sexta-feira, junho 09, 2006

corpoemaprocesso / teatrodesessência


Eu estou em posição de risco: qualquer traço, ou sulco profundo na superfície do objeto; esboço; projeto; horizonte visual. Risco: penhasco alto; possibilidade de perigo; de perda ou ganho; responsabilidade pelo dano.
Eu prefiro admitir que não haja mais nada a ser dito ou que o dito, a fala, não é o mesmo que afirmar que a linguagem fala “como consonância do quieto”, no modo de dizer do filósofo que busca, no poema, o falar da linguagem como o que se diz genuinamente (isto afirma Heidegger, a caminho da linguagem).
O que busco no poema é o que escapa à linguagem. Um descaminho. Se a experiência da linguagem e a linguagem da experiência estão em jogo no fazer a experiência da experiência, então é possível entrar no lugar vazio da escuta. Não de uma escuta que extraia o que é levado a soar em palavra, mas a escuta de um não-dizer próprio que se abisma fora da linguagem, no saber ouvir uma linguagem sem entendimento. Saber ir ao desencontro.
Que lugar é este fora da linguagem? É preciso, primeiramente, desfazer-se do desejo de morar na fala essencial da linguagem (como aspirou o filósofo), para perder-se no desconhecido da experiência que se dá para além do limite possível do já dito. Maurice Blanchot aponta para “o lado de fora de toda a fala” [BLANCHOT, E.L., p.45]. Ele sugere uma escrita que, invisivelmente, é convocada a desfazer o discurso, mas, estranhamente, ele também confia à linguagem a importância de, ela mesma, se tornar o essencial. Afirma ele: “a linguagem fala como o essencial e é por isso que a fala confiada ao poeta pode ser qualificada de fala essencial. (...) O poeta faz obra de pura linguagem e a linguagem nessa obra é retorno à sua essência”. Mas que essência é essa, afinal? Heidegger, por exemplo, tenta destruir a noção de essência aristotélica que arrasta para si toda a substância universal, o ‘é’ absoluto, a unidade da forma, e evoca o vigor. Essência é aquilo que é enquanto vigora. A experiência de realizar o modo de ser de mundo e coisa em sua transitividade vigente. No entanto, o uso da fisicalidade do corpo próprio como experiência da linguagem delata, ao contrário, uma des-essência. Um modo de ser às avessas. Um fora que transita dentro e um dentro que transita fora. Uma presença radicalmente ausente, que des-vigora a estrutura e põe em vigor um processo, sem vigas, flutuante, sem começo, sem fim. É a experiência da linguagem desfazendo-se da linguagem, como coisa que, originariamente, necessita do conhecido para dizer. Aqui se enuncia um antilogocentrismo. O corpo, irredutível ao discurso, é ele mesmo amphíbolos, o ambíguo que escapa à apreensão do logos, do código, separado que está das operações lógicas. É a incidência da obscuridade no gesto, o estranho, o suspeito, ‘o que é de fora’.
Corpoemaprocesso: o que permanece indeterminado faz provar do inacabamento. Isto implica uma leitura produtiva, de processo e, desse modo, acaba-se por criar uma versão do corpo como objeto/poema: e aqui, ocorre a livre intervenção (apropriação, no rigor da versão) à poética de Wlademir Dias-Pino, instaurador do Poema/Processo – movimento literário surgido no Brasil, em 1967, como continuidade radical à Poesia Concreta – e que, hoje, ainda reúne o diverso, desconforta, discorda e se ultrapassa.
1948: Wlademir Dias-Pino elabora A ave, trazendo em sua fisicalidade funcional, sempre em processo, a invenção do primeiro livro/poema da história da literatura, feito para uma leitura de manuseio. Um objeto/poema que se explica ao longo do uso: é sua fisicalidade funcional de objeto de leitura autoconsumível que faz dele o poema. É Wlademir quem dissocia a poesia do poema. Poesia é estrutura, língua; não existe sem a palavra. Poema é linguagem, processo. A poesia traz a marca redundante do autor, a soberania do estilo. O que interessa para Wlademir é a “anti-redundância de soluções: a despersonificação”, o contra-estilo, conquista operacional do Poema/Processo. O critério de valor está no “teste de funcionalidade do poema”, criando novas versões a cada apropriação imprevisível, operando processos na visualização do projeto. Processo, versão e contra-estilo, são conceitos-chaves que o livro/poema de Wlademir Dias-Pino traz para o uso de um leitor/produtivo, problematizando a relação produção/consumo, em que fica claro que o interesse está mais na formação de produtores do que de consumidores.
Fim dos anos 80. A experiência que denominei Teatro Desessência, vivenciada numa práxis/teórica, embrenha-se pelo caminho vertiginoso da filosofia, com toda a sua violência que força a pensar, em direção a um pensamento do corpo, da carne, que aparece no inapreensível, em acontecimento imprevisto, aleatório, desprovido da dominação da palavra. É preciso des-vigorar o que vigora no domínio da fala essencial. A experiência solitária no ato realiza um descaminho com o teatro de Antonin Artaud, suspendido entre todas as formas. O uso da fotografia como matéria extraída do imaterial da própria vivência performática, a um passo alcança o vídeo, não como uma maneira de registrar e narrar, mas como um modo de pensar que dá lugar à fragmentação, ao descentramento, à vertigem do corpo criando uma corpovideografia. É pela mistura desses elementos que o trabalho desta pesquisa atingiu o espaço da literatura, através da porta escancarada pelo Poema/Processo. A tese de doutorado executa um objeto/tese. Ela é a leitura física desse corpoescritura, gerado na desordem e na diferença, unido e despedaçado, simbólico e alegórico, orgânico, múltiplo, disperso, suspenso num paradoxo indissolúvel. O discurso acadêmico produzido pela pesquisa e o suporte formal que o recebe estão, aí, radicalmente afetados. A tese impressa em 19m de tecido, versão primeira composta por quatro volumes separados em rolos, é ilegível. Foram apresentadas, então, dez outras versões em papel, com os quatro livros amarrados, em cruz, a um pedaço de couro – condição física para que o corpoemaprocesso possa ser lido à luz do dia.
Clarissa Alcantara
Apresentado no Seminário Internacional Paradigmas para as Artes Visuais no Século XXI
Universidade Federal Fluminense / Programa de Pós-Graduação em Ciência da Arte
Centro Cultural Banco do Brasil – Rio de Janeiro
E Jornada do Poema concreto – processo - experimental
Universidade Federal de Minas Gerais – Belo Horizonte
Maio / 2006

terça-feira, junho 06, 2006

Um endereço virtual interessante

Muito interessante, criativo e corajoso o trabalho de Fernanda Magalhães.
Artista, fotógrafa, performer, professora da universidade estadual de londrina e doutoranda em artes na unicamp.
http://fermaga.blogspot.com/


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