BRUMAS DO TEMPO
Tempo
Ele chegou devagar. Não bateu à porta, não invadiu o quintal. Foi chegando líquido, evaporando em brumas e entrando pelas frestas. Silencioso. Suave.
Tocou a pele, roubando-lhe a cor, extraindo-lhe a viscosidade e desenhando rios, países, montanhas e mares na superfície do corpo.
Trouxe a neve delicada aos cabelos que um dia aninharam mãos carinhosas, cheias de afeto, ou sôfregas de paixão.
Os lábios já não abrigam a língua libidinosa, ansiosa pelo beijo, pelo contato sensual de outra boca, pelo leve roçar dos dentes, pela mordida anunciada.
Os olhos, já sem o contorno firme das pálpebras emolduradas pelos longos cílios que outrora borboleteavam sobre o mundo, ainda guardam um brilho que insiste em escapar pela íris — essa antiga porta de entrada das cores, dos luares, dos amanheceres, dos poentes, dos sorrisos e das lágrimas.
Lágrimas que, quando já não suportaram permanecer represadas, transbordaram silenciosamente, inundando lembranças.
E assim o tempo segue seu ofício. Não pede licença, não faz alarde. Apenas redesenha o corpo, enquanto a alma, teimosa, continua habitando os mesmos desejos, os mesmos espantos e a mesma capacidade de amar.
Porque, se o tempo transforma a matéria, há afetos que ele apenas aprofunda.
Maria José Coelho, jornalista

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