"A existência precede a
essência" ou os cinco conceitos- chaves do existencialismo sartriano: a
má-fé, a reificação, o ser e o nada, a náusea.
Comecemos pelo começo; o que é o existencialismo? Simplesmente, segundo Sartre, a filosofia que assume como própria a convicção de que "a existência precede a essência". Essa formula pode parecer abrupta e pouco eloquente à primeira vista. No entanto, ela é muito simples e mais profunda do que parece. Significa em primeiro lugar o seguinte: em toda a filosofia clássica de inspiração platônica e, talvez mais ainda, na religião cristã, partiu-se da ideia de que para o ser humano "a essência precedia a existência". Claramente falando: primeiro Deus concebe o homem e a mulher e depois vem, num segundo tempo, a criação que os faz existir. Haveria em certo sentido um "Deus artesão" que, como um operário que tem de fabricar um objeto, faria primeiro um projeto e depois o realizaria. Em outras palavras ainda, nessa perspectiva, Deus primeiro faz funcionar seu entendimento e somente depois, num segundo momento, sua vontade.
Para tornar suas ideias totalmente claras, Sartre, num pequeno texto que aconselho todos os meus alunos a ler, O existencialismo é um humanismo, toma o exemplo de um operário que tivesse de fabricar um corta-papel. Eis como formula as coisas:
Consideremos um objeto fabricado, como, por exemplo, um livro ou um
corta-papel: tal objeto foi fabricado por um artífice que se inspirou num
conceito; ele se reportou ao conceito do corta-papel e igualmente a uma técnica
prévia de produção que faz parte do conceito, e que e no fundo uma receita.
Assim, o corta-papel é ao mesmo tempo um objeto que se produz de uma certa
maneira e que, por outro lado, tem uma utilidade definida, e não é possível
imaginar um homem que produzisse um corta-papel sem saber para que há de servir
tal objeto. Diremos, pois, que, para o corta-papel, a essência - quer
dizer, o conjunto de receitas e de características que possibilitam produzi-lo
e de defini-lo - precede a existência... Quando concebemos um Deus criador,
identificamos esse Deus quase sempre com um artífice superior; e qualquer que
seja a doutrina que consideremos, trate-se de uma doutrina como a de Descartes
ou a de Leibniz, admitimos sempre que a vontade segue mais ou menos a
inteligência ou pelos menos a acompanha, e que Deus, quando cria, sabe
perfeitamente o que cria. Assim o conceito de homem, no espírito de Deus, é
assimilável ao conceito de um corta-papel no espírito do industrial... O
existencialismo ateu, que eu represento... declara que, se Deus não existe, há
pelo menos um ser no qual a existência precede a essência, um ser que existe
antes de poder ser definido por qualquer conceito, e que este ser é o homem...
Vemos, portanto, que Sartre, sem se dar conta (acreditando inclusive ser totalmente original), coincide quase palavra por palavra com a noção de liberdade humana elaborada por Rousseau e Kant. Para ele assim como para eles, o homem é livre no sentido que escapa a todas as categorias "essenciais", a todas as definições, mas também a todos os "programas" nos quais gostariam de encerrá-lo.
Eis por que, aos olhos de Sartre, o principal adversário do existencialismo é a religião, e particularmente a teologia cristã. De fato, segundo a visão teológica do mundo, a essência (o plano) vem antes da existência (sua realização), de tal sorte que se deve supor uma finalidade prévia do ser criado da qual se poderia deduzir uma reflexão sobre sua destinação - no que concerne ao homem, uma moral. Assim como o corta-papel é "feito para" abrir livros ou o relógio para dar as horas, deve-se imaginar que também o ser humano, na perspectiva de ser "fabricado" por Deus, deva responder a um objetivo e cumprir uma certa missão (por exemplo, servir a ele, obedecer a seus mandamentos etc.)
Vemos, portanto, que Sartre, sem se dar conta (acreditando inclusive ser totalmente original), coincide quase palavra por palavra com a noção de liberdade humana elaborada por Rousseau e Kant. Para ele assim como para eles, o homem é livre no sentido que escapa a todas as categorias "essenciais", a todas as definições, mas também a todos os "programas" nos quais gostariam de encerrá-lo.
Eis por que, aos olhos de Sartre, o principal adversário do existencialismo é a religião, e particularmente a teologia cristã. De fato, segundo a visão teológica do mundo, a essência (o plano) vem antes da existência (sua realização), de tal sorte que se deve supor uma finalidade prévia do ser criado da qual se poderia deduzir uma reflexão sobre sua destinação - no que concerne ao homem, uma moral. Assim como o corta-papel é "feito para" abrir livros ou o relógio para dar as horas, deve-se imaginar que também o ser humano, na perspectiva de ser "fabricado" por Deus, deva responder a um objetivo e cumprir uma certa missão (por exemplo, servir a ele, obedecer a seus mandamentos etc.)
É esse esquema
clássico, com todas as suas implicações éticas, que o existencialismo sartriano
propõe inverter: se o ser humano não é estritamente falando uma criatura, nenhum "plano",
nenhuma “essência” precede sua existência. Por conseguinte, nenhuma finalidade
particular esta vinculada a seu ser - como ocorre, em contrapartida, no caso de
todos os objetos fabricados. O ser humano é nesse sentido o único ser
plenamente livre, o único que escapa a
priori a toda definição prévia.
Compete a ele, não seguir mandamentos divinos que estariam vinculados a sua
condição de criatura, mas, ao contrário, “inventar” o Bem e o Mal.
Dessa simples abordagem
do existencialismo já se deduz uma tese crucial: para Sartre, assim como para
Rousseau e Kant, não existe “natureza humana” intangível, não existe destinação
do homem inscrita a priori na sua essência.
Deve-se prestar
bastante atenção ao ler Sartre: por não ser um bom historiador da filosofia,
ele ignora seus predecessores e não para de afirmar, equivocadamente, que o
existencialismo marca uma ruptura total com as filosofias do século XVIII. Há
nisso um engano, o que não tem importância no que diz respeito ao fundo, mas é
às vezes constrangedor no plano histórico. Na verdade, como Rousseau e Kant, Sartre
acha que o homem é o ser que por assim dizer faz “explodir” todas as
categorias, todas as definições nas quais querem aprisioná-lo – no que, mais
uma vez, reside sua liberdade. Por isso também, assim como eles, acaba
desmontando os pressupostos do racismo e do sexismo. De fato, em que mais eles
consistem senão na ideia de que existe uma essência
da mulher, do árabe, do negro, do amarelo ou do judeu que precederia a
existência deles e da qual poderiam ser deduzidas características necessárias e
comuns à “espécies”? Logo, faria parte da “natureza” “da” mulher (como se
houvesse apenas uma!) ter filhos, não participar da vida pública e ficar
fechada na vida doméstica, ser doce e sensível, intuitiva mais que intelectual
etc, assim como, segundo os clichês habituais do racismo, faria parte da
natureza “do” negro ter o ritmo no sangue e ser infantil (“o africano é
brincalhão”), “do” árabe ser hábil, “do” judeu ser inteligente, gostar de
dinheiro e outras baboseiras desse tipo.
Se não existe nenhuma “natureza”
do ser humano em geral, tampouco existe natureza de determinado sexo ou “raça”.
Foi sobre essa convicção que o existencialismo teve por vocação fundar um
feminismo e um anti-racismo de tipo universalista:
o que dá dignidade ao ser humano em geral é o fato de ser, diferentemente dos
objetos ou dos animais, um ser fundamentalmente livre, transcendendo todas as
etiquetas que pretendam colar nele. O que constitui seu valor não é sua pertença
a uma determinada comunidade sexual, étnica, nacional, linguística ou cultural,
mas, ao contrário, o fato de ser capaz de se elevar acima de todos esses
enraizamentos possíveis para participar da humanidade em geral.
Pelas mesmas razões,
nem a história nem a natureza poderiam ser tidas por “códigos” determinantes. É
verdade que o humano existe em situação: tem um sexo, uma nação, uma família
etc. Em suma, tem uma natureza e uma história. Ocorre que, justamente ao
contrário do que diz o materialismo, ele não é essa natureza e essa história e nem poderia ser reduzido a elas.
Ele as tem e pode pô-las em
perspectiva, ou até, em certa medida, abstrair-se delas para lançar-lhes um
olhar crítico. Não é por ser mulher que se é menos Homem...
Luc Ferry, in: Vencer os Medos
Tradução de Claudia Berliner
Editora: WMF Martins Fontes
Parte III – Para levar para a ilha
deserta...
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