segunda-feira, março 12, 2012

Lançamento



Entrevista com Antonio Quinet

Por que decidiu pesquisar o outro na obra de Lacan e como foi esse percurso?
Tomei a liberdade de salientar a importância do conceito de alteridade na psicanálise, que foi tão desenvolvido por Lacan, concomitante ao conceito de sujeito. Não há sujeito sem o outro, em qualquer ponto que se tome na teoria lacaniana. Esse atrelamento do sujeito com a alteridade é o que constitui a dor a a delícia de cada um na sua relação com os outros - tão complexa e tão fundamental. Os outros não são apenas um inferno, como afirmou o personagem de Sarte em Huis clos, mas também o purgatório, o céu, a terra, o ar e a a água. Uso aqui essa metáfora, para acentuar a diversidade e a multiplicidade do que constitui a alteridade para o humano.
A ideia deste texto veio do convite que recebi para inaugurar as conferências preparatórias de Jacques Derrida no Brasil. Eu queria fazer dialogar os diferentes conceitos do outro em Lacan com o que Derrida propõe - a partir de sua leitura do texto de Freud "Porque a guerra?" - a respeito da "abertura para a chegança do outro, como um outro radicalmente outro em sua diferença absoluta". Ali estava o embrião deste livro.

Por que selecionou essas cinco modalidades de outro?
Porque são essas modalidades da alteridade que encontrei sistematizadas no ensino de Lacan. Ele começa com a diferença entre o pequeno outro, meu semelhante, e o grande outro, o lugar da alteridade com que se manifesta para cada um seu inconsciente. Esse grande Outro, é formado, para cada um, por todos os outros que ocuparam para você um lugar importante na sua infância: mãe, pai, avô, avó, um professor, uma babá etc... Ou melhor, esse outro, que é o lugar do inconsciente, é constituído pelas palavras marcantes desses outros. Ele vai determinar as escolhas, os sintomas, os desejos do sujeito. Ao longo do ensino de Lacan, ele vai mudando o enfoque: conceitualiza o objeto a, que é o que ele considerou "a sua grande contribuição à psicanálise". Trata-se do objeto que causa o desejo e que ao mesmo tempo pode provocar angústia. É o objeto pulsional que transforma o outro, seu semelhante, num ser desejável e que lhe faz querer olhá-lo, ouvir sua voz, tocá-lo, beijá-lo, enfim, satisfazer todas as sua pulsões sexuais com ele. Mas esse mesmo objeto, pode se destacar do outro e se tornar fonte de angústia, de perseguição, de vontade de pular fora, de se esconder, fugir etc.. O sujeito pode então se sentir olhado e criticado pelo que Freud chamou inicialmente de a voz da consciência e mais tarde de supereu (superego). Essa uma forma de alteridade dentro/fora do sujeito é a modalidade do objeto a - como olhar e voz - que provoca angústia pois o sujeito se sente vigiado, medido e pesado e o resultado é sempre negativo.

Aprender a lidar com o olhar desse outro é uma forma de trabalhar sua própria auto-imagem?
O que eu mostro no livro é que a dita "auto-imagem" não é tão "auto" assim. A imagem é hetero, vem do outro e o sujeito a toma para si. A auto-imagem é constituída pelos ideais paternos que vão moldando a criança conforme seu próprio narcisismo - para que os filhos sejam o que não conseguiram ser, o que sejam a cópia fiel deles mesmos. Esses ideais vão compor um eu-ideal com o qual o sujeito vai se comparar e tentar se igualar a vida toda. Quando vira adulto, o pais não estão mais presentes, mas seus ideais sim, pois foram incorporados. O olhar do supereu mede o sujeito e o compara com esse ideal. A saída é a análise: onde o indivíduo se dá conta que esses ideais que pensava serem seus, são, na verdade, do outro. E isso transforma sua relação com a imagem e o sujeito se distancia desses ideias e de sua obrigatoriedade.

O outro desejado, o outro odiado, o outro semelhante. Todos fazem parte de projeções do próprio sujeito?
Não são apenas projeções, pois os parceiros do sujeito não se reduzem a cópias de seus egos. Você pode odiar o outro justamente por ele não corresponder ao eu-ideal que você procura no outro para complementá-lo. O seu semelhante, por um lado, é rival e competidor, por outro lado, você estabelece laços sociais determinados com vários semelhantes com os quais faz determinadas atividades. Entramos aí na quarta modalidade da alteridade: o outro do laço social, que Lacan chama de discurso. Esse vínculo é fundamental para se poder viver em sociedade, e para tal é necessário, muitas vezes, abrir mão das paixões e dos afetos. Freud dizia que a civilização exige a renúncia pulsional. Com Lacan, percebemos que para que haja vínculos de qualquer instituição, ou de ensino, ou de funcionamento burocrático é necessário que o outro não se reduza a um objeto para seu gozo próprio. Lacan formaliza quatro laços sociais cujos paradigmas são: governar, ensinar, psicanalisar e fazer desejar. E mais além, já no final de seu ensino, ele traz mais uma alteridade: o Heteros, o Outro gozo, que ele identifica com o gozo feminino, sem bordas, não regido e não limitado pela norma fálica, para além do poder e do saber e que tampouco se reduz aos objetos pulsionais. Se o paradigma desse Outro é o feminino, podemos extrair daí uma lógica de Heteros, como radicalmente outro, o diferente por excelência, o que sai totalmente da mesmidade, o oposto do mesmo, e do conhecido - o totalmente estrangeiro. Poder receber esse outro que goza à sua maneira e que é totalmente diferente da minha eis a verdadeira abertura para o outro, que chega de repente sem lenço e sem documento.

Fonte: Site da Editora Zahar

terça-feira, março 06, 2012

Norma Profissional e Posição Ética


Confira a coluna do jornalista Hélio Schwartsman da Folha de São Paulo intitulada "A Cura Gay"

Texto publicado no jornal Folha de São Paulo, em 01/03/2012, pelo jornalista Hélio Schwartsman.
A CURA GAY


O clima é de guerra. De um lado, estão os gays e os Conselhos de Psicologia, em suas vertentes federal e regionais, de outro, os cristãos, mais especificamente o povo evangélico. O tema do embate é (aqui não há como evitar as aspas) "a cura da homossexualidade".
O certame teve início nos anos 90, quando militantes do movimento gay, em particular a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), começaram a denunciar aos conselhos os autointitulados psicólogos cristãos, que prometiam curar homossexuais.
A ABGLT pedia punições a esses profissionais com base no Código de Ética do Psicólogo, que, em seu artigo 2º, b, proíbe: "induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais".
Em 1999, depois de alguns casos rumorosos na mídia, o Conselho Federal (CFP) baixou a resolução nº 001/99, que não deixa nenhuma margem a dúvida:
"Art. 2° - Os psicólogos deverão contribuir, com seu conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas.
Art. 3° - Os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.
Parágrafo único - Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades.
Art. 4° - Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica".
Evidentemente, a briga continua, mas agora no plano da opinião pública e do Legislativo. Além de nos bombardear com e-mails sobre a "perseguição" a psicólogos cristãos, os evangélicos tentam no Congresso aprovar um projeto de decreto legislativo (PDC 234/11) para sustar artigos da resolução do CFP.
Vale observar que o proponente da matéria, o deputado João Campos (PSDB-GO), também tem projetos de decreto para derrubar a decisão do Supremo Tribunal Federal que legalizou as uniões estáveis homossexuais e a que autorizou as marchas da maconha.
A iniciativa do parlamentar social-democrata (sim, há ironia no adjetivo) é uma tremenda de uma bobagem. Da mesma forma que um médico não pode hoje sair por aí dizendo que cura a doença de Huntington e um físico está impedido de afirmar que faz o tempo correr para trás, um psicólogo não pode proclamar que possui terapias efetivas contra o que seu ramo de saber nem ao menos considera uma doença. Não se pode bater de frente e em público contra os consensos da disciplina.
Não existe algo como psicologia cristã, hidrostática católica ou cristalografia judaica. Idealmente, juízos científicos se sustentam na racionalidade amparada por evidências (mas a questão é mais complicada, como veremos ao final do artigo).
É claro que a ciência, ao contrário das religiões, não trabalha com dogmas. Um pesquisador que pretenda provar que a homossexualidade é uma doença pode tentar fazê-la em fóruns apropriados, como congressos e trabalhos científicos, e sempre apresentando argumentações técnicas, cuja validade e relevância serão julgadas procedentes ou não por seus pares. Se ele os convencer, muda-se o paradigma. Caso contrário, ou ele abandona o assunto ou deixa de falar na condição de psicólogo.
Como cidadão, acredito eu, todos sempre poderão dizer o que bem entendem --além de fazer tudo o que não seja ilegal. Padres e pastores vivem afirmando que a homossexualidade é pecado sem que o céu lhes caia sobre a cabeça. É claro que a ABGLT protesta e de vez em quando um membro do Ministério Público pode tentar alguma estrepolia, mas isso é do jogo. Apesar de alguns atritos, a liberdade de expressão vem sendo relativamente respeitada no Brasil nos últimos anos, como o prova a decisão do STF sobre a marcha da maconha que o representante do PSDB quer derrubar.
Vou um pouco mais longe e, já adentrando em terrenos hermenêuticos menos sólidos, arrisco afirmar que nem o Código de Ética nem a resolução do CFP impedem um psicólogo de, em determinadas condições, ajudar um homossexual que busca abandonar suas práticas eróticas.
Imaginemos um gay que, por algum motivo, esteja profundamente infeliz com a sua orientação sexual e deseje tornar-se heterossexual. O dever do profissional que o atende é tentar convencê-lo de que não há nada de essencialmente errado no fato de ser gay. Suponhamos, porém, que o paciente não se convença e continue sentindo-se desajustado. Evidentemente, ele tem o direito de tentar ser feliz buscando "curar-se". E seu psicólogo não está obrigado a abandonar o caso porque o paciente não aceita a ciência. Ao contrário, tem o dever ético de fazer o que estiver a seu alcance para diminuir o sofrimento do sujeito.
O que a resolução corretamente veta é que o psicólogo coloque na cabeça de seus pacientes a ideia de que ser gay é uma falha moral que pode e deve ser revertida. Impede também que ele faça propaganda em que promete terapias efetivas.
Dito isto, não acho uma boa estratégia a do movimento gay de vincular a defesa dos direitos de homossexuais a uma teoria científica. Este me parece, na verdade, um erro grave.
Para começar, a ciência está calcada em hipóteses que podem por definição ser refutadas a qualquer momento. Vamos supor que o fundamento lógico para eu recusar a discriminação contra gays resida na "evidência científica" de que a homossexualidade tem componentes genéticos e ambientais, não sendo, portanto, uma escolha que possa ser modificada. Imagine-se agora que alguém demonstre de forma insofismável que tais evidências estavam erradas. O que ocorre neste caso? A discriminação fica legitimada?
Não é preciso puxar muito pela memória para lembrar que movimentos por direitos civis e "ciência" (sim, fora dos manuais de epistemologia, ela é uma atividade humana como qualquer outra que caminha ao sabor de circunstâncias políticas e constructos sociais) já estiveram em lados diferentes das trincheiras. Até 1990, a Organização Mundial da Saúde listava a homossexualidade como uma doença mental. Os psiquiatras americanos faziam o mesmo até 1977. Não sei se recomendava ou não o exorcismo, mas certamente autorizava profissionais da saúde mental a tentar a "cura".
O argumento contra a discriminação de minorias precisa ser moral. É errado discriminar gays, negros e membros de qualquer seita religiosa porque não gostaríamos de sofrer tal tratamento se estivéssemos em seu lugar.

sexta-feira, março 02, 2012

CONVITE



Queridos amigos,

na próxima quinta-feira - 08 de março - a partir das 19:30h ocorrerá o lançamento do meu novo
livro, John Cage e a poética do silêncio. O evento, que está sendo
organizado pela Editora Letras Contemporâneas, será na Fundação Badesc,
Florianópolis (Rua Visconde de Ouro Preto 216, a uma quadra do TAC).

Espero que possam ir!

Grande abraço,

Alberto

CONVITE




Abrimos as portas da Gruta! no cair da tarde, às 17h, tomados pela experimentação, com drinks, petiscos, cervejas diversas e sinuca.

e Lançamento do livro Corpoalíngua: performance e esquizoanálize, de Clarissa Alcantara.

Quando: Domingo, 04 de março de 2012.

Hora: 17h

Passagem:R$2,65

Onde: Gruta! Rua Pitangui, 3613C. Horto. BH/MG

CONVITE



O Navi - Núcleo de Antropologia Visual e Estudos da Imagem da UFSC convida para a exibição do filme documentário "Caverna dos Sonhos Esquecidos", de Werner Herzog, que acontecerá na próxima quinta-feira, dia 08 de março, 20 horas, na parede externa da Casa das Máquinas, localizada na Praça Bento Silvério, centrinho da Lagoa da Conceição.
A Mostra de Documentários, promovida pelo Núcleo de Antropologia Visual da UFSC, em parceria com a Casa das Máquinas, acontecerá quinzenalmente, sempre às quintas-feiras, 20 horas, a partir do dia 08 de março.

quarta-feira, fevereiro 29, 2012

Diário de Berlim


FIM

Por: Bernardo Carvalho

No recente “The Angel Esmeralda”, que reúne os contos de Don DeLillo publicados entre 1979 e 2011, há uma história, de 2002, inspirada na série de quinze quadros em preto e branco que Gerhard Richter pintou sobre o chamado “Outono Alemão” — a escalada de atos terroristas que desencadeou, em 1977, uma crise sem precedentes na Alemanha do pós-guerra. A série intitula-se “18 de Outubro de 1977″ e se refere à data na qual, no ápice da crise, três membros da Facção do Exército Vermelho (RAF), grupo guerrilheiro de esquerda popularizado como Baader-Meinhof, foram encontrados mortos em suas celas, na prisão de segurança máxima de Stammheim, em Stuttgart, onde cumpriam pena.

O conto de DeLillo chama-se “Baader-Meinhof” e trata do encontro casual entre um homem e uma mulher na galeria onde a série de pinturas está exposta, em Nova York. A mulher nota a presença do homem atrás dela, enquanto admira o retrato de Ulrike Meinhof morta, em 1976, com a marca da corda que a enforcou no pescoço. A princípio ingênua, despreocupada e inconsequente, obnubilada pelo desejo e pela solidão, ela acaba levando o desconhecido para casa. E só vai se dar conta do risco, que desde o início assombrava o leitor com a expectativa de estereótipos e clichês, quando o encontro já estiver a ponto de se desvirtuar em cena de terror.

Os quinze quadros que compõem o “18 de Outubro de 1977″, de Richter, estão expostos até maio numa sala da Alte Nationalgalerie, como complemento da retrospectiva (sensacional) do pintor na Neue Nationalgalerie. “Gosto de tudo o que não tem estilo: dicionários, fotografias, da natureza, de mim mesmo e de minhas pinturas. (Porque estilo é violência, e eu não sou violento.)”, Richter declarou no início da carreira, em 1964. Desde então, fez outras tantas declarações provocativas e contraditórias, que podem ser lidas como denegações, no sentido psicanalítico do termo.

Basta ver a retrospectiva (extremamente bem montada) da sua obra para entender que a variedade (a suposta falta de estilo) obedece a um ciclo de questões, inquietações e temas recorrentes, com uma assinatura muito reconhecível. A rigor, não existe ação humana que não seja violenta (e não é por acaso que o pobre monge e o eremita vão se isolar na montanha, fazendo o elogio da inação). Como escreveu Sebald, em “Os Anéis de Saturno”, a presença do homem no planeta se inaugura com a queima de combustíveis fósseis. Não há como sobreviver sem o fogo. E o fogo, que mantém a vida, será também a sua destruição. É dessa consciência trágica que nasce a arte.

Esses dois paradoxos (o deliberado despojamento de estilo, transformado necessariamente em estilo, e a humanidade condenada à violência, por mais que lute contra esse estigma) dizem muito sobre a escrita e os livros de Don DeLillo. Trata-se de um autor que sempre se interessou pelo terrorismo e que sofreu nos últimos anos com a caretice de um tempo obcecado pelos bons sentimentos transmitidos por belas palavras. Está aí algo que uma linguagem “sem estilo” não pode fazer. E, talvez, por isso mesmo, ela seja, como a obra de Gerhard Richter, tão adequada para tratar do que há de mais contraditório, aterrorizante e trágico por trás das melhores intenções.

Por falar nisso, uma amiga que dá aulas de português para adultos estrangeiros numa escola pública aqui perto de casa andou adotando passagens deste diário para discussão com os alunos em sala de aula. E me preveniu outro dia do risco de passar perto da escola e ser apedrejado. Como estou determinado a sobreviver e já tenho até passagem de volta para o Brasil, comprada pra daqui a dois meses, quando termina minha temporada berlinense, achei que era uma boa ocasião para interromper este diário, quase um ano depois do seu início. E antes que seja tarde. Um abraço.


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O último texto publicado por Bernardo Carvalho na sua coluna Diário de Berlim, do BLOG DO I M S (Instituto Moreira Sales).  Com uma percepção delicada e sincera, Bernardo narrou em vários textos seu mergulho de um ano na cultura alemã. Um ótimo diário de viagem. Vale a pena passar no Blog e ler os outros.  (Maria Holthausen)


quarta-feira, fevereiro 22, 2012

CONVITE


  • Quando ? : 11 de março - domingo
  •  
  • Onde ? : Auditório Jurerê Classic
  •  
  • O que ? : Ciclo Completo das Sonatas para Piano de W. Amadeus Mozart
  •  
  • Quem ? : Alberto A. Heller - pianista
  •  
  • Quanto ? : Entrada Gratuita mediante inscrição no telefone 3282-2203/9918-5958



domingo, fevereiro 12, 2012

Timidez e rebeldia podem virar doença em manual psiquiátrico


Para especialistas, novo guia da psiquiatria trata comportamentos hoje considerados normais como doenças

12 de fevereiro de 2012
Milhões de pessoas saudáveis, incluindo crianças tímidas ou rebeldes, adultos abatidos e pessoas com fetiches, poderão ser erroneamente diagnosticadas como doentes mentais, de acordo com o novo manual de diagnóstico internacional, alertam especialistas na área.
Numa análise contundente da nova revisão do importante Manual de Diagnósticos e Estatísticas de Doenças Mentais (DSM, na sigla em inglês), psicólogos e psiquiatras afirmam que as novas categorias de doenças mentais identificadas no manual são, no melhor dos casos, "absurdas", e, no pior, "preocupantes e perigosas".
"Muitas pessoas tímidas, abatidas moralmente, com um comportamento extravagante ou com vidas românticas pouco convencionais poderão ser consideradas mentalmente doentes", disse Peter Kinderman, chefe do Instituto de Psicologia da Universidade de Liverpool. "É desumano, não é científico e não vai ajudar ninguém."
O DSM é publicado pela Associação Americana de Psiquiatria e inclui sintomas e outros critérios para o diagnóstico de doenças mentais. É utilizado internacionalmente e considerado a "bíblia" dos médicos da área.
No entanto, os excessos do novo manual têm gerado críticas e preocupações. Mais de 11 mil profissionais da saúde já assinaram uma petição (disponível no site dsm5-reform.com) pedindo que a revisão da quinta edição do manual seja suspensa e reavaliada.
Alguns diagnósticos - como no caso do "transtorno de rebeldia resistente" e a "síndrome da apatia" - correm o risco de minimizar a seriedade das doenças mentais e tratar como problema médico comportamentos que as pessoas consideram normais ou um pouco extravagantes, afirmam os especialistas.
Além disso, o novo DSM, que deve ser publicado no próximo ano, pode oferecer diagnósticos médicos no caso de criminosos ou estupradores em série, inseridos em rótulos como "transtorno coercitivo parafílico" - permitindo que os agressores escapem da prisão ao oferecer o que pode ser visto como uma desculpa para o seu comportamento.
Radical. Simon Wessely, do Instituto de Psiquiatria do King's College de Londres, afirmou que, se remontarmos à história, os especialistas podem questionar se tais rótulos são necessários. Segundo ele, o Censo de 1840, nos Estados Unidos, incluía apenas uma categoria de transtorno mental, mas em 1917 a Associação de Psiquiatria já reconhecia 59 tipos de transtorno. Este número aumentou para 128 em 1959 e para 227 em 1980. Ele chegou a 360 nas revisões de 1994 e 2000.
Allen Frances, da Duke University e presidente da comissão que supervisionou a revisão anterior do manual, disse que o DSM-5 "expandirá de maneira radical e irresponsável as fronteiras da psiquiatria", o que resultará no "tratamento médico da normalidade, das diferenças individuais e da criminalidade".
David Pilgrim, da Britain's University de Central Lancashire, ressalta que "é difícil não evitar a conclusão de que o DSM-5 vai colaborar para os interesses das empresas farmacêuticas".
"Corremos o risco de tratar a experiência e a conduta de pessoas como se fossem espécimes de botânica sendo identificadas e catalogadas em caixas." Ele afirma que a mudança "é uma forma de loucura coletiva e um exercício pseudocientífico contínuo".
Luto. Nick Craddock, do departamento de Neurologia e Medicina Psicológica da Cardiff University, cita a depressão como um exemplo-chave dos erros envolvidos no manual. Nas edições anteriores, uma pessoa que perdeu um ente querido e está abatida estaria expressando uma reação normal de dor, mas os critérios adotados no novo guia ignoram a morte do ente querido e se concentram somente nos sintomas. Assim, a pessoa será classificada como tendo uma depressão.
Outros exemplos citados pelos especialistas como problemáticos incluem o "jogo compulsivo", "o vício na internet" e o "transtorno de rebeldia resistente" - quando uma criança "recusa-se a atender aos pedidos da maioria" e "pratica ações para incomodar os outros".
"Isso significa que são crianças que dizem 'não' aos pais mais que um determinado número de vezes. Com base nesse critério, muitos de nós acharíamos que nossos filhos estão mentalmente doentes."
 REUTERS. TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO
Fonte: Jornal O Estado de São Paulo

quinta-feira, fevereiro 02, 2012

A Casa dos Budas Ditosos: a Luxúria, a Mulher, o Gozo Fálico

Para os que ainda não leram o romance A Casa dos Budas Ditosos, de João Ubaldo Ribeiro, lembramos que esse romance faz parte da Série Plenos Pecados, uma sequência de narrativas sobre os sete pecados capitais, publicada pela Editora Objetiva.

Os autores convidados a fazer parte dessa Série tiveram que escolher um dos setes pecados como tema. O pecado sobre o qual João Ubaldo debruçou-se foi o da luxúria. A luxúria, nos diz o dicionário Houaiss, é o comportamento desregrado com relação aos prazeres do sexo, a superabundância, o excesso de ardor e a demasiada fogosidade.

O autor conseguiu, em nosso modo de ver, colocar todos esses traços em sua personagem. Esta senhora de 68 anos, que nos conta sobre a sua vida sexual, é exatamente assim: desregrada com relação aos prazeres do sexo, superabundante no número de parceiros, tem excesso de ardor e é demasiadamente fogosa.

O romance é dedicado às mulheres. Aí, acreditamos, o autor comete um pecado. O discurso dessa personagem não é conduzido dentro da lógica do gozo feminino, mas antes, pela lógica do gozo fálico. E a lógica fálica, de acordo com a psicanálise lacaniana, é a lógica masculina, ou melhor, é o lugar ocupado pelo discurso do masculino.

Mas, sejamos justos, se a lógica fálica constituí um lugar, uma função, ela pode ser ocupada tanto por homens quanto por mulheres. As boas histéricas nos comprovam essa possibilidade a todo instante. Comprovam, também, que a posição sexual de um sujeito nada tem a ver com o biológico. Que no inconsciente não há representação da diferença sexual e que a diferença sexual, para a psicanálise lacaniana, é dada por uma lógica discursiva.

João Ubaldo inicia seu romance fazendo um jogo com o leitor. Dissemos inicia, pois vemos suas primeiras palavras, endereçadas ao leitor, como o primeiro capítulo desse romance ficcional. No entanto, o jogo proposto pelo autor consiste em colocar o romance de ficção como um romance de memória. A partir desse momento, a ficção passa a ser narrada em primeira pessoa e nós, leitores, nos tornamos cúmplices das memórias eróticas dessa libidinosa senhora.

Esta cumplicidade nos provoca a pensar sobre a sexualidade feminina e para falar sobre o tema da sexualidade feminina, acreditamos que nada é mais ilustrativo, do que o mito de Tirésias. Lembremos que, na mitologia Grega - diz Junito de Souza Brandão -, Tirésias era cego e possuía o dom da adivinhação. Era um profeta, dotado do poder da predição. A cegueira e o dom da adivinhação de Tirésias eram consequência de um castigo e de uma compensação.

Vejamos como isso se deu. Conta-se que ao atingir a época das provas de caráter iniciático pela qual passavam todos os jovens, Tirésias se dispõe a fazer uma longa caminhada. Ao longo do percurso dessa caminhada, teve que escalar o monte Citerão, o mesmo monte, conforme sabemos, em que Édipo foi abandonado. Ao iniciar a subida, depara-se com duas serpentes que se acoplavam num ato de amor. O jovem Tirésias as separou, ou conforme outra versão desse mito: matou a serpente fêmea. O resultado dessa intervenção foi desastroso: o jovem se tornou mulher. Sete anos mais tarde, subiu o mesmo Citerão e, encontrando cena idêntica, repetiu a intervenção anterior: matou a serpente macho e recuperou seu sexo masculino. Desse modo, Tirésias era alguém que tinha a experiência dos dois sexos. Sua desventura o tornou célebre.

Um dia no Olimpo, Zeus discutia acaloradamente com sua esposa Hera. O objetivo de tal discussão girava em torno do amor. Quem teria maior prazer num ato de amor, o homem ou a mulher? Buscando dirimir tal dúvida, foi chamado aquele que tinha experiência de ambos os sexos. Tirésias, ao ser questionado, respondeu sem hesitar, que, se um ato de amor pudesse ser fracionado em dez parcelas, a mulher teria nove e o homem apenas uma. Hera, furiosa, o cegou, porque havia revelado o grande segredo feminino e sobretudo porque, no fundo, Tirésias estava decretando a superioridade do homem, causa eficiente dos nove décimos do prazer feminino. Hera compreendeu a resposta patrilinear do adivinho tebano: ao dar-lhe a vitória, nove décimos de prazer, estava, na realidade, traçando um perfil da superioridade masculina, da potência de Zeus, simbolizando todos os homens, únicos capazes de proporcionar tanto prazer à mulher. Para compensar-lhe a cegueira e por gratidão, Zeus concedeu-lhe o dom da adivinhação, da profecia, e o privilégio de viver sete gerações humanas.

O que nos interessa ressaltar nesse mito é a diferença entre o gozo da mulher e o gozo do homem apontado por Tirésias. A interpretação da resposta, dentro da lógica patrilinear, perde consistência a partir da constatação lacaniana de que “a relação sexual não existe”. Para a teoria lacaniana, há, para cada um dos parceiros, um gozo que está suspenso ao do outro, mas os gozo não se entrecruzam. Nenhuma relação, nenhuma medida comum pode inscreve-se entre o gozo masculino e o gozo feminino.

A teoria psicanalítica freudiana, que teve início nas últimas décadas do século XIX, limitou-se a mostrar a diferença da mulher através da diferença anatômica, considerando que ela estava marcada por um menos e que sua castração era efetiva, propondo como significação fundamental desse “não ter” o que denominou sob o termo alemão penisneid – inveja do pênis. Por isso, diz Jacques-Alain Miller, dirigiu a investigação analítica no sentido de encontrar os “bens” que poderiam preencher essa falta. A solução encontrada por Freud, para a mulher, foi a de que deveria tornar-se mãe, ter um filho. Ou seja, uma solução ainda do lado do ter, do gozo fálico.

Desse modo, em Freud, toda definição de feminilidade é a definição de um “ser relativo”, pois centrar a subjetividade feminina na inveja do pênis é inscrevê-la, já de início, como um ser que se refere ao outro. A referência é ter o do outro, e, no fundo, ser alguém que gostaria de ser outra pessoa.

No entanto, quando, no final de sua vida, Freud se perguntou o que quer a mulher?, essa questão, de certo modo, foi uma maneira de reconhecer que a sua tese anterior, na qual afirmava “ela quer o falo”, não era suficiente. Ao fazer essa indagação, Freud não recusou sua tese, mas mostrou que se tratava de uma tese parcial.

Lacan buscaria, a partir daí, uma resposta para a questão do gozo propriamente feminino, um gozo que não é regulado pelo falo, um gozo além do falo. Esta posição de gozo estaria do lado do ser e não do ter. Consiste em não preencher a falta, mas antes, em ser a falta. Ou seja, “fabricar-se um ser com o nada”.

Assim, a teoria psicanalítica lacaniana define a posição feminina, não mais em função da inveja do pênis, mas a partir do que podemos chamar seu ser sexuado, ou seja, as características de seu gozo. A mulher é ultrapassada pelo gozo. O gozo feminino varre o sujeito, ultrapassa-o, não o identifica, e, nesse sentido, redobra o esvaecimento do sujeito em face do objeto. Isso faz com que os nomes das posições subjetivas femininas girem em torno de uma relação especial com o gozo, um gozo que já não tem a medida fálica, caracterizado como “mais-além do falo”, suplementar e não complementar ao gozo masculino.

Eis porque as mulheres suportam melhor a frigidez do que os homens a impotência, elas não identificam sua feminilidade pelos seus orgasmos. Mesmo quando não é frígida, uma mulher pode, contudo, duvidar ser uma verdadeira mulher. O gozo feminino fica fora do campo do “ter fálico”, o que a leva mais além no caminho da devoção do amor.

Conforme Lacan, é porque o gozo a ultrapassa e não a identifica que a mulher se esforça para se identificar através do amor de um homem, esperando que o amor dele lhe dê um valor fálico, que se tornará identificatório, ou seja, que a identificará como “mulher de”, “amante de” e, talvez, “musa de”. A partir desse viés, Lacan deduz a função do amor para a mulher.

Por seu lado, o gozo fálico funciona no campo do narcisismo sexual, chegando a ser quase idêntico de si mesmo. É sobretudo do homem e no homem que há essa conjunção de gozo e satisfação narcísica, a ponto de ele quase não suportar a impotência sexual, a falha do gozo fálico no ato sexual. O gozo fálico identifica o sujeito, mostra o grau de seu valor para si próprio para seus parceiros.

Assim, podemos compreender que a divisão do sujeito face ao sexual, na teoria lacaniana, não é uma divisão entre dois sexos, mas entre dois gozos, um “todo-fálico”, outro “não-todo”, o primeiro fazendo surgir o outro como seu mais-além. Isto significa que no gozo feminino há uma parte que não pode fixar-se ou localizar-se com o significante, portanto, que não pode revelar-se. “Há um gozo dela sobre o qual talvez ela mesma não saiba nada a não ser que o experimenta – isto ela sabe”.

A lógica fálica constrói o discurso do “eu tenho” como modo de subjetivação do órgão genital masculino. “Eu tenho” pode ser compreendido, por um lado, como o sentimento que dá ao homem a superioridade de proprietário de um bem, mas, por outro lado, isso gera o medo que lhe roubem o seu bem, produzindo a covardia masculina, que contrasta com o “sem limite” feminino. Essa lógica discursiva permite também, aos homens, a construção da famosa lista de conquistas. A mais famosa delas, é claro, pertence a Dom Juan, um grande personagem construído dentro da lógica fálica, cuja lista de conquistas levaria um dia inteiro para ser anotada.

A partir do discorrido até aqui, voltemos, finalmente, nosso olhar para o discurso da ditosa personagem de João Ubaldo Ribeiro. Pois, nele encontramos um ótimo exemplo do que pode ser o discurso fálico feminino:

Ambivalências, sempre fui muito ambivalente. Não pareço, mas sou, é uma condição bastante interna, mas sou; ninguém diz, mas sou. Por exemplo, além de ter saudades do tempo das coxas... Ainda vou contar algumas aventuras do tempo das coxas, tenho material para duas guerra-e-pazes. Passagens espetaculares, uma vez com padre Misael em pleno colégio de freiras, outra vez com meu noivo Mauricio na porta do apartamento onde estavam dando uma festa, e eu gozando como vinte ambulâncias desgovernadas, outra vez com meu tio Afonso no banheiro, e minha tia Regina, mulher dele, querendo entrar, ah, e essas são somente algumas, são assim as que me vêm à cabeça, de momento.

Como vemos, nossa personagem também faz sua listinha, que na verdade não é tão pequena assim, já que daria para escrever duas “guerra-e-pazes”.

Divertido, irônico, pornográfico, cínico. Eis alguns dos adjetivos com os quais poderíamos classificar o romance de João Ubaldo. Um texto cuja forma discursiva nos remete a pensar sobre a questão da dessublimação da linguagem literária contemporânea. Mas aí, já estaríamos em um outro campo, que é o campo dos gêneros literários, sobre o qual este romance nos provoca.


Referências Bibliograficas:

LACAN, Jacques, Seminário, livro 20, Mais ainda, Editora Jorge Zahaar, Rio de Janeiro, RJ, 1982.
MILLER, Jacques-Alain, Del edipo a la sexuacioón, 1a. ed. Ed. Paidós, Buenos Aires, Argentina, 2001.
RIBEIRO, João Ubaldo, A casa dos Budas Ditosos, Ed. Objetiva, Rio de Janeiro,RJ, 1999.
SILVA, Maria A. Leite Holthause da, Cinismo - Forma de Vida, Modo de Gozo, Dissertação de Mestrado, UFSC, Florianópolis, 2001.


Maria Holthausen
Trabalho apresentado em 2002,  no Encontro Internacional
Fazendo Gênero V Feminismo como Política

quarta-feira, janeiro 25, 2012

“... É um belo texto de Freud. Não é à toa que nos devolve o soma e o germe. Ele intui, fareja que é aí que há alguma coisa a aprofundar. Sim, o que há por aprofundar é o quinto ponto que anunciei este ano, em meu Seminário, e que enuncia assim: não existe relação sexual.

Dito dessa maneira, parece meio esquisito, meio amalucado. Bastaria uma boa trepada para me revelar o contrário. Infelizmente, essa é uma coisa que não demonstra absolutamente nada parecido, porque a ideia de relação não coincide de modo algum com o uso metafórico que é feito dessa palavra pura e simples – relação, eles tiveram relações. Não é nada disso. Só podemos falar seriamente de relação quando não somente um discurso estabelece a relação, mas quando se enuncia a relação. O real existe antes que pensemos nele, mas a relação, essa é muito mais duvidosa. Não só é preciso pensá-la, como é preciso escrevê-la. Se vocês não são capazes de escrevê-la, não existe relação...”

Jacques Lacan, in: Estou falando com as Paredes,

Cap. I – Saber, ignorância, verdade e gozo.

terça-feira, janeiro 24, 2012

Da natureza e da cultura


“Como o jovem Marx dos Manuscritos econômicos e filosóficos, O rei Lear conjura uma política radical a partir de suas reflexões sobre o corpo. Mas esse não é bem o discurso sobre o corpo que está mais em voga nos dias de hoje. É o corpo mortal, não o masoquista, que está aqui em questão. Se Lear está bastante consciente da natureza como uma construção cultural, está também alerta para os limites dessa ideologia, a qual, em sua pressa de fugir das armadilhas do naturalismo, deixa de perceber aquilo que se refere ao corpo compartilhado, vulnerável, decadente, natural e tenazmente material que coloca uma interrogação sobre essa imodéstia culturalista. Mas a peça é igualmente cautelosa quanto a um naturalismo que crê poder haver uma inferência direta do fato ao valor, ou da natureza para a cultura. Ela sabe que “natureza” é sempre uma interpretação da natureza, desde o determinismo hobbesiano de Edmund até o rico pastoralismo de Cordélia, desde uma perspectiva de matéria sem sentido a uma visão de harmonia cósmica. A passagem da natureza para a cultura não pode ser uma passagem do fato para o valor, uma vez que a natureza sempre já é um termo valorativo.”

 
Terry Eagleton, in: A ideia de cultura – Cap. 3 – “Guerras Culturais”

quarta-feira, janeiro 04, 2012


DIGITE-ME QUE TU ANDAS E TE DIREI QUEM ÉS

OU

O ESTATUTO DE DEUS, DA CLÍNICA E DA HUMANIDADE EM NOSSA COMTEMPORANEIDADE

Gustavo Capobianco Volaco


No princípio era o verbo.
                               São João.
No princípio era o ato.
            Goethe.

Acredito que vocês conheçam o célebre aforismo de Nietzsche
“Deus está morto (...) e quem o matou fomos nós”
Pois bem, eis o que me parece uma inverdade, uma falácia, um, para ser cortês e mais preciso, um sofisma. Vocês sabem o que é um sofisma, não é mesmo? Um sofisma é uma argumentação lógica que visa, em sua base, levar-nos ao erro, conduzir-nos ao equívoco, bagunçar a ordem do coreto. O exemplo clássico, de um sofisma, digo, é este produzido por Zenão de Eléia:
“Se se derrama um saco de trigo no chão, ele faz barulho; mas se jogamos um só grão, não se percebe ruído algum. Se um grão não produz, dois também não, nem dez, nem mil. Conclui-se portanto que um saco de trigo não produz som algum”.
 E porque, digo, que o aforismo de Nietzsche “Deus está morto” é um sofisma? Isso não lhes chama a atenção? Não estaríamos a ver, por quase todos os cantos a inexistência de Deus e por isso assistiríamos a essa avalanche de novas seitas que visariam ressuscitá-lo, recriá-lo, reinscrevê-lo?
Pois não me parece que Deus, de fato, esteja morto. De jeito nenhum! Para dizer de alguma forma, para me aproximar disso que quero trabalhar com vocês, digo que ele apenas mudou de roupa, ou melhor, mudou, essencialmente, de estatuto. Vou tentar me explicar a esse respeito relembrando-os do oráculo de Delfos, o famoso oráculo de Delfos que se dá a ler, por exemplo, da tragédia Édipo Rei, que já foi nosso tema na semana acadêmica anterior. O que o caracterizava? Alguém o procurava com uma pergunta, alguém queria saber do futuro, por exemplo, e se dirigia até este local, passava pelo batente que dizia em letras garrafais “conhece-te a ti mesmo” e o questionava. E o que recebia como resposta? Não uma resposta linear e unívoca, jamais uma certeza bem amarrada ou costurada. Recebia, sim, e muito pelo contrário, um outro enigma que pedia deciframento, que requeria uma interpretação. Insisto, quem se dirigia a esse lugar não encontrava clareza. Não encontrava paz. Não encontrava a calma. Encontrava, sim, frente ao ?, não !, mas outro ?.
E o que vemos na teologia judaico-cristã, para deixar os gregos descansar um pouco? Em outras palavras: o que recebemos pelo abandono do politeísmo? Certezas inabaláveis ou novamente dúvidas, charadas, enigmas? Por exemplo: como situar, de uma vez por todas o que Deus queria de Abraão? Que matasse seu filho? Que não o fizesse? O que quer o Outro de mim?, podemos ler nessa indecisão demiúrgica e isso não se dá apenas no Genesis. Isso se dará também com a passagem dessa feroz ignorância de Yaveh para esse Deus trinitário muito mais afeito ao amor. Situem, de uma vez por todas, quais são os desígnios de Deus diante da crucificação de seu filho? Não precisa, também isso, de um deciframento? Não caiam, por favor, no dogma. O dogma é apenas expressão de uma paixão do ser cara aos seres humanos, ou seja, a ignorância, e ela não deve ter lugar aqui, dentro deste curso que vocês escolheram. E estão aí todos os teólogos, os hermeneutas, a debater seriamente aquilo que um Deus quereria de nós, fora do dogma. A fé, a crença, fica do outro lado. Longe daqui!
Como estou, de certa forma a profanar o sacro, cito aqui um filme bem conhecido de todos vocês, O Advogado do Diabo. O que diz, lá, o diabo a respeito de Deus (cito de memória): prove, mas não goste...goste, mas não se delicie... se delicie, mas não goze... goze, mas não produza soberba...
O que quer Deus de nós? Não sabemos de forma unívoca. Não temos como definir de uma vez por todas. Mas isso não impediu que desde a Grécia passando pelo novo ou velho testamento nos reportássemos a esse lugar terceiro, a esse que tudo saberia e nos poria no bom caminho, na boa via, na sina certa. E isso, reabro as questões, ainda se dá nos dias de hoje ou esse lugar terceiro está, como disse Nietsche, vazio, destituído, morto? Dito de uma outra forma, vocês, que estão aí sentados escutando este trabalho, se dirigem a alguém, a uma alteridade para que de lá lhes venha algum tipo de resposta? Vejam, se vocês acham que não há mais esse direcionamento, essa vetorização para essa alteridade, o trabalho que vocês irão fazer daqui a um tempo, esse de receber pacientes, de escutá-los, cai por terra, torna-se desnecessário, impraticável. E contudo, não se assustem por enquanto com isso, os consultórios continuam cheios, lhe afirmo. Sempre há quem se questione a respeito de si mesmo e procure, em nossos consultórios, algum tipo de resposta. O ponto, contudo que perturba todo esse jogo, mudou, basculou, e isso não porque Deus esteja morto mas sim porque Deus, como eu afirmei antes, mudou de estatuto. Ele, hoje,ao contrário desses exemplos que lhes trouxe aqui hoje, não vacila, não claudica, não titubeia. Ele, esse Deus contemporâneo, é hoje de fato, onisciente, onipotente, onipresente e não mais enquanto tese, não mais enquanto teorema. Se algo nos acossa, se algo nos perturba, se alguma coisa nos produz enigma, basta consultá-lo para obtermos a resposta. E nem precisamos sair de casa para consultá-lo. Não precisamos ir a Igreja, ao templo, ao terreiro. Abrimos, de nossas casas, de nosso lar, essa máquina fabulosa que se chama computador, acessamos a rede mundial, escrevemos dentro de um retângulo seis letras G O O G L E e voilá, podemos fazer qualquer pergunta, em qualquer língua, em qualquer ordem que queiramos que lá estará a resposta, com o tempo que demorou para conseguí-la e, mais importante, o número de achados que essa ferramenta encontrou para nós. Insisto: antes tínhamos de percorrer léguas para encontrar ciframentos, sacrificar animais para encontrar ciframentos, ajoelhar-mo-nos para encontrar... ciframentos. E hoje, o que encontramos nessa nova instituição de Deus? Deciframentos, respostas, mil, duas mil, quinhentas mil respostas para qualquer questão. Digitem lá, qualquer ajuntamento de letras, ao acaso mesmo, que, rapidamente vocês irão encontrar links que lhes dizem a que isso se refere: uma comunidade que se nomeia assim, um povo que escreve dessa forma, uma língua que pretende inovadora...
Vejamos: antes estávamos com a precariedade das respostas. Tínhamos enigmas, nos dirigíamos a esse Outro e, no máximo, recebíamos de lá uma nova charada, uma até resposta mas que era não-toda, não-plena, jamais completa. Hoje, frente ao onisciente, ao onipotente, ao onipresente Deus chamado Google, encontramos não o que poderia parecer, o infinito, mas a totalidade. Encontramos aí, no Deus Google a totalidade das respostas. E porque isso nos concerne? Porque é importante destacar essa mutação de Deus? Por que, é claro, isso tem conseqüências em nossa organização, em nossa vida, em nossos atos. Como? Aí volto ao consultório, ao meu, especificamente, e a essas pessoas que vem me procurar – porque, como eu lhes disse, ainda há um afluxo de gente que vem consultar um analista – e o que se nota aí, o que se faz claro nessas pessoas? Que elas, em sua grande maioria, vêm me consultar como se consulta o Google e cada vez suportam menos o silêncio, a não resposta ou mesmo a sua implicação naquilo que elas mesmas causam em suas vidas. “Eu quero respostas, doutor. Não me venha com esse seu blá, blá, blá” me dizia uma senhora. “Procurei na internet dados a seu respeito, Gustavo, e descobri que és um especialista no que se refere a casos amorosos. Diga-me, o que devo fazer?” dizia-me um jovem rapaz. E, para encerrar essa série, o que tenho escutado quase unissonamente: “Se é para eu vir aqui e o senhor não me dizer nada, não me responder nada, ficar aí calado ou questionando aquilo que eu falo... disso, eu não preciso” e lá se vão depois de uma curta – às vezes curtíssima – temporada. E não precisam mesmo permancecer! Por que deveriam se, no Deus Google eles encontram Aproximadamente 18.800.000 resultados em 0,07 segundos. E não é só aí que essas respostas, em abundância, totalizantes se proferem. A televisão irradia essa sabedoria, esse Saber e, pasmem, os psicólogos estão, freqüentemente, nessa nau, nesse mesmo barco arrotando saberes e mais saberes sem perceber que com isso não fazem senão insuflar esse, digo sem papas na língua, sintoma social. Foi como eu lhes disse, Deus nem aqui nem na China está morto. Ele está mais presente do que nunca, vivo, onisciente, onipotente e onipresente como nunca se viu. Se não acreditam em mim, vão até o Google para verificar.
É isso. Muito obrigado por sua atenção.
Gustavo Capobianco Volaco
Psicanalista, Coordenador do Curso de Psicologia da FACVEST

CONTARDO CALLIGARIS

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