BRUMAS DO TEMPO
Tempo Ele chegou devagar. Não bateu à porta, não invadiu o quintal. Foi chegando líquido, evaporando em brumas e entrando pelas frestas. Silencioso. Suave. Tocou a pele, roubando-lhe a cor, extraindo-lhe a viscosidade e desenhando rios, países, montanhas e mares na superfície do corpo. Trouxe a neve delicada aos cabelos que um dia aninharam mãos carinhosas, cheias de afeto, ou sôfregas de paixão. Os lábios já não abrigam a língua libidinosa, ansiosa pelo beijo, pelo contato sensual de outra boca, pelo leve roçar dos dentes, pela mordida anunciada. Os olhos, já sem o contorno firme das pálpebras emolduradas pelos longos cílios que outrora borboleteavam sobre o mundo, ainda guardam um brilho que insiste em escapar pela íris — essa antiga porta de entrada das cores, dos luares, dos amanheceres, dos poentes, dos sorrisos e das lágrimas. Lágrimas que, quando já não suportaram permanecer represadas, transbordaram silenciosamente, inundando lembranças. E assim o tempo segue...