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segunda-feira, outubro 26, 2015

Psicanálise e Violência




Corpo, Cidade e Violência.
Paulo Endo

Nós estamos acostumados a viver em cidades dicotômicas, que se consolidaram como cidades profundamente desiguais e que fracassaram completamente na tarefa de combinar e fazer conviver, no mesmo espaço urbano, todas as classes sociais, cores e vertentes sexuais distintas.

Raros são os lugares e os momentos em que isso é possível, mas quando ocorre, em geral, é o rico de penetra no mundo dos pobres. No carnaval, no futebol, no pagode, no funk. Jamais o pobre na vernisage, na recepção, no camarote, nas salas VIP. Que fique claro, a mobilidade é garantida ao rico, só ele tem direito a passar por pobre. Nisso se especializaram a maioria das metrópoles do Brasil e do mundo.

Há algum tempo atrás me lembro do debate acalorado sobre o embranquecimento de Michael Jackson, fãs furiosos expressavam sua revolta sobre o astro que não assume sua negritude, ou não valoriza suas origens e outras besteiras do tipo. Em meio a esse espetáculo midiático que até hoje o, nada santo, Michael Jackson é capaz de gerar, saiu um artigo que em minha opinião ia direto ao ponto. Ele alertava para o aspecto de que o que indignava fãs e não fãs de MJ até hoje, não é, evidentemente uma preocupação com sua integridade moral e sua fidelidade à sua origem negra e africana, mas o fato de um negro querer, e conseguir, ser branco.

Qualquer um branco pode ir à praia pegar uma corzinha. Quando, na volta da viagem, não faltam elogios: Nossa você ta preta! Elogio que cada um recebe com um secreto sorriso nos lábios.

Para o branco é a cor bronzeada, o dourado(dos reis) e a cor preta(o pretinho básico, sempre charmoso e fashion). Ficar escuro dá charme e incrementa o sex appeal.

Mas o contrário é visto como horror, doença, loucura. Coitado do preto que quer ser branco. Foi Arnaldo Antunes quem fez essa ótima reflexão.

O que está em jogo aqui, novamente, é a mobilidade. Vantagem extraordinária que só a riqueza permite. O rico pode ir de lá pra cá. Paris, Londres, África do Sul, Brasil, branco, preto, dourado, bronzeado. O pobre não, deve ficar na cozinha, ou na senzala.

Luis Eduardo Soares refletindo sobre “os condenados da cidade”, especialmente as crianças e adolescentes dos grandes centros urbanos brasileiros, seguinte tese:

Há os visíveis e os invisíveis. Os que são foco das câmeras, dos noticiários, das mídias, perseguidos para serem vistos, para tornarem-se visíveis, admirados, bisbilhotados. São as celebridades, personagens e vítimas da industria cultural. Os que devem sua existência a sua visibilidade. E que representam, talvez, um dos maiores anseios contemporâneos: dar-se a ver.

Há, de modo diverso, os que, embora absolutamente expostos, tornaram-se invisíveis. Deambulam pela cidade, interpelam-nos nos faróis nas calçadas, mas são invisíveis. Ninguém vê, ninguém quer ver, nem reconhecer aquilo como humano. Dói, desagrada, responsabiliza. São os pobres da cidade.

Sabemos o quanto o reconhecimento de si através do olhar do outro é fundamento da existência psíquica. Não ignoramos o quanto dependemos dos índices, dos sinais colhidos do olhar de outrem para afirmarmos, ou negarmos, em nosso cotidiano nosso espaço de possibilidades. Colhemos ali também os contornos de nosso corpo e as certezas, ainda que provisórias, sobre o que somos, mas principalmente, sobre o que podemos ser.

Freud nos ensinou a importância do reconhecimento pela mãe da existência singular da criança. Um olhar só para ela, um olhar que a destaque da massa, da multidão e que possibilita à criança existir para si, no mesmo momento em que existe para outrem. Um olhar onde se confere o estatuto da semelhança e da diferença.

É isso, e não outra coisa, que nos possibilita desenhar os parâmetros subjetivos, e um certo nível de certeza, de que existimos. Só existimos como singularidade. Nenhum psiquismo suporta a homogeneização na massa ou a indiferença embora o deseje, mas esse desejo do eu, sabemos, é também sua morte.

Como multidão ou como objeto o eu se desvanece, privado de investimentos amorosos num olhar que o ratifique e que lhe confere alguma duração, livrando-o da experiência insuportável do desaparecimento.

René Spitz, psicanalista inglês, foi o primeiro a demonstrar que bebês recém-nascidos, bem vestidos, bem alimentados e protegidos das intempéries, mas privados desse investimento narcísico que ampara e reconhece neles alguma singularidade, podem fracassar em sua tarefa de viver. Bebês institucionalizados, sem auxílio e cuidados onde seja possível estabelecerem-se relações objetais relativamente estáveis, podem ficar ocos, esvaziados de atividade psíquica que, no caso do bebê humano, é o que lhe possibilita viver, desejar, prosseguir vivendo em direção ao futuro como lugar imaginário onde o eu se vê existindo para além do instante e do imediato.

Os pobres na cidade ao frequentarem (indevidamente) as zonas ricas padecem de invisibilidade, de reconhecimento e do investimento alteritário que possibilita todas as trocas simbólicas, linguageiras e humanas. Pobres não têm direito à mobilidade. De casa para o trabalho, do trabalho para a casa.

Uma criança, um adolescente pobre nas ruas de São Paulo, imerso na indiferença realça seu aspecto empobrecido e carente para, pelo exagero, fazer-se visível. O resultado é mais desastroso. Diante da insistência o pobre, pedinte, mendigo é punido com o silêncio e com o ódio. É deslocado da indiferença para ser odiado.

O invisível que insiste para ser visto é punido com ódio, raiva, desgosto.

Quem quer que tenha experimentado a experiência do ódio continuado, da indiferença ostensiva e do desprezo flagrante sabe que tal experiência é, humanamente insuportável.

Há, todavia uma reação da criança, do adolescente pobre nas grandes cidades que surpreende por sua eficácia: a arma em punho e o potencial violento como ameaça.

O pobre com a arma na mão tem restituída de forma imediata, porém negativa, sua visibilidade. O medo que ele provoca dilui o ódio e a indiferença e, pela porta dos fundos, ele chega à sala. Passa a figurar nas páginas da mídia impressa, em todos os programas televisivos e na retina do cidadão ameaçado.

A invisibilidade experimentada no cotidiano citadino, pelo pedinte, morador de rua, mendigo ou carroceiro é imediatamente revertida. E então, como criminoso, o sujeito é reconhecido, e como tal, respeitado.

Esta tese nos interessa para evidenciar a importância crescente que políticas públicas que lançam mão de estratégias como educadores de rua, centros de referência públicos, serviços de atendimento, acolhida e abrigo têm e, queiramos ou não, isso também se aplica às escolas.

Tais políticas públicas, precárias ou não, são, muitas vezes, a única possibilidade de intervenção singular, de reconhecimento alteritário que o sujeito pobre tem nas áreas centrais ou periféricas da cidade. Mas uma vez que ali mesmo elas são indiferenciadas, descuidadas e esvaziadas passam a ter a violência como resposta.

Os mapas que hoje indicam que a condensação de respostas violentas a diferentes conflitos na cidade estão concentradas nas áreas baldias e pobres, onde a criminalidade também se aloja e cria o seu pelotão de reserva.

Em debate que realizamos no âmbito da extinta Secretária do Menor há num trabalho que acompanhamos há quase uma década atrás 4 verificamos, e denunciamos o fracasso de políticas públicas que pretendiam barganhar, com crianças em situação de rua e risco, casa, comida e roupa lavada nas instituições de atendimento público, em troca da rua.

Muitos, ingenuamente, ficavam estupefatos ao observarem que as crianças recolhidas aos equipamentos públicos, com relativo conforto e total segurança retornavam às ruas em questão de horas.

A criança voltava para rua em busca de seus pares. Atemorizava a criança permanecer numa instituição qualquer em situação de anonimato e massificação. Ela ficava amedrontada diante da possibilidade de vir a ser mais um igual a tantos. Queria ser reconhecida por seus parceiros de rua, onde tinha nome, apelido, respeito e afeto, embora, sabemos, corre-se risco de vida.

Ainda assim, não há outra possibilidade de interpelar esse processo que não seja por via da ação pública. Há muito os pobres se tornaram questão pública, já que jamais será questão privada. Ou seja, jamais o não consumidor será assunto para o capital, as empresas e a tão propalada iniciativa privada. 

De outro lado o que é público no Brasil ainda é sinônimo de coisa para pobre. A oferta do Estado como migalhas para os famintos. E aqueles que trabalham nos escalões inferiores da área pública ainda são, de algum modo, identificados como pobres em todos os sentidos ( o famigerado funcionário público).

Para os do alto escalão do governo a situação é inversa: figuram como celebridade, são os ricos do poder. (altos escalões dos três poderes: executivo, legislativo e judiciário).

Paralelamente temos nas últimas décadas o advento das ONGs. Hoje mais de 200.000 de todas as cores raças e credos. Nunca tantas informações sobre DH foram geradas como nos últimos 4 anos e, no entanto, essa avalanche de informações não foi suficiente para consolidar uma política nacional de efetivo respeito aos direitos humanos.

Devemos reconsiderar e especificar a importância das ONGs, reconhecendo diferenças fundamentais entre elas e cobrando delas o fortalecimento, e não o enfraquecimento da esfera pública, da efetivação das políticas de governo e do papel do Estado. Elas não são, portanto a panacéia capaz de fazer do Brasil um estado democrático de direito, embora tenham nisso um papel fundamental.

Devemos por isso apostar todas as fichas na escola pública no momento em que um dos únicos equipamentos públicos que efetivamente chega até o pobre é a escola, além da polícia. Contradição extrema que já levou muitos de vocês a bater boca com policiais que intentavam entrar na escola para enquadrar algum aluno.

Na escola pública, e sei que agora estou falando com especialistas, é talvez o único lugar que ainda pode promover sem hipocrisia o convívio entre diferentes na infância e adolescência.

Nas escolas privadas do ensino fundamental e médio não encontramos nem negros, nem índios, nem pobres e raríssimos nordestinos. Essas escolas fracassaram na promoção desse convívio e é importantíssimo, em minha opinião, denunciar isso.

Quem leu a importante biografia de Esmeralda, menina moradora de rua que foi atendida fragmentariamente por equipamentos públicos e ONGs de plantão na cidade, percebe o processo de singularização que a leva a desejar contar sua própria história. Tratava-se de reconhecer, testemunhar sua história tornando-a crível, verossímil e exemplar para si e para outros. Esmeralda descreve uma trajetória épica que tem como objeto, primeiro sua sobrevivência, depois sua constituição enquanto sujeito e cidadã.

Ela precisava narrar suas experiências como testemunho já que no limite, as violências e experiências vividas por Esmeralda beiram o ficcional. O que nos lança a pergunta quando a lemos: Como um ser humano foi capaz de suportar isso?

Mas Maurice Blanchot já nos chamou a atenção para o fato de que o ser humano não pode ser desfigurado ou destruído e é por isso as atrocidades para desfigurá-lo, desumaniza-lo, não tem limites.

De fato esse material produzido por Esmeralda tornou-se um dos poucos testemunhos, de crianças e adolescentes na cidade de São Paulo, onde podemos acompanhar, detalhadamente, as formas de segregação, assistência e acolhimento na cidade de São Paulo.

Lembro-me da experiência na Secretaria do Menor, onde educadores espalhados pelo centro da cidade faziam um certo cordão de isolamento aos meninos moradores de rua. Eles chegavam em geral antes da polícia e recolocavam a criança no circuito do atendimento em meio aberto. Forma explícita de resistência urbana no âmbito de uma política de governo.

Fazer trabalhar os dados
Duas observações iniciais antes de apresentar um repeteco de dados, que já nos cansaram um pouco, mas continuam sendo fundamentais como ponto de partida para a necessária depuração da imensidão de dados a que hoje temos acesso.

Laymert Garcia nos chama a atenção para uma mudança estrutural na qual estamos imersos. Estamos num período em que as máquinas energéticas, perderam claramente o espaço e sobra o interesse frente às máquinas informacionais. Isso foi precedido pela perda da importância do corpo do trabalhador braçal que migrou para os serviços e que foi, em parte substituído em território urbano pelas máquinas.

Desse modo como já dizia Robert Kurz há mais de uma década atrás, o miserável não gera interesse sequer em sua utilização como mão de obra barata. Discurso presente nos anos 70 e 80.

Ou seja, seu corpo acéfalo não interessa mais na cadeia da produção porque o corpo é muito mais ineficiente e caro do que a máquina do ponto de vista da rentabilidade física de seu trabalho.

Assim aquele corpo que se oferecia ao uso e abuso no chão da fábrica, digamos assim, não é de modo algum necessário. O chão da fábrica lentamente se despolitiza.

De outro lado vemos a era informacional em sua fase entediante e limite. Isto é temos, num click, uma quantidade de informações imensa que vão parando no meio do caminho com entulho, coisa estragada ou objeto sem uso algum. As informações chegam aos montes, mas elas não modificam uma linha em nossa capacidade de agir e em nossa capacidade de transformar nossa sociedade no seu aspecto mais crônico e doentio: sua profunda desigualdade.

Ou seja, a quantidade de informações a que temos acesso não transformaram em nada nossa capacidade de agir coletivamente em função de um benefício coletivo e público, bem como foi incapaz de alterar o diagrama assimétrico que caracteriza todas as grandes cidades.

As informações então, hoje sabemos, não são nada sem trabalho árduo e profundo sobre elas, de modo que qualquer trabalho superficial sobre as informações devolvem-nas para o caldo grosso da indiferenciação, onde nenhuma informação é mais importante que a outra.

Vejo nesse ponto um papel absolutamente central do professor. Como aquele profissional que ainda seleciona os pontos relevantes da informação e os faz trabalhar. Desmitificando o acesso puro e simples da informação que nos assola. Nesse sentido é que falamos dessa resistência necessária de pais e professores contra a mídia e os valores avassaladores do mercado. Um trabalho de guerrilha, é verdade, e que sem qualquer um dos vértices (pais ou escola) está fadado ao fracasso.

Uma outra imagem interessante é a da informação como sujeira. Imagem que recolho da reflexão de Flávia Schilling sobre a corrupção. A quantidade de informação não processada se torna uma sujeira. Coisas acumuladas e sem uso que nos impõe compromisso e non-sense. Temos o dever de mexer naquela bagunça, mas a sensação é de impotência. É necessário um trabalho de depuração constante para que objetos não se tornem entulhos e os lugares apenas sujeira.

Vejam então que da mesma forma como a informação tornou-se irrelevante e passível de ir para a lixeira, a tradução de pessoas em números(estatísticas) pode ter o mesmo fim se não forem colocados ao lado delas sua dimensão mais singular e, como tal, humana.

Voltaremos a isso para falar então do corpo do pobre, do miserável, indigente, pedinte e mendigo.

Vamos então a alguns dados bastante conhecidos de todos nós e procuremos fazê-los trabalhar. Todos esses dados foram amplamente divulgados pelos relatórios de Direitos Humanos, por várias mídias e revistas especializadas. Vejam o seguinte pacote :

 - No Brasil mata-se por ano, em estado de “normalidade democrática” cerca de 50.000 pessoas, como comparação podemos citar a guerra do Vietnã que em 20 anos de guerra civil que levou 55 mil soldados americanos.
- Nos últimos 25 anos, meio milhão de pessoas foram mortas por arma de pequeno porte no Brasil(desde 2005), sendo o Brasil um dos maiores fabricantes desse tipo de arma no mundo.
- A violência brasileira mata mais do que guerrilhas endêmicas como as da Colômbia.
- O formidável progresso na área de educação e saúde no Brasil, que reduziu drasticamente os índices de mortalidade infantil foi praticamente anulado com o crescimento do homicídio entre crianças e jovens entre 0-19 anos.
- Entre 1980-2002, do total de 110.320 de crianças e adolescentes mortos por homicídio no Brasil, 59% o foram por arma de fogo.

Essas notícias, esses diagnósticos tem para nós utilidade incerta: ao mesmo tempo em que diagnosticam e apontam uma situação dramática e epidêmica, alertando para seu caráter urgente e intolerável, geram também perplexidade e redobram o medo e o imobilismo na sociedade civil.

Este roldão de dados, disparados por organizações competentes do Brasil e do mundo para assinalar a gravidade numérica das nossas violências, adquirem ano após ano uma importância cada vez mais atenuada e a certeza de que, afinal, somos mesmo um país, e quiçá, um povo violento.

Os números nos inebriam construindo em torno de nós, uma aura estranha que nem nos protege e nem nos auxilia a compreender. Nos lançam a comparações absurdas e longínquas e, sem perceber, massacram as esperanças do cidadão comum que não sabe como ponderar esses números, e menos ainda, como utilizá-los.

Como compatibilizar o crescimento de homicídios entre crianças e jovens no Brasil com a diminuição dos índices de homicídio em São Paulo?

Ou o sucesso da campanha do desarmamento que retira de cena mais de 400.000 armas de pequeno porte ao lado da produção maciça de armas de pequeno porte pela indústria brasileira, que relança no mercado novamente quase 500.000 armas de pequeno porte por ano?

Na verdade, essa avalanche de estatísticas que são produzidas como orientadoras de qualquer política pública, de qualquer estratégia em larga escala, para o cidadão que tem seu cotidiano atravessado pela iminência da violência, abrupta, traumática e completamente desregrada, soa como mais um sinal crônico de uma doença insuperável.

O Brasil parece ser uma equação com resultado zero. Mais uma nuance genérica e contraditória do nosso caráter que termina por se espatifar no esquecimento e na impotência.

Os números desenham o paradoxo e radicalizam os problemas brasileiros. Não se trata, hoje sabemos, de obter números mais ou menos alvissareiros. Trata-se de constituir um plano de manutenção dos resultados imediatos a serem obtidos no longo prazo. O problema brasileiro não é a emergência desse ou daquele resultado promissor, mas a manutenção de políticas capazes de fazer desses resultados mais do que fogos de artifício.

Aliás, esse risco o político profissional brasileiro capturou muito bem. Com medidas de impacto imediato é possível fazer os números caírem, até a próxima votação. Tira-se os caminhões de circulação e o trânsito melhora no dia seguinte (tantos por cento, tantos kilometros) porém qual é a política de engenharia de trânsito que manterá esses índices em queda com a entrada de 1000 novos veículos por dia na cidade de São Paulo.

A miséria diminuiu com os programas de assistência do governo, mas qual será a estratégia de promoção de emancipação política dos que hoje são completamente dependentes da assistência governamental e qual a proposta para desmanchar de forma gradativa e resoluta a formação desses novos currais eleitorais.

No que tange aos índices de violência sabemos que os dispositivos da violência cotidiana já se tornaram gêneros de primeira necessidade.
Façamos então um exercício de interpretação desse conjunto, apontando para uma instrumentação desses dados, voltando a dar-lhes importância na medida em que pudermos perder a reverência e o preconceito epistêmico contra eles.

Mas também, e ao mesmo tempo, insistindo em reconhecer nesses números apenas indícios, sinais, sintomas de uma problemática mais complexa e só inteligível a partir de um trabalho detalhado e interpretativo. Trabalho esse que exige, justamente, a voz singular das violências que acontecem na cidade e no corpo do cidadão. Sim porque é no corpo do cidadão (ou do não cidadão) que toda violência incide. É sobre o corpo que serão cobrados todos os débitos advindos das desigualdades sociais extremas, da ausência de políticas públicas, da ineficiência do estado, da falta de acesso à justiça e aos direitos fundamentais.

Voltemos então ao primeiro dado que eu apresentei a vocês há pouco:

No Brasil mata-se mais do que em Estados em situação de conflito armado. O Brasil tem índices de letalidade maiores que os da Colômbia, maiores que os da Bósnia quando vivia situação de conflito aberto e maior que os índices que figuraram na guerra do Vietnã ou o conflito Israel/Palestina. Esta afirmação está procurando evidenciar o paradoxo e o absurdo de uma constatação comparativa como essa. Entretanto é preciso arrastar esses dados para outros tempos e lugares.

O Brasil evidentemente não está em situação de conflito aberto com outra nação. Têm, entretanto, um índice tão alto como o de países que tem uso beligerante de armamentos sofisticados com alto poder letal, de soldados armados cuja função não é outra senão exterminar o adversário, mas também contam com graus de proteção compatíveis com essa exposição. Blindagens de todo tipo, esconderijos, trincheiras e cavernas são elementos indispensáveis numa luta armada. A atenção e todos os recursos materiais, psíquicos e intelectuais estão voltados para a sobrevivência onde, teoricamente, a proteção aos civis está entre os acordos dos países beligerantes. Essa é uma das razões pelas quais Osama Bin Laden, o homem mais procurado do mundo, continua vivo até hoje.

Aqui uma primeira diferença que me parece fundamental, vou trabalhá-la me remetendo a outro dado numérico apresentado acima: pesquisa recente aponta um índice mundial de 600.000 mortes anuais no mundo pelo uso de armas de pequeno porte, onde o Brasil é responsável por 8% dessas mortes. O comentário que irá ainda nos ajudar é : “são essas as verdadeiras armas de destruição em massa do planeta”.

As armas de pequeno porte que também têm uso numa guerra têm, no entanto, no Brasil, uso disseminado em situação de paz. São utilizadas por nossas polícias, mas também pela sociedade civil que a têm utilizado para a solução de pequenos conflitos. Brigas com o vizinho, desentendimentos no trânsito, altercações num bar que podem provocar o uso de uma arma que se porta a tiracolo levando a um desfecho letal. Esse uso, portanto, está preferencialmente voltado para a sociedade civil, para um outro individuo desarmado, ou que não teve tempo de sacar a sua própria arma.

Indivíduo que, ao sair de casa pela manhã, na imensa maioria das vezes, não saiu priorizando sua sobrevivência e, portanto, quando for alvejado, estará, de algum modo, despreparado. Salvo em rivalidades explícitas entre pessoas e gangues.

O inimigo estrangeiro que em certos países europeus revela-se no imigrante, refugiado ou asilado no Brasil é o jovem adolescente, pobre, desempregado e de baixa escolaridade, entrincheirados nas favelas.

Os inimigos internos no Brasil são os pobres e são eles que são alvo privilegiado dos homicídios e pela violência praticada pelo Estado.

Uma importante pesquisa realizada pela Ouvidoria de Polícia do Estado de São Paulo no ano de 1999 demonstra que: 

Do total de pessoas mortas pela polícia nesse ano 56% não tinham antecedentes criminais, eram réus primários, e 51% foram encontrados com perfurações nas partes posteriores do corpo, o que sugere que foram mortos em fuga ou, no mínimo, sem condição alguma de defesa, contrariando as justificativas policiais que sugerem morte em situação de confronto ou, nos termos da polícia, “resistência seguida de morte.”

Trata-se, portanto de um conflito secreto que leva os pobres a levarem a pior durante séculos no Brasil.

Não há nenhum absurdo e nenhuma novidade nisso. É infinitamente mais fácil alvejar um cidadão desarmado, ou despreparado diante da ameaça, do que um soldado em guerra. No Brasil está-se a caça dos desarmados, dos desprevenidos, dos inofensivos, dos pobres. É preferencialmente nesses corpos que incide o desmando e o Estado, que numa guerra é clara e ostensivamente o responsável, numa situação como a nossa parece ser sempre o último a saber.

Há um pacto entre o Estado e a sociedade civil que faz dos próprios concidadãos suas principais vítimas. Por isso o despreparo, a vulnerabilidade e a facilidade em matar revelam uma dinâmica onde todos são inimigos e todos podem ser atingidos de algum modo. O inimigo mora em nossa casa disseminando angústia e insegurança. O inimigo é impreciso, indeterminado e inconfessável. Estranho e familiar, próximo e distante, tolerado e odiado. O inimigo é cordial.

O silêncio, a omissão da população civil em relação aos crimes bárbaros que ocorrem no interior das penitenciárias, nas FEBENs ou mesmo nas ruas da periferia paulistana atestam uma fratura no exercício da democracia por parte da população civil, na medida em que esses lugares têm se consagrado como exemplos incontestes de privatização do espaço público que os agentes do Estado, com arma ou porrete na mão, procuram exercer.

Permite-se nesses lugares todo tipo de arbítrio e violência, como se fossem lugares privados, onde as leis não se executam, a não ser sob sua forma negativa e onde vigora o estado de exceção.

Para alguns pensadores brasileiros como Paulo Arantes e Chico de Oliveira, vivemos hoje em estado de exceção permanentes.

Porque então a criança e o adolescente nascido e criado nos espaços de exceção da cidade, zonas de alta vulnerabilidade social, não deveriam fazer uso da arma? A arma para vários setores da sociedade civil paulistana tornou-se um meio, uma forma de privatizar o público, de fazer prevalecer a própria vontade, o próprio desejo sobre o outro, ameaçando-o e forçando-o a abdicar inteiramente daquilo que antes era objeto de partilha ou disputa.

O que Caco Barcelos afirmou dizendo que “a polícia é o braço armado da sociedade civil” se evidencia e continua valendo no uso que tanto nossas polícias quanto a população civil faz da arma, quando a tem nas mãos.

Se a arma tornou-se objeto de desejo, objeto de força e expropriação numa sociedade profundamente desigual, como poderia não atrair as crianças pobres e negras posicionadas na escala mais inferior, mais subalterna e desassistida da sociedade brasileira? Como poderia não ter se tornado um fetiche? Uma extensão adquirível do próprio corpo e do próprio narcisismo que resulta em mais poder, em mais “igualdade”, expresso por todos os bens de consumo que, com ela na mão, se pode adquirir?

Nesse sentido a campanha do desarmamento toca num assunto fundamental: queremos ser reconhecidos a qualquer custo em nossos medos, desejos e necessidades. Com arma na mão é mais fácil.

Sabemos qual o papel traumático que a privação constante gera. Não ter nunca nada, se não leva o sujeito à comiseração depressiva e melancólica, a um estado de imobilismo e descrença em suas próprias percepções, ações e esperanças, conduzem à crença do tudo ao mesmo tempo agora. A impossibilidade constante de ter, possuir, deixa em qualquer um a sensação do engodo, do embuste. Não cumprimento de promessas permanentemente adiadas.

A experiência da promessa não cumprida é como que comprovada nos corpos doentes, em andrajos, desprotegidos dos ruídos das ruas, expostos em sua feiura e degradação. Para estes nenhuma promessa jamais se cumprirá. São justamente os menos visíveis que permanecem mais tempo expostos, nas ruas, onde viabilizam sua subsistência. Onde resistem para existir, como costuma dizer Pe. Júlio Lancelotti.

Devemos notar que as crianças e os jovens entre 15 até 24 anos são vítimas preferenciais das mortes violentas que predominam no Brasil, são eles que se deparam, a partir da experiência concreta com todos os elementos que forjam uma das economias mais desiguais do mundo, com a falta radical que a desigualdade produz. Falta de todos os bens mais elementares. Bens que revelam a maior ou menos inclusão daqueles que podem ou não usufruir deles e ostentá-los.

O conforto tornara-se tão valorizado como elemento de ostentação sobre os desiguais, que o próprio criminoso jovem visa arrancá-los com a arma na mão adquirindo roupas, tênis, relógios e bens de marca realizando a mimese, que perfaz a semelhança entre ricos e pobres enquanto dura o produto. Marcas como logotipos da inclusão, do poder de adquirir e permanecer visível socialmente, num mundo altamente valorizado pelo seu poder de aquisição. Não há, muitas vezes, para o jovem e a criança pobres elementos de valorização sustentáveis em sua triangulação com a família e a cultura.

O jovem que ama sua família, entretanto, frequentemente não a admira, não pode reconhecê-la no horizonte de seus próprios ideais, não só porque ser parte de sua família lhe impõe uma vida excessivamente limitada, em função das exigências que essa mesma cultura lhe exige, como também a subalternização na rua, no trabalho, na escola aparece como única maneira de manter as coisas como estão.

Assim tornar-se honesto e trabalhador, projeto já bastante custoso, torna-se desvalorizado quando a honestidade e o trabalho têm como consequência a precariedade e a humilhação. É essa conjuntura mutilada que convive com a oferta imediata e oportunista do crime e que, entre outras coisas, o revólver torna possível.

A usurpação da identidade burguesa, do consumismo burguês, do pior da burguesia - “ser alguém na vida”- passou a ser um projeto de longuíssimo prazo, mas possuir as coisas desse alguém é uma ambição abreviada que pode ser satisfeita imediatamente.

A situação certamente seria muito pior se muitos desses jovens e crianças que ainda fazem malabares nos faróis, vendem doces ou simplesmente mendigam soubessem que, concretamente, eles não têm nenhuma chance de “ser alguém na vida” salvo por efeito de uma situação extraordinária.

Últimas considerações
Por fim, vamos fechar então esse parêntese salientando então três aspectos da violência que considero importante frisar nesse momento:

O primeiro diz respeito à necessidade metodológica de trabalhar como os dados obrigando-os à inteligibilidade, forçando-os a dizer mais do que o óbvio, o que, na verdade, sempre dizem. Mas não são só os dados que podem, e devem, ser articulados com os pontos de interrogação, com as perguntas que eles próprios permitem fazer; isso também ocorre com as imagens violentas, com as teorias e notícias sobre a violência e mesmo com os testemunhos.

O segundo aspecto diz respeito aos elementos subjetivos, narrativos, testemunhais aos quais devemos, eu diria, submeter, os saberes sobre as violências. Ou seja, é preciso que saibamos e compreendamos as motivações que fazem uma criança segurar uma arma, arrombar um carro, matar uma pessoa e que fazem o cidadão de classe média silenciar diante de massacres, chacinas e atrocidades que ocorrem na porta de sua casa, e que imagina, são os mesmos que lhe fizeram e podem lhe fazer mal.

Resulta extremamente problemático o apoio maciço da sociedade civil a práticas abusivas e violentas, que ao final, se voltam contra essa mesma população e classe social. Não houve avanço significativo da sociedade civil em relação à compreensão da complexidade dos mecanismos que engendram as violências. Ainda o melhor remédio contra as violências é a violência.

E o terceiro aspecto é a necessidade imperiosa de pesquisar permanentemente as razões e o sentido de estarmos aterrorizados em nossa cidade, sabendo que nosso terror pode e é instrumentado como alicerce de ações assassinas e genocidas por parte do Estado, que não tem outro efeito senão o de espalhar o terror como álibi para a matança. De nosso terror parte as autorizações para o que Everett Hughes denominou de “trabalho sujo”.

Para terminar eu queria lembrar Maurice Blanchot  que em sua obra “A escritura do desastre” posiciona a palavra diante da violência como tarefa. Definição simples que devemos encarecer. De certo modo diante da problemática que necessariamente tem de se colocar entre a violência e a linguagem, seria mesmo necessário avançar para além do que já pudemos compreender com a conhecida afirmação: onde há violência não há linguagem.

Se por um lado reconhecer essa oposição entre uma e outra contribui para denunciar o aspecto incomunicável das violências, o aspecto da sua força que repousa no corpo; por outro não devemos esquecer de que nada deixa tantos rastros de linguagem quanto às violências. Tantas falas esparsas, tantos discursos reconhecidos, tantas queixas incompletas.

- Esse trabalho foi apresentado no CEU Butantã em agosto de 2008, no âmbito do Projeto Direitos Humanos nas escolas coordenado pelo Professor José Sergio Fonseca
- Paulo Endo:  Psicólogo, Psicanalista, Doutor em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP, Pesquisador CEBRAP/CAPES, Pesquisador colaborador do Laboratório de Psicanálise e Sociedade do IPUSP.

Fonte: http://www.dhnet.org.br/educar/textos/paulo_endo_corpo_cidade_violencia.pdf




quarta-feira, julho 01, 2015

Ensaios sobre EDUCAÇÃO

O que o professor espera do aluno e, 
o que o aluno espera do professor?


Durante minha experiência como educadora no Ensino Fundamental participei de vários congressos seminários e pós- graduação. E, uma coisa é certa: alunos são sempre alunos em qualquer idade. Atualmente faço algumas palestras em diversos cursos do Ensino superior e observo que professores e alunos continuam os mesmos. Em 1994 com a nova LDB Lei de Diretrizes e Bases, fizemos um grupo de estudos e decidimos seguir a lei, começando pelo uso das novas nomenclaturas: professor era educador e alunos receberiam a denominação de estudantes ou educandos. Engraçado duas décadas depois este grupo não existe mais e estas nomenclaturas são pouco usadas e quem usa é visto como se falasse errado.

Falar de educação, psicologia, desenvolvimento, aprendizagem é uma volta no tempo, um desafio dos velhos e dos novos tempos. Este texto é uma reflexão sobre educação, psicologia e aprendizado. É uma memória que se reascende como Fênix trazendo lembranças, superando conflitos e observando comportamentos. Penso que educação é um desafio continuo de planejar, preparar, monitorar, avaliar, controlar o tempo e o conteúdo, tarefas complexas que só o professor, o educador consegue fazer. Um eterno aprender, aperfeiçoar-se, pesquisar e aprender a ser, fazer, conviver e conhecer.

Quando estamos em sala de aula, atuando como professores queremos, que os alunos tenham uma postura. Que eles sejam interessados busque leituras sobre o conteúdo, faça as lições, preste atenção na aula, não use os celulares em aula, e, não saia da sala no meio de uma explicação ou faça perguntas fora do contexto. Porém quando estamos na condição de alunos agimos da mesma forma que nossos alunos, ou seja, a turma do fundão, os mais interessados, aqueles que só estão de corpo presente e assim poderíamos encher muitas linhas sobre cada aluno em sala de aula.   

Queremos muito e fazemos pouco. Não será a aula show ou, o professor sabe tudo que fará a diferença no futuro profissional, mas cada indivíduo é responsável pelo que quer aprender. O aluno espera ter um exemplo a seguir, uma inspiração para fazer do seu aprendizado algo inesquecível e significativo, um motivo para sentir-se pronto para aprender e ser o melhor seduzido pelo saber e o conhecimento. O conhecimento é o poder, seu diferencial.  O professor quer alunos com sede de saber, capaz de revelar mistérios ainda escondidos na aprendizagem e criar conceitos que revolucionem o desenvolvimento de cada um.

A psicologia, a psicanálise é um caminho para conhecermos a nós mesmos e o outro. Porque os pensadores em educação estudaram estes caminhos e encontraram teorias que iluminaram os métodos, compreenderam que o comportamento é um reflexo do meio em que se está inserido e que nossas diferenças são normais ou patologias que a sociedade irá rotular com suas regras. Vivemos um ciclo vicioso e aqueles que se permitem sair do circulo são os vitoriosos no desenvolvimento e na aprendizagem são estes mestres, os cientistas, os pesquisadores que fazem o mundo girar e que também foram alunos e deixaram suas experiências para serem aplicadas pelos professores.

Há algum tempo cito esta frase: “Não são as respostas que movem o mundo, são as perguntas.” de Albert Einstein. Acredito que o professor representa o saber e pode influenciar positivamente ou negativamente seus alunos. No entanto o educador pode proporcionar ao educando uma reflexão da prática educativa com a subjetividade e as relações interpessoais entre os dois. Num desejo mútuo de perguntas e resposta.

Autora: Prof. EDITE MORAES SANTANA
edymor451@gmail.com.br



Ensaios sobre EDUCAÇÃO




O Professor e o Novo Perfil dos Acadêmicos.


Discutir o papel do professor universitário em pleno século 21 é discutir os desafios enfrentados pelo mesmo em uma época de transição entre a pedagogia tradicional e os novos modelos pedagógicos adaptados a este novo paradigma tecnológico. Neste patamar o professor se depara com alguns dilemas, Como, por exemplo, o desafio de dar aulas a uma geração que é extremamente inquieta e conectada.

O uso de tecnologias móveis é, cada vez mais, uma constante em salas de aula de instituições de nível superior. Se utilizadas fora do contexto didático, na forma de mensagens de texto, vídeos, etc...  principalmente em disciplinas de conhecimento técnico, obrigatoriamente esta  prática interferirá  na  qualidade da aprendizagem do acadêmico. Pode-se ainda considerar que este fato, se constante, poderá também afetar a concentração do professor e demais alunos, mudando, para pior, o aspecto pedagógico da aula.

         Vivemos em uma sociedade, na qual, a presença das novas tecnologias de informação, comunicação, entretenimento é cada vez maior, e com elas, os conceitos de informação, conectividade e interatividade. A informação, crescendo continuamente, predomina sobre a energia, e a imagem de representação é dada pelo computador, ao invés de turbinas, silos ou os chaminés das fábricas. Ao trabalhar poeticamente a proposta da leveza, Ítalo Calvino nos apresenta a idéia deste novo paradigma ao dizer que neste mundo “não temos imagens esmagadoras como prensas de laminadores ou corridas de aço, mas bits de um fluxo de informação que corre pelos circuitos sob a forma de impulsos eletrônicos. As máquinas de metal continuam a existir, mas obedientes aos bits sem peso”.  (Siqueira, 2003).

Entender se este novo paradigma comportamental do universitário é nocivo à prática docente quando não integrado ao discurso didático é um dos principais focos de discussão em educação atualmente. É, também, um divisor de opiniões, pois as divergências entre os prós e contras são muitas.

Como ministrar uma aula mais técnica ao graduando com celulares tocando a todo o momento? Deve o professor adaptar-se a esta nova práxis pedagógica, acreditando que este novo modelo de aluno irá buscar o aprofundamento dos seus saberes quando necessário ou deve o professor tentar concatenar metodologias com tecnologias primando pela excelência dos do ensino e pela disciplina, mas correndo o risco de recair em um tradicionalismo disfarçado?

Em uma pesquisa intitulada “Dependência ou autonomia? Que estudou sobre o comportamento dos alunos universitários do Rio de Janeiro no Facebook, focando no comportamento atual destes estudantes em sala de aula . Os dados revelados  são estarrecedores: 92% consideram-se heavy users (passam mais de seis horas diárias conectados às redes sociais); 87% confirmaram ter enfrentado dificuldades de aprendizado por estarem conectados ao Facebook; e 19% admitiram sofrer com déficit de atenção, dificuldade de concentração, falha na assimilação do conteúdo e esquecimento.

O uso desses aparelhos é uma grande ameaça ao modelo de ensino atual. Mais de dois terços dos alunos possuem um equipamento digital. Segundo um estudo da Experian Marketing Services feito este ano, um aluno comum de universidade americana recebe em média 3.853 mensagens de texto por mês. Para o pesquisador, as aulas deveriam ter mais intervalos. Assim, os alunos poderiam checar seus e-mails. E os professores, em vez de impedir telefones em sala de aula, deveriam incentivar os alunos a utilizá-los para checar dados sobre o assunto da aula. Mais do que combater o uso, o professor deveria entender o caráter multitarefa do aluno, de esse ser capaz de aprender enquanto manda um recado de texto para o colega.Mudanças de paradigmas da educação são frequentes. A interferência das mudanças de comportamento dos alunos no modo de ensinar é fundamental. E o preparo de professores para esses desafios é a chave para o sucesso na formação dos jovens. O Brasil não respeita e muito menos admira os nossos professores e, portanto, não os ajuda. A formação dos professores atualmente é, na maioria dos casos, bancada pelos mesmos. E poucos têm experiência com novas tecnologias. O atraso no desenvolvimento dessas habilidades só aumenta o abismo entre a educação moderna e a atualmente oferecida no País. (TUMA, 2013)
O professor, em seu contexto global, sempre é questionado sobre as estratégias que usa para melhorar sua didática e consequentemente o rendimento dos alunos. Em uma universidade esta cobrança surge na forma das provas do ENADE, onde o curso e por relação o professor são avaliados. Em vista disso, vive o docente um dilema ante esta nova geração tecnológica que aí está, ou seja, como integrar-se ou adaptar-se a este novo cliente que está na sala de aula.

Discutir alternativas para mudar esta dinâmica e buscar novas metodologias e estratégias que aprimorem o contexto didático da sala de aula ante esta nova realidade, sem detrimento do pedagógico, é premissa para que tenhamos uma formação acadêmica de qualidade. De qualquer modo, o perfil deste novo professor universitário deve ser o de desafiador, comprometido, ético, inovador e, ante toda esta parafernália tecnológica, humano.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA
SIQUEIRA, Holgonsi Soares Gonçalves. Novo paradigma informacional. Disponível em: http://www.angelfire.com/sk/holgonsi/informacional.html) Acesso em: 25/06/2015.


TUMA, Rogério Na sala de aula, não! Disponível em: http://www.cartacapital.com.br/revista/772/na-sala-de-aula-nao-3798.html. Acesso em: 24/06/15

Professor Walmir Ramos Wojcik jr
profwalmir@gmail.com.br


segunda-feira, junho 29, 2015

Ensaios sobre EDUCAÇÃO

Dicas infalíveis para descascar ovo cozido facilmente

Após cozinhar os ovos, leve a panela para debaixo da torneira e deixe cair água por cerca de 1 minuto. Depois disso, adicione gelo à panela e espere cerca de 15 minutos. Em seguida, bata o ovo gentilmente em uma superfície dura e role para frente, dando uma leve pressionada. Puxe a pele com facilidade. Veja como:
A Sociedade de Educação Nossa Senhora Auxiliadora Ltda., mantenedora do Centro Universitário FACVEST, na Cidade de Lages, no Estado de Santa Catarina, vem oferecendo a comunidade desde junho de 2001, vinte e oito cursos de graduação, entre eles o bacharelado em Engenharia Civil. As instituições de ensino superior dependem de autorização do Ministério da Educação para implantação de cursos de graduação, a exceção são as universidades e centros universitários que, por terem autonomia, independem de autorização para funcionamento de curso superior. No entanto, essas instituições devem informar à secretaria competente os cursos abertos para fins de supervisão, avaliação e posterior reconhecimento, conforme disposto no art. 28 do Decreto nº 5.773/2006.
Quando somos criança nossos pais vivem perguntando o que vamos querer ser quando crescermos e aí, vem um turbilhão de profissões: psicólogo, médico, bombeiro, secretário, professor, jornalista, comandante, dentista, político. Ufa! E o mais chistoso é que, na medida em que vamos crescendo, voltamos aos nossos pais e dizemos: “agora mudei de idéia, quero ser engenheiro porque ganha muito dinheiro”. Entretanto, a pergunta mais importante a ser feita seria, que resultados eu desejo alcançar quando chegar ao ápice de minha vida profissional. A instituição, os professores e a ementa do curso de graduação que escolhi contemplam as múltiplas habilidades, os conhecimentos generalistas e atuais mínimos necessários para minha formação profissional?
As primeiras cidades surgiram há cerca de 9.000 anos antes de Cristo na região entre a África e a Ásia, conhecida pelo nome de Crescente Fértil. No entanto, o engenheiro só recebe esse nome na Idade Média, quando os construtores dos aríetes, das catapultas e de outros “engenhos” bélicos foram denominados ingeniators, pelos autores latinos.
Nos últimos meses, estranhos sons assombram a Abadia de Westminster. Com certeza é Smeaton a se revirar em sua tumba. Mundialmente reconhecido como o patrono da engenharia civil, John Smeaton foi inventor, astrônomo e importante escritor. Foi também o responsável pelo projeto de varias pontes, canais, portos e faróis. Engenheiro mecânico competente e um eminente físico entrou para a história como o primeiro engenheiro a se autodenominar engenheiro civil, em oposição à engenharia militar da época. Por essa ocasião, a engenharia já contava milhares de anos de idade.
Porém, dentro do contexto de que a engenharia civil confunde-se com o desenvolvimento da humanidade, através de um processo contínuo, marchando ao sabor da cultura, da conjunção histórica e social, onde a missão do engenheiro é de fundamental importância no dia-a-dia da sociedade para concretização sonhos essenciais ao convívio humano e a sustentabilidade global, entendo que estamos em débito com a sociedade no que tange a busca de soluções nos setores cujas atribuições nos foram confiadas. O exame da atual situação demonstra que pouca coisa foi feita, mudou, ou ainda, muita coisa piorou. As frequentes discussões entre os profissionais incumbidos das soluções na área da engenharia e arquitetura acabam por desfoca-los do objetivo principal. Arquitetos falam que engenheiros são retrógrados, sem gosto e querem edificar não prédios, mas caixotões. Estes rebatem dizendo que as "viagens" arquitetônicas são quase sempre caras, loucas e inúteis e que os profissionais da área não passam de decoradores graduados. A crítica mútua é um esporte praticado pelas duas categorias, com nuances exclusivas para cada profissão. Quando querem carregar nas tintas, os engenheiros questionam a sexualidade dos arquitetos, por causa de seus "dons artísticos". Já estes veem o pendor pela exatidão da outra categoria como sinal explícito de burrice.  Em 1980, a lateral de uma viga do entrepiso que separa os prédios de engenharia e arquitetura na Universidade Federal de Santa Catarina foi pichada com a seguinte frase: “Construa certo, contrate um arquiteto”. A resposta foi imediata, estudantes de engenharia picharam na face oposta: “Economize dinheiro, contrate um engenheiro”. E a vida segue, com os mesmos métodos retrôs, materiais de baixa qualidade e sem tecnologia, obras caras, pesadas, morosas, artesanais, cada vez mais engastadas, e que acabam por não satisfazerem seus usuários.
A população cresceu e cresce, e com ela cresce a fome de parcelas enormes da sociedade civil, clamando com sua voz enrouquecida por melhores cidades, moradias dignas e equipamentos urbanos funcionais. A falta de bons profissionais em todos os setores é um problema material, teórico, conceitual, emblemático, metodológico e existencial de estatura colossal. O próprio Pantagruel submetido ao processo inverso. E o que nele desassossega é a infinita capacidade de regurgitar, fazer sobrar, fatigar-se sem, contudo, interessar-se efetivamente por prover o que falta, onde falta, quando falta, para quem falta e por que falta. Toda via, mesmo com um problema dessa dimensão, não existem por enquanto, ações para atender as necessidades básicas da sociedade. É preciso que a universidade, os professores e os alunos dos cursos de graduação estejam preocupados e preparados para desenvolver a capacidade de analisar os problemas decorrentes à profissão de maneira simples e lógica e de aplicar a sua melhor solução rápida e eficaz. É preciso fundamentar, incentivar e investir em pesquisas para o desenvolvimento de materiais alternativos de fácil aplicação, baixo custo, e melhor desempenho. É preciso também que haja urgentemente uma política série que encare o problema de frente com recursos financeiros pesados e determinados a resolver tal situação ao invés de fazer demagogia barata de bons pensamentos do que deve ser feito. Se os temas apresentados não forem trazidos para a universidade e colocados em prática, não valem de nada, se ficarmos ouvindo balela, estaremos condenados a viver o que Paul Auster, desenha no livro In the country of last things. Um cenário feito só de sobras, de resíduos da civilização e no qual a sobrevivência é absoluta, já que a vida, ela própria, ficou limitada ao que sobrou de si mesma, pura sobrevida em meio aos escombros políticos e à devastação social.
Quando paro para pensar engenharia, preparar uma aula ou ainda, corrigir uma avaliação surge uma porção de “grilos” em minha cabeça. A começar pela forma de que a coisa vem sendo feita no Brasil, chegando aos métodos de ensino e a estrutura de nossos cursos na serra catarinense. Hoje não busco mais a fuga no esporte como fazia no passado, passo meu tempo escrevendo para refletir sobre o acontecido.
De Quem é a Culpa?
Embalado pelo alto e gritante som da canção, “Ébrio de Amor” da dupla Milionário e José Rico, que chaga pelas ondas curtas das 690 KHz até o auto falante do velho rádio Telefunken. Osni Vaz conhecido pela alcunha de “Osni carniça”, biscateiro da empresa de mão-de-obra “Bob Buildings”, sem dinheiro para tomar o ônibus, se apressa em terminar de fritar um “zoiudo” e completar seu “bandeco”. Ele terá que pedalar sua “zica” por aproximadamente oito quilômetros até o Jardim Residencial Cepar, no Bairro Ponte Grande zona leste de Lages, para cortar as paredes internas de uma obra. O que “Carniça” não imagina é que seu serviço será interrompido bem antes da conclusão da obra, porque Allyhana da Silva, psicóloga de 24 anos, não tem dinheiro para comprar o material que falta nem tão pouco regularizar a documentação da construção que será embargada pelos fiscais da secretaria de planejamento da prefeitura municipal. Ela tomou um empréstimo consignado de quinze mil reais na Caixa Econômica Federal, vendeu seu automóvel Del Rei, já gastou vinte mil e ainda está longe de se mudar para o novo lar, que na verdade é apenas a ampliação de mais um pavimento na casa de seus pais. "É complicado calcular quanto vai custar à obra porque o preço do material varia muito", explica Bob o empreiteiro à proprietária à beira do desespero. Afinal, seu casamento foi adiado porque os noivos não têm onde morar. Indiferente ao drama, “Carniça” continua a metralhar as paredes para passagem das tubulações das instalações elétricas e hidráulicas, sem imaginar que na caliça produzida pelo impacto da marreta no ponteiro, está quase todos os elementos que compõem o problemático desempenho da construção civil no Brasil. A primeira coisa que “Carniça” ignora é que seu trabalho rende pouco. Ele chega cansado, pois além de pedalar, no dia anterior saiu do serviço e antes de ir embora enroscou no “boteco do Popó”, bebeu cachaça com bitter e jogou sinuca até se embriagar. Passa nove horas por dia no serviço, empenha-se, mas a sua produtividade é muito baixa. A culpa não é só da mão-de-obra, mas da falta de padronização do material de construção, do projeto inadequado, e da falta de planejamento e organização da grande maioria dos que atuam nestes setores.
Quanto custa produzir um watt?
Durante o período do horário brasileiro de verão, nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, o Governo Federal tentou reduzir a demanda de energia do País, principalmente no horário de pico, que vai das 18h às 21h, quando a iluminação pública é ativada e as famílias retornam para casa, tomam banho e ligam seus aparelhos eletrônicos, como TV, ventiladores e micro-ondas.  Segundo as informações divulgadas pelo Ministério de Minas e Energia, o horário de verão gerou uma economia de energia de, aproximadamente, 5% este ano.
Não adianta promover ações e investir em campanhas milionárias de conscientização da população ou destinar mais dinheiro às escolas se não há critérios claros sobre como aplicá-lo nem controle efetivo sobre os desvios. Pouco ou nada vai adiantar fazer crescer os recursos da educação sem programar as mudanças necessárias no sistema ineficaz que temos hoje no Brasil. O que os alunos precisão saber é quanto custa para produzir um watt de energia. É preciso que a educação hoje tratada com superficialidade, sem um plano completo e consequente para alcançar metas seja revista e urgentemente repensada.

“Enquanto alunos forem considerados incapazes e os professores "sacerdotes" que devem fazer milagres sem quase dotação nenhuma, a universidade marginal continuará à margem do processo de desenvolvimento econômico e tecnológico. A Universidade para as classes subalternas do interior continuam sem prescindir de uma ação forte do estado. Não há milagre que faça triunfar um modelo de universidade carente para os carentes. Então, me pergunto: Conseguiremos descascar um ovo?”

Autor: Caetano Palma Neto
caetanopalma@bol.com.br
            PROFESSOR UNIVERSITÁRIO
             ENG.CIVIL - CREA 024315/8
            FISCAL DE OBRAS DA SEPLAN
               CONSELHEIRO COMUPDEC 


OS NÃO-TOLOS ERRAM / OS NOMES DO PAI

Nesta sexta-feira, Gustavo Capobianco Volaco abre espaço para uma conversa sobre o seu processo de tradução do Seminário de Jacques Lac...