Este Blog tem o objetivo de informar e integrar os participantes do Grupo de Estudo de Arte, Filosofia e Psicanálise.
Mostrando postagens com marcador Antonio Quinet. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Antonio Quinet. Mostrar todas as postagens
domingo, abril 29, 2012
Homossexualidade e Psicanálise
Antonio Quinet - Freud elaborou o
conceito de pulsão, para tratar justamente da “força” do “impulso” sexual. A
pulsão sexual – a Trieb freudiana, infelizmente designada como
“instinto” na tradução brasileira – se distingue do instinto sexual próprio do
animal, pois ela é determinada pelo inconsciente. O “representante da pulsão” é
uma “energia” que Freud designa de “libido”, que é da ordem do prazer, do
desejo e do gozo. Essa pulsão está além, ou a despeito, como você diz, de
qualquer classificação. Ao contrário, é ela que vai qualificar esta ou aquela
atividade erótica: a pulsão oral, anal, escópica, etc., constituem a
sexualidade, independentemente do sexo do parceiro. No sexo, o que interessa à
pulsão sexual é a satisfação da zona erógena (a boca, o ânus, os genitais,
mamilos, etc.). O parceiro do sexo é um objeto que, “na cama”, o sujeito
recorta do corpo do outro. E isso independe do gênero dos parceiros sexuais. A
pulsão é sempre parcial. E o coito genital não é absolutamente uma exigência da
sexualidade, nem uma suposta “maturidade” da pulsão; e muito menos uma norma. A
psicanálise se opõe à pedagogia do desejo, pois esta é uma falácia. Não se pode
educar a pulsão sexual. Não se pode desviá-la para acomodá-la aos ideais da
sociedade. A pulsão segue os caminhos traçados pelo inconsciente, que é
individual e singular.
A questão das identidades sexuais é complexa. O termo identidade
não é um termo psicanalítico. Não é um conceito com o qual o psicanalista
opera. Este lida com as identificações do sujeito que, como sujeito da
linguagem, é dividido, por estrutura, sempre entre dois significantes. Não há
“gay em análise” (título de um congresso de psicanalistas realizado na França),
e sim sujeito de desejo, sujeito do inconsciente, cuja unicidade é
falaciosamente suposta por meio de suas identificações. A identificação a um
grupo, ou a um nome (ou a um significante definidor desse grupo) e até mesmo,
dirá Lacan, ao “homem” e à “mulher” não define absolutamente o sujeito. E muito
menos sua escolha de objeto, ou sua orientação sexual. Freud, como ele mesmo o
diz, está mais próximo dos gregos da Antiguidade que valorizavam mais a pulsão
do que seu objeto. Ao radicalizar a separação, operada por Freud, da posição
sexuada em relação à anatomia, Lacan propõe formas distintas de gozo: o gozo
fálico, que é o sexual propriamente dito tanto para homens quanto para
mulheres, qualificado de ”masculino”; e um gozo para além do falo, o “gozo
feminino”, que ultrapassa o sexo e até mesmo a linguagem. Em suas “fórmulas da
sexuação”, Lacan situa, por exemplo, as mulheres histéricas do lado masculino;
e do lado feminino todo aquele que se encontra no lugar de objeto de desejo,
sem que isso corresponda a uma definição de gênero. Nesse sentido, subverte
totalmente a questão da “identidade”, dos grupos, redutos e guetos. O que não
quer dizer que, em termos de estratégia política, o tema de identidade não
tenha sua utilidade. Mas sem que o sujeito se engane sobre essa suposta
definição de sua “identidade” singular.
MACJ - Por incrível que pareça, os
psicanalistas talvez tenham sido os que mais reagiram a esta despatologização,
e ainda reagem hoje bastante a ela. Haja vista a querela sobre a homoparentalidade
ocorrida na França há alguns anos que opôs dois grupos de psicanalistas: de um
lado, Elizabeth Roudinesco e Sabine Prokhoris, entre outros, defenderam a
legalização da adoção de crianças por casais homossexuais e reconheceram o
desejo deles de filiação como plenamente legítimo; de outro, Jean-Pierre Winter
e Charles Melman, entre outros, se opunham a isso e usavam a teoria
psicanalítica como argumento para sustentar suas posições altamente
conservadoras. É impressionante ver psicanalistas lacanianos assumirem posturas
tão conservadoras e malsãs, condizentes com as opiniões menos esclarecidas da
população. Os psicanalistas, quando se trata de homossexualidade, se tornam frequentemente
religiosos, no sentido de que pregam uma versão única da verdade para todos.
Ora, nós sabemos que a singularidade do desejo do sujeito é a mola mestra da
ética da psicanálise, tal como sustentada por Lacan, de modo que qualquer ideal
de normativização do pensamento ou do comportamento deve ser considerada
anti-freudiana e anti-lacaniana.
AQ - Do ponto de vista da psicanálise, podemos pensar que esses
analistas adotam o senso comum quanto ao homossexual, que provoca o imaginário
de um gozo outro, tão diferente – e ao mesmo tempo tão semelhante – ao do
“normal” que ameaça. Então, para a consciência da norma, é melhor qualificá-lo
de pervertido, não-confiável, pois é um gozo periférico, daí ser peri-goso. Por
outro lado, a exemplo de Ana Freud, a aceitação da homossexualidade do outro se
encontra na dependência de como o sujeito lida com a sua própria. Quanto mais
ele a rejeita em si mesmo, menos saberá lidar com ela, podendo fazer desse
outro um objeto de ódio, de agressões e até de assassinato. O desejo pelo
outro, ao ser recusado, pode se transformar em ódio. Da homofobia ao
homoterrorismo é um passo. Um pouco mais de análise não faria nada mal a esses
analistas!
HS – Existe uma polêmica desde o surgimento da psicanálise e a
partir da transmissão dela para os discípulos de Freud. Vários historiadores da
psicanálise mencionam uma “puritanização” da psicanálise, particularmente por
parte de analistas norte-americanos, de quem o próprio Freud disse, “eles não
sabem que estamos a trazer a peste”.
HS - Quais as definições ou usos atuais da categoria
"perversão", se não associada ao desvio de um desejo sexual
considerado mais legítimo ou sadio?
MACJ - A homossexualidade não é uma perversão, porque a noção de
perversão implica, antes de mais nada, em que haja uma versão correta! É digno
de nota que a homossexualidade foi considerada originalmente uma inversão,
antes de ser tratada como uma perversão. A inversão significa que algo está
totalmente de cabeça para baixo. Vê-se que de fato trata-se sempre de crer na
existência de uma versão normal e conforme da sexualidade. Esta não é a minha
concepção nem acredito que seja a de Freud. Porque a homossexualidade é, no
fundo, uma subversão radical. Mais essencialmente ainda, considero que a
homossexualidade é, na verdade, a revelação da subversão inerente à sexualidade
humana, que não se subordina a nenhum ideal. Se não há inscrição da diferença
sexual no inconsciente, como demonstraram Freud e Lacan, cada sujeito
construirá uma sexualidade – homo, hetero ou bi–absolutamente legítima. Pois
não cabe a ninguém autorizar a sexualidade de ninguém. Isso sim seria
perversão, querer tomar-se pelo Outro e querer fazer a Lei para o desejo do
Outro. Nada mais distante da psicanálise do que isso.
AQ - Apesar do termo “perversão” estar articulado historicamente a
“desvio da norma” sexual e à noção de perversidade e periculosidade, a
psicanálise o utiliza de maneira bem diferente. Em primeiro lugar, Freud
generaliza a perversão: a sexualidade é não só perversa, mas
“polimorfo-perversa”, pois a sexualidade admite toda a variação possível, sendo
seu objetivo unicamente a satisfação pulsional. A conexão da sexualidade com a
reprodução é um dado científico-religioso que o sexo desconhece. Por outro
lado, perversão é uma das “estruturas clínicas”, ao lado da neurose e da
psicose. Não é mais patológica do que as outras. São três modos de se lidar com
a castração simbólica, ou melhor, três meios de negá-la, pois ela, tanto para o
homem quanto para a mulher, gera angústia e ameaça. Para a psicanálise, um
homossexual pode ser neurótico (histérico, obsessivo, fóbico), psicótico
(esquizofrênico, paranóico) ou perverso (fetichista, sádico, masoquista,
voyeur, etc.). E mesmo dentro de cada tipo clínico, a diversidade é imensa. São
também três maneiras de gozar: o neurótico não sabe como gozar, o psicótico
atribui o gozo ao Outro, e o perverso se faz de instrumento do gozo do Outro.
Identificar todo homossexual à perversão é algo que a clínica
desmente e só pode advir de uma leitura apressada, de preconceito ou de
homofobia (a respeito da própria homossexualidade ou da homossexualidade dos
outros). Não existe “O Homossexual”, e sim homossexuais, tanto quanto
neuróticos, psicóticos e perversos. Lacan aproxima a perversão da sublimação,
mostrando que são duas formas de se atingir um gozo para além do princípio do
prazer, que é da ordem da criação – o perverso com a fantasia e o artista com a
obra. E, no final de seu ensino, nos anos setenta no seminário RSI, “Real,
Simbólico, Imaginário”, ele desconstrói o conceito fazendo um trocadilho entre perversion
e père-version, apontando que a perversão é uma versão do pai, que ele
designa como “aquele pai que tem uma mulher como objeto de desejo”. Lá onde se
esperava a norma, Lacan coloca a perversão, como a característica por
excelência da sexualidade.
MACJ - Tudo decorre da mesma noção normativizante, e eu diria mesmo
pré-freudiana, da sexualidade. Freud foi tão claro e sereno quanto a isso: ao
finalizar sua obra mais importante sobre a sexualidade, os Três ensaios
sobre a teoria da sexualidade, ele asseverou que "quando a
homossexualidade não é considerada um crime [sim, porque na época esta questão
era colocada desse modo em muitos lugares da Europa], ver-se-á que ela responde
amplamente às inclinações sexuais de um número não pequeno de pessoas". O
colóquio tratará desse aspecto em especial, com a apresentação de pesquisas
feitas sobre a homofobia nas instituições de psicanálise e na literatura
psicanalítica.
AQ – Conheço vários casos de homossexuais cujos analistas tentaram
“curá-los”, seja por pedido deles mesmos por não aceitarem sua atração pelo
mesmo sexo, seja da parte dos analistas que queriam – baseados na teoria
freudiana da bissexualidade – “desrecalcar” a heterossexualidade latente. Não
conheço nenhum analista que tenha tentado fazer o contrário. Ouvi também
relatos de pacientes cujos analistas queriam fazer o sujeito masculino ter
relações com mulheres para “perder o medo do outro sexo” e “afrontar a
castração”. E até mesmo, máximo do cinismo, ouvi um caso em que o analista
tentou ensinar o sujeito a fazer sexo oral com uma mulher. Quando o analisante
não sai dessa análise, os resultados podem ser catastróficos, indo até, por
exemplo, a produção de um quadro deliróide/delirante, como já tive a
oportunidade de observar. Essas conduções de análise por esses analistas causam
o descrédito da psicanálise, impedindo que aquele sujeito se beneficie da
análise para ultrapassar suas reais dificuldades. Quanto á formação analítica,
não há uma regra escrita, que eu conheça, em nenhuma Sociedade ou Escola de Psicanálise
que impeça homossexuais de entrarem numa formação, mas o boicote se dá ainda em
muitos lugares, através de diversos procedimentos que vão da coação a
impedimentos até a indiferença na instituição.
HS – Que matizes são possíveis na produção psicanalítica atual, a
respeito da abordagem das homossexualidades e do que é chamado de perversão?
sábado, julho 18, 2009
Lições de Stonewall a São Paulo
1969, Stonewall, Nova York. 2009, atentado com bomba na Parada Gay em São Paulo. Após sucessivas batidas policiais com humilhação e prisão no Bar Stonewall, reduto gay do Greenwich Village em NY, os homossexuais reagiram e se rebelaram contra a polícia; a rebelião ganhou o apoio dos passantes e os policiais recuaram.
É o marco histórico do início do movimento de emancipação e liberação dos homossexuais e do combate à homofobia. No ano seguinte, deu-se a primeira Parada Gay. Em São Paulo, além da bomba atirada numa sacola do alto de um prédio, outras agressões deixaram rapazes feridos. Um deles morreu.
Aos 40 anos de Stonewall, ataques como o de São Paulo estão além da homofobia. São atos de homoterrorismo. Apesar das transformações nos costumes e leis e da maior liberdade de expressão da opção sexual, prevalece, mundo afora, a repressão através de atos de guerra. No Brasil, o número de assassinatos de homossexuais aumentou 55% em 2008 em relação ao ano anterior, revela a pesquisa anual sobre crimes com motivação homofóbica, do Grupo Gay da Bahia (GGB).
Como se explica o homoterrorismo? Como a homofobia, termo que designa medo, se transforma em ódio? Por um lado, podemos pensar a partir da lógica da exclusão do diferente e situar o homossexual ao lado do negro e do judeu, vítimas de discriminação e intolerância (o triângulo gay era cor-de-rosa nos campos de concentração) e também, como se tem visto, aqueles que frequentam religiões “fora da norma”, como a Umbanda, alvos de agressões em seus templos. As mulheres, acrescente-se, continuam a ser discriminadas. Essa norma mítica, que se confunde com o “normal”, é a do “branco, masculino, jovem, heterossexual, cristão, financeiramente seguro e magro” (cf. Dollimore). O homossexual provoca o imaginário de um gozo outro, tão diferente, e ao mesmo tempo tão semelhante. Para a consciência da norma, é melhor qualificá-lo de pervertido, não-confiável, pois um gozo periférico, daí ser perigoso. Como disse Arnaldo Jabor, os gays “ (…) sempre foram uma fonte de angústia, pois atrapalham nosso sossego, nossa identidade ‘clara’. O gay é duplo, é dois, o viado tem algo de centauro, de ameaçador para a unicidade do desejo… o gay sério inquieta… o gay de terno, o gay forte, o gay caubói são muito próximos de nós (…).”
Ao responder a uma mãe extremamente preocupada com a homossexualidade de seu filho, Sigmund Freud (que assinara uma petição pela descriminalização da homossexualidade) aponta, em 1935, que não é nenhuma desvantagem, nem vantagem, “não é motivo de vergonha, não é uma degradação, não é um vício e não pode ser considerada uma doença”. Apesar disso, só em 1973 a American Psychiatric Association (APA) deixou de classificar a homossexualidade como doença. E depois que ativistas gays, por duas vezes (1970 e 1971), invadiram seu encontro anual.
A psicanálise, na mesma direção, se opõe à pedagogia do desejo, pois esta é uma falácia. Não se pode educar a pulsão sexual, desviá-la para acomodá-la aos ideais da sociedade. A pulsão segue os caminhos traçados pelo inconsciente, individual e singular. A pulsão não é louca: obedece à lógica de uma lei simbólica a que todos estamos submetidos.
Para a psicanálise, o interesse exclusivo de um homem por uma mulher também merece esclarecimento. A investigação psicanalítica, diz Freud em seu texto premiado sobre Leonardo da Vinci, opõe-se à tentativa de separar os homossexuais dos outros seres como um “grupo de índole singular”, pois “todos os seres humanos são capazes de fazer uma escolha de objeto homossexual e que de fato a consumaram no inconsciente”. Ou seja, a bissexualidade é constitutiva de todos, seja a escolha homossexual praticada ou não.
O complexo de Édipo, que cai no esquecimento, comporta também a ligação libidinal do filho para com o pai e da menina para com a mãe, além das ligações do filho com a mãe e da filha com o pai. Assim, o número de homossexuais que se proclamam como tais, diz Freud, “não é nada em comparação com os homossexuais latentes”.
Há uma diversidade enorme na homossexualidade tanto na praticada quanto na latente e sublimada. Devemos falar, portanto, de homossexualidades”. As sexualidades são tantas quanto existem os sujeitos, determinadas pelas fantasias de cada um. A questão que se coloca nesse episódio de terror é como cada um lida com sua homossexualidade (patente ou latente) que se materializa nas amizades, nas relações entre parentes do mesmo sexo e em todo ajuntamento social.
Segundo Freud, a libido homossexual é o cimento dos grupos e da massa, assim como a raiz dos ideais subjetivos de cada um se encontra em seu narcisismo (do amor por si mesmo e até a auto-estima). O “amar aos outros como a si mesmo” tem claramente fundamento homo (igual) erótico. A aceitação da homossexualidade do outro se encontra na dependência de como o sujeito lida com a sua própria. Quanto mais ele a rejeita em si mesmo, menos saberá lidar com ela, podendo fazer desse outro um objeto de ódio, de agressão e até de assassinato.
Dentro de uma cultura machista e falocêntrica (existe no ocidente alguma que não o seja?) parece mais fácil para a mulher lidar com sua homossexualidade do que o homem. Não é à toa que o lipstick lesbian virou moda entre as meninas. O que está longe de ser o caso para os meninos que cedo, muitas vezes na escola, aprendem a prática do homoterrorismo. A aceitação do outro como sexuado, diferente e independente, podendo fazer suas próprias escolhas de gozo sem ter que se desculpar, é um índice de civilização. O contrário é a barbárie.
Antonio Quinet, psicanalista e doutor em filosofia.
Assinar:
Postagens (Atom)
OS NÃO-TOLOS ERRAM / OS NOMES DO PAI
Nesta sexta-feira, Gustavo Capobianco Volaco abre espaço para uma conversa sobre o seu processo de tradução do Seminário de Jacques Lac...