sábado, julho 07, 2012

Oswaldo Goeldi, Chuva



Ronaldo Brito

O homem do guarda-chuva vermelho é o exemplar típico do sujeito anônimo universal. Todos nós, cada um de nós, resumido à sua condição básica – o homem sozinho dentro do mundo, diante da vida, a enfrentar como pode os elementos. À sua maneira concisa, nada grandiloquente, a pequena gravura nos reensina a ver o mundo, a senti-lo como uma cena móvel e traiçoeira, cercada de intenções e presságios inquietantes. O homem do guarda-chuva vermelho experimenta, nesse instante, a crise de consciência sobre essa verdade inelutável. Daí talvez sua imobilidade perplexa, um tanto indecisa, a posição de través face ao real – se alguma coisa, ele fita o muro à direita, e não o horizonte à frente. Horizonte que se contrai, prestes a se transformar num impasse. O plano de projeção é amplo (Goeldi interrompe o muro, nesse intuito, antes que alcance a borda da gravura), mas converge de modo drástico: ali, onde deveríamos encontrar o ponto de fuga, a abertura ao infinito, deparamos com uma passagem estreita e indefinida. Uma nesga de céu, massa recortada de nuvens cinza-esverdeadas, desce até a rua e tranca a figura dentro da cena. Essa mancha de cor meio inverossímil prossegue ao longo do muro e junta o plano vertical ao plano horizontal. Provoca ainda o contraste com a enorme mancha vermelha desse guarda-chuva que, muito mais que protegê-lo, encerra o homem em seu dilema existencial. O que dizer dessa extraordinária nota de cor? Sem dúvida, ela ilumina, dramatiza, acrescenta certa conotação simbólica à obra. Só não sabemos bem qual. De todo jeito, concentra o núcleo plástico da gravura: observamos o conjunto a partir de seu brilho. Também sua forma circular contraria o sentido linear da cena e seus elementos marcadamente horizontais e verticais. Sábia manobra arbitrária, certeira, que intriga nosso olho e o leva a buscar harmonizá-la com o entorno. Em vão, é claro, passaremos a vida a tentá-lo. O guarda-chuva é uma cúpula solta no espaço. Instintivamente, ansiamos por conhecer o rosto coberto do homem, examinar sua fisionomia. Tal qual um balão, o guarda-chuva flutua e atrai o olhar para o alto, e ao mesmo tempo radica ainda mais o homem na terra. De costume, esses objetos emblemáticos da poética de Goeldi oscilam, balançam junto a seus desgarrados usuários fustigados pela onipresente tempestade tropical. Aqui, não. Extático, soberano, ele prevalece sobre o resto e afirma sua individualidade enigmática.

A essa altura – a obra-prima é de 1957 – o expressionismo congênito de Oswaldo Goeldi (1895-1961) dominava à perfeição a economia estética do suspense. Por mais agitados que fossem seus desenhos e gravuras, apinhados de diletos escombros e detritos, passavam sobretudo a sensação de vazio. Vazio opressivo, porém, outra forma de claustro, a céu aberto. Reina aí, absoluta, a solidão incomunicável. Eis exatamente o que se comunica com fervor, o que se transmite com pungente intensidade. Presa de demorada urgência, a narrativa para no momento propício e deixa em suspenso o desfecho. Olhamos, persistimos a olhar para todo o sempre o homem do guarda-chuva vermelho, despojada gravura que ganhou o lacônico título Chuva, na expectativa de que algo afinal aconteça, quando sabemos muito bem que tal expectativa é o seu perpétuo acontecimento. A ela irresistivelmente voltamos graças à sua infalível inteligência expressiva. Em princípio, a estratégia é simples e manifesta: inverter, torcer, problematizar ao máximo, com recursos mínimos, nossos arraigados hábitos perceptivos. A começar pelo vermelho luminoso desse instrumento, à época, preto por decreto – o proverbialmente antipático guarda-chuva, ao qual Goeldi dedica ao longo de sua extensa obra um amor incondicional. No caso, é óbvio, ele não representa o frívolo acessório do gentleman: é o fardo indispensável ao homem comum em sua faina cotidiana. E reitera a vocação do artista inadaptado, na contracorrente do mundo burguês. Ele e só ele conseguiria discernir o lugar onde menos se espera, e portanto se destaca, um decidido vermelho de cádmio. Goeldi o aplica a contrapelo – de fora para dentro, quase chapado, seguindo o caminho inverso ao dos sulcos tumultuados produzidos por sua goiva, a extrair efeitos expressivos das potencialidades intrínsecas à madeira eleita. Teríamos aqui o segundo e, a meu ver, de longe o melhor partido da cor na obra de Goeldi. Em vez de mimetizar os lances sinuosos da trama em preto e branco, procurando seu equivalente cromático em tons discordantes, ele a estampa como sinal de impacto imediato, como faziam os cartazes expressionistas.

Notem a extrema sobriedade com que Goeldi controla a dinâmica conturbada da cena. Enquanto, à esquerda, o casarão de ares assombrados parece afastar-se, o muro à direita avança em nossa direção: o homem do guarda-chuva vermelho se descobre assim entre forças antagônicas. Quem sabe, por essa razão, hesite, cativo desse limiar: seguirá ou não os eventuais trilhos do bonde e a fileira incerta de árvores à frente, isto é, o curso temerário de seu destino? Sairá alguém, furtivo, de trás do muro? A julgar pelo clima grave, o homem do guarda-chuva vermelho vive a chamada hora da verdade; há que tomar enfim uma decisão. Uma série de indícios particulares atestaria, por outro lado, o caráter pedestre da situação, aludiria às incontáveis miúdas indecisões que infernizam o dia a dia do ser humano. A escolha entre as alternativas é que é falsa, ilusória – segundo essa ética exigente, mas infinitamente solidária ao sofrimento do próximo, toda hora é a hora da verdade.

Fonte: Blog do IMS
Ronaldo Brito (1949) é crítico de arte e poeta.


Um comentário:

objetoguardachuva disse...

Tem referência de onde que esse texto foi publicado?

Jacques Lacan e a voz  Jacques-Alain Miller Jacques Lacan deu um lugar específico à voz na psicanálise. Voltarei...