domingo, abril 29, 2012

Homossexualidade e Psicanálise

A relação entre psicanálise e homossexualidade dificilmente pode ser considerada estável. A posição do próprio fundador da disciplina, que possuía uma compreensão “perversa polimorfa” da sexualidade, na qual “todos os seres humanos são capazes de fazer uma escolha de objeto homossexual e que de fato a consumaram no inconsciente”, era que a homossexualidade “não é motivo de vergonha, não é uma degradação, não é um vício e não pode ser considerada uma doença” Apesar disso, durante décadas as instituições psicanalíticas promoveram uma visão moralizante da conduta sexual, entronizando a heterossexualidade reprodutiva como destino de uma sexualidade supostamente normal.

 

Este debate perpassou a história da psicanálise, sendo abordado de maneiras diversas na esteira dos seus movimentos teóricos e instituições. Dois psicanalistas do Rio de Janeiro, Antonio Quinet (UVA) e Marco Antonio Coutinho Jorge (UERJ), propõem retomar os conceitos de Freud e de Lacan para trazer à luz para a sociedade o que a psicanálise tem a dizer sobre o assunto.Em conversa com o antropólogo Horacio Sívori, pesquisador do CLAM, Antonio Quinet e Marco Antonio Coutinho Jorge repassaram os modos como a homossexualidade foi abordada ao longo de mais de um século de psicanálise, e como essa questão continua a instigar a teoria e prática psicanalítica.

 

Horacio Sívori – Parece curioso a psicanálise se preocupar com a homossexualidade quando, na compreensão freudiana, a sexualidade é uma força cujo impulso se estruturaria para além, ou a despeito, de classificações sexológicas convencionais, como a distinção entre hetero, homo e bissexualidade.

 

Antonio Quinet - Freud elaborou o conceito de pulsão, para tratar justamente da “força” do “impulso” sexual. A pulsão sexual – a Trieb freudiana, infelizmente designada como “instinto” na tradução brasileira – se distingue do instinto sexual próprio do animal, pois ela é determinada pelo inconsciente. O “representante da pulsão” é uma “energia” que Freud designa de “libido”, que é da ordem do prazer, do desejo e do gozo. Essa pulsão está além, ou a despeito, como você diz, de qualquer classificação. Ao contrário, é ela que vai qualificar esta ou aquela atividade erótica: a pulsão oral, anal, escópica, etc., constituem a sexualidade, independentemente do sexo do parceiro. No sexo, o que interessa à pulsão sexual é a satisfação da zona erógena (a boca, o ânus, os genitais, mamilos, etc.). O parceiro do sexo é um objeto que, “na cama”, o sujeito recorta do corpo do outro. E isso independe do gênero dos parceiros sexuais. A pulsão é sempre parcial. E o coito genital não é absolutamente uma exigência da sexualidade, nem uma suposta “maturidade” da pulsão; e muito menos uma norma. A psicanálise se opõe à pedagogia do desejo, pois esta é uma falácia. Não se pode educar a pulsão sexual. Não se pode desviá-la para acomodá-la aos ideais da sociedade. A pulsão segue os caminhos traçados pelo inconsciente, que é individual e singular.

HS – Então, qual seria o lugar das chamadas identidades sexuais na teoria e prática psicanalítica?

AQ - Sobre a questão do que chamamos de orientação sexual, Freud utiliza o termo de “escolha de objeto” para designar uma escolha homo ou heterossexual, e propõe o conceito de bissexualidade estrutural para todo ser humano. Para a psicanálise, assim como a homossexualidade, o interesse exclusivo de um homem por uma mulher também merece esclarecimento. A investigação psicanalítica, diz Freud em seu texto premiado sobre Leonardo da Vinci, opõe-se à tentativa de separar os homossexuais dos outros seres humanos como um "grupo de índole singular", pois "todos os seres humanos são capazes de fazer uma escolha de objeto homossexual e que de fato a consumaram no inconsciente". O complexo de Édipo, que cai no esquecimento do Inconsciente, comporta, também a ligação libidinal do filho para com o pai e da menina para com a mãe, além das ligações do filho com a mãe e da filha com o pai. Assim, o número de homossexuais que se proclamam como tais, diz Freud, “não é nada em comparação com os homossexuais latentes”. Há uma diversidade enorme na homossexualidade tanto na praticada quanto na latente e sublimada. Devemos falar, portanto, de “homossexualidades” no plural, como está no título de nosso Colóquio.

A questão das identidades sexuais é complexa. O termo identidade não é um termo psicanalítico. Não é um conceito com o qual o psicanalista opera. Este lida com as identificações do sujeito que, como sujeito da linguagem, é dividido, por estrutura, sempre entre dois significantes. Não há “gay em análise” (título de um congresso de psicanalistas realizado na França), e sim sujeito de desejo, sujeito do inconsciente, cuja unicidade é falaciosamente suposta por meio de suas identificações. A identificação a um grupo, ou a um nome (ou a um significante definidor desse grupo) e até mesmo, dirá Lacan, ao “homem” e à “mulher” não define absolutamente o sujeito. E muito menos sua escolha de objeto, ou sua orientação sexual. Freud, como ele mesmo o diz, está mais próximo dos gregos da Antiguidade que valorizavam mais a pulsão do que seu objeto. Ao radicalizar a separação, operada por Freud, da posição sexuada em relação à anatomia, Lacan propõe formas distintas de gozo: o gozo fálico, que é o sexual propriamente dito tanto para homens quanto para mulheres, qualificado de ”masculino”; e um gozo para além do falo, o “gozo feminino”, que ultrapassa o sexo e até mesmo a linguagem. Em suas “fórmulas da sexuação”, Lacan situa, por exemplo, as mulheres histéricas do lado masculino; e do lado feminino todo aquele que se encontra no lugar de objeto de desejo, sem que isso corresponda a uma definição de gênero. Nesse sentido, subverte totalmente a questão da “identidade”, dos grupos, redutos e guetos. O que não quer dizer que, em termos de estratégia política, o tema de identidade não tenha sua utilidade. Mas sem que o sujeito se engane sobre essa suposta definição de sua “identidade” singular.

HS - Qual o alcance atual da despatologização da homossexualidade promovida no campo psi há mais de 30 anos?

AQ - Ao responder a uma mãe preocupada com a homossexualidade do filho, Freud, em 1935, aponta que esta não é nenhuma desvantagem, nem tampouco uma vantagem, "ela não é motivo de vergonha, não é uma degradação, não é um vício e não pode ser considerada uma doença". Apesar dessa indicação de Freud em 1935 – o qual cinco anos antes assinara uma petição a favor da descriminalização da homossexualidade –, só em 1973 a American Psychiatric Association (APA) deixou de considerar a homossexualidade como doença. E isso, depois que ativistas gays, por duas vezes (1970 e 1971), invadiram o encontro anual da APA. Mas, por incrível que pareça, analistas da IPA (Associação Internacional de Psicanálise) se colocaram contra e fizeram um manifesto com duzentas assinaturas contra a retirada da homossexualidade da lista de doenças. Acabaram vencidos e, mesmo assim, só em 1993 a OMS retirou-a da sua classificação internacional de doenças. Essas duas correntes continuam existindo na psicanálise. Hoje em dia, os analistas adeptos da concepção de doença são menos explícitos, pois não fica bem ser homofóbico. Seus discursos são menos violentos e repressores, mas não deixam de existir.

MACJ - Por incrível que pareça, os psicanalistas talvez tenham sido os que mais reagiram a esta despatologização, e ainda reagem hoje bastante a ela. Haja vista a querela sobre a homoparentalidade ocorrida na França há alguns anos que opôs dois grupos de psicanalistas: de um lado, Elizabeth Roudinesco e Sabine Prokhoris, entre outros, defenderam a legalização da adoção de crianças por casais homossexuais e reconheceram o desejo deles de filiação como plenamente legítimo; de outro, Jean-Pierre Winter e Charles Melman, entre outros, se opunham a isso e usavam a teoria psicanalítica como argumento para sustentar suas posições altamente conservadoras. É impressionante ver psicanalistas lacanianos assumirem posturas tão conservadoras e malsãs, condizentes com as opiniões menos esclarecidas da população. Os psicanalistas, quando se trata de homossexualidade, se tornam frequentemente religiosos, no sentido de que pregam uma versão única da verdade para todos. Ora, nós sabemos que a singularidade do desejo do sujeito é a mola mestra da ética da psicanálise, tal como sustentada por Lacan, de modo que qualquer ideal de normativização do pensamento ou do comportamento deve ser considerada anti-freudiana e anti-lacaniana.

AQ - Do ponto de vista da psicanálise, podemos pensar que esses analistas adotam o senso comum quanto ao homossexual, que provoca o imaginário de um gozo outro, tão diferente – e ao mesmo tempo tão semelhante – ao do “normal” que ameaça. Então, para a consciência da norma, é melhor qualificá-lo de pervertido, não-confiável, pois é um gozo periférico, daí ser peri-goso. Por outro lado, a exemplo de Ana Freud, a aceitação da homossexualidade do outro se encontra na dependência de como o sujeito lida com a sua própria. Quanto mais ele a rejeita em si mesmo, menos saberá lidar com ela, podendo fazer desse outro um objeto de ódio, de agressões e até de assassinato. O desejo pelo outro, ao ser recusado, pode se transformar em ódio. Da homofobia ao homoterrorismo é um passo. Um pouco mais de análise não faria nada mal a esses analistas!

HS – Existe uma polêmica desde o surgimento da psicanálise e a partir da transmissão dela para os discípulos de Freud. Vários historiadores da psicanálise mencionam uma “puritanização” da psicanálise, particularmente por parte de analistas norte-americanos, de quem o próprio Freud disse, “eles não sabem que estamos a trazer a peste”.

AQ - Não há um consenso e isso tem uma história que se encontra nos pós-freudianos. Ernest Jones, biógrafo de Freud, vai contra a posição de Freud de permitir o acesso normal de homossexuais à formação analítica. Freud considerava existir vários tipos de homossexualidade, e que cada caso deveria ser apreciado, assim como qualquer candidato. A historiadora da psicanálise Elisabeth Roudinesco relata que Jones, ao contrário, considerava que a homossexualidade “é um crime repugnante; se um de nossos membros o cometesse, seríamos objeto de grande descrédito”. Ana Freud também foi contra o pai, deturpando sua teoria, militando contra o acesso de homossexuais na psicanálise e tentando em sua clínica converter os homossexuais em bons pais de família. Logo ela que nunca foi vista com homem nenhum, e partilhou toda sua vida com uma mulher sem nunca ter se assumido homossexual. Roudinesco também lembra que Melanie Klein considerava a homossexualidade como um distúrbio esquizóide para se defender da paranóia. Este quadro é o legado freudiano que chegou aos Estados Unidos e se expandiu pela Europa!

Depois do Congresso da IPA de Barcelona em 1997, em que Ralph Roughton, analista didata, e outros se declararam homossexuais e traçaram o histórico da questão do ponto de vista institucional e teórico, podemos dizer que não se pôde mais tratar o tema da mesma forma repressiva na IPA. Com Lacan, houve uma retomada dos princípios e da ética da psicanálise, o que não impede hoje alguns pós-lacanianos de também deturparem seu ensino e retomarem teses que, embora sofisticadas, são impregnadas da concepção de desvio e anormalidade, que serão retomadas em detalhes em nosso Colóquio.

HS - Quais as definições ou usos atuais da categoria "perversão", se não associada ao desvio de um desejo sexual considerado mais legítimo ou sadio?

MACJ - A homossexualidade não é uma perversão, porque a noção de perversão implica, antes de mais nada, em que haja uma versão correta! É digno de nota que a homossexualidade foi considerada originalmente uma inversão, antes de ser tratada como uma perversão. A inversão significa que algo está totalmente de cabeça para baixo. Vê-se que de fato trata-se sempre de crer na existência de uma versão normal e conforme da sexualidade. Esta não é a minha concepção nem acredito que seja a de Freud. Porque a homossexualidade é, no fundo, uma subversão radical. Mais essencialmente ainda, considero que a homossexualidade é, na verdade, a revelação da subversão inerente à sexualidade humana, que não se subordina a nenhum ideal. Se não há inscrição da diferença sexual no inconsciente, como demonstraram Freud e Lacan, cada sujeito construirá uma sexualidade – homo, hetero ou bi–absolutamente legítima. Pois não cabe a ninguém autorizar a sexualidade de ninguém. Isso sim seria perversão, querer tomar-se pelo Outro e querer fazer a Lei para o desejo do Outro. Nada mais distante da psicanálise do que isso.

AQ - Apesar do termo “perversão” estar articulado historicamente a “desvio da norma” sexual e à noção de perversidade e periculosidade, a psicanálise o utiliza de maneira bem diferente. Em primeiro lugar, Freud generaliza a perversão: a sexualidade é não só perversa, mas “polimorfo-perversa”, pois a sexualidade admite toda a variação possível, sendo seu objetivo unicamente a satisfação pulsional. A conexão da sexualidade com a reprodução é um dado científico-religioso que o sexo desconhece. Por outro lado, perversão é uma das “estruturas clínicas”, ao lado da neurose e da psicose. Não é mais patológica do que as outras. São três modos de se lidar com a castração simbólica, ou melhor, três meios de negá-la, pois ela, tanto para o homem quanto para a mulher, gera angústia e ameaça. Para a psicanálise, um homossexual pode ser neurótico (histérico, obsessivo, fóbico), psicótico (esquizofrênico, paranóico) ou perverso (fetichista, sádico, masoquista, voyeur, etc.). E mesmo dentro de cada tipo clínico, a diversidade é imensa. São também três maneiras de gozar: o neurótico não sabe como gozar, o psicótico atribui o gozo ao Outro, e o perverso se faz de instrumento do gozo do Outro.

Identificar todo homossexual à perversão é algo que a clínica desmente e só pode advir de uma leitura apressada, de preconceito ou de homofobia (a respeito da própria homossexualidade ou da homossexualidade dos outros). Não existe “O Homossexual”, e sim homossexuais, tanto quanto neuróticos, psicóticos e perversos. Lacan aproxima a perversão da sublimação, mostrando que são duas formas de se atingir um gozo para além do princípio do prazer, que é da ordem da criação – o perverso com a fantasia e o artista com a obra. E, no final de seu ensino, nos anos setenta no seminário RSI, “Real, Simbólico, Imaginário”, ele desconstrói o conceito fazendo um trocadilho entre perversion e père-version, apontando que a perversão é uma versão do pai, que ele designa como “aquele pai que tem uma mulher como objeto de desejo”. Lá onde se esperava a norma, Lacan coloca a perversão, como a característica por excelência da sexualidade.

HS - São freqüentes os relatos de pacientes e de profissionais que transitaram numa análise ou numa formação psicanalítica, de práticas homofóbicas por parte de analistas e de instituições, como a tentativa de "curar" tendências homossexuais, ou a regra (formal ou informal, explícita ou não) que impedia um/a homossexual assumido de se tornar analista.

MACJ - Tudo decorre da mesma noção normativizante, e eu diria mesmo pré-freudiana, da sexualidade. Freud foi tão claro e sereno quanto a isso: ao finalizar sua obra mais importante sobre a sexualidade, os Três ensaios sobre a teoria da sexualidade, ele asseverou que "quando a homossexualidade não é considerada um crime [sim, porque na época esta questão era colocada desse modo em muitos lugares da Europa], ver-se-á que ela responde amplamente às inclinações sexuais de um número não pequeno de pessoas". O colóquio tratará desse aspecto em especial, com a apresentação de pesquisas feitas sobre a homofobia nas instituições de psicanálise e na literatura psicanalítica.

AQ – Conheço vários casos de homossexuais cujos analistas tentaram “curá-los”, seja por pedido deles mesmos por não aceitarem sua atração pelo mesmo sexo, seja da parte dos analistas que queriam – baseados na teoria freudiana da bissexualidade – “desrecalcar” a heterossexualidade latente. Não conheço nenhum analista que tenha tentado fazer o contrário. Ouvi também relatos de pacientes cujos analistas queriam fazer o sujeito masculino ter relações com mulheres para “perder o medo do outro sexo” e “afrontar a castração”. E até mesmo, máximo do cinismo, ouvi um caso em que o analista tentou ensinar o sujeito a fazer sexo oral com uma mulher. Quando o analisante não sai dessa análise, os resultados podem ser catastróficos, indo até, por exemplo, a produção de um quadro deliróide/delirante, como já tive a oportunidade de observar. Essas conduções de análise por esses analistas causam o descrédito da psicanálise, impedindo que aquele sujeito se beneficie da análise para ultrapassar suas reais dificuldades. Quanto á formação analítica, não há uma regra escrita, que eu conheça, em nenhuma Sociedade ou Escola de Psicanálise que impeça homossexuais de entrarem numa formação, mas o boicote se dá ainda em muitos lugares, através de diversos procedimentos que vão da coação a impedimentos até a indiferença na instituição.

HS – Que matizes são possíveis na produção psicanalítica atual, a respeito da abordagem das homossexualidades e do que é chamado de perversão?

MACJ - Há diferentes versões sobre a homossexualidade e sobre a perversão na psicanálise. Nesse sentido, nosso colóquio poderia ter se intitulado igualmente "As homossexualidades e as psicanálises": Pode-se dizer que existem tantas versões sobre a homossexualidade e a perversão quanto psicanálises. Mas de uma forma geral, acredito que há um ponto de resistência crucial dentro da própria psicanálise em relação à despatologizar de fato a homossexualidade. Trata-se de um ponto opaco, resistencial, que concerne a meu ver a uma resistência à própria concepção psicanalítica da sexualidade como um todo e não apenas à homossexualidade. Há uma resistência fundamental em aceitar a concepção freudiana da sexualidade, francamente desvinculada dos ideais da ciência e da religião. É através destas que a maior resistência se produz dentro da psicanálise. Há um fundo de religiosidade que faz com que os psicanalistas possam às vezes, infelizmente, se unir ao senso comum, para o qual é preciso dar um sentido unívoco à vida e logo à sexualidade.

Quanto à religião, a minha hipótese é a seguinte: a Igreja católica produziu um golpe de mestre ao condenar a homossexualidade por um lado e produzir, por outro, a segregação dos sexos no convívio entre seus religiosos. O resultado foi uma única e atraente mensagem: quem quiser vivenciar a sua homossexualidade, vinde até nós! A força da Igreja católica certamente dependeu da força de sua convocatória dirigida aos homossexuais e, se ela hoje está decadente, acredito que isso se deu em concomitância à aceitação da homossexualidade pela cultura ocidental. Não é mais necessário ser padre ou freira para viver a sua homossexualidade. O início da decadência da Igreja se deu muito próximo a revolta de Stonewall.

segunda-feira, abril 16, 2012

Dicas de Leituras


LIVROS DE CONTOS DISTRIBUIDOS
GRATUITAMENTE ENTRARAM
 NA MODA DE VEZ

Em menos de 1 mês o mercado editorial sofreu uma reviravolta. Depois que a editora Curitiba Tulipas Negras Editora estreiou no mercado editorial com uma proposta interessante. A partir do slogan “Conto não vende? Ótimo. Só publicamos contos”, agora é a vez da também Curitibana CODE publicar e distribuir gratuitamente livros de contos.

A novidade, porém, é que além das versões impressas os livros de contos também podem ser baixados em versões para serem lidos em Tablets e em PDF.

A editora já que inaugura um novo selo - CODE - pretende com ele trazer a público novas possibilidades de leitura a partir do conto. na estréia traz o escritor paranaense Geraldo Peçanha de Almeida. O texto, quase proibido para menores, conta a história de Valentina, uma mulher que sempre espera por um amor que nunca se realiza. Embora seus encontros com homens não tenham sido escassos o que ela sente falta mesmo é daquele sentimento que arrebata, que sufoca, que desestabiliza, que faz perder o comando da vida e das coisas. Ela espera ser amada, mas tudo que lhe sobre são migalhas de um sentimento que talvez pudesse ser chamado de solidão ou simplesmente de abandono.

Geraldo Peçanha de Almeida escreve este conto como se tivesse narrando um filme dramático daqueles que sabidamente não tem final feliz. Sua escrita é forte e sobreposta. Em alguns momentos temos a impressão que há duas histórias entrelaçando-se, mas em outros momentos percebemos que se trata apenas de uma história em dois momentos diferentes. É uma narrativa visceral, exatamente como são as histórias de amor ou os dramas vividos por ele.

SERVIÇO

LANÇAMENTO DE LIVRO: dia 13 de abril de 2012

TÍTULO: Gosto de Sal

AUTOR: Geraldo Peçanha de Almeida

TAMANHO:17 x 11

VALOR: gratuito

EDITORA: Code

ISBN: 978-85-61379-38-4


Livrateria


A Livrateria inaugura sua loja oferecendo
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Alexandre Silva
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segunda-feira, abril 02, 2012

Virtualização dos saberes


Na discussão sobre se o virtual é real, Pierre Lévy defende que a interação e troca do conhecimento, propiciados pela Cibercultura, possibilita ao homem participar de uma "inteligência coletiva", que funcionará como instrumento para resgatar a sua subjetividade.

O advento das tecnologias eletrônicas na Cultura contemporânea conduz a uma frutífera­ reflexão sobre a questão da virtualização dos saberes, circunstância própria da era informática na qual, de uma maneira geral, estamos todos inseridos. Certamente, jamais encontramos tanta facilidade para a divulgação imediata de conteúdos tal como atualmente existe no sistema informático, circunstância que, interpretada por um viés otimista, representa uma democratização do processo de criação intelectual e sua consequente difusão pública. Nessas condições, Pierre Lévy afirma: "As atividades de pesquisa, de aprendizagem e de lazer serão virtuais ou comandadas pela economia virtual. O ciberespaço será o epicentro do mercado, o lugar da criação e da aquisição de conhecimentos, o principal meio da comunicação e da vida social".

A "Cibercultura" é um termo utilizado na definição dos agenciamentos sociais das comunidades no espaço eletrônico virtual. Estas comunidades estão ampliando e popularizando a utilização da Internet e outras tecnologias de comunicação, possibilitando assim maior aproximação entre as pessoas de todo o mundo. Este termo se relaciona diretamente com as dinâmicas sociais, econômicas, políticas e filosóficas dos indivíduos conectados em rede, bem como a tentativa de englobar os desdobramentos que este comportamento requisita.

Uma análise genealógica do conceito filosófico de virtual nos remete diretamente a Aristóteles, que estabelece a célebre distinção entre ato, aquilo que está efetivamente realizado, e potência, aquilo que virá a ser e que existe em nível intensivo: "O que não tem potência de ser não pode existir em parte alguma, enquanto tudo o que tem potência pode também não existir em ato. Portanto, o que tem potência para ser pode ser e também pode não ser: a mesma coisa tem possibilidade de ser e de não ser".

A base ontológica da Internet se sustenta pela qualidade do virtual, conceito problematizado na Filosofia Contemporânea, em especial por Gilles Deleuze e por Pierre Lévy, que segue nesse quesito os parâmetros intelectuais delineados por aquele. É importante destacar que, para a consciência irrefletida do senso comum, o virtual representaria algo próprio do irreal, quiçá inexistente de fato. Todavia, tal perspectiva não corresponde ao significado filosófico de virtual: algo que existe sem possuir, todavia, concretude, caráter palpável, encontrando-se assim em estado de potência; o virtual ainda não é de fato, atual, mas poderá vir a ser; assim sendo, o virtual de alguma maneira já existe, ainda que em uma dimensão não concreta. Conforme argumenta Deleuze, "O virtual não se opõe ao real, mas apenas ao atual. O virtual possui uma plena realidade como virtual [...] O virtual deve ser definido como uma parte própria do objeto real - como se o objeto tivesse uma de suas partes no virtual e aí mergulhasse como numa dimensão objetiva".

O virtual se caracteriza pela intensidade. A potência do virtual reside na sua fonte indefinida de atualizações, circunstância que transcende as naturais limitações espaço-temporais tal como existentes nos processos difusores comuns. Decorre desse contexto a assimilação do conceito de virtual pelo jogo de linguagem da Informática, ela mesma um modelo de discurso epistemológico que trouxe para o âmbito do pensamento humano a reflexão sobre a possibilidade de um meio desprovido de extensão fornecer aos seus usuários uma possibilidade de trocas constante de conteúdos informativos. Pierre Lévy afirma que "Na acepção filosófica, é virtual aquilo que existe apenas em potência e não em ato, o campo de forças e de problemas que tende a resolver-se em uma atualização. O virtual encontra-se antes da concretização efetiva ou formal (a árvore está virtualmente presente no grão). [...] É virtual toda entidade "desterritorializada", capaz de gerar diversas manifestações concretas em diferentes momentos e locais determinados, sem contudo estar ela presa a um lugar ou tempo em particular". Um meio virtual, no sentido amplo, é um universo de possíveis, calculáveis a partir de um modelo digital.

ENTRE DOIS MUNDOS

O virtual não se contrapõe ao real tal como nós o conhecemos no cotidiano; é, na verdade, uma espécie de extensão desse mundo que denominamos como "real" por meio de instâncias imateriais, justamente pelo fato de não depender de bases concretas para se desenvolver: "O virtual não "substitui" o "real", ele multiplica as oportunidades para atualizá-lo".  Nessas condições, torna-se claro que em cada momento de nossas existências e experiências nos encontramos plenamente delineados pela condição virtual: "O mundo humano é "virtual" desde a origem, mesmo antes das tecnologias digitais, porque contém por todo o lado sementes do futuro, possibilidades inexploradas, formas por nascer que a nossa atenção, os nossos pensamentos, as nossas percepções, os nossos atos e as nossas invenções não param de atualizar".

O desenvolvimento das tecnologias informáticas, considerada em uma dimensão intelectual, expressaria a culminação da experiência da "pós-modernidade", caracterizada pela contraposição aos discursos totalizantes e às narrativas teleológicas (progresso contínuo da humanidade, ação soteriológica do saber científico) próprias da era moderna. A exaustão desse projeto civilizatório conduziu, no plano da construção social do conhecimento, a uma valorização das diferenças e a necessidade de inclusão antropológica dos grupos até então relegados aos confins periféricos da criação intelectual. Obviamente que as facilidades técnicas proporcionadas pelo advento da informática dinamizaram a produção dos saberes e sua subsequente comunicação, inclusive por indivíduos alheios ao mundo acadêmico. Conforme destacado pelo filósofo francês Jean-François Lyotard, "É razoável pensar que a multiplicação de máquinas informacionais afeta e afetaria a circulação dos conhecimentos, do mesmo modo que o desenvolvimento dos meios de circulação dos homens (transportes), dos sons e, em seguida, das imagens (Mídia) o fez".

A expansão da informática e sua culminação epistemológica pela Internet possibilitaram o desenvolvimento de um sistema colaborativo entre os indivíduos separados espaço-temporalmente em decorrência das condições físicas da própria condição concreta da existência, mas virtualmente unificados pela grande rede: "Sujeitos e objetos, autores e destinatários perdem a sua bem distinta identidade em favor de redes contínuas de produção de informações".

Os recursos interativos disponíveis antes do advento da Internet se fundamentavam tecnicamente nos padrões "Um-Um" (telefone) e "Um-Todos" (televisão, rádio, jornal). A propagação da Internet faz com que alcançamos assim o estado comunicativo denominado por Pierre Lévy de "Todos-Todos", caracterizado por promover a interação plena de informações entre todos os usuários, sujeitos criadores, conectados na rede virtual. A disposição informativa "Todos-Todos" promove a interação mútua de informações entre todos aqueles que se encontram conectados na rede virtual, pois que, conforme vimos anteriormente, esse meio elimina as barreiras das categorias do espaço e do tempo.

A mensagem parte de um centro difuso para atingir uma periferia numerosa de receptores separados entre si fisicamente. Esse processo comunicativo é o único que torna os usuários centros ativos da construção dos modelos de contato interpessoal. Cada um de nós pode perfeitamente fazer parte desse processo de construção coletiva de conhecimentos a ser compartilhado publicamente no Ciberespaço, dimensão virtual na qual ocorrem as interações informativas entre as pessoas, sem que, todavia, exista uma definição nítida do espaço e do tempo no qual se dão tais acontecimentos. A partir da expansão da Internet, a possibilidade de haver uma maior comunhão dos conhecimentos elaborados alcançou um nível jamais imaginado até então pelas estruturas epistemológicas das eras precedentes. Todavia, há uma curiosa tendência a se dizer que a Internet consumou o esvaziamento das relações pessoais. Será que é mesmo a Internet a motivadora por excelência da separação afetiva entre as pessoas? Ou não seria talvez o ritmo vertiginoso das relações de trabalho, os inúmeros problemas de infraestrutura da sociedade contemporânea que motivam esse distanciamento interpessoal?

Na era informática, a construção antropológica do saber se torna uma experiência multilateral, e não mais unilateral, conforme os princípios dogmáticos da instituição teológica normativa (sectária do argumento de autoridade), ou bilateral, disposição característica da relação dialógica; desse modo, todos os sujeitos devidamente conectados na rede eletrônica tornam-se difusores de conceitos, informações, saberes. Pierre Lévy denomina essa experiência holística de "inteligência coletiva", pois a Internet depende, para o seu contínuo progresso, da atividade plena dos seus usuários, que elaboram de maneira interativa os conteúdos disponibilizados na rede virtual: "O problema da inteligência coletiva é descobrir ou inventar um além da escrita, um além da linguagem tal que o tratamento da informação seja distribuído e coordenado por toda parte, que não seja mais o apanágio de órgãos sociais separados, mas se integre naturalmente, pelo contrário, a todas as atividades humanas, volte às mãos de cada um". A finalidade da inteligência coletiva consiste em colocar os recursos das grandes coletividades ao serviço das pessoas e dos pequenos grupos, e não o contrário. Tanto melhor, ela engendra uma mobilização otimizada das competências criativas dos indivíduos: "Longe de fundar as inteligências individuais em uma espécie de magma indistinto, a inteligência coletiva é um processo de crescimento, de diferenciação e de retomada recíproca das singularidades".

Trata-se do deslocamento de um sistema em que o emissor produz um discurso, enviando-o em seguida para um grupo de receptores para uma estrutura de comunicação multidirecional, onde não está definido quem são os emissores e os receptores. O filósofo polonês Adam Schaff  postulava que a sociedade informática permitirá a formação do homem universal, no sentido de sua formação global, que lhe permitirá fugir do estreito caminho da especialização unilateral e não de se libertar do enclausuramento numa cultura nacional - para converter-se em um cidadão do mundo no melhor sentido do termo.

O jogo de linguagem da Internet exige do usuário uma transformação em seus paradigmas intelectuais, sustentados tradicionalmente por uma adequação a um modelo epistemológico de caráter centralizador próprio da configuração ideológica da Cultura ocidental, marcada pelo respeito cego ao argumento de autoridade e aos discursos universalistas próprios da tradição ocidental. Contudo, o advento das redes informáticas originou a divisão infinita da subjetividade humana e seus dispositivos intelectuais. Nesse contexto, o sociólogo espanhol Manuel Castells pondera que "A elasticidade da Internet a torna particularmente suscetível a intensificar as tendências contraditórias presentes em nosso mundo. Nem utopia nem distopia, a Internet é a expressão de nós mesmos através de um código de comunicação específico, que devemos compreender se quisermos mudar nossa sociedade". A estrutura da comunicação em rede aponta para desdobramentos otimistas no que se refere ao processo de democratização do sistema de comunicação e de interação. Para Pierre Lévy, "O uso socialmente mais rico da informática comunicacional consiste, sem dúvida, em fornecer aos grupos humanos os meios de reunir suas forças mentais para constituir coletivos inteligentes e dar vida a uma democracia em tempo real".


REORGANIZAÇÃO DOS ESPAÇOS

Arquivos imensuráveis, a partir do uso do aparato informatizado, são substituídos por recursos especializados virtuais que substituem, a nível quantitativo, o grande espaço físico destinado ao armazenamento de informações, enquanto que, numa dimensão qualitativa, esses dados podem ser organizados de modo extremamente meticuloso, evitando-se assim os transtornos que ocorrem comumente com os arquivos materiais, tais como danificação dos conteúdos pela ação do tempo ou perdas irreparáveis desses suportes físicos. Pierre Lévy conclama para que nos "Lembremos que uma das principais virtudes de tecnologias intelectuais consiste em oferecer ao sistema cognitivo humano memória externa e sistemas de representação próprios para aliviar a tarefa de sua memória a curto prazo e facilitar a concentração de sua atenção aos elementos mais pensamentos de um problema em dado instante".

Nicholas Negroponte, fundador do celebérrimo MIT, em um comentário preciso, destaca que a Internet oferece um novo veículo para se sair em busca de conhecimento e sentidos. Por conseguinte, a Internet, possibilitando a comunicação global, a fusão intelectual entre emissores e receptores e o estabelecimento da interatividade virtual se estabelece em nossa era como um grande marco epistemológico. Desde as suas origens, a escritura foi concebida e utilizada sob forma de signos relativamente estáticos sobre um suporte físico. Hoje, graças às telas interativas, a informática abre possibilidades radicalmente novas à expressividade do pensamento. Tal como destacado por Nicholas Negroponte: "A superestrada da informação nada mais é do que o movimento global de bits sem peso à velocidade da luz". Nessas condições, os discursos contestadores da pertinência da realidade virtual para a vida humana acabam sendo derrotados pela incompreensão da própria natureza do processo de instauração dos conteúdos informáticos da Internet, talvez pelo fato de que esta, por não existir de forma concreta, extensiva, dê a impressão de que apenas lida com ilusões.

Referências:

ARISTÓTELES. Metafísica. Trad. de Marcelo Perine. São Paulo: Loyola, 2005.
CASTELLS, Manuel. A Galáxia Internet: reflexões sobre a Internet, os negócios e a sociedade. Trad. de Maria Luiza X. de A. Borges. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
DELEUZE, Gilles. Diferença e Repetição. Trad. de Luiz Orlandi e Roberto Machado. Rio de Janeiro: Graal, 2006.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. Trad. de Carlos Irineu da Costa. São Paulo: Ed. 34, 1999.
_____. Filosofia Word - o mercado, a cibercultura, a consciência. Trad. de Carlos Aboim de Brito. Lisboa: Instituto Piaget, 2000.
_____. A conexão planetária: o mercado, o ciberespaço e a consciência. Trad. de Maria Lúcia Homem e Ronaldo Entler. São Paulo: Ed.34, 2001.
_____. A ideografia dinâmica: rumo a uma imaginação artificial? Trad. de Marcos Marcionilo e Saulo Krieger. São Paulo: Loyola, 2004.
_____. A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. Trad. de Luiz Paulo Rouanet. São Paulo: Loyola, 2003.
_____. A Máquina Universo: Criação, Cognição e Cultura Informática. Trad. de Maria Manuela Guimarães. Lisboa: Instituto Piaget, 1995.
LYOTARD, Jean-François. A condição pós-moderna. Trad. de Ricardo Corrêa Barbosa. Rio de Janeiro: José Olympio, 2002.
NEGROPONTE, Nicholas. A Vida Digital. Trad. de Sérgio Tellaroli. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
SCHAFF, Adam. A sociedade informática. Trad. de Carlos Jordão Machado e Luiz Arturo Obojes. São Paulo: Brasiliense, 2007
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  •  Renato Nunes Bittencourt
FONTE: Revista FILOSOFIA

terça-feira, março 20, 2012

CONVITE

Quinta feira dia 22 de Março - Mostra de Documentarios do NAVI – UFSC
projeção ao ar-livre na Praça da Lagoa


20 horas : “Sinfonias Urbanas”

“Homem com a camera de filmar” dir: Dziga Vertov, 1929, 67’

 Homem com a camera de filmar é o mais puro exemplo da ruptura total do cinema com a literatura e a dramaturgia, uma autêntica iniciação aos segredos da linguagem cinematográfica. Dziga Vertov criou o Kino-Pravda (Cine-Verdade) e o Kino-Glaz (Cine-Olho), novos conceitos para captação da realidade, formatada dentro de uma montagem visionária que influenciaria o cinema do Pós-Guerra. As imagens são deslumbrantes e de grande impacto visual. Sem dúvida um dos filmes mais importantes de todos os tempos. A trilha sonora é composta e conduzida pela Alloy Orchestra, seguindo as instruções escritas por Dziga Vertov.

“Rien que les heures” dir: Alberto Cavalcanti, 1926, 60’

Alberto Cavalcanti, cineasta brasileiro – pouco conhecido por aqui - antecipa as sinfonias urbanas de Vertov e Ruttmann, quando realiza, em 1926, Rien que les heures.
Como escreve Elizabeth Sussex, “Rien que les heures, o primeiro filme que ousou mostrar a vida comum do dia a dia de uma cidade, merece um olhar com o olho do presente. Isso nos ajuda a desvendar a carreira de Cavalcanti como um todo: o approach dramático, a consciência social contrastando as vidas de ricos e pobres. Sua reputação sofreu uma negligência inicial porque seu impacto foi roubado pelo Berlin, de Ruttmann, realizado depois mas exibido antes na Inglaterra e na América”.

terça-feira, março 13, 2012

O risco de ser autoritário


Há um risco de sermos enganados quando o debate toma o rumo da convergência.

Por: Renato Janine Ribeiro

Há um risco de sermos enganados quando o debate toma o rumo da convergência. Num momento alto da obra de Platão, um sofista ataca o diálogo socrático, que pareceria justamente a forma mais igualitária de cooperação intelectual: “Como és autoritário, Sócrates!” Haveria um autoritarismo embutido na condução delicada, gentil, mas nem por isso menos perigosa, dos argumentos pelo grande mestre da Filosofia. Daí, nasce toda uma escola de desconfiança em face dos diálogos. Os desconfiados incluem certamente Nietzsche, talvez Pascal, com certeza os psicanalistas. Eles não querem seguir uma argumentação. Esta, com toda a sua aparente limpidez, oculta emboscadas terríveis. É melhor pensar a linguagem, não como o lugar da cooperação e da compreensão mútuas, mas como o do engano, proposital ou não, do outro ou de nós mesmos. O mais óbvio, disse-me uma vez um psicanalista, não é nos entendermos. É não nos entendermos. É nos entendermos errado. E isso não só em relação ao outro, mas a gente mesmo. Eu mesmo posso não saber o que estou pensando, o que estou dizendo.
Daí, uma das práticas mais notáveis da Psicanálise, que consiste no divã e em tudo o que ele implica. Um psicanalista, quando recebe você, não está iniciando um diálogo. Se alegar que você tem complexo de Édipo (ou o que quer que seja), justificando sua afirmação com o que você disse ou fez, adeus, análise. Ele se colocará no nível do paciente e transformará o que seria um procedimento ímpar de experiência humana numa mera conversa. Nenhuma mudança ocorrerá. Agora, se ele fizer silêncio, se se recusar a responder, a justificar, a esclarecer, ele poderá – notem bem, poderá, porque nada disso está garantido – fazer com que o paciente descubra, por si mesmo, que se empenhava em enganar o analista, em enganar a si próprio, em apenas conseguir justificações para continuar como estava. O divã, dizia eu: ele evita que o paciente controle o analista, ele impede que entre os dois se promova um diálogo ou conversa ou conversação ou negociação. Todas essas opções trairiam a análise. Todas estariam baseadas na crença de que as duas partes estão no mesmo caminho, na mesma direção. Justamente, não estão. Meu analista pode ter as melhores intenções do mundo, mas ele é ele e procura seus próprios objetivos – inclusive, ganhar dinheiro. É à medida que eu descubra quais são os meus objetivos, qual é minha diferença específica, que poderei encontrar algo que é mal definido, que ao longo do tempo a Psicanálise nomeia de formas muito diferentes e que, sobretudo, ela talvez não seja muito apta a proporcionar – quer se chame cura, tratamento, alta, final, sentir-se melhor, aceitar-se como é. Para cada um desses nomes, há textos canônicos, inclusive do próprio Freud, que podem sustentá-lo.
Não é fascinante esse ponto de partida e, digamos, toda essa trajetória? Partirmos do misunderstanding, do engano quanto ao que foi dito, é interessante. Manter-se no risco da má compreensão é uma tarefa difícil. Segui-la sempre, suportar o fato de que sempre estaremos entendendo mal tudo, inclusive a nós mesmos, exige quase um super-homem nietzschiano. Essa, provavelmente, a força da Psicanálise.
Mas também o seu risco. Porque, para ir por esse caminho, o analista não pode dialogar. O que é sua força é também seu perigo. Quem diz, afinal, que ele tem razão? Quem diz, tudo levado a seu termo, que a análise adiantou? Ninguém tem segurança disso. E talvez por isso a Psicanálise dê os resultados mais diversos. Há quem saia dela com um novo vigor, sabendo assumir tudo o que o destino lhe reserve. E há quem a encerre sem ter ganhado nada. Mas provavelmente ambos os finais têm a ver com essa negação do diálogo, que não é fortuita, mas essencial à Psicanálise.


Fonte: site da Revista Filosofia.

segunda-feira, março 12, 2012

Lançamento



Entrevista com Antonio Quinet

Por que decidiu pesquisar o outro na obra de Lacan e como foi esse percurso?
Tomei a liberdade de salientar a importância do conceito de alteridade na psicanálise, que foi tão desenvolvido por Lacan, concomitante ao conceito de sujeito. Não há sujeito sem o outro, em qualquer ponto que se tome na teoria lacaniana. Esse atrelamento do sujeito com a alteridade é o que constitui a dor a a delícia de cada um na sua relação com os outros - tão complexa e tão fundamental. Os outros não são apenas um inferno, como afirmou o personagem de Sarte em Huis clos, mas também o purgatório, o céu, a terra, o ar e a a água. Uso aqui essa metáfora, para acentuar a diversidade e a multiplicidade do que constitui a alteridade para o humano.
A ideia deste texto veio do convite que recebi para inaugurar as conferências preparatórias de Jacques Derrida no Brasil. Eu queria fazer dialogar os diferentes conceitos do outro em Lacan com o que Derrida propõe - a partir de sua leitura do texto de Freud "Porque a guerra?" - a respeito da "abertura para a chegança do outro, como um outro radicalmente outro em sua diferença absoluta". Ali estava o embrião deste livro.

Por que selecionou essas cinco modalidades de outro?
Porque são essas modalidades da alteridade que encontrei sistematizadas no ensino de Lacan. Ele começa com a diferença entre o pequeno outro, meu semelhante, e o grande outro, o lugar da alteridade com que se manifesta para cada um seu inconsciente. Esse grande Outro, é formado, para cada um, por todos os outros que ocuparam para você um lugar importante na sua infância: mãe, pai, avô, avó, um professor, uma babá etc... Ou melhor, esse outro, que é o lugar do inconsciente, é constituído pelas palavras marcantes desses outros. Ele vai determinar as escolhas, os sintomas, os desejos do sujeito. Ao longo do ensino de Lacan, ele vai mudando o enfoque: conceitualiza o objeto a, que é o que ele considerou "a sua grande contribuição à psicanálise". Trata-se do objeto que causa o desejo e que ao mesmo tempo pode provocar angústia. É o objeto pulsional que transforma o outro, seu semelhante, num ser desejável e que lhe faz querer olhá-lo, ouvir sua voz, tocá-lo, beijá-lo, enfim, satisfazer todas as sua pulsões sexuais com ele. Mas esse mesmo objeto, pode se destacar do outro e se tornar fonte de angústia, de perseguição, de vontade de pular fora, de se esconder, fugir etc.. O sujeito pode então se sentir olhado e criticado pelo que Freud chamou inicialmente de a voz da consciência e mais tarde de supereu (superego). Essa uma forma de alteridade dentro/fora do sujeito é a modalidade do objeto a - como olhar e voz - que provoca angústia pois o sujeito se sente vigiado, medido e pesado e o resultado é sempre negativo.

Aprender a lidar com o olhar desse outro é uma forma de trabalhar sua própria auto-imagem?
O que eu mostro no livro é que a dita "auto-imagem" não é tão "auto" assim. A imagem é hetero, vem do outro e o sujeito a toma para si. A auto-imagem é constituída pelos ideais paternos que vão moldando a criança conforme seu próprio narcisismo - para que os filhos sejam o que não conseguiram ser, o que sejam a cópia fiel deles mesmos. Esses ideais vão compor um eu-ideal com o qual o sujeito vai se comparar e tentar se igualar a vida toda. Quando vira adulto, o pais não estão mais presentes, mas seus ideais sim, pois foram incorporados. O olhar do supereu mede o sujeito e o compara com esse ideal. A saída é a análise: onde o indivíduo se dá conta que esses ideais que pensava serem seus, são, na verdade, do outro. E isso transforma sua relação com a imagem e o sujeito se distancia desses ideias e de sua obrigatoriedade.

O outro desejado, o outro odiado, o outro semelhante. Todos fazem parte de projeções do próprio sujeito?
Não são apenas projeções, pois os parceiros do sujeito não se reduzem a cópias de seus egos. Você pode odiar o outro justamente por ele não corresponder ao eu-ideal que você procura no outro para complementá-lo. O seu semelhante, por um lado, é rival e competidor, por outro lado, você estabelece laços sociais determinados com vários semelhantes com os quais faz determinadas atividades. Entramos aí na quarta modalidade da alteridade: o outro do laço social, que Lacan chama de discurso. Esse vínculo é fundamental para se poder viver em sociedade, e para tal é necessário, muitas vezes, abrir mão das paixões e dos afetos. Freud dizia que a civilização exige a renúncia pulsional. Com Lacan, percebemos que para que haja vínculos de qualquer instituição, ou de ensino, ou de funcionamento burocrático é necessário que o outro não se reduza a um objeto para seu gozo próprio. Lacan formaliza quatro laços sociais cujos paradigmas são: governar, ensinar, psicanalisar e fazer desejar. E mais além, já no final de seu ensino, ele traz mais uma alteridade: o Heteros, o Outro gozo, que ele identifica com o gozo feminino, sem bordas, não regido e não limitado pela norma fálica, para além do poder e do saber e que tampouco se reduz aos objetos pulsionais. Se o paradigma desse Outro é o feminino, podemos extrair daí uma lógica de Heteros, como radicalmente outro, o diferente por excelência, o que sai totalmente da mesmidade, o oposto do mesmo, e do conhecido - o totalmente estrangeiro. Poder receber esse outro que goza à sua maneira e que é totalmente diferente da minha eis a verdadeira abertura para o outro, que chega de repente sem lenço e sem documento.

Fonte: Site da Editora Zahar

terça-feira, março 06, 2012

Norma Profissional e Posição Ética


Confira a coluna do jornalista Hélio Schwartsman da Folha de São Paulo intitulada "A Cura Gay"

Texto publicado no jornal Folha de São Paulo, em 01/03/2012, pelo jornalista Hélio Schwartsman.
A CURA GAY


O clima é de guerra. De um lado, estão os gays e os Conselhos de Psicologia, em suas vertentes federal e regionais, de outro, os cristãos, mais especificamente o povo evangélico. O tema do embate é (aqui não há como evitar as aspas) "a cura da homossexualidade".
O certame teve início nos anos 90, quando militantes do movimento gay, em particular a Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT), começaram a denunciar aos conselhos os autointitulados psicólogos cristãos, que prometiam curar homossexuais.
A ABGLT pedia punições a esses profissionais com base no Código de Ética do Psicólogo, que, em seu artigo 2º, b, proíbe: "induzir a convicções políticas, filosóficas, morais, ideológicas, religiosas, de orientação sexual ou a qualquer tipo de preconceito, quando do exercício de suas funções profissionais".
Em 1999, depois de alguns casos rumorosos na mídia, o Conselho Federal (CFP) baixou a resolução nº 001/99, que não deixa nenhuma margem a dúvida:
"Art. 2° - Os psicólogos deverão contribuir, com seu conhecimento, para uma reflexão sobre o preconceito e o desaparecimento de discriminações e estigmatizações contra aqueles que apresentam comportamentos ou práticas homoeróticas.
Art. 3° - Os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.
Parágrafo único - Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades.
Art. 4° - Os psicólogos não se pronunciarão, nem participarão de pronunciamentos públicos, nos meios de comunicação de massa, de modo a reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica".
Evidentemente, a briga continua, mas agora no plano da opinião pública e do Legislativo. Além de nos bombardear com e-mails sobre a "perseguição" a psicólogos cristãos, os evangélicos tentam no Congresso aprovar um projeto de decreto legislativo (PDC 234/11) para sustar artigos da resolução do CFP.
Vale observar que o proponente da matéria, o deputado João Campos (PSDB-GO), também tem projetos de decreto para derrubar a decisão do Supremo Tribunal Federal que legalizou as uniões estáveis homossexuais e a que autorizou as marchas da maconha.
A iniciativa do parlamentar social-democrata (sim, há ironia no adjetivo) é uma tremenda de uma bobagem. Da mesma forma que um médico não pode hoje sair por aí dizendo que cura a doença de Huntington e um físico está impedido de afirmar que faz o tempo correr para trás, um psicólogo não pode proclamar que possui terapias efetivas contra o que seu ramo de saber nem ao menos considera uma doença. Não se pode bater de frente e em público contra os consensos da disciplina.
Não existe algo como psicologia cristã, hidrostática católica ou cristalografia judaica. Idealmente, juízos científicos se sustentam na racionalidade amparada por evidências (mas a questão é mais complicada, como veremos ao final do artigo).
É claro que a ciência, ao contrário das religiões, não trabalha com dogmas. Um pesquisador que pretenda provar que a homossexualidade é uma doença pode tentar fazê-la em fóruns apropriados, como congressos e trabalhos científicos, e sempre apresentando argumentações técnicas, cuja validade e relevância serão julgadas procedentes ou não por seus pares. Se ele os convencer, muda-se o paradigma. Caso contrário, ou ele abandona o assunto ou deixa de falar na condição de psicólogo.
Como cidadão, acredito eu, todos sempre poderão dizer o que bem entendem --além de fazer tudo o que não seja ilegal. Padres e pastores vivem afirmando que a homossexualidade é pecado sem que o céu lhes caia sobre a cabeça. É claro que a ABGLT protesta e de vez em quando um membro do Ministério Público pode tentar alguma estrepolia, mas isso é do jogo. Apesar de alguns atritos, a liberdade de expressão vem sendo relativamente respeitada no Brasil nos últimos anos, como o prova a decisão do STF sobre a marcha da maconha que o representante do PSDB quer derrubar.
Vou um pouco mais longe e, já adentrando em terrenos hermenêuticos menos sólidos, arrisco afirmar que nem o Código de Ética nem a resolução do CFP impedem um psicólogo de, em determinadas condições, ajudar um homossexual que busca abandonar suas práticas eróticas.
Imaginemos um gay que, por algum motivo, esteja profundamente infeliz com a sua orientação sexual e deseje tornar-se heterossexual. O dever do profissional que o atende é tentar convencê-lo de que não há nada de essencialmente errado no fato de ser gay. Suponhamos, porém, que o paciente não se convença e continue sentindo-se desajustado. Evidentemente, ele tem o direito de tentar ser feliz buscando "curar-se". E seu psicólogo não está obrigado a abandonar o caso porque o paciente não aceita a ciência. Ao contrário, tem o dever ético de fazer o que estiver a seu alcance para diminuir o sofrimento do sujeito.
O que a resolução corretamente veta é que o psicólogo coloque na cabeça de seus pacientes a ideia de que ser gay é uma falha moral que pode e deve ser revertida. Impede também que ele faça propaganda em que promete terapias efetivas.
Dito isto, não acho uma boa estratégia a do movimento gay de vincular a defesa dos direitos de homossexuais a uma teoria científica. Este me parece, na verdade, um erro grave.
Para começar, a ciência está calcada em hipóteses que podem por definição ser refutadas a qualquer momento. Vamos supor que o fundamento lógico para eu recusar a discriminação contra gays resida na "evidência científica" de que a homossexualidade tem componentes genéticos e ambientais, não sendo, portanto, uma escolha que possa ser modificada. Imagine-se agora que alguém demonstre de forma insofismável que tais evidências estavam erradas. O que ocorre neste caso? A discriminação fica legitimada?
Não é preciso puxar muito pela memória para lembrar que movimentos por direitos civis e "ciência" (sim, fora dos manuais de epistemologia, ela é uma atividade humana como qualquer outra que caminha ao sabor de circunstâncias políticas e constructos sociais) já estiveram em lados diferentes das trincheiras. Até 1990, a Organização Mundial da Saúde listava a homossexualidade como uma doença mental. Os psiquiatras americanos faziam o mesmo até 1977. Não sei se recomendava ou não o exorcismo, mas certamente autorizava profissionais da saúde mental a tentar a "cura".
O argumento contra a discriminação de minorias precisa ser moral. É errado discriminar gays, negros e membros de qualquer seita religiosa porque não gostaríamos de sofrer tal tratamento se estivéssemos em seu lugar.

sexta-feira, março 02, 2012

CONVITE



Queridos amigos,

na próxima quinta-feira - 08 de março - a partir das 19:30h ocorrerá o lançamento do meu novo
livro, John Cage e a poética do silêncio. O evento, que está sendo
organizado pela Editora Letras Contemporâneas, será na Fundação Badesc,
Florianópolis (Rua Visconde de Ouro Preto 216, a uma quadra do TAC).

Espero que possam ir!

Grande abraço,

Alberto

CONVITE




Abrimos as portas da Gruta! no cair da tarde, às 17h, tomados pela experimentação, com drinks, petiscos, cervejas diversas e sinuca.

e Lançamento do livro Corpoalíngua: performance e esquizoanálize, de Clarissa Alcantara.

Quando: Domingo, 04 de março de 2012.

Hora: 17h

Passagem:R$2,65

Onde: Gruta! Rua Pitangui, 3613C. Horto. BH/MG

CONVITE



O Navi - Núcleo de Antropologia Visual e Estudos da Imagem da UFSC convida para a exibição do filme documentário "Caverna dos Sonhos Esquecidos", de Werner Herzog, que acontecerá na próxima quinta-feira, dia 08 de março, 20 horas, na parede externa da Casa das Máquinas, localizada na Praça Bento Silvério, centrinho da Lagoa da Conceição.
A Mostra de Documentários, promovida pelo Núcleo de Antropologia Visual da UFSC, em parceria com a Casa das Máquinas, acontecerá quinzenalmente, sempre às quintas-feiras, 20 horas, a partir do dia 08 de março.

CONTARDO CALLIGARIS

A língua que habito. O psicanalista e escritor italiano Contardo Calligaris fala (ao Jornal Rascunho) sobre sua relação com a...