quarta-feira, novembro 24, 2010

Gênese e estrutura do objeto do fantasma em Jacques Lacan


Vladimir Safatle

Amamos sempre
através de qualidades de empréstimo.
Pascal


Tal como o ser em Aristóteles, o fantasma em Lacan se diz de várias maneiras. Neste artigo, trata-se de se concentrar na natureza específica e na função dos objetos fantasmáticos, já que foi através do problema do objeto que a reflexão lacaniana sobre o fantasma organizou-se. Se pensarmos, por exemplo, na definição do fantasma como uma cena imaginária na qual o sujeito representa a realização de seu desejo, veremos que tal representação é produção de um objeto próprio ao desejo. Pois o fantasma aparece como esta construção que indica a maneira singular através da qual cada um de nós procura determinar um caminho em direção ao gozo. Este é ao menos o sentido da definição lacaniana: “o fantasma faz o prazer próprio ao desejo” (LACAN, 1966, p. 774).




Não se trata apenas de afirmar que o fantasma indica a predominância do princípio de prazer na realidade psíquica. Lembremos que, para Lacan, o desejo é desprovido de todo procedimento natural de objetificação, o desejo é desejo de nada que possa ser nomeado. Neste sentido, afirmar que o fantasma produz um objeto capaz de satisfazer ou, como gostaria Lacan, de fazer o prazer próprio ao desejo, significa dizer que ele permite que o sujeito forneça uma realidade empírica a um desejo que, até então, era pura determinação negativa. Isto mostra como o fantasma é o único procedimento disponível ao sujeito para a objetificação do seu desejo. Daí porque ele seria: “a sustentação do desejo” (LACAN, 1973, p. 168) ou ainda “este lugar de referência através do qual o desejo aprendera a situar-se” (LACAN, 1958-1959, sessão do 12/08/58). Como nos mostra, por exemplo, Melanie Klein através da descrição do caso de psicose do Pequeno Dick, sem a ação do fantasma o sujeito não saberia como desejar e estabelecer uma relação de objeto. Toda capacidade de simbolização estaria assim bloqueada, restando apenas uma posição autista angustiante na qual seria impossível dizer algo sobre o desejo
1.

Definido o fantasma desta forma, Lacan tentava demonstrar que sua verdadeira função consistira em ser uma barreira de defesa contra a angústia produzida pelo inominável do desejo. Angústia que aparece sob a forma de angústia de castração: este desvelamento da impossibilidade do sujeito produzir uma representação adequada do sexual.

Mas como o fantasma conseguiria produzir um objeto próprio ao desejo? Ou seja, através de qual operação ele poderia inscrever no interior fantasmático e positivar esta falta-a-ser que se determina como essência do desejo? Sublinhemos a importância da questão já que, através da problematização da genética própria ao fantasma, Lacan desenvolverá este que, em seu ponto de vista, era um dos poucos conceitos metapsicológicos por ele criado: o objeto a.

Se quisermos compreender o problema da genética do fantasma, devemos retornar a certos aspectos da teoria freudiana. Sabemos que, para Freud, o movimento do desejo era coordenado pela repetição alucinatória de experiências primeiras de satisfação. Tais experiências primeiras deixariam imagens mnésicas de satisfação no sistema psíquico. Quando um estado de tensão reaparece, o sistema psíquico atualiza de uma maneira automática tais imagens sem saber se o objeto correspondente à imagem está ou não efetivamente presente. Através deste processo de repetição, o desejo procuraria reencontrar um objeto perdido ligado às primeiras experiências de satisfação.

Mas o movimento tem sua complexidade. Pois, se analisarmos de maneira mais precisa a natureza destas primeiras experiências de satisfação, veremos que elas se dão através da relação entre o sujeito e aquilo que Karl Abraham indicou como sendo o que hoje conhecemos por objetos parciais2. Neste caso, o adjetivo parcial significa principalmente que, devido a uma insuficiência na capacidade perceptiva do bebê, suas primeiras experiências de satisfação não se dão com representações globais de pessoas, como o pai, a mãe ou mesmo o eu enquanto corpo próprio, mas com partes de tais objetos: seios, voz, olhar, excrementos etc.

O caráter parcial dos primeiros objetos de satisfação também estaria ligado à estrutura originariamente polimórfica da pulsão, ou seja, ao fato de que as moções pulsionais apresentam-se inicialmente sob a forma de pulsões parciais cujo alvo consiste na satisfação do prazer específico de órgão. Pensemos no bebê que ainda não tem à sua disposição uma imagem unificada do corpo próprio. Neste caso, cada zona erógena tem tendência em seguir sua própria economia de gozo. Notemos também que tal gozo é auto-erótico porque o investimento libidinal destes objetos parciais ocorre antes do advento da imagem narcísica com sua estrutura de identidades, ou seja, ele ocorre em um momento de indiferenciação subjetiva entre interioridade e exterioridade.

O amor de objeto, no sentido do amor próprio à relação interpessoal com um outro, só seria possível através da operação de transposição das moções pulsionais parciais. Assim, as pulsões parciais seriam integradas em representações globais de pessoas ou sublimadas em representações sociais. Como sabemos, o exemplo freudiano mais célebre é a transformação do desejo feminino de ter um pênis em desejo de ter um homem portador do pênis.

Notemos que esta integração de objetos parciais não colocará problemas intransponíveis para Abraham ou para seus continuadores como Melanie Klein e outros representantes da escola inglesa. Pois tais objetos serão partes de um todo que estará disponível a posteriori. O desejo pelo seio resolve-se logicamente no amor pela mãe. O desejo pelo pênis resolve-se logicamente no amor pelo homem portador do pênis. A abertura às relações intersubjetivas pareceria estar assim assegurada. Aqui, a metonímia do objeto é reconhecimento da pressuposição de sua integração em uma totalidade funcional.


No entanto, a posição de Lacan sempre foi totalmente diferente. Ao apropriar-se do conceito de objeto parcial, ele operou uma inversão maior na perspectiva psicanalítica clássica. Inversão que produzirá conseqüências maiores na noção de racionalidade analítica e de final de análise.

Primeiramente, Lacan notou que, se o movimento do desejo consistia em tentar reencontrar um objeto perdido, então deveria tratar-se, na verdade, da relação entre o sujeito e tais objetos parciais4. Devemos sublinhar o termo ‘relação’ porque não se trata simplesmente de reencontrar um objeto no sentido representativo da palavra ‘objeto’, mas de reencontrar uma ‘forma relacional’ encarnada pelo tipo de ligação afetiva do sujeito ao seio, à voz, aos excrementos etc. O que nos explica porque: “um seio, é algo que não é representável”, a não ser “sob estas palavras: ‘a nuvem encantadora de seios” (LACAN, 1966-1967, sessão do 25/01/67) que nos fornece a forma relacional do sujeito com os objetos nos quais seu desejo aliena-se. Segundo Lacan, é este tipo de relação que será posto em cena nas representações imaginárias do fantasma e formalizado no matema do fantasma. O que nos explica também porque o objeto a é presença de um vazio de objeto empírico, como vemos na afirmação de que tal objeto é "presença de um vazio preenchível, nos diz Freud, por qualquer objeto”, já que estaríamos diante de um: “objeto eternamente faltante” (LACAN, 1973, p. 168). Pois ele nada mais é do que a derivação de uma forma relacional produzida pelas primeiras experiências de satisfação.

Aqui, podemos compreender melhor porque Lacan designou o objeto a como objeto causa do desejo. Pois, por exemplo, o que causa o amor por uma mulher particular é a identificação do objeto a no estilo e no corpo desta mulher; da mesma maneira que o amor de Alcebíades por Sócrates, no Banquete, teria sido causado por este objeto que Sócrates guardava dentro de si e que os gregos chamavam de agalma. “Se este objeto os apaixona”, dirá Lacan, “é porque lá dentro, escondido nele, há o objeto do desejo, agalma” (LACAN, 2001, p. 180).

A princípio, poderia parecer que, devido a esta maneira de pensar a causa do desejo, Lacan estaria seguindo o caminho destes que acreditavam em uma passagem possível do amor parcial de objeto ao amor por representações globais de pessoas. Passagem impulsionada pelo primado genital. Mas, na verdade, seu movimento era inverso: “A noção de objeto parcial nos parece aquilo que a análise descobriu de mais correto, mas ao preço de postular uma totalização ideal deste objeto, através do qual dissipa-se o benefício desta descoberta” (LACAN, 1966, p. 676). Para Lacan, dizer que o amor por uma mulher particular era causado pela identificação, nesta mulher, do objeto a significava assumir o fracasso de toda relação interpessoal possível. Pois: “Com seus próximos, vocês não fizeram outra coisa do que girar em torno do fantasma cuja satisfação vocês neles procuraram. Este fantasma os substituiu com suas imagens e cores” (LACAN, 2001, p. 319). “Nossos próximos” aparecem assim como tela de projeções fantasmáticas. O que nos envia aos fundamentos narcísicos da noção de objeto na psicanálise.

Tal maneira de colocar a importância do fantasma nas relações entre sujeito nos permite entrar no problema da inexistência da relação sexual. Pois podemos dizer que a relação sexual, caso existisse, seria o protótipo por excelência da relação intersubjetiva. Ela seria a única relação na qual o sujeito poderia estar presente ao Outro através da materialidade de seu corpo. Mas, com esta teoria do fantasma, Lacan sustenta que o sujeito sempre encontra no corpo do Outro os traços arqueológicos de suas próprias cenas fantasmáticas vindas das primeiras experiências de satisfação. É apenas nesta condição que este corpo pode transformar-se, como dizia Lacan, em metáfora do meu gozo. Antes de ser metáfora, ele deve transformar-se em corpo fetichizado, corpo submetido aos procedimentos de conformação ao pensamento fantasmático. E se: “só podemos gozar de uma parte do corpo do Outro”(Lacan, 1975, p. 26), é porque, na relação sexual, o corpo do Outro aparece em cena como conjunto de objetos parciais. O que nos explica a afirmação: “Não há relação sexual porque o gozo do Outro tomado como corpo é sempre inadequado – perverso de um lado, enquanto que o Outro se reduz ao objeto a – e, do outro, eu diria louco, enigmático [resultado da compreensão lacaniana do gozo feminino como próximo do gozo místico]” (LACAN, 1975, p. 131).




Guardemos por enquanto esta noção do fantasma como bloqueio da relação sexual. Guardemos também esta resposta provisória quanto à genética do fantasma: o fantasma pode produzir um objeto próprio ao desejo porque ele atualiza formas relacionais ligadas às primeiras experiências de satisfação. Haverá mais a dizer sobre a natureza deste objeto do fantasma. Mas, por enquanto, sublinhemos como, neste contexto, o fantasma aparece como elemento determinante da pragmática do sujeito transformando toda ação efetiva em uma tentativa de re-encontrar o objeto a.


Aqui, podemos apreender o problema posto por esta maneira de pensar o fantasma e seu objeto. A posição de causa dá ao objeto a uma função de matriz quase-transcendental de constituição do mundo dos objetos do desejo6. Se ele é o “objeto dos objetos”, é porque todas as relações de objeto presentes ao longo da história do desejo serão repetições modulares de relações fantasmáticas. Esta história será assim submetida ao peso insuperável do passado, pois ela é apenas campo de repetição de fantasmas fundamentais. Princípio claramente determinista cujas conseqüências aparecerão na seqüência.


Notemos o peso destas afirmações. Por ser uma matriz quase-transcendental que constitui o mundo dos objetos do desejo do sujeito, o fantasma poderá ser um “index de significação absoluta” (LACAN, 1966, p. 817), ou ainda, uma espécie de axioma capaz de produzir uma “significação de verdade” (LACAN, 1966-1967, sessão do 21;06;67). Fórmulas diferentes que indicam como o fantasma transformou-se em dispositivo responsável pela construção do contexto através do qual percebemos o mundo enquanto consistente e dotado de sentido. Ele é o único dispositivo capaz de sustentar efeitos de sentido produzidos por tipologias múltiplas de discurso.


Lacan pode assim afirmar que a realidade própria ao sujeito é fundamentalmente fantasmática. A realidade seria apenas um “prêt à porter” resultante de uma “operação da estrutura lógica do fantasma” (LACAN, 1966-1967, sessão do 16/11/66). Através da repetição própria ao fantasma, o sujeito submeteria o diverso da experiência à uma identidade fantasmática, instaurando um universo sem espaço para a verdadeira alteridade ou para a divisão subjetiva. O objeto a é a perspectiva que define as coordenadas da superfície do visível. Ele é o olhar que organiza a visibilidade do mundo em espaço. Isto coloca questões importantes para uma teoria do conhecimento, já que tais considerações lacanianas nos levam a problematizar o papel do fantasma na estruturação da capacidade cognitiva do sujeito.





Por outro lado, isto nos deixa com um problema clínico maior: como atravessar o fantasma a fim de disponibilizar ao sujeito a experiência de um real capaz de produzir o descentramento? Mas, principalmente, como atravessar o fantasma sem jogar o sujeito, de uma vez por todas, no silêncio absoluto da angústia?

O objeto a entre fantasma e Real

Antes de responder tais questões, vale a pena explicitar uma contradição aparente no modo lacaniano de conceber o objeto do fantasma. Sabemos que os objetos parciais são objetos que o sujeito deve perder a fim de desenvolver processos de auto-referência através da formação do eu. Enquanto imagem especular do corpo próprio, o eu é inicialmente o resultado de uma sucessão de cortes que incidem sobre um gênero de corpo pulsional pré-especular, montagem inconsistente de objetos a como os seios, os excrementos, o olhar, a voz etc. De onde se segue esta afirmação fundamental de Lacan: “É porque o a é algo que a criança se separou de uma maneira, de certa forma, interna à esfera de sua própria existência, que ele é claramente o pequeno a” (LACAN, 1962-1963, sessão do 15/05/63).

A insistência neste processo de separação interna, ou ainda, de automutilação que deixa traços na forma de marcas de corte e de borda na configuração das zonas erógenas (lábios, margem do ânus, vagina, sulco peniano etc.) permitirá o advento de um pensamento do corpo não-especular e não-narcísico. Tal tensão entre os objetos a e a imagem do corpo próprio submetida à instância do eu levará Lacan a falar de: “objetos que, no corpo, definem-se por ser – de alguma forma – na perspectiva do princípio de prazer, fora do corpo” (LACAN, 1966-1967, sessão do 14/06/67). Vemos aqui claramente a necessidade de uma certa topologia capaz de articular esta posição ex-tima do objeto a em sua relação ao corpo : ao mesmo tempo fora e dentro.

A contradição aparente consiste pois em dizer que aquilo que o sujeito perdeu a fim de se constituir como instância de auto-referência e como imagem do corpo próprio servirá de matriz quase-transcendental capaz de sustentar o quadro de identificação fantasmática. O que o sujeito perdeu para ser uma identidade narcísica, “este objeto cujo estatuto escapa ao estatuto de objeto derivado da imagem especular" (LACAN, 1962-1963, sessão do 28/11/62), fornecerá a matriz do quadro de submissão do diverso da experiência ao pensamento da identidade fantasmática. Chegamos assim à estranha conclusão de que um objeto não-idêntico (no sentido de não-narcísico) serve de matriz para o pensamento da identidade. Ou seja, o objeto do fantasma é um objeto submetido à estrutura fantasmática de apreensão, mais ele não é totalmente idêntico a tal estrutura. E se Lacan pode dizer: “que não há outra entrada para o sujeito no real a não ser o fantasma” (LACAN, 2001b, p. 326), é porque o objeto do fantasma pode fornecer ao sujeito uma experiência da ordem da não-identidade e do descentramento próprio ao Real. O que pode nos explicar porque, na metapsicologia lacaniana, o mesmo objeto pode aparecer às vezes como objeto da pulsão ligado à dimensão do Real, objeto do fantasma e objeto da perversão, ligado à dimensão do semblante e à fascinação fetichista (LACAN, 1973, pp. 168-169).

Esta tripla determinação mostra a possibilidade de diferentes modos de apreensão de um mesmo objeto. Fato que traz conseqüências clínicas maiores. Ele nos lembra, por exemplo, que a análise não tentará mais: “dissipar o objeto enquanto tal" (LACAN, 1978, p. 130), ou ainda, liberar o sujeito da fixação de objeto a fim de permitir o estabelecimento de uma dinâmica fluida de escolhas de objeto ou mesmo de uma certa ataraxia em relação a todo e qualquer objeto particular. O verdadeiro trabalho analítico consiste em produzir deslocamentos no interior da significação do objeto: operação de desvelamento do descentramento no objeto. Aproveitando uma fórmula feliz, podemos dizer que se trata de saber revelar: “o núcleo real do fantasma que transcende a imagem” (BOOTHBY, 2001, pp. 275-276).

A fim de melhor compreender este ponto, vale a pena insistirmos em uma dimensão central na articulação entre fantasma e Real através do objeto a. Ela aparece na relação entre objeto a e corpo.

Desde o estádio do espelho, conhecemos a noção do esquema corporal, produzido pela imagem do corpo próprio, como perspectiva de apreensão cognitiva do mundo dos objetos. Tratava-se de um aspecto central da teoria lacaniana do Imaginário muito marcado pelas considerações vindas da fenomenologia da percepção de Merleau-Ponty e da etologia alemã da primeira metade do século XX. Lacan servia-se de tais considerações para articulá-las a uma reflexão sobre o processo de constituição da imagem do corpo a partir de uma dialética de identificações e de confusão narcísica entre o eu e o outro. Isto o permitirá, mais a frente, demonstrar como a imagem do corpo é o topos fantasmático através do qual o eu coloca-se como objeto do desejo do Outro.
Com o desenvolvimento do conceito de objeto a, este quiasma entre corpo, fantasma e desejo do Outro será complexificado sem ser realmente abandonado. Inicialmente, Lacan sublinhará a topologia de borda própria ao objeto a, já que ele marca um espaço de quiasma entre o sujeito e o Outro, entre o dentro e o fora. Lacan chega a falar, a respeito do objeto a, do que: “há de mais eu mesmo no exterior" (LACAN, 1962-1963, sessão do 08/05/63). Daí o esforço em formalizar a estrutura do objeto a através do recurso a figuras topológicas como os bilaterais que são, ao mesmo tempo, unilaterais (o caso da tira de Moebius) ou como os círculos que se circundam (o caso do oito interior).

Mas, ao insistir nesta topologia da borda como característica maior do objeto a, Lacan acaba por convergir duas elaborações distintas sobre o objeto em psicanálise. De um lado, ele retoma por sua conta as considerações de Winnicott sobre os objetos transicionais. De outro, ele desenvolve suas análises a respeito dos objeto parciais.

Lacan nunca deixou de reconhecer sua dívida em relação a Winnicott no que diz respeito à reflexões sobre o objeto. Para ele, o psicanalista inglês havia sido o primeiro a ter apreendido a especificidade do estatuto topológico do objeto do fantasma. Graças à análise da importância dos chamados ‘fenômenos transicionais’ já presentes na primeira infância, Winnicott pôde conceitualizar uma área intermediária não contestada de experiência situada entre o subjetivamente concebido e o objetivamente percebido. Sobre este conceito de objetividade, Winnicott afirmava que se tratava do mundo externo “tal como ele é percebido por duas pessoas” (WINNICOTT, 1971/1975, p. 13); espaço intersubjetivo que nos reenvia necessariamente ao conceito lacaniano de Outro.

Os objetos que se desdobram neste espaço intermediário entre o sujeito e o Outro (objetos transicionais da criança, fetiche, produções culturais no domínio da arte e da religião, como a hóstia do santo sacramento etc.) não são objetivos, sem serem exatamente alucinações. Eles não estão submetidos a alucinação da onipotência do pensamento, mas também não estão totalmente fora de controle (como é o caso da mãe real). Na verdade, Winnicott falará de uma espécie de ilusão a fim de caracterizar tais objetos como polo de tensão entre “a realidade interna e a realidade externa”. Tensão que “nenhum ser humano consegue liberar-se” (WINNICOTT, 1971/1975, p. 24).

Para Winnicott, a função destes objetos transicionais consiste na produção de uma defesa contra a angústia do tipo depressivo vinda de experiências de frustração do objeto maternal. De onde se segue a necessidade de afirmar que o objeto transicional toma o lugar do seio ou do objeto da primeira relação. Isto nos demonstra claramente que a frustração reiterada não se resolve no acesso epistêmico ao objeto ‘real’, mas ela leva à constituição de um objeto cujo estatuto é próximo a um semblante presente no domínio da cultura, ilusão reconhecida intersubjetivamente enquanto tal e estruturalmente insuperável. Lacan falará então de “objetos meio-reais, meio-irreais” (LACAN. 1994, p. 127) isto a fim de estabelecer a especificidade de seu estatuto. Tal especificidade o ajudará a pensar o objeto a como nó entre o Imaginário, o Simbólico e o Real.

Por outro lado, Lacan também percebeu que os objetos parciais são marcados por um centro espaço de entrelaçamento, mas entre o corpo do sujeito e o corpo do Outro. Espaço de limite e de torção através do qual o corpo do sujeito pode inscrever-se mais facilmente como corpo do Outro. O que permitirá a Lacan afirmar que tais objetos são objetos “que podem ser cedidos (cessibles)” ao Outro. Assim, ao falar da angústia de desmame próprio ao lactante, Lacan inverte a perspectiva tradicional para afirmar que: “não se trata de dizer que, na ocasião, o seio falta à sua necessidade, mas que a pequena criança cede o seio que, quando ele está nele pendurado, aparece bem como uma parte dele mesmo” (LACAN, 1962-1963, sessão do 26/06/63).

Para-além do objeto perdido, deveríamos então falar do objeto cedido ao Outro como pedaço destacável. Os objetos parciais aparecem pois como objetos que o sujeito cedeu a fim de determinar o desejo do Outro (se ele pode cedê-los ao Outro, é porque o Outro os deseja). E, se o fantasma é o espaço de produção de objetos através dos quais o desejo vai aprender a se situar, é porque a topologia do objeto do fantasma nos permite operarmos esta ligação entre o desejo do sujeito e o desejo do Outro (lembremo-nos do grafo do desejo, no qual o fantasma aparece como suplemento ao Che vuoi? do Outro). O que nos permite afirmar, através desta temática do objeto a como objeto que pode ser cedido, que o fantasma é o cenário através do qual o sujeito produz um objeto para o desejo do Outro. Ele é um procedimento de entrelaçamento entre o desejo do sujeito e o desejo do Outro, ou ainda, uma demanda de reconhecimento direcionada ao Outro.

O último passo de Lacan consistirá em convergir estas duas temáticas do objeto através de uma interpretação da significação do jogo infantil da bobina, descrito por Freud em Para além do princípio do prazer. Lacan fornecerá várias versões para a interpretação deste jogo fundamental na compreensão dos processos de simbolização da criança, mas a versão que nos interessa mais é aquela que aparece na quinta sessão do seminário XI.

Ao observar o comportamento de seu neto de um ano e meio, Freud se interroga sobre o significado de um jogo repetido compulsivamente pela criança e que consistia em fazer desaparecer um bobina, presa por um barbante, jogando-a para baixo de seu berço para logo em seguida fazê-la reaparecer. Estes dois movimentos eram acompanhados pelos vocábulos fort (para o desaparecimento) e da (para o retorno). Compreendendo o jogo como um processo de simbolização capaz de responder à renúncia pulsional a qual a criança foi submetida devido à perda do objeto materno, Freud já fornecia um exemplo maior do objeto transicional de Winnicott em seu papel de defesa contra a angústia. O complemento lacaniano consistiu em dizer que a bobina, longe de ser apenas um símbolo da mãe marcada pela perda, era inicialmente: “Um pequeno algo do sujeito que se destaca ao mesmo tempo em que a ele continua pertencendo, ainda retido” (LACAN, 1973, p. 69). Lacan falará de um jogo de automutilação para sublinhar como a bobina se inscrevia no interior da série de objetos parciais compreendidos como objetos que podem ser cedidos, nomeando assim o desejo do Outro.

O amor na carne
Neste ponto, podemos retornar a algumas considerações a respeito da imagem do corpo próprio em seu estatuto de objeto fantasmático. A partir dos anos sessenta, Lacan retorna ao problema da imagem do corpo próprio construindo a metáfora do corpo especular como vestimenta (habillage) do objeto a. Ele dirá então: “é a este objeto inapreensível pelo espelho que a imagem especular fornece a vestimenta” (LACAN, 1966, p. 818). Se a imagem do corpo é o topos fantasmático através do qual o eu coloca-se como objeto do desejo do Outro, então isto se dá graças ao objeto a – que advém neste sentido aquilo que sustenta a imagem especular. Isto nos mostra como, no fundo da imagem especular, há este objeto que escapa ao sujeito, ao mesmo tempo em que o constitui.

Mas o que significa exatamente a metáfora da vestimenta? Notemos aqui como, tal qual o fantasma, a imagem do corpo fornece uma cena que ‘veste’ o objeto ao fornece-lhe consistência, mas ela o impede de desvelar-se. Devido ao primado da imagem na experiência do corpo, perde-se o acesso àquilo que Lacan chama de “objetalidade” (LACAN, 1962-1963, sessão do 08/05/63) do corpo. O que significa que a dissolução da imagem do corpo pode aparecer como desvelamento do objeto a. Isto nos explica porque, em alguns momentos, Lacan tenta aproximar a dimensão do objeto a não-submetida à imagem e o conceito de “carne”, como vemos na afirmação: “‘É seu coração que quero’ dever ser, como toda metáfora de órgão, tomada ao pé da letra. É como parte do corpo que ele funciona; poderia dizer que é como tripa” (LACAN, 1962-1963, sessão do 08/05/63).

A estranheza desta afirmação é a estranheza que devemos saber revelar para que possa aparecer aquilo que é da ordem da causa do desejo. Isto nos mostra porque um dos núcleos centrais da experiência clínica lacaniana consistirá em determinar como é possível fazer o objeto sair da cena fantasmática. Através desta saída de cena, o sujeito pode ter uma experiência do real do corpo, ou seja, do corpo enquanto carne opaca que não se deixa submeter ás formas fetichizadas do Imaginário, nem se corporificar através do significante com seu primado fálico.

Mas sublinhemos como esta experiência do real do corpo é fundamental para a compreensão de certos modos de travessia do fantasma. A fim de melhor compreender este ponto, podemos tentar traçar uma articulação entre os problemas do real do corpo, da travessia do fantasma e do amor. O amor aparece aqui para responder pela possibilidade de posição de escolhas de objeto não mais suportadas por estruturas fantasmáticas.

De fato, o amor é concebido inicialmente por Lacan como lugar de impasse do Um. Lacan critica assim a tentativa freudiana de compreender Eros como tensão de unificação, já que esta articulação entre o amor e Um pressuporia necessariamente uma perspectiva de adequação e de harmonização que só pode se fundar no narcisismo com suas estratégias de conformação do objeto ao fantasma. O que não poderia ser diferente para alguém que expôs o lugar central do fantasma fundamental e do objeto a na estruturação das relações entre sujeitos, principalmente no que diz respeito à relação sexual. A partir do momento em que Lacan insistiu que o corpo na relação sexual é inicialmente corpo fetichizado submetido à condição de suporte do fantasma, ele só pode afirmar que: “O amor é impotente ainda que recíproco, pois ele ignora que é apenas desejo de ser Um,o que nos conduz ao impossível de estabelecer a relação deles (d’eux), a relação deles quem? Dos dois (deux) sexos” (LACAN, 1975, p. 12).

Mas há um outro amor, este que visa o ser, dirá Lacan. Podemos dizer que se trata de um amor que descobre que a “essência do objeto é o fracasso (ratage)” (LACAN, 1975, p. 55). Fracassamos uma relação sexual quando o corpo do outro não se submete integralmente à cena fantasmática. O amor endereça-se então ao semblante e afronta-se com o impasse de um objeto que resiste ao pensamento fantasmático do eu. Lacan nos dirá que o amor que visa o ser pede a coragem de sustentar o olhar diante do impasse, sustentar o olhar diante do estranhamento deste corpo não submetido à imagem e à sua submissão ao significante. Ou, se quisermos, como dizia Hegel, coragem de olhar o negativo e deter-se diante dele.

O olhar pode então descobrir, através do fracasso da procura pela imagem fantasmática no corpo do outro, que: “todo o corpo não foi pego pelo processo de alienação” (LACAN, 1966-1967, sessão do 31/05/67). Desta forma, o sujeito pode ver, na opacidade do corpo do outro, a encarnação do inominável do desejo. Eu vejo no seu corpo a imagem da opacidade do meu desejo. Trata-se de um reconhecimento, dirá Lacan, que se dá no instante de encontro no qual as máscaras do fantasma vacilam:“Este reconhecimento não é outra coisa que a maneira através da qual a relação dita sexual – advinda aí relação de sujeito a sujeito, sujeito enquanto ele é apenas efeito do saber inconsciente – cessa de não se escrever” (LACAN, 1975, p. 132).

Este reconhecimento não obedece mais às coordenadas do reconhecimento fantasmático articulado através da tentativa de conformação da demanda ao desejo do Outro. Ao contrário, ele é reconhecimento feito através do real do corpo e que pode nos levar à realização da “dialética do amor” (LACAN, 2001, p. 47). Isto nos fornece uma base de compreensão para a afirmação crucial de Lacan: "A mulher não ex-siste.” Mas o fato dela não ex-sistir, não exclui que se faça dela o objeto do desejo. Muito pelo contrário, daí o resultado com o que O homem, ao se enganar, encontra uma mulher com a qual tudo acontece, ou seja, normalmente, este fracasso no qual consiste o sucesso do ato sexual (LACAN, 2001b, p. 538).

Ou seja, nós alcançamos a realização do ato sexual através do fracasso da adequação entre uma mulher e as representações fantasmáticas da mulher. Fracasso que se dá quando o corpo de uma mulher aparece na opacidade deste sensível que só se manifesta através do desgaste do fantasma. Corpo radicalmente não-idêntico. Um pouco como Sartre dizia: “Após um longo comércio com uma pessoa, sempre aparece um instante no qual as máscaras se desfazem e eu me encontro diante da contingência pura de sua presença: neste caso, sobre seu rosto ou sobre os outros membros do corpo, eu tenho a intuição pura da carne. Esta intuição não é apenas conhecimento; ela é apreensão efetiva de uma contingência absoluta” (SARTRE, 1943, p. 384).

 Este longo comércio que chamamos de intimidade, via na qual as máscaras se desfazem e o corpo se transforma na opacidade sensível da carne, indica o caminho para uma travessia do fantasma pressuposta pela final de análise. Ele nos demonstra também como a travessia do fantasma não pressupõe dissolução da fixação de objeto. O sujeito permanece diante do mesmo objeto que suportou seu fantasma, No entanto, diante deste objeto no qual o desejo encontrava-se assegurado pela cena fantasmática, o sujeito tem agora a experiência da inadequação entre a opacidade sensível do objeto e as representações fantasmáticas que o colonizaram. Sobre esta experiência de deslocamento do objeto, muito ainda há o que dizer e este artigo é apenas um movimento introdutório.

Notas

1 Cf. o comentário de Klein sobre Dick : « O eu cessara de elaborar uma vida fantasmática e de tentar estabelecer qualquer relação à realidade. Após um início fraco, a formação simbólica tinha cessado » (KLEIN, 1972, p. 268).

2 Abraham fala de um estágio de amor parcial no qual : « o objeto dos sentimentos amorosos e ambivalentes é representado por uma de suas partes introjetadas pelo sujeito" (ABRAHAM, 2000, p. 220)

3 É neste ponto que se situa, por exemplo, a crítica pertinente de Deleuze e Guatarri : « Desde o nascimento, o berço, o seio, os excrementos são máquinas desejantes em conexão com partes do corpo do bebê. Nos parece contraditório dizer ao mesmo tempo que a criança vive entre objetos parciais e que o que a apreende nestes objetos são pessoas parentais em pedaços":(DELEUZE e GUATARRI, 1969, p. 53)

4 Neste ponto, ele era fiel à afirmação de Freud : « Quando vemos uma criança satisfeita largar o seio deixando-se cair para trás e dormir, com as bochechas vermelhas e um sorriso, não podemos dizer de dizer que esta imagem continua o protótipo da expressão da satisfação (Befriedigung) sexual na existência ulterior » (FREUD, ;1905/1999, p.82).

5 Podemos fornecer outra razão para a impossibilidade passarmos do amor parcial ao amor por representações globais de pessoas : « As aspirações mais arcaicas da criança são, ao mesmo tempo, um ponto de partida e um núcleo nunca totalmente resolvido sob alguma forma de primado genital ou de pura e simples Vorstellung do homem sob a forma humana, tão total que supomos andrógena por fusão » (LACAN, 1986, p. 112)

6 Daí a afirmação : « Estes objetos anteriores à constituição do estatuto de objeto comum, de objeto comunicável, de objeto socializável, eis do que se trata no a » (LACAN, 1962-1963, sessão do 09/01/63)

7 O que pode nos explicar como o objeto a : « É isto, o que é apreendido no entrecruzamento do simbólico, do imaginário e do real como nó » (LACAN, 1974)

8 De onde se segue a importância de compreender porque Winnicott, ao insistir que objeto transicional é símbolo do objeto parcial, lembre : « que este objeto não seja o seio (ou a mãe), ainda que seja real, importa tanto quanto o fato dele estar no lugar do seio (ou da mãe) » (WINNICOTT, 1971/1974, p. 14). Pois importa mostrar que a criança conhece o estatuto de ilusão e de suplemento própria ao objeto transicional. Podemos encontrar já em Freud uma indicação deste estatuto do objeto causa do desejo. Ao escrever sobre o mundo do jogo infantil, Freud dirá: « Seria um erro pensar que a criança não toma este mundo a sério ; ao contrário, ela toma o jogo muito a sério ». Mas «a criança distingue claramente seu mundo lúdico, a despeito de todo o investimento afetivo, e a realidade (Wirklichkeit), ela ama apoiar (lehnt) seus objetos e suas situações imaginárias sobre coisas palpáveis e visíveis do mundo real" (FREUD 1908 /1999b, p. 214)

9 Neste sentido, a fórmula de Peter Dews nos parece precisa. De um lado: « A introdução do objeto a no final dos anos 50 foi o resultado da compreensão lacaniana de que algo de fundamental ao sujeito não podia ser expresso no ´tesouro do significante´ partilhado intersubjetivamente e, logo, universal ». Mas, por outro lado o objeto a é objeto do desejo do Outro : « A mediação entre o sujeito e o Outro é restaurada através do objeto a. Desta forma, o objeto é fantasiado como sendo aquilo que pode garantir o ser do sujeito através da incorporação desta parte misteriosa do sujeito desejada pelo Outro » (DEWS, 1995, p. 254). Isto nos demonstra como é o fantasma que sustenta a estrutura da intersubjetividade. No entanto, graças a esta ´natureza dupla´ do objeto a (entre fantasma e Real), Lacan abre as portas para um outro dispositivo de reconhecimento através da identificação do sujeito com o que há de real objeto a

10 Lacan nos fornece uma imagem do real do corpo já no Seminário II, quando comenta o sonho da injeção de Irma. Ao interpretar a imagem do fundo da garganta de Irma que aparece no sonho quando Freud demanda à paciente de abrir a boca, Lacan falará de uma revelação do real ao dizer : « Há aí uma descoberta horrível, a descoberta da carne que nunca vemos, o fundo das coisas, o anverso da face, do rosto, os secretatas por excelência, a carne de onde tudo sai, o mais profundo do mistério, a carne enquanto é informe, que sua forma é algo que provoca angústia, última revelação do você é isto – Você é isto que o mais longe de ti, isto que é o mais informa (LACAN, 1978, p. 186). Esta constelação semântica (informe, fundo das coisas, última revelação nos mostra uma experiência do corpo como reconhecimento de si na opacidade do corpo que pode nos fornecer uma via privilegiada para pensar o destino do objeto após a travessia do fantasma.

11 Alain Badiou nos mostra esta dupla inscrição do amor em Lacan. De um lado, Lacan seria tributário da tradição pessimista dos moralistas francesas que compreende o amor como semblante ornamental por onde passa o real do impasse do sexo : « Mas ele diz também o contrário quando fornece ao amor uma vocação ontológica, a vocação de abordagem do ser » (BADIOU, 1992., p. 256)

12 A passagem da “relação sexual” para o “ato sexual” é, a princípio, uma maneira de impedir o retorno final da relação entre dois termos incompatíveis. Mas lembremos, e isto nós sabemos ao menos desde Hegel, que uma não-relação não é expulsão do outro a uma exterioridade indiferente, senão o valor de experiência produzindo pelo fracasso da relação não poderia sequer ser posto. Em certos, caso, uma não-relação é uma relação que se funda em uma unidade negativa e este parece bem ser o caso do sexual.











O trabalho da forma no pensamento de Jacques Lacan:

notas sobre a relação entre estilo, sintoma e subjetividade

Meu estilo é o que ele é


Jacques Lacan

Vladimir Safatle


Ilegível. Eis o adjetivo preferido quando o assunto é Jacques Lacan. "O que bem se concebe, claramente se enuncia", costuma-se dizer a respeito desta obra capaz de causar vertigens devido a suas rupturas de planos conceituais, suas bricolagens teóricas com a história da filosofia e à incidência de formalizações lógico-matemáticas aparentemente psicóticas. Mas ‘ilegível’ não era exatamente a forma que o psicanalista gostaria de ser lembrado: "Bastam dez anos para que o que escrevo se torne claro para todos". Mais de dez anos se passaram e o que vemos é o retorno, à passarelas das modas intelectuais, da crítica ao pretenso hermetismo do pensamento francês contemporâneo. Crítica cujo alvo preferido é sempre Jacques Lacan.

Mas a verdade é que há alguma coisa em Lacan que ainda incomoda. Esta ‘alguma coisa’ é seu estilo. Na verdade, gostaríamos que Lacan abandonasse sua escrita barroca e seus gráficos, que ele parasse de construir labirintos conceituais e começasse, de uma vez por todas, a andar em linha reta respeitando a gramática da boa e velha clareza ensaística. Tudo seria mais fácil se o sujeito abandonasse a singularidade radical do seu estilo e seguisse a ordem mínima de razões. Ordem estabelecida, diga-se de passagem, graças a uma geometria retórica fundamentada a partir de analogias com os  dispositivos da geometria euclideana. Mas se Lacan recusa-se a abandoná-lo é porque seu estilo é necessário. Longe de ser um simples invólucro pseudo-literário ou pseudo-logicista, ele é a apresentação mesma da Coisa em questão na psicanálise. "Há nas dificuldades do meu estilo", dirá Lacan, "alguma coisa que responde ao objeto mesmo do qual ele trata"[2]. Há, no estilo de Lacan, um tempo para compreender que é o tempo necessário para o desvelamento do objeto do seu discurso. Pois este estilo impõe uma trajetória de leitura, um regime de aproximação que não pode ser excluída da apresentação do objeto.

A coextensividade entre estilo e objeto será claramente sublinhada por Lacan. A estrutura do estilo lacaniano seria a modalidade de apresentação daquilo que é identificável à descoberta psicanalítica: "Todo retorno à Freud que dê matéria a um ensinamento digno deste nome, só se produzirá pela via através da qual a verdade mais escondida se manifesta nas revoluções da cultura. Esta via é a única formação que podemos pretender a transmitir àqueles que nos seguem. Ela se chama: um estilo". Eis aí uma afirmação cuja intenção é absolutamente clara. A psicanálise traz uma verdade ao campo da cultura e ela só se mostra ao aprendermos a levar em conta a dimensão do estilo. Nós poderíamos mesmo dizer que tal verdade se apresenta em uma certa forma de dizer. Pois a psicanálise é, no sentido forte do termo, uma forma de dizer. Estratégia de reorientação dos impasses do pensamento através da palavra. Sua capacidade de dissolver sintomas pressupõe uma modificação radical na relação entre o sujeito e a linguagem. Afinal, se há situações em que dizer é fazer há coisas que não podemos fazer antes de mudarmos nossa maneira de dizê-las.

Um ponto cego


Mas devemos inicialmente perguntar: qual o objeto da psicanálise? Como apreendê-lo? Estas duas questões não estão dissociadas. Definir o objeto da psicanálise é definir sua modalidade de apreensão. Pois tal objeto é exatamente aquilo que se articula a partir do limite da reflexividade. Para a psicanálise, o procedimento de auto-fundamentação reflexiva da razão moderna encontra um limite que aparece como falha no interior da linguisticidade da consciência. A psicanálise é sintoma de uma época que não acredita mais que a espontaneidade reflexiva da consciência, fator de garantia da transparência do sentido e das estratégias de compreensão, possa fundamentar a racionalidade. É por isto que Lacan afirmará: "a discordância entre saber e ser, este é nosso sujeito".

Havendo uma discordância entre saber e ser, o problema inicial consistirá em compreender como escrever sua trajetória e determinar as possibilidades de sua apresentação. Se a psicanálise admite a ética do silêncio como procedimento de apresentação, então ela transforma-se em uma séria candidata a tornar-se um novo misticismo. Mas se ela simplesmente toma a palavra e fala do limite através de um estilo metalinguístico anula-se, através da consolidação de uma organização sistêmica, a possibilidade mesma de por a discordância como objeto.

Notemos de passagem que, graças às lições de Kojève, Lacan sempre tentará resolver tal impasse escrevendo tal inadequação através do vocabulário da negatividade dialética, seja de maneira explícita (até a década de sessenta), seja de maneira implícita (após a década de sessenta). O que o fará pensar a praxis analítica através de uma certa dialética negativa onde: "a verdade está em reabsorção  constante naquilo que ela tem de perturbador, e sendo ela mesma apenas aquilo que falta à realização do saber"[5]. Ou seja, a verdade como comportamento negativo em relação ao estabelecimento da positividade do saber. Um comportamento que Lacan chamará de ‘mi-dire de la vérité’.

Lacan não teme aqui em entrar em um problema de ordem propriamente epistemológica. Caracterizar a verdade como exílio, como limite à realização do saber é afirmar que a fundamentação deste saber encontra-se em posição problemática. Os dispositivos realistas de fundamentação estão descartados devido à compreensão estruturalista da relação entre linguagem e um mundo dotado de autonomia metafísica. A saída pela racionalidade intersubjetiva será abandonada pelo próprio Lacan nos anos 60. Isto significaria assumir um relativismo epistemológico que admite a multiplicidade plástica de sistemas de interpretações e o abandono de critérios unívocos de verdade? Alguns comentadores acreditaram que o pensamento lacaniano se enquadraria neste figurino relativista ou, ainda, em um certo ceticismo prudente. Nada mais distante do pensamento lacaniano, já que: "não há praxis mais orientada que a psicanálise em direção ao que, no coração da experiência, é o núcleo do real"[6]. Defesa de uma experiência do real como limite, de uma manifestação do real como presença do negativo, como tensão entre o trabalho do negativo e a paciência do conceito que nos legitima a perseguir a hipótese de uma dialética negativa operando na antecâmara do pensamento lacaniano.

É verdade que, para um certo pensamento contemporâneo, a noção de dialética na sua matriz hegeliana é um conceito vago e suspeito. Mas a experiência intelectual de Lacan será simplesmente  incompreensível se recusarmos o encaminhamento dialético utilizado para a reconfiguração de conceitos centrais da teoria psicanalítica, tais como pulsão de morte, gozo, repetição e sintoma. Encaminhamento reconhecido pelo próprio psicanalista.

Assim, nos anos 1960-61 ele falará em uma dialética do desejo[7] e em um dialética da sublimação[8]. No Seminário de 1961-62, sobre ‘A identificação’, o psicanalista acabará por fazer, mesmos sem admitir, uma crítica à analiticidade a partir de moldes lógicos estritamente hegelianos. Até porque, a função da dialética hegeliana era extamente de "denunciar as identificações em seus enganos". Em 1964, ele sublinhará a existência de um ‘movimento dialético da pulsão’. Em 1969, ele retornará à dialética do Senhor e do Escravo para ‘corrigi-la’ através da teoria marxista do trabalho e, desta feita, abrir espaço ao advento do discurso do analista: dispositivo teórico que visava formalizar a estrutura do final de análise.

Mas, para além destas reincidências no vocabulário dialético, falta mostrar o que seria e como Lacan pretende operacionalizar a redução da dialética a seu núcleo negativo, impedindo a realização desta ‘síntese fantasmática’ entre saber e verdade. Principalmente, falta mostrar como tal redução escapa do risco de transformar-se em simples perpetuação de um movimento infinito ruim e, através daí, em implementação clínica de uma ‘retórica da perpetuação da falta’.
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DIÁLOGOS ENTRE FILOSOFIA E LITERATURA SAEM DO CAFÉ PARA O LIVRO

CONVITE

Obra reunindo oito artigos que colocam em conversa pensadores e literatos será lançada na quarta-feira, 24 de novembro, às 17 horas, na Livros e Livros.

Filosofia e literatura sempre renderam bons diálogos em cafés, mesa de bar, congresso e livros. Das discussões mensais em torno do Projeto Café Filosófico, realizadas pela Secretaria de Cultura e Arte da UFSC desde 2008, nasceu o primeiro livro da série Café Filô. Oito ensaios resultantes desses cafés estão reuni dos na obra Filosofia e Literatura, lançada pela Bernúncia Editora, de Florianópolis, e organizado pela filósofa Maria de Lourdes Borges e pelo professor de literatura José Roberto O´Shea. A obra tecida na costura dessas duas áreas do conhecimento que entrelaçam a verdade racional da ciência e a verdade simbólica e sensível da arte será lançada na quarta-feira, 24 de novembro, às 17 horas, na Livros e Livros, no Centro de Eventos da UFSC.

Com este número, a série Café Filô dá início à publicação de coletâneas de ensaios que buscam o diálogo da Filosofia com outras áreas do conhecimento e das artes, tais como cinema, literatura e teatro. Todos são originários de debates desenvolvidos pelo Café Filosófico na igrejinha da UFSC, que se tornou uma arena livre para filósofos e estudiosos de literatura explorarem a troca entre as disciplinas sem as amarras da academia. O próx imo número versará sobre Filosofia e Cinema. "Queremos levar ao grande público os textos

apresentados nessas conferências por filósofos, literatos e artistas, expostos em uma linguagem acessível ao não especialista", explica Maria Borges, que é também secretária de Cultura e Arte da UFSC e especialista em Kant.

Escrita por professores de Filosofia e Literatura convidados, a obra começa com o artigo "John Cage e a poética do silêncio", de Alberto Heller, que arma um diálogo entre filosofia e música, aproximando as composições de Cage dos pensadores Heidegger e Merleau Ponty.

 

Alessandro Pinzani indaga sobre a relação entre filosofia e obra narrativa de ficção, particularmente, entre filosofia e romance. Seria possível um romance filosófico? - é a pergunta que norteia a investigação de Pinzani.

Delamar Dutra explora a filosofia de Habermas e Celso Braida tece sua própria filosofia, ao explorar o auto-engano na ilusão da análise e da técnica. Liliana Reales estabelece um interessante diálogo entre a Filosofia e o mundo imaginário de Jorge Luís Borges no mundo Tlön, do conto do autor argentino. Luiz Carlos Hebeche, por sua vez, aproxima filosofia e poesia, ao pensar a metafísica como a terra distante descrita por Gottfried Benn. Alguns optaram por utilizar a prosa filosófica como ferramenta de análise de alguma obra literária ou artística. É o caso de Raul Antelo sobre a Anfisbena, serpente com
duas cabeças da mitologia. Por fim, Sérgio Medeiros propõe uma intertextualidade entre Maurice Blanchot e Mário Perniola em torno do sex appeal do inorgânico.


Este número da série Café Filô quer indagar sobre as identidades e diferenças dessas duas formas de pensamento. É possível fazer Filosofia através da Literatura? Há alguma distinção radical entre o discurso filosófico e o literário? Há algum espaço conceitual que possa ser coabitado pela Filosofia e Literatura? A busca dessas respostas é um convite à exploração literária e filosófica do leitor.

 

"Nosso objetivo é levar a filosofia e a literatura para um público amplo, deixando de lado aqui as especialidades estritamente acadêmicas de cada autor ou de cada campo do saber", diz José Roberto O´Shea, tradutor especialista em Shakespeare, que acaba de lançar O Primeiro Hamlet.


segunda-feira, novembro 01, 2010

Psicanálise: pequeno percurso histórico




A psicanálise nasceu como uma clínica inovadora para o tratamento da histeria e dos distúrbios da sexualidade; tornou-se um fenômeno da cultura e encontra-se hoje em mais de 40 países, sob a forma de diferentes correntes teóricas embasadas no pensamento freudiano.

A psicanálise tem sua origem com a publicação de “A interpretação dos sonhos”, em 1900, quando Sigmund Freud (1856 – 1939) introduziu as bases teóricas de uma clínica que rompeu com as concepções clássicas da época. A obra já expressa também reflexões sobre a teoria da sexualidade humana a ser elaborada, em 1905, nos “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade”.

Em 1902, com a Primeira Tópica delineada, Freud funda a Sociedade Psicológica das Quartas – feiras. O grupo era constituído por vienenses, judeus, asquenazes, progressistas e eruditos. Eram principalmente médicos, mas também filósofos, artistas e educadores. Entre eles, Alfred Adler, Wilhelm Stekel, Paul Federn, Otto Rank, Fritz Wittels e Max Graff. Até 1904, apenas Freud praticava a psicanálise.

Em 1908 o grupo sofre uma transformação, contando com 21 membros ativos, passa-se a se chamar Sociedade Psicanalítica Vienense. Passando a contar com personalidades importantes do cenário médico e psiquiátrico internacional, como Eugen Bleuler (1857 – 1939), também Carl Gustav Jung (1875 – 1961) reconhecido como o principal herdeiro de Freud. Jung funda a Sociedade Sigmund Freud de Zurique, com Alfons Maeder e Ludwig Binswanger.

Outro pólo se localizou na Alemanha com dois assistentes de Bleuler, Max Eitingon (1881 – 1943) e Karl Abraham (1877 – 1925) fundando a Associação Psicanalítica de Berlim em 1908. Em 1913, por intermédio de Sánder Ferenczi (1873 – 1933) é fundada a Sociedade Psicanalítica de Budapeste.

Acompanhado por Ferenczi e Jung, Freud realiza as famosas Conferências na Clark University, de Worcester, nos Estados Unidos, em agosto de 1909. O freudismo se organiza como um movimento profissional e corporativo em torno de três instituições lideradas por médicos. Em 1911, Enert Jones (1879 – 1958) funda a Associação Psicanalítica Americana, enquanto Abrahanm Brill (1874 – 1948) cria a Sociedade Psicanalítica de Nova York. Em 1914, James Putman e Isador Coriat fundam a Sociedade Psicanalítica de Boston.

Com o propósito de unificar, acompanhar e controlar o movimento é criado em 1910 a Associação Psicanalítica Internacional (IPA). Ganhando novos adeptos, como Lou Andreas – Salomé (1861 – 1937). Com a expansão do movimento, emergem rivalidades narcisistas, assim como divergências teóricas e clinicas quanto à duração dos tratamentos, a questão da transferência e da contratransferência e ao lugar da sexualidade na teoria.

Toda reformulação teórica e clínica, que desemboca na Segunda Tópica, ocorre durante a Segunda Guerra Mundial. Este processo é marcado pelas primeiras desistências, a começar por Alfred Adler, Wilhelm Stekel e a mais importante ruptura dessa época foi a Jung. As desistências acrescentam inúmeros ataques ao freudismo, causando defesas intransigentes por parte dos seguidores da doutrina, como no caso de Jones. A reposta de Freud a tudo isso aparece em dois trabalhos: “O interesse científico da psicanálise” (1913) e “A história do movimento psicanalítico” (1914).

Jones propõe a Freud à criação de um “comitê secreto”, uma instancia paralela a IPA. Tal iniciativa, não impediu o aparecimento de novas querelas e a criação de pólos diferenciados, até mesmo no interior do próprio comitê, já refletindo a diversidade de interpretações e anunciando as futuras correntes psicanalíticas.

As correntes se materializaram no fim da guerra, quando o centro de referencia do freudismo se desloca para Berlim, criando o Instituto Psicanalítico de Berlim. Nesse processo surgiram analistas talentosos como Melanie Klein (1882 – 1960).

Freud se isola em Viena, mantendo-se afastado do debate e alheio aos rumos do movimento psicanalítico. Concomitantemente, ele elabora as três obras fundamentais que compõem a Segunda Tópica: “Além do principio do prazer” (1919 – 1920), “A psicologia de grupo e analise do ego” (1921) e “O ego e o id” (1923). Essa nova teorização refaz a teoria do inconsciente e fornece a tese do dualismo pulsional.

Sua filha caçula, Anna, analisada por ele, é admitida na Sociedade Psicanalítica de Berlim. Desde então, ela assume os cuidados do pai, tornando-se sua porta-voz, editando suas obras e assumindo a direção do movimento psicanalítico vienense.

Enquanto a psicanálise vive seu momento de esplendor, Freud observa as mudanças sociopolíticas que se processam na Europa. Publicando em 1927, “O futuro de uma ilusão” e, em 1930 “Mal-estar na civilização”.

A partir de 1933 com a aprovação do decreto da arianização das organizações médicas alemãs há a queima, em praça pública, das obras de escritores judeus.

Jones, presidente da IPA, adota uma política de “salvamento da psicanálise”. Um desastre que levou a demissão de todos os membros judeus da Sociedade berlinense e a transformação do Instituto de Berlim em Instituto Göring.

Nesse mesmo período, Jones envia Werner Kemper, ao Rio de Janeiro para implantar o movimento psicanalítico, em 1948.

No início dos anos 40, surge a Sociedade Britânica de Psicanálise em Londres. Sob responsabilidade de uma nova geração de analistas mulheres, surge uma nova especialidade: a psicanálise de crianças. Com visões divergentes, Anna Freud e Melanie Klein foram pioneiras nessa nova especialidade. Formando assim duas correntes teóricas profundamente divergentes. No início dos anos 40, todas essas correntes travam disputas fratricidas pela herança freudiana.

Em meio ao debate envolvendo klenianos e annafreudianos, um terceiro grupo se articula – os independentes – mais próximo dos primeiros, porém, recusando toda posição dogmática e tendo Donald W. Winnicott (1896 – 1971) entre seus principais expoentes.

Ao fim de quatro anos de discussões, a separação é evitada por pouco. Forçados pelos independentes, os lados optaram por conservar a unidade de fachada, a fim de preservar a participação de todos na IPA.


Com o fim da guerra, segue-se o tempo de reconstrução de movimento completamente destroçado. Surgiram outros grandes nomes que vieram representar a ortodoxia freudiana, como Heinz Hartmann, Rudolfh Loewenstein, Ernst Kris e Erik Erikson, fundando uma nova corrente, a ego – psychology, na qual entre outros conceitos desenvolve a noção de self.

Paralelamente as disputas entre Anna Freud e Melanie Klein pela herança freudiana, nos anos 30 o Frances Jacques Lacan (1901 – 1980) começa a dar os primeiros passos na formulação de uma nova escola de pensamento freudiano. Escrevendo O estádio de espelho como formador da função do eu, em 1936, e A família, em 1938.

Em seus seminários anuais, em que comenta textos freudianos, Lacan formula vários conceitos que compõem o corpo teórico e clínico do lacanismo, tais como a noção de sujeito; os registros do imaginário; simbólico e real; os conceitos de significante e metáfora do nome do pai...

A partir de 1964, expulso da IPA, mas no auge de sua celebridade, ele cria o próprio modelo institucional, a Escola Freudiana de Paris. Após sua morte, o movimento lacaniano se desdobra em diversas correntes e grupos com ramificações na Argentina e no Brasil.

Hoje a psicanálise está implantada em mais de 40 países, diversos grupos estão em fase de constituição como nos países da África do Sul, Rússia, Romênia, Croácia.

A implantação conta com freudianos de todas as tendências. Na geopolítica da psicanálise, a America do Sul ocupa um lugar de peso, em particular o Brasil, onde mais de uma centena de instituições, representando todas as correntes freudianas, estão implantadas nos principais centros urbanos do país.



PATRÍCIA PEREGO RAMOS
Estudante de Psicologia - UNIVESC

segunda-feira, outubro 18, 2010

Ecos de Freud

Freud realizou uma longa viagem no tempo e no espaço para muito longe de sua amada casa em Viena.
Esteve em Paris, na juventude, onde acompanhou o trabalho de Charcot e o espetáculo do hipnotismo: aonde uma Augustine, espécie de celebridade da época, era exibida em palestras públicas e sessões de fotografia como uma perfeita ilustração da histeria. Freud também se tornaria um “ídolo pop”, cujas proporções atingiriam escala mundial, com seu rosto expressivamente reproduzido com e sem seu emblemático charuto, em capas de livros, camisetas, selos, cartazes de cinema, marcas de charuto, canecas, quadros realistas e surrealistas. E suas idéias discutidas numa infinidade de livros, artigos acadêmicos, jornalísticos, romances, contos, poemas, peças de teatro, documentários e novelas de televisão. Até quem nunca leu a obra do mestre já ouviu falar dele tornando-o um símbolo de nossa cultura.

Em 1896, Freud, em Viena, deve ter se sentido o homem mais solitário do mundo, apresentando-se à Associação Local de Psiquiatria e Neurologia com a conferência “A Etiologia da Histeria”. A idéia de procurar a origem da histeria no abuso sexual das crianças, foi acolhida com repúdio e agressividade, como se o próprio Freud, um investigador do abuso, fosse convertido em abusador. Presidindo o encontro Richard von krafft-Ebing, o famoso estudioso da psicopatologia sexual, descreveu os argumentos de Freud como “um conto de fadas científico”. Em que Freud, claro, era o lobo. sua pureza, transportando e implantando o freudismo nos países onde imperam os brancos, anglo-saxões e protestantes com enorme sucesso.

A publicação de A interpretação dos sonhos, em 1900, é o marco fundador da aventura psicanalítica. O livro que na época vendeu pouco, foi lido atentamente por algumas pessoas que se aproximaram de nosso herói, fazendo história com a formação da Sociedade Psicológica das Quartas Feiras. Um laboratório para as idéias freudianas. A primeira escala para a disseminação mundial.  
 
A partir de então, Freud atrairia discípulos como a agulha girando livremente na horizontal da bússola é atraída pelo norte magnético. Só que a relação de Freud com sua sociedade é de mestre e discípulos, é vertical, é o seu nome e o seu retrato nas capas dos livros.

Freud fará história, mas ela será fruto da violência transformadora. De Viena para Zurique foi um salto, sua fascinação pela inteligência de Jung o converteria em um primeiro aliado que depois se tornaria um dissidente, um dos primeiros a contestar o modelo doutrinário freudiano, passando a integrar a esquerda freudiana. Jung foi o primeiro herege. Lou Andreas-Salomé, aliada retumbante, seria fiel até a morte em seu casamento epistolar com Freud. Alfred Adler que frequentava a casa de Freud às quartas-feiras, também abandonou a sombra do mestre. O discípulo fidelíssimo Ernest Jones sempre defendeu com intransigência a doutrina preservando

O mestre enxergava na religião uma ilusão e a civilização lhe causava o mal-estar. Ele, entretanto, pouco se manifestou sobre a política cataclísmica de seu tempo. Porém, Reich radicalizou na política, ele estava convicto que a sexualidade e a política são intimamente correlacionadas. Assim a repressão sexual seria um dos maiores mecanismos de dominação política. Ele colocou-se a esquerda freudiana.

Com a ascensão do nazismo na Alemanha, o Freud de papel e tinta é queimado. Freud vê nisso uma evolução, pois em outros tempos o queimado seria ele de carne e osso. Ele fugiu para Inglaterra com a ajuda da aristocracia francesa.

Um câncer na mandíbula lhe rendeu 33 cirurgias, e acabou por matá-lo em circunstâncias eutanásicas em 1939. Preferiu morrer com dignidade. Sua filha Anna o sucedeu. Seus discípulos e ex-discípulos fragmentaram-se em mais discípulos e ex-discípulos. Lacan, que fumava charutos, soube de Freud pelos surrealistas, retorna ao Freud seminal, formando novas hordas para vigiar as fronteiras da psicanálise. Hoje esta fauna implantou a psicanálise com diferentes tendência e correntes teóricas em mais de 40 países.

Álvares de Azevedo (1832-1851), o poeta romântico brasileiro, morreu antes de Freud (1856-1939) nascer, escreveu um epitáfio para Freud. O “poema do frade” começa assim:


E do meio do mundo prostituto

Só amores guardei ao meu charuto!

E que viva o fumar que preludia

As visões da cabeça perfumada!

Rafael Rodrigues Schmitt
Estudante de Psicologia da UNIVESC

quinta-feira, outubro 14, 2010

Das singularidas

Ataco a tela branca de 1.80 x 1.40 centímetros. Escolho os maiores pincéis para aderir à maior quantidade de tinta. As tintas, não sei como as escolho. Pego todas as cores e as coloco sobre a mesa, junto com as cumbucas de água e um pano velho para limpeza do pincel.

A primeira pincelada é a melhor. Pode ter qualquer tamanho, direção e cor. Não importa, até porque este é o primeiro quadro e pode ter muitas cores diferentes: primárias, secundárias, cinzas sempiternos, que se relacionam, e, por vezes, têm vontade própria.

Os primeiros gestos são feitos de pinceladas mais calmas, sem pretensão e preocupação. São apenas gestos que desenham e colorem a tela.

Em algum momento as pinceladas deixam de ser calmas. Começo o ataque à tela. Os gestos ficam velozes; o traço, a cor e a forma dão vida à tela. E eu desapareço. Depois, me recomponho. Muito cansada fisicamente, percebo a tela exageradamente colorida, com movimento e traços pulsantes. Acabo, então, a primeira etapa do processo de trabalho.

Em outro dia recomeço a pintura, desconstruo os traços anteriores e dou início à morte da primeira tela. Nesta segunda etapa, traços, gestos, pinceladas e cores são pensados cuidadosamente. Todos os excessos são reduzidos, até chegar a um tom monocromático de cor rebaixada e forma orgânica.

Talvez isso ocorra porque eu não queira ser reconhecida pelo meu traço. Ou, talvez, porque este tipo de imagem (excesso de traços e cores) me parece datado. Ou, simplesmente, porque esse é o processo que desenvolvi para construir a imagem que me importa.

A terceira e última etapa do trabalho é feita em vários dias. Determino quais as cores sobreviverão para fazer as manchas sobre a tela.

O meu desejo é construir uma imagem forte e intimista, construída de manchas sobrepostas e que pareça “acaso controlado”.

Acredito que as imagens sejam construídas, antes, no meu pensamento plástico, que não sei de onde vem ou em que lugar se encontra.

Sei que é exigente, dá trabalho e sabe aonde quer chegar, porque tem que ter o frescor do novo, exigência da contemporaneidade.

Tem que ter cor que pulsa, porque tem que ter vida.

Tem que ter forma que serpenteia e causa impacto, ou forma sem informe que cause estranhamento. E, tem que ter muitas outras coisas.

Resumindo, o que eu quero é fazer pintura e que esta seja sincera. Para tanto, pesquiso e desenvolvo o meu processo de trabalho, tendo como referência a história da arte, principalmente a pintura contemporânea.

Este enfrentamento não é fácil, oscila entre o prazer e a angústia, a dúvida e a certeza. No entanto, mobiliza, dá sentido, produz trabalho, pensamento, discussão, cria novos mundos em telas e anuncia algumas mortes.

Expliquei, acima, o processo de pintar “manchas”, uma das fases do meu trabalho de artista plástica, que implica pintar muitas telas em uma, de diferentes maneiras, humores e técnicas. Novos desafios plásticos virão e diferentes maneiras criativas de enfrentá-los. Este é o meu desejo como artista plástica.

Sandra Silva Cavallazzi - 2010-10-03
Artista Plástica

quarta-feira, outubro 13, 2010

Conviete do Professor Denilson

Amigos,
O livro que organizamos - Cinema,Globalizacao e Interculturalidade -sera lancado no Rio de Janeiro no dia 18 de outubro (segunda-feira), 19 h, na Blooks Livraria ( dentro do Arteplex Unibanco de Cinema ) Praia de Botafogo 316 (tel: 25598776). Acreditamos ser uma contribuicao para compreender o cinema, e talvez não só, para alem do nacional. 
O livro também pode ser adquirido diretamente pelo site www.unochapeco.edu.br/argos.
Claro, se puderem repassar a quem possa se interessar agradecemos.
Abraços e contamos com sua presença,


Andréa França e Denilson Lopes

quinta-feira, outubro 07, 2010

Complexo de Édipo

  • Sófocles – Édipo Rei
Freud transforma o drama edípico em um drama universal.
Todo ser humano se vê diante da tarefa de superar o complexo de Édipo”. (Freud)

  •  1897 – carta a Fliess – A primeira vez que Freud faz menção a tragédia e Sófocles.
  •   1910 – Um tipo especial de escolha de objeto feita pelos homens. Neste texto, aparece pela primeira vez o termo complexo de Édipo.

  •  Na teoria freudiana, a noção de complexo de Édipo não fala da sexualidade infantil. Ela fala da entrada do sujeito nas leis da linguagem. A sexualidade só vai adquirir o seu estatuto teórico conceitual em os Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, de 1905.

  •  Podemos pensar o complexo de Édipo sob duas variáveis:
 1. A construção antropológica do sujeito.
Conforme Claude Lévi-Strauss, a diferença entre natureza e cultura é determinada pelo interdito. Enquanto o natural é aquilo que é constante e universal para todos os indivíduos da espécie, o cultural é caracterizado pela regra, pela norma, e pertence ao domínio dos costumes e das instituições. A proibição do incesto é um interdito que possui a universalidade do que é natural mas que enquanto lei, é estritamente social. Assim, para Lévi Strauss, o interdito - a proibição do incesto - por seu caráter universal, é uma espécie de síntese da natureza e da cultura e um lugar privilegiado da passagem de uma para a outra.
Para a psicanálise, falar em complexo de Édipo não é a mesma coisa que falar na proibição do incesto. Não é só uma transposição da lei cultural. A proibição do incesto é uma regra referente às alianças e às trocas no interior do grupo social, enquanto o complexo de Édipo diz respeito ao desejo. Uma coisa é a mulher entendida como objeto de troca, outra é a mulher entendida como objeto de desejo. O que está em jogo no complexo de Édipo não é a troca, mais a mulher enquanto objeto de amor.


2. Um processo de produção do ser falante inserido num complexo campo de intersubjetividade. Isto é, a construção do sujeito na Cultura.
Sob esta perspectiva, o complexo de Édipo constitui-se no conjunto de relações que a criança estabelece com as figuras parentais e que compõem uma rede em grande parte inconsciente de representações e de afetos, fundamentais ao processo da construção da subjetividade.
Assim, o complexo de Édipo torna-se a estrutura que organiza o devir humano – o vir a ser - em torno da diferença dos sexos e da diferença das gerações.

  • O complexo de Édipo assume toda sua dimensão de conceito fundador quando Freud o articula com o “complexo de castração”. Este último, ao provocar a interiorização da interdição dos dois desejos edipianos (incesto materno e assassinato do pai), abre o acesso à cultura pela submissão e a identificação com o pai portador da lei que regula o jogo do desejo.


  • No primeiro momento, é em torno do modelo masculino que Freud elabora sua teoria do Édipo. A formulação do complexo de Édipo é então a seguinte: o desejo sexual pela figura parental do outro sexo e o desejo assassino pela figura do mesmo sexo (forma positiva). O desejo erótico pela figura parental do mesmo sexo e o ódio ciumento à do outro sexo (forma negativa).

  • A partir dos anos 20, a teoria da castração o leva a romper com toda simetria entre o Édipo do menino e o Édipo da menina. O conflito edipiano se constitui no momento do estádio fálico, quando um só órgão sexual é reconhecido pelas crianças dos dois sexos: o pênis, que classifica os seres humanos em fálicos e castrado(a)s. A partir de então, instaura-se uma dissimetria radical entre o desenvolvimento psicossexual do menino e o da menina. O menino sai do complexo de Édipo pela angústia da castração e nele o supereu (superego) é o herdeiro do complexo de Édipo (interiorização da interdição paterna). A menina ingressa no conflito edípico pela descoberta de sua castração e a inveja do pênis, o supereu se constitui com dificuldade nela, que tem de fazer do pai o objeto de seu desejo, e o tornar-se mulher é um percurso obscuro.
Texto de Freud:
Cartas a Wilhelm Fliess
A interpretação dos Sonhos
Totem e Tabu
Bate-se numa Criança
O eu e o isso
A dissolução do Complexo de Édipo
A Feminilidade

quinta-feira, agosto 19, 2010

FREUD - TEXTOS CLÍNICOS

Textos de Freud sobre a teoria psicanalítica


Volume – VII

O Método psicanalítico de Freud. 1904 [1903]

Sobre a psicoterapia. 1905 [1904]

Tratamento psíquico (ou mental). 1905


Volume XI

As perspectivas futuras da terapêutica psicanalítica. 1910

Psicanálise ‘silvestre’. 1910


Volume XII

Sobre o início do tratamento (Novas recomendações sobre a técnica da psicanálise I). 1913

Sobre a psicanálise. 1913 (1911)


Volume XIII
O interesse científico da psicanálise. 1913
Observações e exemplos da prática psicanalítica. 1913
Algumas reflexões sobre a psicologia do escolar. 1914


Volume XIV

A história do movimento psicanalítico. 1914



Volume XV

Conferências Introdutórias sobre Psicanálise. 1916-1917

I. Parapraxias
II Sonhos


Volume XVI
Conferências Introdutórias sobre Psicanálise (continuação)

Parte III - Teoria Geral das neuroses. 1917


Volume XVII

Uma dificuldade no caminho da psicanálise. 1917

Linhas de progresso na terapia psicanalítica. 1919 [1918]

Sobre o ensino da psicanálise nas universidades. 1919 [1918]


Volume XVIII

Uma nota sobre a pré-história da técnica de análise. 1920


Volume XIX

Uma breve descrição da psicanálise. 1924 [1923]

As resistências à psicanálise. 1925 [1924]


Volume XX

Um estudo autobiográfico. 1925 [1927]

Psicanálise. 1926 [1925]


Volume XXII

Novas conferências introdutórias sobre psicanálise. 1933 [1932]


Volume XXIII

Análise terminável e interminável. 1937

Esboço de psicanálise. 1940 [1938]

Algumas lições elementares de psicanálise. 1940 [1938]

Freud – casos clínicos

Volume II

Casos clínicos

1. Fraulein Anna O. (Breuer)

2. Frau Emmy Von N.

3. Miss Lucy R.

4. Katharina
5. Fraulein Elisabeth Von R.


Volume VII
Fragmento da análise de um caso de histeria 1905 (1901)
(O caso Dora)


Volume X

Análise de uma fobia em um menino de cinco anos. 1909

Notas sobre um caso de neurose obsessiva. 1909

(O Pequeno Hans e o Homem dos Ratos)


Volume XII
Notas psicanalíticas sobre um relato autobiográfico de um caso de paranóia. (Caso Schreber) 1911


Volume XVII

História de uma neurose infantil. 1918 [1914]
(O Homem dos Lobos)


quarta-feira, agosto 11, 2010

CONVITE



Caros amigos,

Quero convidá-los para o concerto que acontecerá nesta sexta-feira - dia 13 - às 21:00h no Teatro Pedro Ivo Campos. No programa, o concerto Tríplice de Beethoven (assim chamado por ter três solistas junto à orquestra - no caso: piano, violino e violoncelo) e minha mais nova composição: um concerto para piano, violino, viola e orquestra sinfônica. O título dessa obra é Aurora consurgens, alusão a um antigo tratado alquímico (cada um dos quatro movimentos representa uma das fases da alquimia: Nigredo, Albedo, Citrinitas e Rubedo). O violinista, o violista e o violoncelista vieram da Itália especialmente para participar desse evento, são excelentes musicistas (tocam na Sinfônica de Roma).
Nas duas obras farei a parte do piano, e a regência será do maestro Jeferson Della Rocca.

Espero que possam vir.

Alberto Heller

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Aurora Consurgens


Concerto para piano, violino, viola e orquestra


Alberto Andrés Heller


O título ‘Aurora Consurgens’ (que pode ser traduzido por aurora nascente, ou aurora surgente) faz referência a um antigo tratado alquímico (por muito tempo atribuído a Tomás de Aquino) cujo manuscrito original remonta ao século XV. Em linguagem hermética, o texto (constituído em grande parte por passagens bíblicas) revela uma profunda mística espiritual, característica da maioria dos escritos alquímicos.

A antiga alquimia caracteriza-se por uma combinação entre ciência e religiosidade ou, mais especificamente, entre química, física, medicina, astrologia, filosofia, arte e religião. Entre seus objetivos principais destacavam-se a transmutação dos metais inferiores ao ouro (a busca pela pedra filosofal), a obtenção de um remédio que curasse todas as enfermidades e garantisse a vida eterna (o elixir da longa vida) e a criação de vida humana em laboratório (os “homunculus”). Hoje se sabe que essas expressões devem ser compreendidos metafórica e simbolicamente, e que esse tipo de linguagem foi utilizada principalmente por medidas de segurança (em vários momentos da história os alquimista foram perseguidos, por exemplo pela Igreja Católica) e para confundir os leitores “indignos” e leigos ou não iniciados, já que nem todos estariam aptos ou preparados para determinados tipos de informação. Por detrás de experimentos aparentemente bizarros ocultava-se, portanto, a busca pelo desenvolvimento humano e pela transformação do espírito: por meio das operações alquímicas – que visavam a ‘grande obra’ (o “opus alchemicum”) – o alquimista não purificava o metal, mas a si mesmo.

Apesar de haverem obviamente discordâncias e divergências, a maioria dos tratados alquímicos previa para a transformação do metal inferior (geralmente chumbo) em ouro quatro operações, denominadas respectivamente Nigredo, Albedo, Citrinitas e Rubedo. Baseei os quatro movimentos deste concerto nessas operações, razão pela qual falarei um pouco sobre cada uma delas.

1. Nigredo

Toda transformação se inicia (simbolicamente) com a morte ou deterioração daquilo que se tornou antigo e ultrapassado, que não mais nos serve e que nos impede de mudar e crescer, e que precisa portanto “morrer” para dar lugar ao novo (pense-se na aparente morte da lagarta antes de sua transformação em borboleta). Os alquimistas falam aqui em dissolução da matéria ou em putrefação, razão da associação com a cor negra – daí o nome nigredo e da operação ser também conhecida por “operação negra” (ou melanosis). A associação com o chumbo é porque esse seria um metal “inferior” ou “adormecido” – e que precisa ser “despertado”. O estágio inicial é, assim, de crise; e sair dessa crise significa entrar em contato direto com elementos tais como angústia, medo, raiva e desilusão.

2. Albedo

A substância precisa agora ser “purificada”, de onde vem a associação com a cor branca – albedo ou “operação branca” (ou leukosis), representando o poder iluminador da luz sobre a prima matéria. Fala-se muito neste estágio na “lavagem” da substância, onde surgem com freqüência a água, o banho, a imersão e outras figuras análogas (e também a prata e o prateado, bem como a luz lunar). Assim como o cirurgião precisa higienizar suas mãos antes de uma operação, assim também deve proceder a pessoa que deseja entrar em contato com o sagrado.
Não se trata, porém, de um banho “relaxante”, mas de uma experiência intensa e difícil, quase como numa espécie de exorcismo (e me vêm agora à mente as figuras de monstros e demônios presentes à entrada de algumas catedrais européias).
Em relação ao albedo, uma associação que me veio de imediato foi um ritual de purificação comum em muitas tribos indígenas, no qual a pessoa fica por muitas horas (às vezes dias) dentro de uma pequena tenda sob alta temperatura e vapor (quase uma espécie de sauna); submetido assim à elevada pressão e temperatura, o corpo sua, e nesse suor se eliminariam toxinas e outras substâncias, purificando a carne e o espírito. No México esse ritual é conhecido como ‘Temazcal’ – e pensei o segundo movimento do concerto como uma espécie de Temazcal, onde tento, através da música, provocar a taquicardia e a sudorese (especialmente através do uso forte e ininterrupto da percussão - dois atabaques e tímpanos).

3. Citrinitas
Uma vez “putrificada” e depois “lavada”, finalmente a substância está apta a ascender a um grau mais elevado de energia, chegando às vibrações mais sutis – o ouro. O metal foi transmutado do chumbo à prata, e agora da prata ao ouro (da luz da lua à luz solar), o grande despertar. Encontramos aqui todo tipo de associação à luz solar e ao dourado, daí o nome citrinitas – ou “operação amarela” (ou xanthosis).
Elevar uma freqüência exige, porém, intensidade e esforço; a intensidade das operações anteriores ainda se faz sentir aqui.

4. Rubedo
Aparentemente, uma vez alcançado o ouro, não mais se faria necessária outra operação. Mas se faz, sim, pois o ouro, apesar de nobre, é frio. E esse frio precisa ser aquecido, precisa de calor, precisa do vermelho – de onde passamos ao rubedo ou “operação vermelha” (ou iosis).
Penso aqui especialmente na história de Buddha, que após uma semana de meditação sob a árvore Boddhi alcançou finalmente a iluminação; mas ele não permaneceu no Nirvana: após a experiência da beatitude, ele retorna ao mundo dos homens, ao calor humano. É desse calor que trata o rubedo: do calor do coração, do amor (cristão), da graça, da vida.
O quarto movimento representa esse amor.

O título ‘Aurora Consurgens’ aponta, em última instância, para um desejo de renovação. Às vésperas de 2012, quando se comenta de um possível fim dos tempos, presenciamos em nível mundial um período de grandes crises (humanas, naturais e outras); que seja apenas um período de “nigredo”, e que a humanidade possa sair purificada e renovada desse processo, iniciando então uma era mais dourada e calorosa.





quinta-feira, agosto 05, 2010








Princesa Marie

Sobrinha-neta de Napoleão, Marie Bonaparte à beira da depressão e acreditando-se frígida, procura Freud. Durante o processo de análise com o psicanalista nasce entre eles uma grande amizade, até ela se tornar também uma psicanalista renomada e divulgadora das teorias de Freud. Ele a salvou de suas neuroses e Marie o salvou dos nazistas.


segunda-feira, agosto 02, 2010

O obsessivo e seu desejo, segundo o Seminário V de Lacan.


A Dialética da Demanda e do Desejo....


O desejo para o obsessivo se apresenta de forma evanescente, diz Lacan no Seminário V. Essa evanescência do desejo é efeito da dificuldade, do sujeito obsessivo, na relação com o Outro; na medida em que o campo do Outro é o lugar onde se ordena o desejo.
Se, conforme Lacan, o desejo se ordena pelo significante. É no interior do campo Simbólico que o sujeito é obrigado a se exprimir e produzir um efeito de significante, isto é, um significado. Esse é o pacto da constituição do sujeito da linguagem, fora de qualquer imanência. É no interior da experiência que o sujeito tem com a linguagem que vem se formular sua relação com o desejo.

A relação do sujeito com o Outro, e com a vida, é simbolizada por um engodo, uma isca, cujo ponto de referência é o significante do falo. O falo como simbólico tem por tarefa orientar o ser humano com relação a um significado, assim sendo orienta o desejo, e por esta razão se encontra numa posição privilegiada.

Para a teoria lacaniana, a inserção do sujeito no desejo é sempre problemática, pois o desejo se insere através da dialética da demanda, e a demanda sempre pede algo a mais que a satisfação a que ela apela. “Daí o caráter problemático e ambíguo do lugar onde se situa o desejo.” Esse lugar está para além da demanda, na medida em que esta visa à satisfação: o desejo busca algo a mais, algo para além. Mas, por outro lado, o desejo está aquém da demanda considerando que ela, por ser articulada em significantes “vai além de todas as satisfações para as quais apela, é demanda de amor que visa ao ser do Outro, que almeja obter do Outro uma presentificação essencial – que o Outro dê o que está além de qualquer satisfação possível, seu próprio ser, que é justamente o que é visado no amor”. Assim, o desejo visa este aquém da presentificação do significante, aquém da presentificação do ser.

Ou seja, enquanto a demanda de amor visa o ser o desejo visa à falta a ser, isto que estaria aquém da presentificação do significante, aquém da presentificação do ser. “É no espaço virtual entre o apelo da satisfação e a demanda de amor que o desejo ocupa seu lugar e se organiza”.

Desse modo, só podemos situar o desejo a partir de sua dupla relação à demanda. Aquém ou além, dependendo do aspecto que considerarmos a demanda. Além da demanda em relação a uma necessidade, ou aquém da demanda estruturada em termos significantes. Ou seja: além da necessidade, aquém das palavras.

Como tal, o desejo não se reduz a satisfação da demanda e ao mesmo tempo necessita da articulação desta. “O outro como lugar da fala, como aquele a quem se dirige a demanda, passa a ser também o lugar onde deve ser descoberto o desejo, onde deve ser descoberta sua formulação possível. É aí que se exerce a todo instante a contradição, porque esse Outro é possuído por um desejo – um desejo que, inaugural e fundamentalmente, é estranho ao sujeito.”

Daí a dificuldade da formulação do desejo nas estruturas neuróticas. O sujeito histérico fica preso no desejo enquanto insatisfação da demanda. Não é isto o que deseja, o que deseja é sempre outra coisa. Este algo a mais, que está para além de toda satisfação da demanda, caracteriza seu desejo como desejo de insatisfação. O sujeito histérico se identifica com o outro insatisfeito, e a identificação histérica aponta para o além da demanda.

Por sua vez, o sujeito obsessivo fica na dependência do Outro para obter acesso ao seu desejo, precisa que o Outro diga o que ele quer para que ele possa ser. Lembramos que esse aquém do desejo aponta para a falta a ser: o desejo do Outro aponta para esta falta que ele não consegue interpretar.

Assim, se por um lado, o sujeito obsessivo fica preso na demanda do Outro, tentando ser o que ele demanda; por outro, busca com afinco desvencilhar-se dessa identificação dada pelo Outro para poder desejar. “Poderíamos dizer que o obsessivo está sempre pedindo alguma permissão. ... Pedir permissão é, justamente, ter como sujeito uma certa relação com a própria demanda. Pedir permissão, na medida mesma em que a dialética com o Outro – o Outro falante – é posta em causa, posta em questão, ou até posta em perigo, é dedicar-se, afinal de contas, a restaurar esse Outro, é colocar-se na mais extrema dependência dele. Isso já nos indica a que ponto esse lugar é de manutenção essencial para o obsessivo. É exatamente aí que vemos a pertinência do que Freud sempre chama de Versagung, a recusa. Recusa e permissão implicam uma na outra. O pacto é recusado sobre o fundo da promessa, o que é melhor do que falar em frustração”.

O impasse do desejo no sujeito obsessivo se demonstra com o fato que para ele desejar, isto é, ter acesso a falta a ser que o desejo exige, é necessário se desvencilhar do ser do Outro do significante que é lhe imposto com a demanda. Para isso, procura destruir o Outro: o desejo do obsessivo implica na destruição do Outro. Quando ele detém o objeto do seu desejo nada mais existe, e na destruição do Outro, quando ocorre, o próprio desejo vem a desaparecer. No entanto, se essa destruição não ocorre torna-se servo da demanda. Preso na demanda de amor tenta ser para o Outro, e, simultaneamente, preserva o Outro na sua toda potência.

Numa análise, o analista deve sustentar esse impasse entre a falta e a potência do Outro, abstendo-se do furor terapêutico. Único modo de construir um espaço onde o sujeito obsessivo poderá colocar em questão, por um lado, suas identificações, o seu ser, para deixar aparecer o sujeito dividido; e, por outro lado, reencontrar-se na ex-sistência, na sua falta a ser, lá onde é apesar de não ser. O que provoca uma nova inserção do sujeito no mundo com o trabalho que nunca acaba e com respeito ao amor, não mais visto como uma solução, uma possibilidade de se livrar da falta, mas como resultado da impossibilidade da queda do Outro.


• LACAN, Jacques, O Seminário – livro 5 – as formações do inconsciente.
(Parte 4 – A Dialética do desejo e da demanda
 na clínica e no tratamento das neuroses.)






quinta-feira, julho 29, 2010

Como ler Lacan - Slavoj Zizek



Nunca defendi a ideia de que ler Lacan é uma tarefa fácil. Mas, acho que algumas leituras de Lacan são fascinantes. Entre elas, a do filósofo esloveno Slavoj Zizek.



Em seu último livro editado no Brasil – Como ler Lacan, da editora Zahar – Zizek, novamente, acerta o ponto de sua estranha alquimia. Num estilo claro, mas nada despretensioso, o filosofo erudito e pop, nos leva a uma bela viagem ao mundo lacaniano através do modelo de leitura do próprio Lacan.


“Lacan era um leitor e intérprete voraz; para ele, a própria psicanálise é um método de leitura de textos, orais (a fala do paciente) ou escritos. Não há maneira melhor de ler Lacan, então, que praticar seu modo de leitura e ler os textos de outros com Lacan. Assim, cada capítulo desse livro vai confrontar uma passagem de Lacan com um outro fragmento (de filosofia, de arte, de cultura popular r ideologia). A posição lacaniana será elucidada através da leitura lacaniana do outro texto.”


CONTARDO CALLIGARIS

A língua que habito. O psicanalista e escritor italiano Contardo Calligaris fala (ao Jornal Rascunho) sobre sua relação com a...