quarta-feira, dezembro 23, 2009


Aos amigos próximos e distantes.
Aos amigos de toda parte, de todas as cores,
de todas as crenças e de todos os tamanhos;
os nossos votos de BOAS FESTAS
e de um FELIZ ANO NOVO.

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Amigo é coisa para se guardar

No lado esquerdo do peito

Mesmo que o tempo e a distância digam "não"

Mesmo esquecendo a canção

O que importa é ouvir

A voz que vem do coração

Pois seja o que vier, venha o que vier

Qualquer dia, amigo, eu volto

A te encontrar

Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar.

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sábado, dezembro 12, 2009

CERTIFICADO DO CURSO




Por solicitação do DAEx, vou precisar do CPF dos alunos que participaram do Curso,
para emissão dos certificados.



Então, por favor, envie o seu CPF para o meu email:

malholthausen@hotmail.com

terça-feira, dezembro 01, 2009

CONVITE



Querida Maria,


Gostaria de convidá-la para o 4º e último recital do Ciclo Completo das Sonatas para Piano de Mozart que estarei realizando nesta quarta-feira dia 02 de dezembro às 20:00h no Teatro Álvaro de Carvalho (TAC).



As sonatas deste recital são conhecidas como as “sonatas de Viena”, todas escritas nessa cidade onde Mozart passou seus últimos anos de vida. Trata-se das sonatas nº 14 em dó menor (precedida pela belíssima Fantasia em dó menor), a nº 15 em fá maior (obra bastante contrapontística e com influências bachianas), a nº 16 simplicidade por razões didáticos), a nº 17 em si bemol maior e a nº 18 em ré maior.

Como das vezes anteriores, os ingressos custam R$20,00 e R$10,00 e podem ser adquiridos diretamente na bilheteria do teatro.


Espero poder contar com sua presença!

 Um grande abraço,


Alberto Andrés Heller

quinta-feira, novembro 26, 2009

CONVITE








Local: Café Cultura
Endereço: Praça XV de Novembro - Centro - Florianópolis-SC
Dia: 12 de Dezembro de 2009 - sábado
Horário: 18H00

clarissa alcântara – clóvis domingos 
 matheus silva – nicolas corres


Quatro performers instauram individualmente o processo de invenção de suas histórias pessoais, subtraindo sua experiência única da multiplicidade a ser constituída.

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Vamos fechar o ano com a performance do grupo de Belo Horizonte, e, no mesmo movimento, abrir nossos laços de trabalho para 2010.


segunda-feira, novembro 16, 2009



Sempre que se produz um fenômeno em dois tempos, na obsessão por exemplo, o primeiro tempo é a angústia, e o segundo é a culpa, que aplaca a angústia no registro da culpabilidade.


Jacques Lacan
O simbólico, o imaginário e o real


domingo, outubro 18, 2009

"Não"



A dificuldade de dizer não (ou sim)
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Contardo Calligaris
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DURANTE TODA minha infância, eu dizia "não" mesmo quando queria dizer "sim".

Usava o não como uma palavra de apoio, uma maneira de começar a falar. Minha mãe: "Vou sair para fazer compras; algo que você gostaria para o jantar?". Eu, enérgico: "Não", acrescentando imediatamente: "Sim, estou a fim de ovos fritos (ou sei lá o quê)".

Os adultos tentavam me corrigir: "Então, é sim ou não?". "Não, é sim", eu respondia.

Entendi esse meu hábito muito mais tarde, quando li "O Não e o Sim", de René Spitz (ed. Martins Fontes). No fim da faculdade, Spitz era um dos meus autores preferidos, o único, ao meu ver, que conciliava a psicanálise com o estudo experimental do desenvolvimento infantil. No livro, pequeno e crucial, Spitz nota que, nas crianças, o uso do "não" aparece por volta do décimo oitavo mês de vida, logo quando elas costumam falar de si na terceira pessoa, como se precisassem (e conseguissem, enfim) se enxergar como seres distintos dos outros.
Para Spitz, a aquisição da capacidade de dizer "não" é um grande evento da primeira época da vida: a conquista da primeira palavra que serve para dialogar e não só para designar um objeto.Mas, cuidado, especialmente no segundo ano de vida, o "não" teimoso da criança não significa que ela discorde do que está lhe sendo proposto ou imposto: a criança diz "não" para afirmar que, mesmo ao concordar ou obedecer, ela está exercendo sua própria vontade, a qual não se confunde com a do adulto.
Em suma, durante muito tempo, eu persisti na atitude de meus dois anos. Mais tarde, consegui me corrigir. Mas em termos; sobrou-me uma paixão pelas adversativas: mal consigo dizer "sim" sem acrescentar um "mas" que limita meu consentimento. É um jeito de dizer que aceito, mas minha aceitação não é incondicional. "Vamos ao cinema?". "Sim, mas à noite, não agora."
O uso do sim e do não, no discurso de cada um de nós, pode ser um indicador psicológico valioso.
Mas, para isso, é preciso distinguir entre "sim" e "não" "objetivos", que têm a ver com a questão da qual se trata (quero ou não tomar café ou votar nas próximas eleições), e "sim" e "não" "subjetivos", que são abstratos, ou seja, que expressam uma disposição de quem fala, quase sem levar em conta o que está sendo negado ou afirmado.
Se o "não" subjetivo é um grito de independência, o "sim" subjetivo é uma covardia, consiste em concordar para evitar os inconvenientes de uma negativa que aborreceria nosso interlocutor.
Alguns exemplos desse "sim" covarde (e, em geral, objetivamente mentiroso). "Respondeu à minha carta?" "Sim, já mandei." "Gostou de minha performance?" "Sim, adorei." "Quer me ver de novo?" "Sim, te ligo amanhã." Mas também: "Você vai assinar a petição para expulsar os judeus do ensino público?" "Claro, claro, estou assinando."
Acontece que dizer "não" é arriscado. A confusão com o outro, aquela confusão que ameaça a primeira infância e contra a qual se erguia nosso "não" abstrato e rebelde, é substituída, com o passar do tempo, por mil dependências afetivas: "Desde os meus dois anos, não sou você, não me confundo com você, existo separadamente, mas, se eu perder seu amor (sua amizade, sua simpatia, sua benevolência), quem reconhecerá que existo? Será que posso existir sem a aprovação dos outros?".
Em suma, o sim subjetivo é um consentimento abstrato (o objeto de consenso é indiferente e pode ser monstruoso), pois o que importa é agradar ao outro, não perder sua consideração. A necessidade narcisista de sermos amados nos torna covardes e nos leva a assentir.
Por sua vez, nossa covardia fomenta explosões negativas, tanto mais violentas quanto mais nossa concordância foi preguiçosa. À força de dizer "sim" para que o outro goste de mim, eu corro o perigo de me perder e, de repente, posso apelar à negação abstrata, espalhafatosa e violenta, só para mostrar que não me confundo com o outro, penso com a minha cabeça.
Bom, Spitz tinha razão, o uso do não e do sim permitem o diálogo humano. Mas é um diálogo que (sejamos otimistas) nem sempre tem a ver com as questões que estão sendo discutidas; ele tem mais a ver com uma necessidade subjetiva: digo "não" para me separar do outro ou digo "sim" para obter dele um olhar agradecido. Nos dois casos, tento apenas alimentar a ilusão de que existo.

quarta-feira, outubro 14, 2009

A Jimena nos mandou o texto do Renato Mezan, que a Mara se referiu na última aula, e que gerou várias questões sobre o discurso do Mestre.
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Perigos da obediência

Livro e filme retratam como a sociedade administrada e a manipulação da linguagem desenvolvem no indivíduo o ódio pelo outro.

RENATO MEZAN
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Teria o mês de setembro alguma afinidade secreta com a violência? Diante do número de matanças que ocorreram ou começaram nele, poderíamos brincar com a ideia: em 2001, os atentados de Nova York; em 1939, o início da Segunda Guerra; em 1970, o massacre dos palestinos na Jordânia (o "Setembro Negro"); em 1792, grassa o Terror em Paris, que deu origem aos termos "septembriser" e "septembrisade", significando "massacre de opositores" - e haveria outras a lembrar.
O primeiro transpõe para a Alemanha atual um fato que teve lugar em 1967, na cidade de Palo Alto [EUA]. Querendo mostrar a seus alunos como o fascismo se apoderou das massas nos anos 1930, um professor põe em prática um "experimento pedagógico": durante uma semana, organiza com eles o núcleo de um movimento ao qual dão o nome de "Terceira Onda".
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Nesse setembro de 2009, um filme -"A Onda" [em cartaz em SP]- e um livro -"LTI - A Linguagem do Terceiro Reich" [de Victor Klemperer, trad. Miriam Bettina Paulina Oelsner, ed. Contraponto] nos convidam a refletir sobre a facilidade e a rapidez com que a violência se alastra, fazendo com que pessoas comuns se convertam em sádicos ferozes.
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Sem lhes contar que ele só "existe" na escola, vai treinando-os com as técnicas consagradas pelo totalitarismo: exercícios de ordem unida, uniformes, adoção de um símbolo e de uma saudação etc. Os efeitos dessas coisas aparentemente inocentes não tardam a surgir: como num passe de mágica, o grupo adquire extraordinária coesão, que dá a cada integrante a sensação de ser parte de algo "grande" ou, pelo menos, maior que sua própria insignificância.
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Aparecem também aspectos menos simpáticos: intolerância contra os que se recusam a participar, desprezo, ódio e logo agressões a supostos opositores (os alunos de outra classe, que estão estudando o anarquismo, passam a ser vistos como anarquistas, e portanto inimigos). Escolhido como chefe pela garotada, o professor se identifica com o papel; rapidamente, o "experimento" foge ao controle - dele e dos próprios integrantes - e termina em tragédia: na vida real, um rapaz perde a mão tentando fabricar uma bomba caseira - o que custou a Jones sua licença para lecionar - e, no filme... bem, não vou contar o desfecho.
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Em "Psicologia das Massas e Análise do Ego", Freud desvendou os mecanismos psicológicos que nas "massas artificiais" criam a disciplina e o devotamento ao líder: instituindo-o no lugar do superego, os indivíduos que delas participam passam a obedecê-lo mais ou menos cegamente e, imaginando-se igualmente amados por ele, identificam-se uns com os outros, pois de certo modo são todos filhos do grande Pai.
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Instrumentos Nesse processo, abdicam de sua capacidade de pensar por si mesmos; compartilhando a crença na doutrina proposta pelo chefe, que geralmente divide o mundo em bons (os adeptos da "causa") e maus (todos os demais), eles a transformam em instrumento de uma dominação capaz de os arrastar a atos que, se não fizessem parte do grupo, jamais teriam coragem de praticar.
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Forças destrutivas
Muito bem dirigido e interpretado, o filme mostra como a euforia de ser membro de algo supostamente tão "poderoso", e o desejo de agradar ao líder, vão dando margem a ações cada vez mais próximas da delinquência. Tudo se justifica em nome da "causa", que no caso é nenhuma: a "Onda" não tem conteúdo, a não ser ela mesma e uma vaga solidariedade entre seus membros, que se incentivam e protegem mutuamente.
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À medida que transcorre a semana, no íntimo dos adolescentes dão-se modificações de vulto. Por um lado, eles transferem seu entusiasmo juvenil para o movimento, que desperta neles qualidades até então adormecidas: mostram-se criativos, capazes de levar a cabo projetos que exigem organização e trabalho conjunto (como, por exemplo, a montagem de uma peça de teatro).

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Por outro, a vibração dessa intensa energia como que dissolve os freios sociais e morais e libera forças destrutivas das quais não tinham consciência: ameaçam colegas, intimidam crianças, um rapaz esbofeteia a namorada que se recusa a participar do grupo, outro adquire um revólver, um terceiro tenta afogar um adversário no polo aquático...
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Nas primeiras décadas do século 20, e em escala muitíssimo maior, os mesmos fenômenos ocorreram em várias sociedades europeias. Os mais graves tiveram lugar na Alemanha, cujo führer arrastou o mundo para uma guerra que deixou dezenas de milhões de mortos e refugiados. Muito se escreveu sobre por que os alemães aceitaram seguir um demagogo enlouquecido e por 12 anos aplaudiram suas iniciativas e seus discursos delirantes, que Victor Klemperer - o autor de "LTI"- compara aos "desvarios de um criado bêbado".
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Entre os motivos que os levaram a isso, o analisado por ele se destaca como dos mais importantes: a manipulação da linguagem. O estudo da LTI -sigla de "Lingua Tertii Imperii", ou do Terceiro Reich- é uma das mais originais contribuições à compreensão do fenômeno totalitário. Examinando cartazes, livros, jornais, revistas, conversas ouvidas e discursos de dignitários do regime, Klemperer (irmão do regente Otto) mostra como uma ideologia absurda e cruel se entranhou "na carne e no sangue das massas".
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Impostas pela repetição e pelo controle absoluto dos meios de comunicação, as frases e expressões nazistas foram "aceitas mecânica e inconscientemente" pelo povo alemão, passando a moldar sua autoimagem e a justificar a barbárie, pelo método simples e eficaz de a fazer parecer natural.
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Não é possível, neste espaço, mais do que uma breve referência aos recursos de que se valeram Goebbels [o ministro da Propaganda no regime nazista] e sua corja para obter tão fantástico resultado. Numa prosa límpida, que a tradutora Miriam Oelsner restitui com fluidez e precisão, o autor vai desmontando os ardis que inventaram.
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Seu livro revela como a criação de novas palavras, o uso desmesurado de abreviações e de superlativos, a mescla de tecnicismo "moderno" e apelo ao "orgânico", o emprego de estrangeirismos bem-soantes, mas intimidadores, a ênfase declamatória, o exagero, a mentira, a calúnia e, ao mesmo tempo, a pobreza monótona de um discurso calculado para abolir toda nuança e toda reflexão se combinam para produzir alienação.
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Até as vítimas do regime empregam, sem se dar conta, termos e expressões da "língua dos vencedores"! No filme, temos vários exemplos do poder ao mesmo tempo mobilizador e mistificador da linguagem. Um deles é a explicação dada pelo professor para o exercício de marchar no lugar: "melhorar a circulação".
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Ritmo acelerado
O bater dos pés em uníssono cria um efeito de homogeneidade: a energia posta na pisada se espraia por entre os alunos, fazendo-os sentir-se parte de um só corpo e capazes de grandes feitos. O ritmo se acelera, uma expressão beatífica aparece no rosto de alguns, os olhos brilham - alguma coisa está de fato circulando, uma exaltação crescente - e, sem se darem conta, rendem-se à manipulação de que estão sendo objeto.
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(Em "O Triunfo da Vontade", Leni Riefenstahl utiliza a aceleração das respostas dos recrutas à pergunta "de onde você vem?" para sugerir que o movimento hitlerista está se expandindo irresistivelmente.) O que ambos - filme e livro - revelam sobre a capacidade do ser humano para obedecer sem questionar é confirmado por diversos experimentos científicos; para concluir essas observações, mencionemos o mais famoso deles.
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Em 1961, por ocasião do processo Eichmann, Hannah Arendt falava da "banalidade do mal": o carrasco nazista não era um monstro, mas um homenzinho insosso como tantos que existem em toda parte.
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O psicólogo Stanley Milgram decidiu por à prova a ideia de que, sob certas condições, qualquer pessoa pode agir como Eichmann: na Universidade Yale (EUA), convocou voluntários para o que ficou conhecido como Experimento de Milgram ("google it", caro leitor, e veja por si mesmo os detalhes do teste).
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Em resumo, pedia aos "instrutores" que acionassem um aparelho de dar choques a cada vez que os "sujeitos" errassem na repetição de certas palavras. A voltagem iria num crescendo, atingindo rapidamente patamares que, era-lhes dito, poderiam causar danos irreversíveis ao cérebro. A máquina, é claro, estava desligada; do outro lado da parede, o ator que representava a pessoa sendo testada permanecia incólume, apenas gritando como se estivesse de fato sendo eletrocutado.
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O objetivo do experimento não era avaliar a memória dele, mas até onde seriam capazes de ir os "instrutores". Para surpresa de Milgram, dois terços deles superaram o limiar além do qual o choque levaria a prejuízos irreparáveis.
Ao chegar ao nível perigoso, muitos se mostravam aflitos, mas cediam aos pedidos do psicólogo para prosseguir; mesmo cientes das consequências para o outro, a garantia de que nada lhes aconteceria bastava para continuarem a apertar os botões. O artigo em que Milgram discute sua experiência -cujo título tomo emprestado para estas notas- tornou-se um clássico da psicologia.
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Ela foi reproduzida em outros lugares, com outros sujeitos, por outros cientistas -sempre com resultados próximos aos da primeira vez. A conclusão do psicólogo americano merece ser citada: "A obediência consiste em que a pessoa passa a se ver como instrumento para realizar os desejos de outra e, portanto, não mais se considera responsável por seus atos. Uma vez ocorrida essa mudança essencial de ponto de vista, seguem-se todas as consequências da obediência".
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Outros experimentos, como o Experimento Prisional de Stanford, de 1971, confirmam os achados de Milgram e, a meu ver, também a análise de Freud sobre a submissão ao líder.
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Nestes tempos em que, sob os mais variados pretextos, volta-se a solicitar nossa adesão a ideais de rebanho, impõe-se meditar sobre o que em nós se curva tão facilmente à vontade de outrem. A "servidão voluntária" de que falava La Boétie nos idos de 1500 espreita nas nossas entranhas; já o sabia Wilhelm Reich, cujo alerta é hoje tão atual quanto em 1930: "O fascista está em nós".
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RENATO MEZAN é psicanalista e professor titular da Pontifícia Universidade Católica de SP. Escreve na seção "Autores", do Mais!.

quarta-feira, setembro 30, 2009

Sexta Aula


Na primeira fase de seu ensino, entre 1936 e 1949, Lacan publica vários textos cujo foco é redefinir o narcisismo freudiano a partir de sua formulação do estádio do espelho, e de apresentar uma noção de sujeito articulado com o sentido.


Em 1949, Lacan publica uma versão modificada de seu texto, O estádio do espelho como formador da função do eu, apresentado pela primeira em 1936, num Congresso de Psicanálise.

Em O estádio do espelho, a partir da observação de sua própria filha, ele descreve a experiência de uma criança, entre seis e dezoito meses de idade, frente ao espelho. Para Lacan, nesta fase, apresentada como fase do espelho, a criança – tal como no mito de Narciso – se fascina e se identifica com a sua imagem, enxergada como outra no espaço virtual que lhe apresenta o espelho.

Influenciado pela filosofia de Hegel, Lacan formaliza essa experiência empírica como paradigma da dialética do senhor e do escravo. Na fase do espelho, como em toda relação dialética, no sentido hegeliano, o que acontece no outro – o espelho – não está separado do que acontece na criança. Por isso, a imagem que o espelho devolve à criança se cristaliza como o seu eu, como a sua consciência de si, mas na posição de um mestre parasitário. Segundo Lacan, a imagem está na posição de um mestre parasitário porque, por um lado, cria a ficção de uma identidade, mas, por outro lado, esta ficção, que é o seu eu, não cumpre nenhuma função que permita a adaptação da criança ao seu meio.

Nesse período, diz Lacan, o essencial para psicanálise é a função das identificações, que constitui sua teoria antes de evidenciar a função do significante. O sujeito, durante toda a sua vida, é captado por imagens, às quais ele se identifica sucessivamente e, portanto, o seu ego é um bazar de miudezas de identificações, que podem ser contraditórias entre si.

Com a formulação do estádio do espelho, a partir da dialética do senhor e do escravo, Lacan redefine o narcisismo freudiano. De acordo com Freud - Introdução sobre o Narcisismo, 1914 - , o conceito de narcisismo designa o investimento libidinal do eu ao ser tomado como objeto pela pulsão. No início, diz Freud, o corpo da criança se encontra fragmentado em zonas de gozo, zonas essas que se satisfazem auto-eroticamente. Cada zona erótica apresenta-se uma economia isolada de satisfação e desvinculada das outras. A unidade só é conquistada numa nova ação psíquica que ”se agrega” ao auto-erotismo. Esta nova ação psíquica, que permite a passagem da fragmentação à unidade corporal, não é outra coisa senão a libidinização do eu na fase do narcisismo – narcisismo primário. Esta fase, em que o eu é tomado como objeto da pulsão sexual, dá lugar a um novo estágio, no qual a libido se desloca do eu para os objetos do mundo. Este deslocamento da libido do eu para os objetos, libido objetal, permite que o desejo seja cativado pelos objetos. Ou seja, que se estabeleça uma passagem do amor de si, narcísico, ao amor pelo outro. Mas como o que estabelece essa passagem é o deslocamento da libido do eu para o outro, o amor pelo outro ficará sempre preço as raízes do narcisismo. Amamos o nosso parceiro não por ser uma alteridade radical, mas porque equivale à nossa imagem. Amamos no outro a nossa própria imagem.

Em Lacan, o estádio do espelho é que introduz o que Freud chamou de narcisismo. Este novo ato psíquico, também em Lacan, se agrega ao auto-erotismo, de uma maneira súbita. Por isso, o estádio do espelho não responde a uma lógica evolutiva, a sua emergência implica um corte com o que antecede; e se caracteriza pelo fato da criança reconhecer a sua imagem no espelho.

Este reconhecimento é um efeito do dinamismo libidinal que a sua própria imagem produz. Mas, como adverte Lacan, devemos entender este processo, não como um mero reconhecimento, senão como uma identificação “no sentido pleno que a análise atribui a esse termo, ou seja, a transformação produzida no sujeito quando ele assume uma imagem”. (Lacan, 1998)

Por essa via, para Lacan, a identificação do sujeito com a sua imagem, na fase do espelho, não só constituirá o eu como uma projeção imaginária, como também o determinará com a função de desconhecimento. Isto se deve a que, pela imagem que o espelho lhe devolve, acredita ter uma unidade que não condiz com a prematuração de seu corpo anato-fisio-biológico, que se encontra na impotência motriz e na dependência da amamentação. Mas a característica de desconhecimento do eu não se deve simplesmente a que o eu se constitui por identificação com o outro, a que o eu é outro. A característica do eu é de desconhecimento porque, uma vez produzida à identificação com o outro, o eu desconhece a mediação do outro, ou seja, o eu acredita ser igual ao eu, e não igual ao outro que o constituiu como tal. Por isso mesmo, em seu escrito Formulações sobre a causalidade psíquica, Lacan define o desconhecimento como a loucura mais geral, por ser a loucura própria do eu.

Assim, para Lacan, o sujeito estabelece uma dialética identificatória com o seu entorno porque não sabe quem é, e por sofrer de um desraizamento instintual, não sabe o que quer. Nesta dialética, o sujeito conquista um duplo conhecimento. Por um lado, a identificação com o outro, o assumir como sua a imagem do outro, lhe permite “conhecer” quem é. E por outro lado, por se crer outro, assume como objeto de seu desejo aqueles que são objetos do desejo do outro, e isto lhe permite “conhecer” o que quer.

Por perder a matriz instintual, o ser humano não sabe o que quer, e não sabe qual é o objeto do seu desejo. Qualquer objeto pode cativar o seu desejo: a única condição para isto é que ele seja objeto do desejo do outro. Portanto, os objetos não são fixos, não são determinados instintivamente, como no animal. Isto indica que, no ser humano, o campo de força do desejo é mais autônomo que nos animais: os objetos possíveis são infinitos.

No entanto, no ser humano, a autonomia de seu desejo, em relação a seu objeto, tem um preço a ser pago. O preço que paga pela autonomia de seu desejo, Lacan o encontra na pouca realidade dos objetos. Diferentemente do instinto animal, que tem objetos fixos, insubstituíveis, com os quais o animal se satisfaz, o desejo humano só fica cativado pelos objetos que o outro deseja, mas se estes objetos deixam de ser desejados pelo outro perdem o brilho libidinal que os iluminava, apagam-se, ficando apenas o pouco de realidade constituinte.


quarta-feira, setembro 23, 2009

CONVITE


Camerata Florianópolis
Teatro Governador Pedro Ivo

  • 27 de Setembro - Domingo
  • 20H00
Sinfonia Concertante para Violino e Viola
Concerto no. 4 para Piano e Orquestra
  • Jeferson Della Rocca - Maestro
  • Alberto Andrés Heller - Piano
  • Walesca Sieczkowska - Violino
  • Paolo Finott - Viola [Italia]
Ingressos:
R$ 20,00 (Inteira)
R$ 10,00 (estudantes, idosos e Clube DC)

terça-feira, setembro 22, 2009

Quarta e Quinta Aula

Conforme Elizabeth Rudinesco, foi no convívio com Alexandre Koyré, Henry Corbin, Alexandre Kojève e Georges Bataille; que Lacan inicia-se na modernidade filosófica passando pela leitura de Husserl, Nietzsche, Hegel e Heidegger.

Entre 1933 e 1939, Alexandre Kojève, jovem filósofo russo, ministra um curso sobre a Fenomenologia do Espírito, de Hegel. Influentes autores franceses de várias áreas disciplinares participam do Curso, entre eles: Raymond Quenau e André Breton – da literatura; Maurice Merleau-Ponty, Eric Weil, Raymond Aron e Pierre Klossowski – da filosofia; Roger Caillois – da antropologia; e Jacques Lacan.

A partir de então, a teoria e a clínica lacaniana serão fortemente influenciadas pela leitura do filósofo russo, e a teoria do filosofo alemão. Sendo que um dos conceitos que mais sofreram estas influências foi, por certo, o do desejo. Não há como falar na noção de desejo em Lacan sem passar pela parábola da “dialética do senhor e do escravo”.

Regina Neri – 2005 - resume com clareza e simplicidade a parábola kojeviana da “dialética do senhor e do escravo”, de Hegel. Diz Neri: Para Hegel, o homem toma consciência de si quando não está mais alienado na apreensão dos objetos naturais, mas dirigido para algo não-natural – um outro desejo. Ele se constitui como sujeito humano desejante ou como Autoconsciência de si, no encontro com um outro eu desejante. O desejo é desejo de reconhecimento pelo outro que estaria ilustrado na dialética hegeliana do senhor e do escravo. Nessa busca de auto-reconhecimento, cada autoconsciência ameaça a vida do outro e aceita colocar em risco a sua própria vida. Nesse confronto, torna-se senhor aquele que aceita correr o risco da morte e escravo aquele que por medo, se submete ao senhor, reconhecendo-o como seu mestre. Assim, o eu só pode se constituir como autoconsciência no encontro com o outro; o eu só pode aprender-se objetivamente mediado pelo outro.

Ou seja, para que o desejo supere sua forma natural (animal) e se constitua como desejo humano, são necessárias duas condições: 1. Que o desejo se volte para um objeto não natural; 2. A existência da linguagem.

Segundo Garcia-Roza, a razão da primeira é evidente. Se o desejo animal supera momentaneamente a natureza ao negá-la, ele permanece no entanto escravizado a ela pela necessidade de satisfação. Para que o desejo se constitua como desejo humano, é necessário que ele se dirija para um objeto não-natural. Mas o único objeto não-natural é o próprio desejo, já que é um vazio.

Assim, sendo o desejo um vazio, ausência de ser, ao se voltar para um outro vazio, e apenas desta forma supera sua realidade natural, dá lugar ao surgimento de algo não-natural: o desejo de desejo.

Mas se o desejo humano é sempre desejo de outro desejo, como justificar o fato de que, enquanto homens, desejamos objetos? Hegel responde que o desejo humano volta-se para objetos na medida em que estes se constituem como objetos do desejo de outros homens. Nesta medida, ao nos apossarmos desses objetos, estamos afirmando nosso domínio sobre o desejo do outro.

Esse reconhecimento só pode ser feito pela palavra. É esta a segunda condição do desejo humano. Sem a palavra ficamos irremediavelmente aprisionados na subjetividade. A linguagem é mediação, meio necessário para o reconhecimento. É a linguagem e somente ela que possibilita a intersubjetividade. Fora da linguagem não há eu humano.

Lacan

Influenciado pela leitura de Hegel, Lacan concebe a noção de desejo como falta. Não a falta de um objeto determinado da necessidade, mas pura negatividade desprovida de objeto natural. Daí a noção do sujeito de desejo como falta-a-ser, como perda irreparável.

Por essa via, podemos entender o desejo como a negatividade do mundo narcísico: como aquilo para o que não há objeto dado e conformado de satisfação plena, como fazem parecer as imagens ideais. O desejo é sempre de outra coisa. Ele não complementa a imagem e não satisfaz plenamente as pulsões. O desejo, segundo Lacan, é a necessária relação do ser com a falta.

Para Vlademir Safatle, ao falar de desejo como pura negatividade, Lacan supõe uma potência de indeterminação. É a presença, em todo o sujeito, daquilo que não se submete integralmente à determinação identitária da unidade sintética de um Eu, que não se submete à forma positiva de um objeto finito. Ou seja, a falta própria ao desejo é, na verdade, o modo de descrição de uma potência de indeterminação e de despersonalização que habita todo sujeito e que Lacan chamará em certos momentos de infinitude.


Assim, a clínica lacaniana pode ser enunciada como uma espécie de crítica da alienação do Eu, que visa abrir espaço para o reconhecimento do desejo. No entanto, pergunta Safatle, o que pode exatamente significar “abrir espaço para o reconhecimento”de um desejo que é pura negatividade? Significa descobrir que o desejo é indiferente aos objetos aos quais se fixa, que sua natureza consiste em mudar continuamente de objeto? Significa dizer que o desejo destrói todos seus objetos, como se sua verdade fosse ser puro desejo de destruição e morte? É nesse ponto que o recurso à noção de estrutura mostra sua importância.

Lacan insiste que a Lei social que estrutura o universo simbólico não é uma lei normativa no sentido forte do termo, ou seja, uma lei que enuncia claramente o que devo fazer e quais condições devo preencher para segui-la. Essa é uma questão central que costuma gerar confusões. A Lei simplesmente organiza distinções e oposições que, em si, não teriam sentido algum.


Por exemplo, a Lei da estrutura de parentesco pode determinar topicamente vários lugares, como “filho de ...”, “pai de...”, mas esses lugares não têm em si nenhuma significação normativa, nenhuma referência estável. Por isso, nunca sei claramente o que significa, por exemplo, ser “pai de...”, mesmo tendo consciência de que ocupo atualmente tal lugar. Só posso saber o que um pai é, o que devo fazer para assumir a autoridade e enunciar a norma à condição de acreditar em certa impostura. É essa ausência de conteúdo que Lacan tem em vista ao afirmar que a Lei sociossimbólica é composta por significantes puros, que ela é uma “cadeia de significantes”.

Para Lacan, o significante puro, desprovido de referência, é a formalização mais adequada para um desejo que, por sua vez, é negatividade desprovida de objeto. Pois só um significante puro pode dar forma a um desejo que é fundamentalmente inadequado a toda figuração. Ou seja, a crítica da alienação a que se propõe Lacan deve se realizar através do desvelamento de que a verdade do desejo do sujeito é ser desejo da Lei, isso nos dois sentidos do genitivo: desejo enunciado no lugar da Lei e desejo pelo significante puro da Lei.

terça-feira, setembro 08, 2009

Segunda e Terceira aula

O desejo no ensino de Freud

Para Freud o desejo é um movimento que, frente à repetição da necessidade, procura reinvestir (recatexizar) o traço mnêmico da experiência de satisfação. Dessa definição, é possível destacar alguns termos:

Movimento: O desejo é definido como uma moção, uma força que dirige o sujeito para um fim determinado.
Essas moções do desejo fluem em direção aos objetos da realidade investindo-os de libido, num processo chamado de libidinização do objeto. Para Freud o primeiro objeto libidinizado é o Eu, dando origem ao narcisismo.
As moções do desejo podem também mudar o seu curso – sublimação -, ou serem inibidas. Quando a realidade é muito hostil - lugar de privação e frustração permanente - apresenta-se o que se pode chamar de psicose da miséria: afrouxamento dos vínculos e dos investimentos da libido em relação à realidade.

Repetição: No campo do desejo, podemos compreender a repetição como a insistência do desejo não apenas em se realizar plenamente, mas em se expressar, em ser reconhecido pelo Eu. O que se realiza no sonho é a expressão disfarçada do desejo. Continuar desejando significa continuar vivendo enquanto sujeito, pois a manutenção do desejo é a manutenção de uma fala. “O recalcado não quer se esgotar. Quer se repetir, e se repete inclusive nos traços que persistem iguais entre as várias escolhas, aparentemente tão diversas, que fazemos pela vida.”(Khel, M. Rita)

Necessidade: Em Freud a necessidade dá origem à vida psíquica. O recém- nascido, impossibilitado por sua prematuração de satisfazer suas necessidades vitais, precisa da intervenção de um adulto, resultando daí a erogenização de seu corpo, suas alucinações e fantasias.
A partir da primeira experiência de satisfação surge o que Freud chamou de Princípio do Prazer: os processos primários inconscientes. No reino do Princípio do Prazer e dos processos primários, a psique vive uma espécie de atemporalidade, de simultaneidade entre as manifestações da necessidade e a alucinação do objeto de satisfação. A primeira experiência de satisfação estabelece uma ligação - facilitação, associação - entre a imagem do objeto que proporcionou a satisfação e a imagem do movimento que permitiu a descarga.
Ou seja, a repetição da necessidade desencadeia um impulso psíquico que procurará reinvestir a imagem mnêmica do objeto, com a finalidade de reproduzir a primeira satisfação.
Quando fracassa o Princípio do Prazer – recalque – é que a criança começa a desenvolver recursos para fazer a mediação necessária entre a pulsão e a satisfação parcial da pulsão: recurso chamado de Princípio da Realidade. “É com o fracasso do Princípio do Prazer que surge a possibilidade de este recém-chegado ao mundo se tornar sujeito de uma história, que será a história das tentativas que ele fará para encontrar satisfação substitutiva para a satisfação alucinatória: a história dos embates do indivíduo com a realidade e das múltiplas anunciações do desejo, que só são possíveis se referidas aos objetos do “mundo real”.” (Khel, M. Rita)
Com o surgimento do Princípio de Realidade a criança desenvolve consciência, atenção, memória, discernimento, pensamento e ação.
Procura: Trata-se sempre de uma tentativa. Algo que busca realizar-se, e nesse processo se depara com diversos tipos de obstáculos. Obstáculos produzidos pelos conflitos psíquicos: censura, inibição, repressão, ideais; que podemos chamar de atemporais. E os obstáculos produzidos pelos códigos da cultura que habitamos. Obstáculos históricos, temporais.

Reinvestir o traço mnêmico da experiência de satisfação. O desejo não se dirige a um objeto da realidade, mas procura reinvestir uma lembrança.

Assim sendo, podemos dizer que em Freud o desejo é teorizado como algo indestrutível, impossível de satisfazer e marcado pela alteridade.

Formação de Compromisso:

Na teoria freudiana, a noção de desejo é inseparável da noção de formação de compromisso: - Sonhos, atos falhos, chistes, sintomas e lembranças encobridoras. Como o desejo é essa tendência ao impossível, essa moção sem corpo, ele precisa estabelecer um pacto ou compromisso com outras instâncias para surgir. Além disso, a divisão do psiquismo faz com que o prazer para uma instância seja desprazer para outra, pois cada qual tem diferentes interesses. Assim, o sonho é uma formação de compromisso entre o desejo pré-consciente de dormir e o desejo inconsciente; este, após transferir sua força para um pensamento pré-consciente censurado, se alia àquele.

O sintoma é uma formação de compromisso entre o desejo e sua censura, chamado por Freud de supereu. As formações de compromisso teorizadas por Freud – sonhos, atos falhos, chistes, sintomas e lembranças encobridoras – serão denominadas por Lacan de formações do inconsciente.

As formações do inconsciente – ou as formações no inconsciente – podem ser entendidas não como uma produção de um homenzinho dentro do homem que seria o inconsciente, mas como uma produção discursiva em uma Outra cena.

Mas, é preciso compreender que a Outra cena, como a expressão diz, só tem sentido se articulada com a cena. Uma “outra cena” precisa da cena para existir e só existe nesta relação. É justamente isto que faz com que, nas formações do inconsciente, o desejo, amarrado a alguns significantes, possa mudar de circuito.
O próprio da formação do inconsciente reside em uma função da passagem de uma cena para outra. Esta Outra cena será então materializada. Ela poderá ser reconstruída no trabalho analítico, com efeitos sobre o real do sintoma, pois será apreendido a partir de uma nova formação significante.






domingo, setembro 06, 2009

Primeiras Estórias



Famigerado

Guimarães Rosa

Foi de incerta feita — o evento. Quem pode esperar coisa tão sem pés nem cabeça? Eu estava em casa, o arraial sendo de todo tranqüilo. Parou-me à porta o tropel. Cheguei à janela.


Um grupo de cavaleiros. Isto é, vendo melhor: um cavaleiro rente, frente à minha porta, equiparado, exato; e, embolados, de banda, três homens a cavalo. Tudo, num relance, insolitíssimo. Tomei-me nos nervos. O cavaleiro esse — o oh-homem-oh — com cara de nenhum amigo. Sei o que é influência de fisionomia. Saíra e viera, aquele homem, para morrer em guerra. Saudou-me seco, curto pesadamente. Seu cavalo era alto, um alazão; bem arreado, ferrado, suado. E concebi grande dúvida.

Nenhum se apeava. Os outros, tristes três, mal me haviam olhado, nem olhassem para nada. Semelhavam a gente receosa, tropa desbaratada, sopitados, constrangidos coagidos, sim. Isso por isso, que o cavaleiro solerte tinha o ar de regê-los: a meio-gesto, desprezivo, intimara-os de pegarem o lugar onde agora se encostavam. Dado que a frente da minha casa reentrava, metros, da linha da rua, e dos dois lados avançava a cerca, formava-se ali um encantoável, espécie de resguardo. Valendo-se do que, o homem obrigara os outros ao ponto donde seriam menos vistos, enquanto barrava-lhes qualquer fuga; sem contar que, unidos assim, os cavalos se apertando, não dispunham de rápida mobilidade. Tudo enxergara, tomando ganho da topografia. Os três seriam seus prisioneiros, não seus sequazes. Aquele homem, para proceder da forma, só podia ser um brabo sertanejo, jagunço até na escuma do bofe. Senti que não me ficava útil dar cara amena, mostras de temeroso. Eu não tinha arma ao alcance. Tivesse, também, não adiantava. Com um pingo no i, ele me dissolvia. O medo é a extrema ignorância em momento muito agudo. O medo O. O medo me miava. Convidei-o a desmontar, a entrar.

Disse de não, conquanto os costumes. Conservava-se de chapéu. Via-se que passara a descansar na sela — decerto relaxava o corpo para dar-se mais à ingente tarefa de pensar. Perguntei: respondeu-me que não estava doente, nem vindo à receita ou consulta. Sua voz se espaçava, querendo-se calma; a fala de gente de mais longe, talvez são-franciscano. Sei desse tipo de valentão que nada alardeia, sem farroma. Mas avessado, estranhão, perverso brusco, podendo desfechar com algo, de repente, por um és-não-és. Muito de macio, mentalmente, comecei a me organizar. Ele falou:
"Eu vim preguntar a vosmecê uma opinião sua explicada..."
Carregara a celha. Causava outra inquietude, sua farrusca, a catadura de canibal. Desfranziu-se, porém, quase que sorriu. Daí, desceu do cavalo; maneiro, imprevisto. Se por se cumprir do maior valor de melhores modos; por esperteza? Reteve no pulso a ponta do cabresto, o alazão era para paz. O chapéu sempre na cabeça. Um alarve. Mais os ínvios olhos. E ele era para muito. Seria de ver-se: estava em armas — e de armas alimpadas. Dava para se sentir o peso da de fogo, no cinturão, que usado baixo, para ela estar-se já ao nível justo, ademão, tanto que ele se persistia de braço direito pendido, pronto meneável. Sendo a sela, de notar-se, uma jereba papuda urucuiana, pouco de se achar, na região, pelo menos de tão boa feitura. Tudo de gente brava. Aquele propunha sangue, em suas tenções. Pequeno, mas duro, grossudo, todo em tronco de árvore. Sua máxima violência podia ser para cada momento. Tivesse aceitado de entrar e um café, calmava-me. Assim, porém, banda de fora, sem a-graças de hóspede nem surdez de paredes, tinha para um se inquietar, sem medida e sem certeza.

— "Vosmecê é que não me conhece. Damázio, dos Siqueiras... Estou vindo da Serra..."

Sobressalto. Damázio, quem dele não ouvira? O feroz de estórias de léguas, com dezenas de carregadas mortes, homem perigosíssimo. Constando também, se verdade, que de para uns anos ele se serenara — evitava o de evitar. Fie-se, porém, quem, em tais tréguas de pantera? Ali, antenasal, de mim a palmo! Continuava:

— "Saiba vosmecê que, na Serra, por o ultimamente, se compareceu um moço do Governo, rapaz meio estrondoso... Saiba que estou com ele à revelia... Cá eu não quero questão com o Governo, não estou em saúde nem idade... O rapaz, muitos acham que ele é de seu tanto esmiolado..."
Com arranco, calou-se. Como arrependido de ter começado assim, de evidente. Contra que aí estava com o fígado em más margens; pensava, pensava. Cabismeditado. Do que, se resolveu. Levantou as feições. Se é que se riu: aquela crueldade de dentes. Encarar, não me encarava, só se fito à meia esguelha. Latejava-lhe um orgulho indeciso. Redigiu seu monologar.
O que frouxo falava: de outras, diversas pessoas e coisas, da Serra, do São Ão, travados assuntos, inseqüentes, como dificultação. A conversa era para teias de aranha. Eu tinha de entender-lhe as mínimas entonações, seguir seus propósitos e silêncios. Assim no fechar-se com o jogo, sonso, no me iludir, ele enigmava: E, pá:
— "Vosmecê agora me faça a boa obra de querer me ensinar o que é mesmo que é: fasmisgerado... faz-me-gerado... falmisgeraldo... familhas-gerado...?
Disse, de golpe, trazia entre dentes aquela frase. Soara com riso seco. Mas, o gesto, que se seguiu, imperava-se de toda a rudez primitiva, de sua presença dilatada. Detinha minha resposta, não queria que eu a desse de imediato. E já aí outro susto vertiginoso suspendia-me: alguém podia ter feito intriga, invencionice de atribuir-me a palavra de ofensa àquele homem; que muito, pois, que aqui ele se famanasse, vindo para exigir-me, rosto a rosto, o fatal, a vexatória satisfação?

— "Saiba vosmecê que saí ind'hoje da Serra, que vim, sem parar, essas seis léguas, expresso direto pra mor de lhe preguntar a pregunta, pelo claro..."

Se sério, se era. Transiu-se-me.

— "Lá, e por estes meios de caminho, tem nenhum ninguém ciente, nem têm o legítimo — o livro que aprende as palavras... É gente pra informação torta, por se fingirem de menos ignorâncias... Só se o padre, no São Ão, capaz, mas com padres não me dou: eles logo engambelam... A bem. Agora, se me faz mercê, vosmecê me fale, no pau da peroba, no aperfeiçoado: o que é que é, o que já lhe perguntei?"
Se simples. Se digo. Transfoi-se-me. Esses trizes:

Famigerado?
— "Sim senhor..." — e, alto, repetiu, vezes, o termo, enfim nos vermelhões da raiva, sua voz fora de foco. E já me olhava, interpelador, intimativo — apertava-me. Tinha eu que descobrir a cara. — Famigerado? Habitei preâmbulos. Bem que eu me carecia noutro ínterim, em indúcias. Como por socorro, espiei os três outros, em seus cavalos, intugidos até então, mumumudos. Mas, Damázio:
— "Vosmecê declare. Estes aí são de nada não. São da Serra. Só vieram comigo, pra testemunho..."

Só tinha de desentalar-me. O homem queria estrito o caroço: o verivérbio.
Famigerado é inóxio, é "célebre", "notório", "notável"...

— "Vosmecê mal não veja em minha grossaria no não entender. Mais me diga: é desaforado? É caçoável? É de arrenegar? Farsância? Nome de ofensa?"
— Vilta nenhuma, nenhum doesto. São expressões neutras, de outros usos...
— "Pois... e o que é que é, em fala de pobre, linguagem de em dia-de-semana?"
Famigerado? Bem. É: "importante", que merece louvor, respeito...
— "Vosmecê agarante, pra a paz das mães, mão na Escritura?"

Se certo! Era para se empenhar a barba. Do que o diabo, então eu sincero disse:
— Olhe: eu, como o sr. me vê, com vantagens, hum, o que eu queria uma hora destas era ser famigerado — bem famigerado, o mais que pudesse!...
— "Ah, bem!..." — soltou, exultante.

Saltando na sela, ele se levantou de molas. Subiu em si, desagravava-se, num desafogaréu. Sorriu-se, outro. Satisfez aqueles três: — "Vocês podem ir, compadres. Vocês escutaram bem a boa descrição..." — e eles prestes se partiram. Só aí se chegou, beirando-me a janela, aceitava um copo d'água. Disse: — "Não há como que as grandezas machas duma pessoa instruída!" Seja que de novo, por um mero, se torvava? Disse: — "Sei lá, às vezes o melhor mesmo, pra esse moço do Governo, era ir-se embora, sei não..." Mas mais sorriu, apagara-se-lhe a inquietação. Disse: — "A gente tem cada cisma de dúvida boba, dessas desconfianças... Só pra azedar a mandioca..." Agradeceu, quis me apertar a mão. Outra vez, aceitaria de entrar em minha casa. Oh, pois. Esporou, foi-se, o alazão, não pensava no que o trouxera, tese para alto rir, e mais, o famoso assunto.

Texto extraído do livro "Primeiras Estórias".

quarta-feira, setembro 02, 2009

Referências Bibliográficas
- Curso de 2009 -
  • Castelo Branco, Guilherme, Olhar e o amor – A Ontologia de Lacan, Rio de Janeiro: Nau Ed., 1995.


Capítulo 3 – “A coisa e o desejo”

  • Derrida, Jacques, [2002] A Escritura e a Diferença, São Paulo: Ed. Perspectiva.

- “Freud e a cena da escritura”

  • Garcia-Roza, Luiz Alfredo. [1991] Introdução à Metapsicologia Freudiana 2, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

- Capítulo 3 – Impressão, Traço e Texto
- Capítulo 8 – O Desejo

  • Kaufmann, Pierre. [1996]. Dicionário Enciclopédico de Psicanálise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

  • Lacan, Jacques. [2005]. O Seminário livro 10, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.

- Capítulo 8 – A causa do desejo
  • Miller, Jacques-Alain. [1997] Lacan Elucidado: palestras no Brasil, Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.
- Capítulo I - O mal-entendido
  • Neri, Regina. [2005] A psicanálise e o feminino: um horizonte da modernidade, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira.
- Capítulo 1 - Da invenção da Razão à Crise da Razão.

Novaes, Adauto. [1990]. O Desejo, São Paulo: Companhia das Letras.

- “O Desejo da Realidade” – Maria Rita Kehl

  • Rudinesco, Elisabeth,[1994] Jacques Lacan – Esboço de uma vida, história de um sistema de pensamento, São Paulo: Companhia das Letras.

- Capítulo 3: A Escola da Filosofia – Em torno de Alexandre Koyré
  • Safatle, Vladimir [2006] A paixão do Negativo - Lacan e a Dialética, São Paulo: Editora UNESP.
- Capítulo 2 - A transcendência negativa do sujeito
  • Safatle, Vladimir [2007] Lacan - São Paulo: Publifolha.

obs: No transcorrer do Curso iremos acrescentando novas referências.

  • O grupo de estudo de Fenomenologia é coordenado
por Elizia Cristina Ferreira.

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quinta-feira, agosto 27, 2009





CONVITE

Grupo de Estudos: "A fenomenologia da percepção"

Horário: 14H00 às 16H00

Dia: Quinta Feira

Local: NIM - Núcleo de Investigações Metafísicas

(sala 207 - prédio novo CFH)

  • Serão fornecidos certificados para

os participantes.

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quinta-feira, agosto 20, 2009



  • Primeira Aula
  • 18 de agosto de 2009


Neste semestre começamos o quarto curso vinculado ao Grupo de Estudo de Arte, Filosofia e Psicanálise. A proposta desse grupo, desde o início do projeto, é abrir um diálogo entre este saber – a filosofia –, e os dois processos de criação, ou melhor, de invenção (pois, inventar é dar uma nova forma a algo que já existe), que são o trabalho do artista e o trabalho do psicanalista.
Relaciono o trabalho do psicanalista ao trabalho do artista, por acreditar que o que está em jogo no divã, se aproxima muito mais do procedimento de invenção de um saber, do que de um procedimento epistemológico. Podemos dizer: Assim como Marcel Duchamp, inventou um vaso sanitário como objeto de arte; em uma análise, inventamos um nome para objeto a. Essa nomeação vai gerar uma série de efeitos sobre a forma do gozo e no modo de operar o desejo de um sujeito.


Sobre o curso desse semestre, eu gostaria de iniciar apontando três intenções: Em primeiro lugar, esse curso dá continuidade ao do ano passado - Sujeito, Desejo e Discurso. No curso de 2008, nos propomos a falar do sujeito, do desejo e do discurso a partir do texto de Lacan, Subversão do Sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano, de 1960. Quem fez o curso sabe que trabalhamos bastante a noção de sujeito, e passamos muito rápido pela noção do desejo e do discurso. Então, nesse semestre, resolvemos voltar ao tema do desejo, sob outra perspectiva.

Em segundo lugar, demos um nome para esse curso na forma de questão: "O que causa o teu desejo?". Já está posto nessa nomeação, um modo de apreender o desejo na psicanálise lacaniana. O desejo, diz Lacan, é sempre uma questão, uma incógnita. Uma primeira leitura, dessa proposição lacaniana sobre o desejo, pode ser compreendida de uma maneira bastante simples. Por exemplo, se vamos para um texto, para um curso, para um projeto de mestrado ou doutorado sem uma questão, não vamos muito longe. Lacan diz assim: Se vamos para um texto com amor, ficamos embevecidos, extasiados, arrebatados, colados a ele; não aprendemos nada. Se vamos com desejo, nós o interrogamos, o esburacamos, percebemos seus furos, as pontas que não se amaram, provocamos e somos provocados por ele. Aí sim, começamos a aprender algo.

Essa é uma direção para pensar a importância do desejo do analista. Se o analista vai escutar o texto, a narrativa do analisando com amor; ele corre o risco de ir pela via da compaixão, da ajuda, do terapêutico. O que, no mínimo, é um risco ético. Já, se a escuta é sustentada pelo desejo ela vai provocar trabalho.
E, finalmente, a terceira intenção é demonstrar, através do significante causa, o que caracteriza e diferencia de outros saberes, a noção de desejo em Lacan. Essa construção do objeto como causa de desejo Lacan desenvolve no capítulo VIII, intitulado “A causa do desejo”, do Seminário X – a angústia, de 1962-63. Antes desse Seminário, a leitura lacaniana do desejo seguiu a trilha do saber estabelecido. No primeiro momento do seu ensino, Lacan se apropria da noção de desejo de Freud. Num segundo momento, sofre a influência da teoria do desejo de Hegel, através da leitura de Alexandre Kojève. No terceiro momento, o Seminário da ética, foi buscar na teoria de Kant as ferramentas que permitiram a construção da ética do desejo. E finalmente, no Seminário X, quando se propôs a pensar a angustia, já tinha construído a noção de objeto a, que lhe permitiu dar uma reviravolta, um novo passo de sentido na relação entre desejo e objeto.

Conforme o programa, nesse curso nossa proposta é percorrer esses vários momentos da noção de desejo no ensino de Lacan. Só não iremos nos debruçar sobre o Seminário VII – a ética. Não situei esse Seminário em nosso programa, porque, neste Seminário, Lacan associa a noção de desejo com as questões da ética; e essa articulação merece muito mais tempo de estudo. Portanto, falaremos dele quem sabe, no próximo ano.

Podemos dizer que para a clínica psicanalítica o desejo é um conceito fundamental. A proposta de trabalhar o gráfico do desejo, no ano passado, foi mostrar que naquele gráfico Lacan apresenta o percurso de uma análise. Podemos dizer, que se a clínica freudiana teve como foco o complexo de Édipo, a clínica lacaniana articula-se aos circuitos do desejo.

Mas, tratando-se do desejo, os caminhos nunca são curtos nem fáceis. Como posição subjetiva, é muito mais fácil o caminho da queixa: a queixa é coletiva. Como diz Jorge Forbes, os sindicatos estão aí para provar como é fácil nos constituirmos em grupo pela queixa. Outro caminho, que parece bem mais fácil do que o do desejo, é o da demanda. Veremos, no transcorrer do curso, que o neurótico toma com muita facilidade o desejo por demanda. Nós nos estafamos para responder as demandas dos outros, e nos estafamos também em criar demandas para os outros. Nossa ilusão primeira é que ao responder as demandas, estamos respondendo ao desejo. Pobre ilusão.

Por que damos tantas voltas em torno do desejo? Porque assumir a posição de sujeito desejante é, em primeiro lugar, parar de se queixar e assumir a responsabilidade pelas nossas escolhas. A ética da psicanálise proposta por Lacan no Seminário VII é: aja em conformidade com o teu desejo. Mas não se enganem, essa posição ética não tem nada de egocentrismo, individualismo ou de hedonismo. Desejo, para psicanálise, tem pouco haver com prazer.

Se fosse provocá-los com uma metáfora, eu diria que o desejo tem a cara do diabo. É Menfistófoles para Fausto de Goethe: o diabo cínico, de acordo com Peter Sloterdijk. É o diabo do conto O diabo enamorado, de Cazotte, de quem Lacan destaca a questão colocada no ápice de seu gráfico: “Que queres?”. São as sereias para Ulisses. É preciso tapar os ouvidos e se amarrar no mastro, para não ser atraído por seu canto.

Essa é uma boa via para começar a compreender as dificuldades de agir em conformidade com o seu desejo. Homero nos presenteia com duas grandes figuras que não cedem de seu desejo: Ulisses e Aquiles.

Se olharmos para Ulisses como uma figura civilizatória, podemos inferir que o que causa o desejo de Ulisses é a civilidade. Para sorte de Penélope, que acaba sendo tomada como representação desse objeto causa. Então, podemos dizer que o objeto do desejo de Ulisses é Penélope, porque nela se inscreve a causa de seu desejo.

Sabemos que Penélope ocupa com maestria esse lugar. Ela é a esposa fiel que espera, pacientemente, por longos anos, o regresso de seu marido. Enquanto espera se ocupa com o bordado da mortalha do seu pai, para ludibriar as expectativas de seus pretendentes. Durante o dia borda, a noite desmancha o bordado, para no dia seguinte novamente iniciá-lo. Conforme alguns comentadores da Odisséia, durante esses longos anos seu pai permanece insepulto.

Ulisses é o herói da civilidade. Por isso mesmo, um grande orador. Conhece toda a sorte de ardis e planos astutos. Representa a centralização do poder – defensor ferrenho de Agamenom na Ilíada -, a disciplina, a ordem e a ação conjunta.

Durante todo o longo período da Odisséia foi tentado pelo amor de mulheres poderosas e belas. Verdadeiras deusas tentaram conquistá-lo. Circe e Calipso chegaram a levá-lo para a cama. Calipso lhe ofereceu a imortalidade, uma ilha paradisíaca e o seu amor eterno, dádiva irrecusável para qualquer ser humano. Mas nenhum desses dons foi capaz de tirar Ulisses de sua posição desejante. Os circuitos do seu desejo inscrevem uma outra cartografia: Voltar para casa, reassumir o trono de Ítaca e o lugar de esposo de Penélope, era, para nosso herói, não se deixar aprisionar por imagens narcísicas que quando absolutizadas elidem a posição desejante.

Por outro via, se constrói o desejo de Aquiles. O objeto causa de desejo de Aquiles é o heroísmo do guerreiro. Por essa via, podemos entender que quando teve que escolher entre uma vida longa e obscura e uma vida breve e heróica, não cedeu um milímetro sequer de agir conforme seu desejo.

Pobre Briseida. Aquiles a amou? Penso que sim. Sua ira, quando Agamenon roubou-lhe Briseida foi sincera. Sofreu, entrou num processo de luto, revoltou-se, desistiu de ir para o campo de batalha. Por certo tempo, chegamos acreditar que o amor tinha suplantando o desejo. Mas, a morte de Pátroclo reconfigura sua posição subjetiva. Tendo que escolher entre o amor de Briseida e a vingança pela morte do jovem amigo, Aquiles responde a partir de seu desejo: opta pela vingança. Volta para batalha, e morre como herói. Escreve-se na história – da Ilíada – como o guerreiro dos guerreiros.

Para concluir o texto e, no mesmo ato, dar início a esse Curso. Podemos supor, a partir da construção proposta por Lacan no Seminário X - que eleva o objeto a, enquanto causa de desejo, a categoria de fetiche -; que, para Ulisses, Penélope adquiriu o estatuto de objeto fetichista. Enquanto para Aquiles, o brilho fetichista vinha-lhe da espada.
Maria Holthausen

sábado, agosto 15, 2009

Libertinagem



Giordano Bruno:
“Meus pensamentos são meus cães. Eles me devoram.”



Diderot:
“Meus pensamentos são minhas prostitutas. Eu os deixo livre para seguir a primeira idéia.”



Jacques-Alain Miller:

O que é libertinagem?

É gozar, sem dúvida, mas gozar sem ser escravo do seu gozo. É, pelo contrário, ser dono do seu gozo. Trata-se de amar sua pulsão na indiferença do objeto, uma ou outra. É essencialmente não desposar nenhum pensamento, mas extrair de cada um uma satisfação que não aprisiona.


sexta-feira, agosto 07, 2009

CURSO PSICANÁLISE


O que causa o teu desejo?


O desejo na clínica lacaniana
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Sabemos que a natureza última do desejo é da categoria do impossível, mas, sabemos também, que a nossa experiência cotidiana como sujeitos desejantes não acontece nesse nível. O lugar dos objetos do desejo é o campo das representações da realidade e dos objetos ditos reais. Nesse campo, não falamos o desejo, mas do desejo. Na vida cotidiana caminhamos em direção a objetos secundários que aparecem para a consciência como objetos possíveis cujo alcance depende pelo menos em parte de nossa ação voluntária, consciente.

Em Freud, a realidade e seu Princípio só se introduzem no campo do desejo a partir do fracasso da satisfação alucinatória através da qual o psiquismo da criança tenta contentar as demandas imediatistas e onipresentes do Princípio do Prazer. O fracasso, parcial, do Princípio do Prazer inaugura a um só tempo três instâncias para a psique: o tempo, a realidade e o sujeito. O sujeito, visto aqui, como uma instância psíquica que se diferencia do todo ao qual se achava unido imaginariamente e portador de um desejo, já que no espaço do Princípio do Prazer não se pode falar exatamente em desejo por causa da vinculação imediata entre a necessidade e a satisfação alucinatória. No mínimo, não se pode falar de permanência do desejo antes do fracasso do Princípio do Prazer. É a partir desse fracasso que o psiquismo desenvolve recursos para fazer a mediação necessária entre a pulsão e a satisfação parcial da pulsão: o que Freud chamou de Princípio de Realidade.

É só a partir daí que podemos dizer que todo sujeito é sujeito de um desejo, ou que, todo sujeito é sujeito porque é desejante. Já que sujeito e desejo são paridos desde o mesmo evento; o fracasso do Princípio do Prazer. Primeira experiência de corte na unidade imaginária mãe-criança, ou mundo-criança, ou, ainda, na unidade imaginária entre a necessidade e sua imediata satisfação.

Uma conseqüência da interpretação lacaniana sobre o estatuto da linguagem e de sua forma de ser no inconsciente é a reformulação da questão da realidade. A articulação lacaniana das relações entre princípio do prazer, princípio de realidade e pulsão de morte, põe em jogo a noção de realidade freudiana. E, redimensiona as operações do desejo e o lugar do analista na clínica.

Esse curso tem por objetivo perseguir os caminhos teóricos e as conseqüências clínicas desses vários momentos da noção de desejo no ensino de Lacan.


Programa:



2. A leitura lacaniana do desejo hegeliano.

3. A lei institui o desejo.
(A influência de Santo Agostinho na leitura lacaniana do desejo)

4. O objeto a como causa de desejo.
(Seminário X – Cap. VIII)

5. Sinthoma: saber fazer com.
(As operações do desejo na segunda clínica lacaniana)


Cronograma:


Dia: Terça Feira
Horário: 16H30 as 18H00
Sala: 317 - CFH
Local: Faculdade de Filosofia – UFSC

Ministrante: Maria Leite

Data: 18 de agosto a 27 de Outubro de 2009.
Inscrições: Na primeira aula.
Gratuito - aberto a comunidade
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Coordenação: Marcos José Muller-Granzotto
1. A noção de desejo na teoria freudiana
(A interpretação dos Sonhos)

quarta-feira, agosto 05, 2009

CURSO





Curso de História da Arte:


Introdução ao Pensamento Plástico




Ministrante: MSc. Ligia Czesnat
Local: Museu Victor Meirelles
Número de aulas: 4 aulas de 2:30 hs.
Início: 10/08/09
Horário: 18H30 as 21H00






Ementa: Analisar conceitos importantes para a compreensão do pensamento plástico, decorrentes dos conflitos entre a percepção verbal e a invenção plástica. Entendendo que a obra de arte pictórica fala por si, e, portanto, esta fronteira porosa será enfrentada a partir de conceitos da própria pintura, além de imagens anacronicamente extraídas da História da Arte, buscando uma interlocução entre o visível-visual e o visível-dizível.

1ª aula: Pintura como Catástrofe.
Com a utilização de um conceito instrumental deleuziano de catástrofe, procurar-se introduzir outra noção sobre a criação plástica, a partir da formulação de conceitos relacionados com a pintura em momentos diferentes da história da arte.

2ª aula: Pintura Narrativa X Pintura Figural.
Usando o conceito de feito pictórico, compreende-se que o assunto da pintura não é falar de coisas visíveis, mais buscar perceber que a pintura é transfiguração ao tornar visível, coisas invisíveis.

3ª aula: Espaço Perceptível X A Vontade Artística.
Analisar sinteticamente as várias utilizações da noção de espaço e suas determinações como expressão da vontade plástica, entendendo que pintura é sempre produção de espaços e que são como senhas, das quais é possível extrair diferentes informações plásticas.

4ª aula: Passeio pelo acervo do Museu Victor Meirelles.
Instrumentalizados com os conceitos plásticos apreendidos nas aulas anteriores, procurar aplicá-los na prática, destacando algumas obras contidas no Museu; para tal será privilegiado a trajetória histórica da criação no Brasil da Academia de Belas-Artes no século XIX e seus desdobramentos no século XX.







JUDITH BUTLER E PSICANÁLISE

Conversando sobre psicanálise: entrevista com Judith Butler Patrícia Porchat Pereira da Silva Knudsen Univer...