Este Blog tem o objetivo de informar e integrar os participantes do Grupo de Estudo de Arte, Filosofia e Psicanálise.
domingo, abril 29, 2012
Homossexualidade e Psicanálise
Antonio Quinet - Freud elaborou o
conceito de pulsão, para tratar justamente da “força” do “impulso” sexual. A
pulsão sexual – a Trieb freudiana, infelizmente designada como
“instinto” na tradução brasileira – se distingue do instinto sexual próprio do
animal, pois ela é determinada pelo inconsciente. O “representante da pulsão” é
uma “energia” que Freud designa de “libido”, que é da ordem do prazer, do
desejo e do gozo. Essa pulsão está além, ou a despeito, como você diz, de
qualquer classificação. Ao contrário, é ela que vai qualificar esta ou aquela
atividade erótica: a pulsão oral, anal, escópica, etc., constituem a
sexualidade, independentemente do sexo do parceiro. No sexo, o que interessa à
pulsão sexual é a satisfação da zona erógena (a boca, o ânus, os genitais,
mamilos, etc.). O parceiro do sexo é um objeto que, “na cama”, o sujeito
recorta do corpo do outro. E isso independe do gênero dos parceiros sexuais. A
pulsão é sempre parcial. E o coito genital não é absolutamente uma exigência da
sexualidade, nem uma suposta “maturidade” da pulsão; e muito menos uma norma. A
psicanálise se opõe à pedagogia do desejo, pois esta é uma falácia. Não se pode
educar a pulsão sexual. Não se pode desviá-la para acomodá-la aos ideais da
sociedade. A pulsão segue os caminhos traçados pelo inconsciente, que é
individual e singular.
A questão das identidades sexuais é complexa. O termo identidade
não é um termo psicanalítico. Não é um conceito com o qual o psicanalista
opera. Este lida com as identificações do sujeito que, como sujeito da
linguagem, é dividido, por estrutura, sempre entre dois significantes. Não há
“gay em análise” (título de um congresso de psicanalistas realizado na França),
e sim sujeito de desejo, sujeito do inconsciente, cuja unicidade é
falaciosamente suposta por meio de suas identificações. A identificação a um
grupo, ou a um nome (ou a um significante definidor desse grupo) e até mesmo,
dirá Lacan, ao “homem” e à “mulher” não define absolutamente o sujeito. E muito
menos sua escolha de objeto, ou sua orientação sexual. Freud, como ele mesmo o
diz, está mais próximo dos gregos da Antiguidade que valorizavam mais a pulsão
do que seu objeto. Ao radicalizar a separação, operada por Freud, da posição
sexuada em relação à anatomia, Lacan propõe formas distintas de gozo: o gozo
fálico, que é o sexual propriamente dito tanto para homens quanto para
mulheres, qualificado de ”masculino”; e um gozo para além do falo, o “gozo
feminino”, que ultrapassa o sexo e até mesmo a linguagem. Em suas “fórmulas da
sexuação”, Lacan situa, por exemplo, as mulheres histéricas do lado masculino;
e do lado feminino todo aquele que se encontra no lugar de objeto de desejo,
sem que isso corresponda a uma definição de gênero. Nesse sentido, subverte
totalmente a questão da “identidade”, dos grupos, redutos e guetos. O que não
quer dizer que, em termos de estratégia política, o tema de identidade não
tenha sua utilidade. Mas sem que o sujeito se engane sobre essa suposta
definição de sua “identidade” singular.
MACJ - Por incrível que pareça, os
psicanalistas talvez tenham sido os que mais reagiram a esta despatologização,
e ainda reagem hoje bastante a ela. Haja vista a querela sobre a homoparentalidade
ocorrida na França há alguns anos que opôs dois grupos de psicanalistas: de um
lado, Elizabeth Roudinesco e Sabine Prokhoris, entre outros, defenderam a
legalização da adoção de crianças por casais homossexuais e reconheceram o
desejo deles de filiação como plenamente legítimo; de outro, Jean-Pierre Winter
e Charles Melman, entre outros, se opunham a isso e usavam a teoria
psicanalítica como argumento para sustentar suas posições altamente
conservadoras. É impressionante ver psicanalistas lacanianos assumirem posturas
tão conservadoras e malsãs, condizentes com as opiniões menos esclarecidas da
população. Os psicanalistas, quando se trata de homossexualidade, se tornam frequentemente
religiosos, no sentido de que pregam uma versão única da verdade para todos.
Ora, nós sabemos que a singularidade do desejo do sujeito é a mola mestra da
ética da psicanálise, tal como sustentada por Lacan, de modo que qualquer ideal
de normativização do pensamento ou do comportamento deve ser considerada
anti-freudiana e anti-lacaniana.
AQ - Do ponto de vista da psicanálise, podemos pensar que esses
analistas adotam o senso comum quanto ao homossexual, que provoca o imaginário
de um gozo outro, tão diferente – e ao mesmo tempo tão semelhante – ao do
“normal” que ameaça. Então, para a consciência da norma, é melhor qualificá-lo
de pervertido, não-confiável, pois é um gozo periférico, daí ser peri-goso. Por
outro lado, a exemplo de Ana Freud, a aceitação da homossexualidade do outro se
encontra na dependência de como o sujeito lida com a sua própria. Quanto mais
ele a rejeita em si mesmo, menos saberá lidar com ela, podendo fazer desse
outro um objeto de ódio, de agressões e até de assassinato. O desejo pelo
outro, ao ser recusado, pode se transformar em ódio. Da homofobia ao
homoterrorismo é um passo. Um pouco mais de análise não faria nada mal a esses
analistas!
HS – Existe uma polêmica desde o surgimento da psicanálise e a
partir da transmissão dela para os discípulos de Freud. Vários historiadores da
psicanálise mencionam uma “puritanização” da psicanálise, particularmente por
parte de analistas norte-americanos, de quem o próprio Freud disse, “eles não
sabem que estamos a trazer a peste”.
HS - Quais as definições ou usos atuais da categoria
"perversão", se não associada ao desvio de um desejo sexual
considerado mais legítimo ou sadio?
MACJ - A homossexualidade não é uma perversão, porque a noção de
perversão implica, antes de mais nada, em que haja uma versão correta! É digno
de nota que a homossexualidade foi considerada originalmente uma inversão,
antes de ser tratada como uma perversão. A inversão significa que algo está
totalmente de cabeça para baixo. Vê-se que de fato trata-se sempre de crer na
existência de uma versão normal e conforme da sexualidade. Esta não é a minha
concepção nem acredito que seja a de Freud. Porque a homossexualidade é, no
fundo, uma subversão radical. Mais essencialmente ainda, considero que a
homossexualidade é, na verdade, a revelação da subversão inerente à sexualidade
humana, que não se subordina a nenhum ideal. Se não há inscrição da diferença
sexual no inconsciente, como demonstraram Freud e Lacan, cada sujeito
construirá uma sexualidade – homo, hetero ou bi–absolutamente legítima. Pois
não cabe a ninguém autorizar a sexualidade de ninguém. Isso sim seria
perversão, querer tomar-se pelo Outro e querer fazer a Lei para o desejo do
Outro. Nada mais distante da psicanálise do que isso.
AQ - Apesar do termo “perversão” estar articulado historicamente a
“desvio da norma” sexual e à noção de perversidade e periculosidade, a
psicanálise o utiliza de maneira bem diferente. Em primeiro lugar, Freud
generaliza a perversão: a sexualidade é não só perversa, mas
“polimorfo-perversa”, pois a sexualidade admite toda a variação possível, sendo
seu objetivo unicamente a satisfação pulsional. A conexão da sexualidade com a
reprodução é um dado científico-religioso que o sexo desconhece. Por outro
lado, perversão é uma das “estruturas clínicas”, ao lado da neurose e da
psicose. Não é mais patológica do que as outras. São três modos de se lidar com
a castração simbólica, ou melhor, três meios de negá-la, pois ela, tanto para o
homem quanto para a mulher, gera angústia e ameaça. Para a psicanálise, um
homossexual pode ser neurótico (histérico, obsessivo, fóbico), psicótico
(esquizofrênico, paranóico) ou perverso (fetichista, sádico, masoquista,
voyeur, etc.). E mesmo dentro de cada tipo clínico, a diversidade é imensa. São
também três maneiras de gozar: o neurótico não sabe como gozar, o psicótico
atribui o gozo ao Outro, e o perverso se faz de instrumento do gozo do Outro.
Identificar todo homossexual à perversão é algo que a clínica
desmente e só pode advir de uma leitura apressada, de preconceito ou de
homofobia (a respeito da própria homossexualidade ou da homossexualidade dos
outros). Não existe “O Homossexual”, e sim homossexuais, tanto quanto
neuróticos, psicóticos e perversos. Lacan aproxima a perversão da sublimação,
mostrando que são duas formas de se atingir um gozo para além do princípio do
prazer, que é da ordem da criação – o perverso com a fantasia e o artista com a
obra. E, no final de seu ensino, nos anos setenta no seminário RSI, “Real,
Simbólico, Imaginário”, ele desconstrói o conceito fazendo um trocadilho entre perversion
e père-version, apontando que a perversão é uma versão do pai, que ele
designa como “aquele pai que tem uma mulher como objeto de desejo”. Lá onde se
esperava a norma, Lacan coloca a perversão, como a característica por
excelência da sexualidade.
MACJ - Tudo decorre da mesma noção normativizante, e eu diria mesmo
pré-freudiana, da sexualidade. Freud foi tão claro e sereno quanto a isso: ao
finalizar sua obra mais importante sobre a sexualidade, os Três ensaios
sobre a teoria da sexualidade, ele asseverou que "quando a
homossexualidade não é considerada um crime [sim, porque na época esta questão
era colocada desse modo em muitos lugares da Europa], ver-se-á que ela responde
amplamente às inclinações sexuais de um número não pequeno de pessoas". O
colóquio tratará desse aspecto em especial, com a apresentação de pesquisas
feitas sobre a homofobia nas instituições de psicanálise e na literatura
psicanalítica.
AQ – Conheço vários casos de homossexuais cujos analistas tentaram
“curá-los”, seja por pedido deles mesmos por não aceitarem sua atração pelo
mesmo sexo, seja da parte dos analistas que queriam – baseados na teoria
freudiana da bissexualidade – “desrecalcar” a heterossexualidade latente. Não
conheço nenhum analista que tenha tentado fazer o contrário. Ouvi também
relatos de pacientes cujos analistas queriam fazer o sujeito masculino ter
relações com mulheres para “perder o medo do outro sexo” e “afrontar a
castração”. E até mesmo, máximo do cinismo, ouvi um caso em que o analista
tentou ensinar o sujeito a fazer sexo oral com uma mulher. Quando o analisante
não sai dessa análise, os resultados podem ser catastróficos, indo até, por
exemplo, a produção de um quadro deliróide/delirante, como já tive a
oportunidade de observar. Essas conduções de análise por esses analistas causam
o descrédito da psicanálise, impedindo que aquele sujeito se beneficie da
análise para ultrapassar suas reais dificuldades. Quanto á formação analítica,
não há uma regra escrita, que eu conheça, em nenhuma Sociedade ou Escola de Psicanálise
que impeça homossexuais de entrarem numa formação, mas o boicote se dá ainda em
muitos lugares, através de diversos procedimentos que vão da coação a
impedimentos até a indiferença na instituição.
HS – Que matizes são possíveis na produção psicanalítica atual, a
respeito da abordagem das homossexualidades e do que é chamado de perversão?
segunda-feira, abril 16, 2012
Dicas de Leituras
LIVROS DE CONTOS DISTRIBUIDOS
GRATUITAMENTE ENTRARAM
NA MODA DE VEZ
Em
menos de 1 mês o mercado editorial sofreu uma reviravolta. Depois que a editora
Curitiba Tulipas Negras Editora estreiou no mercado editorial com uma
proposta interessante. A partir do slogan “Conto não vende? Ótimo. Só
publicamos contos”, agora é a vez da também Curitibana CODE publicar e distribuir gratuitamente livros de contos.
A
novidade, porém, é que além das versões impressas os livros de contos também
podem ser baixados em versões para serem lidos em Tablets e em PDF.
A
editora já que inaugura um novo selo - CODE - pretende com ele trazer a público
novas possibilidades de leitura a partir do conto. na estréia traz o escritor
paranaense Geraldo Peçanha de Almeida. O texto, quase proibido para menores,
conta a história de Valentina, uma mulher que sempre espera por um amor que
nunca se realiza. Embora seus encontros com homens não tenham sido escassos o
que ela sente falta mesmo é daquele sentimento que arrebata, que sufoca, que
desestabiliza, que faz perder o comando da vida e das coisas. Ela espera ser
amada, mas tudo que lhe sobre são migalhas de um sentimento que talvez pudesse
ser chamado de solidão ou simplesmente de abandono.
Geraldo
Peçanha de Almeida escreve este conto como se tivesse narrando um filme
dramático daqueles que sabidamente não tem final feliz. Sua escrita é forte e
sobreposta. Em alguns momentos temos a impressão que há duas histórias
entrelaçando-se, mas em outros momentos percebemos que se trata apenas de uma
história em dois momentos diferentes. É uma narrativa visceral, exatamente como
são as histórias de amor ou os dramas vividos por ele.
SERVIÇO
LANÇAMENTO DE LIVRO: dia 13 de abril de 2012
TÍTULO: Gosto de Sal
AUTOR: Geraldo Peçanha de Almeida
TAMANHO:17 x 11
VALOR: gratuito
EDITORA: Code
ISBN:
978-85-61379-38-4
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Atenciosamente,
segunda-feira, abril 02, 2012
Virtualização dos saberes
Na discussão sobre se o virtual é real,
Pierre Lévy defende que a interação e troca do conhecimento, propiciados pela
Cibercultura, possibilita ao homem participar de uma "inteligência
coletiva", que funcionará como instrumento para resgatar a sua
subjetividade.
O advento das tecnologias eletrônicas
na Cultura contemporânea conduz a uma frutífera reflexão sobre a questão da
virtualização dos saberes, circunstância própria da era informática na qual, de
uma maneira geral, estamos todos inseridos. Certamente, jamais encontramos
tanta facilidade para a divulgação imediata de conteúdos tal como atualmente
existe no sistema informático, circunstância que, interpretada por um viés
otimista, representa uma democratização do processo de criação intelectual e
sua consequente difusão pública. Nessas condições, Pierre Lévy afirma: "As
atividades de pesquisa, de aprendizagem e de lazer serão virtuais ou comandadas
pela economia virtual. O ciberespaço será o epicentro do mercado, o lugar da
criação e da aquisição de conhecimentos, o principal meio da comunicação e da
vida social".
A "Cibercultura" é um termo
utilizado na definição dos agenciamentos sociais das comunidades no espaço
eletrônico virtual. Estas comunidades estão ampliando e popularizando a
utilização da Internet e outras tecnologias de comunicação, possibilitando
assim maior aproximação entre as pessoas de todo o mundo. Este termo se
relaciona diretamente com as dinâmicas sociais, econômicas, políticas e filosóficas
dos indivíduos conectados em rede, bem como a tentativa de englobar os
desdobramentos que este comportamento requisita.
Uma
análise genealógica do conceito filosófico de virtual nos remete diretamente a
Aristóteles, que estabelece a célebre distinção entre ato, aquilo que está
efetivamente realizado, e potência, aquilo que virá a ser e que existe em nível
intensivo: "O que não tem potência de ser não pode existir em parte
alguma, enquanto tudo o que tem potência pode também não existir em ato.
Portanto, o que tem potência para ser pode ser e também pode não ser: a mesma
coisa tem possibilidade de ser e de não ser".
A
base ontológica da Internet se sustenta pela qualidade do virtual, conceito
problematizado na Filosofia Contemporânea, em especial por Gilles Deleuze e por
Pierre Lévy, que segue nesse quesito os parâmetros intelectuais delineados por
aquele. É importante destacar que, para a consciência irrefletida do senso
comum, o virtual representaria algo próprio do irreal, quiçá inexistente de
fato. Todavia, tal perspectiva não corresponde ao significado filosófico de
virtual: algo que existe sem possuir, todavia, concretude, caráter palpável,
encontrando-se assim em estado de potência; o virtual ainda não é de fato,
atual, mas poderá vir a ser; assim sendo, o virtual de alguma maneira já
existe, ainda que em uma dimensão não concreta. Conforme argumenta Deleuze,
"O virtual não se opõe ao real, mas apenas ao atual. O virtual possui uma
plena realidade como virtual [...] O virtual deve ser definido como uma parte
própria do objeto real - como se o objeto tivesse uma de suas partes no virtual
e aí mergulhasse como numa dimensão objetiva".
O
virtual se caracteriza pela intensidade. A potência do virtual reside na sua
fonte indefinida de atualizações, circunstância que transcende as naturais limitações
espaço-temporais tal como existentes nos processos difusores comuns. Decorre
desse contexto a assimilação do conceito de virtual pelo jogo de linguagem da
Informática, ela mesma um modelo de discurso epistemológico que trouxe para o
âmbito do pensamento humano a reflexão sobre a possibilidade de um meio
desprovido de extensão fornecer aos seus usuários uma possibilidade de trocas
constante de conteúdos informativos. Pierre Lévy afirma que "Na acepção filosófica,
é virtual aquilo que existe apenas em potência e não em ato, o campo de forças
e de problemas que tende a resolver-se em uma atualização. O virtual
encontra-se antes da concretização efetiva ou formal (a árvore está
virtualmente presente no grão). [...] É virtual toda entidade "desterritorializada",
capaz de gerar diversas manifestações concretas em diferentes momentos e locais
determinados, sem contudo estar ela presa a um lugar ou tempo em
particular". Um meio virtual, no sentido amplo, é um universo de
possíveis, calculáveis a partir de um modelo digital.
ENTRE
DOIS MUNDOS
O
virtual não se contrapõe ao real tal como nós o conhecemos no cotidiano; é, na
verdade, uma espécie de extensão desse mundo que denominamos como
"real" por meio de instâncias imateriais, justamente pelo fato de não
depender de bases concretas para se desenvolver: "O virtual não
"substitui" o "real", ele multiplica as oportunidades para
atualizá-lo". Nessas condições,
torna-se claro que em cada momento de nossas existências e experiências nos
encontramos plenamente delineados pela condição virtual: "O mundo humano é
"virtual" desde a origem, mesmo antes das tecnologias digitais,
porque contém por todo o lado sementes do futuro, possibilidades inexploradas,
formas por nascer que a nossa atenção, os nossos pensamentos, as nossas
percepções, os nossos atos e as nossas invenções não param de atualizar".
O
desenvolvimento das tecnologias informáticas, considerada em uma dimensão
intelectual, expressaria a culminação da experiência da
"pós-modernidade", caracterizada pela contraposição aos discursos
totalizantes e às narrativas teleológicas (progresso contínuo da humanidade,
ação soteriológica do saber científico) próprias da era moderna. A exaustão
desse projeto civilizatório conduziu, no plano da construção social do
conhecimento, a uma valorização das diferenças e a necessidade de inclusão
antropológica dos grupos até então relegados aos confins periféricos da criação
intelectual. Obviamente que as facilidades técnicas proporcionadas pelo advento
da informática dinamizaram a produção dos saberes e sua subsequente
comunicação, inclusive por indivíduos alheios ao mundo acadêmico. Conforme
destacado pelo filósofo francês Jean-François Lyotard, "É razoável pensar
que a multiplicação de máquinas informacionais afeta e afetaria a circulação
dos conhecimentos, do mesmo modo que o desenvolvimento dos meios de circulação
dos homens (transportes), dos sons e, em seguida, das imagens (Mídia) o
fez".
A
expansão da informática e sua culminação epistemológica pela Internet
possibilitaram o desenvolvimento de um sistema colaborativo entre os indivíduos
separados espaço-temporalmente em decorrência das condições físicas da própria
condição concreta da existência, mas virtualmente unificados pela grande rede:
"Sujeitos e objetos, autores e destinatários perdem a sua bem distinta
identidade em favor de redes contínuas de produção de informações".
Os
recursos interativos disponíveis antes do advento da Internet se fundamentavam
tecnicamente nos padrões "Um-Um" (telefone) e "Um-Todos"
(televisão, rádio, jornal). A propagação da Internet faz com que alcançamos
assim o estado comunicativo denominado por Pierre Lévy de
"Todos-Todos", caracterizado por promover a interação plena de
informações entre todos os usuários, sujeitos criadores, conectados na rede
virtual. A disposição informativa "Todos-Todos" promove a interação
mútua de informações entre todos aqueles que se encontram conectados na rede
virtual, pois que, conforme vimos anteriormente, esse meio elimina as barreiras
das categorias do espaço e do tempo.
A
mensagem parte de um centro difuso para atingir uma periferia numerosa de receptores
separados entre si fisicamente. Esse processo comunicativo é o único que torna
os usuários centros ativos da construção dos modelos de contato interpessoal.
Cada um de nós pode perfeitamente fazer parte desse processo de construção
coletiva de conhecimentos a ser compartilhado publicamente no Ciberespaço,
dimensão virtual na qual ocorrem as interações informativas entre as pessoas,
sem que, todavia, exista uma definição nítida do espaço e do tempo no qual se
dão tais acontecimentos. A partir da expansão da Internet, a possibilidade de
haver uma maior comunhão dos conhecimentos elaborados alcançou um nível jamais
imaginado até então pelas estruturas epistemológicas das eras precedentes.
Todavia, há uma curiosa tendência a se dizer que a Internet consumou o
esvaziamento das relações pessoais. Será que é mesmo a Internet a motivadora
por excelência da separação afetiva entre as pessoas? Ou não seria talvez o
ritmo vertiginoso das relações de trabalho, os inúmeros problemas de
infraestrutura da sociedade contemporânea que motivam esse distanciamento
interpessoal?
Na
era informática, a construção antropológica do saber se torna uma experiência
multilateral, e não mais unilateral, conforme os princípios dogmáticos da
instituição teológica normativa (sectária do argumento de autoridade), ou
bilateral, disposição característica da relação dialógica; desse modo, todos os
sujeitos devidamente conectados na rede eletrônica tornam-se difusores de
conceitos, informações, saberes. Pierre Lévy denomina essa experiência
holística de "inteligência coletiva", pois a Internet depende, para o
seu contínuo progresso, da atividade plena dos seus usuários, que elaboram de
maneira interativa os conteúdos disponibilizados na rede virtual: "O
problema da inteligência coletiva é descobrir ou inventar um além da escrita,
um além da linguagem tal que o tratamento da informação seja distribuído e
coordenado por toda parte, que não seja mais o apanágio de órgãos sociais separados,
mas se integre naturalmente, pelo contrário, a todas as atividades humanas,
volte às mãos de cada um". A finalidade da inteligência coletiva consiste
em colocar os recursos das grandes coletividades ao serviço das pessoas e dos
pequenos grupos, e não o contrário. Tanto melhor, ela engendra uma mobilização
otimizada das competências criativas dos indivíduos: "Longe de fundar as
inteligências individuais em uma espécie de magma indistinto, a inteligência
coletiva é um processo de crescimento, de diferenciação e de retomada recíproca
das singularidades".
Trata-se
do deslocamento de um sistema em que o emissor produz um discurso, enviando-o
em seguida para um grupo de receptores para uma estrutura de comunicação
multidirecional, onde não está definido quem são os emissores e os receptores.
O filósofo polonês Adam Schaff postulava
que a sociedade informática permitirá a formação do homem universal, no sentido
de sua formação global, que lhe permitirá fugir do estreito caminho da
especialização unilateral e não de se libertar do enclausuramento numa cultura
nacional - para converter-se em um cidadão do mundo no melhor sentido do termo.
O
jogo de linguagem da Internet exige do usuário uma transformação em seus
paradigmas intelectuais, sustentados tradicionalmente por uma adequação a um
modelo epistemológico de caráter centralizador próprio da configuração
ideológica da Cultura ocidental, marcada pelo respeito cego ao argumento de
autoridade e aos discursos universalistas próprios da tradição ocidental.
Contudo, o advento das redes informáticas originou a divisão infinita da
subjetividade humana e seus dispositivos intelectuais. Nesse contexto, o
sociólogo espanhol Manuel Castells pondera que "A elasticidade da Internet
a torna particularmente suscetível a intensificar as tendências contraditórias
presentes em nosso mundo. Nem utopia nem distopia, a Internet é a expressão de
nós mesmos através de um código de comunicação específico, que devemos
compreender se quisermos mudar nossa sociedade". A estrutura da
comunicação em rede aponta para desdobramentos otimistas no que se refere ao
processo de democratização do sistema de comunicação e de interação. Para
Pierre Lévy, "O uso socialmente mais rico da informática comunicacional
consiste, sem dúvida, em fornecer aos grupos humanos os meios de reunir suas
forças mentais para constituir coletivos inteligentes e dar vida a uma
democracia em tempo real".
REORGANIZAÇÃO
DOS ESPAÇOS
Arquivos
imensuráveis, a partir do uso do aparato informatizado, são substituídos por
recursos especializados virtuais que substituem, a nível quantitativo, o grande
espaço físico destinado ao armazenamento de informações, enquanto que, numa
dimensão qualitativa, esses dados podem ser organizados de modo extremamente
meticuloso, evitando-se assim os transtornos que ocorrem comumente com os
arquivos materiais, tais como danificação dos conteúdos pela ação do tempo ou
perdas irreparáveis desses suportes físicos. Pierre Lévy conclama para que nos
"Lembremos que uma das principais virtudes de tecnologias intelectuais
consiste em oferecer ao sistema cognitivo humano memória externa e sistemas de
representação próprios para aliviar a tarefa de sua memória a curto prazo e
facilitar a concentração de sua atenção aos elementos mais pensamentos de um
problema em dado instante".
Nicholas
Negroponte, fundador do celebérrimo MIT, em um comentário preciso, destaca que
a Internet oferece um novo veículo para se sair em busca de conhecimento e
sentidos. Por conseguinte, a Internet, possibilitando a comunicação global, a
fusão intelectual entre emissores e receptores e o estabelecimento da
interatividade virtual se estabelece em nossa era como um grande marco
epistemológico. Desde as suas origens, a escritura foi concebida e utilizada
sob forma de signos relativamente estáticos sobre um suporte físico. Hoje,
graças às telas interativas, a informática abre possibilidades radicalmente
novas à expressividade do pensamento. Tal como destacado por Nicholas
Negroponte: "A superestrada da informação nada mais é do que o movimento
global de bits sem peso à velocidade da luz". Nessas condições, os
discursos contestadores da pertinência da realidade virtual para a vida humana
acabam sendo derrotados pela incompreensão da própria natureza do processo de
instauração dos conteúdos informáticos da Internet, talvez pelo fato de que
esta, por não existir de forma concreta, extensiva, dê a impressão de que
apenas lida com ilusões.
Referências:
ARISTÓTELES.
Metafísica. Trad. de Marcelo Perine. São Paulo: Loyola, 2005.
CASTELLS, Manuel. A Galáxia Internet: reflexões sobre a Internet, os negócios e a sociedade. Trad. de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
DELEUZE, Gilles. Diferença e Repetição. Trad. de Luiz Orlandi e Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 2006.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. Trad. de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Ed. 34, 1999.
_____. Filosofia Word - o mercado, a cibercultura, a consciência. Trad. de Carlos Aboim de Brito. Lisboa: Instituto Piaget, 2000.
_____. A conexão planetária: o mercado, o ciberespaço e a consciência. Trad. de Maria Lúcia Homem e Ronaldo Entler. São Paulo: Ed.34, 2001.
_____. A ideografia dinâmica: rumo a uma imaginação artificial? Trad. de Marcos Marcionilo e Saulo Krieger. São Paulo: Loyola, 2004.
_____. A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. Trad. de Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: Loyola, 2003.
_____. A Máquina Universo: Criação, Cognição e Cultura Informática. Trad. de Maria Manuela Guimarães. Lisboa: Instituto Piaget, 1995.
LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. Trad. de Ricardo Corrêa Barbosa. Rio de Janeiro: José Olympio, 2002.
NEGROPONTE, Nicholas. A Vida Digital. Trad. de Sérgio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
SCHAFF, Adam. A sociedade informática. Trad. de Carlos Jordão Machado e Luiz Arturo Obojes. São Paulo: Brasiliense, 2007.
CASTELLS, Manuel. A Galáxia Internet: reflexões sobre a Internet, os negócios e a sociedade. Trad. de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
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SCHAFF, Adam. A sociedade informática. Trad. de Carlos Jordão Machado e Luiz Arturo Obojes. São Paulo: Brasiliense, 2007.
- Renato Nunes Bittencourt
terça-feira, março 20, 2012
CONVITE
Quinta feira dia 22 de Março - Mostra de Documentarios do NAVI – UFSC
projeção ao ar-livre na Praça da Lagoa
20 horas : “Sinfonias Urbanas”
“Homem com a camera de filmar” dir: Dziga Vertov, 1929, 67’
Homem com a camera de filmar é o mais puro exemplo da ruptura total do cinema com a literatura e a dramaturgia, uma autêntica iniciação aos segredos da linguagem cinematográfica. Dziga Vertov criou o Kino-Pravda (Cine-Verdade) e o Kino-Glaz (Cine-Olho), novos conceitos para captação da realidade, formatada dentro de uma montagem visionária que influenciaria o cinema do Pós-Guerra. As imagens são deslumbrantes e de grande impacto visual. Sem dúvida um dos filmes mais importantes de todos os tempos. A trilha sonora é composta e conduzida pela Alloy Orchestra, seguindo as instruções escritas por Dziga Vertov.
“Rien que les heures” dir: Alberto Cavalcanti, 1926, 60’
Alberto Cavalcanti, cineasta brasileiro – pouco conhecido por aqui - antecipa as sinfonias urbanas de Vertov e Ruttmann, quando realiza, em 1926, Rien que les heures.
Como escreve Elizabeth Sussex, “Rien que les heures, o primeiro filme que ousou mostrar a vida comum do dia a dia de uma cidade, merece um olhar com o olho do presente. Isso nos ajuda a desvendar a carreira de Cavalcanti como um todo: o approach dramático, a consciência social contrastando as vidas de ricos e pobres. Sua reputação sofreu uma negligência inicial porque seu impacto foi roubado pelo Berlin, de Ruttmann, realizado depois mas exibido antes na Inglaterra e na América”.
terça-feira, março 13, 2012
O risco de ser autoritário
Há um risco de sermos
enganados quando o debate toma o rumo da convergência.
Por: Renato
Janine Ribeiro
Há um risco de sermos enganados quando o debate
toma o rumo da convergência. Num momento alto da obra de Platão, um sofista
ataca o diálogo socrático, que pareceria justamente a forma mais igualitária de
cooperação intelectual: “Como és autoritário, Sócrates!” Haveria um
autoritarismo embutido na condução delicada, gentil, mas nem por isso menos
perigosa, dos argumentos pelo grande mestre da Filosofia. Daí, nasce toda uma
escola de desconfiança em face dos diálogos. Os desconfiados incluem certamente
Nietzsche, talvez Pascal, com certeza os psicanalistas. Eles não querem seguir
uma argumentação. Esta, com toda a sua aparente limpidez, oculta emboscadas
terríveis. É melhor pensar a linguagem, não como o lugar da cooperação e da
compreensão mútuas, mas como o do engano, proposital ou não, do outro ou de nós
mesmos. O mais óbvio, disse-me uma vez um psicanalista, não é nos entendermos.
É não nos entendermos. É nos entendermos errado. E isso não só em relação ao
outro, mas a gente mesmo. Eu mesmo posso não saber o que estou pensando, o que
estou dizendo.
Daí, uma das práticas mais notáveis da Psicanálise,
que consiste no divã e em tudo o que ele implica. Um psicanalista, quando
recebe você, não está iniciando um diálogo. Se alegar que você tem complexo de
Édipo (ou o que quer que seja), justificando sua afirmação com o que você disse
ou fez, adeus, análise. Ele se colocará no nível do paciente e transformará o
que seria um procedimento ímpar de experiência humana numa mera conversa.
Nenhuma mudança ocorrerá. Agora, se ele fizer silêncio, se se recusar a responder,
a justificar, a esclarecer, ele poderá – notem bem, poderá, porque nada disso
está garantido – fazer com que o paciente descubra, por si mesmo, que se
empenhava em enganar o analista, em enganar a si próprio, em apenas conseguir
justificações para continuar como estava. O divã, dizia eu: ele evita que o
paciente controle o analista, ele impede que entre os dois se promova um
diálogo ou conversa ou conversação ou negociação. Todas essas opções trairiam a
análise. Todas estariam baseadas na crença de que as duas partes estão no mesmo
caminho, na mesma direção. Justamente, não estão. Meu analista pode ter as
melhores intenções do mundo, mas ele é ele e procura seus próprios objetivos –
inclusive, ganhar dinheiro. É à medida que eu descubra quais são os meus
objetivos, qual é minha diferença específica, que poderei encontrar algo que é
mal definido, que ao longo do tempo a Psicanálise nomeia de formas muito
diferentes e que, sobretudo, ela talvez não seja muito apta a proporcionar –
quer se chame cura, tratamento, alta, final, sentir-se melhor, aceitar-se como
é. Para cada um desses nomes, há textos canônicos, inclusive do próprio Freud,
que podem sustentá-lo.
Não é fascinante esse ponto de partida e, digamos,
toda essa trajetória? Partirmos do misunderstanding, do engano quanto ao que
foi dito, é interessante. Manter-se no risco da má compreensão é uma tarefa
difícil. Segui-la sempre, suportar o fato de que sempre estaremos entendendo
mal tudo, inclusive a nós mesmos, exige quase um super-homem nietzschiano.
Essa, provavelmente, a força da Psicanálise.
Mas também o seu risco. Porque, para ir por esse
caminho, o analista não pode dialogar. O que é sua força é também seu perigo.
Quem diz, afinal, que ele tem razão? Quem diz, tudo levado a seu termo, que a
análise adiantou? Ninguém tem segurança disso. E talvez por isso a Psicanálise
dê os resultados mais diversos. Há quem saia dela com um novo vigor, sabendo
assumir tudo o que o destino lhe reserve. E há quem a encerre sem ter ganhado
nada. Mas provavelmente ambos os finais têm a ver com essa negação do diálogo,
que não é fortuita, mas essencial à Psicanálise.
Fonte: site da Revista Filosofia.
segunda-feira, março 12, 2012
Lançamento
Entrevista com Antonio Quinet
Por que decidiu pesquisar o outro na obra de Lacan
e como foi esse percurso?
Tomei a liberdade de salientar a importância do
conceito de alteridade na psicanálise, que foi tão desenvolvido por Lacan,
concomitante ao conceito de sujeito. Não há sujeito sem o outro, em qualquer
ponto que se tome na teoria lacaniana. Esse atrelamento do sujeito com a
alteridade é o que constitui a dor a a delícia de cada um na sua relação com os
outros - tão complexa e tão fundamental. Os outros não são apenas um inferno,
como afirmou o personagem de Sarte em Huis clos, mas também o
purgatório, o céu, a terra, o ar e a a água. Uso aqui essa metáfora, para
acentuar a diversidade e a multiplicidade do que constitui a alteridade para o
humano.
A ideia deste texto veio do convite que recebi para inaugurar as conferências preparatórias de Jacques Derrida no Brasil. Eu queria fazer dialogar os diferentes conceitos do outro em Lacan com o que Derrida propõe - a partir de sua leitura do texto de Freud "Porque a guerra?" - a respeito da "abertura para a chegança do outro, como um outro radicalmente outro em sua diferença absoluta". Ali estava o embrião deste livro.
A ideia deste texto veio do convite que recebi para inaugurar as conferências preparatórias de Jacques Derrida no Brasil. Eu queria fazer dialogar os diferentes conceitos do outro em Lacan com o que Derrida propõe - a partir de sua leitura do texto de Freud "Porque a guerra?" - a respeito da "abertura para a chegança do outro, como um outro radicalmente outro em sua diferença absoluta". Ali estava o embrião deste livro.
Por que selecionou essas cinco modalidades de
outro?
Porque são essas modalidades da alteridade que encontrei sistematizadas no ensino de Lacan. Ele começa com a diferença entre o pequeno outro, meu semelhante, e o grande outro, o lugar da alteridade com que se manifesta para cada um seu inconsciente. Esse grande Outro, é formado, para cada um, por todos os outros que ocuparam para você um lugar importante na sua infância: mãe, pai, avô, avó, um professor, uma babá etc... Ou melhor, esse outro, que é o lugar do inconsciente, é constituído pelas palavras marcantes desses outros. Ele vai determinar as escolhas, os sintomas, os desejos do sujeito. Ao longo do ensino de Lacan, ele vai mudando o enfoque: conceitualiza o objeto a, que é o que ele considerou "a sua grande contribuição à psicanálise". Trata-se do objeto que causa o desejo e que ao mesmo tempo pode provocar angústia. É o objeto pulsional que transforma o outro, seu semelhante, num ser desejável e que lhe faz querer olhá-lo, ouvir sua voz, tocá-lo, beijá-lo, enfim, satisfazer todas as sua pulsões sexuais com ele. Mas esse mesmo objeto, pode se destacar do outro e se tornar fonte de angústia, de perseguição, de vontade de pular fora, de se esconder, fugir etc.. O sujeito pode então se sentir olhado e criticado pelo que Freud chamou inicialmente de a voz da consciência e mais tarde de supereu (superego). Essa uma forma de alteridade dentro/fora do sujeito é a modalidade do objeto a - como olhar e voz - que provoca angústia pois o sujeito se sente vigiado, medido e pesado e o resultado é sempre negativo.
Porque são essas modalidades da alteridade que encontrei sistematizadas no ensino de Lacan. Ele começa com a diferença entre o pequeno outro, meu semelhante, e o grande outro, o lugar da alteridade com que se manifesta para cada um seu inconsciente. Esse grande Outro, é formado, para cada um, por todos os outros que ocuparam para você um lugar importante na sua infância: mãe, pai, avô, avó, um professor, uma babá etc... Ou melhor, esse outro, que é o lugar do inconsciente, é constituído pelas palavras marcantes desses outros. Ele vai determinar as escolhas, os sintomas, os desejos do sujeito. Ao longo do ensino de Lacan, ele vai mudando o enfoque: conceitualiza o objeto a, que é o que ele considerou "a sua grande contribuição à psicanálise". Trata-se do objeto que causa o desejo e que ao mesmo tempo pode provocar angústia. É o objeto pulsional que transforma o outro, seu semelhante, num ser desejável e que lhe faz querer olhá-lo, ouvir sua voz, tocá-lo, beijá-lo, enfim, satisfazer todas as sua pulsões sexuais com ele. Mas esse mesmo objeto, pode se destacar do outro e se tornar fonte de angústia, de perseguição, de vontade de pular fora, de se esconder, fugir etc.. O sujeito pode então se sentir olhado e criticado pelo que Freud chamou inicialmente de a voz da consciência e mais tarde de supereu (superego). Essa uma forma de alteridade dentro/fora do sujeito é a modalidade do objeto a - como olhar e voz - que provoca angústia pois o sujeito se sente vigiado, medido e pesado e o resultado é sempre negativo.
Aprender a lidar com o olhar desse outro é uma
forma de trabalhar sua própria auto-imagem?
O que eu mostro no livro é que a dita
"auto-imagem" não é tão "auto" assim. A imagem é hetero,
vem do outro e o sujeito a toma para si. A auto-imagem é constituída pelos
ideais paternos que vão moldando a criança conforme seu próprio narcisismo -
para que os filhos sejam o que não conseguiram ser, o que sejam a cópia fiel
deles mesmos. Esses ideais vão compor um eu-ideal com o qual o sujeito vai se
comparar e tentar se igualar a vida toda. Quando vira adulto, o pais não estão
mais presentes, mas seus ideais sim, pois foram incorporados. O olhar do
supereu mede o sujeito e o compara com esse ideal. A saída é a análise: onde o
indivíduo se dá conta que esses ideais que pensava serem seus, são, na verdade,
do outro. E isso transforma sua relação com a imagem e o sujeito se distancia
desses ideias e de sua obrigatoriedade.
O outro desejado, o outro odiado, o outro
semelhante. Todos fazem parte de projeções do próprio sujeito?
Não são apenas projeções, pois os parceiros do
sujeito não se reduzem a cópias de seus egos. Você pode odiar o outro
justamente por ele não corresponder ao eu-ideal que você procura no outro para
complementá-lo. O seu semelhante, por um lado, é rival e competidor, por outro
lado, você estabelece laços sociais determinados com vários semelhantes com os
quais faz determinadas atividades. Entramos aí na quarta modalidade da
alteridade: o outro do laço social, que Lacan chama de discurso. Esse vínculo é
fundamental para se poder viver em sociedade, e para tal é necessário, muitas
vezes, abrir mão das paixões e dos afetos. Freud dizia que a civilização exige
a renúncia pulsional. Com Lacan, percebemos que para que haja vínculos de
qualquer instituição, ou de ensino, ou de funcionamento burocrático é
necessário que o outro não se reduza a um objeto para seu gozo próprio. Lacan
formaliza quatro laços sociais cujos paradigmas são: governar, ensinar,
psicanalisar e fazer desejar. E mais além, já no final de seu ensino, ele traz
mais uma alteridade: o Heteros, o Outro gozo, que ele identifica com o gozo
feminino, sem bordas, não regido e não limitado pela norma fálica, para além do
poder e do saber e que tampouco se reduz aos objetos pulsionais. Se o paradigma
desse Outro é o feminino, podemos extrair daí uma lógica de Heteros, como
radicalmente outro, o diferente por excelência, o que sai totalmente da mesmidade,
o oposto do mesmo, e do conhecido - o totalmente estrangeiro. Poder receber
esse outro que goza à sua maneira e que é totalmente diferente da minha eis a
verdadeira abertura para o outro, que chega de repente sem lenço e sem
documento.
Fonte: Site da Editora Zahar
terça-feira, março 06, 2012
Norma Profissional e Posição Ética
Confira a coluna do jornalista Hélio
Schwartsman da Folha de São Paulo intitulada "A Cura Gay"
Texto
publicado no jornal Folha de São Paulo, em 01/03/2012, pelo jornalista Hélio
Schwartsman.
A
CURA GAY
O
clima é de guerra. De um lado, estão os gays e os Conselhos de Psicologia, em
suas vertentes federal e regionais, de outro, os cristãos, mais especificamente
o povo evangélico. O tema do embate é (aqui não há como evitar as aspas)
"a cura da homossexualidade".
O
certame teve início nos anos 90, quando militantes do movimento gay, em
particular a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e
Transexuais (ABGLT), começaram a denunciar aos conselhos os autointitulados
psicólogos cristãos, que prometiam curar homossexuais.
A
ABGLT pedia punições a esses profissionais com base no Código de Ética do
Psicólogo, que, em seu artigo 2º, b, proíbe: "induzir a convicções
políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou
a qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções
profissionais".
Em
1999, depois de alguns casos rumorosos na mídia, o Conselho Federal (CFP)
baixou a resolução nº 001/99, que não deixa nenhuma margem a dúvida:
"Art.
2° - Os psicólogos deverão contribuir, com seu conhecimento, para uma reflexão
sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações
contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas.
Art.
3° - Os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de
comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente
a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.
Parágrafo
único - Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham
tratamento e cura das homossexualidades.
Art.
4° - Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos
públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos
sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer
desordem psíquica".
Evidentemente,
a briga continua, mas agora no plano da opinião pública e do Legislativo. Além
de nos bombardear com e-mails sobre a "perseguição" a psicólogos
cristãos, os evangélicos tentam no Congresso aprovar um projeto de decreto
legislativo (PDC 234/11) para sustar artigos da resolução do CFP.
Vale
observar que o proponente da matéria, o deputado João Campos (PSDB-GO), também
tem projetos de decreto para derrubar a decisão do Supremo Tribunal Federal que
legalizou as uniões estáveis homossexuais e a que autorizou as marchas da
maconha.
A
iniciativa do parlamentar social-democrata (sim, há ironia no adjetivo) é uma
tremenda de uma bobagem. Da mesma forma que um médico não pode hoje sair por aí
dizendo que cura a doença de Huntington e um físico está impedido de afirmar
que faz o tempo correr para trás, um psicólogo não pode proclamar que possui
terapias efetivas contra o que seu ramo de saber nem ao menos considera uma
doença. Não se pode bater de frente e em público contra os consensos da
disciplina.
Não
existe algo como psicologia cristã, hidrostática católica ou cristalografia
judaica. Idealmente, juízos científicos se sustentam na racionalidade amparada
por evidências (mas a questão é mais complicada, como veremos ao final do
artigo).
É
claro que a ciência, ao contrário das religiões, não trabalha com dogmas. Um
pesquisador que pretenda provar que a homossexualidade é uma doença pode tentar
fazê-la em fóruns apropriados, como congressos e trabalhos científicos, e
sempre apresentando argumentações técnicas, cuja validade e relevância serão
julgadas procedentes ou não por seus pares. Se ele os convencer, muda-se o
paradigma. Caso contrário, ou ele abandona o assunto ou deixa de falar na condição
de psicólogo.
Como
cidadão, acredito eu, todos sempre poderão dizer o que bem entendem --além de
fazer tudo o que não seja ilegal. Padres e pastores vivem afirmando que a
homossexualidade é pecado sem que o céu lhes caia sobre a cabeça. É claro que a
ABGLT protesta e de vez em quando um membro do Ministério Público pode tentar
alguma estrepolia, mas isso é do jogo. Apesar de alguns atritos, a liberdade de
expressão vem sendo relativamente respeitada no Brasil nos últimos anos, como o
prova a decisão do STF sobre a marcha da maconha que o representante do PSDB
quer derrubar.
Vou
um pouco mais longe e, já adentrando em terrenos hermenêuticos menos sólidos,
arrisco afirmar que nem o Código de Ética nem a resolução do CFP impedem um
psicólogo de, em determinadas condições, ajudar um homossexual que busca
abandonar suas práticas eróticas.
Imaginemos
um gay que, por algum motivo, esteja profundamente infeliz com a sua orientação
sexual e deseje tornar-se heterossexual. O dever do profissional que o atende é
tentar convencê-lo de que não há nada de essencialmente errado no fato de ser
gay. Suponhamos, porém, que o paciente não se convença e continue sentindo-se
desajustado. Evidentemente, ele tem o direito de tentar ser feliz buscando
"curar-se". E seu psicólogo não está obrigado a abandonar o caso
porque o paciente não aceita a ciência. Ao contrário, tem o dever ético de
fazer o que estiver a seu alcance para diminuir o sofrimento do sujeito.
O
que a resolução corretamente veta é que o psicólogo coloque na cabeça de seus
pacientes a ideia de que ser gay é uma falha moral que pode e deve ser
revertida. Impede também que ele faça propaganda em que promete terapias
efetivas.
Dito
isto, não acho uma boa estratégia a do movimento gay de vincular a defesa dos
direitos de homossexuais a uma teoria científica. Este me parece, na verdade,
um erro grave.
Para
começar, a ciência está calcada em hipóteses que podem por definição ser
refutadas a qualquer momento. Vamos supor que o fundamento lógico para eu
recusar a discriminação contra gays resida na "evidência científica"
de que a homossexualidade tem componentes genéticos e ambientais, não sendo,
portanto, uma escolha que possa ser modificada. Imagine-se agora que alguém
demonstre de forma insofismável que tais evidências estavam erradas. O que
ocorre neste caso? A discriminação fica legitimada?
Não
é preciso puxar muito pela memória para lembrar que movimentos por direitos
civis e "ciência" (sim, fora dos manuais de epistemologia, ela é uma
atividade humana como qualquer outra que caminha ao sabor de circunstâncias
políticas e constructos sociais) já estiveram em lados diferentes das
trincheiras. Até 1990, a Organização Mundial da Saúde listava a
homossexualidade como uma doença mental. Os psiquiatras americanos faziam o mesmo
até 1977. Não sei se recomendava ou não o exorcismo, mas certamente autorizava
profissionais da saúde mental a tentar a "cura".
O
argumento contra a discriminação de minorias precisa ser moral. É errado
discriminar gays, negros e membros de qualquer seita religiosa porque não
gostaríamos de sofrer tal tratamento se estivéssemos em seu lugar.
sexta-feira, março 02, 2012
CONVITE
Queridos amigos,
na próxima quinta-feira - 08 de março - a partir das
19:30h ocorrerá o lançamento do meu novo
livro, John Cage e a poética do
silêncio. O evento, que está sendo
organizado pela Editora Letras Contemporâneas,
será na Fundação Badesc,
Florianópolis (Rua Visconde de Ouro Preto 216, a uma
quadra do TAC).
Espero que possam ir!
Grande abraço,
Alberto
CONVITE
Abrimos as portas da Gruta! no cair
da tarde, às 17h, tomados pela experimentação, com drinks, petiscos, cervejas
diversas e sinuca.
e Lançamento do livro Corpoalíngua: performance e esquizoanálize, de Clarissa Alcantara.
Quando: Domingo, 04 de março de
2012.
Hora: 17h
Passagem:R$2,65
Onde: Gruta! Rua Pitangui, 3613C.
Horto. BH/MG
CONVITE
O Navi -
Núcleo de Antropologia Visual e Estudos da Imagem da UFSC convida para a
exibição do filme documentário "Caverna dos Sonhos Esquecidos", de
Werner Herzog, que acontecerá na próxima quinta-feira, dia 08 de março, 20
horas, na parede externa da Casa das Máquinas, localizada na Praça Bento Silvério,
centrinho da Lagoa da Conceição.
A Mostra de Documentários, promovida
pelo Núcleo de Antropologia Visual da UFSC, em parceria com a Casa das
Máquinas, acontecerá quinzenalmente, sempre às quintas-feiras, 20 horas, a
partir do dia 08 de março.
quarta-feira, fevereiro 29, 2012
Diário de Berlim
Por: Bernardo Carvalho
No
recente “The Angel Esmeralda”, que reúne os contos de Don DeLillo publicados
entre 1979 e 2011, há uma história, de 2002, inspirada na série de quinze
quadros em preto e branco que Gerhard Richter pintou sobre o chamado “Outono
Alemão” — a escalada de atos terroristas que desencadeou, em 1977, uma crise
sem precedentes na Alemanha do pós-guerra. A série intitula-se “18 de Outubro
de 1977″ e se refere à data na qual, no ápice da crise, três membros da Facção
do Exército Vermelho (RAF), grupo guerrilheiro de esquerda popularizado como
Baader-Meinhof, foram encontrados mortos em suas celas, na prisão de segurança
máxima de Stammheim, em Stuttgart, onde cumpriam pena.
O
conto de DeLillo chama-se “Baader-Meinhof” e trata do encontro casual entre um
homem e uma mulher na galeria onde a série de pinturas está exposta, em Nova
York. A mulher nota a presença do homem atrás dela, enquanto admira o retrato
de Ulrike Meinhof morta, em 1976, com a marca da corda que a enforcou no
pescoço. A princípio ingênua, despreocupada e inconsequente, obnubilada pelo
desejo e pela solidão, ela acaba levando o desconhecido para casa. E só vai se
dar conta do risco, que desde o início assombrava o leitor com a expectativa de
estereótipos e clichês, quando o encontro já estiver a ponto de se desvirtuar
em cena de terror.
Os
quinze quadros que compõem o “18 de Outubro de 1977″, de Richter, estão
expostos até maio numa sala da Alte Nationalgalerie, como complemento da
retrospectiva (sensacional) do pintor na Neue Nationalgalerie. “Gosto de tudo o
que não tem estilo: dicionários, fotografias, da natureza, de mim mesmo e de
minhas pinturas. (Porque estilo é violência, e eu não sou violento.)”, Richter
declarou no início da carreira, em 1964. Desde então, fez outras tantas
declarações provocativas e contraditórias, que podem ser lidas como denegações,
no sentido psicanalítico do termo.
Basta
ver a retrospectiva (extremamente bem montada) da sua obra para entender que a
variedade (a suposta falta de estilo) obedece a um ciclo de questões,
inquietações e temas recorrentes, com uma assinatura muito reconhecível. A
rigor, não existe ação humana que não seja violenta (e não é por acaso que o
pobre monge e o eremita vão se isolar na montanha, fazendo o elogio da inação).
Como escreveu Sebald, em “Os Anéis de Saturno”, a presença do homem no planeta
se inaugura com a queima de combustíveis fósseis. Não há como sobreviver sem o
fogo. E o fogo, que mantém a vida, será também a sua destruição. É dessa
consciência trágica que nasce a arte.
Esses
dois paradoxos (o deliberado despojamento de estilo, transformado
necessariamente em estilo, e a humanidade condenada à violência, por mais que
lute contra esse estigma) dizem muito sobre a escrita e os livros de Don
DeLillo. Trata-se de um autor que sempre se interessou pelo terrorismo e que
sofreu nos últimos anos com a caretice de um tempo obcecado pelos bons
sentimentos transmitidos por belas palavras. Está aí algo que uma linguagem
“sem estilo” não pode fazer. E, talvez, por isso mesmo, ela seja, como a obra
de Gerhard Richter, tão adequada para tratar do que há de mais contraditório,
aterrorizante e trágico por trás das melhores intenções.
Por
falar nisso, uma amiga que dá aulas de português para adultos estrangeiros numa
escola pública aqui perto de casa andou adotando passagens deste diário para
discussão com os alunos em sala de aula. E me preveniu outro dia do risco de
passar perto da escola e ser apedrejado. Como estou determinado a sobreviver e
já tenho até passagem de volta para o Brasil, comprada pra daqui a dois meses,
quando termina minha temporada berlinense, achei que era uma boa ocasião para
interromper este diário, quase um ano depois do seu início. E antes que seja
tarde. Um abraço.
##################
O último texto publicado por Bernardo Carvalho na sua coluna Diário de Berlim, do BLOG DO I M S (Instituto Moreira Sales). Com uma percepção delicada e sincera, Bernardo narrou em vários textos seu mergulho de um ano na cultura alemã. Um ótimo diário de viagem. Vale a pena passar no Blog e ler os outros. (Maria Holthausen)
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CONTARDO CALLIGARIS
A língua que habito. O psicanalista e escritor italiano Contardo Calligaris fala (ao Jornal Rascunho) sobre sua relação com a...


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