A voz como isca: Como o Outro nos captura para a vida
Prosódia e Circuito Pulsional: onde o sujeito começa
No princípio era o verbo:
Se tentamos situar um ponto inaugural da vida psíquica, ele não se apresenta como vazio à espera de inscrição, mas como um campo já atravessado por algo que convoca. O recém-nascido chega ao mundo e é imediatamente envolvido por vozes, ritmos, inflexões que o antecedem e o tomam. Entre esses elementos, há um que se impõe com uma força particular: a voz dirigida a ele.
Não a voz enquanto portadora de sentido — pois ainda não há código compartilhado —, mas a voz em sua dimensão mais material: modulação, intensidade, cadência. Uma voz que se altera ao se dirigir ao bebê, que se curva, se eleva, se fragmenta em pequenas unidades carregadas de afeto.
Em seu artigo, A voz como primeiro objeto da pulsão oral, Marie-Christine Laznik propõe que é precisamente aí que algo decisivo se inaugura: o primeiro objeto da pulsão oral não seria o seio, mas a voz materna, em seus picos prosódicos.
... após ter trabalhado com algumas pesquisas psicolinguísticas
atuais, eu deveria propor “Os picos prosódicos como primeiros objetos da pulsão oral”.
Essa formulação de Laznik desloca o eixo clássico da teoria psicanalítica. Freud pensou o início da vida psíquica apoiado na experiência de satisfação das necessidades — sobretudo a fome. O seio seria o primeiro objeto erótico porque responde a uma exigência vital, e é a partir dessa resposta que se constituem os traços mnêmicos fundamentais. Foi sobre essa cena que ele construiu a ideia de apoio: o psíquico apoiado no biológico.
Mas há, na própria teoria freudiana, um ponto de tensão: a satisfação obtida na sucção não coincide inteiramente com a satisfação alimentar. Há um resto, uma repetição que não se explica pela necessidade. É nesse resto que a pesquisa de Laznik se instala.Os dados da psicolinguística que ela mobiliza são inequívocos: o recém-nascido reconhece a voz materna antes da primeira mamada e manifesta uma atenção privilegiada aos contornos prosódicos da fala dirigida a ele — o chamado mamanhês.
Fernald (1982, pp.104-13), um dos fundadores da psicolinguística, constatava nos recém-nascidos uma apetência oral exacerbada para um a forma particular de palavra materna, que foi chamada de "motherease" ("mamanhês"). Este motherease apresenta uma série de características específicas de gramática, de pontuação, de escanção, e uma prosódia especial. O autor interessou-se pelas características prosódicas do motherease e sobre o efeito que este produz na apetência do recém-nascido. Trabalhando com bebês de 1 a 3 dias de vida, o que descobriu ele? Que antes mesmo da descida do leite, um recém-nascido que portanto ainda não teve a experiência da satisfação alimentar, ouvindo um a forma prosódica particular da voz de sua mãe dirigida a ele, torna-se muito atento e começa a sugar intensamente uma chupeta não nutritiva. O recém-nascido chupa decidido ouvindo a prosódia desse "mamanhês", até mesmo quando se trata de uma gravação.
O que o captura não é o significado da fala, mas sua forma sonora. E mais: essa forma não é neutra. Ela aparece quando a mãe é afetada pela presença do bebê: quando algo nela se surpreende, se alegra, se intensifica. A prosódia, nesse sentido, não é apenas uma variação formal da linguagem. Ela é o índice de um acontecimento no Outro. O bebê responde a isso.
Antes de poder situar um objeto de necessidade, ele se orienta por essa modulação. Ele escuta — no sentido mais radical do termo — algo do lugar que ocupa para o Outro. Não como representação, mas como efeito. Se acompanhamos essa perspectiva, a teoria do apoio freudiano adquire nova reconfiguração. O que está em jogo não é simplesmente a passagem do biológico ao psíquico, mas a inscrição do sujeito em um circuito que envolve o Outro desde o início.
Lacan nos permite formalizar esse ponto ao conceber a pulsão como circuito. A satisfação pulsional não se reduz à obtenção de um objeto; ela depende de um percurso que inclui um momento decisivo: aquele em que o sujeito se faz objeto para o Outro.
O bebê não apenas busca algo — ele se oferece. Ele se coloca em cena, por assim dizer, na expectativa de provocar uma resposta. Um olhar que se detém, uma voz que se modula, um sorriso que se abre. É nesse retorno que algo se fixa. A voz, então, adquire um estatuto específico: ela não é apenas aquilo que vem do Outro, mas aquilo que carrega a marca de que o Outro foi afetado. Ela testemunha um gozo.
As pesquisas citadas por Laznik mostram que os picos prosódicos da fala materna emergem justamente em situações em que há surpresa e prazer. Ou seja, a voz se torna o lugar onde o desejo do Outro se deixa ouvir. O bebê, sensível a essa modulação, orienta-se por ela. Ele não busca apenas satisfação; ele busca reencontrar esse ponto em que ele próprio se torna causa.
Os bebês que se tornaram autistas nos levam a pensar que o recém nascido só olharia para sua mãe - ou o Outro Primordial de sua vida - quando ele fizesse a experiência desta prosódia na voz materna. Esta prosódia lhe possibilitaria identificar sua presença como o objeto causa de um gozo deste Outro Primordial. Ele vai procurar o rosto que corresponde a esta voz particular. E ele procurará também fazer-se objeto deste olhar, no qual ele lerá que ele é o objeto causa dessa surpresa e dessa alegria que a prosódia da voz e os traços do rosto materno refletem. Ele terá então amarrado com ela um circuito pulsional escópico.
O caso clínico de Marianne, apresentado por Laznik — a criança alimentada por sonda nos primeiros meses de vida — permite levar essa hipótese ao limite. Apesar da ausência de experiência alimentar oral, não há comprometimento da organização simbólica ou da linguagem. Isso obriga a deslocar a questão: o essencial não está na ingestão, mas no circuito que se estabelece com o Outro. Marianne não foi alimentada pela boca, mas foi intensamente endereçada por palavras, por uma presença vocal. Ela foi, por assim dizer, “alimentada” pela voz.
Esse ponto exige uma redefinição do oral. O oral não se reduz à função alimentar; ele é um modo de relação com o Outro, um modo de incorporação que passa pela linguagem antes mesmo de sua compreensão. A boca não é apenas órgão de ingestão — é uma borda onde algo do corpo se articula ao significante.
Isso também permitiu a autora retomar a questão do autoerotismo na teoria freudiana. Pensá-lo como originário, independente do Outro, implica supor um fechamento que a clínica não confirma. Conforme Laznik, sem o enganchamento no gozo do Outro, não há circuito pulsional constituído. O que chamamos de autoerotismo depende, portanto, de uma experiência anterior: a de ter sido capturado como objeto para o desejo do Outro. Sem isso, não há retorno possível dos traços — não há reinvestimento, não há circuito, não há jogo.
Dessa perspectiva, a prosódia funciona como uma primeira forma de inscrição do sujeito no campo do Outro. Antes do sentido, há ritmo; antes da palavra, há entonação; antes da nomeação, há um endereçamento. O bebê não compreende, mas responde. E essa resposta não é reflexa — ela já está, de algum modo, implicada em um laço.
Talvez seja nesse ponto que a hipótese de Laznik ganha sua força maior: ela nos obriga a pensar que o início não é organizado pela necessidade, mas pelo encontro. Um encontro que se dá na voz não como mensagem, mas como marca de um desejo. Antes do leite, portanto, há voz. E é nessa voz — nesse campo de modulações onde o Outro se deixa afetar — que algo do sujeito começa a se constituir.
Maria Holthausen
Bibliografia
• LAZNIK, Marie-Christine. A voz como primeiro objeto da pulsão oral. in: Estilos clinicos. vol.5 n. 8, São Paulo, 2000
• FREUD, Sigmund. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905).
• FREUD, Sigmund. Projeto para uma psicologia científica (1895).
• FREUD, Sigmund. Pulsões e seus destinos (1915).
• LACAN, Jacques. O Seminário, Livro XI: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964).
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