O autismo para além da psicose: a hipótese de Maleval e a clínica da borda


 

Um ensaio sobre a hipótese autística em Jean-Claude Maleval


É muito comum observar o autismo sob a ótica do déficit: a ausência de comunicação, a dificuldade nas trocas interpessoais, a resistência ao novo, o apego às rotinas. Nessa abordagem, aquilo que se apresenta como marca singular do sujeito costuma ser lido quase exclusivamente como um obstáculo a ser corrigido.

A perspectiva trazida por Jean-Claude Maleval em seu artigo, Por que a hipótese de uma estrutura autística? propõe um deslocamento sutil, porém decisivo. Mais do que tentar enquadrar o autismo em categorias tradicionais, o psicanalista francês investiga se as manifestações clínicas autísticas não responderiam a uma lógica própria — um modo de funcionamento singular que não se confunde com a psicose e que também não se reduz a uma deficiência.

Esse movimento muda o tom da escuta clínica: em vez de interrogar apenas o que falta ao sujeito, passa-se a prestar atenção nas invenções que ele constrói para conseguir habitar o mundo.

A busca por um mundo estável
Entre as observações inaugurais de Leo Kanner sobre o autismo, destaca-se a busca pela imutabilidade: “um desejo todo-poderoso de solidão e de imutabilidade”. Kanner designa como imutabilidade “o fato de que o autista quer viver num mundo estático no qual ele não tolera mudança”.  Pequenas alterações no ambiente, na rotina ou na sequência das ações podem disparar uma angústia intensa. O que à primeira vista parece apenas uma insistência rígida revela-se, sob essa nova perspectiva, uma tentativa de construir um ambiente suficientemente estável.

A repetição, para o sujeito autista, não seria uma mera recusa do contato, mas uma forma de dar consistência à experiência. Conservar a forma e o ritmo das coisas ajuda a manter a angústia sob controle. Daí a inversão clínica fundamental: a rigidez exterior cumpre uma função interna de sustentação. Antes de tentar desfazer a repetição para aproximar o sujeito da realidade, cabe compreender o papel protetor que essa repetição desempenha para ele.

O objeto que protege e abre passagens
A mesma lógica se aplica ao objeto autístico. Ele pode funcionar como um anteparo entre o sujeito e a presença do Outro, criando uma distância necessária para amainar aquilo que vem do exterior de forma invasiva ou excessiva. Pela mediação do objeto, o sujeito consegue se manter preservado das exigências do ambiente.

Há, contudo, um desdobramento interessante: o mesmo objeto que estabelece a distância pode se tornar uma via de aproximação. Ao manter o controle sobre ele, o sujeito passa a utilizá-lo como um mediador para se relacionar com o entorno. A barreira transforma-se, assim, em um instrumento de contato — como uma pequena ponte construída para tornar a travessia possível. A defesa deixa de ser vista apenas como um bloqueio e revela seu caráter de invenção diante da angústia.

O conceito de borda
É nesse encadeamento que surge uma das noções centrais do pensamento de Maleval: a borda autística. O conceito reúne três elementos que frequentemente se articulam na clínica — o objeto autístico, o duplo e o interesse específico. Todos compartilham a capacidade de dosar a angústia, reter o excesso e mobilizar o sujeito.

A borda possui uma natureza dinâmica. Ela opera como fronteira ao assegurar uma distância suportável em relação ao mundo, mas funciona também como canal, abrindo direções para a convivência.

Retomando a metáfora dos “pseudópodes” mencionada por Kanner — como uma ameba que estende delicadamente uma parte de si para explorar o meio —, o sujeito autista pode avançar em direção ao exterior apoiado em suas próprias construções, sem precisar abrir mão das proteções que estruturou.

O duplo como ponto de apoio
Outro componente dessa borda é a figura do duplo. Diferente do que costuma ocorrer na psicose, o duplo no autismo pode atuar como um recurso de sustentação, desde que permaneça previsível e sob certo controle do sujeito. Ele assume a função de um companheiro sereno, um "eu auxiliar" ou um mentor.

Isso ajuda a compreender por que a presença de outra pessoa pode se tornar acolhedora justamente quando não impõe uma exigência imediata de reciprocidade. O outro pode funcionar primeiro como um ponto de apoio estável, preparando o terreno para articulações mais complexas.

Do interesse específico à competência
Poucos fenômenos são tão mal compreendidos quanto o chamado interesse restrito. Dedicar-se intensamente a temas como rotas de trens, mapas, números ou sistemas pode parecer um fechamento sobre si mesmo. No entanto, Maleval aponta para outra possibilidade: esse interesse pode se desdobrar em fonte de conhecimento, habilidade e até mesmo inserção social e profissional.

A lógica da borda se confirma aqui: o recurso que inicialmente servia como refúgio contra a angústia pode, com o tempo, desdobrar-se em um meio de participação no mundo. Em lugar de tentar suprimir o interesse para adaptar o sujeito, a clínica é convidada a perguntar de que modo esse interesse singular pode se transformar em um caminho de ligação com os outros.

Uma nova perspectiva clínica
Essa torção clínica alicerçada na possibilidade de uma quarta estrutura, traz implicações diretas para a prática clínica. Afastando o sujeito autista da estrutura psicótica, abre-se o espaço para novas construções assentadas em novos paradigmas. Maleval, por exemplo, arrisca-se a fazer uma crítica às abordagens voltadas exclusivamente para a adaptação comportamental que, no esforço de padronizar respostas, correm o risco de desorganizar as proteções e invenções do sujeito.

O uso de recursos pedagógicos e aprendizados estruturados tem seu valor reconhecido. A questão surge quando o ensino tenta apagar a lógica própria da pessoa. Se a borda é o suporte que viabiliza a presença do sujeito no mundo, desfazê-la sem um cuidado equivalente pode retirar justamente o ponto de apoio que tornava a abertura possível. O trabalho clínico desloca-se, assim, da eliminação da defesa para o acompanhamento de sua evolução e deslocamento.

Uma borda como superfície de contato
A hipótese de uma estrutura autística não idealiza a condição nem desconhece os desafios cotidianos. Trata-se de uma leitura atenta às respostas que o próprio sujeito articula: a imutabilidade como busca de estabilidade; o objeto como proteção e meio de contato; o duplo como sustentação; o interesse específico como via de competência; e a borda como espaço onde o limite e a passagem se encontram.

Uma borda não é um muro intransponível. Ela desenha uma margem e, ao mesmo tempo, estabelece uma área de encontro. É a existência de um limite claro que permite dosar a distância e viabilizar a aproximação.

Diferente do percurso na psicose — em que o sujeito muitas vezes precisa construir uma língua própria ou uma suplência —, o trabalho no autismo envolve a elaboração e o deslocamento dessa borda flexível. A imagem que sintetiza esse movimento não é a de retirar o sujeito de sua margem, mas a de acompanhá-lo enquanto ele inventa a própria ponte.

Maria Holthausen

REFERÊNCIA:
MALEVAL, Jean-Claude, Por que a hipótese de uma estrutura autistica?
Opção Lacaniana - online, ano 6, número 18, novembro 2015.

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