quarta-feira, novembro 26, 2014

Questões sobre a Pós-Modernidade



Entre  0 e o 1
Questões sobre a Pós-Modernidade

Gustavo Capobianco Volaco



Se Deus está morto, tudo é permitido
Fiódor Dostoiévski

Não é ilógico pensar que o mundo é infinito
Jorge Luiz Borges




Já se tornou lugar comum afirmar que nossa contemporaneidade é marcada pela falência do que outrora fazia norma, vale dizer, o lugar do pai. Assim, o psicanalista francês Charles Melman, em entrevista a Jean Pierre-Lebrun, que virou livro, afirma, com todas as letras, que aquilo que caracteriza nossos dias é o “declínio da figura paterna” (MELMAN, 2003, p. 80) pois “não há mais nem autoridade, nem referência, menos ainda saber que se sustente” (Idem, Ibidem). A consequência, pensa Melman, dessa figura “anacrônica” (Idem, Ibidem ), já que fora de um tempo, é a produção de um “homem liberal, [...] sem gravidade”(Idem, p. 96) que não tem mais onde calcar seus pés, se re-calcar e, exatamente por isso, o que testemunharíamos seria uma atopia generalizada, um no man’s land produto de uma sociedade onde “o pai não é mais necessário” (Idem, p. 80).

Sustentando a mesma perspectiva, Jean Pierre Lebrun, antigo presidente da Association Freudienne Internationale e que acabamos de evocar, afirma que estamos testemunhando “o declínio da identidade do pai” (LEBRUN, 2004, p. 15) e “vários problemas contemporâneos parecem se originar nessa dinâmica, ou seja na erosão – se não for a desaparição – daquilo que constitui eixo de referência” (Idem, p. 17). A contrapartida dessa abolição seria a aparição de uma série infinita, sem barreira e sem pontos de arrimo que produziria uma “sociedade (que) se quer sem limite” (Idem, p.162) e constitui nela um sujeito que não sabe de onde vem, nem para onde vai, imerso como está num campo que é chamado, por outro psicanalista de “mundo desbussolado”(FORBES, 2005, p. 07).

Nesse percurso encontramo-nos com Danny Robert-Dufour, filósofo e professor da Universidade de paris VIII, e eis que sob sua pena, num excelente livro intitulado A Arte de Reduzir as Cabeças lemos que chegamos a uma época que vê, no sentido de presença, “a dissolução, até mesmo o desaparecimento das forças nas quais a “modernidade clássica” se apoiava” (DUFOUR, 2005, p. 25), e por isso estamos frente a um desconjuntamento daquilo que outrora fazia regra, já que sua função era baseada “no princípio unificador [...] à parte, em torno do qual se organizava o restante dos sujeitos”(Idem, p. 30). Uma vez mais, o leitor terá notado, que aquilo que Dufour aponta, em comunhão com Melman e Lebrun nada mais é que a derrocada desse lugar princeps e, consequentemente, o desnorteamento do próprio sujeito pois, como se organizar se a norma desapareceu.

E já que falamos em conjunto não nos custa acrescentar mais um elemento a ele, desta vez um antropólogo, catedrático de La Sapienza, em Roma. O que escreve ele acerca deste tempo chamado desde Lyotard de “pós-moderno” (LYOTARD, 2004, p. 32)? Vejamos: Máximo Canevacci, pois é esse seu nome, nos diz que toda “facticidade reificada” (CANEVACCI, 2012, p. 288) desapareceu e o trono, agora, está vazio. Por isso não é “mais possível definir aquilo que é um dos sentidos, um sentido uno” (Idem, p. 125) e dessa forma o que enfrentamos hoje são “multiperspectivas flutuantes” (Idem, p. 175) que não desembocam, como supostamente em outros tempos, nesse uni-verso que se cantava pelos quatro cantos do mundo embalando seus movimentos.

É interessante notar que todos eles acusam o mesmo golpe, digamos, já enunciado por Lacan em 1938 num artigo encomendado para a Encyclopédie Française como “declínio da imago paterna” (LACAN, 1981, p. 72). Mas os últimos dois nos possibilitam um certo deslocamento daquilo que faz figura a uma função estritamente lógica que é a que podemos depurar à partir da problemática do número 1. Já podemos encontrá-la nos escritos de Lacan, por exemplo, quando lança mão da chamada metáfora paterna e que produz, depois de sua operação, esse 1 que é unificador por excelência e produtor de sentido, de um sentido marcado pela bedeutung fálica



Mas será um pouco mais tarde, 33 anos para ser exato, que essa função se decantará, particularmente sobre um texto do matemático Johan Gottlob Frege intitulado Os Fundamentos da Aritimética onde acompanhamos a derivação do 1 à partir do 0, ou melhor, em sua relação com aquilo que marca um vazio. Diz Lacan em 1971: “Não há existência senão contra um fundo de inexistência e, inversamente, ex-sistere é extrair a própria sustentação somente de um exterior que não existe” (LACAN, 2012, p. 131) e o 1 nada mais é que a bejahung, traduzido frequentemente para o português como afirmação, como um “dizer sim” (HANNS, 1996, p. 47 ). E é aqui que mora o problema: tudo o que se afirma cai sob o número 1. Para pensarmos qualquer existência precisamos afirmá-la antes de mais nada e o 1 serve exatamente para isso. É preciso, antes de tudo, inscrever o 1, inventá-lo, criá-lo, originá-lo sempre em relação a esse “fundo de indeterminação” (LACAN, 2012, p. 125) o que fará Lacan escreve-lo da seguinte maneira: “Há Um (Yad’lun)” (Idem, p. 123), vale dizer, existe e, portanto, 1.

Isso tudo nos faz pensar se haveria mesmo a possibilidade de que esse Um fosse liquidado e se com ela, com essa liquidação, não teríamos, inevitavelmente, uma extinção completa do que chamamos de ser-humano. Ou pelo contrário, estaríamos vivendo numa época em que o “mito” (LACAN, 2012, p. 35) desse Um foi descortinado e ao o olharmos de frente ficou-nos difícil reconhecer-lhe qualquer hegemonia? De outra maneira: nossa época não estaria entre o 0 e o 1, “entre o centro e a ausência” (Idem, p. 117)?  Para situarmos isso parece-nos interessante evocar Michel Foucault e sua perspectiva de múltiplas genealogias que operam desde sempre e por vezes e com muito esforço, se coagulam num único ponto.

Foucault é peremptório: “não existe ponto absoluto” (FOUCAULT, 2004, p. 221) à priori. E a unicidade almejada, o tão sonhado no início Criou Deus o céu e a terra é efeito de uma tentativa de organizar “elementos instáveis ou perturbadores” (Idem, p. 195) que não seguem a lógica aristotélica, produzindo, em algum momento, a necessidade de “uma intervenção uniforme” (Idem, ibidem), de uma intervenção uniformizante que visa “assegurar a ordem”(Idem, p. 197) naquilo que antes de mais nada é múltiplo e equivocante.  Assim, no início, se inquirimos a genealogia do que quer que seja, o que encontramos é “um sistema complexo de elementos múltiplos, distintos, e que nenhum poder de síntese domina” (Idem, Ibidem). Isto é, se percorremos o caminho de volta “o que se encontra no começo histórico das coisas não é a identidade ainda preservada da origem – é a discórdia entre as coisas, é o disparate” (Idem, p. 18) e que representamos assim:



De um enxame, essain, sai um S1*

O que constatamos à partir de Foucault? O mesmo que em Lacan: há, exatamente, porque não há. 1 porque 0. Que antes de haver esse princípio unificador, de um pai que nos teria criado, nas origens há uma algaravia que tentamos marcar com o significante 0, um impredicável ou um, se o leitor prefere “enumerável” (LACAN, 2012, p. 145). E não é essa algaravia que hoje está evidente, ou seja, que de muitos se faz um e mais: esse um só, se o faz e por um breve instante essa lógica que abre espaço para uma pluralidade sem fim? Não passamos de essain ao S1 e novamente ao essain? O que caiu não foi exatamente a ilusão de uma “causalidade universal” (FOUCAULT, 2010, p. 209) e estamos frente a uma polimorfia, polifonia, e/ou polissemia?

É aqui que entram algumas considerações do sociólogo polonês Zygmunt Bauman e que nos parecem preciosas. O que diz ele? Utilizando a excelente metáfora da fluidez dos líquidos, escreve que são os “padrões, códigos e regras a que podíamos nos conformar” (BAUMAN, 2001, p. 14), ser conformes a, tomar a forma de, “que podíamos selecionar como pontos estáveis de orientação e pelos quais podíamos nos deixar depois guiar, que estão cada vez mais em falta” (Idem, Ibidem). Mas, é bom que se frise, não porque tenham desaparecido da face da terra, mas, porque “eles são muitos, chocando-se entre si e contradizendo-se em seus comandos conflitantes, de tal forma que todos e cada um foram desprovidos de boa parte de seu poderes de coercitivamente compelir e restringir” (Idem, p. 36) e, assim que se erigem, tendem, inevitavelmente, a se liquifazerem. Portanto: essain, S1, S1, S1, S1, S1, essain.




Não estaria aqui, enfim, nesse encadeamento, a “mutação cultural” (MELMAN, 2003, p. 80) que estamos a perseguir? Não estamos frente “a polifonia das verdades” (LEBRUN, 2004, p. 151) sempre cambiantes e jamais derradeiras? Nosso mundo não é o “da porosidade dos limites” (CANEVACCI, 2008, p. 156) e, principalmente, “da incongruência das sequências” (DUFOUR, 2005, p. 157)? Nosso tempo não “permitiu que coexistissem autoridades em número tão grande que nenhuma poderia se manter por muito tempo e menos ainda atingir a posição de exclusividade” (BAUMAN, 2001, p. 76) e assim o 1 deixa de ser o centro para dar espaço ao infinito.

Portanto, se Bauman está certo, não é que 1 desapareceu, que foi liquidado ou derrocado. E nem poderia, pois como tentamos demonstrar à partir de algumas formulações lacanianas, “há Um” (LACAN, 2012, p. 36). O que acontece, hoje, é que ele não se sustenta por muito tempo. Tão logo surge 1 vários Outros se presentificam e aquilo que era de um poder pretensamente incomensurável se liquefaz a cada parada. Sendo assim, fica-nos a pergunta: se há o Um mas ele não se mostra mais todo e podemos olhar com muita facilidade para um Outro aspecto da existência, não passamos de uma lógica falocêntrica – que se lembre do resultado da metáfora paterna – para uma Outra que se se relaciona com ele, o excede? Não caímos em cheio na lógica dita da mulher, essa espécie de “Deus de duas faces” (MILLER, 1997, p. 09) chamado Janus?
Vejamos o seguinte esquema:



Temos, acima, dois quadrantes marcados por setas. À esquerda vemos o sujeito, o sujeito eminentemente “idiota” **(LACAN, 1985, p. 105) porque ritornélico e que para fazer relação, precisa enquadrar seu parceiro como objeto e formar, assim, o par conjuntivo-disjuntivo da sua “fantasia” (Idem, p. 108). O falo, o totem, como queria Freud em Totem und Tabu, está do seu lado mas, é bom que se note, está fora de seu alcance pois para existir e promover existência deve “ex” (LACAN, 1993, p. 18), no sentido de fora, “sistir”(Idem, Ibidem). Já à direita temos a mulher, marcada por esse A barrado que diz que falta um significante e que S1 é insuficiente para dizê-la totalmente e que, por essa razão, situa uma indefinição. Parte dela uma seta em direção ao ϕ, sempre incapaz de dar, a ela, qualquer espécie de existência que não seja parcial e, ao mesmo tempo, uma outra que toca o infinito, que toca o impossível de tudo dizer pois seu ponto, final, falta.

Resumidamente podemos dizer que aquilo que caracteriza o homem é muito simplesmente sua orientação dada pelo esquema ϕ(H). E essa era a lógica que preponderava até o advento da era moderna e que, “aos poucos” deu espaço para “uma sociedade altamente complexa e fragmentada” (JUNIOR, 2005, p. 27). Já a mulher, bífida por natureza o que temos é ϕ(M) S(A). Diz Lacan “se ele”, o ser falante, se inscreve na parte mulher, “não permitirá nenhuma universalidade, será não-todo (LACAN, 1993, p. 107) e, completamos, se o S1, significante mestre surge, por alguma razão, ei-la para desdizê-lo como concentrador de todas as verdades abrindo o campo para o enxame. Teríamos, aqui, a pós-modernidade!


 Pois não seria hoje, caro leitor, um tempo enfim dA Mulher? Não estamos a verificar antes da derrocada do pai uma espécie de entre Um e Outro que sempre fez ordem na mulher? Não conseguimos perceber hoje, aquilo que brilhantemente enxergou Foucault? O pai estaria mesmo morto ou o que verificamos é seu caráter “ubuesco” (FOUCAULT, 2010, p. 11), contraditório em essência e assim que alguma coisa tenta se edificar com sua coroa e seu cetro, rapidamente podemos denunciá-la como pantomima, ou melhor, como puro semblante, como, dissemos isso acima, significante da inexistência e necessariamente líquido? Eis-nos, parece, no campo próprio a mulher que diz que “não é verdade que a função fálica seja o” (LACAN, 2012, p. 99) fundamental, que não é verdade que tudo seja 1, que não é verdade que tudo tenha que ser circunscrito por ϕ ou que tudo tenha que ser totalizante e findável, seja no sentido de término ou no de finalidade. Em suma e para terminar, por hora: estaríamos no tempo do “tudo, mas isso não” (LACAN, 2007, p. 15). E a mulher, que “não existe” (LACAN, 1993, p. 51 ) não pára de se não inscrever. Se o que trabalhamos até aqui está certo, a famosa frase de Simone de Beauvoir, “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher” (BEAUVOIR, 2000, p. 65), precisaria ser modificada: hoje nascemos mulher. Independentemente do gênero nascemos não no tempo do 1, só e pleno, mas no tempo entre o 0, marca da inexistência e o 1, momento do que há. E é com isso que temos de nos virar!

NOTAS

Há aqui uma homofonia só possível em francês entre essain (enxame) e S1

** LACAN, Jacques. Mais, Ainda, livro 20. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1985, p. 105.

Bibliografia

ALBERTO, G. (2007).  Lyotard. São Paulo: Estação Liberdade.

BAUMAN, Z. (2001). A Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar.

________________. (1998). O Mal Estar da Pós-Modernidade. Rio de Janeiro.

________________. (2004). Amor Líquido, sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar.

BEAUVOIR, S. d. (2000).  O Segundo Sexo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira.

BORGES, J. L. (1972). A Biblioteca de Babel, in Ficções. Porto Alegre: Editôra Globo S.A.

CANEVACCI, M. (2008). Fetichismos Visuais, Corpos Erópticos e Metrópole Comunicacional. São Paulo: Ateliê Editorial.

DOSTOIÉVSKI, F. (1985). Os Irmãos Karamázovi. São Paulo: Círculo do Livro.

DUFOUR, D.-R. (2005). A Arte de Reduzir as Cabeças. Sobre a Nova Servidão na Sociedade Ultraliberal. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

FORBES, J. (2005). A Invenção do Futuro. São Paulo: Manole,

 FOUCAULT, M. (1993) História da Loucura na Idade Clássica. São Paulo: Editora Perspectiva S.A.

________________. (2004). Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Edições Graal.

________________. (2013). O Nascimento da Clínica. Rio de Janeiro: Forense Universitária.

________________. (2013). Vigiar e Punir. Rio de Janeiro: Vozes.

________________.  (1985). História da Sexualidade, vol. 3, O Cuidado de Si. Rio de Janeiro: Graal.

________________. (2010). Os Anormais. São Paulo: WMF Martins Fontes.

FREGE, J. G. (1989). Os Fundamentos da Aritmética, Uma Investigação Lógico-Matemática sobre o Conceito de Número. São Paulo: Nova Cultural.

HANNS, L. (1996) Dicionário Comentado do Alemão de Freud. Rio de Janeiro: Imago.

LACAN, J. (2009). De um Discurso de que Não Fosse Semblante, livro 18. Rio de Janeiro: Zahar.

________________. (2007). O Sinthoma, livro 23. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

________________. (2012) ...ou Pior, Livro 19.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

________________. (2009). De um Discurso que Não Fosse do Semblante, livro 18. Rio de Janeiro: Zahar.

________________. (1992). O Avesso da Psicanálise, Livro  17. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

________________. (1985).  Mais, Ainda, livro 20. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

________________. (1988). Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise, Livro 11. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

________________. (1993). Televisão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor.

LEBRUN, J.-P. (2004). Um Mundo sem Limite, Ensaio para uma Clínica Psicanalítica do Social. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

MELMAN, C. (2003). O Homem sem Gravidade, Gozar a Qualquer Preço. Rio de Janeiro: Companhia de Freud.

________________. (2003) Novas Formas Clínicas no Início do Terceiro Milênio. Porto Alegre: CMC Editora.

MILLER, J.-A. (1997). Psicoterapia e Psicanálise, in Psicanálise e Psicoterapia. São Paulo: Papirus.


terça-feira, novembro 18, 2014

CURSO



PÓS-GRADUAÇÃO


DISCURSOS SOBRE A SEXUALIDADE

Psicanálise, Literatura e Filosofia




INICIO: 2015

LOCAL: FACVEST - FLORIANÓPOLIS-SC


COORDENAÇÃO: MARIA HOLTHAUSEN



PERIODICIDADE: MENSAL 

HORÁRIOS: SEXTA-FEIRA - 19:00 às 22:00 h

                     SÁBADO - 08:30 às 12:00 h
                                       13:30 às 17:30 h

CARGA HORÁRIO: 360h - 24 meses


INFORMAÇÕES: FACVEST - (48) 3371-0259

                          FACVEST/GISELY - (48) 9982-5282

                Maria Holthausen: (48) 9957-7654



O que pode haver de comum entre a atitude do ciumento Bartolo - personagem da opera “O Barbeiro de Sevilha”, que guarda sua amada Rosina confinada para poder desfrutá-la mais tarde – e a atitude de um jovem que, nos dias de hoje, droga-se para procrastinar a ejaculação e, assim, assegurar a continuidade da excitação?

No que o Don Juan retratado por Mozart em sua ópera Don Giovanni é assim tão distinto da fugacidade das relações em tempos pós-modernos? 
Que relação pode haver entre a exortação econômica ao consumo - especialmente daquilo que está em liquidação - e as diferentes formas de controle sexual, desde aquelas exercidas pelo Estado até os rituais obsessivos compartilhados pelos amantes?

Trata-se de questões instigantes, das quais se ocuparam os mais diversos discursos. Não somente na ciência e na religião, também na arte, na literatura e na filosofia, foram produzidos muitas reflexões com o objetivo de elevar o entendimento sobre a sexualidade mais além do moralismo e da dominação ideológica. Como os diferentes discursos sobre a sexualidade podem refletir e refletir-se em nossa vida em particular?

A polifonia em torno do significante “sexo” não autoriza mais os discursos dogmáticos proferidos cada qual a partir de um saber específico. Já não se pode mais interpretar a sexualidade humana como efeito exclusivo da verdade, da moral, da pulsão, do desejo, do gozo, do biopoder, do erotismo... Mas todos estes temas contribuem para que os discursos sobre a sexualidade comuniquem entre si contextos e práticas aparentemente desconectadas, como o discurso privado de cada qual como paciente, as ficções literárias e as reflexões políticas.

Especular sobre o comércio e interface entre os dizeres sexuais produzidos nos espaços clínicos, literários e políticos é a intenção maior deste curso. A partir de dinâmicas grupais e estudos dirigidos de textos, propomos uma discussão sobre algumas das principais referenciais no assunto.

Mais do que um curso teórico, trata-se de um curso de desenvolvimento pessoal A partir de dinâmicas grupais e vivências terapêuticas, abordaremos os mais representativos discursos literários, psicanalíticos e filosóficos, tais como os de Freud, Lacan, Foucault, Merleau-Ponty, Clarice Lispector, Octávio Paz, Georges Bataille que tratam sobre a problemática da vivência sexual do indivíduo: sedução, ciúme, traição, disfunções e outros mais.


              


segunda-feira, outubro 27, 2014

Amor, Desejo e Gozo


AMOR, DESEJO E GOZO EM FREUD E LACAN

Como desenvolvi em meu recente livro Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan - vol.1: as bases conceituais (Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2000), amor, desejo e gozo são elementos que fazem parte de uma estrutura que apresenta em sua base a ausência de inscrição da diferença sexual no inconsciente, tal como Freud pôde designar em seu artigo metapsicológico sobre O inconsciente.
A entrada do sujeito humano no campo da linguagem implica a perda de um gozo absoluto: assim, para todo sujeito, o gozo será sempre parcial, pois será apenas uma parcela da pulsão que obterá satisfação. É isso precisamente que Lacan denomina de gozo fálico, isto é, o gozo parcial e possível, ligado à linguagem e ao fato de que a entrada na linguagem ocasiona uma perda de ser para o sujeito humano.

O regime do desejo é fundado para o sujeito humano precisamente porque, na perda originária do gozo, o sujeito passa a viver numa relação contínua com uma falta de satisfação: o desejo é a expressão dessa falta de satisfação absoluta. O desejo permanece para sempre insatisfeito, o que leva a uma busca incessante de novos objetos, na tentativa de obter esta satisfação tão almejada e jamais alcançada. No nível estrito do desejo, a relação do sujeito com o objeto é extremamente lábil e fugaz, e nesse nível ele está sempre em busca de novos objetos que proporcionem uma plena satisfação. É o que faz Lacan aproximar o desejo da metonímia, isto é, do mero deslocamento de um objeto para outro.
É nesse ponto da estrutura que o amor tem uma participação  especial, pois o amor vem estabilizar a relação - tão instável - do sujeito com o objeto do desejo e, sendo assim, ele vem tentar preencher a falta que no campo do desejo não consegue jamais ser preenchida. O amor dá sentido àquilo que, no campo do sentido, não tem nenhum sentido.

A paixão amorosa é igualmente um efeito derradeiro da estrutura: quando na paixão o sujeito tem a ilusão de ter preenchido esta falta com algum objeto amoroso, ele tem a vivência de estar muito próximo daquele gozo absoluto que havia perdido originariamente. É nesse ponto que surge o perigo do crime passional: quando o sujeito perde um objeto que ele sente como sendo o objeto, ele pode passar ao ato no suicídio ou no homicídio, já que ele sente que algo nele também morreu ou foi morto – a sensação da plenitude.

Marco Antonio Coutinho Jorge é psicanalista, membro do Corpo Freudiano do Rio de Janeiro, professor da pós-graduação em psicanálise da UERJ, autor de Sexo e discurso em Freud e Lacan (Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988) e Fundamentos da psicanálise de Freud a Lacan – vol. 1: as bases conceituais (Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2000).

FONTE: Site do autor.


terça-feira, agosto 26, 2014

Pequena História da Saúde


História do Conceito de Saúde

O conceito de saúde reflete a conjuntura social, econômica, política e cultural. Ou seja: saúde não representa a mesma coisa para todas as pessoas. Dependerá da época, do lugar, da classe social. Dependerá de valores individuais, dependerá de concepções científicas, religiosas, filosóficas. O mesmo, aliás, pode ser dito das doenças. Aquilo que é considerado doença varia muito. Houve época em que masturbação era considerada uma conduta patológica capaz de resultar em desnutrição (por perda da proteína contida no esperma) e em distúrbios mentais. A masturbação era tratada por dieta, por infibulação, pela imobilização do "paciente", por aparelhos elétricos que davam choque quando o pênis era manipulado e até pela ablação da genitália. Houve época, também, em que o desejo de fuga dos escravos era considerado enfermidade mental: a drapetomania (do gregodrapetes, escravo). O diagnóstico foi proposto em 1851 por Samuel A. Cartwright, médico do estado da Louisiana, no escravagista sul dos Estados Unidos. O tratamento proposto era o do açoite, também aplicável à "disestesia etiópica", outro diagnóstico do doutor Cartwright, este explicando a falta de motivação para o trabalho entre os negros escravizados.


Real ou imaginária, a doença, e sobretudo a doença transmissível, é um antigo acompanhante da espécie humana, como o revelam pesquisas paleontológicas. Assim, múmias egípcias apresentam sinais de doença (exemplo: a varíola do faraó Ramsés V). Não é de admirar que desde muito cedo a Humanidade se tenha empenhado em enfrentar essa ameaça, e de várias formas, baseadas em diferentes conceitos do que vem a ser a doença (e a saúde). Assim, a concepção mágico–religiosa partia, e parte, do princípio de que a doença resulta da ação de forças alheias ao organismo que neste se introduzem por causa do pecado ou de maldição. Para os antigos hebreus, a doença não era necessariamente devida à ação de demônios, ou de maus espíritos, mas representava, de qualquer modo, um sinal da cólera divina, diante dos pecados humanos. Deus é também o Grande Médico: "Eu sou o Senhor, e é saúde que te trago" (Êxodo 15, 26); "De Deus vem toda a cura" (Eclesiastes, 38, 1–9).

A doença era sinal de desobediência ao mandamento divino. A enfermidade proclamava o pecado, quase sempre em forma visível, como no caso da lepra Trata–se de doença contagiosa, que sugere, portanto, contato entre corpos humanos, contato que pode ter evidentes conotações pecaminosas. O Levítico detém–se longamente na maneira de diagnosticar a lepra; mas não faz uma abordagem similar para o tratamento. Em primeiro lugar, porque tal tratamento não estava disponível; em segundo, porque a lepra podia ser doença, mas era também, e sobretudo, um pecado. O doente era isolado até a cura, um procedimento que o cristianismo manterá e ampliará: o leproso era considerado morto e rezada a missa de corpo presente, após o que ele era proibido de ter contato com outras pessoas ou enviado para um leprosário. Esse tipo de estabelecimento era muito comum na Idade Média, em parte porque o rótulo de lepra era frequente, sem dúvida abrangendo numerosas outras doenças.

Os preceitos religiosos do judaísmo expressam–se com frequência em leis dietéticas, que figuram, em especial, nos cinco primeiros livros da Bíblia (Torá, ou Pentateuco). Sua finalidade mais evidente é a de manter a coesão grupal, acentuando as diferenças entre hebreus e outros povos do Oriente Médio. Essas disposições eram sistemas simbólicos, destinados a manter a coesão do grupo e a diferenciação com outros grupos, mas podem ter funcionado na prevenção de doenças, sobretudo de doenças transmissíveis. Por exemplo, um animal não poderia ser abatido por pessoa que tivesse doença de pele, o que faz sentido: lesões de pele podem conter micróbios. Moluscos eram proibidos, e dessa forma certas doenças, como a hepatite transmitida por ostras, podiam ser evitadas. Isso não significa que a prevenção fosse exercida conscientemente; as causas das doenças infecciosas eram desconhecidas. Seria muito difícil, por exemplo, associar a carne de porco à transmissão da triquinose. Para isto há uma explicação ecológica, por assim dizer. A criação de suínos, no Oriente Médio, seria um contra–senso. Trata–se de uma região árida, sem a água de que esses animais necessitam como forma de manter seu equilíbrio térmico. Além disso, povos nômades teriam dificuldades em manter um animal que se move pouco, como o porco. Finalmente, ao contrário dos bovinos, que servem como animal de tração e que proporcionam leite, o suíno só fornece a carne – uma luxúria, portanto, uma tentação que era evitada pelo rígido dispositivo da lei.

Em outras culturas era o xamã, o feiticeiro tribal, quem se encarregava de expulsar, mediante rituais, os maus espíritos que se tinham apoderado da pessoa, causando doença. O objetivo é reintegrar o doente ao universo total, do qual ele é parte. Esse universo total não é algo inerte: ele "vive" e "fala"; é um macrocorpo, do qual o Sol e a Lua são os olhos, os ventos, a respiração, as pedras, os ossos (homologação antropocósmica). A união do microcosmo que é o corpo com o macrocosmo faz–se por meio do ritual.

Entre os índios Sarrumá, que vivem na região da fronteira entre Brasil e Venezuela, o conceito de morte por causa natural ou mesmo por acidente praticamente inexiste: sempre resulta da maldição de um inimigo. Ou, então, conduta imprudente: se alguém come um animal tabu, o espírito desse animal vinga–se provocando doença e morte.

A tarefa do xamã é convocar espíritos capazes de erradicar o mal. Para isso ele passa por um treinamento longo e rigoroso, com prolongada abstinência sexual e alimentar; nesse período aprende as canções xamanísticas e utiliza plantas com substâncias alucinógenas que são chamarizes para os espíritos capazes de combater a doença.

A medicina grega representa uma importante inflexão na maneira de encarar a doença. É verdade que, na mitologia grega, várias divindades estavam vinculadas à saúde. Os gregos cultuavam, além da divindade da medicina, Asclepius, ou Aesculapius (que é mencionado como figura histórica na Ilíada), duas outras deusas, Higieia, a Saúde, e Panacea, a Cura. Ora, Higieia era uma das manifestações de Athena, a deusa da razão, e o seu culto, como sugere o nome, representa uma valorização das práticas higiênicas; e se Panacea representa a idéia de que tudo pode ser curado – uma crença basicamente mágica ou religiosa –, deve–se notar que a cura, para os gregos, era obtida pelo uso de plantas e de métodos naturais, e não apenas por procedimentos ritualísticos.

Essa visão religiosa antecipa a entrada em cena de um importante personagem: o pai da Medicina, Hipócrates de Cós (460–377 a.C.). Pouco se sabe sobre sua vida; poderia ser uma figura imaginária, como tantas na Antigüidade, mas há referências à sua existência em textos de Platão, Sócrates e Aristóteles. Os vários escritos que lhe são atribuídos, e que formam o Corpus Hipocraticus, provavelmente foram o trabalho de várias pessoas, talvez em um longo período de tempo. O importante é que tais escritos traduzem uma visão racional da medicina, bem diferente da concepção mágico–religiosa antes descrita. O texto intitulado "A doença sagrada" começa com a seguinte afirmação: "A doença chamada sagrada não é, em minha opinião, mais divina ou mais sagrada que qualquer outra doença; tem uma causa natural e sua origem supostamente divina reflete a ignorância humana".

Hipócrates postulou a existência de quatro fluidos (humores) principais no corpo: bile amarela, bile negra, fleuma e sangue. Desta forma, a saúde era baseada no equilíbrio desses elementos. Ele via o homem como uma unidade organizada e entendia a doença como uma desorganização desse estado. A obra hipocrática caracteriza–se pela valorização da observação empírica, como o demonstram os casos clínicos nela registrados, reveladores de uma visão epidemiológica do problema de saúde–enfermidade. A apoplexia, dizem esses textos, é mais comum entre as idades de 40 e 60 anos; a tísica ocorre mais frequentemente entre os 18 e os 35 anos. Essas observações não se limitavam ao paciente em si, mas a seu ambiente. O texto conhecido como "Ares, águas, lugares" discute os fatores ambientais ligados à doença, defendendo um conceito ecológico de saúde–enfermidade.

Daí emergirá a ideia de miasma, emanações de regiões insalubres capazes de causar doenças como a malária, muito comum no sul da Europa e uma das causas da derrocada do Império Romano. O nome, aliás, vem do latim e significa "maus ares" (é bom lembrar que os romanos incorporam os princípios da medicina grega).

Galeno (129–199) revisitou a teoria humoral e ressaltou a importância dos quatro temperamentos no estado de saúde. Via a causa da doença como endógena, ou seja, estaria dentro do próprio homem, em sua constituição física ou em hábitos de vida que levassem ao desequilíbrio.

No Oriente, a concepção de saúde e de doença seguia, e segue, um rumo diferente, mas de certa forma análogo ao da concepção hipocrática. Fala–se de forças vitais que existem no corpo: quando funcionam de forma harmoniosa, há saúde; caso contrário, sobrevem a doença. As medidas terapêuticas (acupuntura, ioga) têm por objetivo restaurar o normal fluxo de energia ("chi", na China; "prana", na Índia) no corpo.

Na Idade Média europeia, a influência da religião cristã manteve a concepção da doença como resultado do pecado e a cura como questão de fé; o cuidado de doentes estava, em boa parte, entregue a ordens religiosas, que administravam inclusive o hospital, instituição que o cristianismo desenvolveu muito, não como um lugar de cura, mas de abrigo e de conforto para os doentes. Mas, ao mesmo tempo, as ideias hipocráticas se mantinham, através da temperança no comer e no beber, na contenção sexual e no controle das paixões. Procurava–se evitar o contra naturam vivere, viver contra a natureza. O advento da modernidade mudará essa concepção religiosa.


O suíço Paracelsus (1493–1541) afirmava que as doenças eram provocadas por agentes externos ao organismo. Naquela época, e no rastro da alquimia, a química começava a se desenvolver e influenciava a medicina. Dizia Paracelso que, se os processos que ocorrem no corpo humano são químicos, os melhores remédios para expulsar a doença seriam também químicos, e passou então a administrar aos doentes pequenas doses de minerais e metais, notadamente o mercúrio, empregado no tratamento da sífilis, doença que, em função da liberalização sexual, se tinha tornado epidêmica na Europa.

Já o desenvolvimento da mecânica influenciou as idéias de René Descartes, no século XVII. Ele postulava um dualismo mente–corpo, o corpo funcionando como uma máquina. Ao mesmo tempo, o desenvolvimento da anatomia, também consequência da modernidade, afastou a concepção humoral da doença, que passou a ser localizada nos órgãos. No famoso conceito de François Xavier Bichat (1771–1802), saúde seria o "silêncio dos órgãos".

Mas isto não implicou grandes progressos na luta contra as doenças, que eram aceitas com resignação: Pascal dizia que a enfermidade é um caminho para o entendimento do que é a vida, para a aceitação da morte, principalmente de Deus. Mais tarde, os românticos não apenas aceitariam a doença, como a desejariam: morrer cedo (de tuberculose, sobretudo) era o destino habitual de poetas e músicos como Castro Alves e Chopin. Para o poeta romântico alemão, a doença refinaria a arte de viver e a arte propriamente dita. Saúde, nestas circunstâncias, era até dispensável.

Mas a ciência continuava avançando e no final do século XIX registrou–se aquilo que depois seria conhecido como a revolução pasteuriana. No laboratório de Louis Pasteur e em outros laboratórios, o microscópio, descoberto no século XVII, mas até então não muito valorizado, estava revelando a existência de microorganismos causadores de doença e possibilitando a introdução de soros e vacinas. Era uma revolução porque, pela primeira vez, fatores etiológicos até então desconhecidos estavam sendo identificados; doenças agora poderiam ser prevenidas e curadas.

Esses conhecimentos impulsionaram a chamada medicina tropical. O trópico atraía a atenção do colonialismo, mas os empreendimentos comerciais eram ameaçados pelas doenças transmissíveis endêmicas e epidêmicas. Daí a necessidade de estudá–las, preveni–las, curá–las. Nessa época nascia também a epidemiologia, baseada no estudo pioneiro do cólera em Londres, feito pelo médico inglês John Snow (1813–1858), e que se enquadrava num contexto de "contabilidade da doença". Se a saúde do corpo individual podia ser expressa por números – os sinais vitais –, o mesmo deveria acontecer com a saúde do corpo social: ela teria seus indicadores, resultado desse olhar contábil sobre a população e expresso em uma ciência que então começava a emergir, a estatística.

O termo é de origem alemã, Statistik, e deriva de Staat, Estado, o que é bastante significativo, pois o desenvolvimento da estatística coincide com o surgimento de um Estado forte, centralizado. A estatística teve boa acolhida na Inglaterra, onde vigorava a ideia, mais tarde expressa em um famoso dito de Lord Kelvin (William Thomson, 1824–1907), segundo o qual tudo que é verdadeiro pode ser expresso em números.

Na verdade, métodos numéricos no estudo da sociedade, aí incluída a situação de saúde, já haviam sido introduzidos no século XVII. O médico e rico proprietário rural William Petty (1623–1687) iniciara o estudo do que denominava de "anatomia política", coletando dados sobre população, educação, produção e também doenças. John Graunt (1620–1674), comerciante de profissão, mas membro da Royal Society, havia conduzido, com base nos dados de obituários, os primeiros estudos analíticos de estatística vital, identificando diferenças na mortalidade de diferentes grupos populacionais e correlacionando sexo e lugar de residência. Esse processo ganhou impulso no século XIX.

Em 1826, Louis René Villermé (1782–1863), médico, publicou um relatório analisando a mortalidade nos diferentes bairros de Paris (Tableau de l'état physique et moral des ouvriers), concluindo que era condicionada sobretudo pelo nível de renda. Na Inglaterra, berço da Revolução Industrial, também surgiram estudos desse tipo: é que ali se faziam sentir com mais força os efeitos, sobre a saúde, da urbanização, da proletarização. Esta foi a situação que inspirou Friedrich Engels a escrever Condição da classe trabalhadora na Inglaterra. A partir de 1840 aparecem os Bluebooks e inquéritos estatísticos.

Caráter pioneiro nas estatísticas de saúde é atribuído a William Farr (1807–1883). Médico, Farr tornou–se em 1839 diretor–geral do recém–estabelecido General Register Office da Inglaterra, e aí permaneceu por mais de 40 anos. Seus Annual Reports, nos quais os números de mortalidade se combinavam com vívidos relatos, chamaram a atenção para as desigualdades entre os distritos "sadios" e os "não–sadios" do país. Em 1842, Edwin Chadwick (1800–1890) escreveu um relatório que depois se tornaria famoso: As condições sanitárias da população trabalhadora da Grã–Bretanha. Chadwick, que não era médico nem sanitarista, mas advogado, impressionou o Parlamento, que em 1848 promulgou lei (Public Health Act) criando uma Diretoria Geral de Saúde, encarregada, principalmente, de propor medidas de saúde pública e de recrutar médicos sanitaristas. Dessa forma teve início oficial o trabalho de saúde pública na Grã–Bretanha.

Em 1850, nos Estados Unidos, Lemuel Shattuck, livreiro, faz um relato sobre as condições sanitárias em Massachusetts – e uma diretoria de saúde é criada nesse Estado, reunindo médicos e leigos. Ao mesmo tempo, outras revoluções, estas sangrentas, ocorriam, como a de 1848, como a Comuna de Paris: Karl Marx estava diagnosticando os males do capitalismo e propondo profundas modificações na sociedade. Mesmo que estas não ocorressem, modificações precisavam ser feitas. Os capitalistas e latifundiários precisavam, nas palavras de Otto von Bismarck, o "chanceler de ferro", serem salvos deles próprios, de sua ganância que ameaçava sacrificar a mão–de–obra operária. Bismarck criou, em 1883, um sistema de seguridade social e de saúde que, por vários aspectos, foi pioneiro. Aliás, na Alemanha já tinha surgido, em 1779, a ideia da intervenção do Estado na área de saúde pública. Naquele ano começava a ser publicado o System einer Vollständigen medicinischen Polizei, obra monumental com a qual Johan Peter Frank (1745–1821) lançava o conceito, paternalista e autoritário, de polícia médica ou sanitária.

Depois da Alemanha, o sistema foi implantado na França, que, tendo anexado a Alsácia–Lorena após a Primeira Guerra Mundial, não quis privar a população dessa região dos benefícios de que gozava sob o Império Alemão. Vários outros países foram copiando o sistema. Mudança substancial ocorreria à época da Segunda Guerra, na Grã–Bretanha. Com o intuito de oferecer ao povo inglês uma espécie de compensação pelas agruras sofridas com o conflito bélico, o governo de Sua Majestade encarregou, em 1941, Sir William Beveridge de fazer um diagnóstico da situação do seguro social. Dezoito meses mais tarde, Beveridge submeteu ao governo um plano, em consequência do qual foi criado, como parte do Welfare System, que prometia proteção "do berço à tumba", o Serviço Nacional de Saúde, destinado a fornecer atenção integral à saúde a toda a população, com recursos dos cofres públicos.

Mas não havia ainda um conceito universalmente aceito do que é saúde. Para tal seria necessário um consenso entre as nações, possível de obter somente num organismo internacional. A Liga das Nações, surgida após o término da Primeira Guerra, não conseguiu esse objetivo: foi necessário haver uma Segunda Guerra e a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Organização Mundial da Saúde (OMS), para que isto acontecesse.

O conceito da OMS, divulgado na carta de princípios de 7 de abril de 1948 (desde então o Dia Mundial da Saúde), implicando o reconhecimento do direito à saúde e da obrigação do Estado na promoção e proteção da saúde, diz que "Saúde é o estado do mais completo bem–estar físico, mental e social e não apenas a ausência de enfermidade". Este conceito refletia, de um lado, uma aspiração nascida dos movimentos sociais do pós–guerra: o fim do colonialismo, a ascensão do socialismo. Saúde deveria expressar o direito a uma vida plena, sem privações. Um conceito útil para analisar os fatores que intervêm sobre a saúde, e sobre os quais a saúde pública deve, por sua vez, intervir, é o de campo da saúde (health field), formulado em 1974 por Marc Lalonde, titular do Ministério da Saúde e do Bem–estar do Canadá – país que aplicava o modelo médico inglês. De acordo com esse conceito, o campo da saúde abrange:

- a biologia humana, que compreende a herança genética e os processos biológicos inerentes à vida, incluindo os fatores de envelhecimento;
- o meio ambiente, que inclui o solo, a água, o ar, a moradia, o local de trabalho;
- o estilo de vida, do qual resultam decisões que afetam a saúde: fumar ou deixar de fumar, beber ou não, praticar ou não exercícios;
-·a organização da assistência à saúde. A assistência médica, os serviços ambulatoriais e hospitalares e os medicamentos são as primeiras coisas em que muitas pessoas pensam quando se fala em saúde. No entanto, esse é apenas um componente do campo da saúde, e não necessariamente o mais importante; às vezes, é mais benéfico para a saúde ter água potável e alimentos saudáveis do que dispor de medicamentos. É melhor evitar o fumo do que submeter–se a radiografias de pulmão todos os anos. É claro que essas coisas não são excludentes, mas a escassez de recursos na área da saúde obriga, muitas vezes, a selecionar prioridades.

A amplitude do conceito da OMS (visível também no conceito canadense) acarretou críticas, algumas de natureza técnica (a saúde seria algo ideal, inatingível; a definição não pode ser usada como objetivo pelos serviços de saúde), outras de natureza política, libertária: o conceito permitiria abusos por parte do Estado, que interviria na vida dos cidadãos, sob o pretexto de promover a saúde. Em decorrência da primeira objeção, surge o conceito de Christopher Boorse (1977): saúde é ausência de doença. A classificação dos seres humanos como saudáveis ou doentes seria uma questão objetiva, relacionada ao grau de eficiência das funções biológicas, sem necessidade de juízos de valor.

Uma resposta a isto foi dada pela declaração final da Conferência Internacional de Assistência Primária à Saúde realizada na cidade Alma–Ata (no atual Cazaquistão), em 1978, promovida pela OMS. A abrangência do tema foi até certo ponto uma surpresa. A par de suas tarefas de caráter normativo – classificação internacional de doenças, elaboração de regulamentos internacionais de saúde, de normas para a qualidade da água – a OMS havia desenvolvido programas com a cooperação de países–membros, mas esses programas tinham tido como alvo inicial duas doenças transmissíveis de grande prevalência: malária e varíola.

O combate à malária baseou–se no uso de um inseticida depois condenado, o dicloro–difenil–tricloroetano (DDT), tendo êxito expressivo mas não duradouro. A seguir foi desencadeado, já nos anos 60, o Programa de Erradicação da Varíola. A varíola foi escolhida não tanto por sua importância como causa de morbidade e mortalidade, mas pela magnitude do problema (os casos chegavam a milhões) e pela redutibilidade: a vacina tinha alta eficácia, e como a doença só se transmite de pessoa a pessoa, a existência de grande número de imunizados privaria o vírus de seu hábitat. Foi o que aconteceu: o último caso registrado de varíola ocorreu em 1977. A erradicação de uma doença foi um fato inédito na história da Humanidade.

Quando se esperava que a OMS escolhesse outra doença transmissível para alvo, a Organização ampliou consideravelmente seus objetivos, como resultado de uma crescente demanda por maior desenvolvimento e progresso social. Eram anos em que os países socialistas desempenhavam papel importante na Organização – não por acaso, Alma–Ata ficava na ex–União Soviética. A Conferência enfatizou as enormes desigualdades na situação de saúde entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos; destacou a responsabilidade governamental na provisão da saúde e a importância da participação de pessoas e comunidades no planejamento e implementação dos cuidados à saúde. Trata–se de uma estratégia que se baseia nos seguintes pontos: 1) as ações de saúde devem ser práticas, exequíveis e socialmente aceitáveis; 2) devem estar ao alcance de todos, pessoas e famílias – portanto, disponíveis em locais acessíveis à comunidade; 3) a comunidade deve participar ativamente na implantação e na atuação do sistema de saúde; 4) o custo dos serviços deve ser compatível com a situação econômica da região e do país. Estruturados dessa forma, os serviços que prestam os cuidados primários de saúde representam a porta de entrada para o sistema de saúde, do qual são, verdadeiramente, a base. O sistema nacional de saúde, por sua vez, deve estar inteiramente integrado no processo de desenvolvimento social e econômico do país, processo este do qual saúde é causa e consequência.

Os cuidados primários de saúde, adaptados às condições econômicas, socioculturais e políticas de uma região deveriam incluir pelo menos: educação em saúde, nutrição adequada, saneamento básico, cuidados materno–infantis, planejamento familiar, imunizações, prevenção e controle de doenças endêmicas e de outros frequentes agravos à saúde, provisão de medicamentos essenciais. Deveria haver uma integração entre o setor de saúde e os demais, como agricultura e indústria.

O conceito de cuidados primários de saúde tem conotações. É uma proposta racionalizadora, mas é também uma proposta política; em vez da tecnologia sofisticada oferecida por grandes corporações, propõe tecnologia simplificada, "de fundo de quintal". No lugar de grandes hospitais, ambulatórios; de especialistas, generalistas; de um grande arsenal terapêutico, uma lista básica de medicamentos – enfim, em vez da "mística do consumo", uma ideologia da utilidade social. Ou seja, uma série de juízos de valor, que os pragmáticos da área rejeitam. A pergunta é: como criar uma política de saúde pública sem critérios sociais, sem juízos de valor?

Por causa disso, nossa Constituição Federal de 1988, artigo 196, evita discutir o conceito de saúde, mas diz que: "A saúde é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para a promoção, proteção e recuperação". Este é o princípio que norteia o SUS, Sistema Único de Saúde. E é o princípio que está colaborando para desenvolver a dignidade aos brasileiros, como cidadãos e como seres humanos.

Moacir Scliar
IN: Physis – Revista de Saúde Coletiva - 2007
                                                          

quinta-feira, julho 31, 2014

Interface entre Psicanálise e Literatura


Psicanálise e Literatura são dois discursos autônomos e delimitados. Desse modo, procuramos sempre respeitá-los em suas diferenças, tendo como hipótese de trabalho a proximidade entre ambos, proximidade nascida tanto da íntima relação que Sigmund Freud manteve com o texto literário, como do fato de ele revelar-se exímio escritor ao narrar seus casos clínicos à maneira de romances. O texto literário foi seu objeto de estudo, pois nele percebia antecipadamente aquilo que eram os fundamentos de sua descoberta. É o contar das histéricas, e sobre as histéricas que marcam a história, também narrada por Freud, o que firmou a dimensão da fala e da escrita como fundamental para a elaboração do saber psicanalítico.

Partindo da consideração de que existem duas modalidades de construção narrativa em Freud, ele opta por privilegiar uma leitura do texto psicanalítico, que focaliza a “escrita do sintoma” em detrimento do esforço de elaboração e explicação metapsicológicos que buscam acompanhar os postulados da ciência. É o contar, o contar das histéricas e sobre as histéricas que marcam a história, também contada por Freud, da psicanálise. Seria na verdade um romance do sintoma sobre o qual a psicanálise apoia-se e se funda (TEIXEIRA, 2005, p. 116).

Assim sendo, a fala impõe-se como instrumento a ser utilizado pela psicanálise na investigação dos males que afligem aqueles que procuram tal modalidade de cura, e a escrita impõe-se como modo de circunscrever o real que escapa e insiste nesta fala. “Atenção aos detalhes é consubstancial a uma conduta científica preocupada em ouvir as palavras exatas de um paciente, em saborear o discurso preciso de um escritor” (BELLEMIN-NOËL, 1978, p. 19).

Os sonhos, os atos falhos, os sintomas, os chistes, as fantasias, enfim as formações inconscientes são produto de um trabalho de elaboração psíquica que lhes confere seu aspecto enigmático e a consequente necessidade de interpretação para serem decifrados. Tais formações têm como função fazer valer um desejo inconsciente, que, por ter sido recalcado, ou seja, excluído dos investimentos narcísicos do sujeito, busca nessas formações satisfação e reconhecimento, uma vez que, segundo Freud, o ser falante a nada renuncia, apenas troca uma satisfação por outra. Tais formações ganham significação através da linguagem e das palavras com as quais o ser falante conta a sua história. É entre essas formações inconscientes que Freud situa a atividade do escritor.

O escrito assim como as formações inconscientes são o retorno do recalcado, portanto é o desejo inconsciente que produz o texto. Em seu trabalho “Escritores criativos e devaneios” (1908/1907), Freud compara o escritor criativo com o homem que devaneia, portanto compara o escrito com o fantasiar. “A linguagem da criança que brinca, do homem que sonha, do ‘louco’ é uma linguagem obscura, que o inconsciente habita e distorce permanentemente” (BELLEMIN-NOËL, 1978, p. 36). É a essa linguagem truncada, distorcida que a escuta do psicanalista está atenta, e é também ela que ele encontra nos escritos literários, quando se debruça sobre eles para analisá-los criticamente com os pressupostos psicanalíticos. Assim, tal como as formações inconscientes, no texto literário não é o sentido literal que importa, mas sim a lógica dos significantes que compõem a narração. Uma lógica que só pode ser decifrada com os elementos do próprio texto, claro que aqui nos referimos a uma análise do texto, tendo como ponto de partida a produção de um novo saber que poderá fazer avançar a teoria, e a suposição de que há ali um sujeito, que é o autor, neste caso, uma função e não uma pessoa.

Barthes (1982) diz que uma possível definição da literatura está no fato de ela não ser o sentido literal da frase. Para ele, a literatura é um sistema que não tem a função de comunicar um significado objetivo, exterior e preexistente ao sistema, mas criar somente um equilíbrio de funcionamento, uma significação em movimento. Desse modo, podemos inferir que é isso que confere peso e importância à literatura para a análise crítica psicanalítica, uma vez que a linguagem inconsciente também não tem como função a comunicação, mas sim a possível revelação de um saber sobre o desejo inconsciente.

É na dimensão dessa linguagem distorcida, sem intenção de comunicar que trabalham o escritor e o psicanalista, com a diferença de que o escritor utiliza-se dela constituindo, com o ato de sua escrita, um saber inconsciente que desconhece, enquanto o psicanalista, com sua escuta, objetiva a elaboração do saber sobre as leis que regem o inconsciente. Enquanto o escritor tem acesso singular a essa linguagem que não tem tempo, nem intenção, nem significação pré-determinada, o psicanalista tem que se debruçar por sobre suas investigações clínicas, tendo como sustentação de seu desejo a crença no inconsciente. E é aí que Freud avisa-nos do respeito que devemos ter para com o escritor, uma vez que este pode ensinar-nos muito a respeito do saber inconsciente. “Seus comentários indicam o artista, justamente pelo comércio especial com o inconsciente, como um precursor da psicanálise, que deve colocar-se na posição respeitosa de aprender com ele” (SOUZA, 2002, p. 268).

Ao discorrer sobre as abordagens psicanalíticas do texto literário, Bellemin-Noël (1978) especifica três tipos: (1) aquela abordagem cuja aproximação acontece por intermédio da investigação sobre as categorias: as narrativas exemplares, os tipos e motivo, os gêneros literários, os modelos formais. “Todas essas categorias de fatos que poderíamos batizar de transliterários, na medida em que textos e escritores se valem delas, exploram-nas, recorrem a elas com um modo ou uma intensidade originais” (BELLEMIN-NOËL, 1978, p. 53); (2) aquela que ocorre a partir do interesse no autor, em que podemos identificar várias vertentes, dependendo do enfoque da análise. Assim, temos a patografia, a psicobiologia, a psicocrítica, as psicanálises textuais. “Entre aqueles que visaram, e ainda visam ao autor, constatamos que o interesse deslocou-se do indivíduo (digamos: o gênio com sua neurose) para o escritor [...]” (BELLEMIN-NOËL, 1978, p. 67), e (3) aquela que pode dar-se por meio da leitura do texto, excluindo o autor. “[...] é uma atividade que se choca com nossos hábitos críticos e que suscita obscuras resistências mesmo naqueles em que menos se espera; todavia, parece que é aí que reside o futuro das pesquisas em ‘psicanálise literária’” (BELLEMIN-NOËL, 1978, p. 83).

Souza (2002), ao tecer comentários sobre as complexas relações do psicanalista com o texto literário, sublinha que a psicanálise é uma prática que não se separa da teoria. Desse modo, faz-se necessário que o psicanalista delimite sua prática clínica e sua relação com o texto literário a partir dos pressupostos psicanalíticos. Para situar as diferenças dessas posições assumidas pelo psicanalista, podemos começar a delimitar os textos aí em jogo, pois do que se trata em um caso como noutro são textos cujo sentido é inconsciente. O texto apresentado pelo analisando na prática clínica são seus sintomas, seus sonhos, suas fantasias, aos quais acrescenta elementos em um processo de associação livre, os quais possibilitam a continuidade do discurso, portanto do deslocamento significante. Ao psicanalista cabe fazer valer a barra que separa o significante do significado, isso nos momentos de interrupção das associações, apenas com o intuito de dar continuidade à fala. Portanto o psicanalista nada acrescenta ao material do analisando. Ao dirigir suas associações e seus textos ao psicanalista, o analisando espera deste uma resposta sobre aquilo que o aflige. Assim, é sob transferência que se dá a relação do texto do analisando e o psicanalista.

Diferentemente do texto do analisando, o texto escrito por um autor, sobre o qual se debruça o psicanalista, não tem a presença daquele para realizar as associações. A essa ausência, o psicanalista deve fazer suplência. De acordo com Souza (2002, p. 286) “[...] eis aí o ponto em que as diferentes abordagens, ainda que originadas na psicanálise, podem divergir e seguir caminhos distintos”. Assim, caso ele faça suplência a essa ausência com elementos do próprio texto, temos uma análise crítica que exclui o autor, como a textanálise; se ele busca na biografia do autor, portanto fora do texto literário os elementos para as associações, essa é uma análise cuja abordagem é psicobiografia ou patografia.

Sobre o texto literário, podemos dizer, ainda, que ele não é, ao menos de forma geral, dirigido ao outro na busca de respostas, de um saber. De tal modo, não há constituição de um sujeito suposto saber, pois não é sob transferência que a relação do psicanalista com este texto se dá. Tal como o texto do analisando, ele porta um saber, mas que só poderá ser decifrado a partir de seus próprios elementos. Segundo Souza (2002), enquanto na clínica o psicanalista ocupa o lugar de sujeito suposto saber, que promove o surgimento do sujeito entre um significante e outro, num processo metonímico e metafórico próprio à técnica psicanalítica, o crítico psicanalista ocupa o lugar que podemos aproximar ao lugar ocupado pelo analisando, já que é a ele que cabe fazer suplência a ausência deste nas associações livres. Essa suplência é feita sobre um texto que não é de sua autoria e sim de um outro. Ainda, de acordo com Souza (2002), é a crença de que há no texto literário um saber que pode fazê-lo avançar na teoria psicanalítica, que possibilita ao crítico psicanalista sustentar esse lugar de suplência, que advém da ausência de um suposto sujeito que seria o autor.


Não devemos esquecer que o texto literário é fundamentalmente linguagem, uma linguagem que visa representar o real, portanto não podemos ter a ilusão de que ele possa ter uma única interpretação, porque “O real não é representável, e é porque os homens querem constantemente representá-lo por palavras que há uma história da literatura” (BARTHES, 2007, p. 21). Assim sendo, tanto para o crítico como para o escritor só lhes resta fazer borda ao real pelo simbólico. Trata-se da função criativa do significante, que sempre nos remeterá à outra significação, cujo limite é necessário tanto num caso como no outro elaborar.

By: Leda Mara Ferreiro
In: Entrelinhas, Revista do Curso de Letras – Univ. Vale do Rio dos Sinos

Referências
BARTHES, Roland. Aula. Tradução de Leyla Perrone-Moisés. São Paulo: Cultrix, 2007. 95 p.
BELLEMIN-NÖEL, Jean. Psicanálise e Literatura. Tradução de Álvro Lorencini e Sandra Nitrini. São Paulo: Cultrix, 1978. 101 p.
FREUD, Sigmund. Escritores criativos e devaneio. Tradução sob a Direção-Geral e Revisão Técnica de Jayme Salomão. In: _____. Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, v. IX, 1969. 281 p.
SOUBBOTNIK, Olga Maria M. C. Souza. A psicanálise e as letras. In: MORAES, Alexandre (Org.). Modernidades e pós-modernidades: literatura em dois tempos. Vitória-ES: Edufes, 2002. p. 264-291.
TEIXEIRA, Leônia Cavalcante. O lugar da Literatura na constituição da clínica psicanalítica de Freud. Psyche (São Paulo), São Paulo, v. 9, n. 16, dez. 2005. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-11382005000200008&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 25 abr. 2011.


CONTARDO CALLIGARIS

A língua que habito. O psicanalista e escritor italiano Contardo Calligaris fala (ao Jornal Rascunho) sobre sua relação com a...