo da análise, põe em prática o inconsciente, permite-nos formular três hipóteses, que submeto a vocês:
. O inconsciente não é uma instância oculta, já presente, à espera de uma interpretação que venha revelá-lo, mas uma instância produzida quando a interpretação do analista, considerada como um ato de seu inconsciente, reconhece o ato do inconsciente do analisando.
· Assim produzido, o inconsciente é uma estrutura única, comum a ambos os parceiros analíticos. Por conseguinte, devemos corrigir a hipótese anterior e concluir que não existe um inconsciente pertencente ao analisando e, depois, um outro inconsciente pertencente ao psicanalista, mas há apenas um único inconsciente, o que é produzido e é singular no seio da transferência.
· Por fim, a terceira hipótese é a reafirmação de minha proposta inicial de pensar a existência do inconsciente exclusivamente dentro da análise, lembrando que o próprio Lacan também se deteve sobre esse mesmo problema, sem resolvê-lo. Em resposta à observação de um interlocutor que afirmou: “Eu disse que a psicanálise só pode ser válida dentro do campo de suas observações, que é a situação analítica”, Lacan replicou: “É exatamente isso o que digo. Não temos meios de saber se o inconsciente existe fora da psicanálise.”(Scilicet)
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Cinco Lições sobre a Teoria de Jacques Lacan
Juan-David Nasio




terça-feira, junho 30, 2009

Pontuações sobre a direção de uma análise:



  1. O analista não dirige o paciente, mas dirige o tratamento.

  1. O analista faz parte do sintoma. Se ele não intervier, não tem análise.


  1. O analista tem que transformar o particular em singular. Ele chega à singularidade quebrando a expectativa do todo.
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terça-feira, maio 05, 2009

2ª. Aula
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Texto para o Cartel de MG
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Falamos até aqui da importância dos três registros na teoria lacaniana: RSI.


Vimos que o Real é o impossível de simbolizar: “o que não cessa de não se escrever”. E que o objeto a, no Registro do Real é a coisa (das Ding), o vazio: causa de desejo. Dizer que o objeto a “é causa de desejo” não é o mesmo que dizer que “é a causa do desejo”. O objeto não é causa primeira, nem causa última. Afinal, a psicanálise não é uma teoria desenvolvimentista. Causa, neste sentido, pode ser compreendida como potência. É como dizer que a tela em branco é causa de imagens, na arte e no cinema. Quando entramos em um cinema e constatamos a presença da grande tela em branco, podemos ficar tranqüilos, pois sabemos que ao apagar das luzes a tela se iluminará permitindo o desenrolar da outra cena.
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Vimos que o registro do Simbólico é o campo da contingência: “do que cessa de não se escrever”. É, por isso mesmo, o campo do Outro (A). Lembremo-nos que a noção de Outro em Lacan desdobra-se em várias texturas. O Outro é o inconsciente, mas é, também, o campo da Cultura enquanto linguagem, ou rede significante; e, ainda, quando falamos no grande Outro podemos dizer que ele é encarnado por figuras reais da história subjetiva de um sujeito: mãe, pai, os grandes mestres e os grandes amores.
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Esse é o campo do Sujeito, do desejo, das demandas e dos significantes. Aqui, é preciso pontuar que a psicanálise não se interessa pelos signos – significante + significado . A psicanálise enfatiza a não relação entre o significante e o significado, inscrevendo-os em registros separados: no Simbólico os significantes; no Imaginário os significados.
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Já o objeto a, no Registro Simbólico, tem o valor de semblante. Ele é o que da pulsão se escreve e se inscreve no corpo. Nesse campo, podemos falar de Pulsão Oral – cujo objeto é o seio -, de Pulsão Anal – objeto fezes, excrementos -, Pulsão Escópica – objeto olhar -, e Pulsão Invocante – objeto voz.
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Para Lacan a Pulsão Oral e a Pulsão Anal estão intimamente relacionadas com as demandas. Já a Pulsão Escópica e a Invocante estão em relação com o desejo. Por isso, Lacan pode dizer que a voz e o olhar é algo do sujeito que está no campo do Outro, pois o desejo é desejo do Outro. Seja o Outro enquanto inconsciente, seja o Outro encarnado numa figura parental.
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Quanto ao Registro Imaginário, podemos dizer, em primeiro lugar, que ele é o campo da necessidade: do que não cessa de se escrever. Por isso, é o campo da imagem especular, do Estádio do Espelho, do Narcisismo, do Eu, do amor e dos significados enquanto produção de sentido.
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Embora o objeto a escape a especularização, ele é a condição da imagem narcisista: i(a). Ao mesmo tempo em que a imagem mascara o objeto, forma-se a partir dele.
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No texto de Machado de Assis, o espelho que nos interessa é primeiramente o olhar da mãe e, depois, o da tia. É sob esses olhares que o eu se identifica com a alma – o ideal – do alferes, e institui o poder alienante da especularidade narcísica.
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Até aos oito meses, a criança não tem uma imagem total de seu corpo. Por volta desse período acontece o que Lacan chamou de estádio do espelho: a criança experimenta seu corpo como uma unidade. Fundamental, nessa operação, é o olhar do Outro para confirmar esta unidade e dar consistência ao eu.
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Para a psicanálise, o corpo anatomofisiológico sustenta vários outros corpos. Existe uma similaridade e uma continuidade entre esses corpos, mas não uma homogeneidade.
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No Registro Imaginário, o corpo se faz representar pela “imagem do corpo”. Mas essa imagem não é, simplesmente, a imagem especular. A imagem do corpo é formada por uma bricolagem de fragmentos de percepções unificadas por um ideal. Quanto maior a aderência entre a imagem e o ideal, mais distante a imagem do corpo está da realidade.
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E, como dirá Lacan, o que sustenta essa imagem é algo que não se deixa representar na imagem especular. Podemos representar esse algo-a-mais - ou a menos, pois é um menos que se apresenta como mais -, pela idéia do agalma platônico. Lembremo-nos que no Banquete, quando Alcibíades faz seu elogio a Sócrates, ele diz que a imagem corporal de Sócrates não era das mais belas. Na verdade, dizem que Sócrates era muito feio. Mas esta imagem feia velava um objeto precioso, um objeto cintilante, ou seja, o agalma. Este brilho transformava a imagem de Sócrates, fazendo-o parecer belo ao olhar do outro.
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No amor, a algo no outro que o sujeito enamorado não captura, mais antes, é capturado por ele. Criam-se, então, várias historinhas para dar sentido a essa captura. No entanto, ela sempre nos escapa. O que, muitas vezes, causa angústia. Lacan descreve a estratégia do desejo na neurose obsessiva como aquela da destruição da imagem do Outro e, principalmente, do objeto de amor: destruir i (a) para visar a sem mediação.
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Até a década de 70 – Seminário XX - Lacan situa no Registro Simbólico, o corpo epistêmico – um corpo de saber - e o corpo erótico. No Registro do Real, o corpo de gozo. Depois desse período, Lacan faz algumas mudanças nessa articulação. Na aula de hoje, ficaremos com a leitura anterior ao Seminário XX.
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Assim, no Simbólico falamos de um corpo epistêmico, um corpo de saber. Cada um de nós conhece os avisos de seu corpo. Alguém pode dizer que não come melancia, porque lhe faz mal. Ou que não toma mais de cinco cervejas porque não vai agüentar a rebordosa do dia seguinte. Esses são alguns saberes que o corpo nos ensina.
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No Simbólico, também, se constitui o corpo erógeno: o gozo sexual fálico. Esse investimento sexual é a inscrição dos significantes no corpo. Essa inscrição da forma à cartografia erótica do sujeito. É dela que fala Francisco Bosco em seu texto. Cada relação, cada “contrato” com o outro, pode produzir uma mudança nessa cartografia.
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Já no Real, o que se apresenta é o corpo de gozo. Um gozo não sexuado, um gozo fora do significante. Podemos aproximar a noção lacaniana do corpo de gozo da noção de “corpo sem órgão”, de Deleuze.


sexta-feira, abril 17, 2009

Aula de 14 de abril



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Texto para o Cartel de MG

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Em 1953, na fundação da Sociedade Francesa de Psicanálise, Lacan pronuncia uma conferência que intitula de “O simbólico, o imaginário e o real. A partir daí, a tripartição estrutural real-simbólico-imaginário – RSI – foi objeto de contínua investigação até o último de seu Seminário.



Vinte anos depois (1974-75) apresenta o Seminário denominado RSI, reunindo os três registros sob a ótica do nó borromeano. Nesse Seminário, Lacan utiliza a imagem do nó borromeano para representar as relações de dependência recíprocas entre os três registros. Esses três registros são absolutamente indissociáveis. Eles se entrelaçam e, juntos, dão consistência e existência ao psiquismo. Podemos dizer que a noção do nó borromeano em Lacan é análoga a noção de estrutura psíquica em Freud.




O Real



O campo do Real não é a realidade externa, material ou não, nem muito menos a realidade psíquica de Freud, constituída pela fantasia; o Real é o que subsiste a toda simbolização. É o que sempre resta, o impossível de simbolizar. Como impossível, o Real é o que não cessa de não se escrever.

Nesse campo Lacan situa as pulsões parciais. O objeto a, na sua vertente de Das Ding - a Coisa -, o Vazio; é o objeto causa de desejo.

Desde o Seminário 10 – a angústia –, Lacan muda sua concepção de desejo: da intencionalidade à causalidade. Já não se trata do desejo, à maneira da concepção de consciência husserleriana, movido pela intenção, um desejo que se dirige ao objeto

d ---------------------→ a



Trata-se, a partir de então, do desejo “causado”, determinado pelo objeto.



a ----------------------→ d




O desejo intenção corre atrás do seu objeto, circunscrevendo-o na dimensão imaginária. É radicalmente diferente considerar que o objeto está atrás do desejo, que o causa, o determina. Lacan, no Sem. 10, toma o exemplo do fetichista. O fetiche é o Dasein, estar ali. O desejo não se dirige ao fetiche, não é sua meta, mas sim presença necessária que causa e determina a aparição do desejo.



O Simbólico


Se em Lévi-Strauss o simbólico é o lugar da cultura, em Lacan, o simbólico não se resume a ela. Para a teoria lacaniana, o Simbólico é a rede significante, o conjunto dos significantes marcado pelo significante da falta de um significante que pudesse totalizá-lo. O simbólico, portanto, é da ordem da contingência. É o que cessa de não se escrever.


No campo do simbólico o objeto a ganha estatuto de semblante. É aí que podemos falar de pulsão oral – objeto seio, pulsão anal – objeto fezes, pulsão escópica – objeto olhar e pulsão invocante – objeto voz.


O Imaginário


O Imaginário é mais que a imagem e a imaginação. O imaginário é o sistema dos significados ou das significações cristalizadas. É da ordem do necessário: do que não cessa de se escrever.


No campo do imaginário se constitui o estádio do espelho. Onde o olhar do Outro (a mãe) enlaça a libido do sujeito a sua imagem. É o campo do narcisismo e do amor.


Embora o objeto a escape a especularização ele é a condição da imagem narcisista – i(a). Ao mesmo tempo em que a imagem mascara o objeto, forma-se a partir dele.


Lacan esvazia o predomínio imaginário que os prós-freudianos, sob a batuta de Melaine Klein, haviam construído na clínica e na teoria psicanalítica, povoando-a de objetos bons, objetos maus, fases de desenvolvimento e interpretações capazes de revelar o sentido oculto da fala do analisando.


Na trilha desse esvaziamento imaginário, muitas vezes, utiliza, metaforicamente, os conceitos da filosofia para propor uma nova leitura dos conceitos freudianos. Como, por exemplo, o recurso a Hegel e à “dialética do senhor e do escravo” vai servir para repensar o complexo freudiano do Édipo em termos de uma dinâmica intersubjetiva, e não como um sistema de escolhas e de relação de objeto.



segunda-feira, abril 06, 2009



Textos para o Cartel de MG
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O espelho
Esboços de uma nova teoria da alma humana
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Machado de Assis
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Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Entre a cidade, com as suas agitações e aventuras, e o céu, em que as estrelas pestanejavam, através de uma atmosfera límpida e sossegada, estavam os nossos quatro ou cinco investigadores de coisas metafísicas, resolvendo amigavelmente os mais árduos problemas do universo.

Por que quatro ou cinco? Rigorosamente eram quatro os que falavam; mas, além deles, havia na sala um quinto personagem, calado, pensando, cochilando, cuja espórtula no debate não passava de um ou outro resmungo de aprovação. Esse homem tinha a mesma idade dos companheiros, entre quarenta e cinqüenta anos, era provinciano, capitalista, inteligente, não sem instrução, e, ao que parece, astuto e cáustico. Não discutia nunca; e defendia-se da abstenção com um paradoxo, dizendo que a discussão é a forma polida do instinto batalhador, que jaz no homem, como uma herança bestial; e acrescentava que os serafins e os querubins não controvertiam nada, e, aliás, eram a perfeição espiritual e eterna. Como desse esta mesma resposta naquela noite, contestou-lha um dos presentes, e desafiou-o a demonstrar o que dizia, se era capaz. Jacobina (assim se chamava ele) refletiu um instante, e respondeu:


- Pensando bem, talvez o senhor tenha razão.

Vai senão quando, no meio da noite, sucedeu que este casmurro usou da palavra, e não dois ou três minutos, mas trinta ou quarenta. A conversa, em seus meandros, veio a cair na natureza da alma, ponto que dividiu radicalmente os quatro amigos. Cada cabeça, cada sentença; não só o acordo, mas a mesma discussão tornou-se difícil, senão impossível, pela multiplicidade das questões que se deduziram do tronco principal e um pouco, talvez, pela inconsistência dos pareceres. Um dos argumentadores pediu ao Jacobina alguma opinião, - uma conjetura, ao menos.

- Nem conjetura, nem
opinião, redargüiu ele; uma ou outra pode dar lugar a dissentimento, e, como sabem, eu não discuto. Mas, se querem ouvir-me calados, posso contar-lhes um caso de minha vida, em que ressalta a mais clara demonstração acerca da matéria de que se trata. Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas...

- Duas?

- Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para entro... Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. Shylock, por exemplo. A alma exterior aquele judeu eram os seus ducados; perdê-los equivalia a morrer. "Nunca mais verei o meu ouro, diz ele a Tubal; é um punhal que me enterras no coração." Vejam bem esta frase; a perda dos ducados, alma exterior, era a morte para ele. Agora, é preciso saber que a alma exterior não é sempre a mesma...

- Não?

- Não, senhor; muda de natureza e de estado. Não aludo a certas almas absorventes, como a pátria, com a qual disse o Camões que morria, e o poder, que foi a alma exterior de César e de Cromwell. São almas enérgicas e exclusivas; mas há outras, embora enérgicas, de natureza mudável. Há cavalheiros, por exemplo, cuja alma exterior, nos primeiros anos, foi um chocalho ou um cavalinho de pau, e mais tarde uma provedoria de irmandade, suponhamos. Pela minha parte, conheço uma senhora, - na verdade, gentilíssima, - que muda de alma exterior cinco, seis vezes por ano. Durante a estação lírica é a ópera; cessando a estação, a alma exterior substitui-se por outra: um concerto, um baile do Cassino, a rua do Ouvidor, Petrópolis...


- Perdão; essa senhora quem é?

- Essa senhora é parenta do diabo, e tem o mesmo nome; chama-se Legião... E assim outros mais casos. Eu mesmo tenho experimentado dessas trocas. Não as relato, porque iria longe; restrinjo-me ao episódio de que lhes falei. Um episódio dos meus vinte e cinco anos...


Os quatro companheiros, ansiosos de ouvir o caso prometido, esqueceram a controvérsia. Santa curiosidade! tu não és só a alma da civilização, és também o pomo da concórdia, fruta divina, de outro sabor que não aquele pomo da mitologia. A sala, até há pouco ruidosa de física e metafísica, é agora um mar morto; todos os olhos estão no Jacobina, que conserta a ponta do charuto, recolhendo as memórias. Eis aqui como ele começou a narração:

- Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da Guarda Nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes. Primos e tios, foi tudo uma alegria sincera e pura. Na vila, note-se bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, como na Escritura; e o motivo não foi outro senão que o posto tinha muitos candidatos e que esses perderam. Suponho também que uma parte do desgosto foi inteiramente gratuita: nasceu da simples distinção. Lembra-me de alguns rapazes, que se davam comigo, e passaram a olhar-me de revés, durante algum tempo. Em compensação, tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos... Vai então uma das minhas tias, D. Marcolina, viúva do Capitão Peçanha, que morava a muitas léguas da vila, num sítio escuso e solitário, desejou ver-me, e pediu que fosse ter com ela e levasse a farda. Fui, acompanhado de um pajem, que daí a dias tornou à vila, porque a tia Marcolina, apenas me pilhou no sítio, escreveu a minha mãe dizendo que não me soltava antes de um mês, pelo menos. E abraçava-me! Chamava-me também o seu alferes. Achava-me um rapagão bonito. Como era um tanto patusca, chegou a confessar que tinha inveja da moça que houvesse de ser minha mulher. Jurava que em toda a província não havia outro que me pusesse o pé adiante. E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia-lhe que me chamasse Joãozinho, como dantes; e ela abanava a cabeça, bradando que não, que era o "senhor alferes". Um cunhado dela, irmão do finado Peçanha, que ali morava, não me chamava de outra maneira. Era o "senhor alferes", não por gracejo, mas a sério, e à vista dos escravos, que naturalmente foram pelo mesmo caminho. Na mesa tinha eu o melhor lugar, e era o primeiro servido. Não imaginam. Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples... Era um espelho que lhe dera a madrinha, e que esta herdara da mãe, que o comprara a uma das fidalgas vindas em 1808 com a corte de D. João VI. Não sei o que havia nisso de verdade; era a tradição. O espelho estava naturalmente muito velho; mas via-se-lhe ainda o ouro, comido em parte pelo tempo, uns delfins esculpidos nos ângulos superiores da moldura, uns enfeites de madrepérola e outros caprichos do artista. Tudo velho, mas bom...

- Espelho grande?

- Grande. E foi, como digo, uma enorme fineza, porque o espelho estava na sala; era a melhor peça da casa. Mas não houve forças que a demovessem do propósito; respondia que não fazia falta, que era só por algumas semanas, e finalmente que o "senhor alferes" merecia muito mais. O certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. Imaginam, creio eu?

- Não.

- O alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas não tardou que a primitiva cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade. Aconteceu então que a alma exterior, que era dantes o sol, o ar, o campo, os olhos das moças, mudou de natureza, e passou a ser a cortesia e os rapapés da casa, tudo o que me falava do posto, nada do que me falava do homem. A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado. Custa-lhes acreditar, não?


- Custa-me até entender, respondeu um dos ouvintes.

- Vai entender. Os fatos explicarão melhor os sentimentos: os fatos são tudo. A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou o movimento andando. Vamos aos fatos. Vamos ver como, ao tempo em que a consciência do homem se obliterava, a do alferes tornava-se viva e intensa. As dores humanas, as alegrias humanas, se eram só isso, mal obtinham de mim uma compaixão apática ou um sorriso de favor. No fim de três semanas, era outro, totalmente outro. Era exclusivamente alferes. Ora, um dia recebeu a tia Marcolina uma notícia grave; uma de suas filhas, casada com um lavrador residente dali a cinco léguas, estava mal e à morte. Adeus, sobrinho! adeus, alferes! Era mãe extremosa, armou logo uma viagem, pediu ao cunhado que fosse com ela, e a mim que tomasse conta do sítio. Creio que, se não fosse a aflição, disporia o contrário; deixaria o cunhado e iria comigo. Mas o certo é que fiquei só, com os poucos escravos da casa. Confesso-lhes que desde logo senti uma grande opressão, alguma coisa semelhante ao efeito de quatro paredes de um cárcere, subitamente levantadas em torno de mim. Era a alma exterior que se reduzia; estava agora limitada a alguns espíritos boçais. O alferes continuava a dominar em mim, embora a vida fosse menos intensa, e a consciência mais débil. Os escravos punham uma nota de humildade nas suas cortesias, que de certa maneira compensava a afeição dos parentes e a intimidade doméstica interrompida. Notei mesmo, naquela noite, que eles redobravam de respeito, de alegria, de protestos. Nhô alferes, de minuto a minuto; nhô alferes é muito bonito; nhô alferes há de ser coronel; nhô alferes há de casar com moça bonita, filha de general; um concerto de louvores e profecias, que me deixou extático. Ah ! pérfidos! mal podia eu suspeitar a intenção secreta dos malvados.


- Matá-lo?

- Antes assim fosse.

- Coisa pior?

- Ouçam-me. Na manhã seguinte achei-me só. Os velhacos, seduzidos por outros, ou de movimento próprio, tinham resolvido fugir durante a noite; e assim fizeram. Achei-me só, sem mais ninguém, entre quatro paredes, diante do terreiro deserto e da roça abandonada. Nenhum fôlego humano. Corri a casa toda, a senzala, tudo; ninguém, um molequinho que fosse. Galos e galinhastão-somente, um par de mulas, que filosofavam a vida, sacudindo as moscas, e três bois. Os mesmos cães foram levados pelos escravos. Nenhum ente humano. Parece-lhes que isto era melhor do que ter morrido? era pior. Não por medo; juro-lhes que não tinha medo; era um pouco atrevidinho, tanto que não senti nada, durante as primeiras horas. Fiquei triste por causa do dano causado à tia Marcolina; fiquei também um pouco perplexo, não sabendo se devia ir ter com ela, para lhe dar a triste notícia, ou ficar tomando conta da casa. Adotei o segundo alvitre, para não desamparar a casa, e porque, se a minha prima enferma estava mal, eu ia somente aumentar a dor da mãe, sem remédio nenhum; finalmente, esperei que o irmão do tio Peçanha voltasse naquele dia ou no outro, visto que tinha saído havia já trinta e seis horas. Mas a manhã passou sem vestígio dele; à tarde comecei a sentir a sensação como de pessoa que houvesse perdido toda a ação nervosa, e não tivesse consciência da ação muscular. O irmão do tio Peçanha não voltou nesse dia, nem no outro, nem em toda aquela semana. Minha solidão tomou proporções enormes. Nunca os dias foram mais compridos, nunca o sol abrasou a terra com uma obstinação mais cansativa. As horas batiam de século a século no velho relógio da sala, cuja pêndula tic-tac, tic-tac, feria-me a alma interior, como um piparote contínuo da eternidade. Quando, muitos anos depois, li uma poesia americana, creio que de Longfellow, e topei este famoso estribilho: Never, for ever! - For ever, never! confesso-lhes que tive um calafrio: recordei-me daqueles dias medonhos. Era justamente assim que fazia o relógio da tia Marcolina: - Never, for ever!- For ever, never! Não eram golpes de pêndula, era um diálogo do abismo, um cochicho do nada. E então de noite! Não que a noite fosse mais silenciosa. O silêncio era o mesmo que de dia. Mas a noite era a sombra, era a solidão ainda mais estreita, ou mais larga. Tic-tac, tic-tac. Ninguém, nas salas, na varanda, nos corredores, no terreiro, ninguém em parte nenhuma... Riem-se?

- Sim, parece que tinha um pouco de medo.

- Oh! fora bom se eu pudesse ter medo! Viveria. Mas o característico daquela situação é que eu nem sequer podia ter medo, isto é, o medo vulgarmente entendido. Tinha uma sensação inexplicável. Era como um defunto andando, um sonâmbulo, um boneco mecânico. Dormindo, era outra coisa. O sono dava-me alívio, não pela razão comum de ser irmão da morte, mas por outra. Acho que posso explicar assim esse fenômeno: - o sono, eliminando a necessidade de uma alma exterior, deixava atuar a alma interior. Nos sonhos, fardava-me orgulhosamente, no meio da família e dos amigos, que me elogiavam o garbo, que me chamavam alferes; vinha um amigo de nossa casa, e prometia-me o posto de tenente, outro o de capitão ou major; e tudo isso fazia-me viver. Mas quando acordava, dia claro, esvaía-se com o sono a consciência do meu ser novo e único -porque a alma interior perdia a ação exclusiva, e ficava dependente da outra, que teimava em não tornar... Não tornava. Eu saía fora, a um lado e outro, a ver se descobria algum sinal de regresso. Soeur Anne, soeur Anne, ne vois-tu rien venir? Nada, coisa nenhuma; tal qual como na lenda francesa. Nada mais do que a poeira da estrada e o capinzal dos morros. Voltava para casa, nervoso, desesperado, estirava-me no canapé da sala. Tic-tac, tic-tac. Levantava-me, passeava, tamborilava nos vidros das janelas, assobiava. Em certa ocasião lembrei-me de escrever alguma coisa, um artigo político, um romance, uma ode; não escolhi nada definitivamente; sentei-me e tracei no papel algumas palavras e frases soltas, para intercalar no estilo. Mas o estilo, como tia Marcolina, deixava-se estar. Soeur Anne, soeur Anne... Coisa nenhuma. Quando muito via negrejar a tinta e alvejar o papel.

- Mas não comia?

- Comia mal, frutas, farinha, conservas, algumas raízes tostadas ao fogo, mas suportaria tudo alegremente, se não fora a terrível situação moral em que me achava. Recitava versos, discursos, trechos latinos, liras de Gonzaga, oitavas de Camões, décimas, uma antologia em trinta volumes. As vezes fazia ginástica; outra dava beliscões nas pernas; mas o efeito era só uma sensação física de dor ou de cansaço, e mais nada. Tudo silêncio, um silêncio vasto, enorme, infinito, apenas sublinhado pelo eterno tic-tac da pêndula. Tic-tac, tic-tac...

- Na verdade, era de enlouquecer.

- Vão ouvir coisa pior. Convém dizer-lhes que, desde que ficara só, não olhara uma só vez para o espelho. Não era abstenção deliberada, não tinha motivo; era um impulso inconsciente, um receio de achar-me um e dois, ao mesmo tempo, naquela casa solitária; e se tal explicação é verdadeira, nada prova melhor a contradição humana, porque no fim de oito dias deu-me na veneta de olhar para o espelho com o fim justamente de achar-me dois. Olhei e recuei. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. Então tive medo; atribuí o fenômeno à excitação nervosa em que andava; receei ficar mais tempo, e enlouquecer. - Vou-me embora, disse comigo. E levantei o braço com gesto de mau humor, e ao mesmo tempo de decisão, olhando para o vidro; o gesto lá estava, mas disperso, esgaçado, mutilado... Entrei a vestir-me, murmurando comigo, tossindo sem tosse, sacudindo a roupa com estrépito, afligindo-me a frio com os botões, para dizer alguma coisa. De quando em quando, olhava furtivamente para o espelho; a imagem era a mesma difusão de linhas, a mesma decomposição de contornos... Continuei a vestir-me. Subitamente por uma inspiração inexplicável, por um impulso sem cálculo, lembrou-me... Se forem capazes de adivinhar qual foi a minha idéia...

- Diga.

- Estava a olhar para o vidro, com uma persistência de desesperado, contemplando as próprias feições derramadas e inacabadas, uma nuvem de linhas soltas, informes, quando tive o pensamento... Não, não são capazes de adivinhar.

- Mas, diga, diga.

- Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e...não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. Essa alma ausente com a dona do sítio, dispersa e fugida com os escravos, ei-la recolhida no espelho. Imaginai um homem que, pouco a pouco, emerge de um letargo, abre os olhos sem ver, depois começa a ver, distingue as pessoas dos objetos, mas não conhece individualmente uns nem outros; enfim, sabe que este é Fulano, aquele é Sicrano; aqui está uma cadeira, ali um sofá. Tudo volta ao que era antes do sono. Assim foi comigo. Olhava para o espelho, ia de um lado para outro, recuava, gesticulava, sorria e o vidro exprimia tudo. Não era mais um autômato, era um ente animado. Daí em diante, fui outro. Cada dia, a uma certa hora, vestia-me de alferes, e sentava-me diante do espelho, lendo olhando, meditando; no fim de duas, três horas, despia-me outra vez. Com este regime pude atravessar mais seis dias de solidão sem os sentir...


Quando os outros voltaram a si, o narrador tinha descido as escadas.
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Cartografia de um Corpo Reinventado
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Francisco Bosco, in: Banalogias
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O corpo das putas é um corpo singular. Uma espécie de mapa em que linhas contratuais organizam regiões de acordo com seu estatuto “jurídico”: cada zona desse corpo assumirá um sentido determinado por sua relação com o fato, primordial, de que se trata de um corpo sob contrato. Ocorre que o fato de haver contrato implica imediatamente o haver também a possibilidade de sua transgressão; é dessa dialética que resultará uma cartografia original, redefinidora dos valores e significações dos lugares do corpo. Toda a trama, complexa, do sexo pago se tece a partir desses dois fios principais, contrato e transgressão.
O primeiro e principal efeito de se pôr o sexo sob contrato é a forma como isso atinge o imaginário. No erotismo não-pago há sempre uma alta dose de imaginário, às vezes cansativa, embora ao mesmo tempo eroticamente poderosa: “quem sou eu para o outro?”, “será que ele me deseja?”, “será que ele vai gostar de minha perfomance?” etc. O contrato, em princípio, é como uma rolha em toda essa hemorragia narcísica. Eu não sou uma imagem para o outro, não preciso seduzi-lo nem ser seduzido por ele, não há dúvidas quanto a que interesse esta em jogo. O contrato zera o imaginário, na medida em que substitui a lógica particular da imagem por aquela, genérica, do dinheiro. Trata-se de reduzir o sexo ao sexo.
Talvez o sentido decisivo do sexo pago seja portanto esse: a anulação do imaginário. É por isso que a prostituição nada tem a ver com o mundo do amor, dos relacionamentos, ou mesmo do sexo sem compromisso. Pode ser que esse último deseje o esvaziamento do imaginário, mas está submetido à lógica da escolha particular, o que acarreta a presença da imagem. Já o sexo pago é um sexo vazio, desde que se entenda isso como sua maior virtude. A coisa se complica, entretanto, pelo fato de que tão forte quanto o apelo do contrato é o apelo de sua transgressão. Entrar no campo do imaginário vazio é expor-se, imediatamente, à tentação de restabelecê-lo sob outras regras. Aqui começa o enredo do sexo pago.
A cartografia do corpo das putas é bastante conhecida, pelo menos em suas regiões mais expressivas: a boca é a zona de maior intimidade, a boceta é o próprio objeto do contrato, o cu pode ou não ser contratuado. É claro que, referindo-me à boca, falo do beijo, e não da tradicional felação, também objeto clássico do contrato. Entre o corpo do “contratante” e o corpo do “cedente” há assim uma série de combinações legais ou infratoras. As infrações, contudo, são de categorias bastante diversas. Putas não gostam que se lhes enfie os dedos na boceta, mas isso é uma infração, paradoxalmente, dentro dos termos da lei: uma espécie de barganha, uma negociação. O contrato do programa estabelece a penetração do pau, não a dedada, mas a dedada é um movimento que se situa ainda na lógica do sexo vazio, irredutível. A mesma coisa quanto ao sexo anal, quando não acordado previamente.
O beijo na boca, contudo, caracteriza uma outra categoria de transgressão, e é aqui que a trama se adensa. O sexo costuma ser o reduto mais inexpugnável da privacidade do sujeito. Submetê-lo à lógica da mercadoria, torná-lo indiscriminadamente público conduz à necessidade de reconfigurar critérios e espaços para a preservação da intimidade. É assim que a boca ressurge, no corpo reinventado das putas, como região interdita ao público, item proibitivo do contrato, lugar que restabelece o corpo privado tornado público pelo contrato. Só que a boca, por esse mesmo movimento de escapar ao contrato, torna-se símbolo desse escape, e converte-se, para o contratante, em objeto do desejo de transgredir a lei.
É um fetiche clássico e uma fantasia banal de virilidade o beijo na boca das putas. Por ele restabelece-se o imaginário, triunfante, sob a forma da distinção transgressora: “ela me escolheu, mesmo sob contrato”, “eu paguei pelo sexo, mas, como sou especial, ela me deu, espontaneamente, a intimidade”. O beijo na boca marca a passagem do geral ao particular, do público ao privado, do grau zero da imagem ao transbordamento do imaginário. Algo semelhante – porém não igual – ocorre quanto ao desejo de o contratante fazer a puta gozar. Pois o contrato prevê apenas o gozo do contratante e, conferindo ao contratado um estatuto pragmático, como que afasta dele a experiência do gozo. De certa forma, a puta não gozar é a lei. O gozo da puta é transgressivo, íntimo, passa ao espaço privado. Isso não quer dizer que a puta não tem prazer enquanto faz sexo profissionalmente, mas, sim, que não tem obrigação de tê-lo, e que a repetição profissional cria um contexto em que seu gozo, imaginariamente, é tomado como uma distinção.
O cruzamento dos imaginários se restabelece no sexo pago, portanto, nestes termos: aquele que paga deseja a intimidade e o privado da puta como transgressão do contrato, transgressão cujo sentido é uma afirmação da auto-imagem; ocorre que a puta sabe disso, e pode negociar sua intimidade, encenando o gozo ou permitindo beijar-se, oferecendo, assim, o espaço privado como recurso profissional, usando a restrição do contrato de forma a sofisticar o uso do próprio contrato. É preciso repetir a ressalva: isso não significa que o gozo da puta é necessariamente encenado, que o beijo na boca é sempre performático, mas sim que toda passagem à intimidade, “falsa” ou “verdadeira” (ou as duas coisas ao mesmo tempo), dá-se a partir dessa trama prévia, no contexto de sua ambigüidade.
Mas talvez a região mais interditada do corpo da puta seja aquela, transgeográfica, do afeto. A palavra é o instrumento mais obsceno do sexo pago. Uma puta dificilmente dá um passo nesse sentido, pois sabe que quem paga o faz para livrar-se, em princípio, do imaginário (o afeto envolve sempre a imagem). Ao mesmo tempo, a puta pode jogar com o afeto, uma vez que o contrato está bem constituído, e então o afeto ressurge como transgressão maior, distinção das distinções: o amor substitui o sexo num lance em que o contrato é espetacularmente rasgado por força de uma particularidade irresistível. Mas também aqui o afeto faz parte de uma trama que inclui o afago no imaginário de quem paga, podendo ser outro recurso profissional.
Mais habitual, talvez, é a passagem ao afeto pelo discurso de quem paga. Aí a questão chega a seu ponto conflituoso máximo. Querer estabelecer uma comunicação afetiva, não-pragmática com uma puta pode ser algo de uma violência insuportável. É preciso não confundir, aqui, o afetivo com a delicadeza. A delicadeza é uma forma pela qual quem paga respeita o trabalho da puta. Já o afeto corre sempre o risco do desrespeito: pode ser tomado, seja como intolerável discurso da redenção (“tenho pena de você, da sua vida”), seja como uma veleidade antropológica (querer saber mais da vida da puta), seja ainda como uma transgressão muito abusiva rumo ao espaço privado. Não importa qual a intenção de quem paga ao fazê-lo, o afeto pode sempre parecer uma forma de mascarar a violência social que não deixa de ser o sexo sob contrato (o que não exclui o prazer, o gozo, a alegria das putas). Sim, o afeto no sexo pago é a cordialidade – no sentido conceitual – em estado puro, com sua ambivalência irredutível: esplendor e obscuridade.
É por isso que, no belo conto do escritor Nilo de Oliveira, “Pornografia Pessoal de um Ilusionista Fracassado” (que consta no livro Putas, antologia de contos luso-brasileiros), um homem leva uma puta de 11 anos a um quarto de hotel, assiste à sua tentativa de parecer uma puta experiente (fazendo strip-tease, performando com segurança), fica com pena de si e dela, coloca-a numa banheira (ela entra contrita, eriçada como um gato), é tomado por um afeto de redenção (dar carinho para redimi-la de sua vida miserável), põe-se a ensaboá-la (limpar as máculas da vida de puta), e quando olha para ela nota que ela o encara... com ódio. É assim que se estupra uma puta: penetrando o para-além de seu corpo. De resto, todo redentor é arrogante.


sexta-feira, abril 03, 2009



A pulsão




A pulsão, conforme Freud, não obedece a nenhuma causalidade ou finalidade predeterminadas numa suposta ordem natural.
A temporalidade das pulsões é completamente indiferente a toda a noção de encadeamento causal, ou seja, a pulsão não participa de nenhuma sequencia de causalidade.
Por não ter nem origem nem meta estritamente definidas, é uma força errante alheia a toda a necessidade biológica ou social.
Por ser uma força errante, nem constitui nem submete-se a um esqueleto inteligível do devir.
Se a pulsão tem uma dimensão histórica, seu devir é devir de devir.
A noção freudiana de pulsão desconstrói toda a idéia que pretenda enxergar a presença de uma razão imanente ao aparelho psíquico, pois sua atuação leva à contradição e a correlações provisórias nas instâncias do aparelho psíquico onde comparece e se motamorfoseia.

domingo, março 15, 2009

Programa e Cronograma do Curso
A leitura lacaniana de “O visível e o invisível”
10/03 – Apresentação do programa
17/03 – Tópico 1 ( Sob quais condições as noções de pulsão escópica - Lacan - e invisível - Merleau-Ponty - se aproximam ou se distanciam?)
17/03 – Idem
24/03 – Tópico 2 (A cura pelo desejo e o lugar da pulsão no primeiro ensino de Lacan.)
31/03 – Idem
07/04 – Tópico 3 (Em torno do objeto a: o retorno a Freud.)
14/04 - Curso com a Dra. Maria Leite
28/04 – Curso com a Dra. Maria Leite

05/05 – Tópico 4 (A constituição do sujeito do inconsciente no Campo do Outro e a separação como resposta à alienação.)
12/05 – Tópico 5 (Do olhar como objeto a minúsculo.)
19/05 – Tópico 6 (Mais além da fenomenologia: o quiasma vidente-visível em Merleau-Ponty)
26/05 – Tópico 7 (O outro como visível e o outro como invisível.)
02/06 – Tópico 8 ( O invisível: chora ou pulsão?)
09/06 – Tópico 9 (Idealidade de horizonte e idealidade cultural: pulsão e arte.)
16/09 – Tópico 10 (Porosidade carnal e o falasser lacaniano.)
23/06 – Tópico 11 (O discurso sobre a sublimação.)
30/06 – Conclusão.
Local: CCE B – sala 325 - UFSC
Horário: 13H30 as 16H30




Pós-Graduação em Literatura
Prof. Dr. Marcos José Müller-Granzotto




sábado, fevereiro 28, 2009

quarta-feira, fevereiro 25, 2009

O obsessivo e seu desejo


O obsessivo e seu desejo,
segundo o Seminário V de Lacan.


O desejo para o obsessivo se apresenta de forma evanescente, diz Lacan no Seminário V. Essa evanescência do desejo é efeito da dificuldade, do sujeito obsessivo, na relação com o Outro; na medida em que o campo do Outro é o lugar onde se ordena o desejo.

Se, conforme Lacan, o desejo se ordena pelo significante. É no interior do campo Simbólico que o sujeito é obrigado a se exprimir e produzir um efeito de significante, isto é, um significado. Esse é o pacto da constituição do sujeito da linguagem, fora de qualquer imanência. É no interior da experiência que o sujeito tem com a linguagem que vem se formular sua relação com o desejo.

A relação do sujeito com o Outro, e com a vida, é simbolizada por um engodo, uma isca, cujo ponto de referência é o significante do falo. O falo como simbólico tem por tarefa orientar o ser humano com relação a um significado, assim sendo orienta o desejo, e por esta razão se encontra numa posição privilegiada.

Para a teoria lacaniana, a inserção do sujeito no desejo é sempre problemática, pois o desejo se insere através da dialética da demanda, e a demanda sempre pede algo a mais que a satisfação a que ela apela. “Daí o caráter problemático e ambíguo do lugar onde se situa o desejo.” Esse lugar está para além da demanda, na medida em que esta visa à satisfação: o desejo busca algo a mais, algo para além. Mas, por outro lado, o desejo está aquém da demanda considerando que ela, por ser articulada em significantes, é demanda de amor. O amor almeja obter do Outro uma presenticação essencial, o ser do Outro. Que o Outro dê o seu próprio ser, é justamente o que é visado no amor. No entanto, o desejo visa este aquém da presentificação do significante, aquém da presentificação do ser.

Ou seja, enquanto a demanda de amor visa o ser o desejo visa à falta a ser, isto que estaria aquém da presentificação do significante, aquém da presentificação do ser. “É no espaço virtual entre o apelo da satisfação e a demanda de amor que o desejo ocupa seu lugar e se organiza”.

Desse modo, só podemos situar o desejo a partir de sua dupla relação à demanda. Aquém ou além, dependendo do aspecto que considerarmos a demanda. Além da demanda em relação a uma necessidade, ou aquém da demanda estruturada em termos significantes. Ou seja: além da necessidade, aquém das palavras.

Como tal, o desejo não se reduz a satisfação da demanda e ao mesmo tempo necessita da articulação desta. “O outro como lugar da fala, como aquele a quem se dirige a demanda, passa a ser também o lugar onde deve ser descoberto o desejo, onde deve ser descoberta sua formulação possível. É aí que se exerce a todo instante a contradição, porque esse Outro é possuído por um desejo – um desejo que, inaugural e fundamentalmente, é estranho ao sujeito.”

Daí a dificuldade da formulação do desejo nas estruturas neuróticas. O sujeito histérico fica preso no desejo enquanto insatisfação da demanda. Não é isto o que deseja, o que deseja é sempre outra coisa. Este algo a mais, que está para além de toda satisfação da demanda, caracteriza seu desejo como desejo de insatisfação. O sujeito histérico se identifica com o outro insatisfeito, e a identificação histérica aponta para o além da demanda.

Por sua vez, o sujeito obsessivo fica na dependência do Outro para obter acesso ao seu desejo, precisa que o Outro diga o que ele quer para que ele possa ser. Lembramos que esse aquém da demanda aponta para a falta a ser: o desejo do Outro aponta para esta falta que ele não consegue interpretar.

Mas, se por um lado, o sujeito obsessivo fica preso na demanda do Outro, tentando ser o que ele demanda; por outro, busca com afinco desvencilhar-se dessa identificação dada pelo Outro para poder desejar. “Poderíamos dizer que o obsessivo está sempre pedindo alguma permissão. ... Pedir permissão é, justamente, ter como sujeito uma certa relação com a própria demanda. Pedir permissão, na medida mesma em que a dialética com o Outro – o Outro falante – é posta em causa, posta em questão, ou até posta em perigo, é dedicar-se, afinal de contas, a restaurar esse Outro, é colocar-se na mais extrema dependência dele. Isso já nos indica a que ponto esse lugar é de manutenção essencial para o obsessivo. É exatamente aí que vemos a pertinência do que Freud sempre chama de Versagung, a recusa. Recusa e permissão implicam uma na outra. O pacto é recusado sobre o fundo da promessa, o que é melhor do que falar em frustração”.

O impasse do desejo no sujeito obsessivo se demonstra com o fato que para ele desejar, isto é, ter acesso a falta a ser que o desejo exige, é necessário se desvencilhar do ser do Outro do significante que é lhe imposto com a demanda. Para isso, procura destruir o Outro: o desejo do obsessivo implica na destruição do Outro. Quando ele detém o objeto do seu desejo nada mais existe, e na destruição do Outro, quando ocorre, o próprio desejo vem a desaparecer. No entanto, se essa destruição não ocorre torna-se servo da demanda. Preso na demanda de amor tenta ser para o Outro, e, simultaneamente, preserva o Outro na sua toda potência.

Numa análise, o analista deve sustentar esse impasse entre a falta e a potência do Outro, abstendo-se do furor terapêutico. Único modo de construir um espaço onde o sujeito obsessivo poderá colocar em questão, por um lado, suas identificações, o seu ser, para deixar aparecer o sujeito dividido; e, por outro lado, reencontrar-se na ex-sistência, na sua falta a ser, lá onde é apesar de não ser. O que provoca uma nova inserção do sujeito no mundo com o trabalho que nunca acaba e com respeito ao amor, não mais visto como uma solução, uma possibilidade de se livrar da falta, mas como resultado da impossibilidade da queda do Outro.
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Referência Bibliográfica
Lacan, Jacques, O Seminário – livro 5 – as formações do inconsciente.
  • (Parte 4 – A Dialética do desejo e da demanda na clínica e no tratamento das neuroses.)

domingo, fevereiro 15, 2009








A cólera, eu lhes disse, é o que acontece nos sujeitos quando os pininhos não entram nos buraquinhos. Que quer dizer isso? É quando, no nível do Outro, do significante - ou seja, sempre, mais ou menos, no nível da fé, da boa fé -, não se joga o jogo. Pois bem, é isso que provoca a cólera.


Jacques Lacan - Seminário: a angústia

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sábado, fevereiro 14, 2009

O desejo e o sujeito histérico:




O sujeito histérico é, por "natureza", eternamente insatisfeito. Com medo de um gozo arrebatador que poderia enlouquecê-lo, ele se defende com a fantasia inconsciente, da impossibilidade de concretizá-lo. Assim, em suas relações, o Outro é sempre causador de insatisfação. Para sustentar este estado de insatisfação, no seu imaginário, o histérico transforma realidade em fantasias, sexualiza o que não é sexual, encarna uma sensualidade provocadora mas acaba por frustrar o Outro para continuar como ser insatisfeito.

Nega a relação sexual, anestesiando seus órgãos genitais mas, por outro lado, faliciza globalmente o corpo. O desejo do histérico é um desejo de insatisfação.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

Lalíngua ou Alíngua: pequena introdução

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Embora as traduções dos textos de Lacan apresentem ora a palavra alíngua, ora lalíngua, um grande número de seus comentadores opta por manter a palavra lalangue tal como Lacan a criou, por considerar esse neologismo intraduzível, já que ele associa o termo à lalação do bebê.
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“Je fais lalangue parce que ça veut dire lalala, la lallation, à savoir que c’est un fait que très tôt l’être humain fait des lallations, comme ça, il n’y a qu’à voir un bébé, l’entendre, et que peu à peu il y a une personne, la mère, qui est exactement la même chose que lalangue, à part que c’est quelqu’un d’incarné, qui lui transmet lalangue”. (Jacques Lacan: Conférence donnée au Centre culturel français le 30 mars 1974.)

 
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Para Haroldo de Campos, tradutor-inventor desse significante lacaniano, o prefixo “a”, em português, tem um sentido privativo que o distancia do artigo feminino francês La escolhido por Lacan. Assim sendo, a opção por “alíngua” poderia vir a significar o oposto do que se pretende com lalangue. Em vez de um destaque, de uma ênfase nas ressonâncias com “lalia”, “lalação” e de uma evocação de tudo o que nos afeta quanto a um fluxo polifônico das palavras, poderíamos incorrer no erro de conceber lalangue como uma ausência de linguagem. (Campos, Haroldo de, “O afreudisíaco Lacan na galáxia de lalíngua (Freud, Lacan e a escritura)
“Desde a origem há uma relação com lalangue, que merece ser chamada, com toda razão, de materna, porque é pela mãe que a criança – se assim posso dizer – a recebe. Ela não aprende lalangue”
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Lalangue é do domínio onomatopaico: não mais uma língua arbitrária, mas motivada. É uma forma de satisfação que não depende da significação. Ela introduz a conseqüência na linguagem, e essa introdução é mediada pela figura materna:
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A noção de lalangue aparece pela primeira vez em O aturdito, mas é no Seminário Mais, ainda (1972-73) que Lacan melhor desenvolve esse conceito. Refere-se à lalangue nas aulas de 13 de março, 8 e 15 de maio de 1973, e a aula de 26 de junho é especificamente dedicada a esse tema. “A linguagem é apenas aquilo que o discurso científico elabora para dar conta do que chamo de lalangue”, diz Lacan ao citar o discurso científico como produtor de saber.

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Na última aula do Seminário XX, Lacan fala que o ponto chave de seu ensino naquele ano foi o saber, e que a linguagem é uma elucubração de saber sobre lalangue, enquanto o inconsciente é um saber-fazer sobre lalangue. O conceito de lalangue será retomado regularmente em seu ensino, principalmente de 1973 a 1975, como em Televisão (1973), no Seminário XXI – Les non-dupes-errent (1973/74), em La troisième - Intervention au Congrès de Rome (31.10.1974 / 3.11.74), no Seminário XXIII – O sinthome (1975-76), em Conference et entretiens dans des universités nord-americaines (1975) e segue até o Seminário XXVII – Dissolution, Le Séminaire de Caracas, de 12 a 15 de julho de 1980.
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No Seminário XXIII - O Sinthome -, Lacan analisa o escritor Joyce e sua obra. A leitura de Joyce foi tão importante para Lacan, teve tanta influência em sua teoria, que acabou por se tornar o mito lacaniano. Joyce está para Lacan como o mito de Édipo está para Freud.
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Segundo Lacan, no Seminário XXIII, Joyce abstrai-se do querer-dizer, isto é, não quer mais nada dizer. Não dá o significado do significante, mas somente o eco homofônico e translingüístico que confunde que despista todo significado e, principalmente, que o anula e que o multiplica, sendo uma câmara de ecos que baterá um no outro ao acaso, de maneira contingente. Lacan diz que Joyce é o que está ali, para demonstrar a relação de cada um com lalangue.
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Uma primeira articulação entre psicose e lalangue foi pensar em que os
neologismos se distanciam de lalangue. Os neologismos são criações de novas palavras ou uma palavra que não tem significação e passa a ter para um determinado sujeito. Lalangue é feita de qualquer coisa, de mal-entendido, anterior ao significante-mestre. Não é um instrumento de comunicação, mas uma forma de tecer um esboço de laço social.
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Sob a perspectiva da psicose, “lalangue, faz do ser que a habita e que a falará, um doente, um diferente e tudo que lhe é permitido fazer com, é uma obra.” Esse seria o exemplo de Joyce. Pela via do traumatismo sofrido da lalangue, e de suas conseqüências, fazer uma obra. Joyce trabalhou durante dezessete anos um ideal - a que o autor irlandês prometeu a si mesmo dedicar-se e realizar, afastando-se dos vínculos sociais -, e que Lacan chamou o seu “escabelo” – “S.K.beau”.
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Outros escritores igualmente se isolaram durante muitos anos. Dois exemplos bastante conhecido são os de Montaigne, fechado na sua torre de marfim depois de perder seu grande amigo; e o do escritor Marcel Proust que, bastante doente, permaneceu em seu quarto, durante catorze anos. - Após a morte da mãe, dois anos depois da do pai, dedicou-se a estudar psicanálise e psicologia, internou-se numa clínica e, de volta à sua casa escreveu À la recherche du temps perdu, obra de quatro mil páginas. - Também esses fizeram de seu traumatismo, de seu sintoma, uma obra de arte.
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Cada lalangue é incomparável a qualquer outra, já que não existem dois ditos que sejam iguais. Partindo da perspectiva lacaniana de que não há discurso que não seja do semblante, a psicanálise, como qualquer discurso, é um artifício e uma tentativa de abordar lalangue.
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Lalangue é a língua da magia, das crianças, dos amantes. É a palavra fora da significação. Está em oposição à linguagem estruturada, que separa o saber do real. É um saber que está inteiramente investido no fazer, um saber-fazer.
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Essa é à base da Segunda Clínica de Lacan. Lalangue, L´apparole e Lituraterre estão para a Segunda Clínica de Lacan, assim como a Fala, a Linguagem e a Letra estão para a Primeira Clínica. Antes, o sujeito buscava uma análise para encontrar um sentido, uma interpretação da sua vida. Hoje, o analisando encontra uma orientação na análise, mas ele é quem dá o sentido, ele decide e se responsabiliza por sua escolha.
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É um convite ao que Lacan chamava da lógica da fantasia – a elevação da libido ao patamar do gozo suposto, um dos nomes do real. Enquanto a linguagem e o discurso podem ser considerados uma defesa contra o real, lalangue veicula o real.
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 (Jacques Lacan: Conference et entretiens dans des universités nord-americaines. Scilicet n. 6/7, 1975, p.42-45)

OUTRO(S) NUM CASAMENTO

Uma conversa com Marcos José Müller, autor do recém lançado Outro(s) num Casamento. MARIA: Gostaria em primeiro lugar que você fala...