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Mostrando postagens de 2026

O Império do Emocionalismo: Quando a Vida Vira um Prontuário Médico

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O ensaio de Jurandir Freire Costa, que você confere logo a seguir,  apresenta e dialoga com o livro de Frank Furedi, sociólogo húngaro e professor da Universidade de Kent, Inglaterra. O livro de Furedi, Therapy Culture: Cultivating Vunerability in an Uncertain Age, infelizmente ainda não possui tradução para o português. Para o sociólogo húngaro, há algo de voraz no modo como nomeamos a nós mesmos e aos outros. Não apenas falamos de sofrimento: nós o organizamos, classificamos e exibimos. Como observa Jurandir Freire em seu ensaio, a linguagem terapêutica deixou de ser um recurso clínico para tornar-se uma gramática da vida cotidiana. Tudo se traduz: hábitos viram "compulsões", tristezas tornam-se "transtornos" e conflitos ordinários ganham o estatuto de "trauma". Mas há um efeito ainda mais sutil — e talvez mais empobrecedor. A “cultura da terapia” simplificou em demasia o modo como qualificamos os sujeitos. Com uma rapidez inquietante, passamos a adjetiv...

O fracasso escolar não é falta de inteligência, é falta de laço

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O fracasso escolar não é falta de inteligência, é falta de laço. Para que uma criança aprenda, é necessário que ela tenha o desejo de aprender. Ora, nada nem ninguém pode obrigar alguém a desejar. A linguagem popular diz: "O desejo e o amor não se comandam". É nisso, no entanto, que acreditam muitos pais que querem "motivar seus filhos e tudo fazer para que eles se interessem pela escola"....Presa em uma rede de demandas, veremos por que se torna impossível para ela sustentar seu desejo de conhecimento e como ela chega mesmo a anulá-lo. Anny Cordié    No cenário educacional contemporâneo, o chamado fracasso escolar é, quase sempre traduzido sob a ótica da falha. Fala-se de uma falha cognitiva, uma falha neurológica, ou então, uma falha metodológica. Para atuar sobre essas falhas, costuma-se pedir ajuda a três saberes estabelecidos: psicologia, medicina (que atua através da medicação), e a pedagogia. São esses três saberes que mais prontamente respondem às demandas p...

HORAS AZUIS E O TEMPO DA AUSÊNCIA

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  Deméter e Perséfone e o luto sem perdas no romance Horas Azuis Li poucos romances no ano passado. Foram muitas as leituras de teoria psicanalítica para os trabalhos de transmissão teórica com os colegas da área, e pouco tempo para a literatura. No entanto, no segundo semestre li um romance cujo tema me identifiquei imediatamente. O romance foi Horas Azuis , de Bruna Dantas Lobato; e o tema: o vinculo mãe e filha. O livro pode até se apresentar, à primeira vista, como um texto sobre deslocamento, tempo, escrita ou solidão contemporânea, mas o seu eixo afetivo mais persistente é justamente esse vínculo, mãe filha, atravessado pela distância — uma distância geográfica, temporal e tecnológica. Em Horas Azuis , a relação entre mãe e filha não é estruturada pela ruptura dramática nem pelo conflito aberto, tão comuns a essa temática. O que a organiza é algo mais sutil e, talvez por isso, mais doloroso: a convivência cotidiana com a ausência. A filha está viva, acessível, localizável — e...