Badiou e o seu Elogio ao Amor
Redescobrindo o amor
Notas de leitura sobre um livro indispensável
Em seu livro, Elogio ao amor, Badiou desenha a figura do amor sob uma nova perspectiva, ao apresenta-lo como um processo continuo de construção. Para o filósofo o amor não é simplesmente um estado psicológico, uma fusão de almas, um sentimento intenso. Para ele, o amor é uma construção que vai se produzindo no tempo.
O amor inicia por um acontecimento, um encontro contingente. Nada o determina completamente. Poderia não ter acontecido. Mas o encontro, por si só, ainda não é o amor. Ele acontece quando duas pessoas decidem permanecer fiéis ao que aconteceu naquele encontro. A fidelidade ao acontecimento transforma o instante em uma história. Pois o amor, por ser uma construção, não pode se reduzir ao encontro.
Portanto, para que o amor se faça no dia a dia - porque o amor, ao final de contas, se realiza no mundo - é necessário o processo de construção. Vamos construir juntos uma maneira nova de habitar o mundo. Ou seja, o amor não consiste em encontrar alguém perfeito. Pelo contrario, consiste em inventar uma existência compartilhada que nunca termina. Cada dificuldade, cada mudança da vida obriga o casal a reinventar sua maneira de existir no mundo.
Eu e ela estamos incorporados a este Sujeito único, o Sujeito de amor, que trata o desdobrar do mundo pelo prisma da nossa diferença, de modo que esse mundo advém, nasce, em vez de ser tão somente aquilo que preenche meu olhar pessoal. O amor é sempre a possibilidade de assistir ao nascimento do mundo.
O amor cria uma experiência do mundo do ponto de vista de dois, e não de um. Com ele somos obrigados a aprender que existe um outro centro de experiência. O mundo deixa de ser organizado apenas pelo “eu” e passa a ser organizado pelo “nós”.
Segundo o filósofo, esse “nós” não elimina a diferença. Pelo contrário, ele conserva a diferença, respeita a alteridade. Por isso Badiou afirma que o amor não é fusão, distanciando-se do ideal romântico de duas chamas que se anulam para se transformar em uma só. Muito pelo contrário: o amor é a possibilidade da convivência entre duas diferenças irredutíveis.
É nesse ponto que a reflexão de Badiou se coloca na contramão das vivencias contemporâneas. Vivemos em uma época que transforma as relações em objetos de consumo: busca-se compatibilidade absoluta, afinidades perfeitas, garantias contra o sofrimento e a frustração. O amor passa a ser concebido como um contrato entre indivíduos que desejam preservar, acima de tudo, sua própria autonomia. Nessa lógica, a diferença aparece como um obstáculo e o conflito como um sinal de fracasso. São esses, no fundo, os dois inimigos do amor: a garantia do contrato de seguro e o conforto dos prazeres limitados.
Badiou propõe o caminho inverso. O amor começa justamente quando aceitamos que o outro jamais será uma extensão de nós mesmos. A alteridade não é um problema a ser eliminado, mas a condição para que um mundo comum possa nascer. Amar é aprender, dia após dia, a olhar a realidade através de dois pontos de vista que nunca coincidem completamente.
É por isso que o amor não pode ser pensado como um estado definitivo. Ele não é uma conquista que se alcança, mas uma obra que nunca se conclui. Cada acontecimento da vida — o nascimento de um filho, uma doença, as perdas, as mudanças de trabalho, o envelhecimento, as alegrias inesperadas — exige que o casal reencontre uma nova maneira de sustentar o “nós” sem apagar o “eu”. O amor não sobrevive porque permanece igual; ele permanece vivo porque é capaz de se reinventar.
Maria Holthausen
Comentários