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Mostrando postagens com o rótulo Maria Holthausen

O autismo para além da psicose: a hipótese de Maleval e a clínica da borda

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  Um ensaio sobre a hipótese autística em Jean-Claude Maleval É muito comum observar o autismo sob a ótica do déficit: a ausência de comunicação, a dificuldade nas trocas interpessoais, a resistência ao novo, o apego às rotinas. Nessa abordagem, aquilo que se apresenta como marca singular do sujeito costuma ser lido quase exclusivamente como um obstáculo a ser corrigido. A perspectiva trazida por Jean-Claude Maleval em seu artigo, Por que a hipótese de uma estrutura autística? propõe um deslocamento sutil, porém decisivo. Mais do que tentar enquadrar o autismo em categorias tradicionais, o psicanalista francês investiga se as manifestações clínicas autísticas não responderiam a uma lógica própria — um modo de funcionamento singular que não se confunde com a psicose e que também não se reduz a uma deficiência. Esse movimento muda o tom da escuta clínica: em vez de interrogar apenas o que falta ao sujeito, passa-se a prestar atenção nas invenções que ele constrói para conseguir habi...

Badiou e o seu Elogio ao Amor

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  Redescobrindo o amor  Notas de leitura sobre um livro indispensável Em seu livro, Elogio ao amor , Badiou desenha a figura do amor  sob uma nova perspectiva, ao apresenta-lo como um processo continuo de construção. Para o filósofo o amor não é simplesmente um estado psicológico, uma fusão de almas, um sentimento intenso. Para ele, o amor é uma construção que vai se produzindo no tempo.  O amor inicia por  um acontecimento, um encontro contingente. Nada o determina completamente. Poderia não ter acontecido. Mas o encontro, por si só, ainda não é o amor. Ele acontece quando duas pessoas decidem permanecer fiéis ao que aconteceu naquele encontro. A fidelidade ao acontecimento transforma o instante em uma história. Pois o amor, por ser uma construção, não pode se reduzir ao encontro.  Portanto, para que o amor se faça no dia a dia  - porque o amor, ao final de contas, se realiza no mundo - é necessário o processo de construção.  Vamos construir ju...

O Estado Diante da Angústia: O Teatro do Poder em José Saramago

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Ensaio sobre a lucidez É, ao mesmo tempo, uma fábula, uma sátira e uma tragédia. Quis que a fábula fosse uma sátira, mas não pude evitar que fosse também uma tragédia. Como a vida. José Saramago, 2004 Este ano, nós, brasileiros, vamos às urnas escolher nossos representantes democraticamente, mais uma vez. Trata-se de uma obrigação que repetimos a cada dois anos, dado o voto compulsório no Brasil. Diante desse cenário eleitoral, vale sugerir o livro do mestre José Saramago, publicado em 2004, Ensaio sobre a Lucidez. O enredo centraliza-se justamente no processo eleitoral para articular, por meio de uma sinuosa ironia, uma questão fundamental: o que acontece quando o povo resolve levar o exercício democrático ao seu limite? Num país indeterminado, durante uma eleição municipal, sob uma chuva persistente, os eleitores comparecem às urnas, mas o resultado surpreende o governo: cerca de 70% dos votos são votos em branco. Convocada uma nova eleição na semana seguinte, o fenômeno se intensif...

A voz como isca: Como o Outro nos captura para a vida

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  Prosódia e Circuito Pulsional: onde o sujeito começa  No princípio era o verbo: Se tentamos situar um ponto inaugural da vida psíquica, ele não se apresenta como vazio à espera de inscrição, mas como um campo já atravessado por algo que convoca. O recém-nascido chega ao mundo e é imediatamente envolvido por vozes, ritmos, inflexões que o antecedem e o tomam. Entre esses elementos, há um que se impõe com uma força particular: a voz dirigida a ele. Não a voz enquanto portadora de sentido — pois ainda não há código compartilhado —, mas a voz em sua dimensão mais material: modulação, intensidade, cadência. Uma voz que se altera ao se dirigir ao bebê, que se curva, se eleva, se fragmenta em pequenas unidades carregadas de afeto. Em seu artigo, A voz como primeiro objeto da pulsão oral, Marie-Christine Laznik propõe que é precisamente aí que algo decisivo se inaugura: o primeiro objeto da pulsão oral não seria o seio, mas a voz materna, em seus picos prosódicos. ... após ter traba...

O fracasso escolar não é falta de inteligência, é falta de laço

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O fracasso escolar não é falta de inteligência, é falta de laço. Para que uma criança aprenda, é necessário que ela tenha o desejo de aprender. Ora, nada nem ninguém pode obrigar alguém a desejar. A linguagem popular diz: "O desejo e o amor não se comandam". É nisso, no entanto, que acreditam muitos pais que querem "motivar seus filhos e tudo fazer para que eles se interessem pela escola"....Presa em uma rede de demandas, veremos por que se torna impossível para ela sustentar seu desejo de conhecimento e como ela chega mesmo a anulá-lo. Anny Cordié    No cenário educacional contemporâneo, o chamado fracasso escolar é, quase sempre traduzido sob a ótica da falha. Fala-se de uma falha cognitiva, uma falha neurológica, ou então, uma falha metodológica. Para atuar sobre essas falhas, costuma-se pedir ajuda a três saberes estabelecidos: psicologia, medicina (que atua através da medicação), e a pedagogia. São esses três saberes que mais prontamente respondem às demandas p...

A PERVERSÃO COMO DISCURSO, ESTRUTURA E SINTOMA DE UMA ÉPOCA

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Lucian Freud,  Interior Amplo, Notting Hill  , 1998.  Este ensaio rastreia o conceito de perversão: de uma estrutura psíquica singular, definida pela recusa da castração ( Verleugnung ), a um sintoma social generalizado . Discutimos a subversão freudiana e a leitura lacaniana, onde o objeto fetiche garante o gozo ao invés de causá-lo . Essa lógica do  contrato, em vez de Lei simbólica, não pertence apenas ao indivíduo. Na "cidade perversa" contemporânea , o mercado substitui o pai e o supereu ordena: " goza, consome, aparece " . Entenda  por que a perversão revela a dificuldade da cultura em aceitar a perda e como a psicanálise é o lugar onde a falta ainda pode resistir . Entre a Lei e o Gozo: a Perversão como Discurso, Estrutura e Sintoma de uma Época A palavra perversão carrega um peso histórico e moral que antecede a psicanálise. Antes de Freud, ela habitava os domínios da psiquiatria e do direito penal — onde designava o desvio, o vício, o crime, o a...

CLÍNICA PSICANALÍTICA

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- Questões da Clínica Contemporânea - Este texto sobre as questões da clínica contemporânea foi elaborado a partir de reflexões propostas em nosso grupo de estudo na Usina Dizer. Ele nasce, portanto, do diálogo e da troca de ideias, e pretende prolongar essa conversa, abrindo novas perguntas sobre o lugar da psicanálise hoje.  A modernidade e a invenção da psicanálise Sob a ótica da historiografia, os marcos inaugurais da modernidade são situados em três grandes acontecimentos: a Revolução Francesa, a Revolução Industrial e a Filosofia Iluminista. Esses eventos abriram um novo tempo histórico, marcados por promessas de emancipação e desenvolvimento, mas também com novas formas de violência e alienação. Na literatura, que se nutre da seiva da subjetividade em gestão, a modernidade encontra um marco privilegiado na obra poética e ensaística de Charles Baudelaire.  Para Walter Benjamin, As flores do mal e O pintor da vida moderna são textos fundadores da modernidade, pois neles...

FREUD: O EXÍLIO, O SONHO E O LEGADO DO INCONSCIENTE

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Sigmund Freud: vida, obra e herança do criador da psicanálise No dia 23 de setembro de 1939, em Londres, morreu Sigmund Freud. Doente, exilado, enfraquecido pela longa batalha contra um câncer na mandíbula, Freud morreu sob a sombra da guerra que já tomava a Europa. Mas o destino singular de sua vida e obra havia se consolidado: nada seria igual depois da invenção da psicanálise. Freud nasceu em 1856, em Freiberg, na Morávia — então parte do Império Austro-Húngaro, hoje território da República Tcheca. Descendente de uma família judia, cresceu em Viena, cidade onde viveria a maior parte de sua vida. Esse pertencimento judaico, em uma Europa atravessada pelo antissemitismo, nunca deixou de marcar seu percurso. Freud não era religioso, mas carregava em sua herança cultural e, na condição de cidadão do não-lugar, forjou um traço fundamental de sua sensibilidade crítica. Estudioso brilhante, iniciou-se na medicina e na neurologia, pesquisando sobre o sistema nervoso e trabalhando com pa...