quinta-feira, janeiro 12, 2017

A LÓGICA DO TRATAMENTO





A LÓGICA DO TRATAMENTO DO PEQUENO HANS SEGUNDO LACAN
Jacques-Alain Miller

Dediquei-me, durante o mês passado, a terminar a redação em francês do Seminário IV de Lacan, a relação de objeto. E para concluir este trabalho, que acabei um pouco antes de vir a Buenos Aires, pretendo lhes oferecer hoje uma introdução à leitura e ao estudo desse Seminário. Deu tudo certo. Nenhum tema, ao que me parece, convém melhor como abertura às nossas jornadas sobre a Lógica do tratamento. Retornar ao Seminário ministrado por Lacan em 1956 e 1957 significa retornar ao momento do nascimento de uma noção de lógica do tratamento. De fato, a metade deste Seminário elabora o tratamento do pequeno Hans e essa elaboração se faz a partir de uma perspectiva lógica, a tal ponto que ele termina com os primeiros ensaios do que Lacan denomina como lógica de borracha; reencontramos esta expressão no Seminário e me pareceu que ela merecia ser o título de um dos últimos capítulos (Lacan, 1998, p. 524). Uma lógica elástica como a topologia, uma lógica que seria suficientemente flexível para acompanhar as produções fantasmáticas do sujeito, do pequeno Hans, e formalizar as diferentes etapas de sua investigação. Eu acredito que esta perspectiva elabora, efetivamente, uma lógica suficientemente flexível para acompanhar as produções fantasmáticas. Isto constitui a essência do problema que vamos abordar durante estas jornadas.

Vamos tentar falar precisamente. O que significa “lógica do tratamento”? Para elaborar um pouco mais este significante, é útil, como sempre, opô-lo. Proponho a seguinte oposição para situar o significante lógica do tratamento: lógica do tratamento diz uma coisa diferente de estrutura do discurso. Proponho que reflitamos sobre a oposição, sobre a articulação da lógica do tratamento e da estrutura do discurso. Este será o primeiro dos três temas que vou abordar.

A estrutura do discurso, para retomar o significante introduzido por Lacan em O avesso da psicanálise (1968-70), refere-se às coordenadas fundamentais que tornam possível o tratamento psicanalítico em si mesmo. A estrutura do discurso analítico que Lacan deu neste Seminário é, na realidade, muito conhecida. Em resumo, é uma fórmula que utilizamos em nosso trabalho, é uma forma de escrever a estrutura do discurso analítico.
A primeira forma proposta por Lacan da estrutura do discurso se encontra no esquema L, construído ao longo dos três primeiros anos de Seminário, e que ele relembra ao começar seu Seminário, Livro IV: A relação de objeto (1956-57). No esquema em forma de Z, vocês se lembrarão dos quatro termos que lá figuram. É uma outra forma que Lacan deu à estrutura do discurso, que figura sob uma forma mais completa em seu escrito “A carta roubada”, publicado durante o ano de seu Seminário IV; Lacan o comenta na ocasião. Estes dois esquemas são muito populares (muito conhecidos?), muito úteis (o constatamos com o passar do tempo), nos dão uma formalização sincrônica da situação analítica, uma formalização que poderíamos chamar de estática.

A tentativa de Lacan no Seminário IV é diferente. Notemos que é uma tentativa inacabada. É uma tentativa, um esboço eu diria, de formalização dinâmica, de formalização diacrônica, isto é, uma tentativa de não só escrever as coordenadas permanentes, fundamentais do tratamento, mas também de formalizar, o que é dito no tratamento, o transitório do que é dito, de formalizar o que se passa, de formalizar o que acontece, não só a estrutura. Formalizar de uma certa maneira os eventos do dito no tratamento, quer dizer que a noção central com a qual Lacan trabalha é a da estrutura com suas transformações, sim, da estrutura, mas com suas transformações.

Conhecemos essa noção sob a forma da estrutura permutável, por exemplo em O Seminário, O avesso da psicanálise. Nós sabemos que estes termos podem trocar de lugar, mas que essa troca não permite formalizar o final do tratamento analítico, dado que são – segundo o próprio Lacan – trocas que nos fazem sair do discurso analítico, que permitem situar os outros discursos. É uma estrutura com suas transformações e permutável, mas cujas permutações a retiram do domínio analítico. Ao contrário, encontramos no Seminário IV de Lacan – e, acredito que em mais nenhum lugar, sob essa forma – uma tentativa, eu diria, de dinamizar o esquema L, isto é, de utilizar o esquema L ao menos para formalizar a mudança de posição subjetiva de um ponto de vista clínico. 

Lacan o faz nesse Seminário, logo de início, a respeito da jovem homossexual de Freud, que ocupa três lições, e é um nó deste Seminário. Há diversas razões que justificam sua presença. Lacan formaliza a história clínica da paciente relatada por Freud, a partir de transformações permutáveis no esquema L, isto é, segundo o próprio Freud, podemos observar na história clínica anterior à análise, uma mudança de posição subjetiva, uma mudança de escolha de objeto, após o nascimento de um irmão. De tal forma que, segundo Freud, isso acentua um antes e um depois do caso. Anteriormente, seu objeto era um filho imaginário, recebido do pai, encarnado no filho da vizinha, isto é, no lugar do objeto, no ângulo superior do esquema Z, encontramos este filho, esta criança imaginária, e em seguida, o objeto muda e vemos aparecer diversas mulheres de tipo maternal, e finalmente, uma mulher, objeto de um amor sublimado, sacrificado. De tal maneira que, nesse mesmo lugar, podemos inscrever primeiramente uma criança imaginária e em seguida uma mulher real, como diz Lacan. É a utilização, a tentativa de formalizar não somente uma estrutura estática, mas também etapas, isto é, obter a formalização da história clinica de um caso a partir desse desenho formalizado. Não é a única ocasião em que se encontra isso neste Seminário IV, Lacan volta a fazê-lo mediante outro texto de Freud que também se presta a essa ideia de estrutura com suas transformações. Ele volta sua atenção para o texto de Freud “Bate-se numa criança” (1919), onde o próprio Freud apresenta este fantasma como resultado de suas transformações. “Meu pai bate numa criança que eu odeio”, “o pai me bate”, e na terceira forma, “bate-se numa criança”.

Aqui, podemos realmente escrever uma seta de transformação que permite passar de uma fórmula à outra, sem chegar, talvez a formalizar essas três etapas do esquema. Lacan não tenta, mas isso nos mostra uma segunda tentativa de seguir as transformações de uma formação do inconsciente. É necessário articular o fato de que alguma coisa permanece constante, e que ao mesmo tempo, alguma coisa muda. O que é que permanece constante? São os lugares, as relações, e as relações entre os lugares. O que muda são os termos que ocupam esses lugares. E, como eu já mencionei, essa inspiração, aventada em O Seminário, O avesso da psicanálise, já inspira o Seminário IV de Lacan. Toda a ideia de que houve uma revolução lógica em Lacan nos anos sessenta, nada mais é que uma má leitura de Lacan. Esta inspiração lógica e estruturalista com transformações já está toda presente aqui.

É o que nos permite dizer que justamente na estrutura, a transformação é uma permutação, que falar de permutação é a tentativa, a maneira de dinamizar a estrutura, e eu diria, uma certa solução estrutural da articulação do um e do múltiplo; os lugares são fixos, e, com a permutação dos termos, obtemos variáveis. Como isso termina, se há lugares e termos que se permutam nesses lugares? O problema, justamente, é que temos a impressão de que isso nunca termina. Se o vocabulário é limitado, se os termos são em quantidade limitada – nesse caso, são limitados a quatro termos – há uma circularidade: podemos continuar a revezar os termos nos locais, e a circularidade é infinita. Não há nenhum princípio de estancamento em uma estrutura com tão grande permutabilidade. Se o vocabulário é potencialmente ilimitado, se existe muito mais do que quatro termos e as letras do alfabeto, se o vocabulário se estende, por exemplo, como a cadeia dos números, então a permutação não para nunca. Temos um exemplo disso nas Mitológicas de Lévi-Strauss. Ele estuda a estrutura e suas transformações dos mitos americanos de uma pequena parte da América do norte e um pouco da América do sul e, para tanto precisa de quatro volumes para mil mitos, que são apenas uma pequena seleção no conjunto dos mitos e suas possíveis variantes.

Temos outro exemplo, quando Lacan, no seminário sobre “A carta roubada”, constrói uma estrutura com permutações de mais (+) e de menos (-): ele nos apresenta um funcionamento circular no qual não há nenhuma razão para parar e justamente, ele o apresenta para ilustrar o infinito da repetição e de uma repetição indestrutível. Isto constitui um problema inicial quando tentamos pensar a lógica do tratamento a partir de uma estrutura com transformações. Por quê? De onde virá o princípio de um termo e um final que não seja acidental ou ligado ao cansaço?

Para poder pensar uma lógica do tratamento nestes termos, é necessário primeiramente pensar que para um sujeito há um número limitado de significantes que se permutam, ou, ao menos um número limitado de significantes essenciais que se permutam. Em segundo lugar, é preciso pensar, nesta perspectiva, que quando todas as permutações forem realizadas, haverá uma mudança qualitativa. De forma que possamos dizer: “não há mais, e pronto”. É preciso supor um efeito da soma, e, ademais, um efeito da soma subjetivada. É neste sentido que se poderá legitimamente dizer: “conclusão”.

Referir a lógica da cura a uma estrutura com transformações, é muito diferente de referi-la a uma dedução linear, como uma linha desde as premissas até a conclusão, onde podemos chegar em um dado momento, como na conclusão de um argumento. Isto não é uma referência a um argumento, supõe um processo onde o quod erat demonstrandum não pode chegar, a não ser se for para fixar o absurdo. Isto quer dizer que se isso acontece em uma estrutura com transformações, é necessariamente uma demonstração pelo absurdo, isto é, por um “não há”, não se trata de uma demonstração positiva.

É exatamente o que diz o resumo da pesquisa sobre Hans que escreveu Lacan em seu texto “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud” (1957), no mesmo ano do Seminário do pequeno Hans. Há aí dois parágrafos importantes, que eu acho que todos devem conhecer aqui, pois é destes dois parágrafos que eu pincei a expressão “resolução curativa” (1998, p. 524) que foi utilizada como tema do condensado argentino para o Encontro Internacional sobre Conclusão do Tratamento. Lacan diz lá que “O Pequeno Hans [...] desenvolve, [...] sob uma forma mítica, todas as permutações possíveis de um número limitado de significantes” (1998, p. 519). O que se obtém é a solução do impossível, a saber, que a demonstração que traz o tratamento concebida a partir da lógica do tratamento releva da demonstração pelo absurdo: ela se conclui por um “não há”, por um “não é o caso colocado na hipótese”.

Esta tem sido a orientação fundamental de Lacan desde seu estudo do tratamento do pequeno Hans. A transformação da impotência em impossibilidade, como ele a formulará nos anos setenta (1969-70) já está presente nesse Seminário IV. Lá encontramos também inscrita a formulação do fim da análise como percepção, subjetivação do “não há relação sexual”. E também a travessia do fantasma, pois, no pequeno Hans, seguimos as permutações fantasmáticas mesmo que não possamos situar uma travessia do fantasma.

O problema nessa perspectiva do tratamento, que chamamos de lógica do tratamento, ainda é a repetição. Como cessa a repetição? Como se conclui o fato de que o inconsciente como tal, repete? Em que medida a repetição para, é a questão da conclusão do tratamento, se levarmos o termo conclusão a sério. A questão da conclusão do tratamento, no meu ponto de vista atual, deve estar ligada à repetição. Em que medida cessa a repetição, em que medida o tratamento permite eliminar a repetição? Em que medida a conclusão do tratamento tem uma incidência na repetição do significante como repetição de gozo? Há algo inacabado no Seminário IV. Há somente um esboço da lógica, de uma lógica do tratamento.

É uma questão para nós saber se é uma via a retomar ou se há obstáculos fundamentais que impedem que se vá à direção de uma lógica do tratamento distinta da estrutura do discurso. Lacan esboça uma lógica do tratamento e nós podemos dizer que é o único esboço de lógica do tratamento, propriamente dito, em Lacan. Houve dois rebentos no ano seguinte. Primeiramente, a metáfora paterna, a fórmula da metáfora paterna tal qual ela figura no famoso escrito “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”, que é a colocação por escrito dos resultados obtidos por Lacan a partir do tratamento do pequeno Hans que ele escreveu no ano seguinte, em dezembro de 1957 e janeiro de 1958. Evidentemente, este escrito trata do tema do Seminário III sobre a psicose. O caso do presidente Schreber retira toda sua formalização do caso do pequeno Hans. Lacan utiliza também o esquema L da estrutura do discurso para dar-lhe o estatuto de estrutura clínica, e quando ele transforma seu esquema L em esquema R, ele passa de um esquema de estrutura do discurso a um esquema de estrutura clínica. Além disso, ele formula a metáfora paterna propriamente dita, que escreve a relação do sujeito com a mãe, transformada pela inclusão do significante de pai.

Podemos dizer que no ano seguinte, no Seminário V, As formações do inconsciente, que ele já anunciara no ano do pequeno Hans, a construção de Lacan sobre o Witz surgiu dos Witz do pequeno Hans. No ano seguinte, ele elabora o grafo do desejo, que é também uma estrutura com transformações, e que dá alguma coisa – apesar de estar distante da experiência – de uma lógica do tratamento. Em todo caso, ele distingue um nível 1 do tratamento, de um nível 2, e nós podemos dizer que o nível 1 é concluído com o significante da identificação I(A), e que o nível 2 se conclui com o significante da inconsistência do Outro, S (A).

De certa maneira, esse grafo do desejo é uma transformação do esquema L de Lacan, isto é, ele articula a estrutura da intersubjetividade – intersubjetividade complexa, imaginária e simbólica, que existe nesse esquema – com a estrutura do significado e do significante, e ele combina, se é que podemos dizer isso, os dois. De tal forma que, se devêssemos resumir a lógica do tratamento apresentada por Lacan através do grafo do desejo, seria com esta fórmula: o tratamento é fundamentalmente a transformação de A em A ou também, a passagem do imaginário ao simbólico.

É assim que poderíamos resumir o tratamento do pequeno Hans, como um processo de simbolização. Vale a pena parar um momento para uma reflexão a este respeito, pois é o único momento em Lacan que temos uma lógica do tratamento que seja mais do que uma bela expressão, mas de fato um trabalho baseado em um tratamento. Trata-se de um processo de simbolização sobre um elemento essencial: o falo. Poderíamos, por conseguinte, resumir o tratamento do pequeno Hans da seguinte maneira: do falo imaginário ao falo simbólico, e poderíamos situar o momento exato da doença do pequeno Hans, ou de seu sintoma, seja na aparição do falo como elemento real, seja em seu gozo fálico, seja na aparição de sua irmã menor, que são os elementos que desestabilizam sua posição. Poderíamos dizer também, mesmo que Lacan não empregue este termo no Seminário, que a fórmula da lógica da cura é também do phallus imaginário ao phallus simbólico. É somente depois do Seminário VIII, sobre A transferência, que Lacan utilizará o símbolo φ.

O privilégio do tratamento do pequeno Hans é que ele é, praticamente, uma cura por excelência. Há um sintoma perfeitamente manifesto e este sintoma desaparece. Há cura. O sintoma fóbico desaparece. Há resolução curativa. O tratamento do pequeno Hans, mesmo tendo interesse para nós como um exemplo único, tem entretanto um limite, no nível do que podemos dele extrair; nesse caso, a lógica do tratamento se confunde com a elaboração da metáfora paterna; é dizer que nesse caso, no caso de uma análise infantil, a lógica do tratamento é idêntica à metáfora paterna. Ocorre que nesse tratamento, para cuidar do sintoma fóbico, o poder simbólico do significante pai substitui o poder imaginário da mãe. Pode-se dizer também, segundo a opinião de Lacan, que no caso do pequeno Hans a metáfora paterna não se constitui de forma plena, mas de forma oblíqua, desviada. Todavia, poder-se ia dizer que, se se tratasse de uma cura analítica propriamente dita, ela deveria ter começado após - após a resolução curativa obtida nesse caso, para restabelecer o equilíbrio – a orientação desta metáfora paterna desviada do pequeno Hans. Evidentemente, quando nós dizemos que iremos, na pratica analítica, além do Édipo, o que nós dizemos é justamente que nós podemos tomar a lógica do tratamento do pequeno Hans como modelo da lógica do tratamento propriamente dito. A importância do Seminário IV se observa no fato de que neste Seminário, segue-se a Freud em “Inibição, sintoma e angústia”, Lacan diz que o sintoma fóbico tem o papel do Nome-do-Pai e é somente um tempo para compreender, para chegar a formular que o Nome-do-Pai não é mais do que um sintoma. Quinze anos foram necessários para chegar a essa formulação, mas, desde o Seminário IV, temos elementos para deduzi-las. O Nome-do-Pai e o sintoma têm algo a ver um com o outro na medida em que um pode substituir o outro. Nós supomos que, se o Nome-do-Pai é um sintoma, é um sintoma que deve ser qualificado de uma certa maneira para ser distinguido, mas isso não impede que ele possa ser também patológico. A posição de Lacan neste Seminário é de que o pequeno Hans elabora um pequeno Nome-do-Pai.

Com isso, eu passo ao segundo tema. O segundo tema, que não trata de lógica propriamente dita, trata da mãe. A mãe é o personagem central do Seminário IV. Existe um preconceito segundo o qual Lacan não diria nada sobre a mãe e que o lacanismo teria sido empregado para restabelecer a função do pai. Não! O Seminário IV, do início ao fim, é uma teoria da mãe. Devo dizer que esta convicção orientou-me, por exemplo, na escolha da ilustração da capa da edição francesa, que não é o cavalo evidentemente. O cavalo está presente como significante. Ademais, Lacan - trata-se de um excursu - se refere no Seminário ao cavalo que figura no quadro de Ticiano, de Venus e Vulcano com um cavalo. Verifiquei em todos os catálogos de Ticiano e acredito que se trate, na realidade de um quadro de Veronese que se denomina Vênus e Marte ligados por Eros. Neste quadro existe, de fato, bem no fundo, um cavalo e um pequeno anjo, um pequeno Eros que tenta equilibrar-se sobre o cavalo, signo fálico codificado. Isto teria sido uma bela capa, é um quadro doce, mas, não me pareceria que seria necessário ilustrar o cavalo em primeiro lugar e, além de tudo, esse Seminário é tudo menos doce. Não vou dizer lhes qual foi a capa que escolhi, pois isso ainda não foi feito. Veremos

Foi o tema da mãe que unificou a pesquisa naquele ano. E se não é tão fácil ver a trajetória lógica de Lacan, não a lógica do tratamento, mas a lógica do Seminário propriamente dito. Se fosse necessário determinar qual é o fio que corre ao longo deste Seminário, desde o início, e que condiciona tudo o que Lacan escolhe como exemplo, eu diria que se trata das consequências clínicas terríveis da sexualidade feminina para qualquer sujeito no sentido em que cada sujeito é filho de uma mãe. Ao centro deste Seminário, há aquilo que, no centro da metáfora paterna, Lacan designa como DM, desejo da mãe, e, como saliento frequentemente, este Desejo da mãe, com um D maiúsculo, não é o desejo da mãe que conhecemos desde As formações do inconsciente que Lacan elaborará no ano seguinte, não se trata deste desejo correlativo da demanda, que é essencialmente o espaço entre o significante e o significado. Em O Seminário IV, eu posso dizer que se vê o momento em que surge, provavelmente, o termo demanda para Lacan, quando ele se dá conta de que em inglês, a exigência se diz demand, também utilizável para apetite.

O desejo em As formações do inconsciente é a parte que resta fora da interpretação, de tal forma que Lacan pode concluir disso que o desejo, segundo sua interpretação, não é o DM, o desejo da mãe, mas sim uma outra coisa. Ele se refere ao desejo da mãe enquanto mulher. Isto quer dizer que ele se refere à castração feminina, seja à mãe enquanto sujeito correlato de uma falta, não uma falta de ser mas, de fato, uma falta de objeto. Isto é a primeira parte do Seminário que intitulei “Teoria da falta de objeto”, que Lacan opõe à maioria dos teóricos da relação de objeto. Ele o elabora com as diferentes modalidades dessa falta: a castração, a frustração, a privação. Creio que conhecemos muito bem este mecanismo, a construção deste quadro.

Mas qual é sua finalidade neste Seminário? Trata-se de desenvolver a tese, segundo a qual, é determinante para um sujeito a relação da mulher com sua falta, que poderia se escrever assim: S ◊ (- ), relacionada à falta, não qualquer uma, mas aquela que se escreve (- ). A questão que Lacan trabalha neste Seminário, a questão fundamental da psicanálise da criança, é de saber como ela se inscreve nessa relação. Por que não poderíamos escrever, desta vez, o sujeito criança articulando-o com a articulação do sujeito feminino com sua falta: Sc ◊ (Sm ◊ (- ))? É por isso que a elaboração teórica fundamental da primeira parte é a da frustração. É certo que se trata da frustração da criança em relação à mãe, e Lacan dá uma nova elaboração ao Fort! Da!, pois o fort-da que Lacan utilizou no Seminário IV para demonstrar que sob a repetição, há a frustração do sujeito. Mas, além da frustração do sujeito-criança, a frustração da mãe enquanto mulher percorre todo esse Seminário.

Estamos habituados à outra face da sexualidade feminina que é o suplemento, o mais-de-gozar. Mas no Seminário IV, a outra face é a insatisfação, segundo Lacan, a insatisfação constitutiva do sujeito mulher. É nesse sentido que o capítulo central deste Seminário, o capítulo XI, eu denominei: “O falo e a mãe não-realizada” (1956-57, p. 179).

A mãe lacaniana corresponde à formula quaerens quem devoret , ela procura alguém para devorar; Lacan a apresenta a seguir como o crocodilo, o sujeito com a boca aberta. De tal maneira que, sob o conjunto do mecanismo do quadro e de suas permutações, o elemento central é o devoramento, a relação oral com a mãe enquanto devoramento, devorar a mãe e ser devorado por ela. No complexo do cavalo, ou complexo dos cavalos, o elemento que parece à Lacan merecer um matema, é a mordida, a tal ponto que Lacan o indica com uma matema “m”. Este está igualmente presente em tudo aquilo que concerne ao casco do cavalo e Lacan mostra que a palavra “casco” (1956-57, p. 335) designa ao mesmo tempo a pinça ou as tenazes. Em consequência, a questão infantil, tal qual Lacan a situa (é quase possível dizer a questão infantil como se fala da questão histérica ou da questão do obsessivo) é de saber como saciar o desejo da mãe ligado a sua falta. Há muitas transformações que Lacan situa nesse Seminário, mas a transformação que me parece central, muito esclarecedora, é a da mordida da mãe no fechamento da torneira da banheira (1956-57, p. 331 e 341). Como o diz Lacan? Ele diz que o desmonte, o banho do pequeno Hans que é interrompido pelo fechamento da torneira nem dado momento, é quase o que encarna a passagem do imaginário ao simbólico. Assim como o diz Lacan – esta é a única citação que eu farei – “não é a mesma coisa morder gulosamente a mãe, apreensão de seu significado natural, até mesmo de temer, em retorno, esta famosa mordida que encarna o cavalo – ou de desaparafusar a mãe, soltar-lhe as engrenagens, mobilizá-la neste assunto, fazer com que ela entre também no conjunto do sistema, e, pela primeira vez, como um elemento móvel e ao mesmo tempo, equivalente aos outros.” (Ibid., p. 405).

Podemos dizer que o ponto mais avançado que o pequeno Hans conseguiu atingir é, devemos admitir esta fórmula assim – a transformação da mordida no fechamento da torneira da banheira. Isto quer dizer que a mãe, com sua potência opaca, ameaçadora, que parte, que vai e que volta (e com ela se vai toda a casa, é esse o temor do pequeno Hans), essa partida ameaçadora da mãe, transforma-se no desmonte de um aparelho que não é toda a casa, que esta banheira lhe dá seu lugar, pois, como o próprio pequeno Hans observa, é o lugar onde, numa banheira que ele ama, seu traseiro encontra seu exato lugar (1956-57, p. 333). Portanto, O Seminário IV, é um seminário sobre a sexualidade feminina. Tendo começado a redigi-lo, eu percebi que, para Lacan, a questão essencial da psicanálise com crianças era a sexualidade feminina. Não se trata da mulher em sua relação com o gozo, trata-se da mulher em sua ligação com o falo, isto é, ao significante fálico que faz dela um ser da falta. E, há evidentemente uma relação entre esta falta fálica e o suplemento de gozo que Lacan fixará muitos anos mais tarde.

Este Seminário é também um Seminário sobre a criança na medida em que a criança é uma solução a esta falta feminina. Lacan se refere, evidentemente, à equivalência, à equação, à Gleichung formulada por Freud, criança = falo. Mas não é nada mais do que uma substituição. Freud, ele próprio, só introduz a criança como substituto ao falo que falta. Justamente, um substituto que não basta, de tal forma que ao lado da metáfora paterna nós podemos escrever a metáfora infantil da mulher, que é uma outra forma da equivalência freudiana criança/- , e que corresponde ao estatuto que Lacan dará, muito tempo depois à criança, de objeto pequeno a. Talvez isto seja visto com mais facilidade quando está escrito: a criança como substituto da falta fálica: E/- . A questão é de saber como a criança descobre que não basta fechar o buraco, como ela descobre que o parceiro de sua mãe como mulher é sua falta, isto é, a falta de falo. É isto que ordena a pesquisa de Lacan. Ele se interroga, em detalhes, como uma criança pode descobrir a relação de sua mãe com o falo e sua própria falta. Não há então primary love no amor recíproco.

De forma similar, Lacan convoca o caso da fobia da pequena inglesa, caso de fobia que se inicia quando a mãe se manifesta diminuída em sua potência, onde o que parece ser o motor em causa é a aparição de sua falta. É assim que se justifica a escolha do caso da jovem homossexual no qual vemos que quando ela é confrontada ao fato de que o filho imaginário do pai, encarnado para ela no filho real da vizinha do qual ela se ocupa, é dado à mãe, uma mudança clínica ocorre que se esclarece com a equivalência freudiana entre a criança e o falo.

É também o que justifica os capítulos que Lacan dedica à perversão, às vias perversas do desejo e ao objeto fetiche, uma clínica onde se vê o sujeito se identificar ao falo da mãe, ou identificando-se à mãe, sobre o eixo imaginário, de tal forma que Lacan apresenta o fetichismo como uma solução possível para a criança que descobre a relação de sua mãe com a falta. Por essa razão, ele situa a prevalência do imaginário nas perversões. A tal ponto que eu me permiti, no último capítulo, colocar em evidência, similarmente à fórmula de Joyce, o sintoma a fórmula de Hans, o fetiche. Hans, o fetiche, não Hans, o fetichista. Ao contrário, e Lacan o situa de maneira muito precisa, há toda uma parte do estudo do pequeno Hans que se refere às calcinhas da mãe, que têm valor numa oposição significante, e que são diferentes se estiverem ou não vestidas na mãe. Quando a mãe não as está vestindo, o pequeno Hans as rejeita. E como o diz Lacan, é a orientação fundamental de que esta criança não será um fetichista, ou pelo menos um fetichista normal, isto é, que para ele o falo será aquele da equivalência girl= falo, situada por Fenichel em um artigo citado por Lacan.

O título do último capítulo “Hans o fetiche”, eu o intitulei exatamente “De Hans-o fetiche a Leonardo-em-espelho”. Lacan termina este Seminário com o caso de Leonardo Da Vinci, de Freud, ao qual ele dá sua versão da inversão de Leonardo, deixando em suspenso a questão de sua inversão sexual, e utilizando este termo para por em evidência a característica prevalente da relação imaginária para Leonardo. É fato que ele tinha por hábito dirigir-se a si mesmo por “tu”, e escrevendo páginas nas quais ele se refere a si mesmo por “tu”. Lacan lembra que da natureza ele fazia, não um grande Outro, mas um outro imaginário e simétrico, de tal forma que ele situa Leonardo em seu esquema Z.

É no caso de Leonardo Da Vinci que encontramos as figuras da “mãe dupla”, da Virgem e Santa Anna, e esta mãe dupla se articula com a dupla mãe do pequeno Hans. É desta forma que Lacan situa o desvio da metáfora paterna em Hans que, no lugar de acessar plenamente o Nome-do-Pai, desdobra a mãe entre sua mãe e a mãe de seu pai, a avó que tem a autoridade. Ele escreve MM, duplo M maiúsculo, esta avó, mãe do pai, lugar da autoridade que faz a lei do pai. Todos os domingos o pai e o pequeno Hans vão visitá-la e é neste traço que Lacan situa a força, a autoridade desta senhora. Temos a dupla mãe de Leonardo, a dupla mãe do pequeno Hans, e também a dupla mãe de André Gide. Quando Lacan lê André Gide, ele reconstrói sua mãe dupla através de sua mãe biológica e sua tia. Há uma série tripla: Hans-Leonardo-André Gide. Através destas considerações, eu estou também completando um pouco o que eu não tive tempo de dizer em meu seminário sobre André Gide, publicado há alguns anos na revista Malentendido. Esta mãe dupla é a fórmula da metáfora paterna desviada, fórmula indicada quando não há foraclusão propriamente dita do Nome-do-Pai, e quando a transmissão do Nome-do-Pai não parece passar pelo pai real, no sentido do real que Lacan utilizava nesta época. Devo dizer que isso me surpreende. Há anos que situamos o aporte de Lacan a respeito da outra mãe na histeria, mas não demos uma importância equivalente à mãe desdobrada, à função da mãe dupla. A mãe dupla não responde a um delírio da criança, mas de fato é uma invenção que lhe permite obter uma derivação feminina do Nome-do-Pai. Evidentemente as consequências não são as mesmas, mas podemos ver no caso de pequeno Hans aquilo que Lacan não hesita em chamar de carência do pai real. No pequeno Hans, há um chamado constante ao Nome-do-Pai, um chamado constante a um pai terrível, muito mais terrível do que este pai doce, que assim que algo lhe é dito corre para referir-se ao professor Freud.

No caso de André Gide, vemos que o pai está presente, mas é um companheiro de jogos. É a figura materna que suportou os imperativos da lei, a autoridade simbólica. As consequências não são as mesmas, Hans vai gostar das mulheres e Gide dos menininhos. Não! A heterossexualidade do pequeno Hans não o impede de permanecer, fundamentalmente, numa posição feminina, à tal ponto em que ele se situa como a filha de duas mães. Já Gide demonstra que goza de seu pênis como uma mulher, transbordando de gozo. Isto nos permite dizer que encontramos a dupla mãe, a cada vez que a metáfora paterna se realiza com os elementos femininos da história do sujeito. O pequeno Hans, segundo Lacan, não sai da dominação, o fio que percorre a procura da relação de objeto é também o do poder da mãe, que uma vez Lacan qualificou como mestre, o mestre-mãe.

É o que resta em sua teoria como mãe real, uma mãe não saciada, mas também todo-poderosa. O apavorante desta figura de mãe Lacaniana é exatamente este caráter todo-poderoso, concomitantemente à sua não realização. Evidentemente, sob esta figura encontramos a figura kleiniana da mãe e, em certo sentido, no Seminário IV encontramos a reelaboração de Lacan da doutrina de Melanie Klein. Isso não se percebe com muita facilidade quando ela está exposta nos Escritos sob a forma da dialética necessidade, demanda, desejo. Mas, no Seminário IV nós temos o esqueleto. Nada mostra melhor este esforço de ligação com Klein do que esse breve momento no qual Lacan tenta tornar compatível seu estádio do espelho com a posição depressiva. É quase cômico. Pois a criança lacaniana do espelho, do estádio do espelho, é totalmente o contrário da criança kleiniana. A criança kleiniana é depressiva, enquanto a experiência fundamental da criança lacaniana é o júbilo, o triunfo no momento em que experimenta a completude de sua imagem e seu domínio sobre sua imagem.

Mas, não compreendemos como uma mãe devorante pode ter um filho triunfante, a tal ponto que Lacan diz que quando a criança encontra sua imagem completa no espelho, é o triunfo. Mas, quando ele encontra a imagem completa sob a forma do corpo materno, ele constata que essa imagem não lhe obedece, de tal maneira que todo o poder materno se reflete como sua posição depressiva. Diante de sua própria imagem, o sujeito pode experimentar um triunfo, mas diante da imagem da mãe ele é fundamentalmente depressivo. O pequeno Hans está muito mais ao lado da criança lacaniana, no sentido de que ele se defende bastante bem, mas, certamente é uma criança sob uma ameaça encarnada pelo cavalo. Podemos então dizer que isto é uma correção kleiniana do estádio do espelho, e eu não ouvi falar nela ter sido utilizada até o presente momento. Lacan corrige também o comentário do Fort-da. Tanto no “discurso de Roma”, no Seminário II, quanto no Seminário sobre “A Carta roubada”, o Fort-da parece ser o exemplo freudiano da introdução do sujeito na ordem simbólica e ele nos apresenta o binário significante mínimo, isto é, o Fort-da, como repetição.

Neste Seminário, Lacan elabora o Fort-da como frustração e o que muda é que não se trata de um funcionamento cego, automático, lógico, de um algoritmo acéfalo, este funcionamento simbólico passa, ao contrário, por um ser, por uma dominação. O Fort-da pode assemelhar-se a um funcionamento unicamente simbólico, onde a criança reproduz no semblante a partida e o retorno da mãe, e num jogo no qual, ao utilizar um objeto qualquer, ele acompanha a aproximação e a desaparição do objeto de uma vocalização binária. É nisso somente que o Fort-da constitui-se numa simbolização da mãe.
Lacan necessita de uma mudança no estatuto da mãe. Quando a mãe não responde, ele diz que ela se transforma em real, isto é, em potência. De sorte que há algo como um cruzamento entre a satisfação e a mãe; quando a satisfação é real, a mãe é simbólica, e quando a mãe se torna real a satisfação se torna simbólica. Uma satisfação simbólica, o que é? A mãe não é só mestre, é também amor. A tese essencial de Lacan nesse Seminário é de que a satisfação essencial é a satisfação do amor. A exigência do amor é a exigência simbólica, a exigência do signo do amor. A exigência do signo do amor pode se conservar em toda sua intensidade no interior de um sujeito.

No Seminário IV temos uma clínica centrada sobre o amor, a tal ponto que Lacan situa a satisfação real, quando ela é obtida, como um substituto da satisfação simbólica. O que quer dizer que poderíamos escrevê-lo: satisfação real/satisfação simbólica. Isso é muito importante, Lacan o diz em uma frase, ele diz que toda frustração da satisfação simbólica, toda frustração de amor numa criança, é compensada por uma satisfação real, mas é um “plano B”, um recurso, um mal menor. Não temos de ficar fascinados com a satisfação real da criança no seio, pois a tese de Lacan é que esta satisfação real da criança é uma substituição, uma compensação da frustração real do amor. A intensidade da satisfação real vem do fato de que é um substituto da satisfação simbólica. É por essa razão que se erotizam as atividades do ser. A oralidade, por exemplo, não é somente comer para viver, a oralidade se erotiza na medida em que ela vem compensar a satisfação simbólica.

Dizer isso é dizer que a pulsão não é pura necessidade. O que surpreende nesse Seminário é que a pulsão parece ser a consequência da exigência de amor, é a forma que Lacan escolhe para dizer que o lugar do grande Outro já está presente na pulsão. Ademais, quando o pulsional aparece, ele tem sempre sua função ligada ao desenvolvimento de uma relação simbólica. Evidentemente, quando Lacan diz “amor” nesse seminário, trata-se do Eros freudiano. Este tema é importante na lógica do tratamento. É um pouco um excursus, mas há o exemplo que toma Lacan, um caso de exibicionismo apresentado por Melittta Schmideberg, que Lacan trata como um exibicionismo reacional, com a aparição ou o deslocamento de uma zona erógena (1956-57, cap. IX). De fato, quando nesse tratamento aparece o pulsional, num dado momento o sujeito cai na bulimia e, em outro momento, após haver realizado com dificuldade o ato sexual, o sujeito vai expor seu órgão diante de um trem internacional que passa na região. Lacan, ao invés de dizer que há uma regressão, diz que todas essas emergências devem ser situadas como estando enlaçadas com a relação simbólica à qual elas se reduzem. É um tema que eu não posso desenvolver agora. Parece-me, que na lógica do tratamento, deve-se situar esses fenômenos de redução simbólica, é uma coisa recorrente neste Seminário de Lacan, no fantasma, mesmo no fantasma apresentado por Freud.

A lógica do fantasma leva a um empobrecimento da estrutura do fantasma. Como Lacan o demonstra, há na primeira forma do fantasma uma relação intersubjetiva rica que se transforma numa fórmula sem sujeito: “Bate-se numa criança”, onde não há mais intersubjetividade. Isto quer dizer que no fantasma há toda a complexidade do simbólico e uma redução pontual dessa complexidade. A mesma coisa ocorre quando surge, no lugar de toda a complexidade simbólica, um acting-out, uma passagem ao ato ou a regressão pulsional ou quando, na perversão, Lacan apresenta a imagem como molde da perversão, a redução de toda uma história simbólica que se mantém como um resto. Assim, ele deduz e acentua a prevalência do modo imaginário na perversão.

Em outro momento, a respeito da jovem homossexual, ele fala da projeção do simbólico sobre o eixo imaginário. Eu não vou poder desenvolver isso, mas é como se houvesse momentos em que se pudesse situar e condensar esse fenômeno, momentos em que a relação simbólica se dobra sobre o imaginário ou sobre o pulsional mas, a cada vez, trata-se de uma redução simbólica. Mesmo que isso possa ser semblante, mesmo que sejam pontos de densidade máxima, trata-se de alguma coisa que parece real e ao mesmo tempo é semblante.

Vou parar por aqui. Não dediquei meu seminário desse ano a isso, de maneira que tenho muito a dizer e não calculei bem o tempo, mas gostaria de dar uma abertura para a leitura do Seminário. Só vou adicionar o seguinte: Leonardo Gorostiza falou da dificuldade do tema da lógica, do estudo da lógica. Portanto, eu concluo dizendo que antes do Seminário IV, há só um caso de Freud que Lacan parece abordar na inspiração da lógica do tratamento. É sua pequena “Intervenção sobre a transferência” (1951), a respeito do caso Dora. Nessa pequena “Intervenção sobre a transferência” pode-se dizer que ele lê o caso Dora com a Fenomenologia do espírito, de Hegel, isto é, que ele localiza as inversões dialéticas.

No Seminário IV, e para desenvolver o único exemplo que temos de lógica do tratamento, podemos dizer que Lacan lê Freud com Lévi-Strauss, mais exatamente com um artigo intitulado “A estrutura dos mitos” datado de 1955. Recomendo o estudo desse artigo, em que se vê a tentativa de Lévi-Strauss, na qual Lacan se inspirou na questão da permutação, de escrever a fórmula do mito, na ideia de que todo mito é redutível a uma fórmula. Não tenho o tempo de demonstrar que essa fórmula inspira a fórmula da metáfora paterna em Lacan, que é uma fórmula de equivalência. Armado de Lévi-Strauss, Lacan (1956-57, p. 329) tenta ordenar a estrutura dos mitos elaborados por Hans e seguir as tentativas de solução do pequeno Hans, concluindo com uma fórmula que é também a metáfora paterna.

Na lógica do tratamento, trata-se de saber se podemos retomar o tema deixado por Lacan, sabendo que, para nós, a lógica do tratamento não é uma elaboração da metáfora paterna, que a metáfora paterna não é a conclusão do tratamento. Mas temos de saber se o método vale, isto é, se além da estrutura do discurso, há uma lógica formalizável do tratamento. Um eco do caso do pequeno Hans se faz ouvir no ensinamento de Lacan até A lógica do fantasma, seu Seminário de 1966-67. O caso do pequeno Hans já é uma lógica do fantasma, vocês conhecem a importância dessa lógica do fantasma, pois é ao concluir esse Seminário que Lacan propõe o passe, de tal forma que podemos estudar juntos o Seminário IV: a relação de objeto, o Seminário 14: a lógica do fantasma e o texto sobre o passe. De certa maneira, em A lógica do fantasma, à distância do tratamento, através do grupo de Klein, Lacan elabora um certo tipo de estrutura com suas transformações, mas à distância dos eventos do tratamento.

O que é apaixonante nesse Seminário IV, é que Lacan não fica à distância da experiência e que ele formaliza os próprios elementos do tratamento, a ponto de definir “m” como a mordida do cavalo. É fato que Lacan abandonou essa perspectiva de expor a lógica do tratamento dessa forma e que ficou adstrito à elaboração da lógica do discurso. Minha questão, ao abrir esta jornada, mas não somente essa jornada, pois o tema da lógica do tratamento vai balizar as jornadas de todas as escolas pertencentes à Associação Mundial de Psicanálise, a questão, a verdadeira questão aberta que lhes proponho para estas jornadas é de saber se há possibilidade, necessidade, dever, ou se há impossibilidade de retomar a inspiração de Lacan em O Seminário IV para elaborar uma lógica do tratamento.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

LACAN, J. (1951) “Intervenção sobre a transferência”. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 214-225.
_________. (1956-57) Le Seminaire. Livre IV: La relation d’objet. Paris: Le Seuil, 1994.
_________. (1957) “A instância da letra no inconsciente ou a razão desde Freud”. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 496-533.
_________. (1957-58) “De uma questão preliminar a todo tratamento possível da psicose”. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1998, p. 537-590.
_________. (1998) Escritos. Rio de Janeiro Jorge Zahar Ed.

 _________. Le Séminaire. Livre XVII: L’envers de la psychanalyse. Paris: Le Seuil, 1991. LÉVI-STRAUSS, C. (1955). A estrutura dos mitos. Antropologia Estrutural (1944- 56). Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, s/d, p. 237-265.

IN: Revista aSEPHALLUS, Vol. IV

sexta-feira, dezembro 16, 2016

Psicanálise e Cinema



Cisne Negro: notas sobre o espelho

Luiz Felipe Monteiro


O que significa ver um filme sob as lentes do discurso analítico? O que um filme pode nos ensinar sobre algo da psicanálise. São perguntas que norteiam uma apreensão da obra cinematográfica para além do mero suporte de interpretações selvagens sobre os personagens e muitas vezes, sobre os próprios diretores e atores do filme. Trata-se de se valer de um outro discurso, para pensar algo do discurso da psicanálise. Slavoj Zizek sintetiza bem essa operação ao mencionar a visão em paralaxe, onde atesta que enxergamos melhor quando vemos sob um olhar enviesado. Se concordamos com Lacan que a verdade tem estrutura de ficção isto confere uma pertinência de pensar a psicanálise sob as lentes do cinema. Afinal, o discurso cinematográfico é o própria estrutura de ficção posta em ato, um filme só é um filme por sua mise-em-scene, sua encenação e articulação de significantes que se justapõe entre os cortes, enquadramentos, cenários, trilha-sonora e diálogos de uma trama.

Em outras palavras, a linguagem cinematográfica possui um modo de operação simbólica, onde não cabe os mesmos juízos de realidade, daquilo que consideramos a “realidade concreta dos fatos”. Assim como em um sonho, tudo o que se vê em um filme está articulado em uma cadeia simbólica que compõe a narrativa do filme. Nada que é visto é aleatório, fortuito; inclusive e especialmente aquilo que o diretor nos impede de ver. Aquilo que fica fora no enquadre também compõe a cena.

Não se trata da fórmula clássica “tudo tem um Luiz Felipe Monteiro Cisne Negro: notas sobre o espelho sentido” onde algum mentor sabe de todos os significados de antemão. Tanto em um filme, como nos sonhos, os elementos que estão à vista e aqueles que não são mostrados compõe uma linguagem simbólica onde os possíveis significados não estão previamente estabelecidos. O diretor de um filme e o “inconsciente” guiam o nosso olhar por meio dos seus recursos “técnicos” (condensação, deslocamento, corte, close, etc...). Desse modo, criam uma narrativa que sugere significações, sem encerrá-las em significados pré-estabelecidos. Esta lógica da linguagem simbólica comum aos sonhos e aos filmes depende do espectador\sonhador para realizar a sua significação. Um filme não visto, é apenas um pasta de arquivo digital perdido no HD de algum produtor, tal qual um sonho não elaborado, é apenas algo estranho que sobrevêm à noite.

Exatamente por haver uma sugestão de significação oferecida pelo modo como o nosso olhar é guiado, que um filme pode ser lido. Nesse sentido, uma boa maneira de nos servir de um filme é prestar atenção não à história contada, mas no modo como as cenas são ligadas uma à outra. Este é o trabalho do montador do filme e aí reside a estrutura de significação de um filme. Enquanto estamos prestando atenção aos diálogos e ao drama do filme, não nos damos conta facilmente do tipo de articulação simbólica que o diretor realiza para guiar o nosso olhar. Essa articulação simbólica que não está no conteúdo dos diálogos, mas na forma como as imagens são montadas quadro a quadros, tem o nome de enunciação. Mesmo conceito que se aplica à fala de um discurso, inclusive um discurso sobre um sonho recordado. A sagacidade de Freud quando escreve a Interpretações dos Sonhos, reside exatamente na compreensão de que a significação dos sonhos está muito mais no modo como as imagens (visuais e acústicas) se articulam, do que necessariamente no conte- údo da fala do paciente.

Sobre o filme Cisne Negro, o primeiro ponto que podemos destacar é o posicionamento da câmera sob a personagem Nina. Desde as primeiras cenas do filme, a câmera segue os seus passos, mirando em suas costas e com o mesmo movimento do andar de Nina. Esse modo de enquadramento nos leva a crer que há alguém que está com Nina, mesmo que ela não perceba. O movimento da câmera seguindo o mesmo ritmo de seu andar sugere que esse alguém, se não é ela própria (seu duplo), é algo ou alguém que a concerne. De um modo muito simples, o diretor ao mesmo tempo sugere a presença de um duplo e a presença do espectador nesse lugar do duplo. Afinal, quem vê as costas de Nina e acompanha a sua chegada ao Balé somos nós, os espectadores.

A própria ideia inicial dada pela câmera sobre o duplo, ressoa o tempo todo no filme na presença constante dos espelhos. Quase todas as cenas há um espelho ao fundo; e em muitas cenas, a câmera mira seu olhar não sobre o personagem, mas sim na imagem refletida no espelho destes mesmos personagens. Em diversos planos, vemos Nina não diretamente, mas através da imagem especular. Onde esta encenação perpétua de espelhos que levar o espectador?

Mirar a câmera no espelho ao invés da personagem é a melhor maneira de dizer que é nessa dimensão especular que se concentra a questão dramática de Nina.

Do que se trata a imagem conferida por um espelho? O espelho nada mais é do que a nossa imagem devolvida por um suporte material. Ter a nossa imagem devolvida por um suporte material é outro nome dos tipos de cuidados e de olhar que os nossos cuidadores têm conosco desde os nossos primeiros segundos de vida. Sem a devolução do olhar do outro sobre nós, não temos como constituir a nossa própria imagem. O Estádio do Espelho tal como proposto por Jacques Lacan trata exatamente dessa questão. Sem o olhar de reconhecimento do Outro, não constituímos um ego.

Mas isso não é suficiente para a estruturação do sujeito no laço social. Isto porque caso a nossa subjetividade se apoia unicamente no plano imaginário (da imagem ideal que constituímos por meio do reconhecimento e identificação com o Outro), ficamos presos e paralisados na alienação com Outro. Em outras palavras, nossa existência passa a ficar apoiada unicamente naquela imagem específica que fomos reconhecidas pelo Outro.
No caso de Nina, vemos claramente por meio dos cenários de sua casa, de seu quarto e por meio da sua vida bailarina como o seu universo simbólico é tomado pela presença e pela identificação com a mãe. Até a entrada do personagem do diretor de Balé, o filme nos leva a crer que a vida de Nina resumia-se entre o balé e sua casa. Sua imagem egóica está apoiada, hegemonicamente, no ideal da bailarina perfeita e bela. Foi esse o olhar que ela recebeu e recebe da mãe; é esse o olhar que ela tem sobre si própria. Desde o lugar da bailarina perfeita, bela e filha da mãe, Nina está organizada psiquicamente. Não há conflito, não há erro, não há falta. Desde esse lugar Nina é o Cisne Branco. Resta a pergunta: o que fica de fora desse enquadramento ideal?

A própria trama do Balé Cisne Negro já deixa claro que muita coisa fica de fora dessa suposta perfeição idealizada de beleza e técnica. Será através da figura de um homem sedutor que esta dimensão não idealizada irá aparecer. Isto porque o modo como Thomás dirige o seu olhar para Nina está regido por tudo aquilo que a técnica e a disciplina visa extinguir. O olhar do diretor do balé (e do seu duplo - o diretor do filme) sobre Nina, quer vê-la perder o controle, perder a simetria perfeita, perder o compasso. Quer vê-la Cisne Negro. Este olhar passa necessariamente pela sexualidade, pois é nesta dimensão do desejo sexual que residem os nossos desencontros, nossos mal-entendidos, nossa incompreensão, nosso gozo não totalmente educado. A cena em que Nina se dirige ao diretor para pedir o papel atesta claramente a ambiguidade que se coloca sobre a personagem. Ao mesmo tempo em que esse olhar do diretor lhe tira do centro idealizado de perfeição; é também o mesmo olhar que a coloca no centro das atenções, no destaque como personagem principal da trama do balé. O paradoxo posto para Nina é que o papel com o qual ela alcançará o tão sonhado protagonismo no balé, é exatamente o papel que lhe demanda que abdique de sua suposta perfeição.

Nesse momento do filme uma outra questão importante é posta em cena: “a outra mulher”. Quando Nina passa a ser reconhecida para além da “bailarina”; como uma mulher que sente desejo e que pode ser desejada, o olhar de Nina passa a mirar a outra: o que será que ela tem que eu não tenho? Aqui duas personagens representam esta interrogação sobre o que é ser mulher. A personagem de Lily pela via da mulher desejante, descolada, atraente; e a personagem de Beth, bailarina que Nina substitui no balé e que, posteriormente no filme, sofre um grave acidente. Se Lily representa esta dimensão sexualizada do feminino, Beth representa a realização do ideal e o custo que tem esta realização. De algum modo Beth antecipa o destino de Nina, quando entrevê que a realização do ideal de perfeição e sucesso tem um preço caro, às vezes pago com a própria carne.

A cena onde Nina é apresentada como substituta de Beth é o que precipita uma das primeiras desagregações corporais experienciadas por Nina. Dali em diante, toda vez em que Nina está se aproxima da dimensão sexual ou é demanda a se descontrolar apareceram os sintomas corporais (coceira, sangramento, cortes em partes do corpo, até o aparecimento das penas). É claro que podemos ler esses sintomas como alucinações cinestésicas, ou mesmo como despersonalização; porém o que mais interessa aqui é olhar sobre o que antecede o aparecimento desses sintomas. Isto que nos leva a criar um raciocínio clínico sobre os casos, tal como sobre o discurso do filme. A compreensão de que os sintomas não são aleatórios, e sim, fazem parte de uma articulação simbólica particular ao sujeito, nos conduz a ler onde situam-se os pontos de impasse, os sinais de angústia.

No caso do filme a presença do olhar do diretor, desestabiliza a imagem idealizada de Nina. O olhar de Thomás surge como um terceiro na relação especular dual que Nina estabelece, especialmente com a sua mãe. A cena em que Nina se masturba em sua cama após a conversa com Thomás e de repente é mostrado o corpo da mãe, atesta bem o tipo de angústia vivida pela personagem. Nesta cena em particular o próprio modo em que a mãe aparece é bastante ambíguo, pois não fica claro que Nina a vê. Simplesmente aparece a imagem do corpo da mãe muito rapidamente, quase como uma alucinação ou como um pensamento de censura que lhe acomete. O mesmo tipo de ambiguidade é visto quando Lily vai até a casa de Nina e chama para sair e quando elas transam também na cama de Nina.

O que se vê no filme dali em diante é a crescente sensação em Nina de que ela está perdendo sua identidade. A perda de sua consistência egóica é correlata à perda da consistência da imagem idealizada conferida pela mãe. O espelho que dava suporte à imagem idealizada e clean de Nina, começa a rachar. O drama do filme está justamente na desagregação física e psicológica que esta dimensão estranha à imagem idealizada resvala sobre a personagem. É como se a relação especular idealizada de reconhecimento no olhar da mãe se rompesse e Nina então se partisse concretamente. Se partindo em Cisne Branco e Negro. Não houve para Nina algum tipo de mediação que conseguisse organizar a tensão psíquica posta pela presença da dimensão “cisne negro” no domínio materno/perfeito/ belo do “cisne branco”. Nina se deixa tomar (o nome do diretor do balé no filme não é à toa – Thomás) pelo Cisne Negro e, tal como no enredo do Balé se mata para conseguir a perfeição. O que podemos entrever como a produção sintomática de Nina foi tomar o personagem do cisne negro no plano concreto, sem uma mediação simbólica que permitisse uma metáfora, uma atuação. Nina não usa o Cisne Negro como semblante, metáfora para o que se deflagrou com desestabilização do ideal. O drama do filme reside justamente aí. Se não há metáfora no plano do simbólico, resta o ato no corpo. Quem vacila não é o significante é o seu próprio corpo e ego. Não há uma fronteira, uma separação entre o seu ego e a imagem do cisne negro. Faltou a Nina uma mediação simbólica que estruturalmente separa o eu do outro, o corpo do filho do corpo da mãe, o gozo de um com o gozo do outro. Uma das linhas de investigação seria a da foraclusão do Nome-do-Pai como função que instaura uma separação, uma falta, um erro, uma distância entre o ego da criança e o ego do outro cuidador, inclusive na dimensão concreta do corpo. É a inscrição do Nome do Pai que permite ao filho realizar uma metáfora do Desejo da mãe; em outras palavras, permite à criança sair da hegemonia da relação imaginária dual e especular, para fazer uso da dimensão simbólica que permite a possibilidade da presença e ausência, do erro, da falha, por extensão, do desejo.

Na cena final do filme antes de Nina se matar, aparece subitamente a imagem da mãe olhando Nina em seu espetáculo de transfiguração em Cisne Negro. O que se pode ver ali o último lance no espelho de Nina para a sua mãe? Um busca final de reconhecimento? Certamente, na atuação de Nina ela alcança o seu ideal, porém não no plano simbólico, realiza em ato aquilo que na sua imagem de eu sempre buscou – o júbilo do olhar do outro. Sinal de que muitas vezes a busca imaginária deste júbilo no reconhecimento especular tem um custo que se paga com a própria carne. A perda da carne e da própria vida, evela a impossibilidade da personagem em realizar um atravessamento da dimensão especular por via do simbólico, da metáfora e metonímia. Não é precisamente esta impossibilidade que nos fascina na personagem? Se Nina chega à perfeição com o fim da vida, nós espectadores podemos chegar ao fim do filme são e salvos, precisamente porque de algum modo, de um modo particular, cada um pôde ceder à prisão especular com Outro, para se deixar furtar da linguagem e seus artifícios. O encanto do cinema é prova disto, pois afinal, o espectador desejante sem saber ou não, pagou para se alienar na tela-Outro; e precisamente por que pagou o preço da separação (não com a carne, mas com recursos simbólicos) que se pode continuar desejando, desejando o próximo filme.


IN: Revista Agente

terça-feira, novembro 29, 2016

GRAMÁTICA DE UM CORPO ERÓTICO

O sujeito e seus parceiros libidinais: do fantasma ao sinthoma

Trata-se de se colocar em tensão três proposições. A primeira, formulada por Lacan nos anos sessenta, apreende a mulher pelo lado do objeto do fantasma do homem e não pelo lado do seu sintoma. A segunda, formulada nos anos setenta, apreende a mulher enquanto sintoma do homem. A terceira, antecipada por J.-A. Miller no seu seminário de 1998, deduzido das versões lacanianas do parceiro subjetivo, propõe a fórmula do parceiro-sintoma. Esta versão designa o real como um impossível de ser suportado. O real pode se manifestar através dos pensamentos nos sujeitos obsessivos, através do corpo nas histéricas e também por um parceiro da vida amorosa ou familiar. Nesta perspectiva, o parceiro-sintoma pode designar uma mulher para um homem, assim como um homem para uma mulher. Como então compreender esses deslocamentos sucessivos?

A mulher como objeto do fantasma do homem
A fórmula “a mulher é o sintoma do homem”, contemporânea da elaboração do sinthoma, foi precedida por uma concepção mais restrita. A fórmula do fantasma foi suficiente durante um momento, ao situar a posição da mulher em relação ao homem. Lacan formulou efetivamente que a mulher era o objeto do fantasma do homem em sua dimensão imaginária e não o seu sintoma. Nesse tempo de elaboração, que encontrará o seu desenvolvimento com a “Proposição de 1967”, a análise é concebida como uma experiência de saber que se apoia sobre o sujeito como um ser do desejo. Este encontra duas soluções para o problema do desejo. Uma solução negativa (–φ), hiância da função fálica no complexo de castração, e uma solução positiva, o objeto a, objeto obturador, objeto causa do desejo, causa do fantasma, segundo Lacan. Por essas vias, o sujeito descobre como o fantasma, alicerce do seu desejo, se articula com o objeto causa.
Em “observação sobre o relatório de Daniel Lagache”, Lacan situa a mulher na posição de objeto a, objeto do fantasma para o homem. Ele escreve:[1]
 “Para ter acesso a esse ponto, situado para-além da redução dos ideais da pessoa, é como objeto a do desejo, como aquilo que ele foi para o Outro em sua ereção de vivente, como o wanted ou o unwanted de sua vinda ao mundo, que o sujeito é chamado a renascer para saber se quer aquilo que deseja... [...] Esse é um campo em que o sujeito, com sua pessoa, tem que pagar sobretudo pelo resgate de seu desejo. [...] É visível [...] que, para fugir dessa tarefa, há quem se preste a todos os abandonos, inclusive a tratar [...] os problemas da assunção do sexo em termos de papel!”[2]
Lacan critica aqui o engodo contemporâneo em moda, o do sex and gender na abordagem da assunção do sexo. Trata-se de nada mais, nada menos do que do abandono do real da castração e de deixar cada um representar o seu papel na comédia dos sexos, papel reduzido à sua dimensão sociológica.
Neste texto, Lacan se opõe a esta perspectiva e escreve o desejo do macho como F(a). Grande phi, é evocado em termos de função. Este designa, em lógica, um operador que remete a uma variável. A variável remete a um furo na linguagem. É o que observamos quando substituímos, por exemplo, a proposição “todo homem é mortal” por “todo a é b”. Para Lacan, a variável remete o furo ao significante perdido e a função recupera a perda. Dentro da perspectiva do grande phi, o significante perdido é “ser homem”. Não há identificação possível ao significante positivo fálico. Não há identificação possível que permitiria dizer “eu sou o falo que convém a uma mulher” porque existe a castração. Para Lacan, não há possibilidade de se identificar a isto. Ele contradiz o desejo daqueles que querem pensar a assunção do sexo em termos de papéis. Seria um culturalismo do papel masculino.
Lacan propõe uma interpretação freudiana radical. Poderíamos formulá-la da seguinte forma: não existe uma maneira ideal de se identificar ao papel masculino porque existe a castração. Como existe um furo, aquele da identificação fálica positiva, variável em suma, a função F, a função fálica, aquela que diz que “somos todos submetidos à castração”, implica que estes precisamente estão à procura da parte perdida deles mesmos, para recuperá-la. Eles recuperam a parte perdida deles mesmos, o que seria a identificação fálica positiva, no corpo do outro, o outro enquanto parceiro-sexual, sob os auspícios do objeto a, quer seja oral, anal, escópico ou invocante. Recuperar o objeto a no corpo do outro se faz ao preço do sacrifício do falo na relação sexual. Em outros termos, o sujeito masculino coloca em jogo o falo para livrar-se da questão e recuperar desta forma o significante identificatório “ser um homem”. A fórmula do desejo do macho designa o lugar da mulher como sendo o do objeto a do fantasma.
Contudo, o parceiro essencial que Lacan revela a partir da estrutura do fantasma é o objeto a. Não é, como observa J.-A. Miller, o Outro sujeito. Também não é mais a imagem ou o falo, mas um objeto destacado no corpo do sujeito, recuperado no corpo do outro sexual. O parceiro essencial do sujeito elaborado neste período é o objeto a. Este é a substância não apenas da imagem do outro, mas do grande Outro. Neste sentido, Lacan poderá dizer “que ele é assexuado”.
Esses anos são pontuados pela interrogação sobre a relação ao Outro sexual. Em “Posição do inconsciente”, a pulsão representa a sexualidade no inconsciente.[3]
Posteriormente, Lacan retomará esta formulação precisando que ela não a representa enquanto referência ao Outro sexual, mas enquanto redução à relação com o objeto a. A pulsão representa a sexualidade no inconsciente a partir do objeto a, e não enquanto referência ao parceiro sexual. A representação da sexualidade no inconsciente, a partir da pulsão, quer dizer que a sexualidade não tem representação no inconsciente. Esta perspectiva encontrará a sua última formalização a partir dos desenvolvimentos do seminário Mais ainda. No lugar propriamente dito da relação sexual impossível que não cessa de não se escrever, e se revela como uma não relação, como uma fórmula que não está no real, o fantasma como axioma escreve para cada um uma relação de gozo regulado pelo objeto.
Em “Observação sobre o relatório de Daniel Lagache” e os textos que se seguem, a fórmula do desejo do macho se apropria da mulher, como objeto do fantasma, dito de outro modo, como objeto causa do desejo vindo completar a parte faltante do sujeito.
Neste texto, Lacan escreve o desejo da mulher a partir de Ⱥ(φ)[4]Ⱥ indica que o significante d’A mulher não existe, para ler esta fórmula nos termos vindos do seminário Mais ainda. Ⱥ escreve que a mulher não tem inscrição no Outro ou, retomando os termos freudianos, não existe libido feminina. A escritura Ⱥ(φ) significa que a mulher está à procura do falo, mesmo se profundamente ela o é. Ela o destaca no outro na relação sexual. Phi faz a função de parte recuperada que a torna Outra para ela mesma.
As fórmulas da sexuação, escritas quinze anos mais tarde, radicalizam esses desenvolvimentos escrevendo para a vertente feminina, por um lado, que não existe mulher que não seja submetida à castração e, por outro lado, que as mulheres se organizam como não-todas na função fálica.
Lacan acrescenta que o A de A mulher, a partir do momento em que ele se enuncia como um não-todo, não pode se escrever[5]. Daí a escrita de Ⱥ. Dito de outra forma, não existe significante que diga o que é a mulher. Este Ⱥ tem relação, por um lado, com S(Ⱥ), e por outro lado, com F.
S(Ⱥ), significante do Outro enquanto barrado, deve ser situado não apenas como lugar da verdade, mas como aquilo com o que a mulher tem fundamentalmente uma relação de gozo, e que procede do que não se pode dizer do inconsciente. “A mulher tem relação com o significante desse Outro, como Outro, e que não pode senão permanecer sempre como Outro”[6]. S(Ⱥ), significante do gozo, é correlativo de um novo estatuto que Lacan destina ao Outro. Enquanto que em seu primeiro ensino, o Outro mortificado significante estava vazio de gozo, com Mais ainda, é pensado a partir do gozo. S (Ⱥ) é o próprio signo do gozo que não tem nome situado no lugar do Outro. Sob a inspiração deste desenvolvimento, Lacan irá reconsiderar o lugar do sujeito barrado ($) e de sua relação com o Outro a partir do ser falante. Voltaremos a esse tema.
A mulher também tem relação com F. Phi designa o falo como significante que não tem significado. Ele se sustenta no homem como gozo fálico. Os matemas isolados por Lacan neste quadro inscrevem, poderíamos dizer, os trilhamentos da análise. Esta deve permitir distinguir, para a mulher, a redução do pai ao valor de uma função: aquela do significante-mestre que não é um nome de gozo. Também será preciso que ela permita nomear o gozo do Outro através de um significante, dito de outra forma, o gozo da mãe para além do falo, destacado a partir da construção do fantasma e da relação com o objeto. A análise também deve direcionar o sujeito à forma pela qual se apresentou a questão fálica para ele.
O quadro das fórmulas da sexuação inscreve do lado masculino que, se  todo homem está submetido à função fálica, esta encontra o seu limite na existência de um certo  x - tal que a função Fx seja negada. Este limite ressalta a função do pai. O quadro indica também que o homem só alcança o “seu parceiro-sexual, que é o Outro, por intermédio daquilo que ele é a causa do seu desejo. [...] O sujeito só tem implicação enquanto parceiro, com o objeto a. [...] A conjunção pontuada desse $ e de a não é outra coisa senão o fantasma”[7]
Os termos de Mais ainda, retomam os matemas desenvolvidos em “Observação sobre o relatório de Daniel Lagache” de forma mais complexa. Eles articulam de forma diferente a mulher como sendo objeto do fantasma do homem na relação sexual.

A mulher sintoma do homem e o parceiro-sinthoma
Como compreender a fórmula de Lacan em “Joyce o sintoma” – “Uma mulher, por exemplo, ela é sintoma de um outro corpo”[8] – ou então em “RSI” – “O que é uma mulher? Um sintoma.?”[9] A mulher sintoma do homem supõe a nova definição de sinthoma como aborda Lacan em seu último ensino.
Seguindo o desenvolvimento metódico de J.-A. Miller, há alguns anos, pudemos acompanhar a forma pela qual foi colocada em primeiro plano a conexão entre significação e gozo a partir do seminário Mais ainda. Desde “De uma questão preliminar”, e de “As formações do inconsciente”, a conexão da significação e do gozo foi estabelecida sob os auspícios do Falo, primeiramente apreendido em termos de significado e depois em termos de significante. A dupla o Nome-do-Pai e o Falo recobrem o x do desejo da mãe. Quando o Nome-do-Pai funciona, a questão “o que ela deseja?” encontra a sua resposta no Falo. Nos termos do Mais ainda, a questão sobre o desejo da mãe torna-se o enigma de seu gozo: “de que ela goza?”. O Nome–do-pai passa a ser concebido como aquele que localiza o gozo[10]. Aparecendo desta forma, cheio de significado, quer dizer, de significação fálica. Isto permite ao sujeito que não é psicótico, responder ao: “o que sou?” enquanto homem ou mulher, vivo ou morto[11]. Com Mais ainda, a propriedade do significante fálico se estende a todos os significantes. A conexão do gozo e do significante está ligada ao corpo. “Só é possível o gozo do corpo através do significante, e só é possível o gozo do significante enquanto ser da significação enraizado no corpo”[12]. É da coabitação com lalíngua, que se define o ser falante, e o ser é um corpo[13]. A função do inconsciente, segundo lalíngua, “é que o ser, ao falar, goze”[14].
A mudança de perspectiva que Lacan opera, consiste em apreender o significante não mais como mortificado, mas como agente de gozo. A partir deste ponto, o corpo não é mais pensado como mortificado pelo significante do qual o objeto a escapa, mas enquanto corpo que goza intensamente da ação do significante.
A introdução do sinthoma é contemporânea desse novo desenvolvimento. O sintoma é apreendido como fenômeno de verdade, quer dizer, pensado no significante, e concebido daqui por diante a partir do aparelho de gozo. O sinthoma designa o efeito do gozo do significante no corpo. Ele vem no lugar em que Freud inscreve a pulsão. O mito da pulsão freudiana, como interface do psíquico e do somático, dá lugar ao sintoma de Lacan enquanto conexão real do significante e do corpo[15].
O aparelho sinthoma, assegurando uma articulação entre a operação significante e suas consequências para o gozo do sujeito, permite considerar de maneira nova o Nome-do-pai da metáfora paterna. Ele é um aparelho sinthoma enquanto que sua incidência libidinal é uma localização de gozo apreendido a partir da significação fálica. A saída da cura analítica, apreendida a partir desta última perspectiva, descortina para o sujeito uma identidade de gozo em que o sinthoma (fantasma e sintoma) foi o instrumento. A construção do fantasma, ao operar uma redução de múltiplas significações em uma frase, unifica e isola o quadro sintomático do sujeito. O fantasma destaca a lei da composição interna que organiza e articula os sintomas entre eles. Esta lei se organiza a partir daquilo que retorna sempre ao mesmo lugar, dentro da variedade sintomática, quer dizer, a prevalência de um certo objeto parcial, um certo modo de gozo pulsional. No lugar propriamente dito da relação sexual, o fantasma como axioma escreve para cada um uma relação de gozo regulado ao objeto. O fantasma não é nada mais do que um esforço de ligação do significante e do gozo. Ele é o produto da mestria do inconsciente com lalíngua[16].
A formulação “a mulher é o sintoma do homem” é para ser escutada a partir desses avanços. A formulação anterior, “uma mulher no lugar do objeto causa do desejo, objeto a do fantasma para o homem”, é contemporânea de um conceito de desejo pensado como uma transcrição da libido freudiana em termos de significado. Ela é dedutível de uma articulação significante. A fórmula do fantasma obedece à mesma perspectiva. O sujeito barrado, efeito da articulação significante, mortificado, sem corpo, e em correspondência com o objeto a como complemento libidinal, escapando à mortificação. O fantasma é a escrita de uma articulação significante e de um investimento libidinal apreendido em termos de significado. Se o objeto, ele mesmo, não é um significante, ele pertence, contudo, ao regime de dominância do significante sob o qual se organizam o fantasma, o objeto, a pulsão, aparecendo como um investimento libidinal de uma significação. Para que o sujeito barrado, mortificado, tenha acesso à libido, ao objeto causa do seu desejo, ele precisa ter um corpo vivo. A inversão que Lacan opera em seu último ensino se inscreve aqui. O significante passa a ser investido por um outro efeito, o da produção de um mais de gozar, um efeito de gozo sobre o corpo. O que J.-A. Miller fez valer como fórmula do jouissance[17], utilizado por Lacan em “Televisão”[18], se inscreve na mesma perspectiva. O “gozo” (jouis) indica a dimensão de investimento libidinal e a palavra “sentido” (sens) está do lado da articulação significante considerada a partir do significado[19]. Ele também propôs escrever a equivalência de a e s. A mulher sintoma do homem deve ser compreendida a partir do sinthoma, concebido como uma conexão da significação e do gozo e, desde então, uma concepção do fantasma como um modo de gozar. As expressões “ser objeto do desejo” ou “sintoma” do homem querem dizer a mesma coisa a partir do sens-jouis (sentido gozado) do objeto a. Quando uma mulher se constitui como objeto causa do desejo para o homem, se alojando dessa forma no fantasma masculino, ela se faz, então, objeto de gozo para este homem. Ao ser objeto a, ou o sintoma que o homem recupera no seu corpo ao preço do Falo na relação sexual, a mulher localiza o gozo fálico deste homem.
O que ele significa para ela, do ponto de vista do seu fantasma e do seu gozo? A versão lacaniana diz: que no momento em que ela é reconhecida como objeto a pelo homem, ela está em contato com S(Ⱥ). O consentimento ao gozo fálico passa por uma relação com S(Ⱥ) e à posição de objeto que ela ocupa na relação com ele. Nesse sentido, podemos dizer que o homem é apenas o instrumento, ou o mediador do acesso a este gozo que transborda o gozo fálico. Mas, para que ele seja o mediador, será preciso uma certa adivinhação e ajustamento, para o homem e para a mulher, da posição de objeto que ela ocupa. Temos um elo que gira em torno da versão-do-pai. Isto supõe o um por um do fantasma e não obedece a nenhum regulamento universal. O que está em jogo, no père (pai)-versamente orientado, é o encontro e a conjunção de S(Ⱥ)  com o traço de perversão masculino - que deseja na mulher um fetiche que a designa, quer ela queira ou não. Nesta perspectiva, no homem, o gozo é localizado, limitado ao Falo, e na mulher, está do lado do sem limite, no sentido de não localizável. Ela não está limitada ao gozo fálico.
A relação ao limite, para a mulher, é contingente e releva da certeza do amor. Em “Propostas para um congresso sobre a sexualidade feminina”, Lacan observa no laço heterossexual a forma erotomaníaca do apego da mulher pelo homem que ela escolheu. O laço erotomaníaco, se partilhado, fixa a mulher numa relação vital. Para isto, será preciso que o homem consiga se inscrever no fantasma da mulher, quer dizer, ocupar um lugar no discurso que toque no seu gozo para além do falo. O amor, estando aparelhado à exigência do blá-blá-blá do discurso amoroso, não deve cessar de se dizer, ao fazer suplência, àquilo que a relação sexual desnuda, quer dizer, a incapacidade para o significante fálico de significantizar todo o gozo feminino. A mulher, na versão freudiana do ato sexual, quer o órgão, porém, mais profundamente, o que ela deseja é o Falo como significante do desejo, quer dizer, que o objeto que fala diga sobre o seu ser e decifre o seu gozo. Nesse sentido, o desejo feminino não se articula somente ao Falo, mas a Ⱥ. Esse outro do desejo deve falar para que o sujeito o reconheça como objeto.
J.-A. Miller mostrou que o termo parceiro-sintoma, advindo do ensino de Lacan como simétrico ao ser falante, substitui o par $ à A. A introdução da categoria do ser falante no lugar de $ modifica o estatuto do Outro do significante em aparelho de gozo. Enquanto que $ estava mortificado e marcado com o selo da falta-a-ser, o ser falante acompanhado de um novo estatuto do Outro, introduz o corpo vivo tomado pela estrutura de lalíngua que respeita a falta-a-ser.
Poderíamos dizer que a noção do parceiro-sintoma leva em conta a noção de sinthoma, numa generalização da ideia de parceiro, introduzida por Lacan desde o início de seu ensino. O parceiro-sintoma é “a instância com a qual o sujeito está enlaçado de forma essencial”.
O sujeito não consegue suportá-lo, homeostasiá-lo e, ao mesmo tempo, goza repetitivamente[20].
Para chegarmos à fórmula do “parceiro-sintoma” declinamos a forma pela qual Lacan situou o laço com o parceiro sexual na relação heterossexual. Mostramos também como, para o sujeito feminino, o parceiro da vida amorosa confrontado ao ilimitado do gozo feminino, podia introduzir um limite ao ocupar um lugar no discurso que toca o seu gozo, para além do Falo, dito de outra forma, o seu fantasma. Nesta perspectiva, poderíamos dizer que ele é o seu parceiro-sintoma no sentido do sinthoma. Poderíamos então acrescentar que todo parceiro da vida amorosa, é tomado na dimensão de parceiro-sintoma?
Da mesma forma, não poderíamos dizer que todo parceiro-sintoma é susceptível de se transformar em parceiro-devastação? O sujeito feminino é particularmente exposto a isso pelo fato de não se inscrever todo na função fálica. Basta observar o estado, no qual ela se deixa voluntariamente ser aspirada pela pulsão de morte, quando os signos do amor, ou do desejo se distanciam. Porém, do lado masculino, o que acontece? Certamente, o limite fálico não o confronta da mesma forma que a mulher ao ilimitado. Mas ele pode ser devastado por uma mulher quando esta toca, de uma forma ou de outra, no seu parceiro fundamental que é o objeto a. Gide é um exemplo disto. Ao queimar as cartas que Gide lhe havia escrito, Madeleine visa atingi-lo. Ela destrói o que era mais caro a Gide. Ele havia encontrado o sentido do mundo, ao avistar esta jovem mulher chorando, e tentou encontrar palavras para consolá-la. É esta parte dele mesmo extraída e perdida, da qual ela era destinatária, que ela destruiu.

Dominique Laurent
Graduada em Medicina 
Psiquiatra
Psicanalista Membro da École de La Cause Freudienne
Membro da Associação Mundial de Psicanálise
Tradução: Kátia Moskal Danemberg.
Revisão Técnica: Tania Coelho dos Santos.

Lacan, J. “Remarque sur le rapport de Daniel Lagache”. Em: Écrits. Paris: Seuil, 1966, p. 682-683.
[2] Lacan, J. “Observação sobre o relatório de Daniel Lagache”. Em: Escritos. RJ: JZE, 1998, p. 653-691.
[3] Lacan, J. “Position de l’ inconscient”. Em: Écrits. Op. Cit. p. 849.
[4] Lacan, J. “Remarque sur le rapport de Daniel Lagache”. Em: Écrits. Op. Cit., p. 683.
[5] Cf. Lacan, J. Le Semináire, Livre XX, EncoreParis: Seuil, 1975. p. 68 e 75.
[6] Ibid., p. 75.
[7] Ibid.
[8] Lacan, J. “Joyce le symtôme”. Em: Autres écrits. Paris: Seuil, 2001. p. 569.
[9] Lacan, J. “RSI”. Semináire du janvier 1975. Ornicar? N.3. Paris: Lyse, 1975. p. 108.
[10] Cf. La conversation d’Arcachon. Paris: Agalma, 1997. p. 175.
[11] Lacan, J. “D’une question préliminaire à tout traitement possible de la psycose”. Em: Écrits. Op.Cit., p. 549.
[12] Miller, J.-A. L’orientation lacanienne. Le partenaire symptôme, 1997/98, inédito. Curso ministrado no quadro do Département de Psychanalyse de Paris VIII, aula do dia 13 de maio de 1998.
[13] Cf. Lacan, J. Encore. Op. Cit., p.130.
[14] Ibid., p. 95.
[15] Cf.  Miller, J.-A. Op. Cit., aula de 13 maio de 1998.
[16] Cf. Lacan, J. Encore, Op. Cit., p. 127.
[17] N.R.T.: Por meio de uma homofonia, a palavra jouissance (gozo) pode dar lugar a j’oui sens (ouço sentido).
[18] Lacan, J. “Télévision”. Em: Autres Écrits. Op. Cit., p. 517.
[19] Cf. Miller, J.-A. Op. Cit., Aula de 13 maio 1998.
[20] Miller, J.-A. L’orientation lacaniene. L’autre qui n’existe pas. 1996-1997. Inédito Curso pronunciado no Département de Psychanalyse de Paris VIII, Aula de 19 março 1997.