segunda-feira, abril 20, 2015

Psicanalise e Cultura






Psicanálise e transmissão do saber

Paolo Lollo



O discurso universitário nos faz ouvir a ideia de um saber que se transmite integralmente. O mestre endereça um saber ao discípulo, considerando-o um receptáculo vazio a ser completamente preenchido. O discurso científico - previamente esboçado pelos gregos e teorizado por Galileu, Isaac Newton e René Descartes - procura aproximar-se do real pela matematização e pela apreensão dos fenômenos da natureza por meio de cifras e letras. Galileu abre o livro da natureza, escrito "em linguagem matemática", e o decifra. Aprendendo essa linguagem, o homem pode ter acesso aos segredos da natureza, que obedeceria a leis universais e eternas. Trata-se, então, de descobrir essas leis, para que a ciência domine as forças da natureza.

O discurso universitário se outorga a tarefa de transmitir esse saber que seria mensurável, matematizável. Submetido ao discurso científico, ele faz da avaliação o guarda de honra da transmissão. A partir de um determinado conteúdo, que pode ser medido, há um esforço para avaliar que porção desse "todo" foi transferida do mestre para o aluno. A operação de transmissão é considerada bem sucedida, até mesmo perfeita, se a transmissão é total, sem resto. Mas como podemos medir, avaliar a transmissão do saber? Para isso precisamos de uma unidade de medida precisa: uma espécie de cálice de graduação capaz de transferir integralmente um conteúdo de saber perceptível na passagem de um a outro continente. Para a psicanálise, que concebe a matéria do saber como um estado psíquico, portanto proteiforme, o instrumento de medida é necessariamente impreciso e produz uma perda, que é não apenas necessária, mas também, como veremos adiante, útil à operação da transferência. Um instrumento semelhante a uma rede de pesca feita de uma malha grossa será suficiente para medir e também para transferir algum saber. Quanto mais grossa a malha, maior a perda na avaliação. Contudo, não significa que não haja um ponto ótimo de transferência do saber. O saber não se transmite de forma integral e, sobretudo, não da mesma maneira, já que sua forma e qualidade se transformam em cada transferência. São, portanto, variadas e não determinadas de antemão.

Para Jacques Lacan, o saber é transmissível graças ao fato de que permanece parcialmente escondido, velado. Explicar-se-ia, assim, porque sua retórica visa quebrar, fragmentar o discurso, por meio de jogos de palavras burlescos, digressões e interrupções, mas também por interjeições, onomatopeias, deslizamentos vocais e silêncios, tudo isso para transmitir a um público atento um saber que ofusca e "passa." Com as rupturas do discurso, Jacques Lacan corta o continuum de uma transmissão predeterminada em que significante e significado estariam colados e na impossibilidade de se separar, de se distinguir. A separação só pode ser concluída com a irrupção do sujeito que canta e que dança, um sujeito desejante (de-siderante), capaz de introduzir no discurso algo de humano e imprevisível, abrindo-o ao inconsciente (Lacan, 1991).

O discurso científico sustenta-se na exclusão do sujeito desejante, e visa à simbolização completa do real ( por exemplo, a grande teoria da unificação). Mas é verdade que esse discurso põe em cena o sujeito como observador externo de um objeto da natureza, a physis, razão pela qual poderíamos, então, entender o motivo por que se possa pelo menos conceber uma atitude neutra diante do real. O que parece problemático é calcar o discurso universitário no discurso científico: não podemos conceber um discurso universitário neutro que faça economia do sujeito desejante, do quid humano e de sua singularidade.
Quando um professor se dirige a um estudante para lhe transmitir um saber, ele põe em movimento uma dinâmica entre dois sujeitos. Assim, ele não pode abstrair-se do domínio humano que procede da singularidade. Se, na física, o ponto de vista do observador muda o objeto observado, no discurso das ciências humanas, o ponto de vista do professor forma e transforma o discípulo, mas ele também pode vir a ser transformado por um verdadeiro receptor que nunca é passivo. Assim, o objeto saber, o conteúdo transmitido no ensino, acaba se transformando nessa viagem de vai-e-vem.

Saber humanista e ato analítico
A psicanálise transmite um saber humanista cuja ética deve levar em conta a especificidade humana: a singularidade, o fato de que se vem ao mundo, se vive e se morre, um a um. Porém, ao mesmo tempo, a especificidade também se liga à universalidade humana: a liberdade do devir. Cada homem e cada mulher é impelido ao extremo dessa liberdade para se tornar ator e criador de seu próprio destino. A psicanálise procura ativar a singular força criativa de cada analisante, liberar a pulsão de vida, de modo que ela se torne capaz de desativar a força mortífera da repetição do mesmo. Rearticulando pulsão de vida e pulsão de morte, ligando-as às forças de criação, o trabalho analítico busca não apenas deslocar o sintoma, mas também transformá-lo.

A palavra "humano" remete a "húmus" e a húmido, portanto, a uma terra cujas qualidades lhe permitem engendrar o vivo, reproduzi-lo e cria-lo. A psicanálise e a transmissão de saber referem-se a esse húmus singular. Não haverá transmissão nem transformação da realidade se não houver obra de criação, ao mesmo tempo em que há repetição ou apreensão do saber. O saber pragmático da psicologia e da psicoterapia limita-se, no melhor dos casos, à cura por meio do deslocamento do sintoma. Sua ferramenta é o exercício (training) cujo princípio é a repetição do mesmo. A pulsão de morte é uma repetição, semelhante à de um disco quebrado que gira incessantemente. Uma repetição que não se associa a uma ação criadora, produtora, mas que é destinada a reproduzir os sintomas. A psicologia desloca o sintoma de um lugar para outro, mascarando-o e escondendo-o sob o tapete. Por isso, o trabalho analítico procura não apenas transferir, mas também transformar os sintomas. Do mesmo modo, o discurso da psicanálise visa transmitir o saber e, ao mesmo tempo, transformá-lo.

A ambição do ato analítico é movimentar uma dinâmica que enode repetição e criação, no intuito de deslocar o sintoma e de transformá-lo em seu ponto de origem, para que uma parte da energia que servia à repetição, ao deslocamento e ao recalque, possa ser utilizada na criação de objetos de arte, por meio da sublimação, assim como na autocriação e na recuperação. A energia que empregamos na manutenção e na repetição do sintoma pode ser usada para tornar possível o deslocamento criativo que podemos chamar "desejo", "desiderio", "de-sirius", que é uma energia usada para nos distanciar da estrela Sírio, prendendo-nos em uma órbita repetitiva. Mudar de órbita, ou até de estrela, é o objetivo da ação analítica e de cada transmissão de saber.

Transmissão da psicanálise
A psicanálise lê a natureza como um real em movimento que foge da apreensão por meio de categorias e dos instrumentos de medida dos geômetras. A physis, o real, é, para Lacan, "o que não cessa de não se escrever" (Lacan, 1985, p.127). Ela escapa à apreensão conceitual do saber humano. Essa recusa não significa que ela não aja no simbólico, mas temos que "saber lidar" com a presença ausente que não pode integrar nosso saber de forma plena e aberta. Por isso, a transmissão do saber analítico é uma empreitada difícil que não pode ser feita na universidade. Pela mesma razão, é difícil transmitir qualquer saber.

Sigmund Freud não desejava que a formação analítica fosse feita na universidade, pois ela seria transmitida somente "de forma dogmática, através de cursos teóricos ... sem a possibilidade de efetuar experiências ou demonstrações práticas" (Freud, 1976, pp. 217-220). Em contrapartida, ele desejava que todos os estudantes tivessem contato com a psicanálise durante seu percurso de formação universitária, pois ela lhes poderia abrir inúmeros horizontes nas mais diferentes disciplinas. Todavia, ele também pensava que apenas a literatura poderia oferecer aos psicanalistas em formação aquilo que a universidade não seria capaz de fazer. É instigante encontrar Freud opondo literatura e universidade. A literatura poderia transmitir aquilo que a universidade não está em condições de transmitir.

Modalidades da transmissão do saber
Há quatro frações de saber numa transmissão:

*Um saber que é transferido e que pode ser medido

Jacques Lacan chama esse saber de "o que cessa de não se escrever" (1985, p. 127). Em outros termos, um saber que pode ser transmitido por meio da teoria que consegue traduzir uma parte do real na linguagem das diferentes especialidades (matemática, física, filosófica etc.). O que cessa de não se escrever é uma pequena parte do real que encontra uma forma de representação simbólica. Mas essa parte mensurável, matematizável, traduzível em linguagem, não é todo o saber que uma transmissão coloca em jogo. Além disso, essa pequena parte do saber que passa nem mesmo poderia ser transmitida sem que as outras modalidades de transmissão também estivessem operando.

*Um saber que foi transferido, mas que não pôde ser medido

"O que não cessa de não se escrever" (Lacan, 1985, p.127). Um saber que está no real, que pode surgir ex-nihilo (do furo simbolicamente real), que é "pulsante" e pode ser transferido. Nós não sabemos quanto desse saber no real passou de fato através do ensino, já que não é mensurável. Mas podemos crer que esse saber tem uma existência que pode ser verificada. É precisamente ele que torna possível o processo de transferência sem o qual não há ensino. O saber no real, que não deixa rastro e do qual não temos representação, é a condição da transmissão do saber, pois possibilita o processo. Ele possui uma intensidade que se torna qualidade, pois constatamos que determinados alunos aprendem de forma rápida e eficiente, de maneira singular, enquanto outros não obtém o mesmo resultado. Este saber é um mistério para nós. Ele permanece em grande parte inacessível, mas é a condição da transferência e se pode verificá-lo no fato de que o saber mensurável passou satisfatoriamente. Ele é causa da qualidade dessa passagem e da criação de significantes novos. Logo, da qualidade da formação.

*Um saber que não pôde ser transferido: ele se perdeu, não chegou até o aluno a que estava destinado

"O que cessa de se escrever" (Lacan, J., 1985, p. 127). Nesse caso, trata-se de um saber real recalcado ou prescrito (forclos) que bloqueia a máquina da aprendizagem e da transferência. Algo do real não pode mais ser escrito, alguma coisa do real da transmissão se torna rígida, impossível de ser transmitida, de fazer vibrar a caneta sobre o corpo do papel e da letra. Trata-se do furo do traumatismo(1), do vazio produzido por uma sideração (verblüffung), estase do desejo. Uma estase que, certamente, pode ter a forma de uma repetição, como a do disco quebrado que gira ininterruptamente. Uma repetição que se torna pulsão de morte, que não se associa a uma ação criativa. Uma sideração que interrompe o caráter "pulsante" da physis, que não chega mais a se tornar lugar de emergência do real, nem a atravessar, furar ou quebrar a escritura para produzir algo de simbólico. No entanto, a paralisia apaga tudo, até mesmo o texto superegóico, por isso ela pode criar, de forma paradoxal, as condições de um novo arrebatamento, de um entusiasmo que levaria à produção de um novo texto.

Uma sideração é uma experiência de abertura fulgurante para o real, provocando a estagnação e podendo se transformar na condição de uma retroação que permitiria uma nova escritura simbólica. Nos seminários de Jacques Lacan de 8 de fevereiro de 1977 e de 5 de maio de 1979, Alain Didier-Weill buscou levantar e responder a três questões: o que possibilita a experiência da sideração? Como o analisante pode ultrapassar o muro da denegação para reencontrar o real? Como ele poderia fazer surgir um significante novo a partir da experiência siderante? Para Alain Didier-Weill, haveria três tempos lógicos passíveis de conduzir o analisante à produção de um significante novo: 1. Atravessamento da denegação que impede ao sujeito encontrar o real; 2. Experiência siderante; 3. Reação e resposta do analisante com a criação de um significante novo. O significante novo brota ex- nihilo do furo real e originário, evidentemente diferente do furo simbólico, mas capaz de antecipá-lo e criá-lo (Didier-Weill, A., 2010).

• Um saber que não pôde ser transmitido, mas que emergiu do nada, produzido pelo aluno, por sua pulsão criativa
"O que não cessa de se escrever" (Lacan, J., 1985, p.127). Trata-se de um saber pulsante que tem lugar na passagem do real através do simbólico. Ele emerge de um furo real na cadeia dos significantes inconscientes que Sigmund Freud chamou de "o umbigo do sonho" (1972, p.119). Um lugar de aparecimento, de nascimento e criação. O saber pôde surgir porque alguma coisa foi perdida na transferência e deixou um vazio ("o que cessa, por se escrever"); é um furo criador que permite sair do furo do traumatismo (trou-matisme) e da sideração, permitindo ao aluno ( e ao analisante) a produção do saber que falta no apelo; um saber que é produção e, portanto, uma atividade singular, e que é suposto produzir significantes novos.

Assim, o conjunto do processo de transmissão pode realizar-se. Já que uma transmissão é sempre singular, ela não pode estar referida a um sistema de avaliação universal. O problema é que não se pode avaliar nem medir com precisão o real psíquico. Podemos medir seus sinais externos, mas não podemos transmitir o que é da ordem da experiência de forma unívoca e integral... A aprendizagem dos animais que não falam permanece mecânica, superficial, externa. No saber humano, o inconsciente trabalha, um saber opera no íntimo, e o intima. Um espaço interno no qual um tempo (time) singular permite um novo tipo de aprendizagem que põe em movimento e questiona o sujeito aprendiz, e o convida a criar o seu próprio saber.

Saber e "Transcriação (2)"

Ensinar a aprender (3) é uma experiência singular que cada um cria da maneira que lhe é própria, mas pode ser induzida por uma transmissão que sugere e respeita o espaço de liberdade do receptor. Transmitir o saber significa primeiramente ensinar a receber o que nos é dado e a produzir o que não podemos receber diretamente e que devemos criar em nós a partir do novo. Transmitir o saber significa, então, criar as condições para que o saber seja a um só tempo recebido e produzido. Há na transmissão uma parte que é intransmissível e que não pode ser transferida, simplesmente porque não se encontra lá onde se crê que ela esteja e talvez não seja o que se crê que seja. Ela não é transferível pois ainda não existe em uma forma que possa ser acolhida e recebida. Chamarei "transcriação" essa parte que só pode ser transferida e recebida depois de criada.

Cada saber é sempre singular, porque produzido, em grande parte, por aquele que o recebe, mesmo quando se trata do saber científico, pois ele se encontra em simbiose com o sujeito que o produz e sustenta simultaneamente. Transmitir um saber significa, então, transmitir o transmissível, mas, também, fazer com que o não transmissível possa se reproduzir. Por isso, o problema não é apenas transmitir, doar um saber, é também perceber o "como", isto é, a maneira como ele pode ser recebido. Só há transmissão na presença da escuta do outro. Essa escuta é um "receptor" que , somente a posteriori, realiza a transmissão em um novo "dizer" (nova transmissão). O dizer constitui o agenciamento de dois movimentos: recepção e transmissão, a qual reúne, na transferência, repetição e criação.

Notas
(1) (N.T.) No original: trou - matisme, neologismo em que Lacan condensa os vocábulos trou, furo, etraumatisme, traumatismo.
(2) (N. A.) Neologismo que condensa o verbo "transferir" e o nome "criação", para significar uma transferência de saber que só opera mediante uma produção ex novo.
(3) (N. T.) No original: "apprendre à apprendre" também se poderia traduzir por "ensinar a ensinar" ou "aprender a ensinar". Optamos pela tradução que nos pareceu mais próxima ao encadeamento do texto.


Referências Bibliográficas
DIDIER-WEILL, A. (2010). Un mystère plus lointain que l' inconscient. Paris, Aubier.
FREUD, S. (1900). A interpretação dos sonhos in Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1972, vol. IV.
______ (1900) L'interprétation des rêves, in Oeuvres complètes, tome IV, Paris PUF, 2003.
FREUD, S. (1919[1918]). Sobre o ensino da psicanálise nas universidades in Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Edição Standard Brasileira. Rio de Janeiro: Imago Ed., 1976, vol. XVII.
______ (1919[1918]). Faut-il enseigner la psychanalyse á l' université ? in Oeuvres complètes, tome XV, Paris PUF, 2002.
LACAN, J. (1969-70). O Seminário, livro 17: o avesso da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1992.
______ Le Séminaire, Livre XVII. L'envers de la psychanalyse. Paris, Seuil, 1991.
LACAN, J. (1972-73). O Seminário, livro 20: mais, ainda. Rio de janeiro: Jorge Zahar Ed., 1985.
______ (1972-73). Le Séminaire. Livre XX. Encore. Paris, Seuil, 1975.



Psicanalista, filósofo, pesquisador associado à Universidade de Paris VIII; exerce a clínica no Hospital da Piété- Salpêtrière e é secretário geral da Associação "Insistance" (arte-psicanálise- política)


FONTE: TRIVIUM - Estudos Interdisciplinares Psicanalise e Cultura


  


segunda-feira, abril 06, 2015

Felicidade Programada



Happynomics: a felicidade utópica

 Pierre-Gilles Guéguen

Em 14 de outubro de 2007, o jornal britânico The Independent – com tendência liberal-democrata, portanto à esquerda do Partido Trabalhista, teve como manchete: “Uma vitória do pensamento positivo”, referindo-se ao relatório de pré-orçamento do ministro das Finanças, Gordon Brown. Diante do desastre do sistema psiquiátrico inglês, o ministério tomou as rédeas: liberou £30.000 imediatamente, seguidos de £170.000 que, a partir de 2010 seriam dedicados ao retorno das “terapias pela palavra”.

Uma lei que altera o plano de saúde mental é votada no parlamento. Ela ratifica o fracasso das terapias medicamentosas e inicia uma mudança nas prioridades: “Os médicos generalistas não tem tempo para falar com os seus pacientes; se eles se queixam de estresse ou depressão, a lista de espera para consulta é de 18 meses. Agora sabemos que o tratamento pela palavra é mais eficaz para muitas dessas doenças”, disse o The Independent, que realiza uma campanha de pressão política nesse sentido há cinco anos. “A depressão e a ansiedade geram custos enormes, tanto para as pessoas diretamente envolvidas, como para o país. Isto é ainda mais caro do que o desemprego”, garante Layard, professor da renomada Escola de Economia de Londres. Ele é a inspiração por trás do projeto, e autor de um livro com título delirante: Felicidade: Lições de uma nova ciência. Ao sabermos que o diretor de uma escola pública elitista - o Colégio Wellington – incluiu no programa de seus alunos cursos de felicidade ministrados pelos professores de religião e supervisionados pelo professor da Universidade de Cambridge, Nick Baylis, fundador de um “Instituto da Felicidade”, não deve surpreender a ideia de que quase todo o crédito do plano Layard será direcionado à formação de psicólogos em TCC – os quais devem designar os termos de “terapias pela palavra” e “pensamento positivo”.

Algumas vozes, no entanto, parecem entrar em dissonância com essa loucura generalizada, como a do Professor Rufus May, da Universidade de Bradford, que fez valer o argumento econômico: “O pensamento do governo sobre a saúde mental não é a longo prazo. Tudo é a curto prazo: ninguém quer saber nada além da maneira mais econômica de resolver o problema. Precisamos pensar em um sistema mais global”. Entretanto, no suposto quadro para “melhorar a perspectiva do público em relação às psicoterapias”, dois centros-piloto foram implementados e um vasto programa nacional deve dar continuidade ao projeto: “os terapeutas não terão que ser graduados em psicologia e, por isso, o treinamento pode ser feito em algumas semanas por cognitivistas que apliquem protocolos sob a supervisão de um psicólogo diplomado”. Nossa colega britânica Julia Evans se referiu corretamente a estes centros como “fábricas do bem-estar”.

Se é verdade que recentemente a política global de saúde tem sido amplamente modificada sob a pressão de conservadores liberais – no sentido tradicional e europeu de liberalismo –, eu não pude, contudo, me assegurar que esses projetos duvidosos tenham sido abandonados. É verdade que o governo de David Cameron é, em boa parte, composto de conservadores autoritários, de acordo com uma política da saúde intervencionista, definida ainda sob os governos trabalhistas de Tony Blair e Gordon Brown, que foi chamada de New Labour.

Em 12 de março de 2011, surgiu uma matéria um tanto irônica do colunista britânico Roger Cohen, do The New York Times, sob o título “Os happynomics da vida”, que gerou inúmeros comentários. A matéria anuncia que, a partir de abril de 2011, cada cidadão britânico deveria estar preparado para responder às seguintes perguntas em uma escala de 0 a 10: Você se sentiu feliz no dia de ontem? Você se sentiu ansioso no dia de ontem? Você se sente satisfeito com a sua vida hoje? Até que ponto você acha que o que você faz da sua vida vale a pena?

O governo de David Cameron quer instituir o primeiro índice econômico de felicidade dos sujeitos de Sua Majestade, como indicado pelo repórter: “Isto é para dar o valor das coisas que não têm rótulos,” ao invés de código de barras. Isso faz parte do projeto Big Society de Cameron.

Poderíamos identificar aí um gosto bastante britânico pela excentricidade, à la Lytton Strachey, nesses projetos renovados de Bentham, não coincidisse isso com uma tendência profunda entre especialistas em economia em todo o mundo. Layard é professor na Escola de Economia de Londres e trabalha numa linha muito próxima dos economistas americanos. Seu relatório sobre a depressão na Grã-Bretanha, que é a origem do projeto, assim como o trabalho de seus colegas, é baseado em agregados tão sofisticados como vazios de dados cognitivo-comportamentais.

O mais conhecido entre esses economistas é o ganhador do Prêmio Nobel de Economia de 2002, Daniel Kahneman, da Universidade Princeton nos EUA, mas outros economistas mundialmente conhecidos como Joseph Stiglitz também se juntaram a essa linha de trabalho, alguns para minimizar os custos das intervenções do Estado na política de saúde (do lado dos conservadores), e outros para encontrar uma maneira de se opor ao poder do dinheiro nas mudanças dos indicadores do PIB e fazer valer o argumento de que a qualidade de vida não pode se reduzir inteiramente à posse de riquezas.

Se os franceses se consideram imunes, lembrem-se apenas que um relatório de mais de 400 páginas, encomendado por, e com prefácio de Nicolas Sarkozy, foi publicado pela Editora Odile Jacob em novembro de 2009, sob a direção dos Prêmio Nobel de economia Joseph Stiglitz e Amartya Sem, e do professor e especialista francês bastante conhecido, Jean-Paul Fitoussi. Trata-se, como eles dizem, de garantir a mensuração e boa gestão do que chamam de “capital humano”.

Como indicado na contracapa: “Para enfrentar o futuro, devemos, em primeiro lugar, decifrar melhor o mundo em torno de nós e compreender melhor como ele muda. Não há outro meio senão o de melhorar a aritmética das nações”.

Portanto, para além dessa ou daquela nação, é o conjunto dos países da economia mundial que estão envolvidos nesta abordagem econômica.

Além das crises econômicas - ocorridas repetidamente desde 2008, e bem antes por certo – outros fatores demonstram a inutilidade de tais empresas. A “aritmética das nações” não obedece à lógica do inconsciente nem ao do mal-estar na civilização. Ela está baseada na suposição de que o gozo poderia se escrever sem resto, ou seja, poderia ser totalmente inscrita dentro de um sistema de ficções que não tocam o real, do tipo benthamiano. Ora, trata-se, para o ser humano, de uma relação entre o corpo e a letra, relação que os happynomics ignoram, mas da qual Lacan tratou especialmente no final do seu texto “Lituraterra”. Remito-os aqui a uma apaixonante discussão entre Éric Laurent e Jacques-Alain Miller, onde o problema é formulado a partir da frase conclusiva de Lacan: “Uma ascese da escrita não me parece poder ser atingida senão alcançando um ‘está escrito’ onde se inscreveria a relação sexual”.

A conclusão desta breve apresentação poderia, então, apoiar-se neste comentário que tomo emprestado de E. Laurent: “O discurso analítico só passará se conseguir fazer escutar sua prática da não-relação, o que explica a abundância de termos em Lituraterra que designam as não-relações; que vemos aparecer ora como substantivo (Lacan fala de ruptura, de quebra), ora como verbo (ele fala de dissolver, de quebrar), tudo isto aplicado ao significante.

Isso indica que a letra está no corpo e que ela marca a ligação indissolúvel entre a fala e o corpo pulsional, extraindo um resto que cava a não-relação, e que Lacan põe em marcha sob o termo de objeto a.

O impasse dos happynomics reside no fato de que eles acreditam que a fala não comporta nenhuma não-relação e, portanto, nenhum resto. Esses economistas imaginam que é possível fazer os consumidores felizes mesmo que eles não saibam, enquanto Lacan, mais prudente, sabia que de, entrada, “o sujeito é feliz”, porque ele goza de seu sinthoma, isto é, do vivente que há nele. Os happynomics, pelo contrário, sonham com um mundo cuja enunciação, quer dizer, a tomada do corpo naquilo que se diz, tenha desaparecido. Sobrariam apenas enunciados sem sujeito – teatro de sombras, algo próximo do Bunkaru japonês, do qual Roland Barthes dizia, em O Império dos Signos, ter experimentado, ao assistir, o alívio de quem abandona toda a responsabilidade para se submeter a um outro gozo.

A psicanálise vai na direção oposta, e os jovens da Puerta del Sol, ou da Praça Syntagma, nos fazem lembrar disso ao usarem como slogan: “Nós somos seres humanos, e não os números do desemprego”.
Tradução: Priscylla Guedes


Revisão: Alma Rosas e Marcelo Veras

Fonte: Agente - Revista de Psicanálise

quarta-feira, março 11, 2015

Michel Foucault: Biopoder e Biopolítica




Genealogia do Biopoder


O objetivo do presente artigo é o de rastrear os elementos e articulações que possibilitaram a Michel Foucault a elaboração dos conceitos de biopoder, biopolítica, governamentalidade e segurança. Pretendemos fazer uma genealogia do biopoder e da biopolítica, buscando retraçar os caminhos que tornaram possível a construção dessas noções.

 As questões e problematizações em torno das noções de biopoder, biopolítica e população já estavam presentes no pensamento de Foucault, ainda que de forma germinal, pelo menos desde 1974; podemos constatar isso nas três conferências do Rio de Janeiro, realizadas no Instituto de Medicina Social da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), em outubro daquele ano, e mais tarde, em 1976, no artigo “La Politique de la santé au XVIII siècle” (Foucault, 1976b), trabalho que foi reeditado com modificações e acréscimos em 1979 (Foucault, 1979/2001d).

As conferências do Rio de Janeiro tinham como tema geral o nascimento da medicina social, no contexto da medicalização da sociedade, o que, segundo Foucault, teve início no século XVIII, e evidenciam o papel central desse tema na elaboração posterior dos conceitos de biopoder e biopolítica, articulados com a noção de população. Essas conferências fazem parte das investigações apresentadas por Foucault, no ano seguinte, no curso Os anormais (Foucault, 1975/2002). Na ocasião, a disciplina constituía ainda a grade de investigação privilegiada por ele em sua abordagem sobre o poder, tanto que um dos objetos de análise era uma instituição disciplinar: o hospital. No entanto, já é possível encontrar nesse momento de sua produção todo um questionamento a respeito das relações da medicina com a população, com o meio urbano e com a doença como fenômeno natural, marcado por regularidades.

As relações entre a medicina e a economia política, a estatização da medicina e o governo da vida também estão presentes nessas conferências, temas que serão retomados nos cursos Sécurité, Territoire, Population, em 1978, e La Naissance de la biopolitique, em 1979.

Há, enfim, nessas conferências, vários elementos que se articulam com a emergência dos conceitos de biopoder, biopolítica das populações, governamentalidade e segurança.

Na primeira conferência, Crise de la médicine ou crise de l’antimédicine? (Foucault, 1976/2001a), Foucault aborda um tema que será retomado mais tarde, em outros trabalhos: a relação entre o pastorato1 cristão e o governo dos homens. O cristianismo, desde o Império romano, fez da alma um dos objetivos da intervenção do “Estado”, já que se propôs a cuidar das almas e salvá-las. Se até o século XVIII as teocracias europeias incluíam entre suas tarefas a salvação das almas, a partir daí, começa a ser preparado e construído o regime sob o qual vivemos hoje, uma “somatocracia”. “Nós vivemos sob um regime para o qual uma das finalidades da intervenção estatal é o cuidado do corpo, a saúde corporal, a relação entre doença e saúde, etc.” (Foucault, 1976/2001a, p. 43).

O poder dirigido para a salvação das almas se transformou e, com o enfraquecimento da instituição eclesiástica, ele se desdobrou e se estendeu para o Estado em sua forma moderna. A salvação espiritual assume então uma forma terrestre, se infiltra no corpo social, e passa a ter como objetivos a saúde e o bem-estar da população (Foucault, 1984, Dreyfus & Rabinow, 1984, p. 306). Se até o século XVIII a medicina se ocupava do doente e das doenças, houve depois disso uma progressiva medicalização do Estado, das cidades e da população. A vida em seu conjunto passa a ser objeto de preocupação do Estado, por meio da intervenção médica. Essas considerações se situam na raiz do que mais tarde será o conceito de biopoder. É o que Foucault, nesta primeira conferência, denominou bio-história, ou seja, um novo regime de historicidade, de relações de interferência entre os movimentos da vida e os processos históricos, que se define enfim, pela entrada da vida na história, no campo das técnicas políticas. “O médico e o biólogo não trabalham mais, doravante, no nível do indivíduo e de sua descendência, mas começam a fazê-lo no nível da própria vida e de seus acontecimentos fundamentais” (Foucault, 1976/2001a, p. 48)

A medicina passa a intervir num campo mais amplo da existência do indivíduo e da população, apoiada pela integração do seu saber a estratégias emergentes de governo, na segunda metade do século XVIII. “Desde o século XVIII, a medicina não cessou de se ocupar daquilo que não a concerne, quer dizer, daquilo que não se liga aos diferentes aspectos dos doentes e das doenças” (Foucault, 1976/2001a, p. 50)
Foucault atribui a medicalização da medicina, da sociedade e da população a quatro processos ligados à expansão do domínio do saber médico, em especial na segunda metade do século XVIII, e que caracterizam a medicina deste período. Os quatro processos, que serão abordados nos tópicos seguintes, são: o aparecimento da autoridade médico-política e a instauração da medicina de Estado e da polícia médica; a ampliação dos domínios da medicina para além dos doentes e da doença, com a constituição da medicina urbana; 2 a medicalização do hospital, quer dizer, sua transformação em instrumento terapêutico; e, por fim, a constituição de “mecanismos de administração médica: registro de dados, estabelecimento e comparação de estatísticas, etc.” (Foucault, 1976/2001a, p. 50).

Ciência do Estado e Polícia Médica 
Primeiramente, no que tange ao surgimento de uma autoridade médica – autoridade social e política, que decide sobre a cidade, sobre uma instituição ou sobre as regras que concernem à saúde e à doença, etc. – vale assinalar que estamos falando de uma medicina de Estado, a Staatzmedizin dos alemães, sustentada pela polícia médica, a qual abordaremos adiante. A medicina do Estado teria surgido na Alemanha, no início do século XVIII e estava articulada com a “estatística” como ciência do Estado, Staatswissenshaft. Essa ciência do Estado implica admitir um saber do Estado, quanto aos seus recursos naturais, condições de vida e qualidade da saúde da população (com suas taxas de natalidade e mortalidade), e também no que se refere ao funcionamento da máquina política estatal (Foucault, 1977/2001b, p. 210).

E implica ainda os métodos pelos quais o Estado produz e acumula conhecimentos que possibilitam o seu funcionamento. Foucault aborda aqui mais um tema que será retomado em Sécurité, Territoire, Population e em La Naissance de la Biopolitique, a constituição, no século XVII, da polícia e de uma ciência do Estado, de uma reflexão calculada sobre o Estado.

Essa ciência do Estado começa a se forjar no século XVII, a partir das práticas derivadas do cameralismo e do mercantilismo, não apenas enquanto doutrinas econômicas, mas como modos de governar, como prá- ticas de governo que visavam a “regular as correntes monetárias internacionais, os fluxos correspondentes de mercadorias e a atividade produtiva da população. A política mercantilista assentava-se essencialmente sobre o crescimento da produção e da população ativa” (Foucault, 1977/2001b, p. 212). É nesse contexto que a saúde da população torna-se objeto de preocupação e avaliação para os Estados emergentes da Europa. Até o período mercantilista, a população aparecia apenas como um dos elementos que refletiam a potência do soberano, juntamente com a extensão do seu território e a importância de suas riquezas. Com o mercantilismo, a partir do século XVII, a população aparece como o elemento fundamental, o princípio mesmo, da riqueza e da potência do Estado. Afinal, a população é a força que produz essas riquezas. Ainda que os mercantilistas tenham sido os primeiros a considerar a população essencialmente enquanto força produtiva, ela na verdade só pôde ser considerada nesses termos porque estava submetida a um regime disciplinar e enquadrada por um aparelho regulamentador. Quer dizer, isso só foi possível porque essa população acabou sendo “efetivamente adestrada, repartida, distribuída, fixada segundo os mecanismos disciplinares. População, princípio de riqueza, força produtiva, enquadramento disciplinar: tudo isso forma uma unidade no interior do pensamento, do projeto e da prática política dos mercantilistas.” (Foucault, 2004b, p. 71)

Assim, embora os mercantilistas e cameralistas considerassem a população, submetida aos dispositivos disciplinares, o fundamento da riqueza do Estado, ela era ainda pensada em termos jurídicos, como “a coleção de súditos de um soberano” (Foucault, 2004b, p. 72). O que estava em jogo nessas doutrinas e nessa forma de racionalização do exercício do poder era o crescimento da potência e da riqueza do Estado. Segundo Foucault, o sujeito/objeto população não tinha, ainda, com o mercantilismo e o cameralismo, adquirido sua autonomia, nem tampouco se emancipado do poder do Estado.

No entanto, ainda não havia modalidades de intervenção para melhorar a saúde da população. As formas de intervenção organizadas e refletidas em torno da melhoria da saúde pública surgem na Alemanha com o conceito de Medizinischepolizei, ou polícia médica.

Foucauld atribui a introdução da policia médica a um autor alemão, Johann Peter Frank, o qual publicou em cinco volumes, entre 1779 e 1790, o que seria o primeiro tratado de saúde pública, cujas propostas iam muito além do simples levantamento das taxas de natalidade e mortalidade. O estudo englobava, mais propriamente, o projeto de saúde pública de Frank enquanto “organização de um saber médico do Estado, da normalização da profissão médica, da subordinação dos médicos a uma administração geral e, por fim, da integração dos médicos numa organização médica do Estado” (Foucault, 1977/2001b, p. 214). Oito anos depois, em outubro de 1982, num dos seminários na Universidade de Vermont, intitulado “La technologie politique des individus” (Foucault, 1988/2001e, pp. 1.632-1.647), Foucault retoma esse mesmo autor, já no contexto de uma reflexão sobre o biopoder e o governo político das populações, a obra de Frank é o primeiro grande programa sistemático de saúde pública para o Estado moderno. Ele indica com um luxo de detalhes o que deve fazer uma administração para garantir uma revitalização geral, moradias decentes, a saúde pública, sem esquecer as instituições médicas necessárias à boa saúde da população, enfim, para proteger a vida dos indivíduos. (Foucault, 1988/2001e, p. 1.634)

Nessas condições, o Estado passa a se encarregar da vida individual e coletiva, a vida torna-se então objeto de governo. Ora, essa polícia médica é elemento de um conjunto tecnológico mais amplo: a polícia. Foucault considera que essa tecnologia de poder começa a se desenvolver a partir do século XVII como o “conjunto de meios pelos quais pode-se fazer crescer as forças do Estado mantendo-o ao mesmo tempo em boa ordem” (Foucault, 2004b, p. 321). Para alcançar esse objetivo, o Estado deve conhecer suas forças, sua população, sua produção, suas riquezas, seu comércio, etc., o que implica um saber sobre o próprio Estado. Esse é o momento em que emerge um domínio específico de conhecimento: a estatística. “A estatística torna-se necessária pela polícia, mas ela torna-se igualmente possível pela polícia” (Foucault, 2004b, p. 323). A polícia, na medida em que torna possível a emergência desse campo de saber que é a estatística, constitui, ao mesmo tempo, o objeto desse campo, ou seja, a população. A noção de população, como objeto autônomo de reflexão política, vai ser elaborada, no século XVIII, por meio da intervenção do conjunto de práticas que constitui a polícia. 


A Medicina Urbana
O segundo processo, ligado ao desenvolvimento da medicina social e da medicalização da sociedade, foi o nascimento da medicina urbana. Essa medicina surge com o desenvolvimento e as transformações das estruturas urbanas. As grandes cidades, ao mesmo tempo em que centralizavam as atividades comerciais, eram centros produtores. Além disso, o desenvolvimento das cidades e a indústria nascente também contribuíram para a formação de uma população operária e pobre. “O fato de que a cidade não era somente um lugar de mercado, mas também um lugar de produção, tornou obrigatório o recurso a mecanismos de regulação homogêneos e coerentes” (Foucault, 1977/2001b, p. 216).

Nesse contexto, Foucault aborda os exemplos que serão tratados no curso de 1975, Os anormais: o sistema de exclusão da lepra e o sistema de quarentena da peste. No primeiro modelo, comum nas sociedades ocidentais desde a Idade Média, separavam-se, com rigor, os casos de lepra, excluindo-os do espaço comum, da cidade; o que se buscava com isso era uma purificação do meio urbano. No segundo modelo, utilizado no final do século XVII e início do XVIII para combater a peste, não se excluía, mas sim incluía. No caso da peste, o poder político da medicina dividia a cidade em setores e subsetores, todos os movimentos eram registrados, tudo e todos eram constantemente vigiados e controlados. “O momento da peste é o momento do policiamento exaustivo de uma população por um poder político, cujas ramificações capilares atingem sem cessar o pró- prio grão dos indivíduos, seu tempo, seu hábitat, sua localização, seu corpo” (Foucault, 1997/2005, p. 59). O modelo da quarentena da peste visava a “maximizar a saúde, a longevidade, a força dos indivíduos. Tratava-se no fundo de produzir uma população sadia” (Foucault, 1997/2005, p. 58)

O modelo da peste vem substituir a grande internação, o modelo do hospital geral como lugar dos excluídos. A introdução do modelo da peste marca a emergência das tecnologias positivas de poder, dos mecanismos disciplinares e de uma nova “arte de governar”.

A medicina urbana e a higiene pública, na visão foucaultiana, seriam um prolongamento refinado do modelo da quarentena, mantendo, no entanto, seus procedimentos de vigilância e controle. Essa medicina teria se constituído em torno de alguns objetivos principais: analisar os lugares de acúmulo de restos e dejetos, no interior do espaço urbano, os quais poderiam ser focos de enfermidades e de epidemias; controlar a circulação, do ar, da água, dos alimentos e mercadorias; estudar a distribuição e organização dos elementos indispensáveis à vida no espaço da cidade, tais como fontes, esgotos, etc.

Todos esses objetivos se articulavam a saberes emergentes, que atribuíam a aspectos do meio, e às condições de vida da população e aos seus hábitos, a origem e a propagação de diversas enfermidades. A medicina urbana se constitui então muito mais como uma medicina dos elementos e das coisas, dos processos físico-químicos, muito mais do que uma medicina dos corpos. “Essa medicina das coisas esboçava já, sem que o termo todavia aparecesse, o conceito de meio ambiente que os naturalistas do fim do século XVIII, como Cuvier, iriam desenvolver” (Foucault, 1977/2001b, p. 222). Com a medicina urbana surge também a noção de salubridade, a qual remete aos elementos que constituem o estado do meio ambiente, e que podem então afetar a saúde dos indivíduos. A higiene pública se se constitui como “técnica de controle e de modificação dos elementos do meio que podem favorecer esta saúde ou, ao contrário, prejudicá-la” (Foucault, 1977/2001b, p. 223). Foucault retomará essa temática do espaço urbano, dos problemas de circulação e do meio ambiente no curso Sécurité, Territoire, Population, não como prolongamento refinado da tecnologia disciplinar, mas no contexto da emergência de uma nova tecnologia do poder, que é a dos dispositivos de segurança, tendo como pano de fundo a governamentalidade.

 O Meio Ambiente e a Naturalidade dos Fenômenos
O terceiro processo, mais familiar, é abordado por Foucault na terceira conferência, “L’incorporation de l’hôpital dans la technologie moderne” (Foucault, 1978/2001c, pp. 508-521). Nela, o autor descreve a transformação do hospital geral, no início do século XVIII – ele funcionava como instituição de exclusão e de assistência ao mesmo tempo, e ali se misturavam loucos, doentes, prostitutas, enfim, toda sorte de excluídos – em instrumento terapêutico e de cura. Está em jogo, segundo ele, todo um processo de medicalização do hospital, o que se torna possível graças à “introdução dos mecanismos disciplinares no espaço desordenado do hospital” (Foucault, 1978/2001c, p. 517) e à extensão da prática da medicina, que se volta agora para os problemas do ambiente, “na medida em que a doença passa a ser considerada como um fenômeno natural, que obedece a leis naturais” (Foucault, 1978/2001c, p. 517).

O fato de a doença passar a ser considerada fenômeno natural introduz duas questões importantes: primeiro, a noção de meio, ambiente ou meio ambiente, e, em seguida, a noção de naturalidade atribuída a certos fenômenos. Vejamos a noção de meio ambiente, para depois nos determos sobre a concepção da naturalidade dos fenômenos. A noção de meio, proveniente da física newtoniana, ainda não estava presente no início do século XVIII. Ela só vai aparecer na biologia, de forma indireta, com Lamarck, e depois com Cuvier e Darwin.

Lamarck fala sempre de meios, no plural, e entende, com isso, estritamente os fluidos como a água, o ar e a luz. Quando Lamarck quer designar o conjunto das ações que se exercem do exterior sobre o vivente, quer dizer, o que nós hoje chamamos de meio, ele não diz jamais o meio, mas sempre “circunstâncias influentes”. (Canguilhem, 1975, p. 131)

A referência epistemológica de inteligibilidade das doenças nessa época ainda era o sistema classificatório de Lineu, a história natural. Somente com as transformações que tiveram lugar a partir da segunda metade do século XVIII e início do XIX, pôde haver uma passagem do sistema classificatório para a análise interna do organismo e, depois, “do organismo na sua coerência anátomo-funcional às relações constitutivas ou reguladoras desse organismo com o meio de vida” (Foucault, 2004b, p. 79). Como se vê, a noção de meio é contemporânea da emergência do conceito de organismo e da passagem da história natural para a biologia.4 Quanto a essa última ideia, Foucault afirma, em Sécurité, Territoire, Population, que “é a problematização, então, da população no interior dessa análise dos seres vivos que permitiu passar da história natural à biologia” (Foucault, 2004b, p. 80).

Se a noção de meio ainda não havia sido formulada de modo explícito pelos saberes médico e urbanístico da primeira metade do século XVIII, ela já se fazia presente, ainda que não enunciada, nas práticas emergentes da medicina urbana, dos arquitetos e dos primeiros urbanistas. Se em termos nocionais mais específicos ela não existia propriamente, “eu diria que o esquema técnico dessa noção de meio, a espécie/tipo – como dizer? de estrutura pragmática que a desenha de antemão está presente na maneira pela qual os urbanistas tentam pensar e modificar o espaço urbano” (Foucault, 2004b, p. 22). Além disso, ela ainda estaria presente na extensão do campo de intervenção médica para o espaço urbano. Esse tipo de medicina não visa à doença em si, mas tudo àquilo que, no ambiente, pode favorecer ou dificultar o surgimento da doença: o ar, a água, a alimentação, a higiene, a temperatura, a umidade, etc.

 A segunda questão importante diz respeito à concepção da naturalidade de um fenômeno. Ela não é exclusiva do pensamento médico, no fim do século XVIII, uma vez que já estava presente na teoria dos fisiocratas. Nessa teoria, toda a análise econômica está centrada na ideia da naturalidade dos processos envolvidos, nas interferências climáticas na produção agrícola, na relação entre escassez e elevação dos preços, etc. É quando a multiplicidade do humano passa a ser pensada como dependente da interação de uma série de variáveis – tais como o clima, o seu ambiente material, a circulação de mercadorias e riquezas e os hábitos – que ela pode emergir como população, como sendo ela própria também um fenômeno natural, que não é inteiramente controlável, mas ainda assim permeável às técnicas de intervenção. Quando a população se constitui como um elemento a ser considerado, no campo da teoria e da prática econômica abre-se, na visão de Foucault, “um domínio de saber novo que é a economia política” (Foucault, 2004b, p. 79). A introdução da população na reflexão econômica possibilita a passagem da análise das riquezas para a economia política. Enfim, é essa concepção de naturalidade – de uma aleatoriedade inevitável de um conjunto de fenômenos, ligados à vida humana, a qual se desenvolveu no fim do século XVIII – que vai possibilitar a emergência de uma nova racionalidade governamental, de um novo dispositivo de poder que será por ele descrito em 1978, como dispositivo de segurança ou de regulação: “A economia política pôde se constituir a partir do momento onde, entre os diferentes elementos da riqueza, apareceu um novo sujeito, que era a população” (Foucault, 2004b, p. 109). Trata-se, então, de uma tecnologia governamental, uma arte de menos governar, que tem como condição de possibilidade a percepção e o reconhecimento da naturalidade de certo número de fenômenos indissociáveis uns dos outros, fenômenos econômicos, demográficos, etc.

No final dessa terceira conferência, Foucault introduz a ideia de poder médico ao mesmo tempo individualizante e totalizante, que intervém sobre cada um e sobre a população, ideia constitutiva do conceito de biopoder.

Graças à tecnologia hospitalar, o indivíduo e a população se apresentam simultaneamente como objetos de saber e da intervenção médica. A medicina que se forma no curso do século XVIII é ao mesmo tempo uma medicina do indivíduo e da população. (Foucault, 1978/2001c, p. 521).

Por fim, o quarto processo ao qual Foucault atribui a medicalização da sociedade é a articulação da medicina com outros saberes, sobretudo a estatística. Tal articulação vai levar à constituição de mecanismos de registro e comparação de dados sobre a saúde, a doença e a qualidade da população. A partir das transformações que conduziram a uma medicalização da sociedade, poderíamos concluir que a medicina, porque atua cada vez mais “para além de suas fronteiras tradicionais definidas pelo doente e pelas doenças, começa a não ter mais domínio que lhe seja exterior” (Foucault, 1976/2001a, p. 51).

Na segunda conferência, “La Naissance de la Médicine Social”, Foucault define a “bio-história” como efeito de uma intervenção médica maciça na história da espécie humana. A história do homem enquanto espécie é afetada, a partir do século XVIII, pela medicalização cada vez mais intensa das condutas, do comportamento e da existência. A medicina social se fundamenta numa tecnologia que atua sobre o corpo social. Na análise histórica que Foucault empreende sobre a medicalização da sociedade, constatamos que já estão presentes os elementos que serão retomados alguns anos mais tarde, e que envolvem as noções de biopoder, biopolítica, governamentalidade, população e segurança. Apesar de a dimensão coletiva da população já estar presente nessas conferências, a abordagem de Foucault permanecia centrada na dimensão do corpo individual, ou seja, na dimensão disciplinar. 

No artigo citado no início do artigo, “La politique de la santé au XVIII siècle”, de 1976, Foucault já aborda a questão da população de modo mais específico, não apenas como força de trabalho num enquadramento disciplinar, mas como um personagem político novo, que emerge no século XVIII. Segundo Foucault, a grande expansão demográfica ocorrida na Europa, ao longo do século XVIII, tinha que ser coordenada e integrada ao desenvolvimento do aparelho de produção, “a urgência de controlá-la (a expansão demográfica) por mecanismos de poder mais adequados e mais densos, fazem aparecer a ‘população’... Se esboça o projeto de uma tecnologia da população.” (Foucault, 1976b, p. 14).

A questão da arte de governar e sua relação com a política médica, que então emergia, também é estudada neste artigo. “O médico torna-se o grande conselheiro e o grande perito senão na arte de governar, pelo menos na de observar, de corrigir, de aprimorar o corpo social e de mantê-lo num estado permanente de saúde” (Foucault, 1976b, p. 14). Nesse mesmo artigo, modificado e reeditado em 1979, Foucault volta a tratar da importância da polícia como um dos elementos que tornou possível a formação de uma política de saúde no século XVIII, a polícia era então uma técnica de gestão do “corpo social” na sua materialidade, e no centro dessa materialidade estava a população, entendida como “um conjunto de indivíduos tendo entre eles relações de coexistência e constituindo por essa razão uma realidade específica” (Foucault, 1979/2001d, p. 730). Temos, aqui, a noção de população como objeto autônomo, com suas variáveis e regularidades próprias, que podem ser modificadas por meio de intervenções específicas.

Conclusão
Em 1976, já estavam bastante avançadas as investigações de Foucault sobre uma concepção do poder diferente daquela da filosofia e da teoria política tradicionais, quer dizer, dos filósofos contratualistas dos séculos XVII e XVIII e do pensamento marxista. As disciplinas e o poder normalizador foram objetos de extensa análise nos cursos do Collège de France do período 1971-1975 e especialmente em Vigiar e punir. Além disso, o projeto de uma analítica do poder construído nos cursos que acabamos de mencionar foi, pela primeira vez, apresentado em detalhes no curso de 1976, Em defesa da sociedade e no primeiro volume da História da sexualidade, A vontade de saber, publicado no mesmo ano.

É nestes dois trabalhos de 1976 que a noção de biopoder é apresentada como hipótese, ao lado de uma série de outras noções, como a de biopolítica, a de população e segurança. Portanto, é a partir desses dois trabalhos que Foucault introduz uma nova direção e produz um deslocamento de perspectiva em sua teoria, que faz com que as relações entre a dimensão microfísica ou individualizante do poder e a dimensão macrofísica ou totalizadora comecem a aparecer com mais clareza.

O poder disciplinar – ou a anatomopolítica do corpo humano – passa então a ser considerado por Foucault como uma das dimensões do biopoder. Integrando a tecnologia disciplinar no domínio mais amplo do biopoder, ao lado da biopolítica, dos mecanismos de segurança e dos dispositivos de regulação das popula- ções, Foucault indica uma ampliação do domínio a ser investigado, mas não o explora ainda. 

Os mecanismos disciplinares se integram, então, aos mecanismos de segurança e à biopolítica, numa perspectiva mais ampla que é a do poder sobre a vida, do biopoder. É na articulação da anatomopolítica dos corpos (que caracteriza os mecanismos disciplinares) com a biopolítica das populações (enquanto mecanismos de regulação e segurança) que teriam se produzido esse poder e esse saber sobre a vida, o investimento maciço sobre a vida e seus fenômenos, a partir de uma tecnologia refletida e calculada e da introdução da população como objeto de intervenção política, de gestão e de governo.

Se em Vigiar e Punir Foucault analisou em minúcias a constituição e o funcionamento das disciplinas ou a anatomopolítica do corpo, que constituía o primeiro polo do biopoder, é em A vontade de saber e na última aula do curso de 1976 que o segundo polo do biopoder, ou seja, o governo e o controle da vida enquanto biopolítica da população, surge como a outra face do poder sobre a vida. Foucault situa a constituição desse segundo polo, a biopolítica, em um momento posterior ao do primeiro, por volta de meados do século XVIII.

O que aparece, aí, é uma outra tecnologia de poder, não disciplinar. Ela não vem substituir ou tomar o lugar da técnica disciplinar, tampouco mantém com ela uma relação de conflito. Há, na realidade, entre a anatomopolítica e a biopolítica, sobreposição, interpenetração, enfim, uma espécie de complementaridade funcional (Artières & Potte-Bonneville, 2007, p. 360). A tecnologia biopolítica encontra suporte na tecnologia disciplinar, ela a integra e modifica, enfim, se apoia nos mecanismos da disciplina para se instaurar. A tecnologia biopolítica não tem como objeto e objetivo o corpo individual. Seu objeto se situa em outra escala: é uma tecnologia que vai se dirigir, se aplicar ao homem enquanto ser vivo, espécie, ou seja, população. Se a disciplina é individualizante e penetra o corpo em seus detalhes, a biopolítica focaliza a massa humana: o que interessa são os processos de conjunto, suas modulações e as variáveis que os afetam.

Para resumir, “essa tecnologia de poder, essa biopolítica, vai implantar mecanismos que tem certo número de funções muito diferentes das funções que eram as dos mecanismos disciplinares” (Foucault, 1997/2005, p. 293). Apesar disso, a disciplina e a biopolítica se encontram em seus objetivos; por mais diversos que sejam seus mecanismos, técnicas e modos de exercício, elas se sobrepõem e se completam, na medida em que visam a otimizar, maximizar e extrair a vida e as forças que a vida pode gerar, tanto no plano individual como no do conjunto vivente.

Resta-nos ainda comentar brevemente as vicissitudes das noções de biopoder e biopolítica na sequência dos trabalhos de Michel Foucault. O que encontramos nos cursos Sécurité, Territoire, Population, e La Naissance de la Biopolitique é uma grande operação de deslocamento. O que se esperava deles enquanto continuidade dos trabalhos de 1976 (Em defesa da sociedade e A vontade de saber) é que tivessem como objeto a gênese do biopoder e o nascimento da biopolítica. Nas investigações de Foucault, a noção de biopolítica está constantemente presente como um programa de trabalho, como pano de fundo. Ela foi anunciada no início de Sécurité, Territoire, Population e proposta outra vez no título de La Naissance de la Biopolitique, mas é também uma noção sempre prometida e adiada, deixada para mais tarde. Mesmo não encontrando nesses cursos o que realmente se refere ao nascimento da biopolítica, foi, no entanto, a análise daquela que, permanecendo no horizonte das pesquisas de Foucault, tornou necessário o desvio para o estudo do liberalismo e possibilitou a elaboração de noções muito precisas, concretas, situáveis historicamente, tais como governamentalidade, segurança, conduta e liberdade.

Os dois cursos acima mencionados são, de alguma forma, a continuação um do outro, e poderiam ser englobados sob o título de “A história da governamentalidade”, proposto pelo próprio Foucault no início da aula de 1º de fevereiro de 1978. Na ocasião, ele define a governamentalidade como um novo campo de pesquisa, envolvendo o estudo da racionalidade governamental ou a arte de governar.

Tendo como perspectiva metodológica a analítica do poder, Foucault abordou o tema do governo, no âmbito de seu exercício e de suas práticas e a racionalidade governamental, entendida como reflexão sobre a natureza e a atividade do governo. O que ele persegue é, então, a construção de uma história a partir de uma perspectiva diferente da história tradicional das ideias e das instituições políticas. A história da gênese do Estado moderno proposta por ele não se sustenta nas teorias jurídicas ou filosóficas da soberania, nem, tampouco, no ponto de vista das instituições, do poder público ou do jogo das forças econômicas. A grade de análise utilizada não exclui as outras, mas consolida a abertura do novo campo mencionado ou das tecnologias de governo.

Em Segurança, Território, População, Foucault analisa minuciosamente a constituição e a emergência da tecnologia de segurança, de seus mecanismos e a estreita correlação destes com a população. Foi tal correlação que conduziu Foucault, pouco a pouco, a introduzir e privilegiar a noção de governo. As elaborações foucaultianas em torno das noções de segurança e população se deslocam progressivamente da biopolítica para o que ele chamou de “governamentalidade”. “A série: mecanismos de segurança – população – governo e a abertura do campo daquilo que chamamos a polí- tica, tudo isso, creio, constitui uma série que é preciso analisar.” (Foucault, 2004b, p. 78).

Algumas razões parecem justificar tal deslocamento. Foucault assimila, em algumas passagens, as noções de biopolítica e governo, ou pelo menos atribui certo parentesco ou proximidade a tais noções: “Temos, de fato, um triângulo: soberania, disciplina e gestão governamental, uma gestão governamental cujo alvo principal é a população e cujos mecanismos essenciais são os dispositivos de segurança” (Foucault, 2004b, p. 111). Nada mudaria nessa afirmação se substituíssemos o conceito de gestão governamental pelo de biopolí- tica – são, aqui, sinônimos; ambos se caracterizam como “técnicas” que têm como objeto a população. A segunda razão que esclarece o deslocamento em foco se articula com as vicissitudes da noção de população no pensamento de Foucault. A noção de população na biopolítica está primordialmente referida e identificada a um conjunto de processos biológicos. A biopolítica “tende a tratar a ‘população’ como um conjunto de seres vivos e coexistentes, que apresentam traços biológicos e patológicos particulares” (Foucault, 2004b, p. 377). A população, enquanto objeto da biopolítica, vai ser uma noção a princípio construída no domínio da biologia e da medicina: o que estava em questão eram a espécie humana, a vida e as ameaças à vida. Foi a partir dessa perspectiva que Foucault analisou a emergência da polícia médica, da higiene pública e da medicina social no século XVIII; e foi também em torno dessas análises que se desenharam os primeiros contornos da biopolítica.

No entanto, é quando a população passa a incluir, ao lado da dimensão biológica, uma outra dimensão, que é a da “naturalidade” que a caracteriza, que ela pôde se tornar objeto de uma técnica de governo, de uma arte de governar. Se, por um lado, a população é apreendida como um conjunto de processos biológicos, por outro, ela se refere também a um conjunto de processos entendidos como “naturais”. A naturalidade da população se refere a um conjunto de variáveis; assim, se do ponto de vista biológico, a população é, de certo modo, a espécie humana, do ponto de vista da naturalidade que a constitui, ela é o “público”.

O público, noção capital no século XVIII, é a população tomada do lado de suas opiniões, de suas maneiras de fazer, de seus comportamentos, de seus hábitos, de seus temores, de seus preconceitos, de suas exigências, é sobre isso que se intervém pela educação, pelas campanhas, pelas convicções. A população é, então, tudo o que se estende desde o enraizamento biológico pela espécie até a superfície de captura oferecida pelo público. (Foucault, 2004b, p. 77).

Os dispositivos de segurança que operam na gestão governamental intervêm para modificar a população, modificando os elementos e as variáveis que a afetam, considerando e respeitando, no entanto, a naturalidade dessa população. É essa concepção de população, que se desenvolveu no quadro da economia política liberal, que permitiu a Foucault forjar o conceito de “governamentalidade”, neologismo cunhado por ele na quarta aula de Sécurité, Territoire, Population. Essa noção de população o teria conduzido também a deslocar sua investigação da biopolítica para o domínio das artes de governar. A dimensão do “público”, que inclui as maneiras de fazer, os comportamentos, os usos, permite então a abertura desse novo campo que é o da gestão governamental, entendida como condução de condutas.

Podemos afirmar que em Sécurité, Territoire, Population, a governamentalidade tinha um sentido preciso, por vezes equivalente à biopolítica, e designava um regime de poder específico, que teria se instaurado no século XVIII, articulado com a questão do Estado.

No entanto, é importante destacar aqui que a identificação da governamentalidade com esse regime específico de exercício de poder é, na obra de Foucault uma etapa transitória. Se a oposição disciplina/ governo era, neste momento, suscetível de se sobrepor àquela prenunciada em A vontade de saber, entre anatomopolítica e biopolítica, os textos ulteriores concederão uma extensão sempre maior à noção de “arte de governar”, até abranger através dessa última o conjunto das relações de poder (Artières & Potte-Bonneville, 2007, p. 374).

Podemos observar o deslocamento a que nos referimos, já no curso de 1979, La Naissance de la Biopolitique, onde a noção de governamentalidade aparece inteiramente transformada e ganha um sentido muito mais abrangente e abstrato. A redefinição da noção aparece na aula de 7 de março da 1979.
O próprio termo ‘poder’ apenas designa um [domínio] de relações que estão inteiramente abertas à análise, e o que propus chamar governamentalidade, quer dizer a maneira como se conduz a conduta dos homens, não é outra coisa senão uma proposição de grade de análise para essas relações de poder. (Foucault, 2004a, pp. 191-192).

O conceito deixa de se referir a um regime de poder específico e situado historicamente para se constituir como grade de análise das relações de poder, entendidas aqui como “condução de condutas” ou “arte de governar”. Enfim, a noção de governamentalidade passa a englobar todo o campo estratégico das relações de poder, ou seja, a multiplicidade indefinida de técnicas e táticas destinadas a modificar e conduzir a conduta dos outros.

A extensão crescente do domínio de referência do conceito de governamentalidade descerrou um campo fecundo de novos temas e problematizações acerca das relações de poder e das resistências no mundo contemporâneo. Desses temas, apenas indicamos aqui dois que nos interessam especialmente e são objetos de nossas pesquisas atuais. O primeiro remete à politização do cotidiano, do ordinário e dos usos, temática que tem sido explorada por diversos autores como Le Blanc (2006), Artières & Potte-Bonneville (2007), Bégout (2005), Feher (2005) e Revel (2006). O segundo refere-se ao conceito de risco, que é atualmente objeto de investigação de vários autores, entre os quais Hacking (2002), Ericson & Doyle (2003), Vaz (2002). Esses pesquisadores têm observado que o conceito em questão adquiriu recentemente enorme relevância. Com certeza é uma noção cada vez mais infiltrada em nossas práticas cotidianas, funcionando como elemento implicado no processo de subjetivação, como fator determinante nas escolhas dos modos de viver e de cuidar de nós mesmos.

O que buscamos neste artigo foi retraçar nas reflexões de Foucault, em torno da medicalização da sociedade e da extensão do poder médico, no período 1974-1976, especialmente nas conferências da UERJ, todo um questionamento que preparava a emergência das noções de biopoder e biopolítica, tal como foram propostas por ele em 1976. Podemos supor que a articulação feita por Foucault entre a medicalização da sociedade e o governo da vida foi uma das condições que tornaram possível a emergência da hipótese do biopoder. Além disso, procuramos seguir as transformações e deslocamentos das noções em questão nos trabalhos desenvolvidos por Foucault nos anos seguintes, e a concomitante produção de conceitos derivados, conceitos ainda atuais e fecundos no que concerne à análise da atualidade.

Autores:                                                                                                 
Luiz Alberto Moreira Martins é Psicanalista; Mestre em Psicologia Clínica pela PUC-Rio; Doutorando do programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC-Rio.
Carlos Augusto Peixoto Junior é Psicanalista; Doutor em Saúde Coletiva pelo IMS/UERJ; Professor do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica da PUC-Rio; Pesquisador do CNPq.
 IN: http://www.scielo.br/pdf/psoc/v21n2/v21n2a02



quarta-feira, março 04, 2015

Pascal Bruckner por Jurandir Freire Costa






Amores Expressos

Jurandir Freire Costa

O Paradoxo Amoroso – Ensaio sobre as Metamorfoses da Experiência Amorosa, de Pascal Bruckner, é mais um trabalho sobre o amor. O autor aborda o tema em modo de ensaio, ou seja, sem sistematizar a armadura conceitual histórica, filosófica, psicológica, semântica etc. da leitura escolhida. Nesse sentido, o livro tem o perfil de uma meditação moralista à la Montaigne, Pascal, La Rochefoucauld ou outros do gênero. A pretensão é absolutamente legítima, mas paga o preço da escolha do método.
Primeiramente, os pontos fortes. Bruckner observa a distância o panorama amoroso contemporâneo, revelando suas linhas de força. A tese é, grosso modo, a seguinte: somos filhos inconscientes do Maio de 1968. A revolução amoroso-sexual daquele período triunfou.
Não, porém, como previam os protagonistas do acontecimento. As astúcias da história transformaram a fantasiada liberação sexual em pesadelo amoroso. Somos livres para amar como nunca fomos, mas jamais fomos tão solitários, infelizes, tristes e queixosos em matéria de amor. A liberdade conquistada descambou num ideal amoroso tirânico: prazer perene, à prova do desgaste do tempo e do hábito.
O resultado é a insatisfação crônica; a busca masoquista pelo “defeito” em si ou no outro, responsável pela obsolescência precoce de tantos sonhos de amor.
Bruckner não se deixa iludir pelo catastrofismo do “tudo está perdido”. Tampouco endossa a açucarada receita dos manuais de autoajuda sobre o “verdadeiro amor” ou o jacobinismo militante de certas minorias sexuais. De forma cortante, diz em certo trecho: “Não somos nem heróis nem santos, somos simples humanos com capacidade de dedicação limitada”.
Até aí, tudo corre macio. Num segundo momento, entretanto, surge a tentativa de entender as razões do imbróglio amoroso, e começam os tropeços do estudo. A desenvoltura histórica, filosófica ou psicológica assumida impede o autor de ver o fosso entre a descrição e a explicação do “paradoxo amoroso”.
Bruckner afirma que a infelicidade amorosa de hoje se deve a uma “idealização do sentimento”, cuja fonte é a despropositada injunção cristã do “amai-vos uns aos outros”. A religião, às caladas, continuaria a orientar as expectativas amorosas.

Idealização
Fazer da tradição judaico-cristã bode expiatório das mazelas ocidentais não é novidade no pensamento crítico. Bruckner, sob esse aspecto, apenas engrossa a fileira dos que sempre têm à mão um “cristianismo” apropriado às suas necessidades ideológicas.
Por exemplo, ao falar sobre o despotismo do ideal amoroso, ele diz que cristianismo e stalinismo mataram e oprimiram milhões de seres humanos “em nome do amor”.
E, prossegue, não é por acaso que “os últimos intelectuais comunistas na Europa, Alain Badiou e Slavoj Žižek, entre outros, tenham todos eles evocado São Paulo, o cristianismo e o poder transfigurador do amor”.
Em suma, o rígido ideal do amor cristão e do amor à humanidade socialista resultou em brutalidades inomináveis. O que engasga nessa explicação? Antes de tudo, o equívoco entre esperança messiânica e amor. É verdade, cristianismo e socialismo, de formas diferentes, pregam a ideia de redenção futura da humanidade.
Bruckner considera-se livre desse vírus cultural, que, a seu ver, corrompe a realização amorosa. Mas parece ignorar a natureza messiânica contida em suas demandas democráticas de progresso e pluralidade morais. O respeito ao próximo, que ele propõe como substituto do nefasto “amor ao próximo” cristão ou marxista, é tão cristão como tudo que ele rejeita.
O moralista não é obrigado a se curvar ao rigor da análise sistemática dos termos que utiliza, mas deve oferecer a seu público algo além do lugar-comum sobre ética cristã e ideais de amor. Bruckner toma como equivalentes o “amor romântico” e os mandamentos judaico-cristãos do “amor ao próximo”.
Por isso, explica as desditas do amor ora pela idealização míope da credulidade cristã, ora pela própria natureza da emoção amorosa. Num certo trecho, ele diz: “Quanto ao sofrimento amoroso, ele é indissociável da felicidade, nosso desgosto nos agrada e nos faria falta se desaparecesse… Talvez a paixão esteja fadada ao infortúnio, mas é um infortúnio muito maior nunca ter se apaixonado”.
A mistura de conceitos logicamente diversos – o amor romântico e o amor cristão à dignidade do outro – redunda em incongruência. Pois, se o sofrimento amoroso é inevitável, por que imputar à suposta obtusidade cristã a responsabilidade pela idealização martirizante do amor? Se levarmos a sério o que é dito, com ou sem cristianismo, estaremos destinados a sofrer por amor e gozar com esse sofrimento. Enfim, o que vale é a explicação psicológica sobre os riscos de amar
ou a explicação histórica sobre o ideal religioso humanamente inatingível?
O valor do ensaio moralista está na exposição às claras da perspectiva do autor. Bruckner, no entanto, quer fundar teoricamente uma asserção baseada na autoridade pessoal de quem a enuncia. Deixemos de lado esse propósito ambivalente. Guardemos do autor o que ele tem de melhor, em especial a frase com que termina o livro: “Amamos tanto quando podem os homens amar, ou seja, imperfeitamente”.
Lido nessa chave, o trabalho de Bruckner é um belo trabalho.

In: Revista Cult


CONTARDO CALLIGARIS

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