segunda-feira, junho 13, 2011

O fantasma de Sigmund: Freud e a “suspeita de si”

Texto de Vladimir Safatle, publicado,
nesse final de semana,
no Caderno Ilustríssima
 do Jornal Folha de São Paulo

ATAQUES VIRULENTOS: Não é difícil entender por que o pensamento de Freud é objeto periódico de ataques virulentos. Definições sobre saúde, normalidade e sofrimento psíquico estão longe de ser imunes a conflitos: são aspectos de um embate social a respeito do que entendemos por "vida mutilada".
Um trabalho epistemológico digno desse nome é capaz de mostrar como a gênese de conceitos clínicos centrais depende, em larga medida, de valores que se originam fora da clínica e que a clínica toma emprestados dos campos da política, da estética, da teoria social, da moral, entre outros.
Por isso, os embates em torno dos modelos de intervenção clínica diante do sofrimento psíquico acabam sendo embates a respeito de modelos de vida que procuram ter forte peso normativo.
A maneira como, nos últimos 50 anos, o homossexualismo deixou de ser visto como uma parafilia (designação atual das perversões) ilustra a permeabilidade de nossos critérios de normalidade psíquica a valores socioculturais.
Diante das querelas em torno de Freud, vale a pena ter essas questões em mente.
Em geral, tais querelas se fazem passar por problemas "técnicos" a respeito de padrões de eficácia clínica. No entanto, muitas vezes são animadas por debates não explícitos sobre formas de vida e de individualidade.
LIVRO NEGRO Um exemplo paradigmático dessa estratégia é "O Livro Negro da Psicanálise - Viver e Pensar Melhor sem Freud" [org. Catherine Meyer, trad. Maria Beatriz de Medina e Simone Perelson, Civilização Brasileira, 644 págs. R$, 64,90]. Lançado na França em 2005, o livro chega ao Brasil com apenas 23 dos 40 artigos originais.
Congregando filósofos, psiquiatras, ex-psicanalistas, biógrafos de Marilyn Monroe, jornalistas investigativos (?), sexólogos e até um professor "reconhecido por seus pares como uma das dez pessoas que mudaram a cara da psiquiatria norte-americana", ele visa desmascarar a impostura psicanalítica. Não por acaso, o título mimetiza outro empreendimento editorial "libertador", a saber, "O Livro Negro do Comunismo" (1997).
Os métodos, nos dois casos, não são muito distintos. Trata-se de anunciar o fim de uma era de ilusões devido ao alvorecer radioso daquilo que, supostamente, não é superstição ou ideologia rasa. Nesse sentido, também não é casual que tal alvorada seja animada pela eficácia da democracia liberal ou pela precisão da guinada organicista da psiquiatria, acompanhada, quando necessário, pelas técnicas adaptativas de terapia cognitivo-comportamental.
Nos dois casos, procura-se despedir, pela porta dos fundos, duas das mais influentes experiências intelectuais do século 20: a psicanálise e o marxismo. Experiências decisivas para configurar o modo como compreendemos a nós mesmos e a nossos vínculos sociais, bem como a forma como definimos nossas expectativas de realização, de reconhecimento e de crítica.
No seu lugar, aparece um homem enfim reconciliado com as certezas liberais, livre do obscuro desejo de transformações sociais ou da suspeita radical em relação a formas hegemônicas de vida.
Suspeita animada por ideias difundidas por Freud: a família burguesa como núcleo produtor de neuroses; os processos de socialização, com seus valores e suas normas como indissociáveis da produção de sofrimento e de patologias; a sexualidade como campo de construções instáveis e contraditórias; a unidade coerente das condutas como algo sempre prestes a entrar em colapso; e, principalmente, a autonomia individual como internalização disciplinar de vínculos a autoridades que encontramos em instituições como a família.
INDIVÍDUO LIBERAL Assim, longe de um sujeito que aprendera a criticar seus ideais reguladores de autonomia, de autenticidade e de identidade, temos as portas abertas para um indivíduo liberal que, depois de décadas de insegurança e incerteza, pode calar todas as críticas com a força de quem ganhou uma sangrenta guerra fria contra seus inimigos internos.
Mas como "O Livro Negro da Psicanálise" organiza sua batalha contra o inimigo e como ele, posteriormente, apresenta aquela que seria a teoria vitoriosa? Seu primeiro passo consiste em afirmar que os casos freudianos são farsas. Os traumas ligados à sexualidade, assim como os conflitos edípicos, teriam sido, em larga medida, invenções de Freud impostas aos seus pacientes (certamente porque os autores preferem crer que não há nada parecido com a sexualidade infantil e seu polimorfismo).
No entanto, não deixa de ser interessante lembrar que Freud foi o primeiro a reconhecer problemas em sua própria clínica, falhas em seus próprios casos. Nada estranho para alguém disposto a construir hipóteses, confrontá-las com casos particulares e reordená-las a partir de dificuldades. Isso não o impediu de alcançar resultados inegáveis em casos como o do "Homem dos Ratos", sucesso que até "O Livro Negro" é obrigado a reconhecer.
PÓS-FREUD Mas insistamos ainda neste ponto. Se tudo não passasse de uma grande farsa, seria difícil explicar como a psicanálise teve resultados clínicos tão significativos após Freud?
Um verdadeiro trabalho epistemológico sobre a psicanálise deveria levar em conta casos clínicos de psicanalistas como Lacan, Winnicott, Bion, Kohut, Kernberg, assim como o relato de pacientes que se dizem respondidos em sua demanda de cura. Isso não ocorre porque "O Livro Negro" procura nos fazer acreditar que a psicanálise seria uma prática estática, que nunca teria se modificado e se criticado desde Freud.
"O Livro Negro da Psicanálise" não é, no entanto, apenas uma máquina de guerra contra a teoria freudiana. Ele prega o conhecimento adequado da mente, do sofrimento e dos transtornos mentais graças aos "passos de gigante" das ciências do cérebro, à "verdadeira revolução" nos exames cerebrais por imagens e nas pesquisas farmacológicas. Pesquisas cujos resultados não são nem de longe aquilo que a indústria farmacêutica, com seus lucros milionários, gostaria de nos fazer acreditar.
PARALELISMOS Aqui vale um aparte. Desde Descartes, ninguém nunca questionou a existência de paralelismos entre mente e cérebro. Dificilmente alguém ficaria surpreso em descobrir que uma alucinação auditiva na esquizofrenia exige uma atuação das regiões do córtex que costumam cuidar dos sinais de audição, ou que, em transtornos de ansiedade, a amígdala cerebral funciona como um sistema de alarme desregulado.
Ilusória é, na verdade, a crença de que a descrição de tais paralelismos e a atuação farmacológica a partir deles possa eliminar o processo que causou os sintomas. A não ser que estejamos dispostos a aceitar afirmações inacreditáveis, como esta, da filósofa Joëlle Proust no "Livro Negro da Psicanálise", para quem o sofrimento psíquico não tem relações com a forma como o paciente, a partir de suas próprias convicções e motivações, reflete sobre seus sintomas.
Talvez isso explique por que, atualmente, uma das queixas mais comuns de pacientes com transtornos mentais seja a de não serem ouvidos pelos médicos, como se o que têm a dizer sobre sua própria doença não tivesse lugar. Como se a mobilização crítica de sua história, crenças, desejos e ambiguidades de nada servisse na construção de modelos de ação diante de sintomas, inibições e angústias.
Afinal, talvez tal mobilização crítica não seja necessária, pois manuais de psiquiatria, como o DSM, já nos forneceriam o modelo normativo de uma individualidade reconciliada. Neste caso, como o modelo já está dado, não há nada que a rememoração de uma história singular possa construir.
INOVAÇÃO É nesse ponto que podemos sentir o cerne do aspecto inovador da teoria freudiana. Ele está presente em dois textos que aparecem ao leitor brasileiro em tradução cuidadosa de Paulo César de Sousa, no interior das "Obras Completas" de Freud, da Companhia das Letras. O primeiro é "O Eu, o Id, Autobiografia' e Outros Textos" [vol. 16, 376 págs., R$ 52]. Já o segundo é "Psicologia das Massas e Análise do Eu" [vol. 15, 352 págs., R$ 52].
Este empreendimento editorial é louvável, ainda mais se levarmos em conta que o Brasil tem, certamente, a pior tradução das "Obras Completas" (Imago, organizada por Jayme Salomão), já que foi, em larga medida, feita a partir da versão inglesa.
Durante décadas, pesquisadores brasileiros não germanófilos foram obrigados a trabalhar com as versões em espanhol ou em francês. De toda forma, a tradução de Paulo César de Sousa (assim como a boa tradução de Luiz Hanns, publicada pela Imago) não deixa de apresentar opções polêmicas.
Já o título "O Eu e o Id" não é plenamente justificado. "Das Ich und das Es" deveria ser traduzido simplesmente por "O Eu e o Isso". Isto permitiria à tradução guardar a polaridade sugestiva de uma individualidade cindida entre aquilo que se deixa nomear pelo pronome da primeira pessoa e aquilo que só encontra forma nesse pronome impessoal que nomeia o que, em nós, parece não querer se colocar sob a forma da pessoa.
Há ainda escolhas não facilmente defensáveis, como traduzir "Trieb" por "instinto", em vez de "pulsão", sendo que, se Freud quisesse, poderia ter simplesmente usado "Instinkt". Mas é certo que a tradução de textos ricos em ressonância como os de Freud nunca será livre de polêmica. O importante é que a tradução que o leitor tem à mão é de inegável qualidade.
EU Nesses dois textos, Freud problematiza o conceito de individualidade organizada a partir do Eu como unidade psíquica de síntese e de coerência das condutas. Conceito que serviria à clínica de norma, como se nosso sofrimento psíquico aparecesse sempre lá onde o indivíduo, com sua unidade, sua autonomia do Eu e sua autenticidade, não pudesse mais nos guiar. O que nasce dessa reflexão freudiana não é exatamente um modelo de conhecimento de si, como se costuma dizer, mas um modelo de "suspeita de si".
Por exemplo, "O Eu e o Id" é um texto de maturidade, que vem logo após a importante reformulação da teoria freudiana da pulsão feita em "Para Além do Princípio do Prazer", de 1920. Sua função é, assim, sistematizar a teoria do aparelho psíquico depois do desenvolvimento dos conceitos de pulsão de vida e pulsão de morte.
Nesse trabalho central na bibliografia freudiana, essa nova teoria pulsional será articulada às distinções psicanalíticas entre consciente, pré-consciente e inconsciente, assim como à nova distinção do aparelho psíquico em Eu, Supereu e Isso. Este será o primeiro texto no qual Freud desenvolverá, de maneira sistemática, sua teoria do supereu como instância moral de auto-observação responsável pela formação dos ideais e do sentimento de culpa.
É dessa teoria que derivará a compreensão das patologias mentais, já que Freud sempre utilizará o esquema da doença como regressão e degenerescência. Trata-se de uma ideia muito presente no final do século 19: a crença de que, na doença, fazemos o caminho inverso ao processo de formação e desenvolvimento psicológico.
IDENTIFICAÇÕES Ao descrever tal processo de formação, Freud parte da centralidade das dinâmicas de identificação e de internalização, ou seja, constrói-se o Eu por identificações que nos permitem internalizar modelos normativos de conduta, de desejo e de valoração vindos de figuras de autoridade que parecem nos garantir formas bem-sucedidas de vida.
Nesse sentido, a peculiaridade de Freud não vem de sua insistência de que podemos sofrer por não conseguirmos dar conta de tais valores e normas internalizados, como se nosso sofrimento psíquico fosse a marca patológica de nosso vínculo a ideais bloqueados.
O giro freudiano, e isto está claramente presente em sua teoria do supereu (objeto maior dos dois livros em questão), consiste em explorar o fato de que há situações nas quais os próprios valores e normas podem ser irrealizáveis, ou seja, podem ser um construto contraditório que visa dar conta de disposições heteróclitas.
Aquilo que procura ter peso normativo em nossas vidas pode ser parte do problema, e não da solução. Para uma sociedade como a nossa, que quer acreditar a todo custo que nossas formas hegemônicas de vida não estão em crise, colocações como estas de Freud não poderiam encontrar lugar.
MASSAS Nesse sentido, um texto como "Psicologia das Massas e Análise do Eu" é fundamental. Reconhecido por filósofos como Theodor Adorno e por juristas como Hans Kelsen como um texto maior referente à psicologia social contemporânea (Adorno chegará a utilizá-lo como descrição precisa da psicologia do fascismo), "Psicologia das Massas" traz uma tese inovadora.
A princípio, parece que temos mais um texto sobre a formação das massas através de alguma forma de regressão do comportamento dos indivíduos. Baseando-se na bibliografia da época (Gustave Le Bon, Mac Dougall, Gabriel Tarde), Freud parece fornecer mais um capítulo na literatura conservadora de crítica ao advento das sociedades de massa, com seu comportamento "irracional" e sua maneira de se submeter a lideranças carismáticas e autoritárias.
No entanto, Freud faz uma associação plena de consequências. Segundo ele, só podemos compreender a formação das massas se virmos nelas a consequência de fraturas sempre abertas no processo de formação do Eu e de seus ideais. Ou seja, as massas submetidas à liderança totalitária não aparecem lá onde o indivíduo se enfraquece e entra em colapso, mas seriam uma espécie de correlato, de risco sempre presente, devido ao mecanismo interno próprio ao processo de formação do Eu.
Esse é o modo freudiano de mostrar como nossos ideais de maturação subjetiva eram, muitas vezes, parte dos problemas que apareciam tanto na vida social quanto na clínica.
SUSPEITA DE SI Por isso, podemos dizer que o maior legado de Freud talvez tenha sido um modelo de suspeita de si, uma forma de vida caracterizada, principalmente, pela suspeita em relação aos ideais que organizam nossos processos de maturação e nossa vida social. Uma consequência clínica fundamental de tal suspeita é a certeza de que o tratamento é indissociável de um lento processo, no interior do qual o paciente serve-se da rememoração para construir modos singulares de habilidades para lidar com conflitos e contradições que nunca desaparecerão, que lhe exigirão, em vários momentos de sua vida, a capacidade de se quebrar e se reconstruir. Modos singulares porque ele não tem à sua disposição uma saída geral para seus impasses.
Assim, se a clínica freudiana nunca foi refratária à crítica, se ela sempre soube se reinventar, é porque Freud sabia que sua experiência intelectual colocava em operação um modelo de reflexão que desconstruía a estabilidade de nossas figuras gerais de normalidade e de maturação psíquica.
Como um fantasma que ronda as sociedades modernas ocidentais, Freud lembrou que nossos doentes são, muitas vezes, provas vivas das crises provocadas por nossos próprios valores. Talvez seja por isto que, desde que nasceu, a psicanálise sempre teve a última palavra diante daqueles que apostaram em seu desaparecimento.


segunda-feira, maio 16, 2011

O SESC Florianópolis convida você para uma imersão na música erudita. Ao longo de seis dias de evento, serão realizadas sete oficinas, cinco concertos e uma mesa-redonda sobre o tema. Participe!
Programação



Dom.15- 9h ABERTURA PAUTA CONTEMPORÂNEA – Teatro SESC Prainha - Livre
Seg.16 – 20h CONCERTO com Pauxy Gentil-Nunes, Alexander Schubert, José Wellington e Doriana Mendes – Teatro SESC Prainha - Livre
Ter.17 – 19h MESA-REDONDA: A Nova Música e o Músico no Panorama da Música de Concerto – Teatro SESC Prainha - Livre
Qua.18 – 20h CONCERTO com Alberto Heller: Obras para Piano – Teatro SESC Prainha - Livre
Qui.19 – 20h 2º CONCERTO com Pauxy Gentil-Nunes, Alexander Schubert, José Wellington e Doriana Mendes – Teatro SESC Prainha - Livre
Sex.20 – 20h SARAU LIVRE – Teatro SESC Prainha - Livre
Sab.21 – 16h CONCERTO DE ENCERRAMENTO – Teatro SESC Prainha - Livre

Ingressos para os concertos: R$ 0,50 (comerciários e estudantes)
R$0,90 (empresários e conveniados) e R$ 1,00(usuários)


Oficinas Inscrições gratuitas na Central de Atendimento do SESC Florianópolis
Telefone: (48) 3229-2200

16 a 20
9h às 12h35 Oficina de Violino (10 vagas) - Sala de Música II – livre

16 a 20
9h às 12h35 Oficina de Canto (15 vagas) - Sala de Música I – Livre

16 a 20
9h às 12h35 Oficina de Piano (20 vagas) – Teatro SESC Prainha – Livre

16 a 20
9h às 12h35 Introdução à composição (aberta a professores, compositores e instrumentistas em geral / 20 vagas) - Sala Multiuso – Livre

16 a 20
14 às 18h Oficina de improvisação livre (aberto a qualquer instrumento / 20 vagas) – Teatro SESC Prainha – Livre

16 a 20
14 às 18h Prática de conjunto de cordas (violino, viola, violoncelo e contra-baixo / 15 vagas) - Sala de Música I – Livre

16 a 20
14 às 18h Música de Câmara (40 vagas) - Sala Multiuso – Livre



SESC Florianópolis
Travessa Siryaco Atherino, 100
CEP: 88020-180 - Florianopolis - SC
(48) 3229-2208
(48) 3229-2209

http://www.sesc-sc.com.br/

www.twitter.com/sesc_sc

http://blogs.sesc-sc.com.br/cultura

quarta-feira, maio 11, 2011


Professora Tânia Neves

CURSO DE RECICLAGEM GRAMATICAL

O objetivo do curso é proporcionar aos profissionais de todas as áreas a oportunidade de relembrar as regras gramaticais, necessárias para a comunicação escrita.



Aborda: falhas de concordância, ortografia, regência, crase, vírgula, hífen, colocação pronominal, formação de plural, uso de pronomes relativos e erros mais comuns.


Horário das aulas: das 18:30h às 21:30h
Data: de 06 a 10 de junho
Local: Museu Histórico de Santa Catarina
(Palácio Cruz e Sousa)




DESCONTO DE 50% PARA INSCRIÇÕES

EFETUADAS ATÉ O DIA 15/05

DE R$200,00 POR R$100,00



- Inclui apostila de conteúdo e exercícios -
- Será fornecido certificado de participação -



Saiba mais
http://www.professoratanianeves.com.br/
http://www.educartebrazil.blogspot.com/

Contato: 48 9911-6200
Email: educartebrasil@gmail.com







terça-feira, abril 12, 2011



Caros amigos,

Nesta sexta-feira (15 de abril) tocarei no Teatro Pedro Ivo em Florianópolis às 21h. Será a abertura da temporada 2011 da Pró-Música, com um programa dedicado ao Romantismo (200 anos de Chopin, Schumann e Liszt). De Chopin, a Balada nº1 e o Scherzo nº3; de Schumann, Intermezzo (do Carnaval de Viena), Aufschwung (de Fantasiestücke) e Arabesque; de Liszt, Benediction de Dieu dans la Solitude e Valsa Mefisto.

Um abraço,

Alberto

quarta-feira, abril 06, 2011

A culpa do sobrevivente


Mais de sessenta anos se passaram depois do Holocausto e até hoje o sombrio acontecimento provoca polêmicas e discussões. Não estamos falando apenas nos chamados “revisionistas”, aqueles que, sob o pretexto do rigor histórico, na verdade dão vazão a seu anti-semitismo. Ao discutir se o número verdadeiro de vítimas foi seis milhões, ou cinco milhões ou quatro milhões (um processo de regatear que, no passado era atribuído a comerciantes judeus) na verdade essas pessoas formulam um raciocícinio que pode ser assim resumido: o número de vítimas dos campos de concentração foi ampliado. Por quem? Pelos judeus. Por que? Porque eles são pérfidos mentirosos. Logo, mereciam o Holocausto. Que pode não ter existido, segundo o argumento, mas que deveria existir.


Mas existem outras questões, menos cínicas e mais perturbadoras. Uma pergunta que muitas vezes é feita (e Hannah Arendt provocou muita indignação ao fazê-la) é: por que os judeus se submeteram passivamente ao Holocausto? Por que se deixaram conduzir como ovelhas para o matadouro?

A resposta é complexa. Para começar, a submissão não foi a regra; numerosas rebeliões ocorreram, o levante do gueto de Varsóvia (1943) sendo o mais conhecido. De outra parte, os nazistas foram muito hábeis em enganar as pessoas: as câmaras de gás (cuja existência alguns chegam a negar) eram apresentadas como “medida higiênica”. O nazismo representava o poder estabelecido, a lei. Uma lei que os próprios nazistas tinham criado mas que, para um grupo marginalizado, era algo respeitável, temível. Depois, as medidas que levariam ao extermínio foram sendo estabelecidas gradualmente, com progressiva supressão da dignidade das pessoas e de sua própria condição humana. Por fim, e mais importante, a culpa ancestral minou qualquer possibilidade de resistência.

Um detalhe penoso nesta sombria história é de que, não raro, os que escaparam vivos sentiam-se culpados. É a culpa do sobrevivente, que se expressa por um monólogo acusador: eu deveria ter morrido com eles, eu deveria ter morrido no lugar deles, se não morri é porque sou tão mau, tão perverso, que consegui escapar. A sensação de não ter feito o suficiente para salvar vítimas agrava esta culpa, que pode acometer até mesmo aqueles que, num momento de tragédia como é um ato terrorista, são espectadores casuais.

A culpa do sobrevivente às vezes se externa pelo testemunho, como se vê em numerosos livros e documentários; mas isto não diminui a insuportável carga que representa. O suicídio pode ser, nestes casos, a derradeira solução para o tormento. Isto ocorreu com escritores e intelectuais que passaram por campo de concentração e sobreviveram, ou que conseguiram escapar dos nazistas: o escritor judeu-italiano Primo Levi (1919–1987) prisioneiro em Auschwitz; o poeta romeno Paul Celan (1920–1970), autor do dilacerante Todesfuge, que fala do “negro leite da morte”; o psicólogo austríaco Bruno Bettelheim (1903-1990), o já mencionado jornalista e escritor Arthur Koestler (1905-1983); o escritor austríaco Stefan Zweig (1881–1942), que, asilado no Brasil, suicidou-se com a esposa em Petrópolis, no Rio de Janeiro.

Estes exemplos não são obviamente, suficientes, para configurar uma regra, uma relação de causa e efeito. Mas sugerem alguma conexão, modulada, naturalmente, pelas características pessoais. A culpa não se restringe aos sobreviventes, mas pode se estender aos filhos deles, sobretudo àqueles que levam uma vida confortável, capaz de gerar neles o sentimento de culpa, agravado pelos próprios pais: “Você pensa que tem problemas? Isto é porque você não sabe o que é ter problemas.” Uma situação ainda mais complicada emerge quando os sobreviventes tinham uma família (cônjuge, filhos) chacinada no Holocausto. Quando voltam a casar, quando têm outros filhos, muitas vezes mantêm em segredo a existência da família anterior. E este segredo, se e quando revelado, resulta em trauma, e culpa, para o sobrevivente e para o novo grupo familiar.


Ou seja: o Holocausto continua repercutindo, provocando, através de gerações ondas de choque emocional. A esta altura, memória e História já se fundiram numa coisa só. O que torna o entendimento mais difícil. Porém mais necessário.

  • Esse texto é do escritor gaucho, recém falecido, Moacyr Scliar.
    Scliar continua a trabalhar com o tema da culpa, de forma muito mais elaborada, no livro Enigmas da Culpa, editado pela Objetiva em 2007, na “Coleção Filosófica”.

terça-feira, abril 05, 2011

Machado de Assis entre crimes e loucuras

Divido com vocês um bom ensaio de Daniel Piza,
sobre crimes, pecados e outras monstruosidades,
nos rastros da literatura de Machado de Assis.


Histórias de crime não são comuns em Machado de Assis (1839-1908), tanto que nenhum de seus três romances mais conhecidos – Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro – gira em torno de assassinato, roubo ou alguma contravenção tão crua. Mas sua literatura é tão rica de observações sobre os impulsos ingovernáveis de cada indivíduo em face das circunstâncias, como aqueles herdeiros escravocratas com seus delírios de grandeza (ou em alguns contos como A Cartomante, que termina com um homicídio), que os estudiosos seguem encontrando nela uma fonte sem fim – como agora o poeta Marco Lucchesi e o psiquiatra Daniel Martins de Barros.

O livro de Lucchesi, O Dom do Crime, é um breve romance, espécie de “divertissement” erudito. Ele não incorreu na vulgaridade de romancear a vida de Machado e misturá-la com algum crime de época, recurso hoje tão comum em candidatos a best-sellers que acreditam em fórmulas como a do thriller histórico. Fez um livro que dialoga em temas e estilo com a obra e a vida de Machado, mas o narrador é um contemporâneo de Machado, com traços semelhantes (as doenças, as leituras, o agnosticismo) e dessemelhantes (ele nunca se casou, por ser “impossível dormir duas vezes com a mesma mulher”, como atravessar duas vezes o mesmo rio).

Esse narrador tem uma tese a respeito de Machado: a de que Dom Casmurro foi inspirado no famoso crime da Rua dos Barbonos, de 6 de novembro de 1866, em que José Mariano da Silva matou a esposa, Helena Augusta, por suspeita de adultério. O escândalo repercutiu na cidade, em jornais como aquele em que Machado trabalhava, o Diário do Rio de Janeiro, e se somou a outros do mesmo feitio, naquele que seria o auge do Segundo Reinado. Não à toa, o júri foi “seguido na imprensa como um folhetim sedutor”. Mariano era um médico respeitado, que circulava com desenvoltura pela Corte; Helena, como tantas personagens de Machado, uma moça  de classe inferior, que ascendera com o casamento e fazia questão de ostentar isso em joias e vestidos.


Uma agregada, Leonor, foi quem fez o papel de Iago e plantou em Mariano a semente do ciúme: Helena viveria de conversas com o vizinho, Raimundo Martiniano, confirmadas pela escrava Espiridiana. Ao voltar de um baile e suspeitar da recente presença do “comborço”, do suposto amante, Mariano matou a mulher com um golpe de bisturi na jugular. No tribunal, o assassino confesso é defendido por um célebre advogado, Busch Varella, que alega privação da razão e culpa o vizinho sedutor. Não é difícil adivinhar a sentença – naqueles tempos de “honra” machista, como ainda agora neste Brasil…

O romance, bem escrito, numa costura de ações e reflexões pontuada por alguns achados estilísticos (“Grassava uma epidemia de crimes passionais dentro do frágil coração do Império”), envolve o leitor, deixando-o curioso tanto pelo relato do crime quanto pelos paralelos com Dom Casmurro. Mas não consegue em nenhum instante convencê-lo de que o clássico de 1899 é tão calcado assim no crime de 1866, até porque o que importa em Bentinho é sua covardia, o fato de não ter feito o que quis fazer (pensa em matar Capitu e desiste; pensa em matar o filho e desiste; pensa em se matar e desiste), não se ele tinha ou não provas definitivas a respeito da traição.

O livro de Martins de Barros, Machado de Assis: A Loucura e as Leis, escolhe outro caminho: é uma antologia de 12 contos do gênio comentados à luz da psiquiatria forense. Lá estão, naturalmente, O Alienista (“instrumentalização da psiquiatria em favor do establishment político-econômico”, por meio de “teorias pretensamente científicas”), O Espelho (em que a turvação de consciência do alferes Jacobina é equiparada a uma doença conhecida como Síndrome de Ganser) e A Causa Secreta (cujo sadismo mostra a “banalidade do mal”, na expressão posterior de Hannah Arendt), mas também textos menos conhecidos como A Ideia do Ezequiel Maia e Uma Partida.

“Lidar com a maldade pode ser um desafio maior do que a já complexa tarefa de lidar com o crime”, escreve Barros, depois de A Verba Testamentária, e lembra que “a imensa maioria dos delinquentes não apresenta qualquer diagnóstico médico e, ainda mais, a maioria esmagadora dos pacientes psiquiátricos não comete infrações”. No conto, a depressão de Nicolau é tratada como uma deficiência do baço, e sua internação tem apenas efeito paliativo. Mais uma vez, o que Machado diz, com atualidade impressionante, é que acreditar em remédios para os males da alma tem a mesma matriz da crença da religião em rezas para os males do corpo. Ou seja: a ilusão de que a natureza humana é indivisível e controlável.

terça-feira, março 22, 2011

A leitura lacaniana de "O visível e o invisível"



Prof(a). Dr. Marcos José Müller-Granzotto
E-mail: ..mjmuller@cfh.ufsc.br

Duração: 15 semanas - 4 créditos

Inicio do Curso: março 2011

Local: UFSC - CFH - sala 309

Horário de início: 13h30min


Título do curso: A leitura lacaniana de "O visível e o invisível".


Ementa:


No seminário XI (Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise), Jacques-Lacan interrompe a primeira sessão, dedicada a discutir a noção freudiana de pulsão, para tratar não mais dos conceitos fundamentais da psicanálise, mas do modo como Maurice Merleau-Ponty, na obra póstuma "O visível e o invisível", estabelece aquilo que Lacan denominou de uma diferença entre o olho e o olhar : mais além da visibilidade do mundo, no seio daquilo que emerge como horizonte de invisibilidade, um olhar vem me surpreender, denunciando minha própria vidência. Lacan – agora interessado em delimitar a gênese do sujeito da psicanálise (o sujeito do desejo) - reconheceu, na noção merleau-pontyana de olhar, uma possível indicação daquilo que Freud denominou de pulsão de morte, como se, para Merleau-Ponty, a divisão (Esquize) do Outro (como Invisível) vem denunciar minha própria castração e, por conseguinte, a causa do desejo (objeto a). Mas Lacan não tem certeza se, com a noção de “vidência”, Merleau-Ponty não recai novamente no imaginário platônico de um ultra-olhar, do qual cada corpo seria uma versão. Ora, como Lacan “leria” as mesmas passagens de Merleau-Ponty, agora do ponto de vista do sujeito do gozo, para quem a divisão do Outra já não importa mais? A dúvida se sustentaria? Ou seria letal para a nova mirada lacaniana? Para dar conta de cada uma destas questões, vamos recorrer aos textos em que Merleau-Ponty gesta seus conceitos, precisamente, os textos que tratam de construir uma ontologia a partir da obra de arte.


Sinopse:


“O que há então, não são coisas idênticas a elas mesmas que, em seguida, se ofereceriam ao vidente, e não é um vidente vazio antes de tudo que, em seguida, se ofereceria a elas, mas alguma coisa de que não poderíamos estar mais perto senão lhe apalpando com o olhar, porque o olhar mesmo as envolve, as veste com sua carne. De onde vem que, fazendo isto, ele as deixa em seu lugar, que a visão que nós as tornamos nos parecer vir delas” (MPonty, 1964, p.173).


Mas não é entre o visível e o invisível que nós temos que passar. A esquize que nos interessa não é a distância que se mantém entre o que existe de formas impostas pelo mundo e aquilo contara o que a intencionalidade da experiência fenomenológica nos dirige (...). O olhar só se apresente a nós sob a forma (...) da nossa experiência, a saber, a falta constitutiva da agonia da castração. O olho e o olhar, tal é para nós a esquize na qual se manifesta a pulsão no nível do campo escópico (Lacan, 1964, 69-70/72-73).



“De sorte que o vidente, estando preso no que vê, continua a ver-se a si mesmo: há um narcisismo fundamental de toda visão, daí por que, também ele sofre, por parte das coisas, a visão por ele exercida sobre elas; daí, como disseram muitos pintores, o sentir-me olhado pelas coisas, daí, minha atividade ser identicamente passividade – o que constitui o sentido segundo e mais profundo do narcisismo: não ver de fora, como os outros vêem, o contorno de um corpo habitado, mas sobretudo ser visto por ele, existir nele, emigrar para ele, ser seduzido, captado, alienado pelo fantasma, de sorte que vidente e visível se mutuem reciprocamente, e não mais se saiba quem vê e quem é visto. É a essa Visibilidade, a essa genreralidade do Sensível em si, a esse anonimato inato do Eu=-mesmo que há pouco chamávamos de carne, e sabemos que não há outro nome na filosofia ocidental para designá-lo “(Merleau-Ponty, 1964, 135.)

“Uma vez que vemos outros videntes, não temos apenas diante de nós o olhar sem pupila, espelho sem estanho das cosias, este pálido reflexo, fantasma de nós mesmos, que elas evocam ao designar um lugar entre elas de onde as vemos: doravante somos plenamente visíveis para nós mesmos, graças a outros olhos. Essa lacuna onde se encontram nossos olhos, nosso dorso, é de fato preenchido, mas preenchido por um visível de que não somos titulares; por certo, para acreditarmos numa visão que não é a nossa, para a levarmos em conta, é sempre, inevitável e unicamente, ao tesoura da nossa visão que recorremos e, portanto, tudo quanto a experiência nos pode ensinar já está, nela previamente esboçado. Mas é próprio do visível, dizíamos, ser a superfície de uma profundidade inesgotável; é o que torna possível sua abertura a oturas visões além da minha. (Merleau-Ponty, 19054, p. 139)




Programa

1. Lacan Leitor de Merleau-Ponty

2. Merleau-Ponty do ponto de vista do “sujeito do desejo”:

Tese A - Fazer-se objeto ante a divisão do Outro:? Carne como objeto a

Tese B - Fazer-se olho a partir da clarevidência alheia? Carne como chora

O veredicto da pintura

3. Merleau-Ponty do ponto de vista do “sujeito do gozo”:

Tese A – Narcisismo fundamental e gozo unário

Tese B – Narcismo fundamental e ambigüidade

O veredicto da literatura: descentramento e quiasma




Referências bibliográficas


FREUD, Sigmund. (1976) “Três ensaios sobre a sexualidade: _____. Edição Standard Brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Trad. Jayme Salomão, RJ: Imago. (Vol. XXII)

LACAN, Jacques. (1986) O seminário – livro 7. A ética da psicanálise. Versão de M. D. Magno – 2.ed. – RJ: Zahar.

_____. 1964. O seminário. Livro 11: os quatro conceitos fundamentais da

psicanálise. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Trad. M. D. Magno.

2.ed.Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

_____. 1969-70. O seminário. Livro 17. O avesso da psicanálise. Texto estabelecido por

Jacques-Alain Miller. Trad. M.D. Magno. Rio de Janeiro, Zahar.1998

_____. 1972. O seminário. Livro 20: mais, ainda. Texto estabelecido por Jacques-Alain

Miller. Trad. M.D. Magno. 2.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1985.

MILLER, Jacques-Alain (1994-5). Silet – Os paradoxos da pulsão, de Freud a Lacan. Trad. Celso Rennó Lima: texto estabelecido por Angelina Harari e Jésus Santiago – RJ: Jorge Zahar, 2005.

MERLEAU-PONTY, Maurice(1964a) . Le visible et l'invisible. - Paris: Gallimard.

_____. (1992) O visible e o invisível. Trad. J. A. Gianotti. SP: Perspectiva

_____ (1964b) . L'oeil et l’esprit. - Paris: Gallimard.

_____. (2004) O olho e o espírito. Trad. Paulo Neves e Maria Ermantina Galvão Gomes Pereira. SP: Cosac & Naify.

_____ (1969) . La Prose du monde. - Paris: Gallimard.

MÜLLER-GRANZOTTO, Marcos José. Outrem em Husserl e em Merleau-Ponty. In: BATTISTI, César (org). Às voltas com a questão do sujeito. Posições e perspectivas. Toledo, Unioeste, 2010.

SARTRE, Jean-Paul. (1943) Entre quatro paredes. SP: Abril Cultural e Industrial.

SHEPHERDSON, Charles. Uma libra de carne. Discurso, (36), 2006, pp.95-125.

SAFATLE, Vladimir. A teoria das pulsões como ontologia negativa. Discurso, (36), 2006, Pp.151-191.

SOLLER, Colette. (1977). O sujeito e o Outro I e II, in: FELDSTEIN, Richard, FINK, Bruce, JAANUS, Maire (orgs). Para Ler o Seminário 11. Trad. Dulce Duque Estrada. RJ: Jorge Zahar, 1977.

ZIZEK, Slavoj; DALY, Glyn.. Arriscar o impossível: Conversas com Zizek. Trad. Vera Ribeiro. SP: Martins Fontes, 2006.

sexta-feira, março 18, 2011

A pressa é inimiga do desejo

20, Maresfield Gardens
in Hampstead,
LONDON-UK

"Aquele que sabe esperar não precisa fazer concessões....."

Freud, in: Psicologia de Grupo e a Análise do Ego, 1921


quinta-feira, fevereiro 24, 2011

Texto da Primeira Aula


Medicina – Psiquiatria – Psicologia

Este texto se propõe a demarcar, em rápidas pinceladas, as diferenças e aproximações entre os discursos da Medicina, Psiquiatria e Psicologia. Não nos propomos fazer um estudo aprofundado da história e desenvolvimento desses saberes, mas, apenas, mostrar através dos marcos iniciais as particularidades dos campos constituídos.

A Medicina


Presume-se que desde que o homem existe, existem técnicas de combate à doença. Nos grupos sociais mais primitivos, o adoecer era considerado uma manifestação de forças sobrenaturais, e a cura buscada em rituais religiosos. Contra as doenças, frutos das forças do mal, lutavam os curandeiros, conhecedores dos rituais e das ervas medicinais. Intermediários entre os homens e as entidades superiores, os curandeiros tentavam neutralizar as forças malignas por meio da magia e de sua capacidade de evocar poderes divinos.


Paralelamente e essa perspectiva, foram surgindo, em diferentes culturas, concepções e procedimentos que buscavam uma sistematização para os eventos que estariam implicados no adoecer. A mudança progressiva da consciência do lugar ocupado pelo Homem na Natureza, simultaneamente à complexificação das organizações sociais, propiciou o surgimento da medicina enquanto prática autônoma, mesmo que ainda fortemente marcada por superstições e traços religiosos.

Na Grécia Antiga, mais do que em qualquer outra cultura que a precedeu, o indivíduo passou a ser reconhecido e valorizado em sua especificidade. Desenvolveu-se a sistematização e a reprodução do saber em espaços específicos: escolas políticas, filosóficas, científicas e mesmo religiosas. Essas tendências prepararam o caminho para a desvinculação da doença do pensamento religioso.

Nesse contexto aparece à figura de Hipócrates, responsável pelas profundas transformações introduzidas na compreensão da doença e seu tratamento. Nascido na ilha de Cos, por volta de 460 a.C., Hipócrates fundou um verdadeiro corpo de conhecimentos, inaugurando uma medicina naturalista, baseada em uma doutrina, metodologia e deontologia específica. 


Com o declínio de Atenas, no século III a.C., observou-se, também, o eclipse da medicina hipocrática, que só foi resgatada cinco séculos mais tarde por Galeno (131 – 201 d.C.), que traduziu para o latim a obra de Hipócrates.

Galeno nasceu em Pérgamo (na atual Turquia), quando esta era colônia romana e aí estudou Medicina e Filosofia. Foi médico de gladiadores em Roma, por volta de 161, onde atingiu uma posição conceituada, vindo a ser nomeado médico do filho do imperador Marco Aurélio.

Escreveu bastante sobre farmácia e medicamentos, ampliou, a partir da experimentação, os conhecimentos em anatomia e fisiologia. Seus relatos de anatomia eram baseados em macacos, visto que a dissecação humana não era permitida pela igreja. Ao mesmo tempo desenvolveu, tendo como base a teoria dos humores de Hipócrates, uma tipologia psicológica, que estaria relacionada com diferentes manifestações patológicas. Foi na forma do galenismo que a Medicina greco-romana passou para o Ocidente cristão, dominando a Medicina e a Farmácia até ao Século XVII e mantendo ainda uma grande influência mesmo no século XVIII.




A aplicação dos medicamentos na terapêutica galénica dependia de vários fatores, como a personalidade do doente, a sua idade, a raça e o clima, que afetavam a própria natureza da mistura dos humores no corpo humano. O temperamento das crianças seria mais sanguíneo e o dos idosos mais fleumático, pelo que os primeiros necessitariam de um medicamento frio em maior grau que os últimos para o tratamento de uma febre. Esta preocupação tinha principalmente a ver com o tipo de medicamento ministrado, com as suas propriedades (qualidades) e respectiva intensidade, na medida em que a dose não seria tão importante, dado que a propriedade do medicamento era um atributo essencialmente qualitativo e não quantitativo.




Com a captura de Roma pelos Visigodos em 410, a história da medicina bifurca-se, seguindo os destinos da divisão do Império Romano. Em Bizâncio – Império Romano do Oriente - os conhecimentos clássicos, inclusive da medicina, foram muito bem preservados, o que, séculos mais tarde, propiciou seu desenvolvimento e sua difusão por meio dos mouros.


Já na parte Ocidental do antigo Império, o conhecimento sistematizado, iniciado pelos gregos, ficou sujeito ao enclausuramento da igreja católica romana, que marcou o sistema feudal, ficando sua transmissão restrita aos copistas nos Monastérios. Com a expansão do catolicismo, na Europa Ocidental, o pensamento religioso passou a dominar as cenas social, filosófica e científica. A crença na imortalidade da alma e o desprezo pelo corpo levaram ao desaparecimento do exame clínico e de praticamente todos os conhecimentos médicos da Antiguidade.


Os séculos XV e XVI foram marcados pela abertura de novas rotas de comércio e pela intensificação do tráfego de indivíduos entre diferentes regiões, dentro da Europa e fora dela. Como consequência, desenvolveu-se uma nova concepção de Homem e novos ideais que promoveram a liberdade de pensamento, o espírito de investigação e o direito à crítica dos clássicos. Surge uma nova visão das letras, artes e ciências, que marcou também os rumos da medicina.


Nesse período, Paracelso (1493-1541) foi um representante exemplar das novas ideias que implodiam antigos mitos. Nascido na Suíça, educado na cultura clássica da Universidade, aperfeiçoou seus estudos de medicina em inúmeras viagens. Embora não tenha realizado nenhuma grande descoberta, seus trabalhos demarcam um novo tempo para a medicina Ocidental. Seu grande mérito foi ter defendido a importância da crítica dos conhecimentos estabelecidos e da valorização da própria experiência para que novos caminhos se abrissem para o desenvolvimento da medicina.

A Ciência




O século XVII foi o celeiro de uma evolução profunda, abrangente e diversificada na ciência. Até então, era nos pensadores do passado que se procuravam as respostas para os enigmas do vivido. As forças que regiam a investigação consistiam no dogma (na doutrina imposta pela Igreja), e na autoridade dos pensamentos constituídos. Neste novo século, outras forças ganham importância. O conhecimento extraído do passado tornara-se suspeito, dando lugar as descobertas e percepções que refletiam a mudança na natureza da investigação científica.


Neste cenário, duas figuras ganham destaque no campo da filosofia do conhecimento: O matemático francês René Descartes (1596-1650), e o filósofo inglês John Locke (1632-1704). Mas, assim como na filosofia clássica Aristóteles diferia de Platão, na filosofia moderna, Locke vai diferir de Descartes.


Descartes, no mesmo viés do platonismo, afasta a experiência sensível ou o conhecimento sensível do conhecimento verdadeiro, que é puramente intelectual. Enquanto Locke, assim como Aristóteles, considera que o conhecimento se realiza por graus contínuos, partindo da sensação até chegar às ideias.


Essas diferentes perspectivas estabelecem as duas grandes orientações da teoria do conhecimento, segundo Marilena Chaui: o racionalismo e o empirismo.

Para o racionalismo, a fonte do conhecimento verdadeiro é a razão operando por si mesma, sem o auxílio da experiência sensível e controlando a própria experiência sensível. Para o empirismo, a fonte de todo e qualquer conhecimento é a experiência sensível, responsável pelas ideias da razão e controlando o trabalho da própria razão. (Chaui, 2002)


No âmbito da medicina, a visão racionalista que propunha o fundamento racional de toda ciência, fundou a lógica científica: que podemos resumir como a tendência a priorizar a clareza e a distinção do corpo e de suas funções, valorizando seu substrato material em detrimento da experiência subjetiva.

No campo da psicologia, uma das mais importantes contribuições de Descartes foi a resignificação da teoria dualista. Desde a Grécia Clássica, a Filosofia sustentou que a mente e o corpo eram de natureza distintas. No entanto, a influência de uma sobre a outra era unilateral. A mente podia exercer um enorme efeito sobre o corpo, mas esse tinha escasso efeito sobre a mente. Descartes aceitou a posição dualista: mente e corpo eram diferentes. Entretanto, argumentava ele, o corpo pode exercer uma influência muito maior sobre a mente do que se supunha até então.




Assim, Descartes foi o primeiro a oferecer uma abordagem do problema mente-corpo que focalizou a atenção num dualismo físico-psicológico. Ao fazê-lo, desviou a atenção dos estudos da alma, em seu sentido abstrato, para o estudo da mente e das operações mentais que ela executa. Por consequência, os métodos de investigação mudaram da análise e dedução metafísica subjetiva para a observação e a experimentação objetiva.


Para Descartes, mente e corpo são duas substâncias distintas. Não existe semelhança qualitativa entre o corpo e a mente. A matéria e o corpo são res extensas - substâncias extensas – que operam segundo princípios mecânicos e podem ser explicadas em função desses princípios. A alma ou a mente são res cogitans - substâncias pensantes. Somos, portanto uma substância pensante (res cogito) e também uma substância que possui corpo, matéria (res extensa). Mas a mente e o corpo, embora totalmente separados e distintos, são capazes de interação. A mente pode influenciar o corpo e o corpo pode influenciar a mente; é a chamada teoria de interacionismo mente-corpo.


A mente imaterial, segundo Descartes, possui as capacidades de pensamento e de consciência; portanto, fornece-nos o conhecimento do mundo externo. Mas não possui qualquer das propriedades da matéria. A característica mais importante da mente é a sua capacidade para pensar; isto a separa do mundo físico da matéria.


Uma vez que a mente percebe e quer, ela deve de algum modo influenciar e ser influenciada pelo corpo. Descartes reconheceu que, quando a mente “decide” um movimento de um ponto para outro, por exemplo, essa decisão é executada pelos nervos e músculos do corpo. Do mesmo modo, quando o   corpo é estimulado de alguma forma, como pela luz ou o calor, a mente reconhece e interpreta esses dados sensoriais e toma uma decisão quanto à resposta mais apropriada.




A independência entre alma e corpo conduzirá a uma nova separação: sujeito e objeto. Com essa linha de raciocínio, Descartes desenvolveu a sua “física da fisiologia”. E a partir desse pré-suposto teórico a fisiologia passa a ter um amplo espaço no desenvolvimento das teorias psicológicas.


Psiquiatria


A psiquiatria moderna tem início com a revolução francesa, no século XVIII. Até esse século, a loucura passou por diferentes interpretações. Em alguns momentos foi interpretada como uma benção dos deuses, os loucos eram respeitados como verdadeiros sábios. Em outros momentos, na idade média por exemplo, a loucura foi considerada um castigo divino ou uma possessão maligna. Os loucos eram excluídos do convívio social ou queimados nas fogueiras, pela santa Inquisição.




Nos séculos XVI e XVII, sobre a influência do movimento Humanista, o tema da loucura é captado pela literatura em obras como o Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam; Hamlet e Rei Lear, de William Shakespeare, e Don Quixote, de Cervantes.

Mas o primeiro grande passo para o progresso científico da psiquiatria ocorreu no final do século seguinte, com os estudos do médico francês Philippe Pinel, que instituiu reformas humanitárias para o cuidado com os doentes mentais.

 A revolução de Pinel consistiu em ver o louco não mais como um insensato, cuja linguagem seria desprovida de sentido, mas como um alienado, um estranho a si mesmo. Não um animal enjaulado e despojado de sua humanidade, porque estivesse privado de qualquer razão, mas um ser humano reconhecido como tal. Derivado do alienismo, o modelo nosográfico, estabelecido por Pinel, organiza o psiquismo humano a partir de grandes estruturas significativas (psicose, neuroses, perversões, fobia, histeria...) que definem o princípio de uma norma e de uma patologia e delimitam as fronteiras entre a razão e a desrazão.




As vésperas da Revolução Francesa, Pinel reformou a clínica, mostrando que sempre subsiste no alienado um resto de razão que permite a relação terapêutica. Separada das outras formas de desrazão (vadiagem, mendicância, desvio), a loucura tornou-se uma doença. A partir daí, o louco pôde ser tratado com a ajuda de uma nosografia adequada e um tratamento apropriado. Criou-se para esses doentes o Manicômio – mais tarde o Hospital Psiquiátrico – a fim de afastá-los do Hospital Geral.


A primeira psiquiatria dinâmica associava um modelo nosográfico (psiquiatria) a um modelo psicoterápico (sugestão), que separava a loucura asilar (doenças da alma, psicose) da loucura comum (doença dos nervos, nevroses). Alguns anos depois, Jean Martin Charcot anexou a neurose (essa semi-loucura) ao modelo nosográfico, fazendo dela uma doença funcional.


Na primeira metade do século XX, diante do impulso da psicofarmacologia, a psiquiatria abandonou o modelo nosográfico em prol de uma classificação dos comportamentos. Em conseqüência disso, reduziu a psicoterapia a uma técnica de supressão dos sintomas.

Psicologia




Não vamos nos estender pela história da psicologia, já que ela é tema de uma disciplina específica dentro do currículo do curso. Nosso objetivo é trilhar um caminho que nos leve a compreender os marcos teóricos da psicologia e da psicanálise.


Na segunda metade do século XIX, dois professores, em duas diferentes faculdades da Alemanha, marcaram com seus discursos e seus experimentos o início da Psicologia: Wilhelm Wundt (1832-1920) e Franz Brentano (1838-1917).

Em seu livro, História da Psicologia Moderna, Duane e Sydney Schultz, dão a Wundt o lugar de fundador da psicologia como disciplina acadêmica formal. Para esses estudiosos, Wundt ganha uma dimensão muito mais abrangente do que a de Brentano na história da psicologia moderna. Não discordamos totalmente da pressuposição desses autores, mas como temos a psicanálise como objetivo dessa disciplina, nosso interesse pelo trabalho de Brentano ganha uma dimensão maior do que a sugerida por esses autores.




Conforme Schultz, Wundt instalou em Leipzing, por volta de 1881, o primeiro laboratório de psicologia experimental, lançou a primeira revista especializada e deu início à psicologia experimental como ciência. Tendo como objetos de suas pesquisas temas como sensação, percepção, atenção, sentimento, reação e associação.

Acreditava que as funções mentais mais simples, como a sensação e a percepção, deviam ser estudados por meio de métodos de laboratório. Mas, os processos mentais superiores, como a aprendizagem e a memória, não podiam ser investigados pela experimentação científica por serem condicionados pela língua e por outros aspectos culturais.




Em seus trabalhos de pesquisa, utilizava os métodos experimentais das ciências naturais, principalmente as técnicas empregadas pelos fisiologistas. Adaptou esses métodos científicos de investigação para a psicologia e prosseguiu na sua pesquisa do mesmo modo como os cientistas físicos se dedicavam ao objeto de estudo de sua própria área.


O grande objeto de pesquisa de Wundt foi a consciência. Descrevia a sua psicologia como a ciência da experiência consciente. E seu sistema de pesquisa estava, basicamente, circunscrito as ideias do empirismo e do associacionismo.


Por isso mesmo, para Wundt, as experiências básicas humanas, como a percepção da cor vermelha ou a sensação de desconforto provocada pela dor, formam os estados da consciência (os elementos mentais) organizados de forma ativa pela mente. Sua proposta consistia em analisar a mente com base nos seus elementos, nas partes componentes, exatamente do mesmo modo que os cientistas naturalistas trabalhavam para dividir o seu objeto de estudo.


Wundt praticamente não aceitava o tipo de introspecção qualitativa, em que as pessoas simplesmente descreviam suas experiências íntimas. A descrição introspectiva, que buscava, estava relacionada principalmente aos julgamentos conscientes sobre o tamanho, a intensidade, a duração de vários estímulos físicos, ou seja, o tipo de análise quantitativa da pesquisa psicofísica. Poucos estudos de seus laboratórios usaram relatos de natureza subjetiva ou qualitativa, como a percepção de prazer provocada por um estímulo, a intensidade de uma imagem ou a qualidade de uma sensação. A maioria das pesquisas consistia em mediações objetivas proporcionadas por equipamentos sofisticados de laboratório, muitas delas referentes a tempos de reação registrados quantitativamente.


Mais ou menos no mesmo período, Franz Brentano era indicado para ser professor de filosofia da Universidade de Viena. Precursor intelectual das escolas da psicologia da Gestalt e da psicologia humanista, Brentano foi descrito por seus alunos como um professor muito carismático. Ao longo de sua vida, influenciou um grande número de estudantes, muitos dos quais se tornaram importantes filósofos e psicólogos, como Edmund Husserl e Sigmund Freud.


Apesar de suas abordagens profundamente diversas, Brentano compartilhava com Wundt da meta de fazer da Psicologia uma ciência. Contudo, ao passo que a psicologia de Wundt era francamente experimental, a de Brentano era empírica. O método da Psicologia de Brentano era a observação, não a experimentação, embora não rejeitasse a utilidade do método experimental. A chamada Psicologia do Ato, proposta por Brentano, contrariava o ponto de vista wundtiano de que os processos psíquicos são conteúdos.

Brentano põe sob suspeita a tese empirista por reconhecer na autonomia das faculdades pré-mentais ou inferiores (como a sensibilidade), uma espécie de inteligibilidade própria capaz de determinar o curso dos juízos de vontade. (Muller-Granzotto, 2007)




Para ele, tal faculdade, além de autônoma, seria capaz de determinar o curso de nossas faculdades mentais superiores, inclusive a vontade. Contrapondo-se a ideia de que uma vontade orientada por fenômenos pré-mentais não revelaria mais que uma configuração patológica do psiquismo: uma deficiência de julgar, uma falta de juízo ou, simplesmente, de uma loucura. Brentano vai na contramão dessa tradição ao afirmar que as representações objetivas, produzidas por nossos juízos, estariam antecipadas por representantes que se constituiriam em um domínio pré-mental, como aquele que caracteriza nossa sensibilidade e nossa motricidade. Brentano chama tais representantes de fenômenos psíquicos, entendendo por isso totalidades de sentido pré-mental investidas da capacidade de antever, de maneira indeterminada, o objeto a ser representado por nossos juízos (produzidos por nossos atos mentais). Para ilustrar essa concepção com um exemplo, podemos dizer que: somos capazes de pressentir um perigo que nos ronda, ao transitarmos por uma rua qualquer, muito antes de nos apercebermos conscientemente de que a rua é sinistra ou de que há alguém nos perseguindo. Tal pressentimento é um fenômeno psíquico. A origem dos fenômenos psíquicos tem relação com a maneira como nossas vivências no tempo retornam na atualidade como indícios de um futuro possível, sem que um ato intelectual as tenha de reunir. Brentano denominou de intencionalidade essa capacidade de antevisão: intencionalidade essa que não tem relação com o uso comum que fazemos da palavra intenção.


A noção cotidiana de intencionalidade sempre implica a visão de um objeto já determinado nos termos de um juízo (portanto, de um objeto de conhecimento), que nós queremos alcançar ou realizar. Ao passo que a noção brentaniana de intencionalidade não implica a prévia concepção de algum objeto, apenas a antevisão de um objeto possível (que no caso do exemplo acima, se manifestou como um pressentimento do perigo e antes que esse pressentimento tivesse sido identificado ou representado nos termos de um juízo sobre o sentimento de medo).


Especulando sobre a origem dessas intenções, nos diz que os fenômenos psíquicos têm relação com o retorno, na atualidade da consciência psíquica, de espectros das experiências passadas que operam como indícios (representantes) de possíveis novos objetos da experiência, sem que estes tenham de ser postulados por um juízo. Freud denominou de pulsão o retorno dos representantes de uma experiência passada; e o efeito de antecipação que tal retorno gera na atualidade das vivências psíquicas. De onde inferiu a tese de que todo o funcionamento psíquico está fundado numa pulsão ou, em um representante de um objeto primordial, ao qual o psiquismo irá substituir fazendo um sintoma, ou irá alucinar na forma de gozo. (Muller-Granzotto,2007)

Maria Holthausen




Referências Bibliográficas


CHAUI, Marilena, Convite a Filosofia, São Paulo: Editora Ática, 2002.


MÜLLER-GRANZOTTO, Marcos José e Rosane, Fenomelogia e Gestalt-Terapia, São Paulo: Summus Editora, 2007.


ROUDINESCO, Elisabeth, Por que a psicanálise?, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2000.


SCHULTZ, Duane P. e SHULTZ, Sydney Ellen, História da Psicologia Moderna, São Paulo: Cengage Learning, 2011.


VOLICH, Rubens Marcelo, Psicossomática – Clínica Psicanalítica, São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000.

segunda-feira, fevereiro 07, 2011

LIVROS SOBRE A PRÁTICA CLÍNICA



Algumas leituras que ajudam a pensar a prática clínica.

==============================

  • Cartas a um jovem terapeuta
Reflexões para psicoterapeutas, aspirantes e curiosos.

Contardo Calligaris

Editora Campus

======================

  • Como trabalha um Psicanalista
J. D. Nasio

Jorge Zahar Editor

=====================
  • As 4 + 1 Condições de Análise
Antônio Quinet

Jorge Zahar Editor

=====================

  • A Sessão Analítica
Dos riscos éticos da clínica
Textos reunidos pela Fundação do Campo Freudiano

Jorge Zahar Editor

=======================

terça-feira, janeiro 04, 2011

APRENDENDO SOBRE BION


Franciele do Amaral Melo



Marli Pereira da Luz
Acadêmicas do Curso de Psicologia da UNIVESC




BREVE HISTÓRICO:



Wilfred Ruprecht Bion nasceu dia 8 de dezembro de 1897, em Mutra Punjab, Índia. Faleceu na Inglaterra em 1979. Alistou-se no exercito inglês por ocasião da primeira grande-guerra, onde permaneceu por dois anos recebendo altas condecorações. Durante a segunda guerra casou-se com a atriz Betty Jardine, que morreu quando a sua filha nasceu em 1945. Após o falecimento da esposa Bion se casou, pela segunda vez, com Francesca. Desta união nasceram dois filhos. Francesca influenciou sua carreira e lhe acompanhou até o fim de seus dias.

INICIO DA CARREIRA COMO PSICANALISTA

Em vários momentos de sua obra Bion foi influenciado pelos princípios filosóficos de Kant. Esses princípios se mostram, principalmente, nos conceitos de valorização da relação humana, ética, e a relação médico/paciente.



Bion se interessa pela psicanálise quando faz análise com Rickman, que foi analisando de Freud. Após fazer sua formação analítica com Melanie Klein, Bion se torna seu mais importante discípulo.



Nos anos 60, efetua uma revisão filosófica do texto freudiano fundamentando-a, ao mesmo tempo em Kant e Klein. Nesta revisão, divide o aparelho psíquico em duas funções mentais: Alfa e a Beta. Assim denominadas para evitar a acumulação de significados que um nome específico traria consigo.

Alfa é definida como investigação que se ocupa do pensar: do pensamento e da aprendizagem pela experiência emocional. Os elementos Alfa seriam os precursores da memória que teriam uma grande capacidade de articulação. Quando a função Alfa, entre a mãe e o bebê, fracassa, o aparelho psíquico não fabrica elementos Alfa. Não metabolizando as experiências emocionais.



Com esse fracasso, os elementos Betas que são os facilitadores da identificação projetiva, não produzem sonhos e não são transformados em elementos Alfa.



Mas suas reflexões não tiveram boa repercussão na Sociedade britânica. No ano de 1968, Bion juntamente com sua família foi se instalar na Califórnia.


TEORIAS DESENVOLVIDAS POR BION


Parte Psicótica da Personalidade 
Bion designa a PPP não como uma questão psiquiátrica, mas como um modo de funcionamento mental coexistente a outros tantos. Assim todo o paciente psicótico tem uma parte neurótica em sua personalidade, os neuróticos também têm uma parte psicótica oculta.

As características básicas que estão presentes na PPP são:

- Fortes pulsões destrutivas com predomínio da inveja e da voracidade.

- Baixa tolerância as frustrações, no lugar de modificá-las.

- As relações interpessoais mais intimas são caracterizadas pelo vinculo sadomasoquista.

- Uso excessivo de dissociações e identificações projetivas patológicas.

- Uso excessivo de projeções, sentimentos e pensamentos persecutórios.

- Grande ódio à realidade interna e externa, com preferência pelo mundo das ilusões.

- Ataque aos vínculos de percepção e aos de juízos críticos, resultando num prejuízo do pensamento verbal, da formação de símbolos e do uso da linguagem.

- A onipotência, a onisciência e a imitação substituem o processo de aprender com experiência. O orgulho dá lugar à arrogância, o desconhecimento leva á estupidez e a curiosidade se transforma em intrusividade.

- A pouca capacidade de descriminação leva a uma confusão entre o verdadeiro e o falso, tanto do próprio self como do que está fora.

- Fuga á verdade, prevalecendo à negação através de distorções. Camuflagens, omissões ou mentiras deliberadas.


A Teoria do Conhecimento

Bion em sua prática clínica chegou à conclusão de que os pensamentos não existem sem as emoções, e que é necessário que exista na mente uma função que construa o sentido das experiências emocionai. Essa função ele denominou de vinculo K: o conhecimento. Uma criança pode tanto aprender a tolerar como modificar a realidade com a atividade do pensar e do conhecer.

No que se refere ao vinculo mãe/bebê, Bion enfatiza a criação do vinculo primário que é a REBIERE materna.

No desenvolvimento do vínculo do conhecimento surgem três possibilidades:

1- Se a capacidade de RÊVERIE da mãe for adequada e suficiente, a criança terá condições de fazer uma aprendizagem com as experiências positivas e negativas vividas, impostas pelas privações e frustrações. A criança, nesse caso, desenvolve uma função K que possibilita enfrentar novos desafios em um círculo benéfico de aprender com a experiência, à medida que introjeta a função K da mãe.

2- Caso contrário, se a capacidade de RÊVERIE da mãe para conter a angústia da criança não for suficiente, as projeções que tenta depositar na mãe são obrigadas a retornar a ela sob a forma de um “terror sem nome”, o qual gera mais angústia e mais ódio.

3- No lugar de K forma-se um vínculo – K, ou um não K, que são os casos mais extremos em que a mãe externa não contém e não dá significado, sentido e nome às identificações projetivas do bebê.

É importante salientar que a função K não se refere somente à posse de um conhecimento ou saber, mas sim a um enfrentamento do “não saber”. Assim, o saber será o resultado da tarefa do descobrimento e do aprendizado com as experiências da vida: as boas e as más.

A função do conhecimento está intimamente ligada à da formação de símbolos, sendo esses que permitem uma evolução da criança à condição de poder conceituar, generalizar e abstrair, expandindo o seu pensar e o seu conhecer.

Para Bion, uma teoria é um produto de um processo de pensar e, simultaneamente, é uma pré-concepção que espera realizações que se aproximem dela. A pré-concepção é análoga ao pensamento vazio kantiano. A concepção é a junção de uma pré-concepção com uma realização e o pensamento surge da união de uma pré-concepção com uma frustração. Os conceitos têm nome, são concepções ou pensamentos firmados.


Memória e Desejo 
Bion trás a sua conhecida proposta de “sem memória sem desejo” ancorada em vários pressupostos. Diz que como registradora dos fatos acontecidos, a memória pode ser enganadora, pois é distorcida pela influência de forças inconscientes e os desejos interferem na operação do julgar, pela ausência de mente onde ao mais importante é a observação, já que os desejos distorcem o julgamento suprimindo o material a ser julgado.


Para Bion a sessão de psicanálise não deve ter historia nem futuro, a única importância para ele na sessão é o desconhecido. Ainda trás como sugestão para o psicanalista que não traga a memória às questões abordadas nas sessões anteriores priorizando uma melhor concentração do que esta acontecendo na sessão corrente.

Em relação ao desejo Bion, diz que o psicanalista não deve apresentar desejo de fim da terapia, da semana ou do ano, assim como desejos de resultados, de “cura” ou mesmo de compreensão.

Agindo desta forma o psicanalista terá no inicio muita ansiedade, mas que com o passar do tempo adquirirá a certeza de que cada sessão se completa por si própria.

Bion em sua visão de tratamento pontua que não se deve polemizar com o paciente e nem contrapor a sua verdade com a do analista e sim abrir novos caminhos para visualizar um fato em comum, porque através disso ele possibilita o paciente a refletir.

Com relação ao setting analítico, ele nos dá a entender que não se refere somente a horários, espaço físico e honorário, mas a um “campo analítico”, onde analista e paciente vão interagir, influenciando e sendo influenciado um pelo outro. Podendo assim a encontrar novas soluções.

Bion atribui importância relevante a dor psíquica, pois através do fato de sentir dor e, é necessário sofrê-la, poderá crescer com a experiência. Todo processo de mudança de um individuo no processo de análise, sempre virá acompanhada de dor e sofrimento, sendo que o mesmo pode fugir da dor ou enfentá-la, sendo que este ultimo caminho é o que trás a transformação.

Para Bion um paciente está em condições de terminar sua análise quando adquiriu uma função psicanalítica, ou seja, longe fisicamente de seu analista consegue dialogar com suas diversas “partes”. Segundo a psicanálise não deveria ficar só nos consultórios, pois é uma prática de vida. Por isso que não existe uma crise da psicanálise, pois a função analítica é inerente ao ser humano e enquanto existir o homem existirá a psicanálise.


REFERENCIAS



Instituto WILFRED BION, fundado em 1992
Formação em Psicoterapia Psicanalista.
Jardim Botânico. Porto Alegre.

CONTARDO CALLIGARIS

A língua que habito. O psicanalista e escritor italiano Contardo Calligaris fala (ao Jornal Rascunho) sobre sua relação com a...