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segunda-feira, julho 08, 2019

FÊNOMENOS PSICOSSOMÁTICOS




Fenômenos psicossomáticos: uma questão para a psicanálise


Entre as doenças ou manifestações patológicas que se apresentam no corpo e que por vezes demandam tratamento à clínica médica ou à clínica psicanalítica destacam-se os sintomas histéricos, a angústia e as doenças psicossomáticas. Em todas elas se encontra a característica comum de manifestação corporal apresentando disfunção ou perturbação das funções dos órgãos, porém sua abordagem pela psicanálise ou pela medicina será bastante distinta.



No domínio da ciência médica, o corpo é definido em sua dimensão biológica e a doença, como existência autônoma, é autenticada por uma lesão anatomoclínica (Abreu, 1992). É nessa perspectiva que na medicina se realizam o diagnóstico e o tratamento de doenças. Por sua vez, no campo psicanalítico, o corpo é definido não no plano biológico, mas a partir de sua organização pulsional, cujo limite ultrapassa o corpo como organismo, ou seja, o órgão tomando sentido e função em referência à linguagem (Valas, 1990). Em outros termos, a noção de corpo na psicanálise depende da estrutura de linguagem, na medida em que esta produz no humano outra dimensão para além do biológico, orgânico ou fisiológico – a pulsão e sua representação no inconsciente. Nesse plano é que se dá a investigação das doenças do corpo no domínio da psicanálise.



Se na perspectiva psicanalítica o corpo é do desejo e do gozo, os quais constituem o sujeito na sua construção histórica (e podem acarretar impasses que se manifestam em doenças corporais), na perspectiva médica, essa dimensão do corpo fica excluída. Lacan (1966) chega a considerar que esta relação da medicina com o corpo é uma falha epistemossomática, uma vez que nela o corpo é considerado como um sistema homeostático, em sua pura presença animal.



Desde a fundação da psicanálise até os dias atuais, os sintomas histéricos e a angústia parecem estar bem estabelecidos, clínica e conceitualmente, ou seja, suas formas de expressão, seus mecanismos de formação e sua causa, bem como as condições de possibilidade de tratamento. São doenças que têm inscrição no campo de linguagem, sendo, por isso, legíveis a partir do inconsciente. Já as doenças psicossomáticas, embora a investigação de sua causa também tenha antigas origens, continuam sendo um campo de inúmeras incógnitas, uma vez que se colocam no limite das elaborações teóricas e metodológicas tanto da medicina quanto da psicanálise, impondo problemas e paradoxos em seu entendimento e tratamento.



Entre psicanalistas, como veremos, existem muitas divergências a respeito dessas afecções, não só conceituais, mas, sobretudo em relação às formas de intervenção possíveis na clínica. Na psicanálise de orientação lacaniana verifica-se que a doença psicossomática é um enigmático fenômeno clínico que, diferentemente do sintoma e da angústia, obedece apenas à alternância entre presença e ausência de lesões no corpo, nos órgãos, o que não exclui sua relação com a linguagem, porém não a coloca inteiramente nela. Nesta abordagem, uma das incógnitas que a doença psicossomática traz diz respeito à função de escrito no corpo, que Lacan (1975/1998) reconhece nessas afecções, sobretudo porque se trata de algo escrito que não se sabe ler, isto é, como se algo estivesse escrito no corpo, mas fosse ilegível pelo inconsciente.



Neste artigo, nos propomos a situar como essa hipótese de trabalho - que ainda precisa ser demonstrada -, seu valor e função clínica, se inscrevem no amplo campo de estudos das doenças (afecções ou fenômenos, a querela já inicia na denominação) psicossomáticas. Limitaremos nosso estudo nesse artigo, para fins de concisão e precisão da questão, à sua abordagem na psicanálise.



Sintomas histéricos e angústia

Se, desde Freud, sabe-se da importância das distinções diagnósticas e causais dos sintomas histéricos e da angústia para possibilitar um tratamento psicanalítico, diferenciando-os entre si e, ainda, dos quadros orgânicos, é fundamental não só relembrar, como também sublinhar seu valor na investigação freudiana: a angústia vivida no corpo, juntamente com os sintomas corporais da histeria, consistem em modalidades do fenômeno clínico que permitiram a Freud um acesso original e uma concepção inovadora do que é o corpo e do que é a mente na formulação do conceito de pulsão e de inconsciente (Dal-Cól, 2002).



Em sua investigação, Freud não atribui o lugar da causa dessas doenças nem ao corpo biológico, nem à mente consciente. O mental, no discurso freudiano, não é a consciência nem o cerebral, mas o inconsciente constituído por uma trama ideativa que conta a história dos investimentos pulsionais. Inconsciente esse que, conforme Lacan, é congruente à estrutura da linguagem. Do mesmo modo, o corpo, para além do somático ou orgânico que o constitui, é considerado na sua dimensão pulsional. Nesse sentido, a pulsão tornou-se o conceito-chave que expõe como o soma se implica ou é implicado na psique. Nos termos do autor:



[...] conceito situado na fronteira entre o mental e o somático, como o representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam a mente, como uma medida de exigência feita à mente no sentido de trabalhar em consequência de sua ligação com o corpo. (Freud, 1915/1987, p. 142)



Se, nesses casos de sintomas e angústia, a cada tratamento, renova-se a possibilidade de acesso ao inconsciente do sujeito em questão em suas relações ao desejo e à pulsão, isto é, sua forma de satisfação ou gozo, uma vez que são legíveis, não se pode dizer o mesmo com relação à doença psicossomática, como veremos no decorrer deste trabalho.



Retomando as distinções entre sintomas histéricos e angústia no campo psicanalítico, na perspectiva clínica-descritiva, verifica-se que a angústia manifesta-se por distúrbios de determinadas funções corporais, tais como distúrbios da atividade cardíaca (palpitações, arritmia ou taquicardia) e respiratória (várias formas de dispneia nervosa, acessos semelhando a asma e similares), acessos de suor, fome devoradora, tremores, calafrios, diarreias, distúrbios esses que nem sempre vêm acompanhados de angústia reconhecível. Outros distúrbios corporais de angústia, como acessos de vertigem locomotora e acessos de parestesias (sensações anormais; alucinações sensoriais) raramente ocorrem sem angústia ou sensação semelhante de mal-estar (Freud, 1895/1987).



Nos sintomas histéricos, observa-se sua expressão sintomática sob a forma de dores, paralisias ou alterações de sensibilidade, inexplicáveis pelo modelo neuroanatômico. Na histeria, assim como na angústia, se uma função corporal é atingida, o organismo fica intacto. No entanto, na angústia, pode ainda produzir danos lesionais secundários.



Na perspectiva clínica-conceitual freudiana, o sintoma histérico é um símbolo que tem sua representação no inconsciente; obedece às leis de linguagem sendo estruturada por elas, juntamente com um modo de satisfação pulsional. Tem, pois, inscrição (escrita) no corpo, sendo legível a partir da consideração do inconsciente. Já a angústia não é um símbolo, não é feita de representações, embora indique representações. É um afeto especial (quantum libidinal) derivado da pulsão, seja pelo recalque primário, angústia real (Real Angst) e automática, ou pelo recalque secundário, angústia sinal. A angústia sinaliza a emergência do desejo inconsciente, assim como o “movimento pulsional” em busca de satisfação, ambos tomados pelo eu como um perigo (de dano narcísico) (Dal- Cól, 2005).



Se Freud deixa um legado acerca dos sintomas histéricos e da angústia, não produz nenhuma pesquisa direta, ao menos nesses termos, sobre as doenças psicossomáticas. Entretanto, assim como pensamos (Dal-Cól, 2002), alguns pesquisadores como Fonseca (2007) e Nicolau (2008) consideram que dos estudos de Freud (1895/1987) sobre as neuroses atuais – neurose de angústia e neurastenia – resultaram formulações que se aproximam do que atualmente se denomina psicossomática. O fenômeno psicossomático (FPS) estaria próximo das neuroses atuais estudadas por Freud porque não estaria em jogo uma satisfação substitutiva de uma fantasia de conteúdo sexual como na histeria, mas a difícil elaboração psíquica da excitação somática, uma vez que essa não encontra um fiador psíquico para a excitação derivada do corpo.



Outros pesquisadores como Guir & Valas (1989) concordam com essa observação, incluindo aí os estudos de Freud sobre as neuroses traumáticas, embora não exponham seus motivos. Uma pista para pensar essa questão é dada por Soler (2009), quando diz que as neuroses traumáticas – de guerra, dos acidentes – são caracterizadas pelo esquecimento impossível das cenas traumáticas, que voltam como imagens vivas (alucinatórias), por não serem inscritas no discurso da memória inconsciente.



Apesar das aproximações referidas das afecções psicossomáticas com as neuroses de angústia e as neuroses traumáticas, elas se diferem em alguns aspectos. Com relação à primeira, entendemos que a presença de lesão histologicamente verificada é uma característica da afecção dita psicossomática que não é encontrada na maioria dos estados de angústia, a não ser como dano secundário. Em relação às neuroses traumáticas, é nossa hipótese que as afecções psicossomáticas podem também caracterizar um “esquecimento impossível” e, talvez, retornar como marcas, traços vivos, inscritos na carne.



Na sequência, veremos brevemente em que panorama estão inseridas as pesquisas atuais acerca das doenças psicossomáticas no campo psicanalítico. Observamos, ainda, que ordem de doenças podem ser caracterizadas como psicossomáticas, de que modo se apresentam suas manifestações e com quais elementos conceituais podemos contar atualmente na psicanálise para a sua compreensão.



As afecções psicossomáticas

Assim como os sintomas histéricos e a angústia, também o fenômeno clínico nomeado psicossomático apresenta-se sob a forma de expressão corporal, porém, diferentemente dos dois primeiros, é caracterizado por uma lesão no órgão. Algumas pesquisas em psicanálise pós-freudiana de orientação lacaniana, realizadas por Jean Guir (1992), descrevem diversas lesões psicossomáticas, tais como: manifestações alérgicas; glaucoma; fenômenos psicossomáticos cutâneos (psoríase e vitiligo); eczemas; asma, enxaquecas; gota; herpes; retocolite úlcero- hemorrágica; cloasma (máscara da gravidez), peladas ou alopecias, edema de Quincke, exoftalmia da doença de Basedow; algumas doenças cancerosas, etc.. Pesquisas em outros campos teóricos metodológicos, por exemplo, em psiconeuroimunologia, consideram também afecções psicossomáticas o lúpus eritematoso, a esclerose sistêmica progressiva, o hipertireodismo, a miastenia grave, a esclerose múltipla, as síndromes de Reiter e de Sjögren e a colite ulcerativa (Ávila, 2002).



O termo “psicossomática”, segundo Abreu (1992), foi criado em 1818 pelo médico clínico e psiquiatra Heinroth para expressar “a influência das paixões sexuais sobre a tuberculose, a epilepsia e o câncer”, ideia que não se desenvolveu na medicina. Sendo o século 19 o século das descobertas físico-químicas e bacteriológicas, tal perspectiva encaminhou os médicos a dedicarem-se a essas doenças como existência autônoma, autenticada por uma lesão anatomoclínica, tratando-se de pesquisar uma etiologia específica e um agente patogênico (Abreu, 1992).



Desde então, as doenças psicossomáticas vêm sendo pesquisadas pela medicina a partir dessa referência anatomoclínica. Porém, dentro do campo médico causam problemas, uma vez que, conforme Guir (1992), sua etiopatogenia é imprecisa e raramente existe um tratamento específico; do ponto de vista histológico, as lesões são múltiplas, sendo algumas dessas afecções relacionadas a uma resposta imunológica.



Assim como Guir, a pesquisadora Sagna (1996) evoca o caráter orgânico da doença psicossomática pela presença invariável de lesão ou dano histológico, que, entretanto, não têm as mesmas características das lesões de causa puramente orgânica, tal como responder aos critérios exigidos para a constituição de uma doença – causa, sintoma, tratamento, prognóstico. São, assim, situadas à margem do saber médico. Dentre as características das lesões psicossomáticas encontram-se sintomas de gradação variável, evolução imprevisível, podendo se agravar com complicações que colocam em perigo a vida do sujeito, ou simplesmente desaparecer. O decorrer da doença se caracteriza pela presença de surtos evolutivos, fazendo da vida do paciente uma alternância entre o aparecimento e o desaparecimento da lesão (Sagna, 1996). Além dos surtos sucessivos – repetição em impulsões sucessivas -, suas manifestações podem também se mobilizar, conjugar-se, intercambiar-se, alternar-se (Lacan, 1955-1956/1988).



Abreu (1992) considera que outra forma de abordagem dessas doenças, a medicina psicossomática, irá se apropriar da concepção da psicanálise das determinações inconscientes, e entenderá que os conflitos rejeitados pelo campo da consciência explicam o modo de intervenção da psique no soma. Acrescentamos que com isso, a medicina psicossomática apoia-se na ideia da dualidade corpo/mente, demonstrando que compreende a mente como um duplo do corpo.



Se Heinroth foi o criador do termo psicossomática, coube a George Groddeck, médico contemporâneo de Freud, inaugurar a pesquisa psicossomática moderna e a possibilidade da aplicação da psicanálise à compreensão do processo do adoecer e de suas significações (Ávila, 2002). Em uma primeira carta a Freud, Groddeck apresenta um resumo do seu pensamento, indicando que ao aplicar a psicanálise aos “males orgânicos” os compreendia como expressão de um conflito simbólico, estendendo a todas as doenças a interpretação conferida aos sintomas neuróticos. Conforme Groddeck (citado por Ávila, 2002):



A psicanálise, se eu bem compreendo, trabalha no momento com a noção de neurose. Presumo, todavia, que, para você também, atrás dessa palavra se encontre a vida humana inteira. Em todo caso, assim o é para mim. O id, que se mantém em misteriosa conexão com a sexualidade, o Eros, ou qualquer outro nome que se lhe queira dar, forma tanto o nariz como a mão do ser humano, assim como seus pensamentos e seus sentimentos. Manifesta-se tanto na pneumonia ou no câncer como na neurose obsessiva ou na histeria. E do mesmo modo que a atividade do id, aparecendo como histeria ou neurose, é objeto de tratamento psicanalítico, assim também o será a doença cardíaca ou o câncer. Em essência não existem diferenças que possam nos levar a aplicar aqui, e não lá, a psicanálise. (Groddeck citado por Ávila, 2002, p. 11)



Circunscrevendo nesse ponto as pesquisas sobre a doença psicossomática ao campo psicanalítico, veremos, a seguir, que mesmo nesse campo, posições diversas serão adotadas em relação a ela, tanto conceituais quanto na forma de tratamento, constituindo tanto um problema, quanto uma incógnita.



A psicossomática na psicanálise: principais correntes

O eixo condutor dessas elaborações será a distinção feita por Valas (1990) entre três grandes correntes dentro da pesquisa das doenças psicossomáticas na psicanálise:



1) A corrente que concebe a afecção psicossomática como detentora de um sentido, tal como o sintoma neurótico, o que significa atribuí-lo a uma causalidade psíquica (inconsciente), cujo representante inicial foi George Groddeck. Para o autor, todas as doenças orgânicas se originariam de uma fonte psíquica, mais especificamente de um desejo inconsciente, por exemplo, um câncer do colo do útero seria a expressão de um desejo de um filho. Já Franz Alexander introduz a noção de neurose vegetativa, segundo a qual haveria um efeito direto dos afetos sobre o corpo, sendo a doença uma consequência de impulsões não satisfeitas, desviadas e reprimidas (Valas, 1990). Entende-se aqui que o “desejo fundamental reprimido” durante muito tempo pode agir sobre o sistema endócrino e vegetativo e acarretar lesões corporais. Alexander fala, por exemplo, que uma pessoa que sofre de úlcera do estômago poderia padecer de uma “sede de amor”, a qual remontaria à primeira infância. Outros autores afirmam ainda que existe um laço entre uma doença psicossomática e uma característica de personalidade, por exemplo, a asma atacaria pessoas com dificuldades na decisão de se casar.



Essa primeira corrente partiria do princípio de que os afetos podem ser recalcados. A energia liberada pelo recalque desses afetos acarretaria lesões no corpo. Entretanto, como sublinha Valas (1990), essa tese de que o afeto pode ser recalcado é contrária à letra do texto freudiano. Ele nota ainda que tais autores designam esse processo ocorrido na produção das doenças psicossomáticas pelo termo “conversão simbólica”, tomando-o como uma novidade, o que na realidade, é a própria definição de conversão histérica.




2) A segunda corrente teórica proposta por Valas (1990) é aquela para a qual os fenômenos psicossomáticos não têm sentido. Esta é a posição da Escola de Psicossomática da Sociedade Psicanalítica de Paris, cujos representantes principais são R. Held, Marty, Fain, M’Uzan e David. Para eles, os fenômenos psicossomáticos se ligam a uma carência das atividades de representação, sendo esses situados fora-de-sentido; não obstante, traduziriam um sentido, o que seria, segundo Valas (1990), um paradoxo no seu raciocínio. Haveria lesão corporal porque a ausência de representação faz a libido e a agressividade se confundirem, transformando-se em energia pulsional indiferenciada, submetendo o corpo ao impacto direto das forças pulsionais liberadas. Essas, privadas do veículo das representações, passam diretamente ao órgão, lesionando-o, pois o “instinto” (sic) de morte destacado do “instinto” (sic) de vida continuaria um trabalho de sapa (abertura de fossos subterrâneos; buraco escavado ao pé do muro para derrubá-lo) em profundidade sobre o corpo. Assim, conforme a Escola de Paris, o tratamento não consiste em encontrar um sentido para esses sintomas, mas atribuir-lhe um, construindo para esses pacientes uma fantasia, empregando-se, para isso, a sugestão, a explicação e até a reeducação (Valas, 1990).



3) A terceira corrente apresentada considera que os fenômenos psicossomáticos têm sentido próximo ao da conversão histérica, mas não “totalmente”. Seu expositor seria J. P. Valabrega, segundo o qual (Valas, 1990) o fantasma do doente é tomado em um sintoma que - diferente do fantasma do neurótico - está no corpo do sujeito sem que seja reconhecida por ele, como se a manifestação psicossomática fosse estranha à sua vida. Esses fantasmas se formariam num momento em que a relação simbólica com o meio não foi elaborada.



Para Valas (1990), Valabrega procurou evitar os impasses precedentes, encontrando uma saída média entre a posição que faz da manifestação orgânica a expressão simbólica de um conflito e a que a situaria fora de toda simbolização. Conforme aponta, a saída de Valabrega é estender a noção de conversão, entendendo que há uma conversão psicossomática, sem, no entanto, discerni- la. O tratamento proposto por Valabrega visa dar segurança ao doente tentando restituir o sentido de suas relações com o mundo.



Em sua análise crítica, Valas (1990) considera que a descrição clínica dos fenômenos psicossomáticos feita por essas correntes é, em conjunto, homogênea, e sua teoria a partir dos conceitos freudianos é confusa - todas elas admitindo a seu modo a noção de um sujeito psicossomático específico, entendido aqui como uma categoria nosográfica particular. Quanto ao tratamento, as três correntes concordam: esses doentes precisariam de uma terapêutica que buscasse reduzir a afecção pela interpretação, que vai da simples explicação à sugestão, sendo esses fenômenos qualificados de sintomas por todos, mesmo por aqueles que os situam fora de sentido.



Conforme se pode perceber, a intervenção da psicanálise neste campo de investigação não é suficiente para estabelecer um estatuto consistente da doença psicossomática, uma vez que também aí reina uma espécie de confusão e de desacordo que, no nosso entendimento, centraliza- se nos conceitos fundamentais da psicanálise desde Freud: desde a noção de inconsciente e pulsão e, por consequência, à conceituação de sintoma e à própria concepção de corpo. Qual seria então o alcance da psicanálise para as afecções psicossomáticas, que, com alguns indícios em Freud e de forma mais evidente a partir de Lacan, leva a crer que se trata de doenças “limites”, que parecem evocar o poder do real mais do que nas neuroses? Talvez porque, nas neuroses o real se amarre com o simbólico na estrutura do sintoma e no FPS não possamos falar de sintoma. É um fenômeno, um real desgarrado do simbólico.



Paralelamente às citadas correntes de pesquisa no campo psicanalítico, Jacques Lacan abre algumas perspectivas de abordagem de compreensão da afecção psicossomática. É essa perspectiva que nos orientará na questão do modelo conceitual próprio às doenças psicossomáticas na psicanálise, especialmente a diferença entre o sintoma e o fenômeno psicossomático, no que diz respeito à exigência de satisfação pulsional e seus caminhos de derivação em que parece se circunscrever a questão da escrita.




A doença psicossomática no campo lacaniano

A pesquisa sobre a doença psicossomática no campo lacaniano se origina por iniciativa de um de seus alunos – Jean Guir –, que faz um depoimento a esse respeito, juntamente com Patrick Valas, em uma entrevista a uma revista de psicanálise do Campo Freudiano no Brasil (Guir & Valas, 1989).



Guir trabalhou sobre os FPSs em duas versões, como ele o diz. A primeira, apoiada nas elaborações de Lacan no Seminário 11 (Lacan, 1964/1985), é a versão da holófrase1 que reduz o par significante ao S1 (ao Um), isto é, produz uma gelificação, uma colagem do significante que, com isso, perde seu estatuto significante tornando-se um sinal (palavras impostas, gozo imposto). Segundo o autor, na clínica, a metáfora da gelificação do significante se concretiza numa holófrase, encontrada num contexto particular no discurso analítico, como nas entrevistas preliminares ou na expressão de um sonho (Guir, 1990). São essas holófrases particulares - que se situam no mesmo nível do “umbigo dos sonhos”, do recalcamento originário - que incidem no corpo produzindo FPS (Guir & Valas, 1989).



Há casos, por exemplo, em que o sujeito começa a falar a propósito de suas lesões com um estilo proverbial – certos enunciados particulares -, isto é, sentenças que o guiam na vida como se nesse ponto ele não mais estivesse em uma relação dialética com o Outro. São enunciados tais como - “aquele que não trabalha, não suja jamais as mãos” -, enquanto apresenta um eczema nas mãos (Guir & Valas, 1989, p. 39). No caso clínico abordado por Sagna (1996, p. 61), o paciente dizia “a gente é besta”, concepção da existência homogênea a seu modo de vida: ele é açougueiro que retalha e escalpela coelhos, enquanto apresenta uma séria e importante psoríase, placas que advêm em surtos.



Assim, nessa vertente da relação do FPS com a estrutura de linguagem, segundo Guir e Valas (1989), haveria uma conjuntura particular, um conjunto estrutural particular, que comporia a história da lesão psicossomática. Considera ainda que a convergência de datas particulares possa ser um determinismo de linguagem (significante) do FPS na história do sujeito. Ou seja, datas específicas (por exemplo, aniversários, nascimentos) que compõem a história do sujeito funcionariam como significantes.



A segunda versão do trabalho de J. Guir sobre o FPS se apoia na asserção de Lacan (1975/1998), na Conferência de Genebra, sobre a necessidade de abordar o FPS a partir de seu gozo específico. Essa versão trata, então, de articular ao sujeito o gozo implicado no FPS. Guir liga o FPS ao segundo tempo do fantasma “uma criança é batida”, em que haveria esse gozo particular de ser batido pelo pai; um gozo de ordem masoquista, ligado ao sadismo original. Esse gozo masoquista é ao mesmo tempo imposto pelo pai, pois tem relação com a culpabilidade do gozo auto erótico (do corpo próprio) (Guir & Valas, 1989).




Para Valas (1990), os fenômenos psicossomáticos dão testemunho do fracasso da estruturação subjetiva, uma vez que, mesmo sendo ligados a efeitos de linguagem, conforme o observa Lacan (1964/1985, p. 215), estão fora da dialética do significante ou das leis de linguagem. O autor considera que nos FPSs tudo se passaria como se o sujeito sentisse a imposição sobre si das significações confusas do discurso do Outro que, à força de se repetir, causariam trauma e, no lugar do compromisso sintomático (que supõe a castração no campo do Outro), inscrever-se-iam as lesões corporais dos fenômenos psicossomáticos, fazendo curto-circuito no Outro. A asma em crianças, por exemplo, poderia ser engendrada pela perturbação de uma necessidade fundamental, tal como a necessidade alimentar, pelo desejo muito exigente da mãe. Entendemos que isso corresponde à indicação de Lacan (1954-1955/1991) no Seminário 2, conforme veremos adiante, que nos FPSs o investimento da libido se faz sobre o órgão próprio – investimentos intra orgânicos, auto eróticos – nos quais não se pode distinguir a fonte da pulsão de seu objeto. Para Valas (1990) essa proposição ficará como referência central a uma espécie de curto-circuito na montagem pulsional.



Valas (1990) considera ainda que a doença psicossomática não deve ser reduzida à lesão corporal apresentada pelo sujeito, mas à manifestação de um gozo no discurso que perturba pela insistência. É esse o elemento chave que distingue uma lesão psicossomática de uma lesão puramente orgânica na qual a presença do gozo não exerce este efeito durável e insistente sobre o discurso do sujeito.



Assim como Valas (1990), Miller (1990), apoiado nas elaborações de Lacan no Seminário 11, destaca que o FPS, diferentemente do sintoma analítico, não estaria inteiramente no campo da linguagem, mas sim em seu limite. Entende que, para situar esse limite, pode-se dizer que o FPS, de certo modo, contorna a estrutura de linguagem. O FPS seria um fenômeno do traumatismo, mal distinguido como evento histórico, biográfico, justamente porque não estaria transposto, metaforizado, pela estrutura de linguagem, mas pelo contrário, diretamente inscrito. Tal fenômeno não põe em questão o desejo do Outro, mas, sim, opera um contorno do Outro. O autor distingue então o FPS do sintoma, especialmente o histérico, em que essa relação ao Outro lhe é constitutiva. Para este autor, no campo psicanalítico lacaniano o que é psicossomático é chamado fenômeno para distingui-lo de sintoma que possui uma definição muito precisa: o sintoma tem estrutura de linguagem que supõe substituição (metáfora) e está aberta ao deslocamento retroativo.



O autor indica, tal como Lacan (1964/1985) o afirma, que o FPS estaria inscrito numa série em que se incluem a debilidade infantil e a psicose (paranoia), pois tais casos:



[...] se situam num nível em que o sujeito cessa de ser representado, e em que, de certo modo, falta a descontinuidade. São casos onde não estamos em presença de uma articulação significante, porém onde está em função a presença ou ausência de um significante unário, de um significante privilegiado - um S1, portanto, de certa forma, absoluto. (Miller, 1990, pp. 89-90)



Miller (1990, p. 90) observa a necessidade de qualificar esse S1 que está em questão nos FPSs, uma vez que esse conceito seria o pivô em torno do qual giramos para a compreensão de tais fenômenos. Para pensar a questão do S1 - significante único e não articulado -, o autor propõe uma série de conceitos de Lacan, entre os quais o traço unário. O traço unário, podemos acrescentar, mantém relação com a escrita dos FPSs, uma vez que, se o S1 porta o traço de gozo que se repete na série dos significantes (S2, S3, S4...), nos FPSs o traço de gozo não se repetiria (“embutiria”) em um significante retirado do Outro.



Assim como Miller, também Sagna (1996) sublinha a diferença entre sintoma analítico e fenômeno psicossomático: o FPS não é como o sintoma, mensagem cifrada, retorno do recalcado que pode ser objeto de uma queixa no discurso do paciente. O sintoma analítico, estruturado pelas leis de linguagem denominadas condensação e deslocamento por Freud e metáfora e metonímia por Lacan, tem a substituição como seu modo de formação necessário. Sua natureza é mudar de sentido para o sujeito, pela colocação em palavras, assim como pela interpretação, existindo, porém, no próprio sintoma uma satisfação que coloca obstáculo à sua mobilização.



Já a lesão psicossomática não obedece às leis da linguagem, não responde a uma estrutura metafórica, senão a uma alternância de presença e ausência (Sagna, 1996). Para Sagna (1996) o FPS se desenvolve ao lado da estrutura do sujeito, da qual ele não é o produto, mas também não é absolutamente sem ligação com ela. A autora acentua que há na doença psicossomática a dimensão de algo que se mostra – phainomenein, do grego phanómenon: aquilo que aparece.



As referências de Jacques Lacan

Lacan aborda a questão dos fenômenos psicossomáticos no decorrer de seu ensino no Seminário 2: o eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise (1954-1955/1991); no Seminário 3: as psicoses (1955-1956/1988); no Seminário 11: os quatros conceitos fundamentais da psicanálise (1964/1985); e na Conferência de Genebra sobre o sintoma (1975/1998). Nessas ocasiões faz alguns apontamentos relacionados com sua diferença dos sintomas, bem como uma interrogação sobre sua pertinência estrutural e o gozo implicado neles. Deixa preciosas observações clínicas e apontamentos conceituais das quais se valem, além desta autora, diversos autores, conforme vimos, para produzir suas pesquisas. Visamos, sobretudo, nesta nossa pesquisa, desdobrar e investigar as afirmações de Lacan (1975, p. 14) sobre o FPS como algo da ordem de uma escrita no corpo que não sabemos ler. Apresentaremos, assim, o panorama das elaborações de Lacan sobre o FPS desde o Seminário 2 até a Conferência de Genebra sobre o sintoma onde situa o FPS no registro da escrita.




No Seminário, livro 2, Lacan (1954-1955/1991, p. 127) situa, diríamos resumidamente, os fenômenos psicossomáticos como “reações psicossomáticas dos órgãos”. Estas reações estão fora do âmbito das construções neuróticas, uma vez que nelas não se trata de uma relação ao objeto, mas de algo que está no limite das elaborações conceituais da psicanálise, algo “em que se pensa sempre, de que se fala por vezes, e que propriamente falando não podemos apreender e que, no entanto está aí”. A partir da consideração do ternário estrutural – Simbólico, Imaginário e Real - Lacan considera que as relações psicossomáticas estão no nível do Real.



No ponto de elaboração que Lacan (1954-1955/1991, p. 128) está nesta época, o real é definido como “o que é sem fissura”; é neste nível, segundo o autor, que a distinção entre exterioridade e interioridade não tem nenhum sentido. Sublinha que o que ensina desde as formulações de Freud acerca das pulsões é que “este real, para apreendê-lo, não temos outros meios – em todos os planos, e não somente do conhecimento – a não ser por intermédio do simbólico”.



Lacan (1954-1955/1991, p. 129) diferencia essa premissa, da concepção da biologia, cuja “petição de princípio” consiste em considerar um Umwelt [fora] e um Innenwelt [dentro], o que implica na hipótese da adaptação preestabelecida, na noção de relações do ser vivo que se refletem com seu meio. Para ele, na psicanálise, a distinção entre os aparelhos que têm relação com o real e os aparelhos não relacionais se efetua entre o que está incluído na relação narcísica e o que não está; isto é, na juntura do imaginário e do real. Depreende-se que é nessa juntura que se situa o fenômeno psicossomático, mesmo nível do autoerotismo, “estado hipotético de auto encerramento que na teoria freudiana supõe-se ser o estado do sujeito logo no início”, no nível do próprio corpo.



No Seminário 3 (Lacan, 1955-1956/1988, p. 361), a propósito dos sintomas (sic) hipocondríacos em um caso de psicose, Lacan salienta que no fundo da relação psicótica pode-se ver alguma coisa como um fenômeno psicossomático, sendo estruturados de forma diferente das neuroses, em que há “uma impressão ou inscrição direta de uma característica, e mesmo, em certos casos, de um conflito, no que se pode chamar o quadro que apresenta o sujeito enquanto ser corpóreo”. O autor apresenta como exemplo um caso em que uma erupção dermatológica (diferentemente tanto de uma lesão puramente orgânica quanto de uma construção neurótica) pode se mobilizar em função de um aniversário. A expressão corporal se deu de modo direto, sem que uma interpretação pudesse marcar a correspondência com alguma coisa do passado do sujeito (Lacan, 1955-1956/1988).



No Seminário 11, no contexto das elaborações acerca dos quatro conceitos fundamentais da psicanálise, Lacan (1964/1985) articula como a linguagem aparelha o corpo. Elabora a constituição da estrutura pulsional e o nascimento do sujeito no campo do Outro. Nesse contexto, aborda o que chama de efeito psicossomático, diferenciando-o de uma produção subjetiva posto que não envolveria uma representação.



Lacan (1964/1985, pp. 193-194) irá deduzir uma topologia para apresentar a constituição do sujeito, na qual localiza dois campos – do sujeito e do Outro: “O Outro é o lugar em que se situa a cadeia do significante que comanda tudo que vai poder se presentificar do sujeito” – campo do vivo, onde o sujeito tem que aparecer e no qual se manifesta a pulsão. A pulsão, parcial, não representa a função de reprodução no psiquismo, só situa equivalentes atividade/passividade, não representando o ser macho ou ser fêmea. Essa divisão torna necessário que as vias do que se pode fazer como homem ou mulher se coloque no campo do Outro, pelo roteiro do Édipo. Dessa forma, a sexualidade se deduz de outra coisa que não da sexualidade mesma - a sexualidade se instaura no psiquismo pela via da falta.



Duas faltas se recobrem: a falta que advém do “defeito central” na qual gira a dialética do sujeito, isto é, a relação de dependência do sujeito do significante do Outro; a falta real “que é o que o vivo perde, de sua parte de vivo ao se reproduzir pela via sexuada” (Lacan, 1964/1985, p. 193), falta essa que é retomada pela falta significante. Da estrutura do significante na qual se funda a função do corte, se estabelece a função topológica de borda que articula a relação do sujeito ao Outro. O sujeito vê a si mesmo aparecer no campo do Outro e de lá retorna num processo circular dissimétrico, uma vez que retorna o significante (e não o objeto de satisfação esperado), “reduzindo o sujeito em instância a não ser mais do que um significante, petrificando-o pelo mesmo movimento com que o chama a funcionar, a falar, como sujeito”, ponto de partida do inconsciente – o fechamento (Lacan, 1964/1985, p. 197). Lacan (1964/1985, p. 198) chama esse movimento fading do sujeito ou afânise, movimento radical e letal de desaparecimento. É nesse sentido que na constituição do sujeito no campo do Outro, em seu nascimento, “a característica do sujeito do inconsciente é de estar, sob o significante que desenvolve suas redes, suas cadeias e sua história, num lugar indeterminado”.



Retomando sumariamente as duas operações de constituição do sujeito no campo do Outro: a primeira operação, a alienação, articula-se num vel no qual se inscreve a dupla significante mínima - “não há algo...sem outra coisa” (não há Fort, sem Da, em referência ao jogo observado por Freud em Além do princípio do prazer). De acordo com Lacan (1964/1985, p. 206), se Freud observa que o recalcamento cai sobre algo que é da ordem da representação denominado por ele Vorstellungsrepräsentanz, ele, Lacan (1964/1985, pp. 205-207), a identifica em seu ensino como o acasalamento dessa primeira dupla significante, nos mecanismos originais da alienação. Isso lhe permite “conceber que o sujeito aparece primeiro no Outro, no que o primeiro significante, o significante unário, surge no campo do Outro, e no que ele representa o sujeito, para um outro significante” (Lacan, 1964/1985, p. 205), outro significante que tem por efeito a afânise do sujeito. Resulta na divisão do sujeito que, quando “aparece em algum lugar como sentido, em outro lugar ele se manifesta como fading, como desaparecimento” (Lacan, 1964/1985, p. 205). Há então, “questão de vida e de morte entre o significante unário e o sujeito enquanto significante binário, causa de seu desaparecimento. O Vorstellungsrepräsentanz é o significante binário” (Lacan, 1964/1985, p. 207). Esse significante se constitui como o ponto central do recalque, o ponto de atração de todos os outros recalques.



Pela separação, o sujeito encontra o ponto de retorno do vel da alienação no intervalo entre esses dois significantes; intervalo onde mora o desejo que se oferece como balizamento ao sujeito no discurso do Outro – no caso, o primeiro Outro, a mãe. Isto porque, seu desejo está para aquém ou além no que ela diz e faz surgir como sentido, e, na medida em que seu desejo é desconhecido, nesse ponto de falta é que se constitui o desejo do sujeito (Lacan, 1964/1985, p. 297). Assim, por esse processo de engano, de torção, o sujeito reencontra o ponto inicial que é sua falta, sua afânise (1964/1985, p. 207). Em uma análise, o sujeito tem que se libertar do efeito afanísico do significante binário, função da liberdade (Lacan, 1964/1985, p. 208). Em suma, sublinha Lacan (1964/1985, p. 209): “Não há sujeito sem, em alguma parte, afânise do sujeito, e é nessa alienação, nessa divisão fundamental, que se institui a dialética do sujeito”.



No contexto desses aportes sobre as operações de constituição do sujeito, Lacan desenvolve algumas importantes ideias acerca dos efeitos psicossomáticos. Nos fenômenos psicossomáticos reside uma questão sobre a função do Outro, esse lugar do Vorstellungsrepräsentanz ou significante binário. Isto porque, nesses efeitos psicossomáticos “a indução significante, no nível do sujeito, se passou de maneira que não põe em jogo a afânise do sujeito” (1964/1985, p. 215). Isto é, não produziu sua falta.



Lacan (1964/1985, p. 215) considera que o fenômeno psicossomático não é um significante, mas mesmo assim, pensa que ele só é concebível considerando a indução significante. Seria isso que o faz dizer que a psicossomática é ‘em aparência’, muito afastada do domínio da psicanálise. De alguma forma o significante participa dos efeitos psicossomáticos. A psicossomática não pode ser concebida como advinda de um duplo psíquico para tudo que se passa no somático, sublinha Lacan (1964/1985, p. 215), uma vez que uma necessidade pode estar interessada na função do desejo: “se falamos de psicossomática é na medida em que deve aí intervir o desejo”, o elo do desejo fica conservado mesmo que não seja possível identificar a afânise do sujeito.



Na experiência do reflexo condicionado de Pavlov realizada em um cão, Lacan extrai certas consequências para pensar sobre os efeitos psicossomáticos na vertente do significante e do desejo. Ele observa que o reflexo condicionado só é possível porque o exercício de uma função biológica não é unificante, mas desmontável, isto é, mais de um órgão interfere nessa função. Portanto, quando o experimentador faz secretar seu cão à vista de um pedaço de carne, recorta, a partir daí, a região da secreção salivar e mostra que esta é articulável a algo – no caso, o sinete - que funciona como significante uma vez que é feito pelo experimentador. E, sendo assim, está aí o Outro. Mas no nível do animal não se trata de uma representação, mas de percepção. No animal, os significantes (que são os nossos porque os escalonamos em percepção), traduzem uma espécie de equivalência (1964/1985, pp. 214-216).



Se a alienação se produz - o significante é o que representa o sujeito para outro significante -, resulta que no nível do outro significante o sujeito se desvanece, por isso o Vorstellungsrepräsentanz é o S2 da dupla. É a essência da linguagem, a qual “não reduz a função do significante à nomeação, isto é, uma etiqueta colocada sobre uma coisa” (Lacan, 1964/1985, p. 223). Por isso, é possível situar que na experiência do reflexo condicionado não é a associação de um signo a uma coisa. Associa-se um significante que faz o corte – corte do desejo - na organização orgânica da necessidade, e com isso, são produzidos ciclos de necessidades interrompidas. Mas, se a experiência pode provocar desordens, problemas no cão, não sendo ele um ser falante, “ele não é chamado a pôr em questão o desejo do experimentador” (1964/1985, p. 223-224).



Enfim, para Lacan (1964/1985, pp. 224-225), o interesse essencial da experiência de Pavlov é permitir situar que se deve conceber o efeito psicossomático como a ausência de intervalo entre S1 e S2, quando a primeira dupla se solidifica, se holofraseia. Observa essa condição em uma série de casos: na criança débil que a mãe reduz a ser suporte de seu desejo num termo obscuro; na psicose, na qual a solidez, o apanhar a cadeia primitiva em massa proíbe a abertura dialética, isso se manifestando no fenômeno da crença – na paranoia, ausência de um termo da crença em que se designa a divisão do sujeito. Entretanto, nessa série, não se trata de o sujeito ocupar o mesmo lugar (Lacan, 1964/1985, p. 225).



Para Lacan, portanto, a psicossomática é um efeito, fenômeno que não tem relação com as estruturas clínicas neurose, psicose, perversão, sendo possível produzirem-se esses fenômenos psicossomáticos em qualquer dessas estruturas. Trata-se, nesse Seminário 11, de uma abordagem do FPS pela vertente do significante e do desejo, na qual procura dar conta da simbolização primordial. O que fica fora dela, que Lacan (1972-1973) nomeia posteriormente de gozo Outro, estaria implicado na linguagem, mas seria uma ordem de escrita que não passa pela dialética significante, lugar do FPS.



Deste modo, parece que no FPS, algo da pulsão não se representou no inconsciente para entrar na cadeia significante. Ficou livre, pulsão não ligada, porém fez uma marca ‘thanática’ no corpo. O significante faz corte na organização orgânica da necessidade, provocando desordens, uma vez que não se associa à cadeia significante; conserva um elo ao desejo, mas não possibilita a separação – o pôr em questão o desejo do Outro pela palavra, bem como a inscrição do movimento, da demanda pulsional. Assim, mesmo dependendo da estruturação subjetiva – do significante – os FPSs parecem ser fenômenos “à parte” ou ao lado da estrutura, por isso ilegível.



Foi somente em 1975, na Conferência de Genebra sobre o Sintoma, no contexto das discussões com o público, que Lacan (1975/1998) observou que os FPSs são “da ordem da escrita” - como se algo estivesse escrito no corpo como um enigma perante o qual nada entendemos, isto é, enigma que não sabemos ler, diferentemente do sintoma que é passível de leitura:



Certamente que se trata de um domínio mais que inexplorado. Finalmente, é de todo modo, algo da ordem do escrito. Em muitos casos, não sabemos lê-lo. Teria de dizer aqui alguma coisa que introduzisse a noção de escrito. Tudo se passa como se algo estivesse escrito no corpo, alguma coisa que nos é dado como um enigma. Não é de modo algum surpreendente que tenhamos como analistas essa sensação [de não haver alcançado o registro do simbólico]. (Lacan, 1975/1998, p. 14)



Se Lacan (1975/1998, p. 14) afirma que o FPS é uma escrita no corpo que não sabemos ler, ele não explora este tema: “[...] teria de dizer aqui alguma coisa que introduzisse a noção de escrito”. Assim, nos perguntamos que escrita e que corpo seriam esses dos FPSs? Porque não sabemos lê- la? A pesquisa que estamos desenvolvendo marca essa dimensão da escrita e do corpo do FPS e tem por finalidade desdobrá-la e investigá-la no seu percurso.



Considerações Finais

Dissemos que a pesquisa em psicanálise acerca do corpo desde sua fundação por Freud se insere no contexto do tratamento de doenças, tais como a histeria (sintomas) e a angústia (afeto), uma vez que essas se manifestavam em expressões corporais, em padecimentos corporais. As doenças ditas psicossomáticas também se apresentam clinicamente no corpo, mas têm um lugar de exceção no estatuto psicanalítico freudiano e lacaniano de sintoma, assim como da angústia. Seu principal diferencial clínico é a presença de lesões que também têm lugar de exceção no campo médico, pois, embora perfeitamente orgânicas, uma vez que há sempre um dano histológico, suas características (sintomas de gradação variável, evolução imprevisível) não correspondem às das lesões de causa puramente orgânica. Elas podem se agravar ou simplesmente desaparecer, e costumam se expressar em surtos sucessivos cujas manifestações podem se alternar, intercambiar- se, conjugar-se. É, portanto, um problema também para a medicina.



Conforme vimos, no campo lacaniano, as doenças psicossomáticas são consideradas fenômenos, uma vez que não obedecem às leis de linguagem como o sintoma; não respondem a uma estrutura metafórica, senão a uma alternância de presença e ausência. Apesar disso, conforme Lacan, a lesão pode ser induzida por um significante ou conjunto de significantes, estando, portanto, ligada à linguagem, porém não de modo dialetizável, mas holofraseado, solidificado. Nesses fenômenos reconhece-se um gozo – “gozo específico” -, diferenciado do gozo do sintoma: uma “reação de órgão”. É uma escrita no corpo “que não se sabe ler”, isto é, escrita que parece ilegível, intraduzível. Os FPSs constituem, por isso, um problema conceitual e clínico para a psicanálise.
No estágio atual dessa questão, situaríamos assim o que resta a avançar: qual é a função do escrito e o estatuto da leitura em psicanálise? O que é ler em psicanálise? Em outras palavras, para que serve escrever? Se uma escrita é feita para não esquecer – é um registro mnemônico –, o FPS seria uma escrita no corpo para não esquecer? Não pode esquecer porque não foi recalcada.



Mas por que esse registro tem que estar no real do corpo na forma de lesão, sendo assim algo que parece intraduzível? Se nos sintomas as fixações (libidinais) contam uma história que se registra no inconsciente como uma “fixão” – uma ficção que fixa e esquece porque já entrou nesta história -, nos FPSs ocorre uma fixação do gozo – “fixão” que não se torna ficção porque não articulada à cadeia ou série significante não pode contar sua história.




Os fenômenos psicossomáticos parecem mostrar no corpo uma escrita apenas como marcas registradas que não se inserem numa história, numa escrita da história libidinal capaz de ser contada, reconstruída, como nos sintomas neuróticos. Em outros termos, nos FPSs, há um registro, uma escrita de gozo que causa efeitos, mas não se inscreve na dimensão significante como cadeia articulada (S2), sendo por isso “um modo específico de gozo” (Lacan, 1975/1998).



Assim, nosso trabalho visa investigar o FPS como algo que aponta para um limite da linguagem em suas relações com o corpo, e que justamente coloca em questão os limites de possibilidade do método psicanalítico. Importa investigar também o FPS como apontando para um modo específico de gozo, independente da estrutura psíquica. Há algo que ocorre aí, nesses fenômenos, que não interfere na estruturação, mas fixa no corpo e produz efeitos - algo da pulsão é registrado no corpo como uma escrita que não entra na dialética da palavra.



Conforme mostramos em nosso breve panorama sobre os FPS, existem muitas divergências dentro do campo psicanalítico, não só conceituais, mas, sobretudo, em relação às formas de intervenção possíveis na clínica. Alguns autores como Groddeck e Alexander consideram viável uma interpretação dos FPS, como decifração de um sentido latente; outros, como Marty, M’Uzan e David, admitem que há uma ausência de simbolização em jogo, o que exigiria que se mobilize a construção de um sentido para o doente; outros, como Valabrega, consideram ainda desejável encontrar uma terceira via. Sem ainda incluir Lacan nessa série, acreditamos que esse mapeamento sumário das diferenças entre as escolas já nos indica o quanto o campo dos FPS é, de fato, um território repleto de incógnitas.



Abordando mais estritamente as contribuições de Lacan sobre o tema, pode-se observar que os FPS representam um desafio tanto teórico quanto clínico. Um desafio teórico, na medida em que os FPS permitem abordar uma questão fundamental para a psicanálise que diz respeito ao modo de inscrição da linguagem sobre o corpo. O FPS sinaliza para algo no corpo que está fora, mas fora de que? Não está totalmente no registro do biológico, porém tampouco se inscreve no inconsciente como discurso recalcado (S2).



Um desafio clínico, na medida em que se mantém viva a discussão sobre quais as intervenções possíveis nos casos de FPS. Evitando-se tanto a interpretação quanto a atribuição de um sentido tal como fazem as outras correntes, é preciso saber se é possível e como é possível, amarrar, engatar o FPS na articulação significante, encaminhando o tratamento analítico. Isto é, se um trabalho analítico pode permitir a leitura desse gozo específico marcado no corpo.



Nota:
1 Termo que denota “enunciado composto de uma única palavra, que equivale a uma frase completa” (Ferreira, 2009, p. 1052).

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Denise Maria Lopes Dal-Cól
Doutora pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Psicanalista, Docente do Departamento de Psicologia e Psicanálise do Curso de Psicologia da Universidade Estadual de Londrina (UEL), Londrina, Paraná. Artigo baseado na tese de doutorado A escrita e o corpo em psicanálise e sua implicação nos fenômenos psicossomáticos, 2016, Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica, UFRJ. E-mail: denise_dalcol@hotmail.com

Maria Cristina Poli
Doutora em Psicologia pela Université de Paris 13. Psicanalista, Docente do Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica da UFRJ, Coordenadora do Mestrado Profissional em Psicanálise, Saúde e Sociedade da UVA/RJ, Pesquisadora do CNPq e jovem cientista do Estado pela FAPERJ. E-mail: mccpoli@gmail.com

IN: Revista aSEPHallus de Orientação Lacaniana, Rio de Janeiro,  n. 22, maio. a out. 2016




quinta-feira, fevereiro 22, 2018

Questões da Clínica Contemporânea




Maria Madalena e Édipo complexo:
são novas narrativas necessárias na psicanálise contemporânea?


Giovanna Bartucci


“Há (…) uma estranha coincidência entre esse estado (…) anterior ao princípio de realidade e o universo da realidade virtual, nosso universo midiático (…), posterior ao princípio de realidade, onde o real e o virtual se confundem” [1]. JEAN BAUDRILLARD. 

Começarei, portanto, por uma coincidência – uma coincidência que ocorreu a Maria Madalena. 

Maria Madalena 

Maria Madalena tinha em torno de seus 45 anos. Não tinha filhos, mantinha um casamento que lhe era aparentemente insatisfatório. Ainda que a metrópole não lhe fosse estranha, tinha um ar de quem estava sempre chegando. Quem sabe sempre partindo? 

Tendo migrado para a cidade grande na juventude, Maria Madalena se formou, conquistou para si uma profissão, fez amigos, casou-se, separou-se, casou-se ainda outra vez. Mas as coisas começaram a desandar no momento exato em que lhe foi pedido que habitasse a desordem e a incerteza contemporâneas. Tendo perdido quase tudo, com sérios problemas profissionais, Maria Madalena chegou para análise com uma demanda específica. Dizia-me: “Você tem de me ensinar como se faz”. Como se faz? Como se faz o quê?, eu me perguntava. O que quer que fosse, faz-se com muito trabalho, pensava eu, ainda que nada dissesse. Claro, Maria Madalena imaginava sua analista inserida em uma rede de contatos que lhe proporcionava trabalho, dinheiro e relações afetivas. O que quer que fosse que sua analista tinha, deveria ser fruto, Maria Madalena pensava, dessa rede de contatos. 

Pois contatos Maria Madalena fazia. Com muitas relações, todos eram seus amigos, e a todos tratava com uma certa efusividade expectante, ainda que silenciosa. Todas as relações traziam consigo possibilidades de trabalho em potencial e de inserção no meio do qual já fazia parte. No entanto, mesmo que competente, algo se passava com Maria Madalena… Havia ainda o que viemos a denominar a “teoria da prateleira”. De fato, em sua análise anterior, Maria Madalena pareceria ter sido tranqüilizada por sua analista, versam as suas recordações. De acordo com a teoria da prateleira, os problemas de Maria Madalena deviam-se ao fato de que todos os “bons objetos” dispostos já teriam sido “adquiridos” por outros. As instituições promissoras, os bons lugares profissionais, já teriam sido todos ocupados, tomados por outros. E os homens – ah!, os homens –, esta era uma questão fundamental. De acordo com Maria Madalena, a ela só restara o seu marido atual, já que todos os “bons homens”, “aqueles que valiam a pena”, haviam se casado com outras mulheres. Em outras palavras, já teriam sido resgatados da prateleira. A teoria da prateleira – ou seja, o fato de que Maria Madalena não seria responsável pelo estado das coisas – era, afinal, uma benção, e minha analisanda havia se instalado agradavelmente em seu sintoma, parecendo assim desejar permanecer.

Mas Maria Madalena frequentemente se metia em confusão. Com um trabalho cuja ausência sua tinha consequências importantes, vez ou outra não ia trabalhar. Não cumpria prazos, chegava a não realizar as tarefas que lhe eram designadas. Em casa, sabia o que dizer ou fazer para irritar o seu marido, e após a “resposta inesperada”, mantinha-se submissa, com medo de que ele pudesse vir a reagir violentamente. Quando o fazia, a ela só restava a indignação, a revolta, o tom acusatório e, claro, a sua permanência na relação – já que a ele caberia a mudança, uma vez que ela não tinha responsabilidade alguma pelo “estado das coisas”. 

Em análise, era certo que Maria Madalena faltaria a uma de suas sessões semanais. Não avisava – por que deveria? Eu parecia não existir. E, claro, a teoria da prateleira estava sempre atuante: haveria sempre uma razão justa para Maria Madalena agir da maneira como o fazia e passar pelo que estava passando. Havia ainda uma questão fundamental: Maria Madalena não se considerava agressiva, ou mesmo violenta. Era a ela que as coisas aconteciam – sempre – e em sua aparente passividade, já não lhe restava quase nada.

É verdade, devo explicitar desde já que o que me instigava, neste momento da análise de Maria Madalena, não eram os seus sintomas – até bastante comuns na clínica cotidiana –, mas o suposto timing da eclosão da configuração que descrevi acima de forma generalizada.

De fato, sabemos que tanto a economia pulsional pode fazer novas exigências à capacidade de simbolização do sujeito, quanto a realidade material potencializar o conflito psíquico, ao confrontar o psiquismo com demandas impossíveis de serem articuladas simbolicamente. É notório também que um conflito anterior, elaborado analiticamente, pode se reapresentar na cena psíquica. Ainda assim, havia um frescor que acompanhava o trabalho per/elaborativo de Maria Madalena que me chamava a atenção. Eu me perguntava por que razão as “temáticas” abordadas em sua análise comigo aparentavam tamanha novidade. Uma vez que o trabalho analítico se configura como um trabalho em espiral, e Maria Madalena havia tido a experiência de análises anteriores – com colegas que respeito, vale observar –, teria sido impossível que tais “temáticas” permanecessem intocadas. Nessa medida, se as queixas de minha analisanda eram, desde sempre, bastante comuns e frequentes na clínica cotidiana, o que se configurava parecia dizer respeito ao timing de Maria Madalena. Intrigada, resolvi, então, dedicar-me com afinco a pensar a contemporaneidade - ou seja, a presença atuante desta “estranha coincidência” entre sintomas do sujeito, configurações sociais específicas e suas conseqüências, como veremos a seguir.

Impasse profundo

Inicialmente, vale observar, contudo, que inúmeros são os autores que se dedicam a refletir acerca das novas formas de subjetivação na atualidade. Enquanto alguns têm como objetivo caracterizar a sintomatologia contemporânea, outros buscam refletir acerca do dispositivo analítico e condições de intervenção do psicanalista. De forma geral, tais considerações revelam a presença, no campo, tanto do desejo de refletir acerca da função e do lugar do analista face às demandas de análise atuais, quanto da existência de uma preocupação que visa resgatar a radicalidade da experiência psicanalítica. Mas o fato é que vivemos um impasse profundo, à medida que são os paradigmas com que trabalhamos que estão sendo colocados em questão.

Com efeito, Elisabeth Roudinesco (1944-), cujas reflexões [2] acerca do contemporâneo têm apontado para a substituição do paradigma da histeria, predominante no fim do século XIX, pelo paradigma da depressão – aqui, forma atenuada da antiga melancolia –, entende que essa substituição se faz acompanhar de uma valorização dos processos psicológicos de normalização em detrimento das diferentes formas de exploração do inconsciente. À medida que a contemporaneidade – época na qual constatamos o desaparecimento do ideal revolucionário, ou das utopias, com a derrota do comunismo e a instituição de políticas de globalização da economia, no bojo de uma economia liberal que tende a reduzir o homem a uma mercadoria – é marcada por um profundo desejo de normalização, o conflito neurótico, tratado como depressão, sugere Roudinesco, já não decorreria de nenhuma causalidade psíquica oriunda do inconsciente. Característica do advento das sociedades democráticas e que têm como base o confronto permanente entre o mesmo e o outro, esta seria, então, a configuração subjetiva que tenderia a se apagar da organização mental contemporânea, em prol da noção psicológica de personalidade depressiva. 
E mais: ao abandonar o modelo nosográfico em prol de uma classificação dos comportamentos, a psiquiatria findou por reduzir a psicoterapia a uma técnica de supressão de sintomas. Assim, se por um lado Freud não considerara que a generalização da prática psicanalítica, na maioria dos países ocidentais, seria contemporânea do aniquilamento progressivo do saber psiquiátrico pela psicofarmacologia e do emprego de substâncias químicas no tratamento das doenças da alma, tampouco imaginara que as contradições inerentes à sua teoria – ou a qualquer teoria – oriundas do confronto com a história seriam passíveis de produzir um sentimento de inoperância. É à medida, então, que a concepção tradicional de enfermidade, centrada na idéia de etiologia, perde terreno em face da articulação dos sintomas sob a forma de síndromes que se torna crucial recuperarmos a idéia de que o conflito psíquico é paradigmático em Freud.

De fato, a vida psíquica se configura como um jogo de forças que se promovem e se inibem umas às outras, a sexualidade cumprindo a função fundamental de dialetização da história pessoal. O desejo é “inconsciente” uma vez que, diretamente associado ao afastamento que se estabelece entre a necessidade e a demanda, testemunha “uma falta fundamental”, e tende a se realizar restabelecendo os sinais ligados às primeiras vivências de satisfação. 

Metapsicologicamente, isso implica considerarmos inconsciente aquela instância psíquica que, em relação à barreira do recalque [3], ocupa um lugar no interior da tópica psíquica correlativa ao pré-consciente- consciente, sendo regido por uma legalidade que opõe os sistemas. De forma concisa, a história que concerne o psicanalista é a das vicissitudes pulsionais e identificatórias romanceadas na trama edípica [4] – perspectiva que, temos de reconhecer, não parece fazer jus à clínica contemporânea. Mas serão novas narrativas efetivamente necessárias na psicanálise contemporânea? Seria esta a pergunta que – nos dias que correm – operaria a diferença? 

É verdade que, se na década de 1980, não sabíamos se as formas de percepção da realidade se modificariam a partir das transformações impostas pelos novos modos de organização da informação, hoje, no entanto, já experimentamos as suas consequências. Com efeito, em trabalho anterior [5] observei que a psicanálise pareceria ter entrado em crise na medida exata em que se contrapõe aos pressupostos éticos da cultura pós-moderna, a condição de possibilidade para a emergência do inconsciente e da fragmentação pulsional pautando-se justamente na desconstrução da “história oficial” do sujeito, ou seja, do registro narcísico do eu. Como caracterizar, contudo, a contemporaneidade? 

Cultura de risco pós-moderna e subjetividades contemporâneas

Para responder a essa pergunta, vale resgatar que se a época histórica que se inicia com o breve século XX fez bascular a função de proteção dos processos da cultura [6] em direção a uma função destrutiva [7] – aquela das organizações totalitárias do século XX –, a função de proteção reduzindo-se ao exercício do poder pelo poder, a contemporaneidade finda por se caracterizar como o lugar das incertezas. O desamparo oriundo da diluição das grandes narrativas da modernidade apontando para a projeção de um futuro incerto, para a agonia das grandes produções de sentido que associavam progresso, revolução e auto-realização permanente.

Some-se a isso o fato de que, se à pós-modernidade corresponde um questionamento da moderna epistemologia baseada na separação entre sujeito e objeto, de modo que a legitimação do conhecimento não pode ser depositada em uma “grande narrativa”, como sugerira Lyotard [8] (1942-), em 1979, também Debord [9] (1931-1994) já denunciara, em 1967, o processo por meio do qual vimos constatar que, na atualidade, a realidade é imagem e a imagem é realidade, ao destacar a cisão que, instituindo-se entre espetáculo e realidade, entre realidade e imagem, promove a fragmentação e a dissipação, inibindo o sentido do encadeamento histórico. Baudrillard (1929-) foi mais longe: desenvolveu uma teoria pautada na idéia de que, à medida que é substituído por imagens, o referente vivido teria desaparecido. Em outras palavras, estamos num mundo cuja função essencial do signo consiste em fazer desaparecer a realidade, enquanto simultaneamente coloca um véu sobre esse desaparecimento.

Todavia, ainda que não se trate da derrota do pensamento histórico e crítico “mas, sim, da vitória do tempo real sobre o presente, sobre o passado, sobre toda e qualquer forma de articulação lógica da realidade”, “a partir do momento em que vivemos no tempo real, em que os acontecimentos desfilam como num travelling, o tempo de reflexão sofre um curto-circuito”. Retratando a temática em pauta, Baudrillard sugere que o espectador só se torna realmente ator quando há estrita separação entre palco e platéia. Tudo, porém, concorre, por meio da interatividade contemporânea, para a abolição desse corte. “Quando todos se convertem em atores, não há mais ação, fim da representação. Morte do espectador” [10], sugere o filósofo. 

Assim é que, como conseqüência, os tempos que correm têm promovido a diminuição acelerada da experiência de interiorização pelo sujeito, desvelando o autocentramento conjugado ao valor da exterioridade, sem que haja perda da função de sujeito, mesmo que momentânea. Não é à toa, então, que diversas inquietações tenham se condensado em uma pergunta fundamental: o que fazer quando subjetividades e sintomatologias contemporâneas configuram – a priori e especificamente – o esfacelamento do registro narcísico do eu, sem que isso figure uma psicose ou perversão, pertencendo à e permanecendo na esfera do que consideramos neurose? [11] Serão novas narrativas efetivamente necessárias na psicanálise contemporânea?

De fato, ao trabalhar a temática da psicopatologia da pós-modernidade da perspectiva da interface psicanálise e filosofia, Joel Birman (1946-) denominou “sujeito fora-desi” a modalidade cuja inexistência de interiorização pelo sujeito evidenciaria o autocentramento como modalidade de existência, e cuja exterioridade é agora excessiva e não mais representada pelo modelo da psicose. Considerada pelo autor como uma forma perversa de existência, tal modalidade seria indicativa da inversão que se operou no social por meio da qual o “sujeito fora-de-si” é socialmente integrado e investido, uma vez que realiza o projeto da subjetividade na atualidade.

De acordo com Birman, a ideia de que a loucura se instituiu no registro do fora-de-si estaria implícita na concepção de loucura como alienação, e identificada com o próprio estabelecimento do discurso psiquiátrico no final do século XVIII à medida que – presente dentro-de-si até o momento do enlouquecimento – o sujeito se perderia de seu eixo de sustentação ao deslocar-se de dentro para fora-de-si. O sujeito perderia, assim, o que lhe seria fundamental: a autoconsciência que lhe definiria tanto no sentido do autocentramento, como no da interioridade. 

O que se torna importante destacar nessa leitura, contudo, é que o autor entende que “se no Freud inicial a leitura da psicose se realizava em consonância com os pressupostos da leitura de Hegel (o delírio como tentativa de cura, como na leitura de Schreber) (...), no final de seu percurso, Freud insistiu seja no enunciado da autonomia das forças pulsionais face ao campo das representações, seja na formulação da existência de uma modalidade de pulsão sem representação. Nesse contexto, (...) a questão não se restringe mais ao registro do simbólico e da razão na experiência da loucura, mas a algo que remete incisivamente para o ser da pulsão e de seus destinos insondáveis”. [12]

É verdade, a perspectiva acima se explicita caso resgatemos a sugestão de Birman de que os ensaios metapsicológicos de 1915, em especial “As pulsões e destinos de pulsões”, pretenderiam responder a problemática que paulatinamente se inscreve no percurso freudiano, ou seja, a de como se constitui a produção de representações no aparelho psíquico, considerando-se o primado do registro econômico na metapsicologia. Como resultante, o autor avança a ideia de que uma reformulação epistemológica essencial esboçou-se na teoria psicanalítica, à medida que seus fundamentos estariam sendo recompostos: “o inconsciente não seria mais, como estava estabelecido até então, o conceito fundamental da psicanálise. Agora, a pulsão ocuparia tal lugar, e o inconsciente seria um conceito derivado na metapsicologia freudiana”, o sujeito do inconsciente constituindo- se como um dos destinos de pulsões, “destino privilegiado, certamente, ao lado do ‘retorno sobre o próprio corpo’, da ‘transformação da atividade em passividade’ e da ‘sublimação’”. Com isso, “o sujeito como destino é sempre o de um projeto inacabado, produzindo-se de maneira interminável, apresentando- se sempre como uma finitude face aos seus impasses, confrontado ao que lhe falta e ao que não é”. [13] 

Não é à toa, então, que Birman entende que a psicanálise se avizinha a um discurso ético-estéticopolítico – a metapsicologia psicanalítica estando mais próxima de certos discursos filosóficos ou éticos sobre a subjetividade do que de um discurso científico. O sujeito fundado na pulsão enquanto força é marcado, assim, por exigências éticas e estéticas, a experiência psicanalítica produzindo uma maneira singular de existir para o sujeito, forjada por meio de traços encarnados de que ele disporia em estado virtual, como uma potencialidade. [14] Concebidas pelas lentes foucaultianas do “cuidado de si” – cuja tese supõe que a subjetividade é capaz de produzir saber sobre si –, as neuroses seriam estilos de existência, mais ou menos prazerosos, que se aproximam muito mais de modelos éticoestéticos do que de formas de conhecimento. O autor sugere, afinal, que ante a nova modalidade de sujeito fora-de-si, os sujeitos seriam fora-de-si por vocação, transformando- se em dentro-de-si por um processo de subjetivação que não seria nem necessário nem obrigatório.

O fundamental

Há, aqui, no entanto, uma distinção fundamental a ser feita, caso desejemos refletir acerca das possíveis contradições inerentes à teorização freudiana oriundas do confronto com a história. De fato, na hipótese de considerarmos a desconstrução dos mecanismos sociais que vinculam a nossa experiência pessoal à das gerações passadas um dos fenômenos mais característicos do final do século XX [15], o dilema de como organizar uma narrativa de vida deverá ser em parte esclarecido sondando-se como, hoje, enfrentamos o futuro. Sendo assim, caso resgatemos o impasse vivido pela grande maioria ante a cultura de risco pós-moderna, como salientei anteriormente, torna-se premente reconhecer que, se nada fizerem, as subjetividades contemporâneas estarão relegadas à própria sorte. 

Será essa perspectiva, então, que operará a diferença entre nossos desenvolvimentos. Enquanto Birman entende que, diante da nova modalidade de existência, os sujeitos seriam fora-de-si por vocação, transformando-se em dentro-de-si por um processo de subjetivação que não seria nem necessário nem obrigatório, entendo que – ao contrário –, em se tratando de subjetividades e características sócio-históricas contemporâneas, quer desejemos quer não, processos constitutivos impõem- se aos sujeitos.

É nessa medida que, em face desse fundamental, desejo fazer avançar a idéia de que, ao considerarmos as características das subjetividades na contemporaneidade – ou seja, a presença do conflito neurótico cuja gênese não se encontra primariamente na sexualidade edípica –, faz-se necessário supor a existência de um “lugar psíquico de constituição de subjetividade” [16] por meio do qual processos fundadores dos sujeitos possam se dar.

Mas eis que, afinal, a proposição acima termina por deslocar o foco da questão em pauta. Confrontados com os impasses propostos pela pós-modernidade, trata-se de nos indagarmos, então, não mais acerca da temática da “atualidade” do complexo de Édipo, mas sim sobre possibilidade de resgate da idéia, salientada anteriormente, de que o conflito psíquico é paradigmático em Freud. O passo seguinte é o de trabalharmos em direção ao restabelecimento das variáveis instauradoras do conflito, por meio de operadores simbólicos que ordenem uma função estruturante.

É claro que não poderíamos continuar sem observar que os desenvolvimentos acima terminam por colocar em questão a noção de estrutura, à medida que findo por sugerir a possibilidade de uma estrutura em permanente constituição. É verdade: eis aqui uma contradição em termos, a qual, no entanto, não deveria nos causar estranhamento uma vez que a própria noção de estrutura traz em seu âmago uma relação de contradição, ou seja, uma relação de incompatibilidade entre dois termos em que a afirmação de um implica a negação do outro, e reciprocamente. 

Vale lembrar, contudo, que a inovação proposta pelo estruturalismo consistiu em afirmar que a parte não pode ser pensada fora da sua situação no todo, e que o todo distingue-se da soma de suas partes. Dito de outra forma, a estrutura seria um sistema de diferenças no qual o elemento não é nada em si mesmo, e sim a sua posição no todo, ou mesmo que os elementos são explicitados por meio de relações impostas pelo todo. As tarefas analítica e sintética constituem, assim, uma relação dialética em que a primeira é negada pela segunda, sem cuja primeira, no entanto, a segunda tarefa seria impossível. Finalmente, há que se reconhecer: à medida que “A” é necessariamente “A” e “Não-A”, as perspectivas analítica e sintética encontram-se conciliadas no estruturalismo.

Entre a produção de subjetividade e as condições de constituição psíquica: Édipo Complexo e a cultura tornada possível

No clássico O estruturalismo em psicanálise (1968), porém, Moustafa Safouan (1921-) já explicitara as “regras” que regem a nossa matéria: “a psicanálise é a descoberta de um lugar, o do inconsciente, e de uma dinâmica que se desenvolve nesse lugar e que se enlaça, toda ela, ao redor do complexo de Édipo e, mais especialmente, de seu momento essencial, a castração (…) Discorrer sobre a psicanálise, então, é discorrer sobre esses dois conceitos: o inconsciente e a castração. (…) Sendo assim, a nossa finalidade é mostrar que Édipo não é um mito no qual se desvelam suas linhas de força, e tampouco o drama que ele determina no vivido de cada um, mas uma estrutura que ordena o desejo…” [17]. Em outras palavras, caberá ao complexo de Édipo – enquanto estrutura – organizar o devir humano em torno da diferença dos sexos e da diferença das gerações, ao promover a interiorização da interdição oposta aos dois desejos edipianos, incesto materno e assassinato do pai, abrindo acesso à cultura por meio da submissão e da identificação ao pai portador da lei que regula os caminhos do desejo. Será, no entanto, no momento em que Freud articula o complexo de Édipo ao complexo de castração, pedra angular da psicanálise [18], que o complexo de Édipo assumirá sua dimensão de conceito fundador. 

Todavia, de uma perspectiva sócio-histórica, a criação da cultura se fará acompanhar da instituição do tempo da história tornada possível. De fato, o complexo de Édipo portará um caráter estruturante à medida que o mito originário sobre o qual se apóia evidencia-se pela passagem do tempo primordial da horda – ou seja, um tempo regido pela repetição infinita dos mesmos atos e pensamentos, conduzida por um tirano onipotente caracterizado pela recusa do amor e pelo manejo da força –, ao tempo da história tornada possível, por meio de uma primeira infração da ordem, a decisão unânime do crime – o assassinato original [19]. Em lugar da origem, um ato real: o assassinato necessário; em lugar do horror ao incesto, um ato simbólico: a internalização da proibição. Desse modo, o assassinato do chefe da horda o transforma em pai, e o ódio transforma os seres submissos em irmãos. Portador e depositário das proibições, sufoca e castra, devendo ser morto ou vencido. Seu assassinato, no entanto, será sempre acompanhado de culpa e veneração, o pai sendo sempre um pai morto, e o pai morto sendo sempre um pai mítico, provocando, em sua função mítica, reverência, terror e amor, simultaneamente. O parricídio é, então, fundamental – e indispensável – à criação da cultura, ao nos introduzir no mundo da culpabilização, da renúncia tanto à realização do desejo quanto ao desejo de realização do incesto [20], da instituição de uma função paterna na origem da humanidade e da necessidade de referência a uma lei externa transcendente.

Ainda assim, se na contemporaneidade o complexo de Édipo, enquanto exemplo privilegiado – uma vez que certas variáveis, como a aderência primária da relação mãe-bebê, o concomitante exercício da função de corte por parte do pai, o amor pelo progenitor do sexo oposto e a rivalidade com o progenitor do mesmo sexo, em uma família monogâmica e heterossexual, conduziriam a uma sobreposição dos elementos de produção de subjetividade aos elementos que dizem respeito às condições de constituição psíquica –, não conduz necessariamente a tal sobreposição, resta nos indagarmos acerca de como fazer face aos desafios com os quais se defronta a psicanálise na contemporaneidade. 

De fato, mesmo que nada garanta que o pai encarnado corresponda ao investimento da condição de poder de intervenção estruturante – da perspectiva clínica, uma função simbólica que intervém perante o desejo do filho, às voltas com o desejo da mãe –, é importante mantermos em mente que a função que essa noção exerce é a de um operador simbólico, tratando-se, fundamentalmente, de uma entidade simbólica que ordena uma função estruturante.

Isso posto, vale a pena fazermos um pequeno parêntese: observemos que, se a fantasia é um produto misto [21] – ou seja, as teorias que os seres humanos forjam sobre a sua existência e origem são da ordem da intersecção entre o inconsciente e o eu –, é certo que os sujeitos serão atravessados por elementos ideológicos, e não somente por variáveis que dizem respeito às condições de constituição psíquica. Caso se trate, então, de condições sócio-históricas face às quais a psicanálise se encontraria impossibilitada de ser exercida, de uma mudança histórica dos analisandos ou mesmo de uma mudança na escuta dos analistas, a questão que se coloca na contemporaneidade parece se relacionar à sobreposição – ou não – dos elementos que dizem respeito à produção de subjetividade aos elementos associados às condições de constituição psíquica dos sujeitos. 

No que se refere a tal distinção, podemos considerar que a produção de subjetividade inclui todos os aspectos que dizem respeito à construção social do sujeito, em termos de produção e reprodução ideológica e de articulação com as variáveis sociais que o inscreveriam em um tempo e espaço específicos, ou seja, em uma dada perspectiva histórica. As condições de constituição psíquica, contudo, se dão por meio de variáveis cuja permanência transcende os modelos sociais e históricos, podendo ser circunscritas ao seu campo de referência conceitual. Como sugere Silvia Bleichmar [22] (1944-), no que se refere à perspectiva conceitual, vale destacar a formulação dos diferentes modelos da primeira e da segunda tópica freudiana, o conceito de pulsão, de recalcamento e a formalização do conceito de inconsciente como objeto científico. Da perspectiva de teorizações fantasmáticas dos sujeitos, podemos citar como exemplo a cena originária, a vagina dentada, a teoria cloacal, dentre outras, enfatizando, no entanto, que a possível universalidade dessas representações – mantidas sempre dentro de um universo específico, certamente – não lhes concede um estatuto de teoria geral, cujas variáveis conceituais transcenderiam os modelos sociais e históricos. A sobreposição de ambas as perspectivas – a produção de subjetividade e as condições de constituição psíquica –, contudo, ocorre no momento em que fantasmas e/ou representações mais ou menos compartilháveis por diferentes sujeitos são considerados como referentes conceituais sem que tenham necessariamente acedido ao nível de universalidade que lhes é atribuído.

No que se refere ao complexo de Édipo, entretanto, se o que há de característico no estabelecimento das condições de constituição psíquica é o fato de que todas as culturas exercem algum tipo de interdição no que se refere à apropriação, por parte do adulto, do corpo da criança como objeto de gozo – formulação essa compreendida por Bleichmar como “complexo de Édipo” – isso não impedirá que o mesmo seja fantasmatizado por seus protagonistas, e sob os modos dominantes das configurações sociais em jogo. Ainda que não trabalhe com a perspectiva teórica laplanchiana sobre a qual se apoiam as formulações da autora – diferença esta que, para nossos propósitos, não se faz necessário desenvolver aqui –, parece-me que também a sua definição de complexo de Édipo, cuja característica de assimetria entre o adulto e a criança traz consigo disparidades de saber e poder, de condições estruturantes e psíquicas, só vem reafirmar o caráter a-histórico do complexo e a importância da presença de um operador simbólico que ordene uma função estruturante, até mesmo no bojo dos processos da cultura. 

Com efeito, é fundamental observar que o reconhecimento da noção de um inconsciente psíquico – cuja tópica, ao destacar diferentes modalidades de representação psíquica, inconsciente, pré-consciente e consciente, funda um campo de representações – deverá necessariamente ser antecedido pela instauração da modalidade de constituição de um “sujeito dentro-de-si”, que posteriormente indicará a existência de uma atividade sexual pulsional e fantasística.

Assim é que, da perspectiva da clínica psicanalítica, a questão com que viemos trabalhando – serão novas narrativas realmente necessárias na psicanálise contemporânea? – poderia agora ser disposta da maneira como segue: qual seria o lugar e a função do psicanalista na clínica contemporânea, uma vez que o restabelecimento das variáveis instauradoras do conflito psíquico implica a possibilidade da existência de um “sujeito dentro-de-si” em permanente constituição?

O timing de Maria Madalena: a constituição de um objeto não- separado-que-deverá chegar- a-ser

De uma perspectiva sócio histórica, porém, no que se refere à contemporaneidade, uma das questões fundamentais diz respeito à condição que os sujeitos têm de transformar seus caracteres em narrativas sustentadas, uma vez que a dimensão do tempo no novo capitalismo gera um conflito entre caráter e experiência. Vale a pena explicitar o que Richard Sennett (1943-) entende por “caráter”: “é o valor ético que atribuímos aos nossos próprios desejos e às nossas relações com os outros. (…) Nesse sentido, “caráter” é um termo mais abrangente que seu rebento mais moderno, “personalidade”, pois este se refere a desejos e sentimentos que podem apostemar por dentro, sem que ninguém veja. O termo “caráter” concentra-se sobretudo no aspecto a longo prazo de nossa experiência emocional. É expresso pela lealdade e pelo compromisso mútuo, pela busca de metas a longo prazo, ou pela prática de adiar a satisfação em troca de um fim futuro. (…) “Caráter” são os traços pessoais a que damos valor em nós mesmos, e pelos quais buscamos que os outros nos valorizem” [23]. A experiência do tempo desconjuntado, contudo, não permite a construção de narrativas de vida que deem forma ao movimento adiante do tempo, sugerindo motivos pelos quais tudo acontece, mostrando suas consequências.

Sendo assim, o que parece ser singular na incerteza contemporânea “é que ela existe sem qualquer desastre histórico iminente; ao contrário, está entremeada nas práticas cotidianas de um vigoroso capitalismo”. É verdade, face ao sucesso aparentemente sem sentido – “nunca chegar a parte alguma” –, ou da impossibilidade de recompensa pelo esforço – “sempre na casa um” –, o tempo parece estacionar, o sujeito torna-se prisioneiro do presente, fixado nos dilemas do presente. Abrir mão do passado e habitar a desordem contemporânea tornam-se, então, formas de viver no limite. Nessa medida, na cultura de risco pós-moderna, “o destino (…) conta menos do que o ato de partir. Imensas forças sociais e econômicas moldam a insistência na partida: o desordenamento das instituições, o sistema de produção flexível (…). Ficar livre é ser deixado de fora”. Em outras palavras, “há história, mas não narrativa partilhada de dificuldades, e portanto tampouco destino partilhado. Nessas condições, o caráter se corrói” [24].

É possível compreendermos, então, porque Sennett sugere que tanto a capacidade de desprender-se do próprio passado, quanto a confiança para aceitar a fragmentação seriam dois traços de caráter presentes entre as pessoas à vontade no capitalismo atual. Ao considerarmos as subjetividades contemporâneas, entretanto, a questão fundamental parece se referir ao fato de que desprender-se do próprio passado requer que o passado tenha – efetivamente – passado.

Retomando, então: à medida que a presença do conflito neurótico cuja gênese não se encontra primariamente na sexualidade edípica finda por impor aos sujeitos processos constitutivos, tornando necessário supor a existência de um “lugar psíquico de constituição de subjetividade” [25] por meio do qual processos fundadores dos sujeitos possam se dar, eis que nos resta, afinal, indagarmos acerca de um modus operandi que promova o estabelecimento, ou mesmo o restabelecimento das variáveis instauradoras do conflito psíquico.

De fato, Jacques Hassoun [26] (1936-1999), cuja obra tem em suas interrogações sobre o exílio e os elos entre língua materna e identidade seus fundamentos, avança uma hipótese para a qual é importante atentarmos. Em sintonia com as elaborações de Roudinesco, de que a contemporaneidade promoveria a substituição do paradigma da histeria pelo paradigma da depressão, forma atenuada da antiga melancolia, o autor sugere que o melancólico é aquele que não conheceu uma experiência de perda e de um primeiro luto subjetivante – ou seja, a experiência de que o objeto que deveria ter certo dia miticamente trazido uma primeira satisfação estaria perdido para sempre – pela falta de nomeação e de designação possíveis, por parte da mãe, dessa perda. Dito de outra forma, o “desmame” da mãe tornaria possível o desmame da criança, uma vez que supõe que a mãe seja capaz de entender que, no aleitamento, é ela quem “perde o seio”, cabendo também a ela transmitir à criança uma experiência de perda. Não é à toa, então, que para Hassoun a melancolia evoca o “luto primeiro”, um momento fundador do sujeito, constitutivo do ser. 

Confrontada, pois, com a promoção contemporânea de uma substituição que se faz acompanhar pela valorização de processos psicológicos de normalização em detrimento das diferentes formas de exploração do inconsciente, essa forma particular de melancolia vê acentuar-se o desencadeamento da crueldade e a instalação da marginalidade, a colagem do sujeito com o objeto implicando o puro ódio e a tentativa de destruição desse mesmo objeto. É nessa medida que, de acordo com o autor, o melancólico – esse “objeto-não-separado-quenão- chegou-a-ser” – encontra-se submetido à necessidade de assassinato simbólico daqueles que ama.

Vale observar, contudo, que se a violência característica da perda, do desengano, da desilusão, é frequente desde tempos imemoriais, é possível destacar a presença, na atualidade, de dois tipos de violência: uma destrutiva e outra constitutiva [27] que – é importante que seja salientado – correm o risco de ser sobrepostas por nós, psicanalistas, no trabalho com os nossos analisandos [28]. Somando-se, portanto, à hipótese que fiz avançar acima – ou seja, a ideia de que, em face às características das subjetividades na contemporaneidade, processos constitutivos impõem-se aos sujeitos, tornando-se necessário supor a existência de um “lugar psíquico de constituição de subjetividade” por meio do qual processos fundadores do sujeito possam se dar –, a violência que tal forma particular de melancolia traz consigo só vem reiterar a hipótese da presença de um “desejo de sobrevivência”, de uma urgência em “conquistar uma vida para si próprio”, no bojo dos processos constitutivos.

Com efeito, ao se meter em confusão constantemente, ou ao não se considerar agressiva ou violenta e, em sua aparente passividade – violência silenciosa – perder quase tudo, Maria Madalena pareceria estar, de fato, se empenhando na promoção do assassinato simbólico daqueles que ama, findando por evocar, assim, um momento fundador do sujeito, constitutivo do ser. Em outras palavras, sua violência profunda e silenciosa estaria, aqui, apontando para a necessidade, para a premência da experiência de constituição de um objeto-não-separado- que-deverá-chegar-a-ser. 

Ainda o fundamental: por um lugar psíquico de constituição de subjetividade

Assim é que, de forma suscinta, ao considerar os desafios com que se confronta a psicanálise na atualidade, no que se refere à constituição da subjetividade, o que os analisandos pedem ao analista parece ser, justamente, a constituição de um novo aparelho psíquico [29]. Distinguindo- se de uma estratégia analítica pautada puramente no deciframento, aqui, a interpretação – e a construção, fundamentalmente – levam os analisandos à (re)descoberta e à (re)construção do Édipo, à medida que parte fundamental do trabalho analítico se constitui menos como um trabalho de dissolução do que de construção.

Ao resgatarmos os desenvolvimentos que avancei acima, contudo, considerando-se o primado do registro econômico na metapsicologia freudiana, é fundamental que ainda outra distinção seja feita, caso desejemos chamar a atenção para a especificidade de um modus operandi que promova o estabelecimento – ou restabelecimento – das variáveis instauradoras do conflito psíquico, em uma estrutura em permanente constituição.

De fato, referindo-se ao conceito desenvolvido por Freud nos anos 1930, Joel Birman observa que, se a crença do sujeito na sua imortalidade e o saber sobre a sua mortalidade ancoram-se na construção do registro narcísico do eu mediante o qual o sujeito procura recusar e silenciar o seu desamparo originário, a morte seria compreendida aqui como uma possibilidade real, e não apenas simbólica, a construção do sujeito nos registros imaginário e simbólico sendo a maneira de controlá- la como possibilidade efetiva. Como conseqüência, “se como valor a morte é originária, e não derivada, na condição humana, em função mesmo dos pressupostos da prematuridade, da incompletude vital e da longa dependência do outro, isso nos revela que a marca fundamental do sujeito é o desamparo”. Entretanto, será exatamente aqui que a distinção entre nossos desenvolvimentos operará a diferença uma vez mais, à medida que, para o autor, o conceito de desamparo (Hilflosigkeit) e a noção de feminilidade seriam duas faces de uma mesma moeda.

É verdade, Birman entende que, ante o impacto pulsional, as posições figuradas pelos masoquismos moral e feminino proporcionariam certa proteção ao sujeito, de modo a se esquivar da angústia produzida pelo desamparo por meio da colagem a um outro, ao emprestar, de maneira humilhante, o seu corpo para o gozo deste. O masoquismo seria, pois, uma figura fundamental do psiquismo, por meio da qual o sujeito evitaria a experiência do desamparo. A feminilidade se constituindo, então, na outra face do desamparo e justo o oposto do masoquismo, uma vez que, da perspectiva da experiência desejante, a feminilidade se constituiria como um traço que se inscreve no registro da falta e do vazio, e que se encontra no cerne da experiência do desejo.

Transcendendo a diferença de sexos, ultrapassando a oposição entre as figuras do homem e da mulher, uma vez que na psicanálise as figuras do homem e da mulher, do masculino e do feminino, foram construídas de acordo com a lógica fálica, a feminilidade seria “a forma crucial de ser do sujeito, pois sem a ancoragem nas miragens da completude fálica e da onipotência narcísica, a fragilidade e a incompletude humanas (seriam) as formas primordiais de ser do sujeito” [30], o “estilo de ser” desdobrando-se na feminilidade. Uma vez realocada, então, a feminilidade como o eixo fundamental do erotismo, ou seja, a revelação do que existe de erógeno no desamparo, a sua face positiva e criativa, seria por meio da feminilização do desejo que o erotismo se tornaria possível, ao revelar para homens e mulheres a incompletude que perpassa seus corpos. Ressituando, assim, a diferença sexual e a diferença de gênero num limiar em que não é mais o falo que está em questão, seriam as oposições referentes à lógica fálica – ter/não ter e ser/não ser o falo – que a feminilidade colocaria em questão para ambos os sexos, dando corpo à radicalidade do desejo.

É fundamental salientar, no entanto, que Lacan já observara, em 1958, que “o falo como significante não cai do céu (…). Para ele converge, mais ou menos, o que aconteceu durante a captação do sujeito humano no sistema significante, visto que é preciso que seu desejo passe por esse sistema para se fazer reconhecer, e que é profundamente modificado por ele. Esse é um dado experimental: o falo, não o encontramos a todo instante em nossa experiência do drama edipiano, tanto em sua entrada quanto em suas saídas” [31].

Assim, se a subjetividade funciona e se regula pela divisão entre a crença e o saber no que se refere à mortalidade – tal modalidade de funcionamento constituindo uma forma de reação e de oposição originária do ser à experiência da morte –, se as subjetividades contemporâneas configuram o esfacelamento do registro narcísico do eu, o desamparo e a feminilidade não se constituirão como duas faces de uma mesma moeda, como considera Birman, mas de moedas distintas. A distinção fundamental entre nossos desenvolvimentos residindo no fato de que o falo é, aqui, tomado numa certa função subjetiva que precisa desempenhar um papel significante – ou seja, é preciso que o “desejo” passe por um sistema para se fazer reconhecer.

De forma sucinta: todos os caminhos não levam a Roma. O fato é que, para que as características das subjetividades na contemporaneidade ocupem o primeiro plano de uma dinâmica psíquica – ou seja, para que se configure, a priori e especificamente, o esfacelamento do registro narcísico do eu, sem que isso figure uma psicose ou perversão, pertencendo à e permanecendo na esfera do que consideramos neurose, como destaquei acima –, a modalidade de constituição de um “sujeito dentro de si” deverá com necessidade ter sido instaurada anteriormente.

Resgatemos, então: se somente quem se sabe mortal e finito poderá permitir-se a existência acidentada do desejo sem ser tomado pelo temor e pelo horror da morte, escarçando ainda mais a minha hipótese anterior, desejo sugerir que será o masoquismo primário aquele a ocupar a face reversa do desamparo, ambos se constituindo em duas faces distintas de uma mesma moeda.

O masoquismo primário porta consigo uma função constitutiva [32]

Desamparo e masoquismo primário seriam, portanto, as duas faces distintas da mesma moeda. Isso porque, se, no masoquismo, o sujeito narcisista é, por meio da identificação, substituído por um outro eu, estranho, resultando na finalidade passiva de ser objeto, será por meio da identificação primária – correlativa à formação do ideal, uma vez que constitui o eu e suas clivagens – que encontraremos um modelo de constituição de um momento fundador do sujeito, constitutivo do ser. O fundamental reside no fato de que, ao reinstaurar o autoerotismo – ou seja, ao reinscrever, ou reativar, os destinos pulsionais de transformação da atividade em passividade e/ou o retorno sobre o próprio corpo, anteriores ao recalque –, o masoquismo primário porta consigo uma função constitutiva. 

Com efeito, no que se refere às subjetividades e características sócio- históricas contemporâneas, será à medida que a colagem do sujeito com o objeto implique a sua submissão à necessidade de assassinato simbólico daqueles que ama – reiterando a presença de uma urgência em “conquistar uma vida para si próprio” – que, ao tomar o próprio eu como objeto de satisfação sem o qual o sujeito ficaria entregue ao exercício da pulsão de morte não erotizada, o masoquismo primário trará, em seu cerne, uma violência constitutiva [33].

Assim, a instauração de um lugar psíquico de constituição de subjetividade que tenha como função a constituição de um objeto-não-separado- que-deverá-chegar-a-ser – dado pelo restabelecimento das variáveis instauradoras do conflito psíquico, por meio de operadores simbólicos que ordenem uma função estruturante – está diretamente relacionada à nossa condição de repensarmos o lugar e a função do psicanalista na clínica contemporânea. Dito ainda de outra forma, e uma vez mais, é no momento mesmo em que o nosso saber é interrogado por uma experiência-outra – e não ao contrário – que a psicanálise se constitui como locus em que a alteridade poderá se inscrever como tal. Uma leitura ética da descoberta psicanalítica institui-se no momento mesmo em que a própria psicanálise não se permite tudo, toma a si como objeto de reflexão e, do bojo mesmo de sua insuficiência e incompletude, torna-se, então, apta a produzir uma base discursiva que confira significado à impossibilidade de gozo.


Notas
1. J. Baudrillard, Tela total. Mito-ironias do virtual e da imagem, Porto Alegre, Sulina, 1997, p. 53.
2. Cf. E. Roudinesco, (1999) Por que a psicanálise?, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2000.
3. Cf. S. Freud, (1915) “La represión”, in S. Freud, (1955) Sigmund Freud – Freud Obras Completas, Buenos Aires, Amorrortu Editores (A. E.), 1989, vol. XIV, p. 135-152; e (1915) “Lo inconciente”, in A. E., vol. XIV, 1989, p. 153-214.
4. Cf. S. Freud, (1908) “Sobre las teorías sexuales infantiles”, in A. E., vol. IX, 1989, p. 183-202; e (1909 [1908]) “La novela familiar de los neuróticos”, in A. E., vol. IX, 1989, p. 213-220.
5. Cf. G. Bartucci, (2004) “A fragilidade absoluta”. Dossiê “Os rumos da psicanálise”. Revista CULT, ano VI, no 77, São Paulo, fevereiro de 2004, p. 44-47.
6. Cf. S. Freud, (1908) “La moral sexual ‘cultural’ y la nerviosidad moderna”, in A. E., vol. IX, 1989, p. 159-181; (1921) “Psicología de las masas y análisis del yo”, in A. E., vol. XVIII, 1989, p. 63-136; e (1927) “El porvenir de una ilusión”, in A. E., vol. XXI, 1989, p. 1-55.
7. Cf. S. Freud, (1930 [1929]) “El malestar en la cultura”, in A. E., vol. XXI, 1989, p. 57-140.
8. Cf. J-F. Lyotard, (1979) O pós-moderno, Rio de Janeiro, José Olympio, 1986.
9. Cf. G. Debord, (1967) A sociedade do espetáculo; (1979) “Prefácio à quarta edição italiana de A sociedade do espetáculo”; (1988) Comentários sobre a sociedade do espetáculo; (1992) “Advertência da edição francesa de 1992”, Rio de Janeiro, Contraponto, 1997.
10. J. Baudrillard, op. cit., p. 59; (2003) “O outro lado da matéria-prima da dor”, Caderno “Mais!”, Folha de São Paulo, São Paulo, 2 de novembro de 2003, p. 3; e (1997) op. cit., p. 130.
11. Cf. G. Bartucci, (2004) op. cit.
12. J. Birman, Mal-estar na atualidade, A psicanálise e as novas formas de subjetivação, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1999, p. 165.
13. J. Birman, Estilo e mordernidade em psicanálise, São Paulo, Editora 34, 1997, p. 60, p. 10 e p. 37.
14. Cf. J. Birman, Por uma estilística da existência, São Paulo, Editora 34, 1996.
15. Cf. E. Hobsbawm, (1994) Era dos extremos. O breve século XX: 1914-1991, São Paulo, Companhia das letras, 1995.
16. Cf. G. Bartucci, (1999a) “Psicanalítica freudiana, escritura borgiana: espaço de constituição de subjetividade”, in M. Cid; C. C. Montoto (orgs.), Borges Centenário, São Paulo, Educ, 1999, p. 125- 143; e (1999b) “Entre o mesmo e o duplo inscreve-se a alteridade: psicanálise freudiana e escritura borgiana”, in G. Bartucci (org.), Psicanálise, Literatura e Estéticas de Subjetivação, Rio de Janeiro, Imago, 2001, p. 369-385.
17. M. Safouan, Le Structuralisme en psychanalyse, Paris, Seuil, 1968, p. 17; tradução da autora.
18. Cf. S. Freud, (1923 [1922]) “Dos artículos de enciclopedia: ‘Psicoanálisis’ y ‘Teoría de la libido’”, in A. E., vol. XVIII, 1989, p. 227-254.
19. Cf. S. Freud, (1913 [1912-1913]) “Tótem y tabú. Algunas concordancias en la vida anímica de los selvajes y de los neuróticos”, in A. E., vol. XIII, 1989, p. 1-162.
20. Cf. E. Enriquez, (1983) Da horda ao Estado. Psicanálise do vínculo social, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1990.
21. Cf. J. Laplanche; J-B. Pontalis, (1985) Fantasia originária, fantasias das origens, origens da fantasia, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1988.
22. Cf. S. Bleichmar, (1999) “Entre la producción de subjetividad y la constituición del psiquismo”. Revista Ateneo Psicoanalítico: Subjetividad y propuestas identificatorias. Buenos Aires, nº 2, 1999.
23. R. Sennett, (1988) A corrosão do caráter. Conseqüências pessoais do trabalho no novo capitalismo, Rio de Janeiro, Record, 2001, p. 10.
24. R. Sennett, op. cit., p. 33, p. 102, p. 175.
25. Cf. G. Bartucci, (1999a); (1999b) op. cit.
26. Cf. J. Hassoun, (1995) A crueldade melancólica, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2002.
27. Desenvolvo essa hipótese em maior profundidade em minha tese de doutoramento, intitulada Psicanálise e contemporaneidade: por uma clínica diferencial das neuroses, 2004, inédita.
28. Cf. G. Bartucci, (1998) “Transferência, compulsão à repetição e pulsão de morte”, Percurso, Revista de Psicanálise, São Paulo, ano X, no 21, segundo semestre de 1998, p. 43-49; e (2001) “Entre a compulsão à repetição e a repetição transferencial, inscreve-se a pulsão de morte”, Cadernos de Psicologia, Belo Horizonte, Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), vol. 10, nº 1, 2001, p. 153- 171.
29. Cf. também J. Kristeva, (1993) As novas doenças da alma. Rio de Janeiro, Rocco, 2002.
30. J. Birman, Cartografias do feminino. São Paulo, Editora 34, 1999, p. 162, p. 53.
31. J. Lacan, (1958, 19 de março) “As insígnias do ideal”, in J. Lacan, (s/d) O seminário: As formações do inconsciente – 1957-1958. Livro 5. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1999, p. 299.
32. Ainda que essa hipótese de trabalho já tenha sido avançada por mim em ensaios anteriores, e com distintas formulações, terá sido em minha tese de doutoramento que explicitei o modus operandi envolvido nessa dinâmica constitutiva. Cf. G. Bartucci, Psicanálise e contemporaneidade: por uma clínica diferencial das neuroses, 2004.
33. Id.


Fonte: Revista Percurso, 2005

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