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Mostrando postagens de outubro, 2008

Nome-do-Pai

Para compreender a importância do Nome-do-Pai é necessário lembrar que Lacan transforma o complexo de Édipo na estrutura de passagem da natureza à cultura por meio da introdução do sujeito na ordem simbólica. É no interior da família que o sujeito moderno descobre a existência de uma Lei simbólica baseada em interditos (como o incesto) e lugares fixos de parentesco. O pai, sendo aquele que dá nome ao filho e encarna a autoridade, será o representante da Lei. O Nome-do-Pai é o significante dessa função paterna, como uma chave que abre, ao sujeito, o acesso à estrutura simbólica e que lhe permitirá nomear seu desejo. Daí porque: "A função do pai é unir um desejo à Lei". Não é por outra razão que Lacan vê, no declínio da "imago" paterna, uma fonte privilegiada de neuroses contemporâneas. Vlademir Safatle

O que é a Segunda Clínica de Jacques Lacan?

No percurso de Lacan, encontramos duas clínicas. Elas são diferentes na forma de abordar os fenômenos clínicos, de trabalhar psicanaliticamente, de dirigir o tratamento e de formalizá-lo. Estabelecem relações complexas entre si. Nos anos 50, em seu retorno a Freud, Lacan fundou uma clínica estrutural, regida pelo simbólico, dirigida por um analista a quem cabia interpretar as formações do inconsciente e situar o sujeito no seu desejo. A clínica, edípica, se estruturava entre a neurose, a psicose e a perversão e, na sua vertente neurótica, o sintoma era concebido como uma mensagem a ser decifrada. Nos anos 70, Lacan foi além de Freud e estabeleceu as bases de uma clínica dos nós, pós-edípica, que privilegia a experiência do real. Numa época em que ‘o Outro não existe’, as estruturas clínicas resultam dos modos de amarração dos registros simbólico, imaginário e real e o sintoma é concebido como forma de satisfação. Na transferência, o analista opera de modo a modificar a relaç...

Saiu na Veja

Pesquisa consegue apagar memória ruim. Um estudo americano abriu caminho para que um dia seja possível apagar aquelas lembranças dolorosas que muitos carregam durante a vida. Em um experimento realizado com ratos, pesquisadores liderados por Joe Z. Tsien, do Colégio Médico da Geórgia, conseguiram eliminar memórias específicas de ratos, sem eliminar outras lembranças importantes para os roedores. O estudo foi publicado nesta quinta-feira na revista científica Neuron. Os cientistas descobriram que o excesso de uma proteína reguladora da memória, conhecida pela sigla αCaMKII, é capaz de eliminar lembranças no momento em que elas são resgatadas no cérebro. Com base nessa informação, os cientistas desenvolveram um rato transgênico e o submeteram a uma droga especial, que inunda o cérebro com a αCaMKII. Qualquer eventual memória que for lembrada neste momento, é imediatamente suprimida.

O que Lacan pensava de Lacan

"Bastam dez anos para que o que escrevo se torne claro a todos." Com essas palavras, Jacques Lacan (1901-81) encerrava em 1971 uma rara entrevista dada à televisão francesa. Mais de 35 anos se passaram e não podemos dizer que sua premonição tenha se realizado, embora ela contenha algo de verdadeiro. Pois mesmo que Lacan ainda seja um autor cujo estilo elíptico desconcerta e afasta, é certo que sua importância intelectual foi paulatinamente sendo reconhecida. Não se trata apenas de insistir aqui na relevância de suas posições no debate sobre a clínica psicanalítica nas últimas décadas. Trata-se de sublinhar como Lacan também se tornou um interlocutor privilegiado em reflexões contemporâneas sobre filosofia, teoria literária, crítica de arte, política e teoria social. Neste sentido, ele talvez tenha sido o único psicanalista, juntamente com Sigmund Freud (1856-1939), capaz de transformar sua obra em passagem obrigatória para aqueles cujas preocupações não se restringem apena...

A morte do Sujeito

Longe de engrossar o coro daqueles que defendiam a "morte do sujeito", Lacan sempre acreditou no caráter irredutível da subjetividade. A seu ver, a especificidade da psicanálise vinha exatamente da recusa em admitir que os fatos psíquicos fossem apenas resultados de descargas neuroniais ou distúrbios orgânicos. Mas, por outro lado, o sujeito lacaniano não guarda muitas semelhanças com seus antepassados modernos. Filho de um tempo que não acredita mais na transparência da consciência e na luz natural da razão, o sujeito lacaniano verá sua auto-identidade aparecer irremediavelmente despedaçada. Desprovido de vida interior e de profundidade psicológica, ele será como um personagem de "nouveau roman": vazio, impessoal e incapaz de se apropriar reflexivamente de sua própria história. A esse sujeito restará ser um movimento de fuga que não cessa de não se inscrever, tal como um sintoma que nunca se dissolve. Vladimir Safatle

O avesso da Psicanálise

A propósito do pai, as pessoas se julgam obrigadas a começar pela infância, pelas identificações, e isso é então algo que verdadeiramente pode chegar a uma extraordinária farfalhada, a uma estranha contradição. Falarão da identificação primária como aquela que liga a criança à mãe, e isto com efeito parece óbvio. Contudo, se nos reportarmos a Freud, a seu discurso de 1921 chamado Psicologia das massas e análise do eu , é precisamente a identificação ao pai que é dada como primária. É certamente bem estranho. Freud aponta ali que, de modo absolutamente primordial, o pai revela ser aquele que preside à primeiríssima identificação e nisso precisamente ele é, de maneira privilegiada, aquele que merece o amor. Jacques Lacan – Seminário 17 – o avesso da psicanálise

O avesso ... II

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O saber, isto é o que faz com que a vida se detenham em um certo limite em direção ao gozo. Pois o caminho para a morte - é disso que se trata, é um discurso sobre o masoquismo -, o caminho para a morte nada mais é do que aquilo que se chama gozo. Jacques Lacan, Seminário XVII - O avesso da psicanálise