O fracasso escolar não é falta de inteligência, é falta de laço



O fracasso escolar não é falta de inteligência, é falta de laço.



Para que uma criança aprenda, é necessário que ela tenha o desejo de aprender. Ora, nada nem ninguém pode obrigar alguém a desejar. A linguagem popular diz: "O desejo e o amor não se comandam". É nisso, no entanto, que acreditam muitos pais que querem "motivar seus filhos e tudo fazer para que eles se interessem pela escola"....Presa em uma rede de demandas, veremos por que se torna impossível para ela sustentar seu desejo de conhecimento e como ela chega mesmo a anulá-lo.

Anny Cordié 

 


No cenário educacional contemporâneo, o chamado fracasso escolar é, quase sempre traduzido sob a ótica da falha. Fala-se de uma falha cognitiva, uma falha neurológica, ou então, uma falha metodológica. Para atuar sobre essas falhas, costuma-se pedir ajuda a três saberes estabelecidos: psicologia, medicina (que atua através da medicação), e a pedagogia. São esses três saberes que mais prontamente respondem às demandas produzidas por essa leitura deficitária.  

A teoria psicanalítica propõe uma nova perspectiva de leitura: o fracasso escolar não é um defeito da inteligência, mas um sintoma produzido no emaranhado de relações que articula sujeito, família e escola. Ou seja, uma quebra de laço, ou a falta de laço. Dizer que o fracasso é "falta de laço" significa deslocar a culpa do indivíduo para a relação. Significa compreender que o ato de aprender não ocorre no vácuo de um cérebro isolado, mas na trama libidinal que liga o aluno ao desejo de seus pais e ao saber de seus mestres.


A escola, cada vez mais, se organiza como uma máquina administrativa: programas, protocolos, avaliações padronizadas. Nesse mecanismo, o aluno deveria funcionar como uma peça bem ajustada. O fracasso escolar aparece então como a peça que emperra a engrenagem. A reação imediata é polir a peça, diagnosticá-la, dedicá-la. Raramente se pergunta se o ruído da máquina não está dizendo algo sobre o próprio funcionamento do sistema.

Na era da medicalização do ensino. Diante de uma criança que não escreve, que se agita ou que se recusa a ler, a resposta institucional tem sido, frequentemente, o diagnóstico célere. A angústia é rapidamente traduzida em transtorno (TDAH, dislexia, TOD), e a escola vai se tornando, na maioria das vezes, ressonância dos discursos patologizantes, no mercado da “doença mental”. Pois, ao rotular os alunos, a escola de - braços dados com a ciência – apaga o sujeito do processo. Fazendo calar o que aquele sintoma está tentando dizer. O fracasso escolar, muitas vezes, é o único recurso que resta a uma criança para marcar sua singularidade em um sistema que a trata como uma engrenagem burocrática. Quando a escola foca apenas no déficit, ela perde o sujeito de vista, e onde não há sujeito, não há laço.

A contribuição da teoria psicanalítica para esse mal estar, reside na análise da função paterna contemporânea. É sempre bom lembrar que, conforme trabalhos publicados nessa área, são os meninos que mais sofrem dessa condição. É por exemplo, o que nos adverte Marcela Decourt: “Diante das novas formas de sofrimento psíquico, destaco o fracasso escolar, considerando-o como o sintoma infantil contemporâneo por excelência. Estamos interessados em analisar como este sintoma acomete de maneira particular os meninos, nos dando pistas de que talvez este seja um sintoma, de fato, tipicamente masculino”.  

Tradicionalmente, o pai era aquele que impunha a interdição e, com ela, o desejo. Ele exigia que o filho "fosse alguém", transmitindo um mandato simbólico que o filho deveria cumprir ou subverter. Hoje, encontramos cada vez mais a figura do "pai que não quer nada". É o pai que, por desamparo ou por uma interpretação equivocada da liberdade, não dirige ao filho nenhuma demanda. Se o Outro primordial (os pais) não espera nada do sujeito, se não há um lugar reservado para ele no futuro, por que o sujeito investiria o seu tempo e o seu esforço na penosa tarefa de aprender?

Aprender dói. Exige renunciar à onipotência infantil e aceitar que não sabemos tudo. Se o pai não sustenta a importância desse esforço, se ele se mostra indiferente ao sucesso ou ao erro, o laço simbólico se desfaz. O aluno "fracassa" porque não tem a quem dedicar o seu progresso. O tempo da escola torna-se um presente infinito e vazio, sem a tensão que a promessa de um futuro produz.

O saber nunca é neutro. Ele circula na sala de aula como um objeto erótico, algo que brilha no olhar do mestre e que o aluno tenta capturar. Quando o professor fala de um saber que ele próprio não habita, o objeto perde o brilho. O conteúdo permanece, mas o desejo desaparece. O saber só é interessante quando ele circula como um objeto de desejo. Para que um aluno se interesse pela matemática ou pela história, ele precisa perceber que o professor habita esse saber com paixão. O mestre que “não quer saber" é aquele que entrega um conteúdo morto, desprovido de vibração subjetiva.

Decourt nos lembra que o laço pedagógico é um laço amoroso (no sentido freudiano de transferência). O aluno aprende "por amor" ao mestre, ou para ocupar um lugar de destaque no olhar desse mestre. Quando o professor se torna apenas um aplicador de protocolos e o aluno um receptor de informações, o laço se rompe. O fracasso escolar é o resultado desse desencontro: um mestre que não deseja ensinar e um aluno que não encontra motivos para aprender.

Sob essa perspectiva, o fracasso escolar pode ser pensado como uma espécie de pausa na música do tempo escolar. Enquanto a turma segue o ritmo da partitura pedagógica, alguns alunos interrompem a melodia. Essa interrupção costuma ser tratada como erro. A psicanálise, porém, nos convida a escutá-la como um silêncio significativo, o momento em que o sujeito precisa suspender o andamento para lidar com algo do Real que irrompe em sua história. Pois, como nos ensina Lacan, o tempo do inconsciente não é o tempo cronológico, é o tempo lógico da elaboração.

Muitas vezes, o aluno "não aprende" porque está ocupado demais tentando resolver outra questão: um luto não elaborado, uma briga familiar, ou o peso de um segredo. O fracasso é o tempo que o sujeito tira para lidar com o Real que o invade. A escola que não respeita essa temporalidade subjetiva e tenta forçar o ritmo acaba por excluir o aluno de vez. O laço exige o reconhecimento de que cada sujeito tem seu tempo de compreender e seu momento de concluir.

Se o fracasso escolar é falta de laço, a solução não pode ser apenas pedagógica ou farmacológica. A solução é ética.

Para a família, trata-se de retomar o lugar de quem espera algo do sujeito, de quem transmite um desejo e uma direção. Para a Escola, trata-se de abandonar a posição de "não querer saber" e passar a escutar o que o fracasso do aluno anuncia. O bom professor é o mestre que deseja, alguém que seduz o aluno para o campo do conhecimento. E, finalmente, o aluno não pode ser visto apenas como um cérebro com defeito, mas como um sujeito que usa o "não saber" como um escudo ou como um grito de socorro.

Somente quando o saber volta a ser algo que circula entre pessoas que se importam umas com as outras é que a inteligência pode, finalmente, se libertar. O fracasso termina onde o laço começa. Porque, no fim das contas, ninguém aprende para si mesmo; aprendemos para o Outro, com o Outro e, às vezes, contra o Outro, mas nunca sem ele.


Referências: 

Anny Cordié, Os atrasados não existem – psicanálise de crianças com fracasso escolar, Ed. Artes Médica, 1996.

Marcela Decourt, O fracasso escolar em meninos: como se servir do pai quando este é dispensado como homem? In: Revista eletrônica aSEPHallus, n.3.


Maria Holthausen


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