terça-feira, setembro 27, 2011

ENTREVISTA



O professor de Ética e Filosofia Política da USP, Renato Janine Ribeiro, fala da postura do brasileiro diante da ética e também do perigoso preconceito que existe em relação à política no país

Certo e errado. Conceitos antagônicos que se colocam como dois pontos ligados por uma reta: o homem. Em entrevista exclusiva à Revista E, o professor da USP, fala, que participou do Seminário Internacional Ética e Cultura, realizado em outubro no Sesc Vila Mariana, analisa que, sobretudo no mundo de hoje, essas noções não devem iludir como se fossem coisas claras. Há muitos outros pontos ao longo dessa reta.


Há uma interpretação errada da obra de Maquiavel? Qual o conceito de ética presente nos textos do florentino?
Durante muito tempo, Maquiavel foi considerado um autor maldito. O século 20 conheceu uma recuperação da sua obra por alguns motivos. Um deles é o recrudescimento do nosso interesse pela política. A leitura dos textos de Maquiavel nos leva a perceber que ele não defendia a tese de que os fins justificam os meios e de que o mal deve ser praticado para conseguir um fim egoísta. Ele se mostra preocupado com o fato de que na política não existem regras fixas; governar, isto é, tomar a iniciativa política, é um trabalho extremamente criativo e, por isso mesmo, sem parâmetros anteriores. Assim, essa preocupação do filósofo, por curioso que pareça, torna-se um bom instrumento para repensar a ética. Para falar de ética, também é necessária uma alusão a Max Weber e sua teoria das duas éticas. Weber, depois da Primeira Guerra Mundial, distingue a ética de princípios, em que se aplicam valores já estabelecidos, da ética da responsabilidade, que é a ética do estadista. Esta modalidade aponta para a necessidade de pensar nos resultados possíveis de uma determinada ação. De modo geral, a ética da responsabilidade é uma retomada de Maquiavel; ela representa a interferência da po-lítica na ética. Agora, o fato interessante é que nós, quando agimos, lançamos mão de um misto das duas éticas. De alguma forma, há alguns valores e princípios dos quais não abrimos mão. Por outro lado, ninguém deixa de levar em conta as conseqüências de seus atos. Isso nada mais é do que a aplicação da ética da responsabilidade. Então, o ponto interessante de Maquiavel e da questão ética está na maneira como nós a enxergamos sob a luz da política. E hoje, com o fim das garantias tradicionais para a ação do indivíduo privado, estamos todos mais ou menos na posição do príncipe de Maquiavel - isto é, num mundo de incertezas, dentro do qual temos de inventar a melhor posição.

O que devemos entender por ética?
A ética diz respeito à conduta humana dividida entre o Bem e o Mal. Mas é muito complicado aplicar esse discurso em uma época em que os valores não são mais absolutos. Não posso dizer que o homossexualismo é errado. Não posso nem dizer que, em princípio, o adultério é errado. Todas essas condutas foram relativizadas. É por isso que se torna essencial mostrar às pessoas como é importante que elas enunciem seus próprios valores, e não apenas sigam valores impostos por outrem. É preciso que as pessoas descubram seus próprios valores e sejam coerentes com eles. Elas devem pensar, também, quais seriam os resultados, para elas e para a sociedade, de uma escolha. O meu problema tem sido contestar uma ética do certo ou do errado. Uma ética assim acaba isentando a pessoa da dor e da dificuldade de escolher. Isso é muito comum. De modo geral, grande parte das pessoas que discutem ética no Brasil exalta a reclamação, a indignação, a crítica, mas não no sentido de definir uma alternativa viável por meio de um pacto da sociedade e da política. Temos que ir além dessa indignação fácil. É preciso estabelecer quais são os valores éticos que as pessoas estão prontas a assumir. O que não podemos fazer em termos éticos é dispensar as pessoas de suas próprias escolhas.
Como a referência à ética de princípio e à ética de responsabilidade se aplica ao Brasil?
No Brasil, há uma tendência muito forte de pensar que o político não é um indivíduo ético. Isso significa dizer que ele é alguém que até pode seguir alguns preceitos morais, mas que quando precisa escolher entre esses valores e o bolso, entre esses valores e o poder, geralmente opta pelo próprio interesse. O que quero dizer é que o preconceito contra a política que vigora no Brasil é extremamente danoso, porque construímos uma imagem de nós que ao mesmo tempo em que se mostra muito moralizada, encontra muita dificuldade de lidar com a vida real; construímos uma espécie de esquizofrenia do brasileiro. De um lado, o discurso que proferimos se apresenta como um discurso altamente ético e moralizante, mas, de outro lado, a prática - de todos nós, não só dos políticos - é um Deus nos acuda. Esse quadro é particularmente agudo na política. Achamos que a política deveria ser pautada pela ética, por isso insistimos em nos atermos a grandes princípios, mas no momento de executá-los, falhamos.

O que significa, então, agir politicamente?
Significa você ser responsável pelas suas decisões. Antes de entregar um pacote pronto, definindo o que é certo e o que é errado, seria necessário perguntar qual é a maneira correta de agir. Um Código de Ética é uma expressão contraditória, pois ética e lei são coisas diferentes, e até mesmo opostas. Se existe um código com regras de conduta pré-definidas, segui-lo ou não independe da pessoa aceitá-lo como certo e justo. O que importa para a sociedade é que ela cumpra a lei, não as razões que a levam a isso. Esse é o caso do trânsito: serei ético se parar no vermelho e se ceder a vez por convicção, e não por medo da lei. Mas, para as demais pessoas, não é importante se faço isso por razões éticas ou por medo da multa. Assim, se temos um pacote pronto (um Código de Ética), as pessoas tendem a não refletir sobre as suas próprias ações. Quem pode ser ético é o sujeito que pratica o ato, e não o ato em si.
Se o governante se pauta pelos resultados e escolhe sozinho os caminhos a serem seguidos, quais são os parâmetros que limitam sua ação?
O governante tem mais responsabilidade pelos resultados dos seus atos do que os outros cidadãos. Quando queremos condenar um político, cominamos sua culpa não pelos eventuais fracassos das suas escolhas políticas, mas pela sua corrupção. Esse julgamento é equivocado. O governante, de qualquer forma, será julgado pelos resultados dos seus atos. Se o presidente da República melhorar o nível de vida dos brasileiros e reduzir a diferença social, terá cumprido sua missão com sucesso. Agora, sobre a maneira como ele atingirá esse objetivo, paira uma fronteira nebulosa. É difícil dizer que a ação política deve seguir os Dez Mandamentos. Claro, é desejável que siga. Mas não é uma atitude que deve ser perseguida a todo o custo. Há tratados e regras eventualmente desobedecidos porque o governante lida com situações sem ter qualquer proteção. Eu, como cidadão, quando tomo decisões, posso ter uma proteção. Em uma sociedade organizada (que não é o caso do Brasil), sei que se eu trabalhar, for honesto e respeitar as leis, terei segurança, saúde, respeito e educação. E sei também que se não seguir esses princípios não alcançarei essas benesses. No entanto, essa é uma condição para os cidadãos e não para o governante. O governante vive uma situação de risco, de alto risco. A imposição da ética privada ao governante é complicada. Mas essa é a teoria, digamos, clássica, a leitura convencional de Maquiavel. Eu vou além e acredito que essa ética aplicada ao governante, ou seja, que implica riscos, também vale para nós, cidadãos comuns. Ainda mais em um país como o Brasil, onde mesmo que eu siga a ética dos Dez Mandamentos, não terei a certeza de que tudo correrá bem. É nesse sentido que a ética de responsabilidade, que a princípio seria prerrogativa do estadista, transfere-se para os cidadãos. Essa é uma das grandes mudanças do final do século 20. No fim das contas, reduz-se a distinção entre as duas éticas - pública e privada.
Seria necessário, então, construir um novo arcabouço de valores e princípios?
A principal referência é a responsabilização das pessoas, cuja base prescritiva tem de ser assumida pela própria pessoa. Tudo isso passa por um processo educativo. É claro que deve ser ensinado para as crianças que elas não podem fazer determinadas coisas. Tal ação tem de vir escudada no princípio da reciprocidade, que diz que eu não posso fazer algo a outras pessoas que não quero que façam comigo. Não defendo a total ausência de normas. Mas há uma dose enorme de prescrições inúteis. Vivemos num sistema pendular, entre o excesso de proibições e o excesso de permissividade, que é justamente fruto da nossa dificuldade de perceber que a ética, em última análise, significa responsabilidade pessoal. Como nós não assumimos isso e nos pautamos em regras prontas, não conseguimos entender que, mesmo que eu apreenda uma regra que venha de fora, ela só terá validade quando eu assumir sua autoria, por meio de um processo de questionamento. Em contato com uma prescrição emprestada, a primeira coisa que devo fazer é perguntar por que apreendê-la. Muito da moral sexual tem a ver com isso. Existe um mal-estar em relação ao sexo ainda muito presente na sociedade brasileira. Esse estado é proveniente desse grande sentimento de culpa. Eu pergunto: que mal faz para a sociedade uma conduta sexual considerada pouco ortodoxa? Qual o problema? O outro lado da mesma moeda é que acabamos sendo muito complacentes com deslizes morais de outra natureza, como a corrupção e a infração à lei.
Qual é o limite da ética do governante?
A ética do governante é, hoje, a ética de quase todos nós. A situação em que se encontra o governante, uma situação que não lhe garante o resultado das ações, é a situação de todos nós. Como não há mais garantias sobre o resultado, devemos escolher os governantes considerando os resultados, mais do que considerávamos no passado. A intenção não é uma garantia do caráter ético de uma ação. Até porque, desde as teorias de Freud, sabemos que a intenção consciente significa uma coisa, enquanto o desejo inconsciente significa outra bem diferente. Muitas vezes, o discurso mais moralista esconde uma agressividade extraordinária. Assim, devemos pensar numa ética em que a questão da intenção perca a importância. Mas há outro ponto: a exigência ética sobre o governante, ao contrário do que se imagina, não é pequena. O governante pode agir corretamente e ser condenado se ele não atingir resultados convincentes e se não cuidar da sua imagem. O governante tem prescrições a seguir. O problema é que temos uma imagem falsa disso. Uma imagem que resulta do tempo em que se censurava a imprensa, em que o governante não prestava contas para a sociedade. Hoje, existe uma série de preceitos que ele deve obedecer.

Tendo em vista o princípio da responsabilidade, quais são as diferenças entre a ética desenvolvida no período da ditadura e a de hoje, quando vivemos, em tese, a democracia?
Durante a ditadura não havia reciprocidade: havia o lado que podia tudo e o lado que não podia nada. Havia, em suma, uma desigualdade brutal. Não havia transparência: as questões eram decididas sem que a opinião pública soubesse o que se passava. Em um regime democrático, mesmo com todas as limitações que o nosso apresenta, existe a responsabilidade do mandatário que passa pela transparência, pelo crivo da opinião pública, pela prestação de contas e pela reciprocidade.
Como o senhor define política e quais seriam os instrumentos de crítica a um governante?
Política, para mim, não está ligada à polis, à cidade, à organização das instituições, como estava na tradição da teoria política, mas está ligada ao poder, no sentido de ser a maneira como cada um de nós pega os fios descosturados da sua vida e tenta ser senhor deles. Então, na hora em que eu me torno adulto, isto é, no momento em que decido ser senhor do meu destino, enfrentando todas as adversidades, é que eu faço política. Por isso eu digo: política é poder. Política é deixar de ser um joguete passivo daquilo que me formou e me tornar mais ou menos um cidadão ativo da minha vida, um condottiere do meu destino. Serei o estadista do meu futuro. Dessa forma, todos nós fazemos política, mas isso é uma coisa difícil de ser feita, e grande parte das pessoas mostra-se incapaz de conduzir. Para me tornar senhor desses fios - para tornar os meus valores coerentes - preciso, porém, abrir mão de muitas coisas. A crítica à ação política tem a ver com a definição do futuro. É preciso analisar qual futuro o governante está urdindo para a sociedade. Qual é o seu projeto? Há êxito? E depois, como se confrontam esse projeto e o meu projeto pessoal. Mas é claro que se deve partir do pressuposto de que tais projetos sejam claros e legítimos, o que não ocorre no Brasil. Aqui, muitas vezes, esses projetos, sobretudo os da direita, são desonestos. Além do mais, faz muito mal à política brasileira que durante a campanha eleitoral nós nos deparemos com atitudes maniqueístas: ora a direita representa o mal e eu voto na esquerda, ora acontece o contrário.

FONTE:renatojenani.pro.br/



sábado, setembro 10, 2011

CONVITE


Acontece nessa quinta-feira, 15 de setembro, às 19 horas, no Restaurante Toda Hora, o lançamento do livro "corpoalíngua: performance e esquizoanálise", de Clarissa Alcantara.



Teatro, filosofia, literatura, psicanálise tornaram-se campos intercessores e emergentes a uma prática artística inaugurada em 1988 que se executa, hoje, como uma vivência performática no campo da arte da performance – objeto de pesquisa de mestrado, doutorado e pós-doutorado com o título corpoemaprocesso/ teatrodesessência. A natureza processual dessa experiência de pesquisa produz esse continuum com limites móveis e sempre deslocados. O presente projeto dirige-se ao estudo aprofundado do pensamento de Gilles Deleuze e Félix Guattari, cercando, principalmente, a idéia de corpo sem órgãos, termo apropriado de Antonin Artaud, e de esquizoanálise – análise simultânea das máquinas desejantes e dos seus investimentos sociais – inserida como parte operacional do fazer artístico. Estas noções transitam na práxis-teórica da experiência performática do teatro desessência: experiência do puro vivido que inscreve o corpo numa lógica das multiplicidades, fusão de relações em constante variação no exercício do viver em intensidade. “CORPOALÍNGUA: performance e esquizoanálise” é um experimento performático do aqui-agora, de onde o corpo nasce do esquecimento. No espaço, um corpoescritura inscreve uma fala subterrânea e rizomática, impelindo a linguagem ao seu ponto de suspensão, ao desconhecido – o fora da linguagem. No enlace e desenlace da língua e do desejo, balbucia alíngua no imanente ato criador, pensamento da carne em pleno acontecimento artístico coletivo.



Graduada em Filosofia pela Universidade Federal de Pelotas (1997), Mestrado e Doutorado em Literatura pela Universidade Federal de Santa Catarina (1999-2005), orientação de Alckmar Luis dos Santos; Stage Doctorat - Universite de Paris VII - Universite Denis Diderot (2004), com Christophe Bident, Pós-doutorado pela UFSC (NUPILL), Teoria do Texto Digital (2006) com auxilio do CNPq e Capes; Pós-Doutorado em Psicologia Clínica/PUC-SP, especialidade Teatro, Núcleo de Estudos da Subjetividade, supervisão de Peter Pál Pelbart, com auxílio da FAPESP; Pós- Graduação Lato Sensu Análise Institucional, Esquizoanálise, Esquizodrama: Clínica de Indivíduos. Grupos, Organizações e Redes Sociais, pela Fundação Gregorio Baremblitt, Belo Horizonte / MG. Atua na área de Filosofia, Teatro, Literatura e Esquizoanálise, com ênfase em Arte da Performance e Vídeo-performance com a pesquisa: Teatro Desessência / Corpoemaprocesso. Coordenadora do Núcleo Permanente de Pesquisa e Performance (N3Ps), em Casa Branca, Brumadinho/MG, onde reside.



Clarissa Alcantara estará em Florianópolis especialmente para o lançamento do livro.

Maiores informações: 31-91180863 - alcantara.clarissa@gmail.com



Restaurante TODA HORA
Rua: Dib Mussi, 443
Centro - Florianópolis-SC
Fone: 3024 0010

quarta-feira, agosto 31, 2011

Artigo

DRÁCULA VIAJANTE: QUESTÕES DE GEOGRAFIA E FRONTEIRAS



Sérgio Luiz Prado Bellei



Resumo
A ênfase dominante da crítica psicanalítica no problema da sexualidade no Dracula, de Bram Stoker, tende a ocultar a relevância de outros aspectos do romance, como é o caso das questões relativas a viagens e fronteiras. Este ensaio tenta chamar a atenção para as referências constantes, no romance, aos problemas relativos ao cruzamento de fronteiras entre culturas civilizadas e primitivas. Dracula pode também ser entendido como um romance que trata dos sentimentos xenófobos motivados pela possibilidade de um encontro cultural no qual comunidades metropolitanas se sentem ameaçadas por forças alienígenas poderosas e se vêem forçadas a recorrer ao exercício violento do poder com o objetivo de manter o bárbaro do lado de fora dos muros.



Abstract

The overwhelming emphasis of psychoanalytic critics on the question of sexuality in Bram Stoker's Dracula tends to occlude the significance of other aspects of the novel, such as the question of travelling and frontiers. This essay is an attempt to call attention to the constant references made in the novel to the problems involved in crossing frontiers from a civilized to a primitive culture. Dracula can also be read as a novel dealing with xenophobic feelings motivated by the possibility of a cultural encounter in which metropolitan communities feel threatened by powerful alien forces and must therefore appeal to a violent exercise of power with the purpose of keeping the barbarian outside the gates.

I. DRÁCULA E A PSICANÁLISE



A marcante presença da temática da sexualidade monstruosa no Dracula, de Bram Stoker, relega normalmente a um segundo ou terceiro planos outros problemas propostos pelo romance que podem, particularmente em tempos xenófobos de diásporas e migrações, ser tão ou mais significativos do que a questão sexual. É este o caso do tratamento do tema das viagens em que tanto o conde quanto suas vítimas e seus algozes cruzam fronteiras entre uma Europa civilizada e uma outra, representada pela Transilvânia e percebida como primitiva, subdesenvolvida e ameaçadora. Talvez seja mesmo possível dizer que a sexualidade monstruosa do vampiro, apesar de sua excessiva visibilidade no romance, seja na realidade um tema secundário a ser compreendido precisamente no contexto mais amplo da questão das viagens e da geografia em que elas ocorrem. Vale dizer, a sexualidade monstruosa de Drácula só se torna um problema quando ousa instalar-se na metrópole londrina. Permanecesse ela na Transilvânia e, provavelmente, sequer seria notada a não ser como um excesso exótico e distante.

Drácula representa uma poderosa identidade monstruosa a ser negada a todo custo porque constitui uma ameaça ao mundo civilizado (representado pela metrópole londrina) onde o vampiro tenta se instalar. Seu objetivo é sugar o sangue de jovens mulheres inglesas, o que resulta na disseminação do terror em um mundo masculino aparentemente pouco seguro em seu relacionamento com o feminino. E representa ainda uma ameaça dirigida em grande parte contra os valores da domesticidade já que, a julgar pelo que acontece com Lucy, as mulheres atacadas pelo vampiro tem a sua sexualidade exarcebada e, esquecidas de sua função maternal de amamentar e proteger, começam a atacar e a sugar o sangue de crianças inocentes. Vale dizer, Drácula constitui uma ameaça à família em sua dimensão social e sexual... Qualquer mulher jovem pode tornar-se sua vítima. A totalidade da instituição doméstica na sociedade é assim colocada em questão pela ameaça da proliferação de uma sexualidade monstruosa que, curiosamente, apresenta-se como surgida em um contexto histórico aristocrático, ainda que se trate de uma aristocracia problemática porque fora de lugar: o vampiro é um nobre que pertence à família de um sanguinário tirano da Transilvânia no período de 1456 a 1462, Vlad Tepes, conhecido particularmente pelo seu método favorito de torturar inimigos transpassando-os ainda vivos com estacas que eram posteriormente fixadas ao solo (Kirtley 1988, 13-14). É esse o Drácula (que significa "demônio" em rumeno) que Bram Stoker reativa no final do século XIX para apresentá-lo como parte de uma história de barbárie a ser diligentemente excluída da história da civilização.

A questão da sexualidade no romance (o interesse do idoso Drácula em mulheres jovens que restauram seu vigor e juventude) tem seu contexto histórico imediato na Era Vitoriana inglesa mas continua a despertar interesse até nossos dias. Novas edições do clássico de Bram Stoker esgotam-se recentemente e versões fílmicas do romance continuam a aparecer. É justamente esse contexto histórico de fin-de-siécle vitoriano, bem como o interesse permanente despertado pelo tema, que se apresentam de imediato como fontes motivadoras de leituras psicanalíticas e históricas do romance. Leituras psicanalíticas afirmam, com unanimidade quase total, que o vampirismo constitui a expressão mais ou menos velada de uma vigorosa energia sexual e lembram freqüentemente a relevância, para a compreensão da figura paterna no conde Drácula, do tratamento do incesto como origem da civilização explorado por Freud em Totem e Taboo. Para Freud, a instituição do horror cultural ao incesto constitui o ato primordial motivador da civilização e de seus descontentes. O incesto aparece na horde primitiva, em que a atividade sexual era livre, inclusive entre pais e filhas, com a finalidade de estabelecer uma regra sobre quais homens tem direito a quais mulheres e quais mulheres são proibidas... Após o parricídio primordial, a instituição do incesto impediria que apenas o macho mais poderoso da tribo, provavelmente o patriarca e pai de varios filhos e filhas, reservasse para si todas as mulheres, tornando difícil ou impossível aos mais jovens copular. Torna-se assim necessário, em primeiro lugar, a destruição do patriarca e a sua subsequente devoração, o que permitiria aos mais jovens adquirir "uma parte de sua força" em um ato que se ritualizaria, com o passar do tempo e sem o sacrifício real do pai, no "banquete totêmico". Para Freud, o banquete é possivelmente a celebração primordial da humanidade, [constituindo] a repetição e a comemoração daquele feito criminal memorável que está na origem de tantas coisas - da organização social, das restrições morais, e da religião (Freud 1953, 141-142). Em segundo lugar, torna-se ainda imperativo, após o parricídio, tomar providências para que ninguém venha a assumir o lugar do pai possuidor de todas as mulheres, evitando-se assim a repetição da estrutura patriarcal de exclusão. Aparece então o contrato social e familiar que estabelece quais mulheres são proibidas e quais permitidas. Note-se que, como lembra James Twitchell,

Freud não acreditava, e nem precisava acreditar, que a cena da horde primordial realmente tivesse acontecido, já que o que importa realmente é que nós continuamos a agir como se a cena tivesse ocorrido.... Agimos na crença de que certas mulheres são realmente proibidas; como se fosse nosso ainda o destino de Édipo no caso do taboo ser desrespeitado (Twitchell 1985 101).

As semelhanças do Dracula de Bram Stoker com a história primordial de horror freudiana são evidentes: Dracula é o patriarca da horda primordial que quer todas as mulheres para si e tenta submeter à sua vontade os homens menos poderosos no grupo social. Vossas jovens mulheres, aquelas que amais, diz Dracula após ter atacado Lucy e Mina, já são minhas; e através delas também vós, e outros mais, serão também meus -- minhas criaturas, para obedecer meu comando e operar como meus lacaios quando eu tiver o desejo de me alimentar (Stoker 1975 271). E Quincey Morris, Dr. Seward, Jonathan Harker e Arthur Godalming são os filhos parricidas ajudados por um "bom" pai (ou seja, o que respeita a lei da proibição de relações incestuosas) que vem do continente precisamente para orientá-los na caça ao "mau" pai fora de controle.

Não é difícil perceber, em uma leitura histórica, a pertinência e a força que adquire a repetição de tal mito primordial de um patriarca sexualmente poderoso e ameaçador para homens emasculados no contexto sócio-cultural da Era Vitoriana. Um dos aspectos marcantes do período é a incerteza que resulta em grande parte do dilaceramento radical entre tendências opostas como religião e ciência, sexualidade e repressão, civilização e barbárie, mulher angelical assexuada e a "nova mulher liberada" ("the new woman"), e que afeta com particular intensidade a classe dominante masculina. Não é por acaso que um outro clássico de terror, Dr. Jeckyll e Mr. Hyde (O Médico e O Monstro), texto que trata precisamente do problema de um ser dividido entre sua condição social de respeitabilidade e forças instintivas fora de controle, torna-se logo após sua publicação um sucesso literário e popular. Ao dramatizar tal dilaceramento, como bem observou o romancista John Fowles, o livro de R. L. Stevenson pode bem ser visto como "o guia por excelência da Era Vitoriana":

O fato de o homem vitoriano ter a mente dividida... é algo que constitui parte essencial da bagagem de qualquer viajante que pretenda explorar o século XIX. Trata-se de uma esquizofrenia que pode ser percebida de forma mais clara e visível nos poetas... Tennyson, Clough, Arnold, Hardy; mas também na extraordinária flutuação política entre Direita e Esquerda presente em homems como o jovem Mill e Gladstone; nas mesmas e constantes neuroses e desordens psicosomáticas de intelectuais em outros aspectos tão diversos como Charles Kingsley and Darwin...; no interminável cabo-de-guerra entre liberdade e e repressão, excesso e moderação, costumes e convicções pessoais, entre os anseios que tinham os homens de princípio pela educação universal e o medo do voto democrático; visível ainda na tendência obsessiva para revisar e editar a ponto de tornar-se necessário, para o conhecimento do verdadeiro Mill ou do verdadeiro Hardy, procurar informações antes nas mudanças e exclusões textuais de suas autobiografias do que nas versões oficiais publicadas.... Nunca foram tão confusas as experiências relatadas, nunca a fachada pública apresentada como verdade com tanto sucesso para uma posteridade crédula. E é isto, creio eu, que torna Dr. Jeckyll and Mr. hyde o guia por excelência da época. Subjacente a este gótico tardio encontra-se uma profunda e reveladora verdade ( Fowles 1969, 169).

Um mundo masculino tornado inseguro por tal dilaceramento cultural não poderia deixar de ser perturbado e ameaçado pelo aparecimento da "nova mulher", em tudo oposta pelos seus excessos à tradicional e confortante moderação característica da mulher passiva, angelical e asexuada. Um jornal da época publica a seguinte descrição da "nova mulher", apresentando-a em uma perspectiva claramente pouco louvável:

Tarefas domésticas ela rejeita porque acredita serem humilhantes para uma mulher instruída, despreza o respeito próprio ao marido como um sinal de submissão a um inferior, não gosta de crianças porque atrapalham e incomodam, vê o amor como uma ilusão própria de lunáticos e idotas. O que ela quer é a liberdade de fazer o que bem entende.... Embora não faça nada que seja imoral, insiste em mostrar que faria se quisesse.... Cuida bem de nervos e músculos, joga cricket e golfe, pratica remo, ciclismo e caça.... Veria como ridícula a idéia de que apenas um homem, seu marido, poderia apreciar sua graça e beleza... Ainda solteira, já conhece em detalhes todos of horríveis vícios das grandes cidades... [e sabe mais] sobre outros lugares do que sobre o próprio lar e coisas domésticas, mais sobre qualquer outra virtude que sobre o respeito pela autoridade, e sobre aquela atenção ao dever, moderação nos costumes, e aquela doce, paciente e e tranqüila abnegação que costumava ser a marca característica do sexo. Seus dois únicos objetivos são ter tanta agitação quanto possível, quaisquer que sejam os meios, e assemelhar-se tanto quanto possível a um homem. (In Wolf 1975, 90-91).

É óbvio que uma tal mulher liberada, particularmente em sua sexualidade, hesitaria menos do que a mulher tradicional à potente sexualidade de Drácula, gerando assim maior insegurança no mundo masculino. Em Dracula, Lucy Westenra está mais próxima da "nova mulher" do que Mina, e representa portanto uma ameaça a ser contida. Mina Murray assemelha-se em parte à nova mulher mas não chega a apresentar uma ameaça ao mundo masculino porque, ao lado de uma inteligência prática que é capaz prestar valioso auxílio ao grupo dos caçadores do vampiro ao descobrir, por meio de um preciso raciocínio dedutivo, a rota de fuga de Drácula, preserva também valores de uma domesticidade idealizada e assexuada. Mina, na caracterização precisa de Van Helsing, tem o cérebro de um homem.... e o coração de uma mulher (Stoker 1975, 209). É a partir dessa situação basicamente doméstica e domesticada que Mina expressa claramente reservas a respeito de um excesso de liberdade no relacionamento entre os sexos. Retirando-se para o quarto para descansar após uma caminhada em companhia de Lucy, esta logo adormece e é observada por Mina. Seus comentários sobre o que é próprio ou impróprio no comportamento da mulher cortejada são reveladores. Admirando a graça de Lucy em seu sono, Mina imagina que, se Lucy tinha sido capaz de despertar a paixão de Holmwood quando este a viu no lugar apropriado, ou seja, no espaço público e bem comportado da sala de visitas, despertaria paixões ainda maiores se fosse vista no espaço proibido do quarto. E continua:

algum dia, as novas mulheres escritoras lançarão uma proposta para que seja permido a homens e mulheres verem-se uns aos outros no sono mesmo antes de se tornarem comprometidos por um pedido oficial e pela aceitação. Mas é bem possível que, no futuro, a nova mulher não se conforme em aceitar: ela mesmo se encarregará de fazer o pedido (Stoker 1975, 91; os grifos são meus).

É esse conservadorismo básico de valores em Mina que permite ao mundo masculino resgatá-la da influência perniciosa de Drácula e idealizá-la como mulher, mãe e esposa exemplares. Mina, como diz Van Helsing, é uma das excelentes mulheres que ainda restam e que conseguem tornar possível a felicidade na vida -- excelentes mulheres cujas vidas e cujos valores podem ainda servir de exemplo para as gerações do futuro. (Stoker 1975, 168). Lucy, por outro lado, uma vez contaminada por Drácula, adquire aquela sexualidade exarcebada que o imaginário vitoriano percebia como incompatível com a domesticidade feminina que ia, aos poucos, sendo colocado em questão pela "nova mulher".

Mina e Lucy podem bem representar, portanto, os dois tipos femininos com os quais homem da época vitoriana tinha que conviver. Vale dizer, representam modelos de mulher a serem aceitos ou rejeitados em termos da maior ou menor ameaça a uma sexualidade culturalmente percebida como prerrogativa do masculino. Como observa Carol Senf, é bem possível ... que Stoker esteja conscientemente colocando em contraste [no romance] a nova mulher liberada sexualmente [Lucy após ser atacada por Drácula] com a mulher mais claramente tradicional [Mina] (Senf: 1982, 46). Se este for o caso, a ameaça representada pela mulher liberada acaba por justificar uma violência destruidora superior àquela reservada ao próprio Drácula. Enquanto no caso do vampiro bastam dois golpes de faca para a destruição do monstro, a destruição de Lucy ocorre com surpreendente violência: seu corpo é penetrado por uma estaca de aproximadamente um metro e seu noivo, que realiza a operação, é comparado em sua força agressiva à figura de Thor... (Stoker 1975, 194).

2. SOBRE VIAGENS, GEOGRAFIA E BIBLIOTECAS

Apesar da inegável e indispensável pertinência das leituras históricas e psicanalíticas, são ambas frequentemente marcadas por uma certa ênfase na função do monstruoso enquanto discurso imaginário cujo objetivo é afirmar o normativo e o aceitável, e isso principalmente em termos sexuais, pela demarcação de seus limites. O que tende a ser reprimido em tais leituras é, em primeiro lutar, tudo aquilo que, no texto, não cabe na categoria da sexualidade e, em segundo lugar, a presença ambivalente do monstro enquanto criatura de fronteira que tanto afirma quanto questiona a norma. A ênfase no sexual reprime, por assim dizer, a questão da geografia e das viagens, representadas no romance tanto no enredo como nas detalhadas descrições da biblioteca do conde. Quando visita o castelo de Drácula, por exemplo, Jonathan Harker apresenta uma detalhada descrição geográfica e cultural da Transilvânia. Harker viaja não apenas como o representante legal de um estabelecimento londrino interessado em vender propriedades à Drácula, mas também como turista e professor de inglês encarregado de dar aulas particulares ao conde. Como turista curioso e viajante experiente que tenta preparar o terreno para o encontro comercial com Drácula, Jonathan informa-se sobre a terra a ser visitada antes mesmo de iniciar a viagem: visita o Museu Britânico e lá coleta livros e mapas... relativos à Transilvânia. Com a ajuda prévia de tais livros e mapas, familiariza-se aos poucos com uma nova geografia necessariamente constituída como primitiva, selvagem e exótica a partir da fronteira civilizada do império britânico

Descobri, diz Jonathan, que o distrito por ele [Drácula] nomeado encontra-se no extremo leste do país, nas fronteiras de três estados, a Transilvânia, a Moldavia, e a Bucovina, bem no meio das montanhas carpacianas; uma das mais primitivas e menos conhecidas partes da Europa. Trata-se de lugar habitado por descendentes de Saxões, Dácios e Magiares, estes últimos afirmando pertender à mesma raça de Átila, o bárbaro rei dos Hunos. (Stoker 1975, 3)

O mapa assim constituído em seus aspectos mais genéricos é enriquecido com detalhes observados durante a viagem até o castelo do vampiro: a comida típica da qual o visitante pretende obter a receita; as mulheres, atraentes quando vistas de longe mas não tão atraentes quando olhadas de perto; os estranhos e pitorescos eslovacos, mais primitivos do que todos os outros; os trens, tanto menos pontuais quanto mais se avança para o leste (Stoker 1975, 4-5) A experiência do viajante metropolitano, preparada de antemão e confirmada durante a viagem, configura-se assim em termos da aventura de ir além dos limites do civilizado para negociar com o que se poderia caracterizar como a elite dominante de um país subdesenvolvido, exótico e, pelo menos em princípio, comercialmente interessante.

A experiência de Jonathan como viajante metropolitano representa um curioso contraste com a experiência de Drácula em sua viagem, também previamente planejada, do mundo primitivo para o civilizado. Embora localizado nas margens da civilização, o castelo do vampiro possui uma biblioteca que, apesar de insignificante quando comparada ao Museu Britânico, possui significativa variedade de livros metropolitanos. O conde Drácula não deixa, nesse contexto, de revelar uma certa semelhança com o intelectual do Terceiro Mundo, sempre bem informado sobre a metrópole, apesar de nem sempre tão bem informado sobre os seu próprio contexto cultural.

Encontrei na biblioteca, diz Jonathan, um grande número de livros ingleses, estantes inteiras repletas deles, e volumes encadernados de revistas e periódicos. Em uma mesa no centro estavam espalhados revisas e periódicos ingleses, muito embora nenhum deles de data muito recente. Os livros eram de tipos variados -- história, geografia, política, economia política, botânica, geologia, direito -- todos referentes à Inglaterra e à vida, costumes e hábitos ingleses. Havia até mesmo livros de referência como o Diretório Londrino, o Livro Vermelho e o Livro Azul [volumes incluindo listas de servidores do estado e informações relativas ao parlamento, respectivamente], o Almanaque "Whitaker", a Listagem do Exército e da Marinha e -- o que me agradou sobremaneira -- a Listagem do Direito Civil (Stoker 1975, 23)

Embora nem sempre atualizada, a biblioteca do vampiro não deixa de surpreender. É que Drácula necessita alimentar-se também do sangue cultural inglês como preparação para a conquista do lugar metropolitano intensamente desejado.

"Lendo estes livros", diz o vampiro a Jonathan, aprendi sobre a vossa grande nação; e aprender sobre ela significa a ela apegar-se. O meu desejo é caminhar no meio da multidão das avenidas londrinas, estar no meio do tumulto e da correria dos homens, participar da sua vida, suas mudanças, sua morte, e de tudo o que a faz com que ela [a vida londrina] seja o que é (Stoker 1975, 23).

Drácula age aqui como o ser de fronteira, inseguro em sua identidade porque excluído da vida metropolitana e dela querendo fazer parte porque, como qualquer colonizado, percebe-a como superior e mais prestigiosa. Na verdade, provavelmente como resultado de sua origem nobre, Dracula quer mais do que simplesmente fazer parte da vida metropolitana. Porque pertence a uma elite, muito embora se trate de uma elite ligada a uma história de barbárie, o vampiro quer não apenas viver na metrópole, mas também nela ocupar o lugar de mando ao qual julga ter direito em sua condição de membro da classe nobre de seu país. Aqui [na Transilvânia], diz o conde, sou um nobre; um boyar ["membro da nobreza"]; as pessoas do povo me conhecem, e sou o senhor (Stoker 1975, 23) E é com o objetivo de obter um lugar dominante na metrópole que Drácula precisa submeter-se a rigoroso aprendizado de língua e cultura. Não basta, como explica o conde a Jonathan, aprender a linguagem apenas com a ajuda de livros porque com eles se conseguiria apenas a gramática e o vocabulário, desprovidos da pronúncia correta e natural. Vale dizer, o vampiro quer eliminar o sotaque que o tornaria vulnerável como estrangeiro e o marcaria como inferior.

Qualquer um, diz o conde, reconheceria em mim um estranho, o que não é de forma nenhuma satisfatório.... Não aceitarei nada memos do que ser como todos os outros, para que ninguém tenha sua atenção voltada para mim, e interrompa suas palavras ao me ouvir para dizer `Ah, um estrangeiro!


Jonathan deve, portanto, prestar seus serviços não apenas como corretor de imóveis, mas também como professor de inglês: ficarás aqui como meu hóspede por algum tempo e, em nossas conversas, espero aprender a falar sem sotaque; o que quero é que me informes cada vez que eu cometer um erro de pronúncia, por menor que seja. (Stoker 1975, 23-24)

Embora o texto nada explique sobre o resultado das aulas particulares, o mais provável é que elas tenham tido sucesso, já que, na metrópole londrina, o vampiro atrai atenção não pelo uso da linguagem, mas por outras peculiaridades alimentares e comportamentais, ou ainda pela aparência inusitada. Seja como for, a ênfase na questão de fronteiras internacionais e culturais no início do romance aponta para as limitações de uma leitura psicanalítica em que o vampiro é percebido como uma espécie de outro sexual apenas. As leituras (menos freqüentes) de cunho marxista, por outro lado, tendem a corrigir tais limitações mas acabam por incorrer no equívoco de perceber no texto mais ideologia marxista do que ele pode suportar. Burton Hatlen, por exemplo, reconhece que nenhum leitor moderno pode ignorar as implicações sexuais presentes em Dracula, mas acrescenta logo que o texto ultrapassa os limites da sexualidade. Para Hatlen, Dracula representa formas múltiplas de alteridade, entre elas a alteridade sexual enquanto aquele desejo inconsciente, perverso e inaceitável para qualquer estrutura social e, em particular, para a sociedade vitoriana inglesa. Mas Drácula é ainda um outro cultural, ou seja, um descendente de uma época histórica dominada pela superstição, quando se acreditava que a hóstia sagrada do catolicismo era realmente o corpo de Cristo. E é também e principalmente o outro social, ou seja, a representação de todas as forças sociais que pairavam ameaçadoras do outro lado das fronteiras da experiência vitoriana e burguesa. O vampiro é, portanto, simultaneamente o reprimido e o oprimido: o reprimido psíquico e o oprimido social (Hatlen 1980, 84, 82). O reconhecimento do vampiro enquanto o outro social oprimido, contudo, leva Hatlen à sugestão problemática e pouco convincente de que Drácula, claramente apresentado no texto como membro de uma certa aristocracia, pode ser visto como emblemático de uma força social proletária, ameaçadora, repugnante e devassa que agride a respeitabilidade da elite privilegiada vitoriana. (Hatlen 1980, 92).

Apesar das dificuldades que se apresentam na tentativa de especificar excessivamente o outro social no vampiro, a percepção marxista de uma alteridade mais genérica que a sexual em Drácula é inegavelmente certeira. O monstro, como se viu, representa também, apesar de seu poder econômico, um imigrante indesejável e perigoso vindo de uma nação selvagem e primitiva que tenta instruir-se na língua e cultura da nação civilizada para nela entrar como senhor e com direito de explorar os seus recursos disponíveis, particularmente os femininos. A aquisição dos códigos lingüísticos e culturais, contudo, não são suficientes para a entrada no mundo civilizado, e o vampiro deve aceitar a condição de um ser de fronteira (e de identidade problemática) condenado a duas situações pouco satisfatórias: relacionar-se com a metrópole vicariamente apenas, lendo os livros de sua biblioteca particular, ou então ser destruído. Em Dracula, a destruição é levada a cabo por cinco representantes do mundo civilizado que, auxiliados por Mina, constituem o que um crítico chamou de "O Grupo dos Iluminados" ("The Crew of Light") ( Craft 1984, 107-133). O grupo, que constitui uma verdadeira aliança internacional (três ingleses, um americano, e um alemão), compartilha certos ideais comuns apesar da diversidade de interesses e nacionalidades. Lord Arthur Godalming é um aristocrata inglês que não vê dificuldades em aliar-se a profissionais de uma outra classe, a da alta burguesia inglesa, representada pelo advogado, Jonathan Harker, e pelo médico especialista em doenças mentais, Dr. Seward. São membros representantes do que se poderia chamar a elite dirigente da Inglaterra vitoriana, dedicados à preservação tanto dos valores civilizados da ciência, da tecnologia e da cultura, como da mulher angelical representada por Mina Harker e pela Lucy Westenra anterior ao ataque do vampiro. Os outros membros do grupo, apesar das diferentes nacionalidades, partilham com os ingleses a mesma crença nos valores da civilização e da tecnologia, contribuindo para sua manutenção e expansão através de seus conhecimentos técnicos: Quincey Morris, americano do Texas, destaca-se no grupo pela apreciação de armas como a moderna "winchester", e o alemão Van Helsing, além de médico, é um profundo conhecedor de vampiros em sua história, hábitos e vulnerabilidade.

A caça ao vampiro pelo Grupo dos Iluminados apresenta-se assim como uma cruzada em defesa da civilização e do bem contra as forças da barbárie e do mal. É preciso, a todo custo, não deixar o migrante perverso cruzar a fronteira. O objetivo explícito da caça e destruição do vampiro é resgatar Mina Harker da influência de Drácula, já que tal influência poderia permanecer ativa mesmo à distância e condenaria Mina à mesma violência de que Lucy fora anteriormente vítima. Mas como Lucy Westenra ("a luz do oeste") e Mina Harker representam, em sua suavidade e luz (Hatlen 1980, 83), os valores ideais de uma sociedade civilizada, o que está implícito no romance é a necessidade da destruição do Vampiro porque este ousou cruzar a fronteira que separa a Transilvânia da metrópole londrina na tentativa de constituir, nesta última, uma nova identidade com direitos de senhor, particularmente sobre as jovens mulheres. A temática da geografia e da fronteira, como se sugeriu antes, sobrepõe-se à da sexualidade. Questionado por Mina sobre a necessidade de prosseguir na perseguição do Vampiro após sua fuga de Londres, Van Helsing lembra que o conde, apesar de seu dotado apenas com o cérebro infantil (child brain) de um criminoso, é poderoso e persistente e pode tentar novamente cruzar fronteiras. A persistência do conde, insiste didaticamente o médico vampirólogo, tinha já se tornado evidente no cuidadoso planejamento para a invasão de Londres.

Com o seu cérebro infantil, diz Van Helsing, ...acalentou desde longa data a idéia de estabelecer-se em uma grande cidade. O que faz? Encontra o lugar do mundo que lhe é mais promissor. Prepara-se então deliberadamente para sua tarefa.... Estuda novos idiomas. Aprende um novo comportamento social; ... o sistema político, legal, financeiro, científico, os costumes da nova terra e de seu povo.

E essa persistência e sistematicidade podem ameaçar novamente não apenas o império inglês, mas também outras partes civilizadas do mundo, razão por que torna-se necessário o esforço conjunto do Grupo dos Iluminados com o objetivo de assegurar a liberdade no mundo (Stoker 1975, 282). Entenda-se aqui por "mundo" o mundo civilizado, do qual não faz parte a Transilvânia.

3. A ARBITRARIEDADE DAS FRONTEIRAS E O FALSO DUALISMO DO DENTRO E DO FORA

O sucesso da caça ao conde Drácula acaba por despojar este último até mesmo da problemática identidade que possuía antes da decisão de cruzar a fronteira. Essa identidade problemática pode ser pensada em termos daquela vampiresca alteridade que jamais consegue perceber seu reflexo no espelho e que é devidamente registrada por Jonathan Harker em sua visita ao castelo de Drácula. Barbeando-se em frente a um espelho após a primeira noite no castelo, Jonathan surpreende-se ao sentir um toque no ombro, logo seguido pela saudação matinal do conde. O que é estranho para o jovem advogado é que, muito embora o espelho torne possível a visão refletida de todo o aposento, o reflexo do conde não aparece. Vale dizer, olhando para o espelho, Jonathan vê apenas o reflexo de si mesmo e do quarto, mas não o do monstro que também está presente. A impossibilidade de Drácula ter sua imagem refletida no espelho faz parte, evidentemente, do discurso folclórico que estabelece essa peculiaridade como característica do vampiro: sendo apenas um cadáver ambulante (freqüentemente designado no romance como un-dead, ou seja, o não-vivo), o vampiro não possui a força viva da alma que, na mitologia tradicional sobre o espelho, é justamente o que aparece como imagem refletida. Mas em um romance em que a figura do vampiro é constantemente marcada por uma situação de ser de fronteira e de identidade problemática, o episódio do espelho comporta pelo menos dois outros significados. Em primeiro lugar, ao negar-se a apresentar a imagem do que existe, o espelho revela em seu silêncio a identidade paradoxal de alguém que ao mesmo tempo é, porque age no mundo, e não é, porque jamais se percebe existente na imagem especular confirmadora da presença. Em segundo lugar, essa identidade do não-vivo e do não-ser não aparece no espelho porque sofre um curioso deslocamento em que a imagem daquele que olha e tem imagem (Jonathan) ocupa o lugar da imagem do outro ao mesmo tempo presente (fora do espelho) e ausente (no espelho). Ao olhar para onde o monstro deveria estar, Jonathan encontra-se a si mesmo, o que sugere que o humano e humanitário advogado londrino ocupa o lugar do monstruoso e, em certa medida, identifica-se com ele. O humano e o monstruoso tornam-se aqui inseparáveis e apontam para a ambivalência do projeto civilizatório do Grupo dos Iluminados. O que o projeto precisa assinalar com a destruição do monstro é a marcação de fronteiras capaz de assegurar a diferença absoluta entre o normal e o anormal, o selvagem e o civilizado, o humano e o monstruoso, o sexo aceitável e o inaceitável. No entanto, como a crítica do romance tem mostrado insistentemente, essa separação radical é ilusória. A monstruosidade do outro está sempre mais próxima do que se pensa porque nunca existe separadamente do humano. Ou, melhor dizendo, a caça ao monstro além das fronteiras da civilização é sempre, em certa medida, inútil, porque o monstruoso habita desde sempre o lado de cá da fronteira.

Jonathan Harker, por exemplo, no citadíssimo episódio do encontro com as mulheres-vampiro no castelo de Drácula, expressa simultaneamente desejo e rejeição quando em confronto com a sexualidade monstruosa que quase chega a experimentar. Diante da proximidade dessas mulheres de lábios cheios de volúpia, Jonathan sente ao mesmo tempo um desejo e um temor profundo... [e] uma vontade de ser beijado por aqueles lábios vermelhos. E para que não reste dúvida de que se trata de um desejo sexual proibido, o texto acrescenta logo a sugestão das complicações que ocorreriam se Mina, a futura esposa, viesse a saber do ocorrido: não é uma boa idéia tomar nota [no diário] do fato [o quase contato sexual com a mulher vampiro], já que o diário poderia algum dia ser lido por Mina; mas [a realidade do desejo] é a pura verdade (Stoker 1975, 39). E a peculiaridade que tem os vampiros de não entrar em lugares para os quais não são convidados sugere que as mulheres que dele se tornam vítimas não são apenas objetos passivos de um desejo monstruoso. São antes cúmplices que procuram, particularmente na era vitoriana, e ainda que inconscientemente, a satisfação da sexualidade reprimida e desejada. Como sugere George Stade, é bem possível que, para a mulher vitoriana, o beijo de Drácula seja um beliscão bem no lugar onde ela sente seus pruridos ( Stade 1981, vii). Mas é possivelmente no célebre episódio da transfusão de sangue para salvar Lucy que a inseparabilidade entre o monstruoso e o humano aparece de forma mais reveladora. Enfraquecida pela perda de sangue após os ataques de Drácula, Lucy recebe transfusões de sangue não apenas de seu noivo, Lord Godalming, mas também de Quincey Morris, Dr. Seward, e do próprio Van Helsing. Lucy transforma-se, em outras palavras, em um verdadeiro vaso condutor em que o sangue bombeado de um lado esvai-se de outro. O episódio é justamente celebrado pela crítica psicanalítica, já que o sangue pode bem ser uma metáfora para o sêmen. Mas trata-se também de um episódio em que o vampiro se mostra literalmente ligado por laços de sangue aos membros do Grupo dos Iluminados. Em todos os casos, as ações transgressoras do vampiro são justamente aquelas que o humano deseja praticar ou experimentar e que tenta, desesperadamente e sem sucesso, reprimir e destruir. O vampiro pratica aquelas ações (sociais, sexuais ou culturais) que o civilizado, homem e mulher, desejam praticar mas não podem. Dracula, como observa certeiramente Burton Hatlen, trata fundamentalmente do nosso desejo (`nosso' significando aqui pertencente à classe média branca) de sujeição (`sujeição' tendo aqui o sentido masoquista explícito característico da pornografia) ao... marginal `negro' e `mal-cheiroso'. (Hatlen 1980, 95). E é porque o vampiro pratica abertamente o desejado e o proibido e a transgressão de fronteiras, funcionando assim ao mesmo tempo como crítica e legitimação da norma e do limite entre o dentro e o fora, que seu destino é ser permanentemente condenado à problemática condição identitária daquele que, habitando sempre os limites do humano, ao mesmo tempo existe e não existe.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CRAFT, Christopher. "`Kiss me with Those Red Lips': Genre and Inversion in Bram Stoker's Dracula". Representations (Fall 1984).


FOWLES, John. The French Lieutenant's Woman... Boston: Little & Brown, 1975.


FREUD, Sigmund. Totem and Taboo. London: Hogart, 1953.


HATLEN, Burton. "The Return of the Repressed/Oppressed in Bram Stoker's Dracula." In. Dracula: The Vampire and the Critics. Ed. Margaret Carter. Ann Arbor and London: UMI Research Press, 1988.


KIRTLEY, Bacil F. "Dracula, the Monastic Chronicles and Slavic Folklore". In Dracula: The Vampire and the Critics, ed. Margaret L. Carter. London: UMI Research Press, 1988.


SENF, Carol A. "Dracula: Stoker's Response to the New Woman". Victorian Studies 26 (1982).


STADE, George. "Introduction". In STOKER, Bram. Dracula... New York: Bantam, 1981.


STOKER, Bram. Dracula. Ed. Leonard Wolf. New York: Clarkson N. Potter, Inc., 1975.


TWITCHEL, James B. Dreadful Pleasures: An Anatomy of Modern Horror. Oxford: Oxford University Press, 1985.


WOLF, Leonard, ed. The Annotated Dracula... New York: Clarkson N. Potter, Inc., 1975.




quinta-feira, agosto 11, 2011

Isto é Filosofia




"Onde houver uma contradição, faça uma redescrição! Mude a perspectiva de observação, troque as premissas dos raciocínios, explicite os acordos tácitos que fundam as conclusões consensuais e, por fim, submeta sua opinião à dos outros. No mínimo, o que parece sem sentido ganha um novo sentido; no máximo, recuperamos o tônus da vontade de sentir, pensar, julgar e agir em liberdade."

Bergson

quarta-feira, julho 27, 2011

Meu irmão Kierkegaard













Texto do professor  Luiz Felipe Pondé para Folha de São Paulo – 13/07/2011



Quando você estiver lendo esta coluna, estarei em Copenhague, Dinamarca, terra do filósofo Soren Kierkegaard (1813-1855), pai do existencialismo. Ao falarmos em existencialismo, pensamos em gente como Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, Albert Camus, tomando vinho em Paris, dizendo que a vida não tem sentido, fumando cigarros Gitanes.



O ancestral é Pascal, francês do século 17, para quem a alma vive numa luta entre o "ennui" (angústia, tédio) e o "divertissement" (divertimento, distração, este, um termo kierkegaardiano).


O filósofo dinamarquês afirma que nós somos "feitos de angústia" devido ao nada que nos constitui e à liberdade infinita que nos assusta.



A ideia é que a existência precede a essência, ou seja, tudo o que constitui nossa vida em termos de significado (a essência) é precedido pelo fato que existimos sem nenhum sentido a priori.



Como as pedras, existimos apenas. A diferença é que vivemos essa falta de sentido como "condenação à liberdade", justamente por sabermos que somos um nada que fala. A liberdade está enraizada tanto na indiferença da pedra, que nos banha a todos, quanto no infinito do nosso espírito diante de um Deus que não precisa de nós.



O filósofo alemão Kant (século 18) se encantava com o fato da existência de duas leis. A primeira, da mecânica newtoniana, por manter os corpos celestes em ordem no universo, e a segunda, a lei moral (para Kant, a moral é passível de ser justificada pela razão), por manter a ordem entre os seres humanos.

Eu, que sou uma alma mais sombria e mais cética, me encanto mais com outras duas "leis": o nada que nos constitui (na tradição do filósofo dinamarquês) e o amor de que somos capazes.

Somos um nada que ama.



A filosofia da existência é uma educação pela angústia. Uma vez que paramos de mentir sobre nosso vazio e encontramos nossa "verdade", ainda que dolorosa, nos abrimos para uma existência autêntica.


Deste "solo da existência" (o nada), tal como afirma o dinamarquês em seu livro "A Repetição", é possível brotar o verdadeiro amor, algo diferente da mera banalidade.

É conhecida sua teoria dos três estágios como modos de enfrentamento desta experiência do nada. O primeiro, o estético, é quando fugimos do nada buscando sensações de prazer. Fracassamos. O segundo, o ético, quando fugimos nos alienando na certeza de uma vida "correta" (pura hipocrisia). Fracassamos. O terceiro, o religioso, quando "saltamos na fé", sem garantias de salvação. Mas existe também o "abismo do amor".

Sua filosofia do amor é menos conhecida do que sua filosofia da angústia e do desespero, mas nem por isso é menos contundente.

Seu livro "As Obras do Amor, Algumas Considerações Cristãs em Forma de Discursos" (ed. Vozes), traduzido pelo querido colega Álvaro Valls, maior especialista no filósofo dinamarquês no Brasil, é um dos livros mais belos que conheço.

A ideia que abre o livro é que o amor "só se conhece pelos frutos". Vê-se assim o caráter misterioso do amor, seguido de sua "visibilidade" apenas prática.

Angústia e amor são "virtudes práticas" que demandam coragem.

Kierkegaard desconfia profundamente das pessoas que são dadas à felicidade fácil porque, para ele, toda forma de autoconhecimento começa com um profundo entristecimento consigo mesmo.


Numa tradição que reúne Freud, Nietzsche e Dostoiévski (e que se afasta da banalidade contemporânea que busca a felicidade como "lei da alma"), o dinamarquês acredita que o amor pela vida deita raízes na dor e na tristeza, afetos que marcam o encontro consigo mesmo.




Deixo com você, caro leitor, uma de suas pérolas:




“Não, o amor sabe tanto quanto qualquer um, ciente de tudo aquilo que a desconfiança sabe, mas sem ser desconfiado; ele sabe tudo o que a experiência sabe, mas ele sabe ao mesmo tempo que o que chamamos de experiência é propriamente aquela mistura de desconfiança e amor... Apenas os espíritos muito confusos e com pouca experiência acham que podem julgar outra pessoa graças ao saber.”


quinta-feira, julho 21, 2011

Dicas para apresentação de trabalhos

Caros alunos!

Enquanto vocês se preparam para o início do próximo semestre, aí vão algumas dicas, recolhidas no site da Universidade das Quebradas, que podem ser úteis para que ninguém tenha medo de botar para quebrar nas apresentações de trabalhos.

- É preciso que os apresentadores dominem o assunto que será abordado – quanto mais você souber e tiver pesquisado sobre o tema, mais segura e rica será sua fala! E não se esqueça: se o texto não tiver sido decorado, é claro que a apresentação ficará mais dinâmica e atraente para quem está assistindo.

- Produção de um esquema com informações sucintas, que servirão para nortear o trabalho do apresentador: para melhor entendimento da platéia é válido fazer uma introdução contextualizando o tema, mostrando sua importância e explicando seus objetivos ao escolhê-lo como tema de sua apresentação. Uma curiosidade interessante: as pessoas prestam mais atenção nos cinco minutos iniciais de uma fala, por isso passe seu recado mais importante nesse período e conquiste a platéia!

- Depois desse recado inicial vem o desenvolvimento dos tópicos – é nessa etapa que se deve explicá-los com lógica e coerência.

- Por fim, a conclusão: esse deve ser o momento de reflexão e síntese da sua apresentação, ressaltando os aspectos mais importantes do tema, levantando questionamentos e, – por que não? – discussões com o público. Lembre-se que muitos pontos de vista só enriquecem o debate, e a interação é importante no processo de aprendizagem.

- Elementos visuais ajudam muito para uma complementação e extensão daquilo que você está falando. Por isso, não se acanhe: apresente imagens, vídeos, slides, ou qualquer outra forma de expressão que complemente sua fala – afinal, a interação é sempre muito mais rica do que somente falar e ser ouvido!

- A preparação é a alma do negócio: ensaios prévios, no objetivo de evitar certas falhas que poderão comprometer a qualidade do trabalho apresentado, dão mais segurança ao apresentador e ajudam a aumentar o domínio do tema a ser apresentado. É importante lembrar que para o planejamento devem ser levadas em consideração as características do público para quem se está falando, como faixa etária, tipos de interesse, expectativas e conhecimentos prévios em relação ao tema em questão – é muito importante saber com quem se está falando para se poder pensar em como falar para essas pessoas!

- A postura do apresentador é fator ultra relevante! Por isso, fale com calma. E não se esqueça: você é o responsável por contagiar e envolver quem está assistindo à sua apresentação. A bola está em suas mãos, faça valer sua personalidade e dê o melhor de si!

Abraços!

quarta-feira, junho 22, 2011

Nas fronteiras do corpo




Devemos escapar da alternativa do dentro e do fora: é preciso estar nas fronteiras. A crítica é a análise dos limites e a reflexão sobre eles.

Michel Foucault

segunda-feira, junho 13, 2011

O fantasma de Sigmund: Freud e a “suspeita de si”

Texto de Vladimir Safatle, publicado,
nesse final de semana,
no Caderno Ilustríssima
 do Jornal Folha de São Paulo

ATAQUES VIRULENTOS: Não é difícil entender por que o pensamento de Freud é objeto periódico de ataques virulentos. Definições sobre saúde, normalidade e sofrimento psíquico estão longe de ser imunes a conflitos: são aspectos de um embate social a respeito do que entendemos por "vida mutilada".
Um trabalho epistemológico digno desse nome é capaz de mostrar como a gênese de conceitos clínicos centrais depende, em larga medida, de valores que se originam fora da clínica e que a clínica toma emprestados dos campos da política, da estética, da teoria social, da moral, entre outros.
Por isso, os embates em torno dos modelos de intervenção clínica diante do sofrimento psíquico acabam sendo embates a respeito de modelos de vida que procuram ter forte peso normativo.
A maneira como, nos últimos 50 anos, o homossexualismo deixou de ser visto como uma parafilia (designação atual das perversões) ilustra a permeabilidade de nossos critérios de normalidade psíquica a valores socioculturais.
Diante das querelas em torno de Freud, vale a pena ter essas questões em mente.
Em geral, tais querelas se fazem passar por problemas "técnicos" a respeito de padrões de eficácia clínica. No entanto, muitas vezes são animadas por debates não explícitos sobre formas de vida e de individualidade.
LIVRO NEGRO Um exemplo paradigmático dessa estratégia é "O Livro Negro da Psicanálise - Viver e Pensar Melhor sem Freud" [org. Catherine Meyer, trad. Maria Beatriz de Medina e Simone Perelson, Civilização Brasileira, 644 págs. R$, 64,90]. Lançado na França em 2005, o livro chega ao Brasil com apenas 23 dos 40 artigos originais.
Congregando filósofos, psiquiatras, ex-psicanalistas, biógrafos de Marilyn Monroe, jornalistas investigativos (?), sexólogos e até um professor "reconhecido por seus pares como uma das dez pessoas que mudaram a cara da psiquiatria norte-americana", ele visa desmascarar a impostura psicanalítica. Não por acaso, o título mimetiza outro empreendimento editorial "libertador", a saber, "O Livro Negro do Comunismo" (1997).
Os métodos, nos dois casos, não são muito distintos. Trata-se de anunciar o fim de uma era de ilusões devido ao alvorecer radioso daquilo que, supostamente, não é superstição ou ideologia rasa. Nesse sentido, também não é casual que tal alvorada seja animada pela eficácia da democracia liberal ou pela precisão da guinada organicista da psiquiatria, acompanhada, quando necessário, pelas técnicas adaptativas de terapia cognitivo-comportamental.
Nos dois casos, procura-se despedir, pela porta dos fundos, duas das mais influentes experiências intelectuais do século 20: a psicanálise e o marxismo. Experiências decisivas para configurar o modo como compreendemos a nós mesmos e a nossos vínculos sociais, bem como a forma como definimos nossas expectativas de realização, de reconhecimento e de crítica.
No seu lugar, aparece um homem enfim reconciliado com as certezas liberais, livre do obscuro desejo de transformações sociais ou da suspeita radical em relação a formas hegemônicas de vida.
Suspeita animada por ideias difundidas por Freud: a família burguesa como núcleo produtor de neuroses; os processos de socialização, com seus valores e suas normas como indissociáveis da produção de sofrimento e de patologias; a sexualidade como campo de construções instáveis e contraditórias; a unidade coerente das condutas como algo sempre prestes a entrar em colapso; e, principalmente, a autonomia individual como internalização disciplinar de vínculos a autoridades que encontramos em instituições como a família.
INDIVÍDUO LIBERAL Assim, longe de um sujeito que aprendera a criticar seus ideais reguladores de autonomia, de autenticidade e de identidade, temos as portas abertas para um indivíduo liberal que, depois de décadas de insegurança e incerteza, pode calar todas as críticas com a força de quem ganhou uma sangrenta guerra fria contra seus inimigos internos.
Mas como "O Livro Negro da Psicanálise" organiza sua batalha contra o inimigo e como ele, posteriormente, apresenta aquela que seria a teoria vitoriosa? Seu primeiro passo consiste em afirmar que os casos freudianos são farsas. Os traumas ligados à sexualidade, assim como os conflitos edípicos, teriam sido, em larga medida, invenções de Freud impostas aos seus pacientes (certamente porque os autores preferem crer que não há nada parecido com a sexualidade infantil e seu polimorfismo).
No entanto, não deixa de ser interessante lembrar que Freud foi o primeiro a reconhecer problemas em sua própria clínica, falhas em seus próprios casos. Nada estranho para alguém disposto a construir hipóteses, confrontá-las com casos particulares e reordená-las a partir de dificuldades. Isso não o impediu de alcançar resultados inegáveis em casos como o do "Homem dos Ratos", sucesso que até "O Livro Negro" é obrigado a reconhecer.
PÓS-FREUD Mas insistamos ainda neste ponto. Se tudo não passasse de uma grande farsa, seria difícil explicar como a psicanálise teve resultados clínicos tão significativos após Freud?
Um verdadeiro trabalho epistemológico sobre a psicanálise deveria levar em conta casos clínicos de psicanalistas como Lacan, Winnicott, Bion, Kohut, Kernberg, assim como o relato de pacientes que se dizem respondidos em sua demanda de cura. Isso não ocorre porque "O Livro Negro" procura nos fazer acreditar que a psicanálise seria uma prática estática, que nunca teria se modificado e se criticado desde Freud.
"O Livro Negro da Psicanálise" não é, no entanto, apenas uma máquina de guerra contra a teoria freudiana. Ele prega o conhecimento adequado da mente, do sofrimento e dos transtornos mentais graças aos "passos de gigante" das ciências do cérebro, à "verdadeira revolução" nos exames cerebrais por imagens e nas pesquisas farmacológicas. Pesquisas cujos resultados não são nem de longe aquilo que a indústria farmacêutica, com seus lucros milionários, gostaria de nos fazer acreditar.
PARALELISMOS Aqui vale um aparte. Desde Descartes, ninguém nunca questionou a existência de paralelismos entre mente e cérebro. Dificilmente alguém ficaria surpreso em descobrir que uma alucinação auditiva na esquizofrenia exige uma atuação das regiões do córtex que costumam cuidar dos sinais de audição, ou que, em transtornos de ansiedade, a amígdala cerebral funciona como um sistema de alarme desregulado.
Ilusória é, na verdade, a crença de que a descrição de tais paralelismos e a atuação farmacológica a partir deles possa eliminar o processo que causou os sintomas. A não ser que estejamos dispostos a aceitar afirmações inacreditáveis, como esta, da filósofa Joëlle Proust no "Livro Negro da Psicanálise", para quem o sofrimento psíquico não tem relações com a forma como o paciente, a partir de suas próprias convicções e motivações, reflete sobre seus sintomas.
Talvez isso explique por que, atualmente, uma das queixas mais comuns de pacientes com transtornos mentais seja a de não serem ouvidos pelos médicos, como se o que têm a dizer sobre sua própria doença não tivesse lugar. Como se a mobilização crítica de sua história, crenças, desejos e ambiguidades de nada servisse na construção de modelos de ação diante de sintomas, inibições e angústias.
Afinal, talvez tal mobilização crítica não seja necessária, pois manuais de psiquiatria, como o DSM, já nos forneceriam o modelo normativo de uma individualidade reconciliada. Neste caso, como o modelo já está dado, não há nada que a rememoração de uma história singular possa construir.
INOVAÇÃO É nesse ponto que podemos sentir o cerne do aspecto inovador da teoria freudiana. Ele está presente em dois textos que aparecem ao leitor brasileiro em tradução cuidadosa de Paulo César de Sousa, no interior das "Obras Completas" de Freud, da Companhia das Letras. O primeiro é "O Eu, o Id, Autobiografia' e Outros Textos" [vol. 16, 376 págs., R$ 52]. Já o segundo é "Psicologia das Massas e Análise do Eu" [vol. 15, 352 págs., R$ 52].
Este empreendimento editorial é louvável, ainda mais se levarmos em conta que o Brasil tem, certamente, a pior tradução das "Obras Completas" (Imago, organizada por Jayme Salomão), já que foi, em larga medida, feita a partir da versão inglesa.
Durante décadas, pesquisadores brasileiros não germanófilos foram obrigados a trabalhar com as versões em espanhol ou em francês. De toda forma, a tradução de Paulo César de Sousa (assim como a boa tradução de Luiz Hanns, publicada pela Imago) não deixa de apresentar opções polêmicas.
Já o título "O Eu e o Id" não é plenamente justificado. "Das Ich und das Es" deveria ser traduzido simplesmente por "O Eu e o Isso". Isto permitiria à tradução guardar a polaridade sugestiva de uma individualidade cindida entre aquilo que se deixa nomear pelo pronome da primeira pessoa e aquilo que só encontra forma nesse pronome impessoal que nomeia o que, em nós, parece não querer se colocar sob a forma da pessoa.
Há ainda escolhas não facilmente defensáveis, como traduzir "Trieb" por "instinto", em vez de "pulsão", sendo que, se Freud quisesse, poderia ter simplesmente usado "Instinkt". Mas é certo que a tradução de textos ricos em ressonância como os de Freud nunca será livre de polêmica. O importante é que a tradução que o leitor tem à mão é de inegável qualidade.
EU Nesses dois textos, Freud problematiza o conceito de individualidade organizada a partir do Eu como unidade psíquica de síntese e de coerência das condutas. Conceito que serviria à clínica de norma, como se nosso sofrimento psíquico aparecesse sempre lá onde o indivíduo, com sua unidade, sua autonomia do Eu e sua autenticidade, não pudesse mais nos guiar. O que nasce dessa reflexão freudiana não é exatamente um modelo de conhecimento de si, como se costuma dizer, mas um modelo de "suspeita de si".
Por exemplo, "O Eu e o Id" é um texto de maturidade, que vem logo após a importante reformulação da teoria freudiana da pulsão feita em "Para Além do Princípio do Prazer", de 1920. Sua função é, assim, sistematizar a teoria do aparelho psíquico depois do desenvolvimento dos conceitos de pulsão de vida e pulsão de morte.
Nesse trabalho central na bibliografia freudiana, essa nova teoria pulsional será articulada às distinções psicanalíticas entre consciente, pré-consciente e inconsciente, assim como à nova distinção do aparelho psíquico em Eu, Supereu e Isso. Este será o primeiro texto no qual Freud desenvolverá, de maneira sistemática, sua teoria do supereu como instância moral de auto-observação responsável pela formação dos ideais e do sentimento de culpa.
É dessa teoria que derivará a compreensão das patologias mentais, já que Freud sempre utilizará o esquema da doença como regressão e degenerescência. Trata-se de uma ideia muito presente no final do século 19: a crença de que, na doença, fazemos o caminho inverso ao processo de formação e desenvolvimento psicológico.
IDENTIFICAÇÕES Ao descrever tal processo de formação, Freud parte da centralidade das dinâmicas de identificação e de internalização, ou seja, constrói-se o Eu por identificações que nos permitem internalizar modelos normativos de conduta, de desejo e de valoração vindos de figuras de autoridade que parecem nos garantir formas bem-sucedidas de vida.
Nesse sentido, a peculiaridade de Freud não vem de sua insistência de que podemos sofrer por não conseguirmos dar conta de tais valores e normas internalizados, como se nosso sofrimento psíquico fosse a marca patológica de nosso vínculo a ideais bloqueados.
O giro freudiano, e isto está claramente presente em sua teoria do supereu (objeto maior dos dois livros em questão), consiste em explorar o fato de que há situações nas quais os próprios valores e normas podem ser irrealizáveis, ou seja, podem ser um construto contraditório que visa dar conta de disposições heteróclitas.
Aquilo que procura ter peso normativo em nossas vidas pode ser parte do problema, e não da solução. Para uma sociedade como a nossa, que quer acreditar a todo custo que nossas formas hegemônicas de vida não estão em crise, colocações como estas de Freud não poderiam encontrar lugar.
MASSAS Nesse sentido, um texto como "Psicologia das Massas e Análise do Eu" é fundamental. Reconhecido por filósofos como Theodor Adorno e por juristas como Hans Kelsen como um texto maior referente à psicologia social contemporânea (Adorno chegará a utilizá-lo como descrição precisa da psicologia do fascismo), "Psicologia das Massas" traz uma tese inovadora.
A princípio, parece que temos mais um texto sobre a formação das massas através de alguma forma de regressão do comportamento dos indivíduos. Baseando-se na bibliografia da época (Gustave Le Bon, Mac Dougall, Gabriel Tarde), Freud parece fornecer mais um capítulo na literatura conservadora de crítica ao advento das sociedades de massa, com seu comportamento "irracional" e sua maneira de se submeter a lideranças carismáticas e autoritárias.
No entanto, Freud faz uma associação plena de consequências. Segundo ele, só podemos compreender a formação das massas se virmos nelas a consequência de fraturas sempre abertas no processo de formação do Eu e de seus ideais. Ou seja, as massas submetidas à liderança totalitária não aparecem lá onde o indivíduo se enfraquece e entra em colapso, mas seriam uma espécie de correlato, de risco sempre presente, devido ao mecanismo interno próprio ao processo de formação do Eu.
Esse é o modo freudiano de mostrar como nossos ideais de maturação subjetiva eram, muitas vezes, parte dos problemas que apareciam tanto na vida social quanto na clínica.
SUSPEITA DE SI Por isso, podemos dizer que o maior legado de Freud talvez tenha sido um modelo de suspeita de si, uma forma de vida caracterizada, principalmente, pela suspeita em relação aos ideais que organizam nossos processos de maturação e nossa vida social. Uma consequência clínica fundamental de tal suspeita é a certeza de que o tratamento é indissociável de um lento processo, no interior do qual o paciente serve-se da rememoração para construir modos singulares de habilidades para lidar com conflitos e contradições que nunca desaparecerão, que lhe exigirão, em vários momentos de sua vida, a capacidade de se quebrar e se reconstruir. Modos singulares porque ele não tem à sua disposição uma saída geral para seus impasses.
Assim, se a clínica freudiana nunca foi refratária à crítica, se ela sempre soube se reinventar, é porque Freud sabia que sua experiência intelectual colocava em operação um modelo de reflexão que desconstruía a estabilidade de nossas figuras gerais de normalidade e de maturação psíquica.
Como um fantasma que ronda as sociedades modernas ocidentais, Freud lembrou que nossos doentes são, muitas vezes, provas vivas das crises provocadas por nossos próprios valores. Talvez seja por isto que, desde que nasceu, a psicanálise sempre teve a última palavra diante daqueles que apostaram em seu desaparecimento.


CONTARDO CALLIGARIS

A língua que habito. O psicanalista e escritor italiano Contardo Calligaris fala (ao Jornal Rascunho) sobre sua relação com a...