O Estado Diante da Angústia: O Teatro do Poder em José Saramago
Ensaio sobre a lucidez
É, ao mesmo tempo, uma fábula, uma sátira e uma tragédia. Quis que a fábula fosse uma sátira, mas não pude evitar que fosse também uma tragédia. Como a vida.
José Saramago, 2004
Este ano, nós, brasileiros, vamos às urnas escolher nossos representantes democraticamente, mais uma vez. Trata-se de uma obrigação que repetimos a cada dois anos, dado o voto compulsório no Brasil. Diante desse cenário eleitoral, vale sugerir o livro do mestre José Saramago, publicado em 2004, Ensaio sobre a Lucidez. O enredo centraliza-se justamente no processo eleitoral para articular, por meio de uma sinuosa ironia, uma questão fundamental: o que acontece quando o povo resolve levar o exercício democrático ao seu limite?
Num país indeterminado, durante uma eleição municipal, sob uma chuva persistente, os eleitores comparecem às urnas, mas o resultado surpreende o governo: cerca de 70% dos votos são votos em branco. Convocada uma nova eleição na semana seguinte, o fenômeno se intensifica. Mais de 80% dos eleitores votam em branco. O Estado interpreta esse gesto não como uma manifestação legítima da soberania popular, mas como uma ameaça à ordem democrática.
Assim começa o romance de José Saramago, Ensaio sobre a lucidez. A partir de uma premissa simples, Saramago constrói uma crítica contundente da democracia representativa contemporânea. O voto em branco não surge como expressão de apatia, ignorância ou desinteresse político. Ao contrário, trata-se de um ato consciente. Os cidadãos não aderem a uma revolução, não tomam as ruas, não destroem instituições: apenas recusam as opções oferecidas. Nessa cena muda, o que assusta o poder estabelecido não é a violência, mas a recusa silenciosa.
O colapso simbólico, provocado pela não escolha, revela que os sistemas políticos toleram a participação popular desde que ela permaneça dentro dos limites previstos. Quando o povo exerce sua liberdade de maneira imprevisível, a democracia revela uma face autoritária.
Na linguagem psicanalítica, o voto em branco introduz uma falta no campo simbólico. O eleitor se recusa a ocupar o lugar que lhe foi destinado. Essa falta torna-se insuportável para as instituições. Surge então a necessidade de preencher o vazio criando narrativas, procurando culpados e construindo fantasias conspiratórias.
O Estado comporta-se como um sujeito diante da angústia, ou seja, produz significantes que tamponem aquilo que não consegue simbolizar. O que o governo não suporta não é o voto em branco em si, mas a impossibilidade de atribuir-lhe um sentido único.
À medida que o governo se vê incapaz de compreender o fenômeno, passa a tratá-lo como conspiração. Ao constatar que não existem líderes, organizações ou movimentos responsáveis pelos votos em branco, torna-se necessário fabricar bodes expiatórios. Em busca de responsáveis, o aparelho estatal mobiliza investigações, espionagem, campanhas de imprensa e estratégias de manipulação.
Afinal, uma das estratégias mais importantes do Estado é a de produzir um inimigo para justificar sua própria existência. A lógica é bastante conhecida: se existe uma crise, deve haver conspiradores; se não há conspiradores, eles precisam ser encontrados; se não podem ser encontrados, precisam ser inventados.
Como em outras obras de Saramago, a crítica política é atravessada por um humor corrosivo. A narrativa é rica em ironia e sarcasmos ao descrever as vias tortuosas pelas quais se conduzem os interesses, os discursos e as decisões de uma estrutura política em crise. Ministros, assessores e autoridades frequentemente aparecem presos a discursos vazios, preocupados mais com a preservação da máquina estatal do que com a compreensão da realidade.
O narrador expõe as contradições do poder através de cenas visivelmente irônicas. Numa delas, o governo manda prender centenas de pessoas para interrogar sobre os motivos da votação em branco. Para garantir a veracidade das respostas, todos devem estar ligados a um polígrafo enquanto respondem às perguntas. E o polígrafo, segundo definição fornecida pelo próprio narrador, é uma máquina que, através do movimento de agulhas escrevendo num papel, indica se o indivíduo mentiu ou não. A certa altura do interrogatório, uma mulher desse grupo declara:
Não somos robôs nem pedras falantes, senhor agente, disse a mulher, em toda a verdade humana há sempre algo de angustioso, de aflito, nós somos, e não estou a referir-me simplesmente à fragilidade da vida, somos uma pequena e trêmula chama que a cada instante ameaça apagar-se, e temos medo, acima de tudo temos medo, (pg. 57)
O romance de Saramago não é uma sátira superficial, mas uma desmontagem paciente da linguagem política. Nela, a burocracia surge como uma forma sofisticada de cegueira.
Maria Holthausen
Comentários